Desmistificando rankings internacionais

Um novo estudo divulgado em Janeiro de 2015 analisa os rankings do PISA e em especial a posição americana neste exame. Importante destacar neste estudo os limites que são encontrados no modelo de avaliação do PISA e que afetam todos os países participantes do mesmo. Valem para nós.

Contrariamente ao que se vê em outros países, alguns intelectuais brasileiros ainda têm complexo de inferioridade e sentem dificuldade para questionar resultados da OCDE: acreditam que os resultados da OCDE sejam uma referência segura e acham mesmo que eles são apenas “mensageiros dos nossos problemas” não devendo ser questionados.

Abaixo segue uma listagem de 10 destes problemas na visão de James Harvey no blog de Valerie Strauss. Em tempos de aumento dos amores do MEC pelas avaliações, é bom termos presentes tais limites, os quais são ocultados para alimentar um permanente ataque à educação pública.

O relatório teve por base o estudo de James Harvey, o qual resumiu seus achados para o blog de Valerie Strauss. Entre os limites apontados destaco:

1. Estas avaliações nunca foram destinadas a alinhar e classificar as nações umas contra as outras como em uma tabela de beisebol.

Isto é certo. Os estatísticos e psicometristas que desenvolveram estas avaliações há 50 anos declararam explicitamente que a questão de saber se “as crianças de um país X [são] mais instruídas do que as do país Y” era “uma falsa questão”, devido às inúmeras diferenças sociais, culturais e econômicas entre as nações. Mas, hey, isso é apenas um detalhe.

  1. A “média internacional” [em um ranking] não é o que você pensa que é. Não é uma média ponderada de todos os alunos do mundo, mas, a média das médias nacionais.

Isso significa que, ao se calcular a “média internacional”, os 5.600 alunos em Lichtenstein, os 700.000 alunos na Irlanda, os 860.000 na Finlândia, os 5 milhões no Canadá, ou os 14 milhões do Japão possuem exatamente o mesmo peso que os 56 milhões de estudantes nos Estados Unidos.

  1. Estas avaliações comparam maçãs com laranjas.

Você acha que há alguma coisa para ser aprendida com a comparação entre o desempenho médio de 5.600 alunos brancos ricos em Lichtenstein com os 56 milhões de estudantes diversos nos Estados Unidos? Realmente? Ou ainda com a comparação de nossos alunos com os alunos em ditaduras corruptas como a do Cazaquistão, monarquias religiosas como o Qatar, ou a cidade mais rica da China (Shanghai) depois de ter conduzido os filhos de migrantes de baixa renda de volta para suas províncias de origem? Como um relatório divulgado em Janeiro pela Horace Mann League e a National Superintendents Roundtable, “School Performance in Context: The Iceberg Effect,” deixou claro, estas são apenas algumas das comparações peculiares que estão por trás desses resultados de avaliação internacionais.

  1. A precisão das amostras nacionais varia de questionável até abominável.

O estudo também chama a atenção para as dificuldades de se combinar amostras comparáveis e precisas nas dezenas de nações que participam nestes estudos. Dois analistas, Martin Carnoy de Stanford e Richard Rothstein do Instituto de Política Econômica, examinaram uma amostra de estudantes norte-americanos no PISA e acharam que era deficiente em vários aspectos, incluindo uma sobre-estimativa do número de alunos de áreas urbanas de baixa renda e uma sub-estimativa do número de alunos rurais de baixa renda. Esse erro sozinho, pensam Carnoy e Epstein, baixou a média dos EUA em 1 ou 2 pontos. No outro extremo do espectro, encontramos o PISA de Shanghai o sistema escolar No. 1, que os estudiosos asiáticos descrevem como “um sistema de apartheid”, porque exclui sistematicamente crianças migrantes de baixa renda. Funcionários da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE -, que patrocinam o PISA, no ano passado reconheceram ante um inquérito na Câmara dos Comuns britânica que eles haviam esquecido de alguma forma, pelo menos, 27 por cento de potenciais estudantes em Xangai.

  1. As tabelas de corridas ignoram as diferenças de pobreza, a desigualdade e a tensão social entre as nações.

Cinqüenta anos de pesquisa nos Estados Unidos e no exterior documentam uma correlação forte entre o baixo desempenho dos alunos e a pobreza e desvantagem social. No entanto, os relatórios sobre essas avaliações internacionais fecham os olhos sobre as implicações destas pesquisas. Os dados são claros: as taxas de pobreza entre os estudantes americanos são cinco vezes mais elevadas do que na Finlândia.”

O estudo ainda examina outros limites como:

  1. Os relatórios de avaliação agem como se o apoio social para as famílias fosse consistente e uniforme entre as dezenas de nações.
  2. Os resultados da avaliação para crianças do ensino fundamental são constantemente ignorados ou sub-relatados.
  3. Os resultados da avaliação para jovens de 15 anos são tratados como se 15 anos marcasse o fim da linha educacional.
  4. Não existem resultados de avaliação comparando o desempenho dos concluintes do ensino médio entre todas as nações.
  5. Os Estados Unidos têm a população adulta mais culta do mundo em termos de anos de estudo concluídos e posse de diplomas do ensino médio e diploma universitário.

O resumo termina afirmando que estes limites não significam que a educação americana não tenha problemas.

Leia o resumo de James Harvey completo aqui.

O resumo executivo da pesquisa pode ser encontrado aqui.

O estudo completo pode ser acessado aqui e foi conduzido pela “The Horace Mann League of the U.S.A” e a “National Superintendents Roundtable”.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Pisa, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Desmistificando rankings internacionais

  1. Pingback: DESMISTIFICANDO RANKINGS INTERNACIONAIS | Grupo de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

  2. Zaia Brandao disse:

    Luiz Carlos Freitas, sempre tive admiração pela sua luta contra os mitos e possibilidades daas avaliações. Gostei muito de ler seus comentários e vou divulgar. Zaia Brandão PUC-Rio.

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