Os saudosos de FHC e os dilemas do golpe (atualizado)

Atualizado às 17 horas, com a resposta de Dilma ao editorial da Folha de SP.

Em post anterior, afirmei que a segunda onda neoliberal em curso, cuja agenda vinha sendo disputada durante os governos do PT pela oposição, é uma retomada do governo FHC, ou seja, da primeira onda neoliberal ocorrida naquele governo. Em outro, apresentei o que pensa o PMDB para um eventual Governo Temer: um projeto de Estado (neoliberal) e não uma mera troca de presidentes.

É exatamente por isso, que não cabem comparações entre os governos do PT que “flertaram com as políticas neoliberais” (e este blog criticou isso abertamente), e a atual proposta pós-impeachment, pois esta última é uma reforma profunda do próprio Estado em seu conjunto, feita na ótica neoliberal. A razão é muito simples, portanto: se fosse igual ao que o PT vinha fazendo, não precisava trocar o governo com a farsa do impeachment.

Hoje, na Folha de São Paulo, Samuel Pessoa confessa abertamente seu saudosismo em relação ao governo FHC, bem como sintetiza qual é a expectativa do PSDB e que, para ele, responderia aos anseios de 80% da população (sic):

“Um primeiro item dessa agenda já foi identificado: reduzir ao mínimo o intervencionismo estatal no funcionamento dos mercados (…) O estado do bem-estar social e o nacional-desenvolvimentismo não cabem no Orçamento.”

Um segundo item da agenda é reformar o funcionamento do Estado. Esse processo está parado desde o governo FHC e precisa ser retomado: modernizar toda a gestão de pessoal do serviço público, votar lei de greve de servidor que proteja os interesses dos cidadãos e criar e adotar como prática corrente a avaliação das políticas públicas com regras legais que garantam o encerramento dessas políticas ou porque atingiram seus objetivos ou porque não funcionam, entre outras providências.” (Os grifos são meus.)

Complementarmente, o co-autor do Programa do candidato derrotado Aécio Neves (PSDB) à presidência da república, também defende que se deve cortar os “programas caros” que garantem universidade pública gratuita “à classe A”, definida amplamente como aqueles que estudaram em escolas particulares.

Eis a visão de futuro dos eventuais “novos governantes” mensageiros da “esperança”.

Veja também, na Folha de São Paulo de hoje (03-04-16) o “dilema” deste jornal: “Nem Dilma, Nem Temer“. A Folha quer que a presidenta renuncie e se façam novas eleições – presumindo, é claro, uma vitória do PSDB nas eleições. Quem sabe até mesmo com Alckmin? Temer não teria a necessária legitimidade. Eis aí um motivo de reflexão para aquela parte da esquerda que está defendendo eleições gerais também. Os extremos se encontram?

Para a Folha, penso eu, somente o PSDB seria confiável para conduzir este processo de reforma o qual requer a legitimidade eleitoral (inclusive pela extensão dos danos sociais previstos com a reforma). Para a Folha, há uma “minoria expressiva” (sic) que apoia a presidenta – um novo conceito criado. Os liberais temem fazer a lição de casa pela metade, parando em Temer. Temem também a reação desta “minoria expressiva”. Até para se reprimir é preciso ter legitimidade, na visão liberal. Não é sem razão que Samuel Pessoa, acima, quer uma “lei de greve que proteja o cidadão”. O caminho mais rápido e com menos custo político (e histórico), para este jornal, seria a renúncia da presidenta e de Temer. Mas, nada indica que este caminho fácil (da renúncia) levará o PSDB até a presidência.

Veja resposta de Dilma ao editorial da Folha: “jamais renunciarei”.

Embolou, pois, afastada Dilma, Temer (PMDB – o partido da “boquinha”) vira presidente e Cunha (sim, ele, imerso em suspeitas de corrupção) vira “vice-presidente”. Daí que a Folha desejaria, de fato, que o Tribunal Superior Eleitoral julgasse e afastasse ambos de imediato, antes do impeachment, abrindo caminho para novas eleições em 90 dias, pela qual emergeria um PSDB legitimado. Mas, o que fazer com Cunha neste período? Eis os dilemas do golpe.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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