Frase interessante

“Porque não só a eficácia educacional, mas também a composição das classes sociais dos países mudam ao longo do tempo, as comparações de tendências de pontuações de testes ao longo do tempo por grupo de classe social fornece informações mais úteis para os formuladores de política do que comparações da média geral do teste em um determinado ponto ou até mesmo do que as mudanças na média global dos resultados dos testes ao longo do tempo.”

R. Rothstein e M. Carnoy, 2013

http://www.epi.org/publication/us-student-performance-testing/

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Relatório mostra limites do PISA e dos reformadores

Richard Rothstein e Martin Carnoy revisaram dados do PISA e apresentam considerações interessantes em um novo estudo que acaba de ser divulgado chamado: “O que os testes internacionais realmente mostram sobre a performance do estudante americano?.”

Duas questões podem ser levantadas a partir do estudo: primeiro a da consistência dos dados para poder comparar países – missão fundamental atribuida ao PISA para que tenha poder para internacionalizar as políticas educacionais sugeridas pela OCDE. Sem que tenha este poder, não consegue atuar como indutora destas políticas.  E o segundo ponto, diz respeito aos Estados Unidos: se houve ou não melhora nas brechas de desempenho entre alunos favorecidos e desfavorecidos economicamente. E em havendo, se eles teriam relações com as políticas educacionais dos reformadores empresariais implementadas naquele país em especial com o No Child Left Behind, após 2001.

Sobre a primeira questão eles observam em sua conclusão que:

“não é possível dizer se os resultados de qualquer teste particular internacional são generalizáveis e podem suportar conclusões políticas.”

Eles concluem:

“Estamos mais certos de que: fazer julgamentos apenas com base em pontuações médias nacionais, em apenas um teste, com apenas um ponto no tempo, sem comparar as tendências em diferentes testes que se propõem a medir a mesma coisa, e sem desagregação por grupos de classe social, é a pior escolha possível. Mas, infelizmente, esta é a forma como a maioria dos políticos e analistas se aproximam do campo”.

Sobre a segunda questão eles constatam que há sim uma brecha de desempenho entre alunos mais e menos favorecidos. Os alunos mais bem posicionados nos testes são os de melhor nível sócioeconômico. Entretanto, ela é menor nos Estados Unidos do que em países semelhantes. Os autores consideram que houve erro na amostragem do PISA 2009 em relação aos Estados Unidos por sobre-amostragem de alunos mais pobres.

Diane Ravitch indagou dos autores se essa menor brecha encontrada entre alunos nos Estados Unidos se devia a efeitos do No Child Left Behind:

“Eu perguntei a Rothstein se os ganhos podem ser atribuidos à NCLB, e ele respondeu que os ganhos para os alunos mais desfavorecidos foram ainda maiores antes da NCLB.”

Ou seja, há aqui dois aspectos:

1. A chamada “crise educacional” que os reformadores dizem haver nos Estados Unidos como forma de legitimar a introdução de suas medidas salvadoras, não é bem assim. Isso nos faz lembrar Berliner e Bidder que alertam para a “fabricação de crises educacionais” como forma de legitimar políticas educacionais.

2. Quando suas medidas salvadoras foram introduzidas pelo NCLB em 2001, elas diminuiram o ritmo de redução da brecha de desempenho entre alunos desfavorecidos e favorecidos.

Podemos agregar ainda um terceiro ponto:

3. Não devemos ir acreditando em estudos internacionais sem antes submetê-los a um exame detalhado de seus procedimentos metodológicos.

O estudo de Rothstein e Carnoy está aqui.

A reação do PISA ao estudo dos autores está aqui.

(Infelizmente, tudo em inglês.)

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Efeito colateral

A redes de ensino e os professores, pressionados que são por resultados em testes, estão aumentando o recurso à caracterização dos alunos que não aprendem no ritmo esperado como sendo hiperativos.

“Cientistas australianos descobriram que os tratamentos contra o transtorno conhecido como déficit de atenção e hiperatividade provocam um crescimento mais lento durante a puberdade, segundo informa a imprensa nesta segunda-feira (21).

O estudo liderado por Alison Poulton, da Universidade de Sydney, descobriu que uma maior dose deste tipo de remédio coincidia com uma desaceleração maior no crescimento na adolescência, embora não descarte que se possa atingir um tamanho normal ao chegar à idade adulta.” Leia mais aqui.

Remédios para deixar as crianças mais “quietas” e “focadas” produz efeitos colaterais até agora desconhecidos. É mais do que urgente controlar o uso destes medicamentos nas redes de ensino, cujo uso está aumentando.

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Meca dos reformadores, NY reage

Diane Ravitch, em seu blog, comenta que quando Bloomberg foi eleito prefeito da Cidade de Nova Yorque em 2001, sua prioridade era ganhar o controle sobre o Conselho das Escolas. Se antes o prefeito podia nomear apenas dois dos sete membros, agora ele nomeia a maioria dos membros.

Nova Yorque é palco de ensaio de um conjunto de medidas de privatização da educação. O prefeito necessitava deste controle para impô-las.

“Agora, os eleitores e os pais das escolas públicas da cidade se opõem ao controle do prefeito. Em uma nova pesquisa, apenas 18% querem que o prefeito tenha controle.”

Isto é o que a pesquisa Quinnipiac mostrou.

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Alta pobreza e alto desempenho

AFIRMAÇÕES MAL SUPORTADAS MINAM RELATÓRIO SOBRE ‘ESCOLAS DE ALTO-DESEMPENHO E ALTA-POBREZA’

Mark Paige, (508) 910-9037, mpaige@umassd.edu
William J. Mathis, (802) 383-0058, wmathis@sover.net

BOULDER, CO (15 de janeiro de 2013) – Um recente relatório tenta identificar atributos comuns de escolas bem sucedidas. Mas, de acordo com uma análise feita deste relatório, ele deixa de fornecer suporte para suas afirmações, e ignora informações encontradas em suas próprias páginas sobre as necessidades fundamentais para se  enfrentar a pobreza dos estudantes, se é que se quer melhorar os resultados da educação.

O relatório, “Fracasso não é opção: como diretores, professores, alunos e os pais de escolas de alto-desempenho de Ohio, em escolas de alta-pobreza, explicam seu sucesso”, foi escrito por Carolin Hagelskamp e DiStasi Christopher e publicado pela organização Public Agenda.

Ele foi revisado por Mark Paige, um professor da Universidade de Massachusetts-Dartmouth e Direito UMASS. A revisão é publicada pelo NEPC, abrigado na Universidade de Colorado em Boulder na Faculdade de Educação.

O relatório apresenta dados de nove escolas de Ohio caracterizadas como de “alta-pobreza” e que mostraram “sucesso sustentado.” Os perfis são construídos a partir de uma série de entrevistas com os administradores das escolas, professores, alunos e pais. O relatório identifica 11 atributos que os autores afirmam são encontrados nas escolas, e, em seguida, oferece seis recomendações para ajudar outras escolas a alcançar e manter sucesso semelhante.

Em sua revisão, Paige aponta para uma série de áreas onde o relatório está aquém dos padrões de pesquisa de qualidade. Por exemplo, a incerta ligação entre as recomendações do relatório e os chamados “atributos-chave” que são identificados como comuns às escolas de sucesso. Além disso, o relatório apresenta pouca explicação útil de como os “atributos essenciais” e as recomendações foram derivados.

Paige também aponta que as nove escolas da amostra não cumprem os critérios estabelecidos de escola de “alta-pobreza”, com quatro delas tendo níveis de pobreza próximos da média para as escolas do estado. De modo mais geral, a justificativa para a escolha dessas nove escolas não está devidamente explicada.

Mas Paige identifica a “deficiência maior” do relatório como segue: “enquanto ele é apresentado como forma de lidar com as necessidades de equidade, e os entrevistados apontam que os fatores de pobreza relacionados devem ser abordados, as recomendações falham em propor soluções ou explicitamente abordar esses fatores.”

