A legítima autodefesa dos trabalhadores

Acho muito estranho a esquerda choramingar, em nome dos trabalhadores, por causa da violência que sofre da direita. Durante uma década a política do PT estendeu a mão às elites procurando construir um caminho de entendimento de classes, uma espécie de ganha-ganha, baseado no desenvolvimentismo e no consumo.

Como a teoria já indicava, comprovou-se que é difícil construir um entendimento entre as elites (e seus adeptos) e os trabalhadores, tendo como norte uma vida digna para todos. Os interesses são antagônicos e não complementares.

As elites são insaciáveis em seu desejo de acumulação de riquezas. Temem a própria democracia com receio de que esta possa pelas suas próprias regras, consolidar práticas que limitem sua ambição. A direita não reconhece limites que teriam que ser observados para viabilizar um entendimento com o andar de baixo, que permitisse vida digna a todos. O pressuposto da acumulação sem limites é a miséria sem limites dos outros.

O golpe de 2016 representa este momento de ruptura de um entendimento que procurava a duras penas ser construído. Pedaladas de Dilma, corrupção dos partidos e outras alegações são apenas manobras diversionistas. Da violência simbólica canalizada pela justiça, pelos meios parlamentares e midiáticos, passa-se agora à violência real – prisões arbitrárias, agressões físicas com pedras, ovos e finalmente tiros e assassinatos no campo e na cidade.

A centro-direita ou silencia ou culpa a própria esquerda. A direita ou cala ou culpa a própria esquerda: atuam portanto juntas e legitimam a violência real, da mesma forma que atuaram juntas na produção da violência simbólica promovendo o golpe.

Quem recusou a mão dos trabalhadores estendida para construir um acordo foi a direita. Quem ataca os trabalhadores na violência real das reformas econômicas e na agressão física são as mesmas forças. Quem polarizou o país ao sair da mesa de negociações foi a direita, seguida pela centro direita.

Neste quadro, não compete aos trabalhadores a culpa pela escalada de violências. Não compete aos trabalhadores clamar por democracia – agora totalmente desmoralizada – ou oferecer a outra face. Os trabalhadores agredidos têm direito à legítima autodefesa. A isto dá-se o nome de luta de classes – acirrada pela direita – na qual inevitavelmente os trabalhadores estão, voluntariamente ou não, envolvidos por serem os alvos diretos da violência organizada da direita. A esquerda não pode, simplesmente falando em nome dos trabalhadores, propor como saída única a paz ou ter como objetivo insistir em um prosseguimento de negociações que as elites não querem.

Neste ponto da construção desta argumentação é preciso evitar a saída fácil e dizer, de imediato, que não estamos propondo, aqui, que se parta para a revolução. Em geral é assim que a própria esquerda foge deste debate e dá por encerrada a discussão, desqualificando a argumentação. A direita foge de outra forma, dizendo que isso é incitação à violência – violência que ela mesma produz.

É preciso neste momento reafirmar o direito à legítima defesa que têm os trabalhadores ao serem sistematicamente agredidos de forma simbólica e real. Não são estes que devem se desculpar. Isto temos que dizer a cada trabalhador agredido para começo de conversa, esclarecendo a cada um onde está a violência e porque e contra quem ela foi desencadeada pelas forças de centro e de direita.

Tal posicionamento já tem em si mesmo a essência da luta neste momento e que na realidade não poderia ter sido deixado de lado pela esquerda nesta década em que se propôs a negociar: a classe trabalhadora quer a paz social, mas não abre mão de lutar para ter uma vida digna para todos. Isso ela se propõe como missão histórica e gostaria que sua realização fosse possível pela paz, mas ante a recusa das elites, não pode fugir à  luta, principalmente se provocada.

Neste contexto, fica claro que não são as eleições que devem guiar a linha principal de resposta dos trabalhadores, algo que a direita também desmoralizou, mas sim sua preparação e formação para a defesa enérgica e a concretização de sua missão histórica, deixando à direita a escolha do caminho: se pelo diálogo ou pelo enfrentamento.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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5 respostas para A legítima autodefesa dos trabalhadores

  1. Gostei muito! E é isso mesmo…os trabalhadores sofrem e estão sofrendo ainda mais. Como é difícil e triste ver na minha área (escola) tantas perdas e retrocesso.

  2. João Wanderley GEraldi disse:

    Concordo que a conciliação de classes somente é aceita pela elite quando a beneficia. Reduzido o tamanho do bolo, ela quer continuar com a mesma porção. Os erros da política de conciliação, no entanto, não justificam que a esquerda chame os trabalhadores para a luta contra a violência física que o nazi-fascismo brasileiro vem patrocinando. Esta luta se dá no campo da democracia burguesa, já que não se está convocando para uma revolução, como diz o texto! E se esta houver, a liberdade deverá acompanhar o que a revolução construir. Há que se aprender algo com a história do socialismo real… e não libertário ou democrático (e entenda-se o sentido desta palavra em sua etimologia, não no sentido que lhe deu a burguesia).

    • Ola Wanderley, obrigado pelo seu comentário. Pensei que estava sendo claro, mas vejo que não fui. Não estou propondo conclamar ninguém. Há várias formas de manifestações para além da resposta física a neonazistas e é nelas que devemos nos fixar (por exemplo, greves, manifestações, votar nas eleições na esquerda, etc…) Mas é preciso que se prepare e forme e não apenas que se participe de eleições. Abandonamos as tarefas de formação.
      Quanto à discussão sobre socialismo real ou não, não creio que ganhemos muito com isso neste momento em que nem mesmo temos força para defender a conciliação. Para tal, teríamos que discutir a natureza do estado socialista e do estado burguês. E essa é uma discussão que escapa aos objetivos deste blog. Abraço. Luiz.

      • João Wanderley GEraldi disse:

        OK. A questão é que pareceu, no texto, que você achava que a esquerda não tinha o direito de chamar os trabalhadores para fazerem precisamente o que, agora, você diz que devemos fazer!!! A autodefesa defendida pareceu uma defesa de que não têm razão quem convoca trabalhadores para a defesa da democracia neste momento. Foi minha leitura de seu texto, certamente uma má leitura! Quanto à necessidade de continuar a formação, minha crítica é mais radical ainda: no governo, o PT não só se preocupou com formação, mas também rifou toda sua militância, que dispensou… basta lembrar a campanha da reeleição de Lula: sem militantes, só gente paga desfraldando bandeiras nas esquinas, sem qualquer formação política. Uma eleição sem formação política é uma farsa, mesmo que os resultados nos sejam favoráveis… Foi por isso que saí do PT em 2004.

      • É isso que procurava apontar. A direita forma quadros jovens desde o final da segunda guerra nos Estados Unidos e os planta pelo mundo na expectativa de que brotem. Mclean descreve este processo com muita clareza. Abraço. Luiz.

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