Falconi em Rondônia: era uma vez…

Paulo Freire insistia em que as inovações têm que ser recriadas localmente e não transplantadas. Mas nossos gestores não querem ouvir. Acham que implantando responsabilização verticalizada podem resolver, pela via da gestão, problemas que estão muito além dela, inclusive com ancoragens fora da própria escola. O caso de Rondônia é um exemplo. O Governador Confucio Moura iniciou seu primeiro mandato em 2011.

No começo era tudo maravilha… A Falconi, uma empresa de consultoria que opera na área da gestão, inclusive no campo da educação, foi contratada pela Secretaria da Educação de Rondônia:

“Isabela explica [em 2011] que todo o trabalho que vai ser desenvolvido na Secretaria de Educação vai ser acompanhado de perto pelo professor Falconi e que o trabalho consiste na revisão de processos para a estruturação organizacional, mapeamento das despesas, acompanhamento dos indicadores do plano de ação, introdução ao ensino à distância, instituição da rede de ensino integral e implantação de escolas rurais.
Sobre os resultados obtidos pelos estados auxiliados pela empresa, Isabela citou o Rio de Janeiro, que conseguiu sair da 23ª posição para a 15ª no Ideb referente ao Ensino Médio, enquanto que Pernambuco melhorou a posição no Ensino Fundamental.
O encontro contou com a presença do governador Confúcio Moura que relata que assumiu compromissos de melhorar a qualidade da educação com efetivo acompanhamento dos indicadores de desempenho, e ainda explicou o porquê de contratar uma empresa líder em resultados em estados como o Ceará e Pernambuco, que ele mesmo fez questão de conhecer antes de tomar posse com o intuito de tentar mudar o quadro de Rondônia…”

Leia aqui.

Estas consultorias operam, como elas mesmas dizem, por resultados. Logo, por metas. Sendo assim, suas ações são alinhadas de forma que se ensine para o teste que gera o resultado. Às vezes, conseguem produzir “suspiros nas curvas de aprendizagem dos estudantes” de difícil manutenção ao longo do tempo. No caso Rondônia:

“Foi criado o Índice de Desenvolvimento do Ensino de Rondônia – IDERO e definido os desafios do Estado, das CREs e das Escolas. Está sendo estruturada a divulgação dessas metas e da métrica de cálculo desse novo indicador. O próximo passo será auxiliar à SEDUC e às CREs a definirem as medidas (ações) para o alcance desse desafio e realizar oficinas para nivelar conceitos de Programas e Projetos Educacionais; Transporte Escolar Rural; Regularização Escolar; Alimentação Escolar; Matrículas e Chamada Escolar; Compras e gestão.”

Leia aqui.

Tudo continuava muito bem, com direito a palestra de Claudio Moura Castro.

“Diretores escolares e coordenadores regionais de Ensino de todo o Estado participam do Encontro Regional de Gestores 2014, em Ji-Paraná. O evento foi aberto na noite de sexta-feira (31) pelo governador Confúcio Moura e pelo secretário de Estado da Educação, Emerson Castro. O encontro tem o objetivo de fortalecer o pacto pela educação em Rondônia, firmado pelos gestores, e alinhar o planejamento pedagógico para este ano. A palestra de abertura foi feita pelo educador, escritor e consultor Cláudio Moura Castro, da Consultoria Falconi.”

Em palestra, o Governador do Estado também indagava:

“Por que a iniciativa privada faz e o público só fica na promessa, deixando a desejar? Como vamos falar em desenvolvimento se não temos técnicos capacitados, se nossa juventude está abandonando os estudos?”. Com esses questionamentos, o governador explicou o porquê de contratar uma empresa líder em resultados em estados como o Ceará e Pernambuco.”

Mas, o que ocorreu depois? As metas foram atingidas? Recentemente, o Governador parece ter perdido a paciência e desabafou no www.tudorondonia.com.br:

