Educação e competitividade

Em agosto de 2013 a OCDE divulgou relatório sobre os atuais países considerados emergentes. Segundo ela, estes (Brasil, Russia, China, Índia) perderam fôlego e o ritmo de crescimento está desacelerado na maior parte dos países emergentes – menos na Índia.

Uma seguradora francesa chamada Conface, do grupo Natixis, banco de investimento francês, decidiu que agora teremos os neoemergentes: um grupo de países chamado PPICS (composto por Peru (média no PISA 2012 em matemática 368; leitura 384; ciências 373), Filipinas (não participa do PISA), Indonésia (matemática 375; leitura 396; ciências 382), Colômbia (matemática 376; leitura 403; ciências 399) e Sri Lanka (não participa do PISA). Segundo a análise todos têm elevado potencial de crescimento, superior a 4% e alguma resistência a choques – além do sistema financeiro em bom estado.

Há também uma outra lista a dos MINT e que inclui México (média no PISA 2012 em matemática 413; leitura 424; ciências 415), Indonésia (penúltima colocada no PISA), Nigéria (não participa do PISA) e Turquia (matemática 448; leitura 475; ciências 463), feita pela MSCI, uma sociedade de investimentos.

Dos candidatos a neoemergentes ninguém está na média do PISA (500), todos estão abaixo. Colômbia é a última colocada no PISA 2012 antecedida pela Indonésia que é a penúltima colocada no ranking. Apenas México e Turquia estão acima do Brasil, mas ainda abaixo da média.

Estes dados são importantes para entendermos que a tão alardeada competitividade internacional tem outros elementos e não depende só da educação. Chile, por exemplo, que está acima do Brasil não é candidato a neoemergente. Isso deve ser lembrado quando disserem que o Brasil está perdendo a posição de emergente (o que é ainda duvidoso) por causa da qualidade da educação.

Embora a questão da educação não deva ser desconsiderada, não é condição fundante da posição de emergente ou neoemergente. Ou a Austrália que está acima da média do PISA deveria estar entre os candidatos a neoemergentes.

Portanto, devemos exigir um pouco mais daqueles que têm o discurso pronto da garantia da competitividade internacional através da educação. De fato, os empresários sabem que a competividade internacional é algo mais complexo e depende muito mais de inovação científica. Contraditoriamente, inovação não se desenvolve só com leitura e matemática ou com apostilamento das redes, ou seja, a política educacional dos empresários não está focada na geração de inovação, já que focar em leitura, ciências e matemática estreita o currículo e faz com que a escola não desenvolva uma matriz formativa mais alargada que inclua a criatividade. Sem exercitação da criatividade (desde os níveis mais elementares de ensino e não apenas nos laboratórios de ciências do ensino médio ou das Universidades) e habilidades interpessoais, não há inovação. Isso deveria, por si, causar alguma indagação dos políticos brasileiros no poder.

Pode-se dizer, então, que estão certos os que assinaram manifesto questionando o papel que o PISA está jogando na educação dos países que fazem o teste. Entre eles, o mais danoso: o estreitamento curricular que o PISA gera em leitura, matemática e ciências, produzindo uma eliminação ou secundarização das artes e das ciências humanas, sem as quais não se desenvolve criatividade e inovação.

Isso é corroborado por Levin:

“Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”

Como afirma Ravitch:

“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro” Veja aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Pisa, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para Educação e competitividade

  1. GERALDO ANTONIO BETINI disse:

    Concordo plenamente que a educaçao nao é determinante do crescimento e desenvolvimento econômico, mas sim determinada por eles. Quanto ao empresáriado enfocar a melhoria da qualidade em matemática, leitura e ciencias, nao se preocupando com inovaçao e criatividade, estáo pensando apenas na formaçao do exercito de reserva da mao de obra que se dá, principalmente, nas escolas publicas do ensino fundamental. Em relaçao a inovaçao e criatividade, segundo os empresários, penso eu, essas habilidades se desenvolverão no ensino superior, em cursos de especilaizações, mestrado, doutorado por meio dos alunos egressos da ensino privado.

  2. Bem lembrado. Para o capital, a educação é sempre dual: uma trilha vai do ensino fundamental e termina no ensino médio profissionalizante (Pronatec, por exemplo); a outra vai do ensino fundamental para a Universidade. A primeira trilha é para formação de trabalhadores técnicos. A segunda é para os que vão administrar e criar. Esta é a lógica. No entanto, a lógica do pagamento da universidade oficializa esta dualidade do sistema. E de certa forma, mantém tal dualidade pois ao ser paga, a universidade preserva seu elitismo, mesmo com os financiamentos disponíveis para quem não pode pagar.

  3. GERALDO ANTONIO BETINI disse:

    Coorigindo o que mandei antes. Isso mesmo Luiz Carlos, seus comentários complementam as minhas refexões.

  4. fabío galvao disse:

    Enquanto a academia não se une, os reformadores vão comandando a debate na mídia sobre a construção do currículo único nacional. Pesos pesados da educação visitaram o jornal Folha de S.Paulo, dia 3/7: Alice Ribeiro (coordenadora do projeto Gente, da secretaria municipal de educação do Rio, com apoio da Microsoft – estará no MEC na próxima semana, segundo o Estadão), Anna Helena Altenfelder (CENPEC, ong de Maria Alice Setúbal, herdeira do Itaú), Denis Mizne (Fundação Lemann, de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil), Leão Serva (ex-assessor de imprensa do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab), Maria Helena Guimarães de Castro (coordenadora do programa de Educação do candidato do PSDB à presidência Aécio Neves) e Paula Louzano, da ONG Base Nacional Comum (nome que vem sendo usado para definir o currículo nacional da educação básica).

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