Os governos avaliam o que interessa. Isolam o desempenho do aluno, avaliam os professores e esquecem das condições, a principal parte que lhes toca. Mais, difundem os reformadores empresariais, em coro com alguns governos, que falta de condições é desculpa de professor para não ensinar. Os economistas da educação, adoram.
Mas não há nenhuma lógica nesta afirmação que soa muito mais como uma tentativa de ocultação de más condições. E não faltam dados a respeito.
Um engenhoso e original estudo conduzido por uma equipe de pesquisadores como Joaquim José Soares Neto, Girlene Ribeiro de Jesus, Camila Akemi Karino (todos da UnB) e Dalton Francisco de Andrade, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) permite que se verifique que:
“Com base nos dados disponíveis no Censo Escolar 2011 sobre estrutura e equipamentos dos colégios, pesquisadores criaram uma escala de avaliação da infraestrutura escolar das redes pública e privada do País. Os resultados revelam que 44% das 194.932 escolas analisadas possuem apenas condições elementares de funcionamento.”
“Apenas 14,9% das unidades escolares do País (29.026) oferecem um ambiente considerado adequado para o ensino e a aprendizagem.”
A engenhosidade dos pesquisadores está em que eles utilizaram a própria TRI – teoria da resposta ao item – para criar uma “escala de proficiência de infraestrutura”.
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Curiosamente, a manchete escolhida pelo editor do IG, que divulga a pesquisa, foi “Estudo mostra que 44% das escolas do País não têm TV ou computador”. Fosse só isso que faltasse, dava-se um jeito. Mas é muito pior.
Centrar a avaliação da qualidade do ensino no professor e no alunos é desculpa para oculpar más políticas públicas conduzidas pelos governos. No mínimo, há que se criar um índice mais amplo, que incorpore todas as variáveis disponíveis. O trabalho dos autores mostra que isto é plenamente possível. Acontece que não interessa aos governos.