TPE, Mozart e as lutas pós-eleitorais

Foi uma operação arrojada, ainda que até agora não tenha dado certo. O movimento Todos pela Educação (TPE) tentou emplacar aquele que foi seu primeiro presidente, Mozart Ramos Neves, no governo Bolsonaro. Aparentemente, nesta primeira batalha, não deu. O TPE foi o principal derrotado nesta quarta.

Leonardo da Vinci dizia que a função da igreja é “viver bem dentro do Estado”. Outra não é a função do TPE. Mas, outra igreja – de verdade – agora já havia chegado antes, a dos evangélicos conservadores que, curiosamente, consideram a educação um campo ideológico e que tem que ficar sob seu controle – ainda que na outra ponta, hipocritamente, preguem a “escola sem o partido” (dos outros).

O apoio dado por Viviane Senna ao visitar Bolsonaro antes das eleições, credenciando-se, portanto, a fazer proposta depois das eleições, não fez nem cócegas ao se contrapor com o apoio de um Silas Malafaia, dado também antes da eleição.

Viviane, através de Joice Hasselman (PSL),  havia participado de uma reunião com Onyx onde teria aparecido o nome de Mozart, a título de apresentar um panorama geral da educação, e levou o Insper (Ricardo Paes de Barros) e o Todos pela Educação (Priscila Cruz) com o documento – Educação Já. Hasselmann é a mesma que apresentou Paulo Guedes a Bolsonaro.

Na reunião com Onyx, apareceu o nome de Viviane como futura ministra. Ela negou. Na segunda reunião, apareceu o de Mozart. Nas manifestações posteriores à reunião Viviane foi crítica ao “escola sem partido”. Mozart silenciou. O limite do compromisso de Viviane-Mozart estava anunciado. Como Mozart teria acenado positivamente ao cargo de ministro, nestas condições, a bancada evangélica foi avisada e logo em seguida o jornal Estadão, conservador também, vazava a informação. A Folha de São Paulo acompanhou. Mas o jornal O Globo on line, atravessou o dia impassível sem anunciar Mozart como novo ministro da Educação. Era sinal de que havia “boi na linha”.

Quando a confusão se instalou com os evangélicos, o Instituto Ayrton Senna, de Viviane, onde trabalha Mozart, apressou-se a emitir nota dizendo que não havia tal convite. Bolsonaro idem. E já ao final da tarde do dia 21-11-18, o próprio Bolsonaro dizia que não havia sido tomada uma decisão e que o nome de Mozart não estava entre as possibilidades.

No dia seguinte (22-11-18) Bolsonaro afirmaria com ares de inocente, que:

“Talvez, a intenção de pregar alguém como o senhor Mozart como ministro foi tentar fazer que a bancada evangélica se voltasse contra minha pessoa. Nem foi cogitado o nome do senhor Mozart para ser ministro, então não procede isso.

Leia aqui.

Ainda no dia 21-11-18, a Folha de São Paulo revelou o impasse evangélico, e o Estadão informava a nomeação até as 15 horas quando desmobilizou a notícia. Através de um de seus blogs, no dia seguinte, o Globo on line viria a lamentar a não indicação de Mozart (22-11-18).

Isso tudo não tem nada a ver com fake news. É a luta interna no governo, onde as várias tendências que apoiaram Bolsonaro se apresentam para exigir seus espaços. Bolsonaro nunca foi o candidato da direita e do centro antipetista. Na verdade, foi o candidato que restou à direita apoiar para barrar a esquerda – depois que a anti-política iniciada na lava jato destruiu a todos os partidos. A estratégia dela inclui tentar o controle do capitão durante os próximos quatro anos.

No campo da economia isso foi negociado antes com a entrega da economia ao liberalismo econômico (para quem a democracia não é uma necessidade, já que a liberdade advém do livre mercado, com ou sem eleição). Mas no campo da educação, o capitão acenou claramente para os conservadores, de onde ele vem, incluído aí os evangélicos. Portanto, quando a direita, após as eleições, tenta chegar a Bolsonaro para colocar sua agenda educacional, já encontra o território ocupado pelos conservadores do escola sem partido e outras baboseiras mais.

A saída possível para o TPE e seus aliados é encontrar, agora, um nome que combine a defesa da iniciativa privada no campo da educação (o que Mozart representa com o aval de Viviane Senna) com um perfil conservador que não tenha vergonha de apoiar o escola sem partido. Penso que, novamente, os evangélicos estarão mais vem posicionados para ganhar esta batalha.

A direita sabe que fez um jogo arriscado apostando em Bolsonaro. Mas não tinha outra alternativa. No campo da economia pode ser que dê certo, a conferir durante o mandato, se os militares não se incomodarem. No campo da educação, até agora, não deu certo com um “puro sangue”.

Hoje à tarde tem mais estrepolias na corte… Bolsonaro vai receber o procurador Guilherme Schelb – o mesmo que editou medida extrajudicial no DF alertando as escolas que deveriam abster-se de ideologia de gênero e de ensinar sexualidade – para uma conversa sobre educação no dia de hoje (22-11-18) (leia aqui também).

Aos poucos, vai ficando claro a que veio Bolsonaro:

“Ainda no discurso desta quarta-feira, o presidente eleito afirmou que a “questão ideológica” é “muito mais grave” que a corrupção.”

Leia aqui.

Pela lógica ideológica do capitão, Mozart estaria fora e Schelb – ou equivalente – dentro. No entanto, sobre o governo Bolsonaro nada pode ser dito com segurança, pois como militar que é, conhece a importância de jogar camuflado: para cada reclamação, propõe um candidato a ministro que a atende. Na educação há pelo menos uns seis nomes para agradar a todas as tendências e bancadas. Com isso, mantem os apoios até o limite. Enquanto não sair no seu twitter do capitão, tudo pode virar “fake”.

O TPE que foi criado por acadêmicos, sociais-democratas, empresários, filantropos e a própria direita – ocultos sob a tarefa de interessar “todos pela educação” em 2006, durante o governo Lula na gestão de Fernando Haddad (e com sua participação), sempre teve a porta aberta na era PT. Agora, só terá vez se ignorar um ministro que defenda o escola sem partido.

 

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para TPE, Mozart e as lutas pós-eleitorais

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