INEP: a dupla negação do Presidente – Final

O Presidente do INEP sonegou ao público do V Seminário do CEDES a política de avaliação daquele órgão, mas um dia antes apresentou ações do INEP com detalhes em uma reunião na UNDIME aos Dirigentes Municipais de Educação. Ele veio diretamente desta reunião da UNDIME para o Seminário do CEDES. Lá ele apresentou o portal de devolutivas da Prova Brasil, que está sendo realizado em parceria com o Todos pela Educação, Fundação Lemann, Banco ITAU BBA e Bradesco, e levará até os professores uma análise “pedagógica” dos itens dos testes da Prova Brasil, baseado na pedagogia das competências. Mas isso parece que ele não quer discutir com educadores profissionais.

No site da Undime que sediou a reunião, se lê:

“O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) vai lançar em agosto o portal Devolutivas, que vai explicar os resultados da Prova Brasil. O site disponibilizará os itens da prova com comentários e explicações sobre o que o aluno errou ou acertou. O portal foi apresentado hoje (16-7) pelo presidente do Inep, Francisco Soares, no 15º Fórum Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação” .

De acordo com o Inep, a plataforma mostrará os resultados da Prova Brasil tal como divulgado no boletim da escola, ou seja, será possível selecionar a escola e visualizar em um gráfico a distribuição dos alunos nos níveis de proficiência de cada área ou etapa avaliada. Também será possível comparar essa distribuição à de escolas similares” – diz o site da UNDIME.

O mais chocante é como o presidente do INEP não se sente “accountable” por apresentar suas políticas com transparência para o debate com os educadores profissionais, mas exige e desenvolve políticas de “accountability” para os professores e gestores das redes educacionais do país.  É hora de que também os gestores da educação nacional sejam responsabilizados pelas políticas que colocam em prática e pelos seus efeitos. Isso começa com a apresentação delas ao público especializado.

Durante o debate coloquei claramente uma questão ao Presidente: diga-nos em que país a utilização das ideias de responsabilização e meritocracia – e suas políticas de controle por bases de dados – reduziram a desigualdade. A questão ficou sem resposta.

Vem aí, portanto, o portal das devolutivas. Como sempre, mais pressão sobre o professor e sobre a escola, a título de corrigir injustiça social para com os pobres, mas a partir da escola e não das próprias políticas públicas dos governos. Para o INEP, o enfrentamento das desigualdades educacionais se dá por portais eletrônicos com informações que são divulgadas à sociedade e tornam transparente os resultados obtidos pela escola.

E depois da montagem de um portal que divulgará toda a posição da escola na Prova Brasil, temos que ouvir do Presidente do INEP que ele é contra colocar o IDEB na porta das escolas como queria Ioschpe. Entende-se agora porquê. De fato ele montou um esquema de divulgação muito mais sofisticado e elaborado do que uma tabuleta na porta da escola. De fato, ele não precisa da tabuleta. Ele construiu uma “tabuleta eletrônica” com muito mais informações sobre cada escola.

Para o INEP, há que “se buscar pedagogias apropriadas para os grupos mais vulneráveis” e a “inexistência de uma base nacional comum é uma fonte geradora de desigualdades”. Como se vê, há uma internalização da desigualdade social em uma desigualdade escolar a qual deve ser enfrentada com uma pedagogia apropriada e uma base nacional comum. A desigualdade social virou desigualdade escolar a ser combatida dentro da escola, independente dela continuar sendo produzida no interior da sociedade em que o aluno vive. Nisso não há nenhuma divergência com o documento da Pátria Educadora da SAE. Também não difere da posição de outros reformadores.

Reproduzo abaixo um exemplo da “interpretação pedagógica” que estará chegando logo mais em agosto aos professores das nossas escolas:

Comentário Pedagógico: “O item apresenta uma tabela simples, com duas colunas, que mostra o resultado de uma pesquisa realizada por uma professora em sua turma sobre a preferência dos alunos por um dos quatro times de futebol apresentados. Para responder corretamene à pergunta o participante da prova precisava localizar na tabela a linha referente ao time de futebol citando na comanda (a equipe esportiva Bons de Bola) e verificar na coluna que tem como título Número de alunos, quantos dos pesquisados votaram no referido time.
O percentual de acertos na questão (gabarito D) é considerado bastante alto 84%. O nível do item na escala de proficiência é 150. Dentre os alunos que estão nesse nível houve a confirmação empírica de que a probabilidade de acerto do item é praticamente de 80%. A partir do nível 275 da escala de proficiência, 100% dos respondentes acertaram o item. De modo geral, no teste, 98% acertaram a questão, enquanto dentre os estudantes com pior desempenho, 58% escolheram a opção correta. A discriminação do item foi, portanto, alta (98% – 58% = 40%).
Observando o gráfico de proporção de respostas, vê-se que já a partir do nível 125 da escala o gabarito se torna a opção de resposta preferencial dos alunos. Os que marcaram as alternativas incorretas podem ter feito escolhas ao acaso ou então demonstraram não conseguir ler as informações apresentadas em uma tabela simples. Já aqueles que acertaram a questão provavelmente conseguiram reconhecer e ler o dado referente ao número de alunos que têm como preferência o time Bons de Bola. Houve uma boa correlação entre o desempenho no teste e o acerto do item, ou seja, os alunos que tiveram bom desempenho na prova como um todo acertaram a questão e os estudantes com mal desempenho erraram. Este item está no nível que autores como Curcio (1987) costuman denominar de “leitura de dados” no qual se requer a simples leitura das informações apresentadas, sem que seja necessário realizar a posterior interpretação das mesmas.”

Vamos ter que aguardar o lançamento do portal para poder ver no que consiste já que o Presidente do INEP nos sonegou tal informação. Mas pelas informações apresentadas na UNDIME, note-se que em nenhum momento se fala em disponibilizar na análise pedagógica o nível socioeconômico da escola ou de outras variáveis que afetam o trabalho da escola e do professor. O texto está “higienizado” das variáveis externas da escola que somam quase 60% da explicação das diferenças entre os estudantes.

Lamentável, portanto, que os educadores venham a ser os últimos a saber.

Lamentável que o INEP não se disponha a debater com os educadores profissionais as suas políticas financiadas com fartos recursos das fundações privadas.

Lamentavel que o INEP se proponha a ampliar o controle sobre as nossas escolas a partir de “big data” ou melhor “big brother” criando tabuletas eletrônicas que rotulam escolas e que poderão no futuro ser usadas cada vez mais para constranger os diretores e professores das escolas públicas brasileiras.

Esta é a concepção que o INEP tem sobre como melhorar a educação brasileira e que ele nega que seja uma concepção liberal, uma concepção ligada aos reformadores empresariais da educação.

Depois disso, só nos resta acreditar que papai noel também existe.

