IDEB: pode ser pior do que parece

Se a situação da educação brasileira estiver de fato retratada nos índices do IDEB de 2014, ela pode ser pior do que parece.

O IDEB é uma medida problemática, pois mistura fluxo com desempenho, é uma prova pontual onde uma sala de aula pode ser incluída no teste com apenas 50% da presença dos estudantes no dia da prova, não divulga índices de confiabilidade e nem relatório decente tem etc.

Embalados pelas teorias de responsabilização que apostaram que “só de haver medição nas escolas” já haveria melhoria, deixamos de colocar a atenção nos fatores intra-escolares (cerca de 20%) que têm impacto na aprendizagem, apesar do peso que os fatores extra-escolares jogam (até 60%). E quando o fizemos apelamos para processos de padronização metodológica (pressão por índices nas escolas, apostilas, simulados etc.) que podem produzir “voo de galinha” nos índices, mas sem sustentação a longo prazo.

Estamos forçando as escolas a colocar todo seu esforço na produção da nota do exame, como se nota alta no IDEB fosse sinônimo de boa educação. No entanto, o sistema pode estar entrando em exaustão, colocando as escolas e seus profissionais sob suspeita permanente, incentivando fraudes, treinando para responder a testes, inclusive porque o dado da nota em um exame está longe de conseguir explicar a realidade das escolas. A própria pressão sobre as escolas feita pelos estados com suas políticas de responsabilização tem seu limite na realidade concreta das escolas.

O link que segue mostra os dados do INEP (o que está em verde é o que está dentro da meta): ideb2014 .

Se observarmos a tendência de crescimento a cada edição do IDEB, veremos que ele está entrando em exaustão, ou seja, os acréscimos de nota entre anos estão sendo cada vez menores – e não apenas no ensino médio. No próximo IDEB esta tendência deverá estar mais clara. Na última edição, como apontamos na época, estava claro que o ensino médio não cumpriria as metas. Dissemos:

“No caso do fundamental I a situação é confortável pois já estamos com a meta para 2013 atingida que é de 4.7 pontos. Aqui, o que intriga é como um crescimento que já dura quase 10 anos não chega ao ensino fundamental II. Se os alunos há tempos estão aprendendo mais no fundamental I, porque quando mudam para o Fundamental II esta aprendizagem não aparece?

No caso do ensino médio a situação é pior que a do Fundamental II. Lá a velocidade de crescimento tem sido 0.1, mas em 2013 terá que agregar 0.2 pontos à nota de 2011 para atingir a meta. Mas desde 2005 ele não cresce mais que 0.1 em cada edição do Ideb.

Com mais escolas não atingindo a meta, com um déficit de nota acumulado a ser superado, se eu fosse o Ministro, comemorava menos… inclusive porque, se isso for verdade, esta situação vai explodir exatamente durante a campanha de 2014 para Presidente, quando se divulgar o IDEB de 2013.”

Estamos nos escorando no progresso do ensino fundamental dos anos iniciais – alteração que nem chegamos a entender bem, pois há mudanças na composição salarial da população brasileira que podem estar afetando tais ganhos. Como o INEP não possui série histórica de dados confiáveis sobre o nível socioeconômico dos alunos e nem os divulga, não se pode isolar efeitos de melhoria de renda sobre o desempenho dos alunos.

O fato é que nos anos iniciais vínhamos crescendo a 0,4 ao ano e em 2013 este crescimento caiu pela metade, ou seja, 0.2 – falo do IDEB total, incluídas todas as redes, mas não é diferente se isolarmos as públicas.

Portanto, embalados pelas necessidades políticas, está sendo desconsiderada uma queda de 50% no incremento ocorrido neste ano. Como atingimos a meta, isso não está sendo observado. A nosso ver, mesmo nas séries iniciais, é necessário cautela na comemoração. Se persistir esta tendência, logo poderemos estar abaixo da meta também nos anos iniciais.

O quadro abaixo mostra os incrementos em nota ocorridos entre 2005 e 2013, a cada edição do IDEB. Consideramos o ano 2005, crescimento zero pois foi a primeira medição do IDEB.

