“Turnaround” em escolas: sem evidência

A No Child Left Behind, algo como uma lei de responsabilidade educacional americana, que vigiu até pouco tempo, foi um rotundo fracasso como admite o próprio “perdão” dado por Obama aos estados, e não foram poucos, por não terem atingido suas metas. A principal era a de que em 2014 – sim, 14 – todas as crianças americanas seriam proficientes em leitura e matemática.

Este objetivo foi denunciado exaustivamente como sendo inatingível, ao longo da vigência da lei. Mas nada convenceu os reformadores empresariais americanos de que estavam no caminho errado. A lei teve sua reautorização abandonada seis anos no Congresso americano e só foi examinada recentemente e convertida no Every Student Succeeds Act que introduziu algumas mudanças importantes.

Algo bem parecido com as exigências americanas da antiga NCLB existe em nosso PNE, na estratégia 7.2.

Para que serviu? Para estabelecer uma série de pressões sobre as escolas, que durante o período (a lei foi aprovada em 2001), não estivessem alinhadas com a possibilidade de chegar em 2014 com a meta atingida e colocá-las na trilha da privatização.

Entre estas “ações de acompanhamento” cresceu o uso de um procedimento conhecido como “turnaround”. Como sempre, estas coisas vêm da área empresarial, pois esta é a base conceitual das reformas empresariais da educação.

Para saber como é usado na indústria, clique aqui.

Para um resumo do que é “turnaround”, clique aqui.

Entre as várias formas de aplicação desta “ferramenta”, existe a que privilegia a “substituição” a qual implica em uma troca dos integrantes da gestão, entendendo-se que já tiveram sua oportunidade e que seus métodos não conduziram ao sucesso. A nova gestão, estaria, então, mais susceptível à mudança.

“Turnaround” pode ser traduzido por “dar uma virada” na organização.

Como sempre, os reformadores acham que se transferirem os métodos de funcionamento das indústrias e empresas para dentro da educação, criando competição, a qualidade da educação melhora. Partindo desta fé na iniciativa privada, é que fazem as mudanças – sem necessidade de outra evidência empírica.

Uma vez posta em marcha as mudanças é que aparece a necessidade de “provar” que ela deu certo. Aí, então, começam os relatórios conduzidos por advogados das próprias ideias com o objetivo de legitimá-las, a posteriori, e convencer outros a imitar a grande ideia.

É nesta trilha, já conhecida, que apareceu nos Estados Unidos um relatório que tenta mostrar que o “turnaround” é eficaz na melhoria da qualidade da escola, chama-se: “Encontrando uma medida do sucesso do “turnaround” escolar, pelo impacto público”, publicado pelo WestEd’s Center on School Turnaround, por Cassie Lutterloh, Jeanette P. Cornier, e Bryan C. Hassel.

O pessoal do Colorado, do National Education Policy Center (NEPC), revisou o relatório. O estudo foi analisado por Tina Trujillo e Marialena Rivera e conclui que:

“No entanto, uma revisão do relatório conclui que, dada a escassez de evidências de pesquisas e técnicas metodológicas adequadas incorporadas em sua análise, bem como a omissão de vários estudos rigorosos e revistos por pares que contradizem a maioria das suas propostas, o relatório não atende a um padrão mínimo de evidência para apoiar as suas reivindicações.”

Os formuladores de políticas e profissionais que procuram orientação sobre como medir o sucesso do “turnaround” não vão encontrar recomendações que valham a pena. Em vez disso, os revisores concluem que tais formuladores vão encontrar algumas recomendações infundadas e outras que estão em contradição com a sólida pesquisa revisada por pares.”

Como tem sido frequente, estas tentativas não convencem, pois, em ciência, quando se divulga um relatório, logo ele é examinado pela comunidade científica quanto à sua “saúde” metodológica e quanto à propriedade dos dados apresentados versus seu potencial para justificar as conclusões. A revisão de pares é essencial para validar um estudo.

Encontre a revisão de Tina Trujillo e Marialena Rivera aqui.

Encontre o relatório original de Cassie Lutterloh, Jeanette P. Cornier, & Bryan C. Hassel aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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