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INEP: a dupla negação do Presidente – I

 Durante o V Seminário de Educação Brasileira promovido pelo CEDES na Unicamp compus uma mesa com o presidente do INEP. Fui para o evento muito interessado em discutir a política educacional do INEP, seus fundamentos e consequências, em entender como está pensando os processos de avaliação e outros aspectos que sabemos estão em curso. Estamos assistindo a uma mudança no paradigma de controle da educação nacional via avaliação, baseada, agora, cada vez mais em plataformas de alta tecnologia. Tudo isso era matéria interessante para debate.

Para minha surpresa, o presidente do INEP não trouxe para o seminário nenhum aspecto da política nacional de avaliação em execução no INEP. Substituiu-a por um conjunto de conceitos seus sobre “desigualdade”, “justiça social” etc. Para o Presidente, o conceito de equidade precisa ser substituído pelo de “desigualdade”. Para ele, “inclusão, desigualdade e qualidade são agora pauta da educação por um amplo acordo internacional”. Ora, nós educadores, estamos brigando por isso há meio século pelo menos.

A análise apresentada por ele começa com a desigualdade social, mas rapidamente interioriza esta desigualdade na escola e a partir daí seu conceito perde conexão com a desigualdade social real e se converte em desigualdade escolar.

Não é preciso muito esforço para se perceber onde vai a análise. Por esta via, a desigualdade se torna uma questão de justiça social e se transforma mais adiante em base para as políticas de controle da escola de forma a corrigir esta falta de justiça social, bem ao sabor das propostas dos reformadores empresariais da educação.

Como bem coloca Ravitch:

“Concordo em que os professores fazem uma diferença enorme na vida das crianças, mas eu quero que ele reconheça que o jogo está contra as crianças pobres. É marcado pelas circunstâncias, e é marcado pela dependência obsessiva de nossas escolas por testes padronizados. Testes padronizados são baseados na curva normal. A curva normal não produz igualdade de oportunidades educacionais. Ela favorece a vantagem [dos mais favorecidos] sobre os menos favorecidos. Nós, como sociedade, temos a obrigação de fazer algo sobre isso.”

A injustiça social a que se refere o Presidente do INEP e à qual é submetida a criança antes de entrar na escola, vira, no entanto, um indicador de Nível Sócio Econômico, e não raramente é usado para mostrar que existem algumas escolas de nível socioeconômico baixo que têm desempenho alto. Ou seja, transforma-se em seu oposto: ao invés de ser colocada como um condicionador da escola que exige a mobilização de outras políticas públicas, vira um argumento contra a escola pública e seu magistério.

Ora, esta é a linha de análise do pensamento educacional liberal que acredita na redenção da miséria pelo acesso à educação e pelo esforço pessoal. Os liberais (base ideológica dos reformadores empresariais) isolam o direito de aprender dos demais direitos, já que como mercadores de ilusão seu trabalho se destina a convencer que pelo acesso a uma educação de qualidade, ou seja, pelo direito à educação, os demais direitos chegarão com o tempo, pelo esforço pessoal, vale dizer, pelo mérito que advém de tal esforço.

Para os liberais, a diferença de resultados entre as crianças é esperada, pois as pessoas são naturalmente diferentes. O liberal não pode admitir igualdade de resultados, somente reconhece a igualdade de oportunidades. Para eles, seria até autoritário querer que todas elas tivessem desempenhos iguais. O que não é dito, no entanto, é que estamos falando de ensino básico (não de opção profissional) e que os resultados da aprendizagem apesar de poderem ser diferentes devido às diferenças naturais que existem entre as pessoas, no caso das diferenças de resultados das crianças na escola de hoje elas são fundamentalmente devidas às desigualdades sociais que não têm nada de naturais. Há mais de 40 anos Benjamin Bloom formulava suas teses de “domínio integral da aprendizagem”. E Bloom não era nenhum  autoritário que desejasse padronizar as criancinhas.

Isso significa que para garantirmos que somente as diferenças naturais afetem os resultados de aprendizagem das crianças, como seria correto, é preciso igualmente impedir que elas sejam desiguais no início da escolarização por motivo de suas condições sociais. Sem esta garantia, as desigualdades escolares correm o risco de, mesmo quando oriundas de fatores sociais, serem atribuídas às diferenças naturais entre os seres humanos – naturalizando-se as diferenças sociais como diferenças naturais das crianças.

Na primeira negação, o Presidente sonegou a política do INEP, na segunda sonegou sua posição como reformador empresarial da educação. Ele não se reconhece nem como liberal e nem como reformador. Ele se considera um simples batalhador da justiça social.

Continua.

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Mercado de ilusões

Na ilusão de que mais provas significam melhor acompanhamento do aluno e melhores resultados, tanto a Prefeitura de São Paulo como o Estado de São Paulo vão ampliar as provas durante o ano (veja aqui e aqui). Há uma “dificuldade” com nossos dirigentes: 1) entender que ninguém melhor do que o professor, em sua atividade regular de sala de aula, sabe como está o desenvolvimento de cada aluno; 2) e que não basta identificar o problema que o aluno está tendo, mas é preciso ter condições objetivas para intervir na sua formação, ou seja, só para começar, precisa ter menos alunos em sala de aula e mais dedicação a uma mesma escola, ao invés de ser um “professor borboleta” dando uma horinha de aula aqui e outra acola em escolas diferentes, relacionando-se ao final da semana com mais de 500 alunos.

Isso para começar, porque as condições não param por aí. No entanto, preferem-se as medidas de curto prazo que, em verdade, são ilusões temporárias fadadas ao fracasso ou a melhorias pontuais sem sustentação.

Em especial o Estado de São Paulo está há anos nesta patinação geral atrás de medidas de impacto. Hoje também a Folha divulga entrevista de Maria Alice Setubal criticando a adoção de bônus para professores.

O foco na prova (com ou sem meritocracia) leva a maior gasto de tempo com esta atividade e sua conversão em uma ação destinada a “preparar para a prova” e não a ensinar. É o acompanhamento do professor (e para isso não pode ter 40 alunos) em sala que faz a diferença na identificação do problema e na atenção a ser dada ao aluno.

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USA: para onde vai o Brasil?

“As escolas públicas [americanas] estão em meio a uma guerra pelo seu controle – e até mesmo a própria instituição da educação pública está em perigo. Há uma espécie de assalto na forma de pinça em andamento, com bilionários na extrema direita empurrando para a completa desregulamentação, e outros, como a Fundação Gates, procurando o controle sistêmico de cima para baixo de todas as escolas públicas do país.