As recomendações do relatório no nível de operações para a escola são geralmente razoáveis, mas os alunos de escolas de alta pobreza precisam de muito mais. Se o relatório fosse para reconhecer as necessidades que estão fora da escola e incluir recomendações para atender a essas necessidades, teria podido lidar mais completamente com o tema escolhido. Mas isso corresponderia a sair da mentalidade do “não há desculpas” ou “escolas milagrosas”, que os autores parecem adotar. A conseqüência, Paige conclui, é que o relatório tem pouco a oferecer para avançar na reforma da escola e na equidade educacional.

Encontre a revisão de Mark Paige no site NEPC em: http://nepc.colorado.edu/thinktank/review-failure-not-option

Encontre o “Fracasso não é uma opção” por Carolin Hagelskamp e DiStasi Christopher na web em:

http://www.publicagenda.org/files/pdf/FailureIsNotAnOption_PublicAgenda_2012.pdf
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Carol Weiss

Morreu Carol Weiss.

WEISS, Carol (Hirschon) Died on Tuesday, January 8, 2013 at the age of 86 of complications of heart disease and cancer. She was the Beatrice Whiting Professor Emerita at the Harvard University Graduate School of Education, where she had worked since 1978. She was born and raised in New York, graduated from Cornell University, and earned an M.A. and Ph.D. at Columbia University. Her professional career was devoted to the study of evaluation research, where she was one of the founders of the scientific approach to evaluation of social programs. At the Bureau of Applied Social Research at Columbia University, and later at Harvard, she also conducted groundbreaking studies of the use of social research in making public policy decisions. With many colleagues and students, she created a field of study of research utilization.

 

http://www.legacy.com/obituaries/BostonGlobe/obituary.aspx?n=CAROL-WEISS-HIRSCHON&pid=162253468

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Tempo integral na escola: a procura pela bala de prata

O modelo causa-efeito persiste na educação muito embora não haja evidência de sua adequação à análise do fenômeno educativo. Governos, pesquisadores, políticos, economistas procuram pela bala de prata que resolverá, de uma tacada, os problemas educacionais.

Os reformadores empresariais da educação são os principais interessados no modelo causal. Vivem às turras com as variáveis que afetam a aprendizagem procurando encontrar qual delas é a bala de prata que, se aplicada, produzirá o “abrate sésamo” da educação.

Agora é a vez da escola de tempo integral. Estudo divulgado dia 4-01-2013 pelo jornal Estado de São Paulo compara o desempenho entre escolas com e sem tempo integral e mostra que as médias não são diferentes.

Faltou definir o que é tempo integral. Mais Educação, um programa do governo federal, por exemplo, não é educação integral. O conceito de educação integral é diferente do conceito de educação de tempo integral. A ênfase não é no tempo e sim na concepção de educação. Não visa apenas a ocupar o tempo do aluno dando mais do mesmo, ou promovendo atividades variadas desconexas. Supõe um novo currículo e uma nova metodologia.

Mas os nossos apressados estatísticos não são afetos a concepções, e sim a números. Portanto, escola de tempo integral é aquela em que o aluno fica mais tempo (7 horas) na escola, não importando o que faça. E por esta via, fazem a comparação indevida.

Perguntas erradas, levam a respostas erradas.

Não há bala de prata em educação. O fenômeno é multivariado e os valores das variáveis estão interligados. Além disso, a introdução de inovação depende de variáveis com valores locais e não médios.

Nenhuma medida isolada produzirá efeitos milagrosos. Se produzir, desconfie dela.

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Segregação e boas intenções

Os reformadores empresariais justificam suas propostas com um argumento preferido e de alto poder de mobilização social: pensamos primeiro na criança, e em especial nas crianças mais pobres, as que são as maiores vítimas da desigualdade social.

Nós não discordamos disso. Mas qual a diferença? Há um longo trajeto entre esta constatação e as medidas que os reformadores querem colocar em prática. Como diz Ladd, “não é porque repetimos constantemente um desejo, que ele se torna realidade”.

As boas intenções dos reformadores não são suficientes. Têm servido muito mais para alavancar projetos de novos políticos desejosos de mostrar resultados e para alavancar a indústria educacional de consultorias e avaliação, do que de fato atender aos interesses dos mais pobres.

A evidência mostra que pressionar escolas para serem eficazes tem perna curta. É como pressionar o delegado de polícia local para que a criminalidade diminua. Há mais variáveis em jogo.

Um bem fundamentado texto sobre a matéria pode ser encontrado em (inglês):

http://sanford.duke.edu/research/papers/SAN11-01.pdf

Redigido por Helen F. Ladd, economista e professora em Duke University, Ladd é especialista em questões de accountability.

Segue o resumo:

As atuais iniciativas políticas dos EUA para melhorar seu sistema educacional, incluindo o No Child Left Behind, avaliação de professores baseada em testes e a promoção da concorrência, são equivocadas porque negam ou deixam de lado um corpo básico de evidências documentando que os alunos de famílias menos favorecidas, em média, têm um desempenho menor na escola do que os de famílias mais favorecidas. Porque estas iniciativas políticas não abordam diretamente os desafios educacionais vivenciados pelos estudantes menos favorecidos, elas pouco têm contribuído – e não são susceptíveis de contribuir muito no futuro – para aumentar o desempenho dos alunos em geral ou para a redução das lacunas de desempenho escolar entre estudantes favorecidos e estudantes menos favorecidos. Além disso, essas políticas têm o potencial de causar danos graves. Enfrentar os desafios educacionais vivenciados por crianças de famílias desfavorecidas requer uma abordagem mais ampla e mais ousada ​​para a política educacional do que os recentes esforços para reformar escolas.

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Multas: inovação pedagógica nas terceirizadas americanas

Diane Ravitch informa em seu Blog uma novidade implantada na cadeia Noble de Escolas Charters americanas (Chicago). Trata-se de multas que são aplicadas a seus alunos por mau comportamento. Cada multa custa cinco dólares.

Além disso, há sessões especiais de reabilitação comportamental de verão a um modesto custo de 1.400 dólares. Só uma das famílias já pagou 2.000 dólares por mau comportamento do filho. No ano passado, a Noble recolheu 200.000 dólares em multas. Leia aqui.

Uma fonte de renda fantástica, para complementar as polpudas verbas públicas que estas escolas acessam, como terceirizadas que são, além das rotineiras doações de empresas.

Segundo a mãe que denunciou a medida, as infrações do seu filho incluíram: ter sapatos desamarrados, botões desabotoados em sua camisa e não manter os olhos centrados no professor. Leia aqui.

Tudo é claro, envolvendo escolas que atendem populações de baixa renda. 85% dos alunos da Noble são de baixa renda. É a pedagogia penal da qual eu falava ontem em outra postagem. Não ousariam propor esta política “educativa” para a classe média americana.

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As KIPPs de Roberto Lobo

Roberto Lobo aborda em seu blog no Estadão as escolas americanas denominadas KIPP – “Knowledge Is Power Program” . Segundo ele, as escolas KIPP estão em evidência. Acredito. Mas isso vale para todos os tipos de escolas charters nos Estados Unidos, pois com a crise fiscal, terceirizar gera menos custos. Uma professora terceirizada ganha metade de uma concursada. Já falamos neste blog sobre as escolas KIPP e as congêneres charters.

A posição das escolas charters nos USA é controversa. Elas não conseguem demonstrar que ensinam mais que as escolas públicas regulares e trabalham em condições mais favoráveis do que as públicas.

“… as escolas Kipp são diferentes das escolas públicas regulares em várias maneiras: elas contam com populações auto-selecionadas de estudantes (em vez de atribuídos a elas como nas públicas), elas recebem muito dinheiro privado, e elas dependem de um difícil modelo de força de trabalho – principalmente professoras sem filhos, jovens e que fazem horas extras.” Leia aqui.

