O evento e a metodologia do Manifesto (IV)

Postado originalmente na Uol em dezembro/2010

O segundo item do documento (1.1) é destinado a relatar como foi desenvolvida a proposta do Manifesto. Relatam que convidaram 12 especialistas, que já mencionei em postagem anterior, e que em base às propostas destes especialistas foi feita uma redação pelos signatários os quais também já identifiquei em postagem anterior.

Pode-se ver que tanto os participantes do seminário de estudos como as entidades signatárias têm em sua esmagadora maioria vinculação com corporações empresariais – seja por serem uma extensão delas, seja por serem financiadas por elas, ou ambas.

Primeiro, a petição de princípio sobre a qualidade dos especialistas convidados. Pretendem sugerir que fizeram as melhores escolhas para discutir a educação básica no Brasil, que os especialistas convidados são doutos nas soluções e dão por encerrada a questão. Em seguida o corolário, tendo convencido o leitor de que escolheram a melhor equipe de profissionais para discutir a questão, informam que tais especialistas têm convergências de posições entre eles, as quais representariam as melhores soluções para o caos educacional descrito no item primeiro do documento.

O principal aqui é a visão que é formulada como ponto de referência para as políticas, a qual expressa todo o autoritarismo dos autores do Manifesto: “O país precisa de uma liderança corajosa e eficiente que viabilize uma série de medidas transformadoras, que ataquem os problemas nas suas raízes”. Tudo é uma questão de “gerência”. E continua: “houve uma convergência de prioridades entre os especialistas reunidos quanto às ações que poderiam resolver de maneira efetiva o problema da educação brasileira, mostrando que é menos uma questão de “o que fazer” e mais uma questão de “quem e quando fazer”. Precisamos de uma liderança forte e corajosa para combater os interesses políticos e corporativistas existentes, assim como de continuidade na implantação das políticas adotadas. Precisamos, ainda, de eficiência administrativa no manejo da coisa pública”. Lembro-me, nestes casos, daqueles que logo depois de derrubada a ditadura militar no Brasil perambulavam viúvos, desejosos de “uma liderança forte e corajosa para o país”.

Ou seja, as soluções já estão dadas em outros países (citam Coreia do Sul, Irlanda, Inglaterra, Chile, EUA e China) basta que as copiemos. Quais são estas soluções, será exposto em capítulos seguintes do documento.

Cabe aqui destacarmos a matriz autoritária do Manifesto: “precisamos de uma liderança forte e corajosa” que possa “combater os interesses políticos e corporativistas existentes”. Leia-se: de um poder que permita aplicar as soluções que as corporações empresariais já aplicaram em outros países, sem a interferência de outros setores da sociedade brasileira. Note-se que, para os autores, neste caso, é válido que empresários se reúnam e corporativamente pretendam definir, em nome dos demais setores da sociedade, o que deve ser a educação brasileira. Neste caso, está permitido o corporativismo.

E como não poderia faltar, há também a petição de princípio acadêmica. O documento, como é típico da fala liberal, refere-se a “um volume significativo de pesquisas acadêmicas apontando as soluções que efetivamente teriam um impacto positivo na solução desse problema”. Não se dá ao trabalho de sequer remeter o leitor a tais estudos. Em parte a razão é que eles são, como temos demonstrado neste Blog, controversos – no mínimo. Não existem estas “soluções” no plano da academia. Invocam a academia para dar uma cobertura científica a suas posições políticas e ideológicas.

Em resumo, o primeiro item do documento (1) cria o caos e omite os avanços da educação brasileira. O segundo (1.1) pretende convencer o leitor de que as soluções que serão apresentadas estão validadas pela academia – pela equipe escolhida, a melhor, e pelas pesquisas acadêmicas que dariam respaldo às soluções que apresentarão. Isto posto, finalmente, esta parte enuncia a metodologia geral a ser empregada: liderança forte e corajosa – ou seja, baseada na lógica dos negócios, da iniciativa privada. Já mostrei que a grande maioria dos participantes do seminário bem como das signatárias são desta área ou a ela estão relacionados.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em A proposta, Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s