Por que bônus não funciona?

Os reformadores empresariais transferem para a educação a lógica da gestão baseada em pagamento variável (bônus) para quem atinge metas previamente estabelecidas. Com os processos de terceirização em alta, vai piorar, pois as terceirizadas seguirão o mesmo caminho com uma condição adicional: enquanto o servidor público não pode ser demitido por não atingir uma meta, o terceirizado pode. Este cenário da terceirização, completa as condições para que a política de bônus seja implantada em toda sua concepção.

Eles acham que se o ser humano for colocado na condição de escolher entre atingir a meta e receber um bônus e não atingir e ser demitido, ele se esforçará mais e a qualidade da escola irá melhorar. É uma relação baseada na desconfiança.

No entanto, os reformadores se esquecem de que quando se adiciona controle e pressão na relação e a torna dependente de dinheiro, ela se mercantiliza e esta forma de relação também é repassada para a relação do professor com a criança, deixando de ser na sala de aula, uma relação educativa e de confiança, para ser convertida em uma relação igualmente de controle e pressão do professor sobre o estudante, pois o resultado financeiro do professor fica dependente de resultado acadêmico do aluno. Todo o sistema de relações se modifica. O que deveria ser uma relação de confiança, colaborativa e processual, passa a ser um “toma lá, da cá”.

Podemos dizer que o vínculo financeiro que existe entre patrão e empregado na empresa, no caso da educação não passa exclusivamente pela remuneração, ainda que esta seja importante. Há outros aspectos, sem os quais a educação – um fenômeno colaborativo e processual – não pode se estabelecer de fato.

Como diz Ravitch, bônus é uma política que nunca funciona e nunca morre.

Por um lado, os empresários entendem que ele é decisivo para o empenho e a qualidade, por outro os professores têm outras necessidades motivacionais, ou não estariam na profissão. Se estão na profissão e não têm estas outras motivações, certamente não serão “eficientes” nem com bônus, pois não conseguirão ficar na profissão e sairão dela. São estes, que motivados pelo bônus entram na profissão e depois vão embora gerando alta rotatividade na escola.

Mencionei tudo isso só porque queria criar o clima para trazer o depoimento de uma professora que escreveu um comentário em um dos nossos posts e exemplificar do que estamos falando:

“Que pena que Brasil não é a Finlândia! Aqui, nós, educadores infantis, falo pela minha realidade, temos como recurso didático, a voz e nada mais. Contar histórias, brincar, realizar atividades de música, arte e movimento, numa sala com 25 crianças de 4 ou 5 anos e sozinhos, nos coloca na condição de super heróis. Escolas sem vida, sujas, sem ambientes favoráveis ao desenvolvimento das habilidades e competências (ouvir, falar, raciocinar, conceituar, debater…) necessárias ao êxito escolar nos anos subsequentes fazem da educação infantil neste país uma violência contra a infância e nós, educadores infantis, apontados como os vilões dessa etapa ímpar na vida de nossas crianças. Queria então, morar na Finlândia e fazer o que sempre sonhei para as crianças: prepará-las para o sucesso escolar e, consequentemente, torná-las capazes de realizar sonhos, promover mudanças e serem de fato adultos felizes e realizados.”

O Estado de São Paulo, utiliza a solução há mais de uma década sem que tenha nenhum sucesso (veja aqui, aqui e aqui também). Experiências internacionais largamente divulgadas dão conta do fracasso da estratégia de pagamento de bônus variável para uma profissão complexa como a dos professores (veja aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Veja opinião de Maria Alice Setúbal sobre bônus.

O ex-prefeito de New York, Bloomberg, utilizou fartamente a estratégia de pagar bônus quando esteve 12 anos à frente da Cidade de New York, e concluiu honestamente que deveria parar os bônus para não malgastar dinheiro público (veja aqui também). A National Academy of Science americana não aponta efetividade dos bônus. Nem mesmo a poderosa Associação Americana de Estatísticos que desaconselha o procedimento consegue deter a ideia.

É fé, não é ciência.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Por que bônus não funciona?

  1. Marília de Campos Cardoso disse:

    O pagamento de bônus na educação, além de ineficiente é injusto, uma vez que as metas a serem batidas estão relacionadas a grupos distintos de alunos. Nunca vi com bons olhos os critérios adotados para pagamento de bônus, embora já tenha conseguido esse benefício algumas vezes.

    • Renato B. disse:

      Parabéns pela honestidade em assumir que o sistema tem sérios problemas mesmo que já tenha sido beneficiada por ele. Se mais gente fosse capaz de ver isso já teríamos um país menos pior.

  2. Renato B. disse:

    Acho que um problema essencial dos bônus é que demora muito para se conseguir analisar o real impacto da prática educacional de forma consistente. especialmente no pré-escolar e fundamental.
    E os resultados de curto prazo podem ser enganadores, como no caso da alfabetização precoce que você mesmo já abordou aqui.

    Nesse ponto temos vários estudos mostrando que os ganhos acadêmicos não compensam os custos socioemocionais no desenvolvimento das crianças. É o típico caso de resultado científico contraintuitivo.

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