O populismo privatista da Folha de São Paulo

O Editorial da Folha de SP de hoje, 27-12-15 escancara o projeto liberal/conservador para a educação brasileira. Recorre ao populismo do liberalismo ortodoxo que vende lemas e promessas de qualidade da educação com o uso de medidas fáceis, baratas  e não negociáveis. Algo semelhante ao que estamos assistindo em São Paulo e em Goiás, onde a comunidade foi afastada das decisões em nome da melhoria da qualidade da educação, pensada por liberais iluminados.

No campo da economia, Bresser Pereira identificou muito bem esta tendência. Economia à parte, que não é nosso tema, serve-nos a ideia do populismo aplicada por ele ao neoliberalismo ortodoxo. Que é o mesmo que norteia o Editorial da Folha, agora para o campo da educação. Basta ver seus interlocutores: Paes de Barros e Naércio Menezes Filho. É sintomática a semelhança do editorial com entrevista dada por Paes de Barros à Folha de São Paulo.

Por populismo devemos entender o uso de uma linguagem simples e popular para abordar graves problemas, com o intuito de criar a ideia sedutora de que se pode resolver facilmente todos estes problemas, desde que se acredite em uma liderança que sabe o que quer, carismática. Paes de Barros tem irrompido contra a ideia de negociação. Estamos diante de um populismo que, como sempre, combina fé carismática em uma liderança, com ideias fáceis e aparentemente rápidas e sedutoras. Em recente entrevista à Folha de São Paulo Paes de Barros diz:

Folha: Essa revolução na educação exige uma revolução cultural na maneira de pensar?

Paes de Barros: É um pouco como um time de futebol, que começa a jogar melhor com um novo técnico.

Folha: É preciso trocar o ministro?

Paes de Barros: Não sei se precisa trocar o ministro. Precisamos de alguém que bata na mesa e diga o seguinte: “Este país, em 25 anos, vai avançar 50 anos em educação. Acredite.” (…) Não precisamos de um ministro da Educação que diga “sou dedicado, sou trabalhador, vou fazer o melhor possível”. Precisamos de um visionário. Um camarada que tem uma ideia. Nem precisa ser da educação, pode vir de uma empresa que produz cimento. Tem que ter claro que educação = trabalho, nada mais que isso, é um plano de ação”.

A atitude anti-negociação fica mais clara ainda em outra entrevista:

“A proposta tem que ser baseada não em negociação, mas em princípios: “Escolhi cortar tudo o que não chega na metade mais pobre do Brasil, portanto vou cortar nisto e nisto”. Quem for contra terá que reclamar do princípio, não da operacionalização.”

Em resumo, o populismo é uma maneira de exercer o poder que, a título de resolver os problemas do povo, em especial os mais pobres, ganha sua confiança e com ela exerce autoritariamente uma dominação que passa sem ser percebida ou até mesmo é consentida.

Se acompanhamos as falas dos reformadores empresariais, vamos verificar estes elementos presentes em sua abordagem. Isto é especialmente correto em relação ao “populismo da privatização” ou da “desestatização da educação”. A alternativa vem sendo cada vez mais alardeada como “a solução” para os problemas da educação. De fato, todos os problemas adviriam da educação ser pública e de gestão pública. Só a gestão privada nos salvaria. Outra não é a fala do Editoral de hoje da Folha de São Paulo.

Qual a proposta da Folha?

  1. Enfrentar o gasto com o ensino básico e não com o universitário. Aqui a solução é a proposta por Paes de Barros – “ensino superior gratuito é burrice”.
  2. Garantir seis horas efetivas de aula por dia.
  3. Pôr ênfase em português e matemática no currículo nacional. Ou seja, copiar a orientação do “common core” americano, priorizando o ensino destas disciplinas e não de outras, causando um estreitamento curricular prejudicial.
  4. Dar autonomia a mestres e diretores e facilitar demissão dos piores. Aqui, a solução é a proposta por Hanushek já comentada por nós.
  5. Fechar escolas consideradas ruins ou entregar sua gestão a organizações sociais. Algo feito à exaustão nos Estados Unidos e que não resultou em melhoria da educação, mas que criou um mercado educacional que encheu o bolso de muita gente.

Este é o programa do populismo liberal/conservador para a qualidade da educação brasileira. O bom deste editorial é que ele escancara o projeto liberal, revela seus interlocutores e mostra sua proximidade com o programa de Aécio Neves nas últimas eleições. Revela, em si, o alinhamento do Editorial ao PSDB. Não é sem razão que o Editorial também elogia os governos de Pernambuco, Goiás e Rio de Janeiro: todos “tubos de ensaio” das políticas que propõe.

