O “soluço da curva” no SARESP 15: saindo do “volume morto”

Foram divulgados os dados do SARESP referentes à prova aplicada em 2015. Eles mostram como a política educacional do Estado de São Paulo está no caminho errado há duas décadas. Para ver isso, basta olhar para a floresta e não apenas para a árvore. Segundo o governador, acostumado a vacas magras em matéria de resultados educacionais:

“Há avanços impressionantes. Até 2030 vamos chegar aos indicadores dos países mais desenvolvidos”, disse o governador Geraldo Alckmin (PSDB) durante divulgação dos resultados no Palácio dos Bandeirantes.”

A secretária-adjunta da Educação Cleide Bochixio citou alguns pontos que poderiam explicar a melhoria: aulas dadas com base no currículo (leia-se: estreitamento curricular) e reforço por meio de games e plataformas on-line (leia-se: treino para a prova).

É interessante verificar como a Secretária-adjunta não menciona entre as ações da Secretaria que poderiam justificar a melhora, o programa de apoio às escolas prioritárias que talvez pudesse ter tido algum papel na melhora dos indicadores. Ela prefere falar daqueles programas que afetam diretamente o treino para as provas.

Quando vistos em perspectiva, os alegados “avanços impressionantes” de Alckmin, se desfazem. Há, sim, um “soluço” na curva do ano 2015, mas é muito mais uma tentativa de  “sair do buraco” cavado pelas próprias políticas dos reformadores empresariais nos últimos 15 anos no Estado, do que de fato um “avanço impressionante”. E, de novo, vamos pelo caminho errado como se pode ver na fala da secretária-adjunta.

Primeiro estamos bem distantes das próprias metas quantitativas. Segundo, este “soluço” não chega a ser sinal de qualidade. Basta ver como a curva geral, vista nos gráficos abaixo, desenha um verdadeiro buraco a partir de 2008, e que agora quer retornar ao seu ponto de origem, do qual se descolou e caiu há oito anos atrás. Já fomos iguais ou melhores do que os resultados atuais.

Em 2008, em matemática no Ensino Médio, tínhamos um resultado de 273,8 (escala 0-500) pontos que agora chega a 280,9 oito anos depois de passar por uma queda que levou a educação paulista ao “volume morto” marcando 268,7. E na nona série do Ensino Fundamental, em 2008 tínhamos 245,7 e agora chegamos a 255,2 depois também de um buraco em que se chegou a 242,3. A única série que cresce consistentemente é a 5a. série do Ensino Fundamental, mas este crescimento da 5ª ocorre no país inteiro e não é fruto de uma política específica do estado. Aliás, o estado quer rifar estas escolas para as prefeituras como se viu na reorganização que agora deve voltar com força em nova versão midiática, “negocial” e jurídica.

Continuemos. Em português no ensino médio, estávamos em 2008 com 272,5 pontos no SARESP e agora estamos com 268, ou seja, nem do “volume morto” conseguimos sair, um buraco cavado pelos reformadores que chegou à marca negativa de 262,7. Na 9ª série do Ensino Fundamental estávamos com 231,7 há oito anos atrás e agora chagamos a 237,9 – uma diferença de seis pontos, depois de chegar a baixar para 226,3.

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O governo de São Paulo está comemorando ter posto a cabeça para fora do buraco em 2015. E veja que ele entrou no buraco fazendo uso de toda uma parafernália de pressões, criadas por ele mesmo sobre a escola, que não produziram os efeitos esperados em mais de uma década (bônus, meritocracia, avaliação censitária, IDESP, articulação do currículo com a avaliação, controle etc).

Por que o “soluço na curva”? Há várias questões envolvidas nesta resposta.

Primeiro, registremos que o estado divulga mal os seus microdados de avaliação. Não há uma base de microdados aberta que possa ser baixada por pesquisadores independentes para conferir os resultados que o Estado compra das terceirizadas que fazem os exames. Não basta dizer que os “técnicos acharam ou não diferenças estatísticas significativas”. É preciso permitir que outros refaçam os cálculos de forma independente. É preciso também divulgar o estudo feito por tais técnicos, independentemente da competência que tenham.

Segundo, o Estado tem uma definição restrita do que seja “educação de qualidade”. Convenientemente, ele excluiu todas as demais disciplinas da educação básica, e ficou apenas com duas: português e matemática. Se estas vão bem, então há qualidade no ensino, segundo ele. Já vimos inúmeras vezes a insuficiência deste raciocínio aqui. O estado se omite da responsabilidade pela qualidade das demais disciplinas.

