Até onde a “nova” direita pode chegar? Atualizado.

Dória anuncia que dará comida de astronauta para população pobre de São Paulo, doada por empresa. A política pública da mendicância, que coloca as políticas sociais na dependência de doações de empresas desejosas de marketing, claramente avança o sinal.

“O produto batizado de Allimento é feito pela empresa Plataforma Sinergia, que, segundo a gestão Doria, doará os alimentos processados. Segundo o site da companhia, eles estão “em datas críticas de seu vencimento ou fora do padrão de comercialização, razões que não interferem em sua qualidade nutricional ou segurança”.”

Leia aqui.

Ronaldo Lemos comenta o disparate em “Após o ‘fake news’, o ‘fake food’”:

“Um composto como esse viola frontalmente as diretrizes da ONU sobre “alimentação adequada”. Em relatório de 2015, esse termo foi definido como “o direito ao acesso regular, permanente e irrestrito a comida que corresponda às tradições culturais daquela pessoa e que assegure seu bem-estar físico e mental, respeitando sua dignidade”. Além disso, produtos assim nunca foram testados no logo prazo com relação ao consumo humano.”

Lembrando Buchanam um dos articuladores da agenda da “nova” direita, estudado por MacLean:

“Buchanam escreveu em 2005: uma pessoa que fracassa em guardar dinheiro para suas necessidades futuras “deve ser tratada como um membro inferior da espécie, similar … aos animais que são dependentes”.”

Atualização: Hélio Schwartzman defende a “farinha do prefeito” hoje na Folha de São Paulo.  E não me digam que não é defesa e que são apenas “perguntas”. O fato é que há ali uma “seleção de perguntas” que levam o leitor a responder sim à farinha, finalizando com a mesma tática do prefeito Doria: acusar a esquerda para tirar de foco o problema central. Há outras perguntas que não foram feitas por Hélio.

A análise parte da comparação com tratamentos de drogas que segundo ele teriam equivalência e a esquerda defende. Além disso, ele argumenta que dos males o menor: a procurar comida no lixo ou a comer alimentos menos calóricos do que as criancinhas precisam, então porque não dar a farinha do prefeito, pergunta.

Faltou a pergunta básica: por que as crianças pobres não têm caloria suficiente e são obrigadas a optar entre o lixo e a farinha do prefeito – outro “lixo industrializado”? Esta pergunta nos levaria a muitas outras, mas para deixar barato, nos levaria a ter uma política alimentar séria para nossa infância – especialmente para os mais pobres que nós mesmos produzimos na nossa sociedade. Ninguém faz opção por nascer pobre. O fato é que aí, vem outra pergunta que os do andar de cima logo fazem: quem paga a conta? Ou seja, comida boa, custa. Mas é o que países europeus desenvolvidos fazem – claro, não falo dos Estados Unidos. Vejam aqui, filme de R. Moore.

Esta pergunta que está oculta, tem que ser respondida dizendo-se claramente que a conta deve ser paga com distribuição de renda, a conta deve ser paga com o excedente que os mais ricos retiram das classes mais pobres e que por este ato é devolvida a elas pelo simples fato que é imoral organizar a nossa sociedade de uma forma onde uma pequena parcela acumula infinitamente riquezas, enquanto explora e joga a maior parte da sociedade na precarização, na fome e na miséria, retirando até condições de alimentar adequadamente seus filhos. Esta é a pergunta que falta.

A injustiça desta alternativa saltaria logo à vista se fizéssemos, nós, uma pergunta a ele, como pai: se a farinha pode ser uma boa solução, porque ele não a dá para os filhos dele? Certamente ele diria: meu filho já tem calorias suficientes e acima do que este alimento poderia proporcionar. Eis o problema: porque os dele tem e os dos pobres não.

O fato é que empresas viram uma “oportunidade de negócio” em alimentos prestes a estragar (resolve também o problema dos supermercados e outros) e resolveram ganhar dinheiro com isso industrializando o que vai virar lixo, antes da data de vencimento. Há outras alternativas que seriam muito mais inteligentes e inovadoras: porque não estabelecer uma ponte entre a agricultura familiar fazendo com que se incentivasse o escoamento dos alimentos ali produzidos in natura? Tratar pré-lixo para dar às crianças é uma forma preguiçosa e cômoda para encontrar matéria prima barata para gerar mais lucros a tais empresas que comercializam a farinha.

Que responsabilidade temos nós todos, inclusive o poder público, em garantir a todos, independente de nível socioeconômico, alimentação adequada nos termos da definição da ONU (ver acima)? Ou vale o que Buchanam afirma: “uma pessoa que fracassa em guardar dinheiro para suas necessidades futuras “deve ser tratada como um membro inferior da espécie, similar … aos animais que são dependentes”?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Doria na Prefeitura de SP, Privatização. Bookmark o link permanente.

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