Escolas terceirizadas para a PM

Temos 93 escolas no Brasil terceirizadas para a PM com liberdade inclusive para pedir dinheiro aos pais dos estudantes. Até o final do ano poderão ser 109. Isso está acontecendo agora, não é futurologia. Outras 24 deverão ser ainda entregues para a administração da corporação. Como sempre, Goias e Minas, administrados pelo PSDB são campeões na iniciativa. Goiás com 26 escolas já implantadas.

Nestas escolas os alunos têm de comprar farda, prestar continência e se chamam por “senhor” e “senhora”. É passível de ser punido o aluno com alguma negligência no campo da higiene pessoal. Ou seja, foram transformadas em um quartel e não em uma escola. Há professores da PM, mas a maioria é de civis. Os diretores pertencem à corporação. Como sempre acontece nestas iniciativas, estudantes que se destacam ganham condecorações, e quem não se adapta é transferido.

A reportagem sobre a matéria diz:

“Mascar chiclete é transgressão leve. Usar óculos com lentes ou armações de “cores esdrúxulas” também, segundo o regulamento disciplinar dos colégios da Polícia Militar de Goiás. São transgressões médias: sentar-se no chão fardado, espalhar boatos, deixar de prestar continência ou de cortar o cabelo no estilo escovinha.

Já “manter contato físico que denote envolvimento amoroso” (beijar) ou se meter em rixa são faltas graves. O aluno perde pontos a cada quebra de regra. Quem não se adéqua é transferido.”

A PM dá a farda para os estudantes em alguns casos, em outros não e o custo varia de R$ 400 a R$ 700. Os pais pagam ainda mensalidades (de R$ 80 a R$ 110), que não são obrigatórias.

“Para não desfalcar o efetivo, a PM recorre a oficiais da reserva, que ganham adicional. Os docentes são civis – em outros Estados, alguns são militares – e ganham bônus de produtividade.”

Os defensores argumentam que o IDEB e o ENEM são bons. Novamente comparações indevidas. Citar o IDEB ou ENEM para justificar ações de intervenção nas escolas públicas é duplamente equivocado pois, primeiro, os fins não justificam os meios e segundo, para poder comparar escolas é preciso muito mais do que simplesmente emparelhar duas médias de desempenho escolar e ver qual é a maior.

No caso das escolas públicas que estão sob intervenção da PM em Goiás esta tem sido a “metodologia” para declarar a superioridade das escolas terceirizadas para a PM.

Veja matéria completa aqui.

No entanto, para poder comparar escolas seria necessário entre outras coisas, conhecer o nível socioeconômico das escolas envolvidas, ou seja, sua composição social, como também conhecer qual é o volume de transferências de alunos nas escolas. Em geral este é um truque muito conhecido. Primeiro, instituem-se regras duras que aterrorizam e colocam a família como fator de pressão sobre as crianças para que obedeçam e não sejam transferidas; segundo os que têm maior dificuldade de aprendizagem são os candidatos a problemas disciplinares, portanto, se transfiro os alunos que têm problemas disciplinares, provavelmente me livre dos alunos com baixo desempenho. Aí temos o aumento das médias pois ficam na escola os melhores. Os que não se adaptam são enviados de volta às escolas públicas regulares. Fica mais fácil, portanto, mostrar resultado, trabalhando com ameaças e ficando apenas com os que se adaptam.

Mas, mesmo que conseguíssemos demonstrar alguns pontinhos a mais no IDEB ou ENEM destas escolas, isso não justificaria entregar escolas públicas para a PM administrar. Polícia é treinada para fazer ações de repressão. É como pedir para o exército pacificar os morros no Rio de Janeiro. Não é algo que a corporação esteja preparada para tal. Ela mesma se expõe fora de seu objetivo de atuação e deveria rejeitar correr tal risco. Quando as propostas contemporâneas apontam para a aprendizagem da diversidade, para a autonomia do pensamento, qual o sentido de se voltar a educação destes estudantes para o “enquadramento”? Apenas por serem mais pobres?