As Kipp recebem gordas doações da Walton Family e Doris and Donald Fisher Fund.

Impõem a seus alunos uma pedagogia penal que regula as relações das KIPPs com os alunos e suas famílias. Daí que Lobo reconheça que não são escolas para a classe média, mas sim para a classe média pobre. Os alunos que a escolhem (ou seja, os melhores das escolas públicas) têm que assinar um compromisso, um contrato, que se desrespeitado implica no desligamento do aluno. Nenhuma escola pública pode fazer isso, felizmente.

Veja o que diz o “Compromisso do aluno”:

“• Vou sempre trabalhar, pensar e se comportar da melhor maneira que eu sei, e eu vou fazer o que for preciso para mim e para meus colegas para aprender. Isto também significa que eu vou terminar o meu dever de casa toda noite, eu vou chamar meus professores se eu tiver um problema com a lição de casa ou um problema com a vinda para a escola, e eu vou levantar a mão e fazer perguntas em sala de aula, se eu não entendo algo.

• Eu sempre me comportarei de forma a proteger a segurança, os interesses e direitos de todos os indivíduos na sala de aula. Isto também significa que eu vou sempre ouvir todos os meus colegas da equipe Kipp e dar a todos o meu respeito.

• Eu sou responsável por meu próprio comportamento, e eu vou seguir as instruções dos professores”

A classe média americana não aceitaria isso. Daí que sejam escolas destinadas a pobres motivados.

Quando se pode escolher os alunos, a conversa e os resultados são outros.

Quanto se pode impor contratos draconiamos aos pais, alunos e professores, é diferente.

Mas é esse o caminho que queremos para formar pessoas criativas e autônomas?

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Fraude na rede estadual do Rio

Vez por outra aparece a ponta do iceberg: alguém quer corromper índices para aparecer bem na foto e faturar o bônus. No Rio de Janeiro, uma diretora de escola pública oferece dinheiro para alunos fazerem prova SAERJ. A questão não é só a existência da fraude, no que diz respeito à atitude da diretora. São os valores que estamos praticando com nossas crianças. Uma relação cada vez mais mercantilista com o conhecimento.

A “recompensa” de noventa reais para participar da prova vinha com a racional do “presente pelo bom desempenho”. Diz a diretora:

“como não podia dividir um aparelho de DVD, os próprios alunos teriam, segundo ela, sugerido que o prêmio não fosse sorteado, e sim dividido entre todos os participantes”. Leia aqui.

Premiar alunos é uma prática comum na rede estadual, segundo a diretora.

Casos de fraude ligados às políticas de responsabilização são frequentes. Campbell já os havia previsto em 1976, antes desta onda de accountability. O caso recente mais famoso que conheço é o de Atlanta, como já comentamos aqui no Blog.

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Haddad assume e Callegari anuncia fim de bônus

O ex-ministro Fernando Haddad assume hoje a prefeitura da maior capital brasileira: São Paulo. Seu secretário de educação será Cesar Callegari. Mesmo antes de ser nomeado Callegari já avisou, em entrevista ao IG, que:

“A política de premiação de professores com bônus financeiros, implantada em São Paulo em 2011 , não faz parte dos planos da nova equipe de governo municipal. Em entrevista exclusiva ao iG , em vídeo, o novo secretário, Cesar Callegari, afirma que os bons trabalhos merecem ter visibilidade, para servir de exemplo para outros, mas sem dividir as equipes em “perdedores e vencedores. Apenas imaginar que professores trabalharão bem se tiverem prêmio não é nosso conceito.” Leia aqui.

Boas falas. Educação não é mercado, onde é normal o conceito de ganhador e perdedor. Educação só pode ter ganhador. Importar a lógica de mercado conduz a oficializar a noção de perdedor e não a impulsionar ganhadores. Amplia a segregação: seja em New York, seja no Brasil.

A postura também deve guardar relação com o projeto que o PT tem para Haddad em São Paulo. De fato, ou o PT se diferencia do PSDB ou, em dois anos mais, quando chegarem as eleições para governador, os projetos se confundirão. Por exemplo: no atual governo do Estado de São Paulo, Alckmin dá prosseguimento – na verdade sem muito convencimento – à política de bônus que encontrou. Haddad terá que se diferenciar desta política ou assinalará que é tudo igual.

Não acredito que ele seja candidato ao governo do Estado. Ali já há uma fila. Acho que Lula poderia furar a fila e coloca-lo lá, mas teria que lidar com o desgaste de abandonar o mandato ao meio. Além disso, Haddad precisa se consolidar como administrador público com mandato. Porém, os resultados da gestão Haddad estarão sendo debatidos em dois anos mais nas eleições para governador, independentemente dele ser ou não candidato.

Isso nos leva ao segundo ponto. Conhecemos Haddad do Ministério da Educação. Com divergências que sempre foram explicitadas neste blog, acho que no geral a administração de Haddad ajudou a segurar a ala mais radical dos reformadores empresariais da educação – o pessoal que defende bônus para professor, administração terceirizada de escola pública, etc. E isso se mostra verdadeiro agora em São Paulo quando anuncia o fim do programa de bonificação para a rede municipal.

Mas, como também já anunciou, aí vem Parceria Público Privada. A cidade está quebrada, os resultados precisam ser visíveis em dois anos (nas próximas eleições) e portanto, há que viabilizá-los. Lembro-me de uma entrevista dada por Haddad onde dizia que era favorável à iniciativa privada somente nas atividades meio e não nas atividades fim.

E é aí que a figura de Gerdau entra em cena através de seu indicado à Secretaria de Finanças do município, Marcos Cruz, ex-sócio da consultoria Mckinsey. Gerdau é o presidente do Movimento todos pela Educação. Ele coordena um grupo de empresários com muito dinheiro para ser aplicado nas ideias que eles defendem.  Não li nada que indicasse de imediato parceria público privada na educação. Mas não acho que passe ilesa. O Ideb da cidade caiu e certamente um dos resultados esperados é sua elevação. Mesmo que para Callegari isso não seja o ponto fundamental. Ele tem dito que:

“O nosso objetivo não é atingir a meta do Ideb. O nosso objetivo é muito maior que isso: é garantir que toda criança, todo jovem, todo adulto que dependa da educação oferecida pela rede municipal tenha uma educação de boa qualidade”. Leia aqui.

Então, está bem. Vamos torcer e aguardar por uma política educacional no município de São Paulo que contraria a política educacional do governo estadual. Se for assim, a briga promete.

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Recomeçando II

No dia de hoje, 30-12-2012, terminamos a migração das nossas postagens feitas anteriormente na UOL para este novo endereço.

Durante este período, ficamos impossibilitados de postar novos comentários. Esperamos contar com a compreensão dos nossos visitantes. Preservar as 500 postagens realizadas durante os últimos anos era essencial.

O leitor conta agora com uma classificação das mensagens o que pode facilitar a identificação de material no Blog. Em especial chamo a atenção para a categoria “link para pesquisas”. Alí estão os endereços para quase 200 matérias que fornecem evidência empírica contrária à política dos reformadores empresariais.

Nosso Blog original na UOL continua inacessível, mesmo depois de nossa reclamação (Protocolo 170407498 feito em dezembro de 2012) o que nos impede de divulgar nosso novo endereço. Segundo a UOL não há nenhuma anormalidade com o antigo Blog.

Grato pela paciência.

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Greve contra Testes na Inglaterra

Postado originalmente na Uol em 29/05/2010

No link abaixo você pode informar-se sobre a decisão das professoras(es) britânicas de não aplicar o teste SAT nas escolas primárias.

http://www.guardian.co.uk/education/2010/apr/16/headteachers-boycott-national-tests-sats

Comentário: esta foi a primeira postagem que inaugurou este Blog em 29/05/2010.