Terceiro, aumentar a média, mesmo destas disciplinas, não implica necessariamente em qualidade de ensino. E é a própria secretária adjunta que nos dá a pista na Folha de São Paulo de hoje (5-02-2016) sobre o que pode ter ocorrido para explicar o tal “soluço da curva” da educação paulista:

“Entre elas estão uso de games e plataformas online para ajudar no reforço escolar; avaliação durante o ano, para identificar problemas antes do término do período; e simulados do Saresp e da Prova Brasil.”

Ou seja, podemos resumir tudo isso em: treino para a prova. Primeiro, o estado estreitou o currículo dos estudantes, articulando o que se ensina em sala de aula em português e matemática à prova do SARESP; segundo, aumentou este controle e ampliou o treino do aluno para a prova através de games, avaliações intermediárias e simulados. Ora, se você restringe o ensino ao que vai cair na prova (e ela não pode avaliar tudo que é ensinado), é claro que haverá aumento da nota da prova, mas prejuízo para a formação do aluno, oriundo do estreitamento da aprendizagem. A questão é se isso é educação de boa qualidade. Obviamente, não.

É a mesma solução que os reformadores empresariais dão em toda parte para mostrar como eles têm boas propostas. Veja-se o o caso do “sucesso de Sobral”, por exemplo.

Mas não passam de soluções de curta duração e de pouca consistência. Servem para fazer alarde por ocasião da divulgação dos resultados e, no caso específico de Alckmin, cacifar sua candidatura a presidente em 2018. Nada mais.

O grave destas soluções é que elas vão cada vez mais empurrando a educação na direção da implantação de estratégias de “competency based instruction”, ou seja, uma associação entre estreitamento curricular, avaliação e treino intensivo, que coloca de lado as estratégias de relacionamento baseadas no professor e focam o uso de instrução com mediação de tecnologia on line. A ordem é aumentar a média de português e matemática. O estreitamento do ensino paulista em português e matemática – durante toda a educação básica – levará a perdas formativas graves para a juventude paulista.

Por outro lado, vão consolidando a falsa ideia de que nota alta em teste é sinônimo de boa educação. Corre o risco da sociedade acreditar.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Responsabilização/accountability, Saresp. Bookmark o link permanente.

3 respostas para O “soluço da curva” no SARESP 15: saindo do “volume morto”

  1. Gabriela R. Nery disse:

    Quanto ao treinar para a realização das provas, outras estratégias foram utilizadas num passado recente nas escolas. Coordenadores Pedagógicos sutilmente sugeriam “provões” com o intuito de preparar os alunos para o SARESP, em muitas escolas houve resistência de alguns professores, então a solução foi radicalizar com a Avaliação em Processo (provas ‘diagnósticas’ de Português e Matemática), além de todas as ferramentas tecnológicas que surgiram para este fim. Hoje nós professores recebemos um subsídio para ser utilizado nas atividades de planejamento da próxima semana e durante o ano de 2016 com base nos dados divulgados do SARESP 2015. Pela primeira vez o índice foi divulgado antes do planejamento anual, no entanto, a condução do documento traz evidências de que os esforços a serem realizados nas escolas devam ser voltados para a melhoria do índice, quando reforça as diretrizes dada aos gestores em Comunicado de 2015 ressaltando a necessidade de:
    garantir a articulação entre currículo e avaliação, e o uso dos resultados na
    reorientação da prática pedagógica; resgatar a importância dos processos de
    acompanhamento da aprendizagem dos alunos; e de garantir as atividades de reforço
    e a recuperação e materiais e recursos de apoio ao seu desenvolvimento.
    Infelizmente sociedade e até mesmo professores acreditam que este é o caminho para a melhoria da qualidade da educação.

  2. Levando em consideração os relatos vindos das escolas ocupadas no final de 2015, acho que se o governo quer realmente construir qualidade em educação deveria estudar seriamente essas escolas. Currículo diversificado, palestras, apresentações culturais, debates, aulas … O alunos atuando verdadeiramente como “protagonistas da história” como queria o ex-secretário Herman (ver apresentação dos cadernos do aluno 2014-2017). O governo devia parar com essa brincadeirinha cara de novo currículo e dar autonomia a professores e alunos. Além, é claro, de cumprir a sua parte e contratar professores e melhorar os salários.

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