No lado “anti-governo”, bilionários como os irmãos Koch e família Walton querem transformar a escola em um mercado livre com financiamento público aberto a todos, onde virtualmente qualquer um que queira pode configurar uma escola e ensinar o que quiser. Essa filosofia está resultando em dinheiro através de vouchers indo para escolas que usam a Bíblia como uma fonte no ensino sobre as origens da vida na Terra. O American Legislative Exchange Council desenvolveu uma legislação às vezes chamada de “Bolsas de Estudo de oportunidade” que dão aos pais créditos fiscais que podem ser aplicados ao ensino da escola particular ou paroquial. Esta semana, Nevada se tornou o mais recente estado a adotar esse modelo, tão pronto permitindo que os dólares de tributos possam fluir para qualquer escola que o pai escolha tirando fundos das escolas públicas. A desregulamentação está se estendendo para a profissão docente também. Em Wisconsin, regras recentemente propostas poderão permitir que alguém ensine independentemente do seu nível de educação, contanto que eles tenham “experiência relevante.”

No lado “pró-governo”, as Fundações Gates e Broad têm trabalhado em estreita colaboração com a administração de Obama e os sindicatos de professores para fazer avançar o Common Core [a base nacional comum] e testes alinhados como o novo sistema de prestação de contas que irá religar nossas escolas e transformar nossas salas de aula em “soquetes” uniformes para os sistemas de aprendizagem de base tecnológica. Com a sedução das subvenções do Race to the Top e ameaçando a perda do fundos federais, o Departamento de Educação federal tem forçado a maioria dos estados a adotar o Common Core. Por razões semelhantes, muitos estados já obrigam a inclusão dos resultados dos testes em avaliações dos professores, embora estes sistemas sejam irracionais e injustos. O caso Vergara na Califórnia diabolicamente colocou os interesses dos alunos contra os professores, afirmando que as proteções de estabilidade no emprego dos professores interfere com a capacidade dos alunos de obter uma boa educação.”

Este é o dilema da educação americana que se debate entre estas duas vertentes dos reformadores empresariais. Uma que pretende autonomizar o sistema de educação em relação ao governo e sua completa desregulamentação e outra que pretende o controle tecnológico das escolas de cima para baixo via uma ação associada ao governo americano.

No Brasil tudo indica que a vertente que procura deter o controle da educação seguirá pela segunda versão, ou seja, a linha de controle pela base nacional comum associada a “big data” e “alta tecnologia” articulando soluções on line de avaliação e aprendizagem individualizada. O INEP já desenvolve ações de construção de “big data” e avaliação on line e contará com apoio para ir na direção da disponibilização de recursos tecnológicos ao nível de aprendizagem associados à avaliação on line.

O documento Pátria Educadora da SAE também vai nesta direção, criando as condições de controle sobre os estados e municípios que levarão a algo muito próximo do Race to the top americano – indução para a aceitação das soluções de base tecnológica que serão criadas.

Você pode ler mais sobre a situação dos Estados Unidos (em inglês) aqui em excelente resumo de Anthony Cody.

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Razões para as reformas empresariais

Savana Diniz explica muito bem (veja post anterior) as ligações entre as atuais propostas do documento Pátria Educadora e a reforma do estado iniciada no governo Fernando Henrique Cardoso. Além deste vínculo “histórico” está a realidade atual dos empresários muito bem explicada também por Alexandre Schwartsman na Folha de SP hoje (10-06-15).

“Posto de outra forma, diz o autor, as políticas de estímulo à demanda no contexto de uma economia operando próxima do pleno emprego levaram a aumentos salariais incompatíveis com a expansão da produtividade na indústria, ou seja, à elevação desmesurada do CUT [Custo Unitário do Trabalho] e, ironicamente, à estagnação industrial. (…) Se nosso diagnóstico estiver correto, a recuperação da indústria passará, inicialmente, pela queda do salário real e, mais à frente, pelo aumento da produtividade. “

É isto que os dados iniciais que veiculamos em post anterior estão demonstrando. Daí se explica o ajuste fiscal. Alterar de imediato o valor do salário médio pago pela recessão e desemprego. Enquanto isso, reformas educacionais (Pátria Educadora) deverão garantir no médio prazo uma recuperação mais estável da produtividade pela via do aumento de formandos em vários níveis e, portanto, pela redução da dependência do pleno emprego e consequente queda do salário médio – na visão empresarial.

No entanto, de fato, o movimento do governo liberando 200 bilhões para obras de infraestrutura é significativo pois a questão da infraestrutura para o capital é o gargalo que trava o aumento da produtividade como mostramos anteriormente. A educação entra nisso como coadjuvante.

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Pátria Educadora: seminário na UFMG

Já está disponível neste link (clique aqui) as palestras ocorridas ontem à noite na Faculdade de Educação da UFMG quando se submeteu a análise o documento da SAE sobre Pátria Educadora. Participaram do debate a Profa. Savana Diniz e o Prof. Luiz Carlos de Freitas.

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A falta de produtividade (dos outros)…

Que empresário é chorão e gosta de dependurar-se no Estado, até o Levy sabe. E que a Folha de São Paulo é veículo do choramingo da categoria, também não é novidade. Em sua constante tarefa por desinformar em matéria de produtividade,  a Folha volta hoje, em editorial, a responsabilizar a educação pela baixa da produtividade do trabalhador brasileiro (1/4 da produtividade de um trabalhador americano).

A Folha é veículo dos empresários paulistas. Para o empresariado a questão da produtividade (especialmente a dos outros, já que eles mesmos se consideram exemplares e porque pagam impostos estimam que o estado brasileiro é sempre devedor de algo para eles) é central, pois afeta diretamente o lucro. Já falamos sobre isso por aqui a propósito de outros arautos empresariais que a própria folha estimula.

Em seu editorial diz:

“Muitos fatores, naturalmente, influenciam a eficiência do trabalho. Métodos gerenciais aperfeiçoados, treinamento frequente e máquinas mais modernas, por exemplo. Nosso principal calcanhar de aquiles, contudo, está na esfera da educação.”

Desta vez ela assume em editorial e não encomenda. Mas o faz de maneira tendenciosa. A ideia é passar um ícone: educação gera a falta de produtividade brasileira. Na esteira disso, todas as medidas propostas pelo modelo de reforma empresarial da educação estão justificados. Já conhecemos isso.

Mas não custa lembrar aqui o seguinte:

  1. se melhoria do desempenho educacional e produtividade estivessem associadas como acha a Folha, os Estados Unidos seriam um fracasso em termos de produtividade. Sobre isso o leitor por ler aqui.
  2. a Folha omite quais são os componentes que entram no cálculo do índice de produtividade. Dados de 2013 se fossem considerados pela Folha mostrariam algo um pouco diferente.

