Milagre pernambucano: mais comentários de quem viu

Um leitor envia o seguinte comentário:

“Prof. Freitas, a sua hipótese para a evasão da EJA [em Pernambuco] está corretíssima. O governo começou no primeiro mandato Campos com a correção de fluxo através do programa Travessia, da Fundação Roberto Marinho. Paralelo ao projeto, que tinha como principal chamariz o término do ensino médio em metade do tempo, 1 ano e meio.

No segundo governo, ele também reduziu o EJA MÉDIO, ou seja, a EJA regular, para metade do tempo e diminuiu bastante as turmas de travessia. Com isso, os alunos com “perfil problemático” para os resultados, os fora de faixa, os alunos trabalhadores, foram sendo canalizados para o projeto e depois para o EJA da própria rede que se tornou uma máquina de emitir certificação de conclusão.

Para se ter uma ideia, foi estabelecido que o aluno que já tivesse cursado o ensino médio regular (1 ano) podia se matricular direto no 3º ano da EJA. Quer dizer.. e a questão do currículo? e o que o aluno deveria aprender do programa do 2º ano e que não estudou no primeiro regular, para onde foi? não importa.

O entendimento tácito é de que o aluno nesse perfil só quer o papel do certificado e o governo quer as estatísticas, para comemorar o aumento da escolaridade da população e coisas do tipo.

Sobre a evasão, tem um dado muito interessante. No sistema informatizado que foi implementado na rede (o SIEPE), quando um aluno é transferido, não é contado como evasão. Então, o aluno evadido, foi praticamente “extinto” da rede, embora, seja corrente que turmas da EJA tenham um nível de evasão absurdo.

Dei aula em turmas que começaram com quase 50 e terminaram o ano com menos de 20. Digo que se o governo federal exigisse pelo censo que fosse informado o destino do aluno transferido e a confirmação da escola que recebeu o aluno, Pernambuco desceria ladeira abaixo no IDEB. E tem mais, se um aluno tiver média 0,0, 1,0, 2,0, 0,0, por exemplo… e conseguir 6,0 na prova de recuperação, ELE SERÁ APROVADO !!!!!, e quando uma média bimestral fica com décimos, por exemplo, 5,6, obrigatoriamente tem que se arredondar para 6,0. Dessa forma, um aluno para não passar de ano, ele tem que ser muito persistente no erro, garantindo assim, os dividendos do fluxo almejados pelo governo.

Mas o santo tem pés de barro, se analisarmos a série de resultados de proficiência da rede, veremos um crescimento inercial, ainda que considerando as proliferação das práticas de treino, simulados, e estreitamento curricular, visando os testes anuais.

Resumindo professor, como pesquisador da área, professor e analista em gestão educacional, posso afirmar que “o milagre de Pernambuco”, é bala de festim, infelizmente, levará mais algum tempo para afundar nos próprios erros, já que a contestação é mínima. E o prejuízo de fato fica para a população.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Milagre pernambucano: mais comentários de quem viu

  1. Pingback: MILAGRE PERNAMBUCANO: MAIS COMENTÁRIOS DE QUEM VIU | Grupo de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

  2. Permita-se expor a minha pesquisa do curso de Sociedade, Cultura e Fronteira da Unioeste Foz do Iguaçu cujo tema é “Os efeitos colaterais da implantação da meritocracia na educação – o caso de Foz do Iguaçu e o Ideb 2011”. Em 2011 as escolas municipais de Foz do Iguaçu tiveram os melhores índices do Ideb como a primeira colocação da Escola Santa Rita de Cassia que empatou com uma escola de Itaú de Minas. Um dos “incentivos” para os funcionários das escolas chegarem a essa meta foi a implantação da meritocracia que consiste no pagamento do 14º e 15º salário, porém, isso teve alguns efeitos colaterais colaterais que foram previsíveis conforme a Profª norte americana Diane Ravitch, que é entusiasta na luta contra esse tipo de avaliação de longa escala como ex. a Liberação de Fluxo (reprovar aluno é rasgar dinheiro), Estreitamento curricular (uma vez que somente duas disciplinas são cobrados na prova Brasil), competição descabida entre escolas públicas, treinamento para prova etc…Conforme o Prof. Luiz Carlos de Freitas essa aparente avaliação da qualidade da educação tem um viés ideológico fortíssimo e tem três objetivos claros: a responsabilização, a meritocracia e a privatização. Os dois primeiros já ocorreram em Foz do Iguaçu a privatização está em curso, enquanto isso a qualidade da educação fica a segundo plano.

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