Satisfação dos pais e escolha da escola: relatório falho

O National Education Policy Center publica revisão de estudo que procurava demonstrar que pais que escolhem as escolas de seus filhos (usando vouchers, por exemplo) ficam mais satisfeitos com a educação que recebem do que aqueles que têm seus filhos em escolas públicas de gestão pública. A revisão do NEPC mostra as fragilidades do estudo. Não é raro que estudos financiados pelas próprias instituições interessadas em apoiar a privatização da educação sejam conduzidos fora dos requisitos da boa pesquisa, com o objetivo de fornecer suposta “evidência científica” para tais propostas.

BOULDER, CO (21 de janeiro de 2020) – Um relatório recente publicado pelo Annenberg Institute for School Reform da Brown University argumenta que as escolas particulares e charter têm um forte efeito positivo junto aos pais quanto à sua satisfação com a educação de seus filhos.

Steven V. Miller, da Universidade Clemson, revisou o relatório: School Sector and Satisfaction: Evidence from a Nationally Representative Sample, e encontrou erros críticos que limitam seu valor para aqueles que avaliam propostas de políticas.

O relatório apresenta análises de regressão com o objetivo de mostrar que os pais que escolhem a escola dos filhos [por exemplo, fazendo uso de vouchers] estão mais satisfeitos com suas escolas do que os pais cujos filhos frequentam as escolas públicas locais. Em seguida, ele explica esse aumento da satisfação dos pais, apontando para as pressões competitivas [do mercado] e para a importância de reduzir o poder de monopólio do sistema escolar público. Suas análises são baseadas em uma amostra nacionalmente representativa do National Household Education Surveys Program (NHES).

No entanto, explica o professor Miller, o relatório sofre de duas grandes falhas. Primeiro, satura as análises importantes com mais de 230 covariáveis. Isso equivale a uma abordagem de modelagem de regressão tipo “lata de lixo” que obscurece mais do que ilumina; as variáveis ​​são especificadas incorretamente e os resultados são sensíveis à super saturação do modelo de regressão. Um leitor versado em modelagem estatística não terá confiança na substância dos resultados.

Segundo, e ainda mais importante, a decisão do relatório de focar apenas os “muito satisfeitos” exagera o efeito comparativo das escolas particulares e das charters na satisfação dos pais. Quase 90% dos pais de escolas públicas estão satisfeitos com a educação de seus filhos, e a decisão do relatório de se concentrar apenas nos “muito satisfeitos” parece ser uma opção deliberada de modelagem para exagerar os supostos efeitos das escolas particulares e charters na satisfação dos pais. Essa aparência é confirmada pelo uso seletivo do relatório de pesquisas anteriores, sugerindo novamente o interesse em descobertas que apoiem a ideia de se reduzir o oferecimento de educação pública.

Por conta de cada um desses motivos, o relatório é de pouca ou nenhuma utilidade para os formuladores de políticas e outros interessados ​​em entender a satisfação dos pais associada à escolha da escola.

Encontre a resenha de Steven V. Miller aqui.

Encontre o relatório School Sector and Satisfaction: Evidence from a Nationally Representative Sample. esscrito por Corey A. DeAngelis e publicado pelo Annenberg Institute for School Reform na Brown University aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão, Vouchers, Weintraub no Ministério e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

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