Além disso, representa um retrocesso muito grande em tudo que já havíamos construído em matéria de projeto pedagógico para as nossas escolas. Não discutimos a boa intenção de alguns graduados da polícia que estavam “desocupados” na reserva e agora encontraram algo para fazer, mas estão fora de sua qualificação. Deixem a educação para os profissionais da educação. Creio que a segurança pública precisa deles em tempo integral. Cuidem da comunidade, do entorno das escolas, de uma política pública de segurança eficaz.

 Há um raciocínio pior ainda que diz:

“O trabalho é também preventivo. O aluno terá valores sedimentados. Ou vira cliente da PM depois. O percentual de ex-alunos no crime é quase zero.”

Será que as classes sociais mais altas aceitariam ver seus filhos tratados como potenciais marginais objetos de ação preventiva da PM? Ou seria isso apenas para os filhos dos mais pobres? Será que os filhos destas classes mais bem posicionadas aceitariam ter o cabelo cortado em estilo escovinha para poder entrar na escola.

Nos Estados Unidos, uma cadeia de escolas charters para pobres, terceirizada que administra escolas públicas, adota um código chamado de “no excuses” (sem desculpas) para fazer os estudantes focarem no estudo e melhorar seu desempenho. Lá também ou se enquadra ou sai. As cadeias de charters fazem contratos que os pais assinam dizendo que seus filhos irão respeitar as regras da escola, ou poderão ser transferidos. Bem, assim fica fácil resolver o problema. Põe polícia e transfere quem não se enquadra. Suspeito que as classes mais altas não aceitariam esse projeto pedagógico para seus filhos.

Com os liberais à frente defendendo a privatização da escola pública, os conservadores navegam na mesma onda logo atrás promovendo retrocessos baseados em concepções religiosas ou da “manutenção da ordem”.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Escolas terceirizadas para a PM

  1. Maria Ãngela disse:

    A situação educacional no país é gravíssima, cabe a cada um de nós o diálogo com nossos pares, com nossos alunos e seus familiares, compartilhando todas essas informações, nos fortalecendo e escolhendo com consciência nossos lideres no governo. Quem sabe assim, consigamos atenuar tantos impactos e reverter a curto (ou não tão longo) prazo, o desastre evidente.

  2. Rogerio Ramos disse:

    Sou professor no RS. Estas atitudes extremas chegam em nossa sociedade por nosso (professores do ensino básico) próprio descuido, constantemente insistindo nos direitos do aluno, direitos dos pais e dentro disso o desrespeito ao professor em sala de aula aumenta, desde um aluno de sexto ano dizendo ao professor que ele deve aplicar provas em dupla com consulta até uma riscada no carro do professor por causa de uma nota baixa, quase nenhum pai contribui para o ACPM e assim se vão inúmeras situações corroendo o direito deles e os deveres deles de estudar. Quando nem os pais conseguem disciplinar os seus filhos essas atitudes serão aplaudidas pelas elites e pelas camadas populares. E nós vamos ver simplesmente isso tomar conta, porque não sabemos (ou não nos deixam) ser rígidos quando necessário, não podemos expulsar ninguém, corrigir disciplinarmente, repetir de ano, deixar em recuperação. Não que essas atitudes resolvam seu aprendizado, mas e o seu comportamento? É tamanha a rebeldia e a covardia de alguns alunos. Eu como professor me sinto ameaçado muitas e muitas vezes. Parece-me estar fazendo um mal à eles querer que eles estudem e aprendam. Escolas gerenciadas por PMs, a culpa é nossa por não sabermos o que fazer com a indisciplina. E outras coisas mais. Vejam só: não há nem plano de emergência contra incêndio em escolas, muito menos extintores!!!!!!!! Grande abração! Adoro seu Blog Professor!

  3. M. Estela S. Betini disse:

    O PSDB está sendo coerente com seu programa e sua ideologia. O governo é que se apresentou com outra ideologia e não governa coerentemente, Não tem um plano nacional de educação que indique qual Ser Social está em formação, que país se está construindo e qual o rumo a ser tomado. Abre a casa aos ladrões, que não reclame dos assaltos e golpes.

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