ENEM: masoquismo deliberado

O governo atual gosta de praticar uma “meritocracia masoquista”. Toda meritocracia sempre conduz ao “delírio do vencedor” sobre os “vencidos”. É como um grande triunfo do mais forte – pelo menos até que apareça outro mais forte ainda – como alertava Rousseau.

É assim que o governo (e seus seguidores) tripudiam sobre os mortos da pandemia com o simbolismo de um churrasco presidencial enquanto se chega a 10 mil mortos, e também tripudiam – mantendo as datas do ENEM – sobre aqueles que estão ficando para trás na aprendizagem escolar pelos impactos desta. A simbologia é que a vida é para os mais fortes e a morte é parte de um processo de depuração dos mais fracos. A vida é um jogo: ganha-se ou perde-se e a responsabilidade é dos indivíduos e de suas escolhas. Reproduz-se para todas as atividades sociais – especialmente para a Educação – o modelo das “bolsas de valores” e da importância da “resiliência”.

Este liberalismo radical entende que a sociedade deve ser totalmente desregulamentada e o Estado reduzido a um mínimo – a caminho de sua eliminação. E é para destruir o Estado (e seus poderes) que estão lá. Para estes, a “lei” é um instrumento opressor. E é por isso que assistimos a demonstrações bizarras de “soldados” destas ideias enfrentado o Estado (e a polícia) tentando entrar em praias e praças interditadas ou até entrar em supermercados sem máscaras ou usando-as inadequadamente para desafiar as autoridades e passar a mensagem de que é o indivíduo que deve escolher se quer ou não contrair Covid19 e não uma imposição do Estado. Deixam de lado a repercussão de suas ações sobre os outros: estes que façam o que bem entenderem, que se virem.

Fazem destes atos – normalmente gravados e distribuídos pelas redes – uma propaganda de suas ideias. Querem radicalizar para veicular a mensagem de que na base da vida está a escolha pessoal dos indivíduos. Para eles, tentar prever ou organizar tais escolhas com planejamento é inútil pois ninguém poderá prever o que os indivíduos farão ou porque farão, já que não se conhecem as intenções das pessoas – como propõe a praxeologia de von Mises, o pai destas orientações radicais, amplificadas por Rothbard. E a primazia do interesse do indivíduo, ineducável para a vida coletiva. É a exacerbação do individualismo e a descrença em qualquer forma de aprendizagem de regras de convívio coletivo, já que todo coletivo é visto como opressor, à imagem do Estado.

E com isso, tudo (inclusive a miséria) se explica pelas opções (intenções) de cada um. Pode-se, por esta lógica, até deduzir que a miséria teria a função de impulsionar as pessoas a evoluir, não sendo um mal em si.

Assim, todo o mal advém da existência do Estado e claro de funcionários públicos que acostumam as pessoas a depender do Estado, porque tais funcionários teriam interesse em tirar vantagens pessoais. Segundo este liberalismo radical, a atuação do Estado agrava problemas que poderiam ser resolvidos com maior propriedade e rapidez se os indivíduos fossem inseridos em “trocas voluntárias” entre si, sem intermediação.

Na educação não é diferente. Diz o ministro da Educação que o ENEM “não foi feito para corrigir injustiças”. Ou seja, não é que elas não existam, mas elas não são uma questão do Estado. A frase manifesta um desprezo pelas injustiças e, ao mesmo tempo, um reconhecimento de que a injustiça pode ter uma função de estímulo – bem como as dificuldades geradas pela pandemia. De fato, a frase revela que não se vê nenhuma injustiça no processo, mas sim apenas a vitória daqueles detentores de mérito, os quais  mesmo em meio à pandemia, se superaram.

Manter os exames significa manter em tensão milhares de jovens que neste momento estão sem condições de preparar-se, mas em dúvida se haverá ou não exames, em meio a toda sorte de pressões geradas pela pandemia. Para esta visão, isto é um estímulo ao estudo.

No entanto, sabemos que os exames medem menos o conhecimento e muito mais o nível sócio-econômico dos estudantes – até 60% dos resultados obtidos pelos alunos nestes testes são explicados pelo nível sócio-econômico. A meritocracia é um jogo de cartas marcadas.

Em 19 países os processos de acesso ao ensino superior estão sendo adiados ou até mesmo cancelados.

Leia mais aqui.

Esta posição também significa pressionar para que se possa voltar às aulas e girar a economia: no caso das escolas, permite que os pais sejam liberados para o trabalho e o empresariado possa retomar os lucros. Afinal, como dizem os empresários da educação privada: “o Brasil não pode parar de estudar” e eles não podem parar de lucrar.

O governo parece deleitar-se com tudo isso. Mas não é loucura. O que está em curso é uma concepção de como deve ser organizada a sociedade: trata-se de uma proposta sócio-política de conformação do que chamam de “nova liberdade” e “nova democracia”. O sentido destes conceitos foi deliberadamente pervertido. Portanto, quando dizem que defendem a “liberdade e a democracia” é preciso indagar qual o sentido que atribuem a esses conceitos.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Enem, Meritocracia, Segregação/exclusão, Weintraub no Ministério e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para ENEM: masoquismo deliberado

  1. Pingback: Educação em Debate, edição 276 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s