2005
2007
2009
2011
2013
Ideb Total 1 a 5 0 0,4 0,4 0,4 0,2
Pública 1 a 5 0 0,4 0,4 0,3 0,2
Privada 1 a 5 0 0,1 0,4 0,1 0,2
Ideb Total 6 a 9 0 0,3 0,2 0,1 0,1
Pública 6 a 9 0 0,3 0,2 0,2 0,1
Privada 6 a 9 0 0 0,1 0,1 -0,1
Ideb totalmédio 0 0,1 0,1 0,1 0
Pública médio 0 0,1 0,2 0 0
Privada médio 0 0 0 0,1 -0,3

Fica claro que está havendo uma desaceleração. Embora o que mais chame a atenção seja o ensino médio, o sistema inteiro está crescendo a um ritmo menor. Como os ganhos vão ficando menor e as metas continuam evoluindo, o buraco aumenta e as pernas encurtam.

Todo o sistema privado já está abaixo da meta em todos os anos escolares e em mais de uma edição do IDEB. Nas escolas públicas apenas as séries iniciais se sustentam nas metas.

Se for comprovada a tese da migração de alunos da escola pública para a privada para justificar a queda de desempenho das escolas privadas, teremos uma situação muito interessante na qual se constatará que a escola pública não é pior que a escola privada, quando esta última tem que acolher alunos equivalentes ao que a escola pública tem atualmente. Não deveremos estranhar, pois nem mesmo as escolas charters americanas têm resistido a esta comparação, ficando evidente lá que com alunos comparáveis, os dois sistemas tendem a trabalhar de maneira equivalente.

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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8 Responses to IDEB: pode ser pior do que parece

  1. Avatar de Tiago Onofre Tiago Onofre disse:

    Obrigado Professor por mais uma rica análise.

  2. Avatar de Samuel Samuel disse:

    Professor, tem um aluno difamando-o na comunidade da Unicamp. Enviei os screenshots para o seu e-mail do UOL, porém como não sei se ainda o utiliza, deixo o aviso aqui.

  3. Avatar de MARIZA FELIPPE MARIZA FELIPPE disse:

    Pois é professor, o ministro da educação tal qual o da época do primeiro IDEB , se apóia no ” mito da virtuosidade da avaliação “. Tenho a sensação que (in) felizmente a minha tese só se confirma.

  4. Acabo de receber por email a informação que a escola em que trabalho conseguiu um dos maiores IDEB do país. Pulou de 2,2 em 2011 para 4,2 no que acabou de sair. Assim como a informação da possibilidade do recebimento de bonificação por resultados.

    O secretário de educação do estado do RJ comemorou o resultado do IDEB, entretanto o que ele não menciona é que retirou parte considerável dos alunos com desasagem idade-série do ensino regular, colocando-os no chamado Projeto/Programa Autonomia (classes de aceleração) e que no último ano os professores foram surpreendidos no último conselho de classe do ano com a informação que algumas disciplinas como língua estrangeira não reprovariam. Além de se criar outros entraves para a reprovação de alunos, como a obrigação de ter que elaborar um plano de estudos detalhado e diferenciado para cada aluno que ficou em dependência.

    Juntando isto com a política de responsabilização, o sujeito obviamente alterou mecanicamente o fluxo escolar para que o índice subisse. E ainda tem coragem de comemorar isso.

    • Avatar de Luciana Luciana disse:

      Bom dia, me chamo Luciana e sou mestranda em educação. Pesquiso sobre como o Programa Autonomia responde a uma lógica mercadológica da educação. Recebi algumas críticas que elogiam como esse programa é mágico mas pouco falam sobre uma formação integral e sobre como esses alunos saem com um diploma de ensino médio mas dificilmente têm as mesmas perspectivas de um aluno do ensino médio regular. Gostaria de conversar como você.

  5. Avatar de luiz luiz disse:

    Professor, será que tem como seguir as postagens do senhor no facebook? A verdade é que o facebook é o principal canal de informação da maioria dos jovens e dos jovens adultos.

  6. Olá professor. O senhor acha correto levar em consideração o fluxo (evasão e retenção) em uma avaliação pedagógica?

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