MacLean: salvar o capitalismo da própria democracia – final

(Continuação de post anterior.)

Para onde podemos avançar? A ideia, aqui, não é afastar ninguém da luta. Precisamos de todos. Mas também precisamos fazer uma crítica do que não deu certo. Não podemos fazer de conta que não cometemos erros neste processo que acabou com um golpe, sob pena de repetirmos os mesmos erros. Este processo de levantamento de erros é fundamental para a compreensão do momento e para o futuro da organização da resistência. As entidades organizativas poderiam fazer isso com mais propriedade e acerto.

Arrisco dizer que o ensinamento que parece estar sendo configurado é que nenhuma destas vertentes – cada uma a seu modo – conseguiu se conectar adequadamente com os movimentos sociais organizados, base de sustentação dos avanços sociais. Não falo da conexão com as lideranças, mas da conexão com a base destas organizações.

Devemos levar em conta o alerta pós-moderno sobre a importância do papel do indivíduo e de sua narrativa. Nos processos de mobilização é fundamental o papel da subjetividade ou das chamadas condições subjetivas, mas é preciso que haja interesses coletivos mobilizados em jogo. O mero desejo individual dissonante não aglutina. Sem causas comuns, não há movimento comum.

O pós-modernismo desmobiliza, pois enfatiza as motivações individuais, ao considerar todo coletivo um opressor em potencial e ao anular as filosofias sociais. Acaba por favorecer o individualismo, mote da nova direita também. Sem contar que a recusa a mobilizar coletivamente os indivíduos deixa-os no isolamento e mais facilmente à disposição das mídias. Não há espaço vazio na política.

Não devemos igualmente, desprezar os processos de negociação por dentro ou por fora do Estado. Não se trata disso. Parece que um dos cuidados no futuro estará em levar em conta o alerta dos pós-modernos para o papel da significação individual que os fatos sociais geram nas pessoas (a elaboração do senso comum de que também fala Gramsci), atuando nesta direção, mas retirando disso o viés individualista pós-moderno, estimulando a atuação dos indivíduos também em causas coletivas e mobilizadoras que gerem participação ativa e pública na defesa e na construção de uma nova filosofia social. Por outro lado, ainda que não descartemos a negociação nas instâncias do Estado, é preciso que haja conexão entre quem negocia e amplas bases de sustentação. Vale dizer, não basta frequentar Comissões e Gabinetes e depois “contar” os avanços obtidos nas negociações.

Sem isso, tanto em um caso como em outro, seja a negociação nas instâncias legítimas de participação da sociedade civil, seja a relevância da  individualidade, não fortalecerá nossa relação com os movimentos sociais, fazendo com que estas negociações e a própria ação individual não tenham consequência, pois as negociações apenas servirão para legitimar a ação dos governos (que pode ser anulada pelos retrocessos políticos) e o indivíduo se fechará impotente em suas significações vitimado pelo individualismo.

Isso tudo para dizer que a resistência se organiza, agora, por baixo e coletivamente. Cada estudante, cada professor, cada gestor, cada pai de aluno são individualidades importantes que aglutinadas em causas coletivas farão diferença. Devemos apostar nas forças vivas da escola e de sua comunidade. Temos que disputar o espaço da escola. É lá que os empresários estão legitimando suas posições, através de suas fundações e institutos, constituindo uma rede difusa e informal de definição de políticas.

Temos igualmente que cerrar fileiras em torno das nossas entidades científicas, de direitos humanos, sindicais e outras mais, de forma a fortalecê-las. Elas estão na mira da nova direita que quer impedir a organização das pessoas para pressionar as políticas públicas.

O atual governo não vai negociar nada, estamos dentro de um golpe e, mesmo que queira negociar, num raro sinal de inteligência, já aprendemos que sem movimentos sociais fortes na retaguarda das negociações, ficamos ao sabor do jogo de poder dentro do Estado, o qual em última instância pode desaguar em golpe.

No entanto, o futuro não pertence à nova direita. Ela representa a velha ordem, não importa a roupagem que use. Da posição intransigente e agressiva da nova direita podemos deduzir que tal reação autoritária do capital sinaliza que esta filosofia social vivencia seu próprio processo de desintegração.

Outra não é a posição de Henry A. Giroux:

“No meio de um enorme ataque global ao estado do bem-estar social e às disposições sociais, alimentadas por políticas neoliberais, o contrato social central das democracias liberais foi destruído e com ele qualquer noção viável de solidariedade, justiça econômica e bem comum. O progresso foi transformado em seu oposto e registra mais desigualdades, sofrimentos e violência. A linguagem antiga dos direitos coletivos deu lugar ao discurso dos direitos individuais, e o vocabulário da colaboração e compaixão foi deslocado por um discurso de individualismo radical e um ethos áspero da sobrevivência do mais forte. A “liberdade” se transformou em sinônimo de interesse próprio desenfreado e uma racional para abdicar de qualquer senso de responsabilidade moral e política.”

Não estivesse em decomposição, não precisaria destruir a própria democracia liberal e ser violenta para sustentar suas posições.

Ao mesmo tempo que isso nos faz prever por tempos muito difíceis, violentos, também é um alento para quem entende que o capitalismo já cumpriu sua função histórica e deve seguir abrindo caminho para uma nova filosofia social. As coisas podem não estar ido bem para nós, na batalha presente, mas não estão muito melhores para eles, no balanço geral da guerra.

 

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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