Sandel: a tirania do mérito

Livro de Michael Sandel é traduzido no Brasil pela Civilização Brasileira. “A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem-comum?” é uma contribuição valiosa para entender o processo de radicalização do populismo autoritário nos países centrais e sua relação com a valorização da meritocracia, além de ser uma excelente análise dos seus elementos constitutivos.

Na mesma linha de Nancy Fraser, o autor considera que os governos que se seguiram a Thatcher e Reagan e que se dispuseram a mitigar as consequências mais duras do neoliberalismo sem descaracterizar seu apego ao mercado e ao mérito – a conhecida terceira via de Clinton, Blair e Obama – acabaram por implantar mais ainda a noção de responsabilidade pessoal que incorpora as mesmas teses do neoliberalismo vinculadas à igualdade de oportunidades combinada com responsabilidade, base da meritocracia. Diz o autor:

“Eis aqui a conexão entre a retórica da ascensão e a ética meritocrática: se oportunidades são verdadeiramente iguais, pessoas não somente irão ascender até onde seus talentos e o trabalho árduo as levarem, mas também o sucesso delas será resultado da própria ação, e merecerão as recompensas que chegam a elas.” (Posição 1567.)

A compreensão deste aspecto cultural do processo de privatização e suas formas é essencial para que construamos um quadro mais completo da proposta sócio-política que se encontra em curso. E ganha importância no Brasil, pois constrói-se, como já alertamos em outra post, agora de maneira mais definida, um agrupamento político que tem como centro o PSDB, DEM e MDB destinada a defender as teses de um neoliberalismo mitigado, uma espécie de “neoliberalismo progressista”.

O alerta de Fraser e agora de Sandel afirma que foi este tipo de neoliberalismo que acelerou a conversão das camadas populares ao populismo autoritário, ao defender o papel social do Estado apenas para as pessoas que estivessem no infortúnio, mas que não fossem, elas mesmas, culpadas de estarem nesta situação. Para Sandel:

“O Estado de bem-estar social tornou-se menos “mediador de responsabilidade” e mais “rastreador de responsabilidade”. Limitar a elegibilidade para as políticas de bem-estar social às pessoas que estão passando por situação difícil devido à falta de sorte, em vez de mau comportamento é exemplo de tentativa de tratar as pessoas de acordo com seu mérito.” (Posição 1626.)

Como alerta Sandel, ao invés de esbravejarmos contra as políticas populistas, é preciso que entendamos qual foi a queixa que colocou estas camadas populares e também as camadas médias na rota do populismo autoritário.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s