Testes: fraude globalizada

A experiente Educational Testing Service (ETS), empresa americana responsável por fazer o exame chamado SAT (Scholastic Aptitude Test)  nos Estados Unidos (o ENEM americano) está internacionalizando suas atividades e responsabilizando-se por aplicar o exame em outros países.

Nos últimos três meses tem sido conhecidas  sucessivas denuncias de fraude na aplicação do SAT americano fora dos Estados Unidos, na região asiática. As aplicações em outros países reciclam os testes já aplicados nos Estados Unidos e essa pode ser uma das causas das fraudes. A produção de testes é uma atividade cara e com a reciclagem dos testes, o lucro da indústria educacional eleva-se.

Observação importante: não é que não se saiba como fazer exames com alguma segurança; é que as medidas de segurança conhecidas terminam sendo secundarizadas pela indústria e sendo subordinadas ao império do lucro. Para os governos, é mais barato comprar um exame pronto do que fazer o seu próprio exame; para as indústrias fornecedoras de exames, é mais barato usar o que já está pronto em seu banco de testes, ao invés de fazer um novo.

Para Schaeffer:

“Em uma época de comunicação global instantanea através de websites secretos, mensagens de texto e aparelhos de celular com video, é irresponsável que os Administradores e a ETS atuem como se o conteúdo dos testes pudesse ser mantido “secreto” depois de serem administrados. A menos que os aplicadores dos testes parem de reciclar exames antigos na Asia, a segurança do teste SAT continuará a ser uma piada internacional.”

No entanto, a questão é um pouco mais complexa, devido à rede de empresas conectadas com o oferecimento de serviços de preparação de estudantes para os testes do SAT, como mostra a sequência abaixo. Há várias maneiras de se fraudar o SAT em andamento, mas uma das mais frequentes para ser a seguinte:

“- Empresas que se destinam a preparar estudantes para a realização de testes têm funcionários ou parceiros nos Estados Unidos e obtêm os exames SAT administrados recentemente, incluindo aqueles que estão oficialmente “não divulgados”, seja copiando ilegalmente os testes ou compilando o conteúdo das informações sobre os itens individuais que são compartilhadas em fóruns de discussão online como http://talk.collegeconfidential.com/sat-act-tests-test-preparation. Algumas destas empresas chegam a acessar os próprios testes.

– As empresas de preparação para testes mantêm no exterior bases de dados completas de perguntas e respostas corretas de testes administrados anteriormente. Elas os usam para treinar seus clientes regulares. Esses “serviços” de preparação para testes são fortemente anunciados em sites de língua chinesa, como Taobao, QQ e Wechat.

– No dia de aplicação do SAT, as empresas têm pessoas que participam do teste em locais asiáticos em zonas que ficam várias horas à frente da China (por exemplo, Auckland, Nova Zelândia onde a diferença é de cinco horas à frente de Beijing), memorizam os primeiros itens, em seguida, saem para ir ao banheiro, a partir de onde eles enviam essas informações para seus superiores. As empresas consultam o seu banco de dados e identificam o teste que será administrado na China mais tarde naquele dia.

– Uma lista de respostas certas é então transmitida para clientes pagantes através de tecnologias simples, como envio por e-mail do arquivo para seus telefones celulares ou carregando-os em calculadoras programáveis que os alunos estão autorizados a utilizar no centro de teste.”

Note-se que a fraude é gerada no interior da própria cadeia de empresas envolvida na produção, aplicação e treino para os testes.

No Brasil a fraude eletrônica está engatinhando, mas já se mostra presente:

“A fraude, segundo o procurador de Justiça André Estevão Ubaldino, funcionava da seguinte forma: pessoas, chamadas de “pilotos”, com alta capacidade intelectual, faziam parte das provas rapidamente, saíam com os resultados das questões e, com o apoio de colaboradores e sob a coordenação de dois líderes, repassavam o gabarito para os candidatos compradores das vagas por meio de transmissão eletrônica, com a utilização de equipamentos de última geração, alguns deles importados da China.”

Com o entusiasmo do Ministro da Educação em colocar o nosso ENEM on line e que possa ser realizado quando o estudante quiser em centros de aplicação do teste, pode ser que tenhamos surpresas frequentes. Isso se a rede de internet não cair na hora do exame, é claro…

Por falar nisso, será que o estudante vai poder fazer a prova de redação do ENEM online também ou ela não existirá?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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