Por que votarei em Haddad

Afinal, o cenário vai ficando claro. O “centrão” derreteu. A esquerda cresceu e ameaça os planos direitistas. E fica cada vez mais claro que as direitas vão se juntar para dar continuidade ao golpe de 2016, apoiando Bolsonaro. É da sua natureza. Diferenças à parte, a velha direita, movida a militares de reserva, e a nova direita, movida a empresários, constituem o núcleo duro do que se chama “neoliberalismo”: uma junção entre “autoritarismo social” e “liberalismo econômico”.

A nova direita prefere a democracia, mas justifica até um golpe se necessário para implantar o livre mercado. É que para ela, livre mercado é sinônimo de liberdade pessoal e social (Hayek, Mises). Apoiar Bolsonaro não é um grande esforço para a nova direita. A eleição de Bolsonaro apagaria a imagem do golpe de 2016 e forneceria a ela a legitimidade que precisa para implantar todas as reformas que ainda estão na gaveta. Para isso, é preciso que a velha direita entregue os postos econômicos do futuro governo à nova direita – o que não é um grande sacrifício para a velha direita até porque ela não tem propostas econômicas definidas.

O MDB e o PSDB/DEM estiveram à frente do golpe de 2016. O PSDB saiu mortalmente ferido da confusão que ele mesmo ajudou a construir desde que Aécio resolveu dar uma de Bolsonaro e não reconhecer os resultados das eleições de 2014. A culpa vai ficar com Alckmin, mas as causas são mais profundas.

O MDB não é partido de disputa presidencial. Tem seu foco mais no congresso elegendo deputados e senadores. O PSDB nem isso percebeu ao se apoiar nele para o golpe. Alckmin (PSDB) não é confiável perante a “nova” e a “velha direita”. Só agora o PSDB percebe que as baterias de Moro no judiciário, não atingiram apenas o PT. Para a “nova direita” o centro já é perigoso, pois tem ares de socialdemocracia. O PSDB interessou apenas como hospedeiro da nova direita, com Doria, Aécio e outros. Ficou sendo apenas uma sigla de aluguel para abrigar provisoriamente a “nova direita” que agora começa a criar seu próprio locus eleitoral: o Partido Novo.

O PDT de Ciro não é confiável – para a nova direita falar em “trabalhismo” já é perigoso. A nova direita quer clareza nas posições e fidelidade ao seu projeto. Doria até tentou sair do PSDB e mudar para o DEM, mas desistiu. Esta foi a vacilada crucial da “nova direita” e de seu representante mirim (isto está revelado no fato de que há uma disposição de quem vota em Bolsonaro, votar também em Doria no Estado de São Paulo). No meio disso tudo, o PT cresceu a ponto de ameaçar os planos direitistas.

Depois de muita confusão no centro, empresários, grande mídia, parte do judiciário e dos políticos resolveram que a saída será apoiar Bolsonaro.

O reflexo disso já é perceptível: Moro começou a agir, requentando delações que já haviam sido recusadas pelo próprio Ministério Público; a Globo está em campo para formar opiniões, comandando a grande mídia; Ibope curiosamente aponta crescimento de Bolsonaro em uma semana em que foi alvo de ataques e manifestações gigantescas das mulheres, que a mídia preferiu ignorar; e por aí vai…

Bolsonaro eleito, será um mero fantoche destas forças políticas mais estruturadas que têm como núcleo ideológico a combinação entre “autoritarismo social” e “liberalismo econômico”. Estas forças atuaram no golpe de 2016. A polarização de hoje é mera continuidade da polarização provocada com o golpe de 2016. Suas causas devem se reportar ao impeachment.

A eleição de Haddad, neste quadro, representa a possibilidade de barrar o neoliberalismo entreguista no Brasil e se impõe em um cenário em que está em jogo o próprio futuro do país.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para Por que votarei em Haddad

  1. Josemilton Costa disse:

    O fascismo se aproxima com passos largos e com possibilidades de ganhar as eleições e trazer o caos para os trabalhadores!

  2. Debora Mazza disse:

    Luis reflexão produzida em momento oportuno. Sugiro ler o artigo de Roberto Moll sobre Neoliberalismo e Neoconservadorismo para desenharmos cenários mais ou menos temerosos.
    .
    http://unesp.br/semdiplomacia/opiniao/2015/43

    • Ola Debora. Bem, não sendo um cientista político, o que vou dizer deve ser submetido a escrutínio mais rigoroso. Também não sei se entendi em toda a extensão o que o autor quer diferenciar.
      No entanto, sem discordar do autor quando à caracterização, penso que o que há de comum entre estas denominações é o livre mercado. Se retirar isso dos neoconservadores, o que sobra é o velho conservadorismo. Prefiro achar que os conservadores pegaram um carona no neoliberalismo para alavancar um “neo” conservadorismo. Também penso que o autoritarismo social não é uma prerrogativa do neoconservadorismo. Ele está dentro do neoliberalismo. Friedman e Buchanan estavam juntos apoiando o projeto neoliberal de Pinochet, embora o primeiro seja mais técnico e o segundo mais político. O próprio Hayek em pessoa foi ao Chile apoiar Pinochet. Portanto, penso que o neoliberalismo tem um componente autoritário que advém da sua tese fundante: a liberdade pessoal e social advém do livre mercado. Provisoriamente, é isso.
      Abraço
      Luiz

  3. Pingback: Sessão Especial: Eleições 2018 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

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