Educação Integral: ficando com os “melhores”

Os processos de melhoria da qualidade da educação impostos pela reforma empresarial da educação, quando funcionam, o fazem à custa do aumento da segregação escolar. Os constantes resultados da implantação de vouchers seja no Chile, seja nos Estados Unidos (ver seção Links e Resultados neste Blog) indicam isso. Eduardo Girotto e Fernando Cássio demonstram esta tese no Programa de Ensino Integral da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, com as escolas da Cidade de São  Paulo.

Criado em 2012, o Programa Ensino Integral (PEI) faz parte do “Programa Educação— Compromisso de São Paulo”, instituído em 2011 com um grupo de 15 ONGs lideradas pela ONG Parceiros da Educação, e que tem como principal objetivo, segundo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), lançar as bases de um novo modelo de escola e de um regime mais atrativo na carreira do magistério. Em 2017, 308 unidades escolares da rede estadual faziam parte do Programa, 50 delas na cidade de São Paulo.

Entre os diferenciais do Programa, destacam-se: 1) jornada integral de alunos, com currículo integralizado, matriz flexível e diversificada; 2) escola alinhada com a realidade do jovem, preparando os alunos para realizar seu Projeto de Vida e ser protagonista de sua formação; 3) infraestrutura com salas temáticas, sala de leitura, laboratórios de ciências e de informática e; 4) professores e demais educadores em Regime de Dedicação Plena e Integral à unidade escolar. O programa foi implementado em São Paulo a partir do modelo de educação integral do Estado de Pernambuco, elaborado em parceria com o Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE) em expansão em outros estados do nordeste. O financiamento envolve aportes empresariais.

Girotto, E. D., & Cássio, F. L. (2018). A desigualdade é a meta: Implicações socioespaciais do Programa Ensino Integral na cidade de São Paulo. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 26(109).

Acesse aqui.

“Resumo: Este artigo propõe uma análise do Programa Ensino Integral (PEI), implantado na rede estadual de São Paulo (Brasil), do ponto de vista da dinâmica da produção das desigualdades socioespacial e educacional. No caso em tela, investigamos o papel da política pública de educação, sob a lógica da Nova Gestão Pública, como indutora e reprodutora de desigualdades. Os resultados sugerem que o PEI se baseia numa lógica insularizante, produzindo unidades escolares destinadas a alunos já privilegiados em suas relações com a cidade.

Além disso, a implantação do Programa tem provocado efluxo de matrículas, com efeito positivo no nível socioeconômico (NSE) das escolas PEI e nos seus resultados nas avaliações em larga escala. Tal efeito é contrabalançado pelo efeito negativo nas unidades escolares no entorno das escolas PEI, em que se observou diminuição da quantidade de estudantes com NSE mais elevado.

Além disso, as escolas PEI, comparadas às escolas do entorno e à própria rede estadual paulista, possuem menos classes e matrículas. São escolas para poucos: os estudantes de maior NSE da rede estadual. Nessas escolas também se observa a preferência por uma organização e ciclo único, o que coloca o PEI na mesma linha da polêmica proposta de Reorganização Escolar de 2015.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 respostas para Educação Integral: ficando com os “melhores”

  1. Lucimara Del Pozzo Basso disse:

    Olá Luiz Carlos Freitas,
    No texto o nome correto do pesquisador é Fernando Cássio e não Francisco, correto?

  2. Analise de dados brilhante dos autores!

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