“Desde o primeiro dia do meu governo que me preocupo com a Educação de Rondônia. E olhe que temos feito muito. Inovado muito. Inúmeras parcerias importantes: Airton Sena, Roberto Marinho, Fundação Lemman, Universidade de Juiz de Fora, Falconi, Fundação Getúlio Vargas e tem mais.
Tem muito trabalho teórico produzido. Milhares de folhas de papéis escritas por especialistas. Diagnósticos formatados. Mas, é preciso aproveitar tudo isto e bem. Quero aqui, incluir três pontos que ainda não fiquei satisfeito:
– O primeiro deles foi o trabalho da consultoria Falconi – demorado, caro, bem feito,  equipe de acompanhamento composta e muita coisa para se efetivar no dia a dia da rotina da Secretaria de Educação.  Grande parte do pessoal esfacelou. Foi pra aqui e foi pra ali. Não teve foco na leitura do relatório final. Ainda é hora de retomar com força total e aproveitá-lo bem. Consultoria não faz milagres. O milagre é feito se soubermos traduzir o conceito produzido e colocado na vida da educação.
– O segundo, foi o curso de PÓS-GRADUAÇÃO  pago pelo Estado, no valor aproximado de R$ 16 000,00 (dezesseis mil reais) por aluno. Em áreas essenciais para a SEDUC: gestão financeira, gestão de pessoas, administração pública, gerenciamento de projetos, gestão de Ti, total de 91 inscritos. Desistiram 13, abandonaram  18, concluíram 35,  55 estão com disciplinas pendentes. Este pessoal treinado e capacitado viria pra dentro da SEDUC para operar a máquina. Seria a elite técnica da Secretaria. Olha aí o resultado.
Temos  ainda mais l ano de prazo para a conclusão do curso de MBA. Os que desistiram vão pagar o curso. Os que forem reprovados vão pagar o curso. Devolver o recurso gasto ao Estado.
– O terceiro, os mestres e doutores, que se beneficiaram da lei de incentivos a boa formação, foram dispensados do trabalho por dois a quatro anos, receberam salários, com o compromisso de concluídos os mestrados e doutorados, prestarem ao Estado os seus relevantes serviços, pelo menos por dois anos seguidos. Até agora, nada, na prática. Não se sabe onde está este pessoal. Nem tico e nem taco. O investimento feito pelo Estado ficou para consumo próprio dos servidores beneficiados. Assim é moleza demais.
Peço a Rita, Gerente de RH da SEDUC para rastrear este pessoal. E me enviar a lista daqueles que já concluíram. E será necessária uma boa conversa com eles. E chegou a hora deste pessoal trabalhar no campo. E se justificar. E o Estado se beneficiar. E a educação melhorar a qualidade. Porque estamos chovendo no molhado. Contrário, terão que devolver também os benefícios auferidos no período. Com esta enorme quantidade de gente bem treinada, e com pequenas atualizações na prática do serviço, com certeza, a SEDUC ganharia um salto enorme de qualidade.“

Pois é Governador. Pelo desabafo pode-se perceber que não deu muito certo. Aqui entre nós, o problema de Rondônia é que a Secretaria de Educação anda muito mal acompanhada. Não basta conhecimento e reengenharia de fora bombardeando os profissionais da educação. Entregue a Secretaria para os professores e demita todas as consultorias. Arquive os relatórios. Crie uma avaliação participativa interna, apoiada no pessoal que conhece porque as coisas funcionam ou não. Invista.

Mas agora, Governador, que já se usou pressão sobre os profissionais e desestruturaram-se relações, não será tão simples, depois desta experiência negativa, recompor as relações e criar uma espiral positiva para a rede.

No seu caso, nem sequer houve o clássico “suspiro da curva” que costuma ocorrer quando se adiciona pressão sobre uma rede. Veja que entre 2011 e 2013 o IDEB piorou tanto na 9ª. Série como no ensino médio. A 5ª. Série melhorou, mas não foi pela consultoria. Ocorreu no Brasil inteiro.

Mas não fique desanimado: o senhor é, hoje, o que serão, amanhã, seus pares governadores de outros estados, que estão seguindo os mesmos métodos. Na verdade, se eles fossem espertos, eles aprendiam com o senhor. Os erros também ensinam.

É como o senhor disse: “O milagre é feito se soubermos traduzir o conceito produzido e colocado na vida da educação.” E quem faz isso são os professores e profissionais da rede e não os consultores. Eles fazem o relatório, faturam e vão embora. Por isso, temos que trabalhar com os professores da rede e não contra eles.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Falconi em Rondônia: era uma vez…

  1. M. Estela S. Betini disse:

    A conclusão de Freitas é o que a historia tem mostrado: “Por isso, temos que trabalhar com os professores da rede e não contra eles”. Entretanto há ainda muitos e inclusive gestores que acreditam que quanto menos se dialogar, quanto mais mandar, mais resultados obterão. Até quando vão acreditar nessa balela?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s