A transição na Educação: crítica da crítica

O professor Fernando Cassio prestou um benefício à  Educação brasileira ao chamar nossa atenção para a composição da reunião do GT de transição da educação do governo Lula. Sintomas na mesma direção estavam também presentes no interior das entidades educacionais que, ao serem afastadas do início do processo, ficaram sem informação procurando entender o que estava em curso. Depois de Cassio, outros atores (Jornal Pensar a Educação; pesquisadores da área; Ratier; Pretto e eu mesmo) repercutiram o fato.

Como era de se esperar, não tardou para aparecerem os que consideraram a divulgação e as críticas inadequadas e precipitadas. Teríamos outras reuniões foi a justificativa. No meu caso, a crítica, além disso, envolveu acusações de ter “desespero por protagonismo” e outras reprimendas do tipo: “Mas para que precisamos de inimigos se já temos fogo amigo dessa intensidade? Perseverem. E capaz de conseguirem impedir a posse do Lula.” E por aí vai.

No meu caso específico, sou um crítico da pauta educacional do PT desde os tempos em que ele já era governo. Temos coincidências, mas temos divergências. Este Blog testemunha isso, basta consultar. Portanto, não é algo de ocasião. E sei lidar bem com este discurso chantagista que quer calar a crítica sugerindo responsabilizar a crítica pelo desastre, não vendo nela um desejo de contribuir para o sucesso.

Com Cassio parece não ter sido diferente. Diz ele em reação: “A agenda educacional das elites é prosseguir de onde pararam com Temer. E nós? Vamos seguir repetindo que “agora não é hora para criticar?

Leia aqui.

Para mitigar os vínculos de parte dos presentes à reunião com entidades empresariais, Haddad em entrevista à CNN diz: “Aqui as pessoas foram convidadas a título pessoal, indicando os temas de maior preocupação.” E continua: “na próxima semana um grupo estará em Brasília para receber as contribuições das entidades ligadas à educação, que terão a chance de apresentar suas observações específicas.

Leia aqui.

Ou seja, o que temos aqui é o velho modelo do “todos pela educação” baseado na parceria público-privada para lidar com a educação. A primeira reunião não teria incluído as entidades ligadas à educação, porque ainda não era o momento delas. Era o momento de rearticular os ex-participantes de governos anteriores que já conhecem o MEC e de ouvir o setor privado, ou seja, seus instrumentos ideológicos que configuram um amplo leque de tipos de ONGs e Fundações. Mas não pelo CNPJ, pelo CPF dos participantes e simpatizantes destas.

Mas não sejamos ingenuos. Este processo está delineando também os futuros compromissos e ocupantes dos vários postos no MEC e organizações correlatas. Se, por um lado, isso é normal e necessário, pois dentro de dois meses há que se manter em funcionamento a estrutura do Estado, por outro, a escolha das pessoas tem que ser feita em função da política educacional que se visualiza. É claro, então, que a política não pode ficar para ser discutida depois, quando já tivermos ministro e demais postos indicados.

E o fato é que este acontecimento já revela a visão desta abordagem: a educação é vista como um assunto de e para todos que tiverem interesse. O que é bem conveniente às teses da reforma empresarial da educação que precisa manter o pé na canoa e diz respeito à sobrevivência do setor privado educacional durante o governo Lula – inclusive no MEC e no Conselho Nacional de Educação (onde já está).

Então, antes das eleições não era para criticar. Depois, também não, é muito cedo. Além disso, a crítica “faz o jogo da direita”. A mensagem é clara: critiquem quando avançarmos mais. Só que, neste momento, as decisões podem estar tomadas e sermos objeto de nova crítica: mas porque não criticaram antes?

O destino da educação sob o governo Lula está sendo decidido agora e não depois que o nome do futuro ministro e das demais secretarias do MEC sejam divulgados em dezembro.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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5 respostas para A transição na Educação: crítica da crítica

  1. José Claudinei Lombardi disse:

    Luís Carlos,
    Suas observações estão corretas. Apesar do apoio a candidatura Lula e desejos para consiga impor uma pauta democrática, sabemos que será um novo governo de conciliação de classes, ainda mais a direita do que já foi. Continuamos lutando em defesa da educação pública, gratuita, laica e de qualidade para todos.

  2. Thomas disse:

    Que o Lula não pactue de novo com os privatistas da educação, como fez com o seu ministro, Walfrido dos Mares Guia, que resultou numa enorme quantidade de analfabetos diplomados.

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