O Brasil no World Competitiveness Yearbook 2013

2012 2013 2012 2013
Performance Econômica 47 42 Eficiência dos Negócios 27 37
Economia Doméstica 25 31 Produtividade e Eficiência 52 58
Comércio Internacional 56 59 Mercado de Trabalho 17 23
Investimento internacional 30 20 Finanças 28 27
Emprego 6 6 Práticas Gerenciais 20 27
Preços 55 56 Atitudes e Valores 15 32
Eficiência do Gov. 55 58 Infraestrutura 45 50
Finanças públicas 41 45 Básica 50 55
Política Fiscal 37 38 Tecnológica 54 57
Marco Regulatório 55 58 Cientifica 33 36
Legislação dos negócios 55 58 Saúde e Meio-Ambiente 35 35
Estrutura Social 53 55 Educação 54 56

Ou seja, existem variados fatores determinando este índice.

E o que diz o relatório referente ao ano 2014-2015?

 “O Brasil cai uma posição e ocupa a 57ª este ano. Este declínio é impulsionado pela não resolução de sua persistente fraqueza em sua infraestrutura de transporte (77) e uma percepção de deterioração do funcionamento das suas instituições (104), com aumento das preocupações sobre a eficiência do governo (131) e corrupção (130). O Brasil também exibe um fraco desempenho macroeconómico este ano (85), mais um aperto de acesso ao financiamento, e um sistema de educação deficiente (126), que não fornece trabalhadores com o conjunto de habilidades necessárias para uma economia em transição para mais actividades baseadas no conhecimento. “

Portanto, os dados e os relatórios estão longe de responsabilizar a educação como “nosso principal gargalo”. Isso é interpretação tendenciosa da Folha. Tem a infra dos transportes na frente. E convenhamos também que a corrupção não é questão apenas do governo – se tem quem paga, tem quem faz. Um não vive sem o outro. É preciso lembrar que até pouco tempo não havia como penalizar empresas que pagassem propina e só eram penalizados os que recebiam. Sem falar que a ligação da produtividade com a educação não tem esta relação direta, como mostram os dados americanos citados acima.

Os empresários continuarão se queixando de que o Estado não fornece as condições para o aumento de seu lucro, afinal este desejo de aumento é infinito. Mas colocar a conta só na educação, isso é oportunismo para apoiar reformas que visam o controle ideológico da educação.

 

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Curto, grosso… e correto

Arnaldo Niskier diz hoje (5-6-15) na Folha o que deve ser dito sobre o documento Pátria Educadora, mas nos falta coragem. Divergências à parte, ele vai direto ao ponto e representa a necessária e enérgica crítica que seria esperada de nossas entidades educacionais. Infelizmente, estas estão mais preocupadas em fazer “social relations” com o estado brasileiro do que em criticá-lo vigorosamente naquilo que se deve criticar. Quando surge uma crítica, inevitável, ela é terceirizada para algum “órgão superior e impessoal” e de lá sai acompanhada de tantas voltas e cuidados que perde até mesmo sua força.

Arnaldo Niskier é direto. Diz:

“Roberto Mangabeira Unger tirou da sua cartola de mágico nada menos de 29 laudas…”

[O documento] “é pomposo, mas não representa nada, embora pretenda identificar refundadores ou libertadores da nação.”

“O trabalho oficial sugere a reorientação do FNDE para financiar estes devaneios ou então fazer o que lhe parece mais simples: emendar a Constituição para viabilizar o empenho das bases. Francamente, parece que esses técnicos vivem no mundo da lua, inclusive quando propõem a criação de um colegiado transfederal para cumprir a tarefa corretiva.”

É isso. Se pudesse, reproduziria na íntegra, mas não posso. Portanto direciono o leitor para o site da Folha.

Agora é aguardar pela resposta de Mangabeira à Folha.

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Edgar Rizzo: adeus ao mestre

Edgar foi meu professor na antiga Escola Normal. Faz tempo – só meio século. Chegou de Campinas para nos dar aulas em Pirassununga. Não me lembro do que. E não importa. Não foi pelo conteúdo de suas aulas que ele nunca foi esquecido por mim. Foi pela sua atitude como professor que invariavelmente pautava-se por confiar em seus alunos. Mesmo que nem todos correspondessem a esta confiança, nunca o vimos, apesar de rigoroso, insurgir-se contra nós. Foi pela sua capacidade de formar gerações que sempre foi lembrado por inúmeros de seus ex-alunos.

Cinquenta anos depois, não me lembro mais o que ele ensinava em sala de aula. Mas lembro que ele chegou devagar, como quem não queria nada e nos conquistou. Ganhou nossa atenção com a confiança, com a sua capacidade de ouvir-nos, com seu interesse e respeito pela nossa vida – simples. Sim, simples, pois nesta época a escola, em uma cidade do interior como Pirassununga, acolhia, por falta de opção e não por opção, alunos das mais variadas classes sociais, entre eles alguns que teimavam em continuar a estudar. E eu não estava no andar de cima social. Eu era um daqueles que vão à escola pois têm “direito à educação” – como dizem. Há os que não precisam ser lembrados disso. Nesta época ricos e pobres ainda habitavam a mesma sala de aula.

Não me lembro mais o que ele ensinava em sala. Mas me lembro que Edgar não escolhia aluno. Confiava e estimulava a todos. Sua grande arma: o teatro. Logo estimulou a criação na cidade de grupos de teatro – mas não de brincadeira, sérios. Várias foram as peças encenadas sob sua direção – para espanto de muitos outros professores. No contraturno, continuava professor de teatro – e não consta que recebesse por isso. Não havia “mais educação”.

Não me lembro mais o que ele ensinava, mas me lembro de que quando estava para terminar a Escola Normal e diplomar-me, foi ele que me perguntou como eu pretendia continuar a minha formação. Pergunta inusitada, mas que fazia todo sentido em um professor que confiava em seus alunos e que queria vê-los continuar a crescer. Eu disse “continuar a crescer”.

Foi ele quem me mostrou a chamada “universidade”. Cursava a Escola Normal com finalidade terminal. Daí deveria sair para dar aulas na escola com o benefício extra de não precisar servir ao exército – lei que vigorava à época para quem fazia a Escola Normal. Edgar “resolveu” que eu deveria continuar a estudar em uma Universidade. O local no qual seria mais fácil para ele me ajudar seria exatamente em Campinas – sua terra natal. A este objetivo direcionou seus esforços. Inscreveu-me um pré-vestibular na PUC Campinas, arrumou trabalho em um Banco, local para eu morar e me estimulou a vir para Campinas e “continuar a crescer”. Nas férias familiarizou-me com a cidade.

Não me lembro mais o que ele ensinava em sala. Não importa. Mas lembro de seu interesse por mim, de seu cuidado e, fundamentalmente, de sua confiança – que gerava mais confiança em mim. Certa vez, tomando um chope já em Campinas, no largo do Rosário, perguntei a ele como poderia retribuir-lhe tudo o que estava fazendo por mim. Ouvi do mestre que ele desejava apenas uma coisa como retribuição: “que eu me comprometesse sempre a fazer o bem”.