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Livros do momento

Postado originalmente na Uol em 29/05/2010

Uma crescente bibliografia crítica do caminho seguido pelos EUA para reformar sua educação, baseado em testes de alto impacto e responsabilização está agora sendo submetida a uma análise crítica naquele país. É o caso dos livros abaixo, em especial o de Diane Ravitch, antiga defensora destas idéias mas que mudou de posição após 2007 e apresenta uma brilhante análise deste movimento. Imperdível.

Ravitch, Diane. The death and life os the great american school system: how testing and choise are undermining education. Basic Books, 2010.

Taubman, Peter M. Teaching by numbers: deconstructing the discourse of standards and accountability in education. Routledge, 2009.

Nichols, Sharon L and Berliner, David C. Collateral Damage: how high stakes corrupts america´s schools. Harvard Educational Press, 2007.

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A CNTE está só um pouco preocupada…

Postado originalmente na Uol em 3/06/2010

A CNTE publicou em seu site uma manifestação em relação à idéia do Ministro Fernando Haddad de realizar um Exame Nacional para ingresso na carreira docente. A entidade está “preocupada” e vê até “pontos interessantes” na medida. A entidade, que já foi mais combativa no passado, mas que aquietou-se sob o governo Lula, não percebe que através do Exame se dará a maior intervenção branca nos curriculos de formação de professores das instituição universitárias. Em todos os países em que se associa uma consequencia de impacto a um exame (no caso o exame vale o ingresso no magistério) cria-se uma “tradição de exame”. Ou seja, as instituições formadoras passam a ensinar em função da matriz de referência do exame e os postulantes ao exame a estudar em cursinhos preparatórios para os exames. Ao final, não se sabe se o teste mede a preparação para o cargo ou a preparação para o teste. Acorda CNTE!!! Esta é a maior intervenção que já se fêz no currículo de formação dos educadores.

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Mais oito razões para não se premiar escolas ou professores

 Postado originalmente na Uol em 8/06/2010

Já postei anteriormente oito razões para não se premiar escolas ou professores pelo desempenho dos alunos. Agora adiciono mais oito. Portanto, ao todo, já são 16.

Embora a batalha dos dados na área científica revele que quase tudo pode ser demonstrado por eles na dependência do que você selecione, o que segue é uma destas possíveis visões… esquecidas por aqueles que costumam afirmar que suas posições favoráveis à premiação de escolas estão baseadas em “dados científicos”.

Só para contrariar, documento do National  Center for Fair and Open Testing, nos Estados Unidos, reúne estudos que mostram a inadequação de pagar professores ou escolas a partir de pontuação de estudantes em testes. Segundo o documento, pesquisadores independentes tem encontrado que avaliar e pagar a partir de pontuação dos alunos nos testes é perigoso e irrelevante para a melhoria da aprendizagem. “Infelizmente”, diz o documento, “as evidências  do dano não parecem afetar o crescimento da popularidade de tais esquemas. Formuladores de política, incluindo o Secretário de Educação dos Estados Unidos Arne Duncan, deveriam parar de promover estas fracassadas abordagens”.

O documento organiza estudos que comprovam a ineficácia desta abordagem:

1. Pagar pela pontuação maior obtida em testes resulta em inflação das pontuações e não em verdadeira aprendizagem (Koretz, 2009; Madaus, Russell and Higgins, 2009; Nichols and Berliner, 2007).

2. O pagamento baseado em “performance” exacerbará os danos ao curriculum causados pelo NCLB (Nenhuma Criança para Trás – programa implantado em 2002 por Bush filho) em especial o estreitamento do currículo (McMurrer, 2007; Au, 2007; Morton and Dalton, 2007).

3. É incorreto e ineficaz pagar professores por resultados em testes os quais apresentam problemas de construção e erros (Rhoades and Madaus, 2003; Farley, 2009).

4. Pagar pelos “ganhos” obtidos na pontuação do estudante não resolve o problema da indução de danos educacionais pelos testes. Há muitas falhas nos mecanismos de cálculo do “crescimento” ou do “valor agregado”. Pesquisadores da RAND concluiram que “a pesquisa atualmente é insuficiente para amparar o uso de métodos de valor agregado em decisões de alto impacto sobre professores individualmente ou escolas” (McCaffrey, et al., 2005; Bracey, 2007; National Research Council, 2009).

5. O pagamento por pontuação em testes pode nem mesmo aumentar a pontuação dos estudantes (Martins, 2009; Springer, Podgursky and Lewis, 2009).

6. Para muitos professores a motivação primária não é o alto salário. “Se fosse assim, eles teriam escolhido outra profissão” – fantástico, é a típica argumentação que jamais ocorreria a um “educational business man”. Além disso, diz o documento, os professores olham os testes como um pobre aferidor de suas habilidades, portanto, pagar pela performance prejudica mais do que aumenta seu senso de profissionalismo e sua moral (Whitford and Jones, 2000; Nichols and Berliner, 2007). Ele pode diminuir a motivação (Ryan and LaGuardia, 1999). O pagamento por “performance” também tem mostrado um aumento da fraude (Pfeffer, 2007).

7. O pagamento individual de professores por pontuação do estudante encoraja a competição não saudável (MacInnes, 2009) Attention please: “mesmo o pagamento de bônus para a escola pode causar divisão entre o quadro de funcionários e com os pais (FairTest Examiner, 1997 neste link encontrarão mais estudos indicando a limitação do uso de valor agregado associado a alto impacto).

8. O pagamento por “performance” causa distorção nos objetivos em outras ocupações tanto no setor público como no privado (Adams, Heywood and Rothstein, 2009).

Enfim, finaliza o documento, a pesquisa sobre pagamento por “performance” mostra que ela baseia-se em suposições dúbias e falta evidências de seu sucesso, enquanto há boa evidência de que frequentemente falha.

Bem… depois de todos estes estudos científicos, continuar a usar testes de alto impacto para tomar decisões sobre professores e/ou sobre escolas, só pode ser uma decisão ideológica….

Divirtam-se com o texto original clicando aqui, onde encontrarão também a bibliografia citada acima.

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Entidades são recebidas pelo Ministro da Educação: Exame Nacional de Ingresso

Postado originalmente na Uol em 8/06/2010

Anfope, Anpae, Anped, Cedes e Forundir foram recebidos no dia de ontem pelo Ministro da Educação Fernando Haddad. Na pauta a questão do Exame Nacional de Ingresso Docente – Portaria 14. As entidades levaram ao Ministro as suas preocupações com a instituição do Exame e em especial a preocupação com a possibilidade de que a matriz de referência do Exame venha a se converter no curriculo, de fato, da formação do professor. O Ministro reiterou que o único objetivo do Exame é apoiar Estados e Municípios na realização de exames de ingresso e abrir possibilidades de trabalho para os professores. As entidades mostraram ao Ministro que, apesar deste objetivo, há outros que fogem ao controle do Ministério e que dizem respeito à associação de impactos (obtenção de cargo público como professor) ao Exame (feito com uma determinada matriz de referência). Independentemente da vontade do Ministério esta relação será estabelecida.

Neste sentido, a entrevista do IG Educação com o Presidente do INEP divulgada neste Blog ontem, já abre a possibilidade de tais relações indesejadas.

As entidades deixaram a reunião convencidas de que o Ministro da Educação sensibilizou-se com estas preocupações.

Uma das evidências disso é que é possível que se venha a criar uma Comissão de Governança do Exame na qual as entidades sindicais e, agora, as entidades científicas tenham presença.

A conferir.

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Posição das entidades científicas sobre o Exame Nacional de Ingresso

Postado originalmente na Uol em 8/06/2010

As entidades nacionais de estudos e pesquisas em educação, signatárias deste pronunciamento, vêm manifestar suas posições acerca da Portaria Normativa do Ministério da Educação, n. 14, de 21 de maio de 2010, que instituiu, no âmbito do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente.

