A correção das provas no ENEM

Matéria do Estadão, obtida pela lei de informação, revela dados sobre o número de corretores de redação que trabalham no ENEM. Segundo os dados fornecidos os corretores são monitorados constantemente e são avaliados pelo seu trabalho. Quando a sua nota, como corretor, é menor que 5, eles são trocados; quando está entre 5 e 7, entram em recuperação. A última edição do ENEM reprovou 12% dos corretores – mais do que anos anteriores. Segundo o INEP, a instituição ficou mais exigente.

Veja matéria aqui.

Mas, cabe perguntar, e quando o INEP era menos exigente, alguém foi prejudicado? Em certas profissões, a disputa no vestibular é por centésimos e o ENEM é chave.

É por isso que os especialistas em avaliação não recomendam que se decida sobre a vida das pessoas a partir de uma única avaliação pontual. Elas são falhas em vários aspectos, não só na correção. Que os técnicos consigam conhecer as falhas, não significa que as eliminam. Elas são apenas mantidas entre margens de tolerância. Mas tolerância para quem? Certamente não para o aluno que foi prejudicado.

Uma discrepância entre os dois corretores de uma prova em 100 pontos, considerada normal hoje pelo INEP, quanto impacta a nota de um estudante? Se a prova não tem alto impacto na vida do aluno, isso poderia até ser aceito. Mas, se tem, como é o caso do ENEM, não importa se falamos de um ou de mais de um estudante – para ele isso foi fundamental na sua vida. Margens de segurança não consolam o estudante que ficou sem vaga na Universidade por conta de centésimos no ranqueamento.

Os corretores são comandados por coordenadores e supervisores que monitoram se as notas são muito altas ou muito baixas e se há lentidão na correção.

“Eu vou citar a Bíblia: “pelos teus frutos te conhecerei”. Eu só posso saber se você corrige bem se você me mostrou corrigindo redações e produziu resultados adequados”, disse o presidente do INEP José Francisco Soares.”

A propósito desta objetividade, vale a pena ler o livro de Farley que mencionamos em outro post. Segundo o autor:

“…se você conhecesse o que eu conheço sobre esta indústria, você ficaria horrorizado com a ideia de um teste padronizado ser um fator decisivo no futuro de até mesmo um único estudante, professor, distrito ou estado. Eu, pessoalmente, fico absolutamente perplexo com esta possibilidade. A ideia dos formuladores de política de ignorar as avaliações dos professores nas salas de aula, os quais passam dias com seus alunos nos distritos, e ouvir a opinião de alguma indústria de teste (frequentemente empresas “lucrativas”) distante em um estado é, em minha opinião, estupidez. É jocoso.“

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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