Hoje há um intenso debate sobre o que é ser um bom professor. Alguns acham que ser um bom professor se mede pelo impacto de seus ensinamentos ao final do ano letivo. Há até fórmulas matemáticas sendo criadas para tal. Para os reformadores empresariais o bom professor se mede pela sua atuação na sala de aula, por quantos objetivos ele consegue ensinar aos seus alunos. Quantos alunos “proficientes” existem na sua turma.

Mas mais do que avaliar um professor pelo que pode ensinar durante um ano, devemos avalia-lo pelo seu interesse no crescimento de seus estudantes – no crescimento global de seus alunos como pessoas. Devemos avalia-lo pela sua capacidade de ouvir e de estimular seus estudantes para a vida. Esta é a principal motivação de um professor e é isso que não consegue ser compreendido por aqueles que querem “industrializar” a profissão de professor. Isso nos ensina Edgar Rizzo. Nos ensina o poder de uma “atitude” e como ela afeta toda a aprendizagem de um estudante – inclusive na sala de aula – mesmo sem apostilas.

Não me lembro mais o que ele ensinava em sala de aula. Não importa. Mas me lembro de suas atitudes e de como elas foram vitais para minha vida. Como fortaleceram em mim a vontade de estudar cada vez mais. Talvez seja isso que se chame qualidade social da educação.

Para mim, ele foi um excelente professor. Perdemos hoje, seus ex-alunos, um grande mestre.

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Pátria Educadora: FNE reitera posição contrária

O Forum Nacional de Educação reitera o PNE  como referência da política educacional e reforça posição contrária ao documento da Pátria Educadora. A ênfase de posicionamento foi feita durante encontro com o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Secretaria da República, Roberto Mangabeira Unger.

“A manhã desta sexta-feira (29) foi momento de diálogo e debate do Fórum Nacional de Educação (FNE) com o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Secretaria da República, Roberto Mangabeira Unger. O encontro que ocorreu durante reunião do Pleno do FNE, no auditório do Edifício Sede do Ministério dos Esportes, em Brasília, foi a oportunidade de reforço da posição contrária do FNE em relação ao documento apresentado pelo Ministro Mangabeira.

O texto foi objeto de manifestação desfavorável do FNE, em 29 de abril, por meio da 26ª Nota Pública. O coordenador do Fórum Nacional de Educação, Heleno Araújo Filho, assim como os demais membros do FNE, reafirmou a posição de que o plano o qual traça os rumos da educação do país é o Plano Nacional de Educação (PNE), que teve origem na Conferência Nacional de Educação de 2010 (Conae 2010), após amplo debate da sociedade civil e do poder público.

Na oportunidade democrática de diálogo, Mangabeira assegurou que o texto apresentado não é uma decisão já tomada pelo governo. O ministro afirmou que ele é “uma proposta preliminar destinada a contribuir ao debate nacional (em torno da Educação) dentro e fora do Estado”, detalha. Segundo Mangabeira, não existe contradição entre a proposta e o Plano Nacional de Educação, e sim uma complementação, a sugestão se destinaria a executar o PNE, o qual ele define como uma “lei arcabouço“. “Ele (O PNE) organiza procedimentos e define metas, ele não estabelece o plano completo de ação”, explica. O ministro ainda afirma que o PNE invoca conceitos abstratos, como “Regime de Cooperação”, mas não desdobraria este conceito abstrato em um desenho institucional concreto da Cooperação Federativa em Educação. Assim, para Mangabeira “vem o esforço da proposta preliminar de tomar o passo seguinte de transformar a lei arcabouço em um plano de ação“, enfoca.

Após o encontro e considerações, o Fórum Nacional de Educação decidiu que encaminhará um agradecimento para o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos por participar do debate e, reforçará a posição de que o plano para a educação do país é o PNE.

Assessoria de Comunicação Social do Fórum Nacional de Educação

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USA: “perfeitamente incorreto”

Sai nos Estados Unidos exame crítico do movimento que instituiu a Base Nacional Comum americana: “Perfeitamente incorreto: porque o Common Core é psicologicamente e cognitivamente sem sentido”.

Clicando aqui você terá (em inglês) uma visão geral deste livro.

 

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Seminário Pátria Educadora: assista

Há alguns dias anunciamos que a Faculdade de Educação da UNICAMP realizou um debate sobre o documento Pátria Educadora. Esta instituição acaba de disponibilizar em vídeo as falas realizadas durante este seminário. Assista aqui nos links

  1. Parte da manhã
  2. Parte da tarde
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Profissionais analisam a Pátria Educadora

Assista aqui manifestação de vários profissionais da educação sobre o documento preliminar Pátria Educadora em Seminário na Faculdade de Educação da UNICAMP.

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Mais Mangabeiras virão: breve síntese

Temos vários equívocos sendo cometidos no combate à Pátria Educadora de Mangabeira. O primeiro, já adiantei, trata-se de querer combater seu documento argumentando que ele é desnecessário porque já temos o PNE. Ora, o PNE tem todos os ingredientes que autorizam o Pátria Educadora – meritocracia, responsabilização e privatização. Todas estas batalhas foram perdidas e muitos, encantados com os 10% do PIB e o custo qualidade, até celebraram o PNE.

Infelizmente, os ganhos obtidos  também servem à privatização. Invocar o PNE, agora, como argumento para não implementar o Pátria Educadora é não entender o real significado da proposta do Governo Dilma – ela vai mais longe do que o próprio PNE. Trata-se de reforma educacional que está situada no conjunto da reforma econômica (ajuste) – esta é a principal razão para considerar a proposta de Mangabeira uma reforma empresarial da educação, mesmo que ele não queira. Ele chama esta nova fase de “produtivismo includente” e é a partir disso que discute a educação.

O argumento da existência do PNE não nos parece suficiente porque nossa referência é a CONAE e não o PNE. Ainda que tenhamos alguns ganhos ali, o PNE é um texto do Congresso. A CONAE é um texto dos educadores. No primeiro tem meritocracia, no segundo não.

Como disse, nenhum dos nossos ganhos dentro do PNE impede a política dos reformadores empresariais, ao contrário, é no que perdemos que ela se apoiará. E, neste sentido, Mangabeira tem razão ao dizer que o seu Pátria Educadora, órfão de vanguarda (?) cumpre o PNE – pelo menos naquilo com que ele concorda. Visto que o PNE é dúbio, todos podem encontrar ali alguma justificativa.