O pronunciamento se insere no contexto dos esforços das entidades acadêmico-científicas da sociedade civil organizada no campo da educação, visando contribuir para a formulação de políticas públicas de educação de qualidade para todos. No conjunto desses esforços da comunidade acadêmica, destaca-se a prioridade da formulação de políticas sustentáveis de formação e valorização dos professores, com base em diretrizes curriculares nacionais.

A questão do currículo da formação dos professores é tema debatido há muito tempo no Brasil, particularmente a partir do início da década de 1980. Desde então, a problemática do currículo vem se impondo como objeto prioritário de estudos e pesquisas, como foco constante de reuniões acadêmicas e como tema recorrente na produção do conhecimento socializado em periódicos científicos do campo educacional.

A literatura especializada revela que as teorias curriculares têm tido presença contínua nos processos de formulação de políticas públicas de educação em todo o mundo. No caso brasileiro, ressaltam-se as “Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia”, políticas formuladas pelo Conselho Nacional de Educação e homologadas pelo Ministério da Educação, e os documentos finais da Conferência Nacional da Educação de 2010 e da Conferência Nacional da Educação Básica de 2008. As posições ali construídas pela comunidade educacional brasileira têm a marca da legitimidade enraizada em ampla participação nacional e que, como tal, devem informar os processos de formulação das políticas educacionais e suas matrizes referenciais.

As entidades signatárias deste pronunciamento dedicam-se, historicamente, ao estudo das teorias curriculares como base fundamental de uma política global de formação e valorização dos profissionais da educação, que articule formação inicial e continuada, plano de carreira, condições dignas de trabalho e piso salarial nacional, expressas nos documentos acima citados. Esses esforços objetivam oferecer subsídios para definir a orientação curricular dos cursos de formação dos professores, que emanem de uma base comum nacional e expressem uma concepção sócio-histórica da educação.

Em que pesem avanços conquistados recentemente, a avaliação do estado do conhecimento e da execução das políticas públicas de educação revela que ainda enfrentamos enormes desafios, não apenas no campo da formação dos professores, mas também em temas correlatos, como o controle da criação de cursos de formação docente, de acompanhamento e avaliação da formação oferecida nas instituições de ensino superior e das condições objetivas para o exercício profissional, considerando as exigências da dignidade da profissão e do compromisso social e político dos educadores.

Essas condições não foram consideradas na instituição do Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente, cuja publicação vem acompanhada do lançamento de um período de consultas públicas para a formulação dos Referenciais para o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente. Cumpre destacar que o Exame passa diretamente à fase de avaliação do professor sem uma definição e implantação prévias de um currículo de formação a ser avaliado.

Restringindo-nos a questões acadêmicas, há vários aspectos que antecedem o Exame.

Em primeiro lugar, está a necessidade de que se tenha um currículo base para a formação dos professores. Não se trata, obviamente, de um currículo mínimo à moda já rejeitada no passado e muito menos de um simples Referencial para medição, mas sim de uma concepção de base comum nacional na formação dos profissionais da educação, incluídas suas principais áreas de formação e os resultados desejados.

Em segundo lugar, a lógica da gestão educacional sugere que o processo de avaliação docente deve ser pensado quando se tem um desenho curricular concebido à luz do perfil profissional objeto de avaliação. As experiências internacionais que enfatizam a utilização de testes de alto impacto, semelhantes aos exames massivos adotados no Brasil, vêm sendo crescentemente questionadas por causa de suas nefastas consequências para os educadores e educandos.

Efetivamente, esses tipos de exames geram ranqueamentos, que não ajudam a formar o professor que o país necessita e que seja respeitado pelo estado e pela comunidade. Existe significativo consenso na comunidade acadêmica brasileira de que a apregoada filosofia da “educação por resultados” não é um referencial politicamente efetivo e culturalmente relevante para a construção da educação de qualidade almejada, tanto pelo governo como pela sociedade. Nesse contexto, crescem as análises críticas sobre as reformas educacionais, que incluem os estudos sobre testes estandardizados de avaliação educacional.

Em terceiro lugar, destacam-se os efeitos ligados ao “estreitamento da visão curricular da formação” pela avaliação. Não havendo um currículo implantado, este é substituído por uma matriz de referência que dá base à organização dos itens do exame de ingresso. Como os testes são limitados em sua abrangência e não incluem questões cujas respostas não possam ser objetivadas ou quantificadas, a avaliação será necessariamente incompleta. Por outro lado, existe a impossibilidade de provas unificadas diante da complexidade da educação e da pluralidade dos fundamentos e das concepções pedagógicas do campo educacional. Também no âmbito da prática educativa, os processos e procedimentos são dependentes das opções teóricas utilizadas, envolvendo, portanto, diferentes possibilidades de ação.

Eliminados aspectos importantes da formação e adotada uma perspectiva homogeneizadora, como se a prática educacional aceitasse apenas uma forma de realização, as instituições formadoras passam, igualmente, a valorizar menos determinadas formas de abordar o processo educativo ou determinadas áreas de formação e passam a ensinar mais aquelas valorizadas na matriz de referência. Ou seja, a matriz de referência acaba virando o próprio “currículo de formação”.

Finalmente, a matriz de referência acaba sendo o instrumento que além de pautar o currículo das agências formadoras, permite a uniformização da produção de bens e serviços educacionais em larga escala, movimentando empresas que se multiplicam, seja para produzir materiais, seja para preparar o próprio Exame. Nessa perspectiva, os exames deixam de medir, de fato, aqueles aspectos básicos para o desempenho profissional, passando a medir o quanto os candidatos se prepararam para fazê-los. Diante disso, a aprovação no Exame acaba não sendo um prognóstico confiável de bom desempenho profissional.

As entidades signatárias do presente documento entendem, portanto, que é fundamental que o Ministério da Educação:

1.    Revogue a Portaria 14/2010 e suspenda a montagem da matriz de referência do Exame pelo INEP, em razão das profundas implicações desse Exame para a educação brasileira,

2.    Retome, com urgência, a questão da definição e implantação do currículo de formação do professor, em favor de um amplo debate nacional, envolvendo as diferentes secretarias do MEC, o CNE e os órgãos gestores de estados e municípios, assim como as universidades e as entidades da sociedade civil que atuam na área.

Brasília, 07 de junho de 2010.

 Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação – ANFOPE

Associação Nacional de Política e Administração da Educação – ANPAE

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação – ANPED

Centro de Estudos Educação e Sociedade – CEDES

Fórum Nacional de Diretores de Faculdades/Centros/Departamentos

e Educação das Universidades Públicas Brasileiras – FORUMDIR

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Testes invadem até a pré-escola…

Postado originalmente na Uol em 10/06/2010

A moda dos testes não tem limites nos Estados Unidos. Agora é a vez da pré-escola. O Prefeito de Nova York o arqui-milionário Bloomberg e seu Secretario da Educação, Mr. Klein, querem agora que as criancinhas da pré-escola se submetam a testes.

Abaixo, a reação de organizações civis como a Time out From Testing.

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O sequestro da avaliação

Postado originalmente na Uol em 10/06/2010

A avaliação deveria ser apenas um processo diagnóstico. Entretanto, esta noção de avaliação diagnóstica foi sequestrada por economistas, estatísticos e políticos que a substituiram pela associação a altos impactos, ou seja, a recompensas ou punições, bem a gosto da psicologia comportamental dos anos 70.

É preciso recuperar o verdadeiro sentido da avaliação e lutar em todas as instâncias para retirar da avaliação a sua associação a recompensas e punições. Se no âmbito da sala de aula isso já é de certa forma aceito e possível, no campo da organização escolar ainda está muito distante.

