Big Data de alunos: o que não se diz

Dia 17-4-2014 matéria publicada no PORVIR (site mantido pela Inspirare) apresenta o lado pedagógico dos Big Datas de alunos nos Estados Unidos com o título: “Big Data leva o ensino personalizado a mais alunos”. Haveria um uso pedagógico para tais dados:

“Cada pessoa aprende de forma diferente e a personalização do ensino tem sido apontada como uma das formas mais eficientes de garantir o aprendizado dos alunos. Mas identificar as variáveis que influenciam cada um não é uma tarefa fácil, principalmente em grande escala. Os dados recolhidos sobre os estudantes em ferramentas de aprendizado, formulários online preenchidos por eles e outras plataformas podem ser justamente a solução para esse dilema.”

Conclusão sugerida: para o bem dos alunos, devemos imitar os Estados Unidos e tê-los também. Por isso, em seguida, fala-se de experiências americanas sobre a criação destes Big Datas que incluem dados detalhados dos estudantes armazenados em grandes bases para que se faça uso deles, leia-se, alguém ganhe dinheiro com “mineração de dados”. Bases de dados brutas não servem para nada. Basta ver o site do INEP com os dados das provas que ele realiza. Se não houver tratamento e refinamento de dados, não se pode fazer uso deles. Quem fará isso? Mas não é só. A própria matéria não pode deixar, ao final, de tocar timidamente no ponto crucial destes Big Datas:

“Questões legais e éticas sobre como disponibilizar os dados dos alunos para terceiros também entram na discussão sobre o ensino personalizado em escala, dificultando o desenvolvimento de plataformas. Enquanto isso, empresas como Declara e Bright Bytes experimentam plataformas de ensino personalizado e adaptativo na formação de professores.”

A matéria não aborda quem são estes “terceiros que teriam acesso aos dados dos estudantes”, mas é fácil imaginar, as grandes produtoras de apostilas, exames e assessoramento.

Além disso, futuros empregadores dos estudantes poderiam também acessar tais dados, por que não? Vale dizer que os estudantes estariam com suas vidas futuras definidas a partir de grandes bases de dados com as quais se poderia traçar perfis dos estudantes, através de ferramentas complementares. Os melhores serão rastreados e detalhes da vida pregressa de outros podem definir seu emprego.

Prevendo que a novidade chegaria por aqui, já tratamos desta matéria antes em janeiro deste ano. A Folha de São Paulo tratou do tema recentemente também: “”Big data” é uma mentalidade, não é algo definido pelo volume de informações ou pelas ferramentas que você usa. É transformar dados em decisões.” Ao final da reportagem o entrevistado alerta:

“Se dados caem em mãos erradas, pessoas podem morrer. Pense na Alemanha, onde as pessoas são muito preocupadas com sigilo. Hitler matou milhões de judeus sem ter computadores. O que ele poderia fazer agora se soubesse por geolocalização quem vai à sinagoga?”

O que o site Porvir não se diz é que estas experiências estão sob fogo cruzado nos Estados Unidos e a maior delas, a InBloom, financiado por Bill Gates a um custo de 100 milhões de dólares acaba de fazer água sem sucesso.

“Um controverso projeto de 100 milhões de dólares para coleta de dados de estudante financiado pela Fundação Gates e operado por uma organização sem fins lucrativos criada especialmente para isto chamada inBloom está sendo descontinuado depois de não conseguir atingir os seus objetivos.”

“Depois que a maioria dos parceiros estaduais originais retiraram seu apoio, a gota d’água foi a recente decisão do Legislativo estadual de Nova York de parar a participação em qualquer projeto que envolve dados dos alunos que são armazenados na forma que a inBloom estava planejando. Os dados deveriam ser armazenados em nuvem e conteria dados incrivelmente detalhados sobre milhões de crianças em idade escolar com a missão declarada de permitir que os funcionários da educação usassem as informações para planejar seu apoio educacional.”

“Ativistas liderados por Leonie Haimson de Nova York, diretor da Classe Size Matters, bem como educadores e pais levantaram alertas de que não havia nenhuma garantia de que a informação pudesse ser armazenada de forma segura com uma garantia de 100 por cento e que uma grande quantidade de dados que estão sendo coletados são muito pessoais. Houve também a preocupação de que terceiros pudessem acessar informações particulares dos alunos embora funcionários inBloom tenham negado.”

Como o mercado só conhece a “ética” do lucro, é preciso que fiquemos atentos para não comprarmos por aqui o que não está sendo aceito por lá… Causa preocupação também que o INEP tenha fechado acordo com entidades privadas para fazer os dados das avaliações chegarem até as escolas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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