O segundo equívoco é achar que o documento vai morrer por si mesmo, se não dermos muita importância a ele. Ledo engano, em política as propostas dependem dos proponentes e se eles têm força, elas só morrem com ação. Mesmo que este documento não prospere, haverá outro, e mais outro e assim sucessivamente. Uns mais radicais outros menos, mas todos na mesma direção. Trata-se de um movimento dos empresários em nível mundial para subordinar o processo educativo ao projeto de ajuste econômico, aos seus interesses imediatos, via OCDE.

Mangabeira está certo ao dizer, em algum de seus pronunciamentos, que o ajuste econômico do governo Dilma foca a produção e a educação. Eu mesmo me atrevi a dizer isso aqui logo que se discutia a indicação do Ministério da Fazenda e da Educação. Ou seja: disse que o Governo Dilma iria fazer uma combinação de arrocho salarial a partir de ajuste recessivo e, na outra ponta, uma ênfase na ampliação da formação de mão de obra, ambas como forma de derrubar o salário médio do trabalhador para estimular investimentos privados. Os dois fatores – desemprego e mais gente qualificada para ser contratada – alavancam a queda de salário médio dos trabalhadores.

A recessão atua de imediato com o desemprego e a disponibilidade do trabalhador para fazer mais por menos; a educação no médio prazo atua ampliando o número de pessoas disponíveis para trabalhar – por menos é claro. No meio disso tudo, está a questão da produtividade. Mas esta é assunto de mais longo prazo, pois não depende só da educação. Enquanto isso não ocorre, o ajuste cumpre sua função.

E os resultados já começam a aparecer na economia brasileira:

“O rendimento médio real habitual dos ocupados (R$ 2.163,20) caiu 1,4% em relação a janeiro (R$ 2.194,22) e recuou 0,5% comparado a fevereiro de 2014 (R$ 2.174,35). A massa de rendimento médio real habitual (R$ 50 bilhões em fevereiro de 2015) caiu 2,5% em relação a janeiro e recuou 1,5% na comparação anual. A massa de rendimento real efetivo dos ocupados (R$ 50,7 bilhões em janeiro de 2015) caiu 19,8% em relação dezembro e recuou 1,4% em relação a janeiro de 2015.”

Portanto, a questão não é só o documento do Mangabeira, mas é o que ele representa e está pondo em marcha na política educacional brasileira e que pode, mesmo que não prospere por seu radicalismo, desencadear. Que não se pense que não há vanguarda para a proposta. Ela só está envergonhada face à forma tão declarada e personalista que Mangabeira usou, combinada com o acréscimo de medidas que ele considera que “vai além” do modelo empresarial. As divergências estão nesta parte e não nas teses dos reformadores que ele incorpora. Os reformadores de carteirinha vão aguardar para ver se cola. Possivelmente, o pessoal da responsabilização “light” vai aparecer em algum momento.

A estes dois equívocos pode-se somar outro em vias de ocorrer: achar que o documento não se baseia em uma reforma empresarial da educação. Primeiro, como mostrei acima, ele mesmo parte de uma análise econômica para situar a reforma da educação. Ele tentará negar, mas, como antecipei, a negação não se sustenta. E não é só pela relação macro. No detalhe também ela é uma reforma empresarial.

Mangabeira reconhece, por si mesmo, que o gerencialismo empresarial está presente ao dizer que incorpora “mecanismos de cobrança e meritocracia”, mas vai além por considera-los insuficientes. Ora, a política dos reformadores empresariais da educação tem três conceitos básicos: responsabilização (cobrança); meritocracia; e privatização. Os dois primeiros conceitos, conduzem ao terceiro. Tudo o mais são formas de se obter isso.

Portanto, o Pátria Educadora na forma proposta não perde nada para os reformadores, mesmo com seus acréscimos. Ao contrário, estes adentram a sala de aula de forma muito mais arrojada e com impactos segregacionistas que provocam dúvidas até mesmo em alguns reformadores. Um dos argumentos sedutores dos reformadores é que eles querem a promoção dos pobres pela escola. A segregação escolar, segundo eles, seria um acidente a ser evitado com cobrança e meritocracia. No documento de Mangabeira a segregação escolar é um objetivo – escolas de referência Anísio Teixeira. Isso desnuda o projeto dos reformadores, que é muito mais sutil.

Outro equívoco é acreditar que o documento de Mangabeira é uma versão preliminar. Em nenhum momento ele dá sinais de que tenha dúvidas sobre quaisquer de suas ideias ou indicações contidas no documento. Trata-o como final. Ele quer adesão e não crítica. Essa é a função da vanguarda: defender a “obra libertadora”. Ele está em uma cruzada nacional. Melhoria será admitida desde que seja para implementa-lo. Inclusive já tem o próprio elenco de medidas a serem desencadeadas de forma rápida, ao seu final. O adjetivo “versão preliminar” é apenas um anteparo destinado a ganhar tempo para compor a vanguarda – e ele está trabalhando intensamente nisso, inclusive chamando as pessoas que considera importantes para conversar em seu gabinete. Alguns têm saído destas conversas “constrangidos”.

No entanto, apesar de procurar uma vanguarda, descarta quase todos os atores do campo educacional: diz que não é reformador empresarial, que não quer políticos e burocratas, nem educadores do MEC, do CNE e de sindicatos.

“Para o ministro, o debate precisa ir além do domínio dos agentes tradicionais, como o Ministério da Educação, o Conselho Nacional de Educação e os sindicatos de professores, e se transformar em um debate nacional.”

Considera-os, de fato, “obstáculos”.  A estratégia é cercar tais atores com um “debate nacional” que os torne minoritários. Suspeito que na tentativa de criar um debate nacional, no entanto, ele vai atuar no varejo e não no atacado. Não haverá uma grande versão final e sim uma implementação fatiada.

Mas independentemente do que venha a ocorrer com o documento de Mangabeira, o fato é que este não será a única tentativa dos reformadores. Portanto, temos que criticar o documento de frente, pelos seus conceitos e propostas e não fazer de conta que ele não existe.

Destruindo seus conceitos, combatemos não só este mas os outros documentos que ainda virão. 2015 é o ano que não começou. 2018 está a todo vapor. Mais Mangabeiras virão.

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RS: governo propõe privatizar

“Tramita desde o começo de abril, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (AL-RS), projeto de lei do governador José Ivo Sartori (PMDB) que estabelece Parcerias Público-Privadas (PPPs) na educação pública gaúcha. O PL 103\2015 está na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aguarda parecer do deputado estadual Ciro Simoni (PDT). Se aprovada, a nova legislação irá flexibilizar a gestão das escolas da rede estadual com a iniciativa privada.

A intenção do governo Sartori é criar o programa “Escola Melhor: Sociedade Melhor” que prevê ‘alcançar contribuições financeiras para a melhoria da qualidade do ensino da rede pública Estadual’. As pessoas físicas ou jurídicas podem doar materiais didáticos, fazer reformas físicas e investir em infraestrutura tecnológica (wi-fi, notebooks). Podem também fazer intervenções pedagógicas por meio de palestras e ‘outras em acordo com a direção e Conselho Escolar’. Em contrapartida, podem fazer publicidade e propaganda das suas iniciativas nas escolas.”