Esta idéia de associar o resultado da avaliação a determinados impactos, na forma de recompensas ou punições, é frequentemente usada nos Estados Unidos. Diane Ravitch diz: “as crianças nas escolas públicas da América enfrentam penalidades por seu desempenho pobre nos testes. Ela pode não avançar para o grau seguinte ou pode perder a oportunidade de entrar em um bom “college”. Mas isso não ocorre só com o aluno. Graças ao programa Nenhuma Criança para Trás “se as pontuações dos testes padronizados de uma escola não aumentarem todo ano, a escola e seus professores também enfrentam consequências.” A escola pode ser privatizada como ocorreu com uma escola em Central Falls, R. I., onde 93 pessoas de seu quadro foram demitidas no final do ano escolar, sem avaliações individuais. Segundo Ravitch “nenhuma destas sanções tem demonstrado aumentar o desempenho dos estudantes. Mas os testes de alto impacto [ ] se tornaram o princípio organizativo da educação americana, em detrimento da aprendizagem de fato. E conclui: “já é tempo de nos livrarmos das punições que estão associadas aos testes”.

Alguns distritos e Estados introduziram bônus e pagamento por mérito para professores na expectativa de que as pontuações nos testes aumentassem. Mas incentivos e sanções produzem fraude e jogo com o sistema, e não melhor educação.

E conclui: “Isso não é boa educação. Os testes deveriam ser usados para informação e diagnóstico, não para punições ou sanções”.

Segundo Thomas Toch um estudo nacional de 2007 encontrou que, se é permitido escolher entre duas escolas equivalentes, 76% dos professores secundários e 81% dos professores da escola elementar preferem trabalhar mais em escolas onde os administradores apoiam fortemente os professores, do que em escolas que pagam significativamente salários mais altos.

É preciso recuperar a avaliação para sua função diagnóstica no interior do processo educativo.

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Ações de resistência contra os testes de alto impacto

Postado originalmente na Uol em 12/06/2010

Existem algumas ações de resistência a este uso inadequado da avaliação que podem ser tomadas de imediato no Brasil. Elas não vão deter a onda dos testes de alto impacto, pois este movimento está ancorado na indústria dos testes e em interesses políticos e ideológicos que veiculam uma determinada concepção de educação que retoma o movimento tecnicista, o enfoque behaviorista e  o movimento dos objetivos operacionais – lembram-se? – mas podem criar algumas dificuldades e ajudar a mobilizar em torno da questão:

1. Acho imprescindível que se crie um código de ética que coloque limites no uso de testes de alto impacto.  Isso existe nos Estados Unidos. Não resolve, mas permite questionar os abusos. Sem este limite o campo fica livre para o mercado e para os governos. O código fixa responsabilidades para quem desenvolve testes, a chamada indústria dos testes; para quem usa, por exemplo, os governos, em pelo menos quatro áreas: Desenvolvimento e seleção de testes apropriados; Administração e pontuação dos testes; Relatório e interpretação dos resultados dos testes e Informação aos usuários. É interessante também a posição da AERA – a ANPED dos americanos – sobre o uso de testes de alto impacto.

2. Acho que é importante que se crie um GT sobre Avaliação Educacional na ANPED que se dedique ao exame do tema com a gravidade que ele merece. Não podemos deixar que associações de avaliação independentes da área educacional, se coloquem como únicas interlocutoras na temática. Elas tenderão a fazer isso marcadas pelos interesses do mercado de produção de testes e/ou pelos políticos de turno nas Secretarias de Educação, os quais são os clientes da referida indústria.

Ficam aí as sugestões para que a ANPED tome tanto a questão do código de ética como a questão do GT para análise.

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O debate com o INEP

Postado originalmente na Uol em 14/06/2010

Transcorreu hoje à tarde o debate entre a Anped, Cedes, Faculdade de Educação, Forundir e INEP, na Faculdade de Educação da UNICAMP.

Na oportunidade manifestei minha opinião contra a Portaria 14, mantendo a necessidade da revogação de dita Portaria.

Além das razões que já elenquei neste Blog em outras postagens, agreguei que, em minha opinião o Exame se reveste de características de Certificação.

O raciocínio é simples: A formação do professor no Brasil se dá em duas instâncias: no ensino normal de nível médio e na universidade, no curso de Pedagogia. Ora, a construção dos referênciais do Exame não pode tomar um destes locais de formação como referência, portanto, terá que ser abstraida do local de formação do professor o que a caracteriza como um exame que certifica ou não a existência de certos conhecimentos independentemente do local onde o professor foi formado. Isso abre possibilidades para que, no futuro, qualquer um possa vir a realizar o exame. Se possou no Exame, porque não poderia dar aulas? Impedir os formados no ensino normal de prestar o exame, gerará possivelmente problemas legais. Deixá-los assinala que não é necessário nível superior para exercer a profissão. Entendo que estamos diante de uma certificação.

Há no ensino médio, em formação, mais de 200 mil alunos nos cursos de magistério segundo grau.

Por esta e outras razões, é que defendi a revogação da Portaria 14.

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Link para Ata do MEC sobre reunião com entidades sobre Exame Nacional

Postado originalmente na Uol em 15/06/2010

Para ver a Ata que resume a reunião entre as entidades e o Ministro sobre o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente, clique no link abaixo.

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15561:entidades-aprovam-proposta-de-haddad-para-criacao-de-comite&catid=222&Itemid=86

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CNTE desconversa… e a UNE assiste…

Postado originalmente na Uol em 16/06/2010

A CNTE fez há algumas semanas uma análise preliminar (e pífia) da Portaria 14 que institui o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente. Lá, já desconversou. Aguardou o que iria acontecer. As entidades científica, mais lúcidas, entraram em campo e pediram a revogação da Portaria. O Ministro contornou o problema e prometeu criar um Comite para melhorar o Exame, afirmando que não vai revogar a Portaria. A CNTE agora sai a campo para defender a Portaria 14, transformando-se em porta voz do Ministro. Em nota de hoje, fala em criar consenso sobre o assunto.  Diz a nota:

“O Ministério da Educação vai concentrar esforços, até o final do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para moralizar as provas dos concursos de professores no Brasil. Uma série de reuniões está sendo promovida pelo ministério para conseguir um consenso em torno do assunto. Dessas reuniões já participaram, por exemplo, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e entidades ligadas à pesquisa educacional.”

Segundo a interpretação do CNTE a introdução do Exame vai moralizar os concursos para ingresso na Carreira. Cabe perguntar se isso implica em dizer que os Municípios e Estados não têm competência para fazer concurso público decente – o MEC é formulador de política e não órgão fiscalizador de concurso.

Isso jamais seria uma argumentação para se implantar um Exame Nacional. Na realidade é um biombo que esconde a intenção de colocar a questão da formação do professor na ótica mercadológica, criando um grande e único mercado nacional de profissionais da educação. Como o MEC não construiu uma política nacional de formação de professores, resolveu entregar a área à lógica de mercado, confiando que a “mão invisível” do mercado irá dar conta do problema. O Ministro diz que não quer certificar e nem avaliar as agências formadoras. Entretanto, isso não dependerá mais da vontade do Ministro quando o Exame estiver sendo praticado, como já mostrei em postagens anteriores.

A UNE, também está calada.

Correndo por fora, está o Senador Cristovam Buarque com seu projeto de pagar o 14o. salário para professores que aumentem o IDEB de suas escolas, ou aumentem quaisquer outros índices locais. Isso escancara as portas para a introdução de pagamento de professores por mérito, tal como faz Paulo Renato no Estado de São Paulo. Mais uma vez, a lógica dos negócios entrando na educação.

Nenhuma destas ações vai conduzir a melhorias sustentáveis na educação brasileira – como já se demonstrou em outros países. Postagens anteriores aqui neste blog mostram isso.