De quebra, exalta o modelo Sobral (do clã Cid Gomes no Ceará). Constatando que o IDEB passou de 4 para 8, considera que, então, “algo de muito acertado se praticou alí”. (Ver aqui também.) Portanto, temos que replicar para o resto do país o que alí se fez.  O que foi que se fez? Não importa, se aumentou o IDEB, logo foi bom. Se significa boa educação ou não, não importa. Se teve efeitos colaterais, não importa. Enfim, se há ou não evidência saudável de política pública para além do aumento do IDEB, não importa. Se Naércio diz que foi bom, então foi.

Deslavadamente, o editoral tem a coragem de falar em “educação baseada em evidências”. Quais? Alguma. Não se sabe e não vem ao caso. É retórica de mídia para convencer incautos. Este blog está repleto de evidências internacionais contrárias para estas políticas. Mas para o editorial basta acenar com “evidências do gabarito de Naercio Menezes Filho e Ricardo Paes de Barros.” Sem desmerecer a estes colegas, é claro que há muito mais água debaixo desta ponte do que o editorial está disposto a reconhecer. Fugindo dela, opta por uma solução de “evidência caseira”, sem contraditório.

E a base nacional comum que o MEC está fazendo? Bem esta é cheia de “verbosidades” e é preciso que se fuja da “multiplicação de intenções tão generosas quanto aéreas” para que se possa “vencer a guerra por uma educação melhor”. Como? Fácil. A solução é simples:

“Isso só será alcançado com um recuo ao básico: dar aulas de verdade, que utilizam o tempo disponível para explicar o conteúdo definido e sua utilidade; propor exercícios sobre o que foi ensinado; corrigir os erros cometidos e explicar por que são erros.”

Isso, qualquer estudante de pedagogia sabe que é insuficiente, se não nos remetermos às condições concretas das escolas, seus estudantes e professores. E aí está o populismo do editorial: esconde estas dificuldades e acena com soluções fáceis, enganosas e que ocultam a destinação final: a introdução da gestão privada salvadora.

Qualificar e valorizar melhor os professores? Sim, mas só se for para “aqueles que demonstrem maior empenho e desempenho”, ou seja, a fracassada política de bônus que mais de uma década é praticada no Estado de São Paulo, cujos números foram considerados uma vergonha pelo Secretário que acabou de deixar a pasta. A mesma que consta do programa do candidato Aécio Neves na última eleição.

Mas por este caminho o editorial chega finalmente ao que se quer de fato: “nenhuma destas iniciativas obterá eficácia isoladamente ou sem um choque de gestão nas escolas públicas” (assim também chamado por Aécio Neves quando era governador de Minas), ou seja, a adoção da atual versão que propõe fechar as escolas consideradas ruins ou entregar para as organizações sociais. Todo o demais são firulas, importa é privatizar. Fica assim, revelado o objetivo final.

Eis a requentada receita populista liberal/conservadora para o sucesso da educação brasileira, proposta pelo Editorial. A mesma já executada sem sucesso em outros países. Nos círculos educacionais sérios, sabe-se muito bem a que levou estas proposições: à criação de um mercado educacional de quase um trilhão de dólares só nos Estados Unidos que favoreceu o faturamento de grandes corporações e de organizações sociais com e sem fins lucrativos. Qualidade que é bom, não se obteve.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para O populismo privatista da Folha de São Paulo

  1. Dagmar Zibas disse:

    Caro Professor Freitas: Já deixei aqui minha sugestão de que sua crítica tão bem fundamentada ao projeto privativista em curso deveria ganhar espaço na grande mídia. A Folha, embora com o “rabo irremediavelmente preso” com a ideologia liberal/privativista, gosta de parecer pluralista. Um artigo seu, contestando o editorial, talvez tenha chance de ser publicado na p.3 (Tendências e Debates). Por puro acaso, tenho mantido contato com pessoa que já foi ombudsman da Folha e talvez possa recomendar um artigo seu.

    • Grato pelo estímulo. Penso que existem outras pessoas com melhores chances de publicar na Folha do que eu. Em especial as que estão ligadas às entidades e que possuem uma representatividade maior. Quando me pedem dou entrevistas e logo se vê que divulgam tudo pela metade na grande mídia. Ou escolhem uma mera frase para dizer que o contraditório foi ouvido.
      Por política deste blog, o que é publicado com minha autoria pode ser replicado e sem autorização minha. Nem precisa me citar. A função do blog é alimentar com estudos e dados posicionamentos que revelam os efeitos nefastos destas políticas e que também podem ser acessados e utilizados. Mas agradeço o estímulo.

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