Campinas revela “ligações perigosas”

Em um total desconhecimento da capacidade existente no interior da rede municipal de educação de Campinas, o prefeito Jonas Donizetti contrata empresa de consultoria para melhorar o IDEB.

A medida revela o total desconhecimento sobre como se introduzem inovações e melhorias no âmbito da educação. Trata-se de gasto que não reverterá em benefício para o município, como mostra a literatura em outros espaços que utilizaram a mesma abordagem. Contratam-se “soluções” sem pensar nas consequências e sem levar em conta as evidências. Os recursos públicos que deveriam ser destinados às escolas, acabam indo para o bolso de empresários que operam no mercado educacional. Esta drenagem contribui para a piora da educação pública a qual alimenta o ciclo vicioso da privatização.

A contratação, no entanto, contribui para esclarecer uma série de ligações perigosas que marcam a constituição do bloco dos reformadores empresariais no Brasil e a constituição, em paralelo, do mercado educacional operado por empresas, fundações e ONGs ligados ao ideário dos reformadores. As mesmas figuras que aparecem em um campo, tendem a aparecer no outro. Nos Estados Unidos este mercado é de quase 1 trilhão de dólares. E por aqui, vem pre-sal…

A empresa contratada em Campinas tem ligações históricas com Jorge Gerdau, o atual presidente do Movimento Todos pela Educação que antes de ser chamado por Dilma chegou a presidir o grupo INDG ao qual está ligada a atual consultoria. Aécio Neves a contratou também para o tal “choque de gestão” de Minas. À época tinha o nome de INDG e após mudou para Falconi. Só no governo federal o faturamento da Falconi foi de quase 60 milhões de reais, sem contar o faturamento em Minas com Aécio.

Gerdau entende que a varinha mágica da iniciativa privada quando toca quaisquer setores do serviço público o transforma, lhe dá eficiência. Anda pelos governos estaduais abrindo frentes para projetos financiados por empresários. Trabalha de graça para Dilma, sem salário. Não precisa. A questão é que ele é uma ponta de lança ideológica que abre o mercado abaixo dele. Sobre isso já falamos neste blog (veja aqui e aqui).

A empresa contratada em Campinas é a mesma que foi recusada no RS (veja matéria aqui). Veja também aqui matéria completa sobre o contrato em Campinas.

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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3 Responses to Campinas revela “ligações perigosas”

  1. Avatar de M. Estela Sigrist Betini M. Estela Sigrist Betini disse:

    As escolas selecionadas, em todas as intervenções, não só em Campinas, tem como foco inicial trabalhar com escolas que já têm um IDEB melhor na rede de ensino. Ilusoriamente é a ação da assessoria contratada que faz a escola ter melhores índices. Os docentes das escolas públicas tem competência para ir superando os problemas que há na educação brasileira, e vem fazendo isso. Mobilizar-se para assumir o protagonismo desta superação é a tarefa de todos os docentes da escola pública brasileira.

  2. Avatar de Eloisa De Blasis Eloisa De Blasis disse:

    Prezado Professor Freitas,
    ” A educação sob controle dos homens de negócios” se consolida. Sob o pretexto de melhorar o IDEB acumulam-se engodos como o dessa consultoria e amplia-se a escalada das estrategias de negócios e modismos na educação. As avaliações de larga escala, por exemplo, parecem estar entrando em uma nova fase, avançando, para além da medição de habilidades cognitivas para a medição de “habilidades não cognitivas, ou sócioemocionais”.
    O Instituto Ayrton Senna em parceria com a OCDE, Mec e Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, desenvolveu um estudo junto à rede de escolas do Rio para mensurar o desenvolvimento socioemocional dos alunos e relacioná-lo com o desempenho educacional / cognitivo . Dizem os idealizadores do estudo que a intenção é apoiar políticas públicas preocupadas em preparar as crianças para o desafios do século 21.
    Tenho procurado entender melhor o assunto e temo que avaliar atributos de personalidade, como perseverança, extroversão, autocontrole, entre outros, possa se transformar em estratégia de reforço à exclusão.
    Lembra-se do tempo em que as escolas avaliavam “comportamento”? Sou desse tempo e lembro da rubrica “comportamento” no meu boletim, com atribuição de notas entre 0 e dez. As escolas ainda avaliam “comportamentos”, mas não informam mais as notas no boletim…
    Habilidades sócio-emocionais não deixam de ser habilidades cognitivas, o termo busca diferenciá-las de habilidades relacionadas a conhecimentos e conteúdos escolares.
    Os instrumentos que o I A Senna usou com alunos da rede escolar do Rio de Janeiro se baseiam em aspectos psicométricos utilizados correntemente em setores de RH das empresas e corporações. Ou seja, são atributos desejáveis para o mercado de trabalho. Mas, se utilizados para mensurar alunos em fase de escolarização e em larga escala, como evitar que se tornem fatores de exclusão desde a escola?
    Ao avaliar em larga escala esses atributos, supõe-se q possa haver expectativas em relação ao trabalho escolar no desenvolvimento dessas habilidades. Como isso se daria, se nem mesmo as noções de habilidades cognitivas traduzidas em descritores nas matrizes avaliativas de L Portuguesa e Matemática da Prova Brasil estão devidamente apropriadas pelas escolas?
    Embora valores e atitudes estejam presentes no processo escolar e hajam recursos para identificar se foram apropriados, medir assim, em larga escala e cruzar com o desempenho escolar já acho um exagero …
    Economistas de plantão e “intelectuais” ligados a grupos empresariais estão puxando a conversa, defendendo que é possível também medir esses traços, pq eles tem impacto no sucesso escolar e vida futura; q contribuem para melhorar o ambiente escolar e para a formação da identidade e projetos de vida.
    O MEC e a Capes estão envolvidos na discussão. A Capes lançou uma linha de pequisa para incentivar as universidades a abrirem espaço para pesquisas nessa área, com distribuição de bolsas de estudo.
    Tem um economista americano (James Hackman) trabalhando com a OCDE q diz que os testes de larga escala corromperam os sistemas educacionais ao induzir gestores, professores e alunos a desenvolver o ensino e a aprendizagem a partir dos testes e q o importante é mostrar quais habilidades são mais importantes para a vida e o quanto elas impactam na aquisição de conhecimentos.
    Como a intenção dos economistas e empresários ocupados com a questão é influenciar as políticas públicas, acho q devemos ficar atentos. Por isso tomo a liberdade de lhe escrever para perguntar qual sua opinião a respeito?
    Atenciosamente
    Eloisa De Blasis

  3. Avatar de OCP Systems OCP Systems disse:

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