O CNE está quieto também. O INEP assumiu o controle da definição do curriculo de formação do professor e nenhuma menção faz aos estudos já conduzidos pelo CNE ou outros grupos de pesquisa nacionais na matéria. Baseado em relatórios de fundações, na Mckinsey Co., OCDE e sua avaliação PISA, criou o que soa mais como os “20 mandamentos do bom professor”, com os quais pretende desenvolver sua matriz de referência para o Exame – ou seja o curriculo de fato. Como é sabido, a agência que controla o exame, controla o currículo.

Enquanto a lógica de mercado vai sendo introduzida aqui e acolá, as entidades – excetuando-se as científicas – estão paralisadas aguardando consenso e moralização do concurso público.

O MEC, na visão da CNTE, agora virou TCU.

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Não tão mal…

Postado originalmente na Uol em 20/06/2010

No link abaixo você encontrará uma interessante tabela que compara as médias dos alunos dos paises que fizeram o PISA nos anos 2003 e 2006.

Você notará, por exemplo, que enquanto os EUA cairam 9 pontos (ou sejam estão empacados no PISA pois a queda não é estatisticamente significativa); enquanto o Canada caiu 5 pontos (também na mesma situação que os EUA); enquanto a França caiu 15 pontos (e aí é queda mesmo pois é estatisticamente significativa a queda); o Japão caiu 11 pontos, no caso do Brasil houve um crescimento de 13 pontos de 2003 para 2006 (significativo estatisticamente). As más línguas vão dizer que a média dos outros é mais alta que a nossa e que somos os penúltimos. É certo, mas enquanto os outros estão empacados, nós fizemos algo para crescer.

http://nces.ed.gov/programs/coe/analysis/figures/2009-fig10.asp

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Gato por lebre…

Postado originalmente na Uol em 23/06/2010

Os jornais têm noticiado neste último mês que o desenvolvimento brasileiro acelerado está evidenciando um gargalo de mão de obra que pode impedi-lo. Primeiro foi uma entrevista com Gerdau (o magnata do aço )(Estado de São Paulo, 24/05/2010) onde ele diz:

“Não pagamos impostos para tanto? Eu diria que a gente paga imposto, sim. Mas quando se vive em um país em que a educação é a 6º prioridade, ou se trabalha nesse troço ou vamos viver o resto da vida sem condições competitivas mundiais. Como você acha que a Embraer disputa? Ela tem pessoas altamente capacitadas. Se deixar na mão do Estado, não chegamos a um resultado condizente. Essa questão tem um conceito mais amplo. Teoricamente, delegamos para o Estado. E o resultado é este que existe. Ou seja, é inaceitável.”

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-educacao-vem-em-sexto-lugar,555674,0.htm

Note a referência à educação: “ou se trabalha nesse troço”…

Note a idéia de privatização:  “Se deixar na mão do Estado, não chegamos a um resultado condizente. Essa questão tem um conceito mais amplo.”

Note o objetivo da educação: “preparar mão de obra para as empresas”.

Depois foi a questão da falta de engenheiros que a folha divulgou há dois dias.

Em meio a isso, aqui e acolá, notícias de que escolas assumidas por empresários (Folha, 20/06/2010) em SP e que tiveram melhoras no desempenho das crianças:

“Adotada pelo Grupo ABC, que tem o publicitário Nizan Guanaes como presidente, a escola Francisco Brasiliense Fusco, no Campo Limpo (zona sul de SP), teve o telhado reformado, o que tirou pombas e ratos dos corredores. A sala de informática, que tinha dez computadores antigos, passou a ter 40 modernos. Nizan, que também é colunista da Folha, chamou profissionais que trabalharam no projeto da sua própria casa para a reforma. Limpo e com arquitetura nova, o colégio era um daqueles que não decolavam nas notas. De 2007 para 2008, o índice da quarta série recuou. Naquele ano, a formação de docentes se intensificou. E o Idesp subiu 50%.”

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2006201011.htm

A questão é porque o estado de SP não pode fazer isso e precisa de uma empresa para tal? A resposta está nos níveis de investimento do Estado: em porcentagem de crescimento de arrecadação do Estado, investimos o mesmo que em 2002. Esta política faz com que, com o tempo, os alunos mais motivados sejam drenados para as escolas assistidas pelas empresas e os menos motivados ou com maiores dificuldades fiquem na escola pública.

Estou reconhecendo, nestas noticias, os Estados Unidos da América do Norte na última década. Lá também a questão da educação foi associada à manutenção da liderança econômica dos EUA no mundo. Uma avalanche de críticas desabou sobre o sistema educacional americano público, primeiro em 1983 com A Nation at Risk (Uma nação em risco), nome sugestivo; depois com o No Child Left Behind (Nenhuma criança para trás) em 2002. Neste segundo programa, as escolas tinham metas a serem cumpridas anualmente e até 2014 deveriam ter todas as crianças proficientes em português e matemática. Se uma escola não avança segundo o programado ela é objeto de atenção que varia de monitoramento até seu fechamento e entrega à iniciativa privada que passa a administrá-la.

Pois bem. Vale a pena que se saiba que com toda esta parafernália de ações sobre o sistema público de ensino, os EUA como mostrei em outra postagem estão empacados entre 2003 e 2006 no PISA, e no NAEP (Exame interno do país que equivale ao nosso SAEB) não há evidência de melhoria relevante entre 1992 e 2009 em leitura e matemática.

Por mais que nos Estados, isoladamente este ou aquele, por motivos políticos se divulguem grandes progressos dos alunos, o fato é que quando estes mesmos alunos são medidos ao nível nacional, o fracasso continua. A explicação para isso é que a Lei permite que cada estado defina o que entende por “ser proficiente” e pode fazer seu próprio teste. Claro, como existem consequências associadas ao cumprimento de metas, ou seja, acesso a grana federal, os Estados diminuem as exigências para um aluno ser considerado proficiente em suas provas como acontece em Nova Yorque.

Curiosamente, a Folha divulga os sucessos de Nova Yorque, mas nada fala sobre o fracasso dos seus alunos no NAEP americano.

Bem, em resumo, espero que, no Brasil, não se repita uma fórmula já testada no país que mais levou a lógica dos negócios e da administração privada para o sistema público de ensino, com os resultados que conhecemos.

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“Charters Schools”, ou quando a esmola é demais….

Postado originalmente na Uol em 26/06/2010

A Folha de hoje 26-6-2010 publica uma reportagem sobre o avanço da iniciativa privada no sistema público de educação americano. A reportagem, embora não consiga esconder sua preferência pela privatização, está boa, no sentido de que – diferentemente do que fez recentemente – a Folha mostra os dados contraditórios a respeito da experiência.

A idéia de que os pobres devem poder escolher sua escola, pública (dos pobres) ou privada (dos ricos), e que no caso de ser uma escolha pela privada o Estado paga pela vaga do aluno na escola privada, tem sua origem, segundo D. Ravitch (2010), como um recurso, originalmente, contra a determinação da Corte Suprema americana em 1954 que obrigou a desegregação das escolas americanas. Como a Corte Suprema havia determinado que brancos e negros poderiam cursar a mesma escola nos EUA, os conservadores colocaram em cena a idéia da “escolha” (choice). O argumento funcionava assim: as pessoas têm o direito de escolher a escola para onde querem mandar seus filhos, quem quiser, pode ir para uma escola de negros, mas quem não quiser por escolher uma escola de branco. A aposta era que nenhum negro escolheria ir para uma escola de branco e nenhum branco, obviamente, escolheria ir para uma escola de negro. Essa é a origem deste movimento, o movimento da “escolha”.

