USA: formação de professores sob ataque

O modelo de valor agregado amplamente questionado pela comunidade científica para avaliar o desempenho de professores nos Estados Unidos vai sendo ampliado, agora, naquele país, para avaliar as Faculdades que os formaram. O modelo avalia os professores individualmente a partir do resultado de testes aplicados aos estudantes do professor. Provocou reação contrária até da Associação Americana de Estatística. O que se pretende nesta nova fase é que o resultado dos testes padronizados dos alunos de um professor seja usado para avaliar a Faculdade na qual o professor foi formado.

Nova legislação está em estudo pelo Ministério da Educação americano e deve ser implantada ainda este semestre.

No Brasil, Haddad propôs fazer provas nacionais de ingresso docente e a partir daí influenciar a proposta curricular das Faculdades com os resultados de seus ex-alunos nas provas nacionais. Cid Gomes já está indo mais longe e sugerindo usar as provas nacionais como certificação docente, ou como ele diz, “porta de entrada da profissão”.

A proposta do governo americano foi revisada pelo National Education Policy Center e suas conclusões se aplicam aos movimentos que estamos observando também no Brasil.

Regulamentos Federais propostos provavelmente prejudicarão a Educação

Regulamentação sem base em evidência científica impõe custos desnecessários à formação de professores, é susceptível de asfixiar o ingresso na educação, e pode desencorajar recrutamento de professores para trabalhar com alunos de maior necessidade

 BOULDER, CO (12 de janeiro de 2015) – Propostas recentes de regulamentos federais que imporiam novas obrigações aos programas de formação de professores são susceptíveis de prejudicar, em vez de ajudar, os esforços para melhorar os resultados escolares, de acordo com uma nova revisão publicada hoje.

Os projetos de regulamentação foram revistos por Kevin K. Kumashiro, decano da Faculdade de Educação da Universidade de San Francisco.

Dr. Kumashiro é autor ou editor de 10 livros sobre educação e justiça social, incluindo “Bad Teacher!: How Blaming Teachers Distorts the Bigger Picture”.

Kumashiro examinou a proposta elaborada nos termos do Título II da Lei de Ensino Superior, que o Departamento de Educação dos EUA lançou em 3 de dezembro de 2014. O Departamento de Educação estabeleceu um prazo até 02 de fevereiro de 2015, para comentários públicos sobre os regulamentos.

O projeto de proposta, Kumashiro explica em sua avaliação, enumera uma série de regulamentos que seriam determinados pelo governo federal e seriam obrigatórios para os estados individualmente. Os regulamentos exigem que os estados avaliem todos os programas de formação de professores anualmente e classifique-os como “excepcional”, “eficaz”, “em risco”, ou “de baixo desempenho”, baseado em grande parte, numa abordagem de responsabilização com base na atribuição de pontuação aos professores a partir dos ganhos de pontuação dos seus alunos em testes e, em seguida, propõem atribuir essa pontuação dos professores para os programas que formaram estes professores.

Os regulamentos também exigiriam dos estados prestar assistência técnica aos programas com classificação de “baixo desempenho”, e esses programas correriam o risco de perder o credenciamento do Estado, seu financiamento e ajuda financeira federal para seus alunos.

Em sua avaliação, Kumashiro aponta para uma série de “preocupações políticas vitais” levantadas pelos regulamentos propostos. Eles incluem:

  • Eles subestimam os custos e encargos de sua implementação, o que Kumashiro aponta como sendo não só “muito altos”, mas também “desnecessários”.
  • Sem nenhum fundamento em evidência, tais regulamentos culpam os professores individualmente – ao invés de causas sistêmicas de fundo – pelo fosso que separa os resultados educacionais dos estudantes ricos e brancos dos de estudantes economicamente desfavorecidos e pertencentes a grupos minoritários raciais.
  • Eles se apoiam em uma definição “indevidamente estreita” do que significa para os professores estar pronto para ensinar.
  • Eles se baseiam na prestação de contas baseadas em testes e mensuração de valor agregado de professores para analisar o desempenho do professor – mesmo quando essas medidas e ferramentas foram “cientificamente desacreditadas.”
  • Eles têm como premissa explicações imprecisas para as causas do desempenho dos alunos e o insucesso escolar, e como consequência vão desencorajar os professores a trabalhar em escolas com alunos de maior necessidade.
  • Eles provavelmente vão limitar o acesso à profissão docente, especialmente para os futuros professores de cor e de renda mais baixa, por asfixia da ajuda financeira federal.

Finalmente, Kumashiro adverte que os regulamentos propostos estão enraizados em “uma visão injustificada, estreita, e prejudicial das próprias finalidades da educação.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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