Base nacional e autonomia do professor

Diane Ravitch veicula em seu blog post em que comenta a comparação feita por Pasi Sahlberg entre a autonomia que os professores americanos têm e a que os professores finlandeses têm. Pasi mostra o que está errado na educação americana. Como o Brasil optou por copiar os reformadores americanos, inclusive na elaboração de uma base nacional comum, é importante que fique claro para onde estamos caminhando. Seguem os comentários de Diane.

Pasi Sahlberg é atualmente professor visitante na Graduate School of Education em Harvard, e foi diretor geral do Ministério da Educação da Finlândia. Em sua comparação entre os professores americanos e os da Finlândia, Pasi destaca que o que mais chama a atenção dos visitantes das escolas finlandesas é exatamente a autonomia que os professores têm em seu trabalho:

“O ambiente nas escolas é informal e descontraído. Os professores têm tempo na escola para fazer outras coisas além de ensinar. E as pessoas confiam umas nas outras.”

Os professores finlandeses parecem ter muito mais autonomia profissional para ajudar os estudantes a aprender e a se sentir bem, do que os professores americanos. Para isso:

“Os professores na Finlândia têm menos horas dedicadas ao ensino por semana do que têm os professores nos EUA. Primeiro, os professores nos EUA trabalham mais horas (45 horas/semana) do que seus pares na Finlândia (32 horas/semana). Eles também ensinam mais horas por semana, 27 horas em comparação às 21 horas na Finlândia.

Isto significa que os professores americanos, em média, têm muito menos tempo para fazer algo mais do que cumprir suas obrigações de ensino (seja sozinho ou com colegas) do que outros professores na maioria dos países da OCDE. Assim, observa-se que os professores na Finlândia são mais propensos a ensinar em conjunto com outros professores do que seus pares nos EUA.

Na Finlândia, os professores costumam dizer que eles são profissionais semelhantes a médicos, arquitetos e advogados. Isto, explica, significa que os professores esperam comportar-se em seus locais de trabalho como profissionais: usando julgamento profissional, criatividade e autonomia individualmente e em conjunto com outros professores, de forma a encontrar as melhores maneiras de ajudar os seus alunos a aprender.

Na ausência de padrões de ensino comuns, os professores finlandeses projetam seus próprios currículos escolares orientados por um marco nacional flexível. Mais importante ainda, ao visitar escolas, eu ouvi dos professores finlandeses que, devido à ausência de exames padronizados, eles podem ensinar e avaliar seus alunos nas escolas como eles acham que é mais adequado.

A palavra-chave entre professores e autoridades na Finlândia é confiança. Com efeito, a autonomia profissional requer confiança, e confiança torna viva a autonomia do professor.

Os “reformadores” nos EUA agiram pressupondo que a autonomia das escolas é necessária para melhorar a educação. Mas, diz Sahlberg, não há nenhuma evidência de que a autonomia da escola melhora o desempenho do estudante ou que ela aumente a autonomia do professor. Ao contrário, a autonomia das escolas (por exemplo, nas escolas charters) é frequentemente associada com menos autonomia do professor. A OCDE concluiu que uma maior autonomia profissional do professor está associada a melhores resultados.

Sahlberg conclui:

Eu não acho que o problema principal na educação americana é a falta de qualidade do professor, ou que parte da solução seria encontrar os melhores e mais brilhantes para se tornarem professores. A qualidade de um sistema educativo pode exceder a qualidade de seus professores, se o ensino é visto como um trabalho de equipe e não como uma corrida individual.

E esta é talvez a lição mais poderosa que os EUA podem aprender com os sistemas de educação de melhor desempenho: os professores precisam de uma maior autonomia profissional coletiva e mais apoio para trabalhar um com o outro.”

E bem que o Brasil poderia aprender mais rapidamente sobre isso, ao invés de copiar os americanos e suas bases nacionais comum de avaliação, atrasando ainda mais o desenvolvimento da educação brasileira.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, ENAMEB - Professores, Escolas Charters, Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability e marcado , . Guardar link permanente.

8 respostas para Base nacional e autonomia do professor

  1. Maria Ângela disse:

    ..já que é para copiar, então poderia ser o modelo de educação de um país que deu certo, como a Finlândia por exemplo!

  2. Cecilia Goulart disse:

    É muito bom contar com a sua atenção aguçada para os problemas da educação nacional que enfrentamos há tanto tempo. Suas análises têm sido um rico material de leitura do grupo de pesquisa que coordeno. Obrigada!

  3. André Luís disse:

    Talvez a pergunta a se fazer seria: “Como a Finlandia amadureceu seu sistema educacional a ponto de conseguir valorizar os professores como eles merecem e como trabalharam para alcançar esse nivel de autonomia?”

    Será que simplesmente deram essa autonomia e tudo melhorou? Em que momento chegaram a esse ponto? Creio que exista um caminho que percorreram antes e podemos aprender com eles.

    • Sim, certamente há um caminho. Mas não é o dos reformadores. Primeiro porque lá só há fé e não ciência. Portanto, não vão aprender porque estão há 30 anos dizendo o mesmo, apesar de não funcionar. Segundo, o caminho não pode ser o de primeiro destruir o magistério para depois confiar nele. Abraço.

  4. Marlon disse:

    Os próprios pesquisadores estadunidenses já viram que esse modelo de escolas charters com testes padronizados é uma falácia para educação do povo!! Esse modelo de educacional não tem nada..10% do PIB já tem endereço nas contas dos grupos de investimentos dos EUA…Laureate, Kroton etc…TRISTEZA VIU PROFESSOR..

  5. Francisco Caloia disse:

    Na edição de 8 de outubro, o jornal português O Público informou que investigadores americanos em Política educativa da Universidade de Stanford, Califórnia, a convite da Fundação portuguesa Francisco Manuel Soares, a necessidade de mais avaliação, mais exames dos professores e alunos, maior controlo e responsabilização dos professores por parte dos diretores de escola. Estas, entre outras, foram conclusões a que chegaram tais investigadores quando lhes foi proposto a análise do sistema educativo português. Tudo indica que há um arrastar do que se está a criticar nos EUA , e não só, para outras latitudes do mundo, mesmo para a Europa. Grande abraço Professor Luiz C. Freitas e obrigado por esta página.

  6. Remo Bastos disse:

    Para contribuir com o debate, disponibilizo link do trabalho que apresentei segunda feira ultima na 37ª Reunião da ANPED, de título “Da obscuridade para as luzes da ribalta: o surpreendente e “improvável” êxito do sistema educacional finlandês em um cenário global de educação capturada pelo mercado”. Nele tento identificar os fatores que contribuem para a consistência e o sucesso do paradigma educacional daquele país nórdico. Eis o link: http://37reuniao.anped.org.br/wp-content/uploads/2015/02/Trabalho-GT05-3580.pdf

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