Leia mais aqui.

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Pátria Educadora: a crítica continua

Recebemos mais textos críticos da proposta da SAE para a Pátria Educadora:

– Texto de Mauro Sala – leia aqui.

– Texto de Mariângela Bairros – leia aqui.

– Texto de Nadeje M. R. Mialchi, Estela S. Betini e Carine B. Sant’Ana – leia aqui.

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Mangabeira Unger no Senado

Argumentar contra o Pátria Educadora da SAE usando a existência do Plano Nacional de Educação sempre foi uma furada. Algumas entidades acreditaram nisso e insistiram na tecla. A resposta vem pelo próprio Mangabeira: “o Pátria Educadora executa o Plano Nacional da Educação”. Era óbvia a resposta.

Mas o ponto mais importante é sua fala sobre os “obstáculos” que o Pátria Educadora tem que enfrentar: a) precisa de uma vanguarda pedagógica para sustenta-lo que deve ser construída e que não pode ser constituída por políticos e burocratas; b) o debate precisa ir além dos agentes tradicionais. Quem são eles? O Ministério da Educação, o Conselho Nacional de Educação e, claro, os sindicatos de professores; e c) o país não vê a realidade calamitosa da qualidade do ensino básico.

Ou seja, o Pátria Educadora nasce de costas para as principais instituições que cuidam da educação no Brasil, e os educadores – no MEC, no CNE e nos Sindicatos – são um “obstáculo” à sua realização, precisando ser criada uma nova vanguarda pedagógica para além deles. Entenda-se: eles estarão presentes, mas é a vanguarda que vai conduzir – junto com Dilma e a SAE. A CNTE leu isso? Está tudo lá no site da própria SAE.

Esta é a mesma fala dos reformadores empresariais da educação que desacreditam e difamam o magistério para fazer passar suas propostas. Nada de novo.

Em outra nota, Mangabeira quer nos convencer de que o Pátria Educadora não segue o modelo dos reformadores empresariais. Nada como ler sua própria declaração:

“O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos/SAE, Roberto Mangabeira Unger, afirmou em entrevista ser crítico do paradigma empresarial nas relações educacionais e declara, em relação ao projeto Pátria Educadora, que a as mudanças no ensino básico precisam “ir além”.

“Não desmereço os avanços do paradigma empresarial onde foi aplicado, mas sou a favor de uma agenda de reformas muito mais ambiciosa”, diz Mangabeira. Métodos como mecanismo de cobrança e a meritocracia são incorporados no documento, mas dentro de uma proposta ampla de reforma no ensino básico. “Adotar somente estas mudanças são avanços limitados. Não é esse paradigma que está inspirando essa proposta”, finaliza.”

Veja aqui.

Primeiro ele afirma que a lógica empresarial não é inspiração para o Pátria Educadora. No entanto, logo em seguida, diz que quer ir além dela e reconhece que incorpora “mecanismos de cobrança e meritocracia”. Ora, a política dos reformadores empresariais da educação tem três conceitos básicos: responsabilização (cobrança); meritocracia; e privatização. Tudo o mais são formas de se obter isso. Portanto, o Pátria Educadora na forma proposta não perde nada para os reformadores.

Um verdadeiro cavalo de troia.

 

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Base nacional comum: mais informações

Reportagem do Estadão procura dar mais informações sobre o processo de elaboração da base nacional comum. Ficamos sabendo que uma prévia da base nacional estará disponível em julho para discussão até 2016. O Conselho Nacional de Educação também será envolvido. A reportagem confirma que já estão envolvidas 116 pessoas em sua elaboração, como anunciamos.

Na mesma reportagem, há uma frase minha retirada da entrevista que concedi ao repórter do Estadão. Reproduzo abaixo a entrevista completa dada ao Estadão.

Estadão: Quais são os principais riscos de uma base nacional comum para o Brasil (o senhor que acredita que pode servir apenas para legitimar avaliações em larga escala, causar reducionismo educacional, etc)? E quais as principais vantagens?

LCF: Penso que a questão da Base Nacional Comum – BNC – não está na sua negação. Creio que é uma questão de concepção, fundamentalmente. Uma BNC é uma referência nacional daquilo que uma nação entende que deva ser a formação fundamental de seus jovens, em forma mais elevada possível. Não dá para pedir pouco. A questão fica fora dos trilhos quando se volta a BNC para avaliação de larga escala e responsabilização verticalizada das escolas e gestores. Essa é a questão. Mas, é preciso agregar que: antes de se construir uma BNC é fundamental que nos coloquemos de acordo, como nação, sobre o que entendemos que deva ser uma boa educação para nossa juventude. Só depois disso é que podemos discutir o que fazer. Boa educação não pode ser entendida como notas mais altas em duas ou três disciplinas.

Estadão:  O senhor acredita que falta mais transparência do MEC na construção dessa base? Por quê e em quais aspectos?

LCF: Sim. Penso que o MEC deveria construir um site com todas as informações claras, com os passos que serão dados e por quem. Quem está fazendo esta base – alguns falam em mais de 100 pessoas envolvidas, por exemplo. Isso não pode ser tarefa de “iluminados”. Os professores das escolas e a área educacional devem participar – não como homologadores ao final do trabalho, via email, é claro.

Estadão: O senhor acredita que haverá perda de autonomia das redes e das escolas com uma base comum?

LCF: Bem, não basta afirmar que 40% da BNC está disponível para a parte diversificada, se depois os exames nacionais se concentram nos outros 60%. São os exames que ditam o que vai ser ensinado/estudado, de fato. É bem conhecido na literatura o efeito dos testes na produção de “estreitamento curricular”. Não adianta falarmos de variadas dimensões da aprendizagem, se depois nos concentramos em duas disciplinas e em algumas dessas habilidades. Uma BNC não deve ser feita com foco na avaliação e responsabilização verticalizada.

Estadão: Quais serão as principais dificuldades para que a base seja seguida em todo o país?

LCF: As condições de funcionamento de nossas escolas, a focalização em duas ou três disciplinas na avaliação, a meritocracia crescente nos sistemas de ensino, os professores horistas que não podem se dedicar a uma escola, a falta de educação de tempo integral para ampliar a formação das crianças e a quantidade de alunos em sala de aula, para citar alguns.

Estadão: O MEC indicou que aproximadamente 60% do conteúdo deve ser definido pelo currículo, com o restante de parte diversificada. A base nacional comum também não traria indicações de como ensinar, mas dos objetivos de aprendizagem. Como o senhor avalia esse formato?