Ele agora está sendo usado para alimentar o grande mercado educacional americano. Os pobres têm o direito de escolher a escola de rico. Soa interessante, justo. Mas, claro que os ricos não vão escolher escola de pobre (ou seja o sistema público). E nem mesmo estão estudando nas Charters Schools que apareceram inicialmente como uma forma de lidar com os alunos que estavam com baixo desempenho na escola pública, mas como uma auxiliar destas. Temos então:

1. Os ricos têm suas escolas. Para os americanos pobres (negros e imigrantes) lhes é dada a possibilidade de disputar, por sorteio, uma vaga em uma escola privada (as Charters) – feita para pobres motivados. Com isso, mantém-se a divisão: entre escolas para ricos, escola para pobres motivados e escolas para o “resto”. Não se pensa é claro em um padrão elevado de qualidade para o serviço público, o que seria a solução do problema. Implicaria em gastos para o governo. Criando tais escolas intermediárias, entre a dos ricos e a dos pobres, aplacam a ira da pobreza mais exigente (classes médias baixas) e ao mesmo tempo “protegem” as escolas dos ricos do assédio da pobreza. Criam um desvio. De quebra, estas escolas recebem um fluxo intenso de dinheiro privado, e não só público como alardeiam. As Fundações privadas americanas despejam milhões de dólares nestas escolas – as Charters Schools. Movimenta-se um intenso mercado educacional que funciona à margem da legislação trabalhista e da legislação educacional.

2. Os pais dos alunos e alunos mais motivados, disputam as vagas por sorteio (isso em si, já é vergonhoso). Há um grande contingente que nem disputa. Estes continuam na escola pública. Os poucos sorteados, com nível motivacional maior, saem da escola pública. Claro, com isso há uma drenagem dos melhores alunos que estão na escola pública. A pobreza desmotivada fica na pública agravando a realidade destas escolas que, por serem públicas, não podem escolher seus alunos.

3. Os dados mostram que mesmo assim, como divulga a Folha de hoje, não há como falar que as Charters Schools ensinam mais ou são melhores do que as públicas. Não é para ser mesmo. Não é aí que os filhos dos ricos estudam, como fazem crer os conservadores.

Concluo portanto, que a razão principal do movimento pela “escolha” continua sendo o mesmo de quando ele se originou: separar ricos de pobres (o que equivale dizer brancos de negros) ou no melhor dos casos, os alunos mais motivados dos menos motivados, ambos igualmente pobres – sempre fora das escolas dos ricos. Monta-se, pela ilusão da escolha, a idéia de que a pobreza, agora, pode escolher a escola dos ricos, só porque é privada. Ledo engano. Mantém-se portanto a divisão entre escolas para pobres e escolas para ricos.

Além disso, o deslocamento das crianças selecionadas para as Charter Schools quebra a identidade do bairro. As crianças frequentam estas escolas em outras localidades. Como diz Diane Ravitch, os bairros precisam ter escolas com as quais suas crianças se identifiquem.

Para esta pesquisadora americana, o fato é que a administração Obama, através de seu Ministro da Educação, cumpre a agenda das grandes Fundações que financiam as escolas Charters, tais como a Broad Foundation e a do Bill Gates, Fundação Gates and Mellinda. Esta última decidiu que agora vai financiar as Charters – são bilhões de dólares em jogo. Depois de uma tentativa frustrada de atuar no campo da infra-estrutura das escolas, a Fundação quer agora atuar no interior das salas de aula, ao nível do ensino e da aprendizagem. De fato a Fundação é a ponta de lança da iniciativa privada americana no mercado educacional. Arne Duncan é comprometido com as agendas destas fundações e indicou um alto funcionário da Gates para atuar como Chefe de Gabinete no Ministério da Educação. Gates já investia em programas administrados por Arne Duncan em Chicago, onde ele era superintendente antes de ser Ministro da Educação.

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Guerra de números: a pesquisa quantitativa

Postado originalmente na Uol em 29/06/2010

A pesquisa quantitativa vive nos EUA uma verdadeira guerra de números. Estudos apontam a favor, contra, ou muito pelo contrário, nas avaliações. Caso típico o das Charters Schools publicado pela folha recentemente e comentado neste blog.

Qual a causa disso? Essa guerra tem a ver com a forma de condução da pesquisa quantitativa. Primeiro ela recusa qualquer grau de influência política, ideológica ou outra na formulação, quando na realidade isso é inevitável. A colocação do problema, a forma de abordar os conceitos, a escolha de variáveis e sua própria construção são afetadas por pressupostos que ficam escondidos e não são revelados.  Em segundo lugar, não há procedimento padrão. A cozinha da pesquisa quatitativa é uma grande bagunça – quando não uma verdadeira câmara de tortura de dados.

O problema começa antes, na aplicação de provas e testes. Aqui já há problemas nas escolas. Alunos faltam, são avisados para ficar em casa, professores ensinam alunos, não levam a sério a avaliação pois não é para nota, entre outras. Sobre isso não há, ou não são divulgados, relatórios técnicos de aplicação. Depois vem a constituição da base de dados. Se digitados, precisam ser conferidos e há que se verificar o índice tolerável de erros assumido pelo grupo de pesquisa. Depois a questão dos dados faltantes: são muitos, foram imputados ou não, por quais métodos, etc. Sobre isso, novamente, nada de relatórios técnicos que explicitem os procedimentos. O que para um grupo de pesquisa pode ser uma boa decisão, para outro é péssima. Não há padrão de referência. As técnicas estatísticas são usadas ao sabor dos grupos de pesquisas e os critérios não são revelados também.

Não bastasse isso, vem a construção das variáveis. Uma muito usada é, por exemplo, formação do professor. Neste caso, pode-se tomar anos de profissão, natureza da instituição formadora, etc. Mas como sabemos que isso afeta, de fato, a aprendizagem? Podem ser criados os números que se quiser na estatística. E eles mostrarão relações. A questão é se fazem sentido. Novamente, nada de relatórios técnicos que descrevam como as variáveis foram construídas.

Quando a pesquisa se torna visível para o público especializado, todas estas  questões ficaram na cozinha. Algumas nunca poderão mais ser recuperadas.

Por último vem a divulgação. Nas revistas especializadas, não há espaço para se incluir as decisões tomadas anteriormente, exceto as de praxe. E finalmente, na impresa, então, nem se fale.

Enfim. Sem que se tenha uma padronização mínima dos procedimentos no interior da cozinha da pesquisa, não se pode confiar nos dados gerados. Na dependência do grupo de pesquisa, podem ser a favor, contra ou muito pelo contrário…

Não é diferente com as bases de dados dos governos.

Relatórios técnicos, nem pensar. Já solicitei ao INEP relatórios técnicos de aplicação e processamento de bases. Nem resposta obtive.

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A lógica natural dos Exames

Postado originalmente na Uol em 1/07/2010

O ENEM foi instituído para verificar a qualidade do ensino médio. Logo virou exame de ingresso para a Universidade e agora vira Exame de Certificação.

É a lógica natural que prevejo para o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente.

Na página do INEP pode-se ler:

Enem pode ser feito por adulto que não cursou o Ensino Médio

O Enem – Exame Nacional do Ensino Médio – pode ser feito por pessoas que estejam pleiteando certificação nesta etapa de ensino. Ou seja: pessoas que não cursaram ou não concluíram o Ensino Médio e que, agora, têm a chance de fazer a prova do Enem e, atingindo a pontuação mínima exigida – 400 pontos em cada uma das quatro áreas de conhecimento e 500 pontos na redação -, receberão seu certificado de conclusão.”

Uma vez instituído um Exame que se supõe pode selecionar bons professores, a lógica natural que virá é esta: se serve para selecionar bons professores, porque não para certificar também. Quem passa nele, independentemente de ter feito ou não um curso específico, sabe e tem as características de um bom professor. Para isso o INEP já listou os 20 mandamentos do bom professor em seus referenciais para o Exame.

Quando se liberam as forças do mercado – e o Exame vai criar um grande mercado nacional de professores -, elas operam independentemente de quem as liberou, não importando mais o que o autor pensou.

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