LCF: Como já adiantei, temos primeiro que nos entender sobre o que achamos que seja boa educação e também não orientar a base nacional para a avaliação e responsabilização verticalizada. Além disso, temos que prever que a indústria da avaliação, consultorias e as indústrias de apostilas estão esperando a BNC para padronizar o seu material didático. Isso vai criar um mercado gigante e ter um impacto negativo na qualificação dos professores e no ensino. As indicações de como ensinar vão vir do mercado livreiro.”

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Máquinas de preparação para teste

Há muito que se alerta para o fato de que os exames criam uma tradição de estudos que estreita o currículo. Isso se deve, entre outras coisas, à concepção de que notas altas são sinônimo de boa educação. Falso, obviamente. Mas faz com que se estude apenas aquilo que cai nas provas. Ao se transformar o ENEM em exame de ingresso, ele foi corrompido como instrumento de diagnóstico do ensino médio.

A outra consequência é a preparação para os testes ao invés de efetivo estudo e formação.

O Estado de SP acaba de oficializar a preparação para o teste como boa educação.

Os alunos da rede contam agora com uma assessoria on line personalizada para se sair bem no ENEM. Veja aqui também.

“Os 415 mil alunos do terceiro ano do ensino médio da rede estadual de São Paulo poderão acessar a partir de segunda-feira, 25, uma plataforma online com conteúdo de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), cujas inscrições abrem nesta segunda feira. A ferramenta, que oferece plano individualizado de estudos, foi desenvolvida pela Geekie, startup de tecnologia aplicada à educação.”

A empresa não cobra nada do Estado, pelo menos por enquanto. Certamente de olho no mercado nacional, já que o Pátria Educadora vem aí…

Segundo a empresa, cada aula assistida aumenta 1,6 pontos na nota do ENEM. no total pode ter até 250 pontos. (Quer saber como a Geekie pode ajudar seus alunos a melhorarem em média 250 pontos na redação do ENEM? Vem!).

A educação nas mãos de empresários.

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CONTEE denuncia TISA

A CONTEE denunciou a existência de um acordo secreto sobre a desregulamentação dos serviços públicos em escala mundial, incluindo a educação. O acordo inclui a União Europeia, Estados Unidos e países que são mais susceptíveis de concordar com o pacto. A ideia é engrossar a proposta com estes países para retornar à OMC – Organização Mundial do Comércio. Por ora, não inclui o Brasil.

“Um desses acordos chama atenção especial: o Tisa, um acordo multilateral secreto que está sendo negociado desde os meados de 2012, sob a liderança dos EUA e da União Europeia. Esse acordo já inclui mais de 50 países e tem a pretensão de estender o alcance e as normas do AGCS na OMC. Um texto de 19 páginas desse acordo foi vazado em junho de 2014 por Julian Assange, do Wikileaks. O texto revela os objetivos de privatizar serviços básicos, como saúde, transporte, energia, telecomunicações, limpeza e educação, que passariam a ser cobrados e geridos por empresas e não mais pelos Estados. Posto em prática, o acordo abarcaria cerca de 70% dos serviços públicos do mundo, o que implica na perda da soberania sobre recursos naturais, como água e serviços públicos essenciais, incluindo educação.

Até o momento, além da União Europeia (com seus 28 países-membros) e dos Estados Unidos, participam das negociações do Tisa: Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Hong Kong, Islândia, Israel, Japão, Liechtenstein, México, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru, Suíça, Taipé Chinês e Turquia e Uruguai.”

O acordo estabelece que suas cláusulas permanecerão em segredo de Estado, sem divulgação pública no prazo mínimo de cinco anos após a assinatura do acordo. Veja mais aqui em Carta Capital.

“Enfim, o que verdadeiramente está em jogo neste acordo é muito mais que comércio, muito mais que serviços. Está em jogo o próprio conceito de democracia, a liberdade de um povo escolher como deve funcionar o Estado e suas prioridades em oferecer serviços básicos; de definir o modelo de desenvolvimento preferível em busca de um futuro melhor e mais sustentável. Hoje, já se notam claras limitações em se governar, mas para empresas e alguns governos isso ainda é pouco. Acordos como o TISA socavam a governabilidade em um grau nunca antes possível, favorecendo ainda mais as corporações. O TISA – junto com o Tratado Transpacífico (TPP) e o Tratado Transatlântico (TTIP) e outros– estabelece um novo grau de hegemonia e sua consequente concentração de renda.”

Em abril de 2014 a PSI – Public Services International – divulgou um relatório denunciando o acordo que pode ser baixado aqui (em espanhol).

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CARTA ABERTA já recebeu 1200 signatários

Já são 1200 os signatários da Carta Aberta ao Sr. Ministro da Educação.

Confira quem já apoiou – ApoiadoresCartaAbertaMinistro1200

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CARTA ABERTA – II

(Continuação do post anterior.)

Hoje, não se pode mais alegar ignorância a respeito dos resultados nefastos que tais políticas já produziram mundo afora. Não há, portanto, base de evidência empírica consistente que justifique sua importação para o governo federal em nosso país. Isso, por si, já deveria condenar o documento preliminar da SAE como facilitador e estimulador do desenvolvimento destas mazelas educacionais.

Mas há mais. Mesmo que hoje não tivéssemos a evidência empírica que temos a nosso favor, as consequências destas políticas, seja pela sua ideologia concorrencial, seja pelos seus conceitos constitutivos, estão a quilômetros de distância do que nossos grandes educadores já produziram e muito distante daquilo que a comunidade educacional brasileira construiu na sua longa trajetória por configurar as políticas públicas educacionais, e que se encontra consubstanciado nas Conferências de Educação já realizadas e na vasta produção, financiada pelo próprio Estado brasileiro, sediada em nossas Instituições de Ensino Superior e articulada em termos acadêmicos pelas nossas entidades científicas e em termos trabalhistas pelas nossas entidades sindicais.

Na visão dos reformadores empresariais, entretanto, tais entidades são defensoras do “status quo” e eles, os novos reformadores, são os representantes do “progresso”. Segundo estes mesmos reformadores, as entidades não pensam nas crianças, eles sim o fazem. Nada mais falacioso do que esta inversão de perspectivas. Se considerarmos os resultados segregadores das políticas que propugnam, especialmente sobre aqueles que dizem defender – as crianças em situação desfavorecida -, então veremos que o realizado foi bastante diferente do proclamado.

Trata-se de uma estratégia mundialmente utilizada pelos reformadores empresariais da educação para difamar o magistério e suas entidades perante a opinião pública, com amparo generoso da mídia, com a finalidade de justificar uma nova “vanguarda pedagógica”, tentando “resetar”, “deletar” a produção acumulada nas instituições e órgãos da educação nacional e substituí-la por crenças de um ideário exógeno, a serviço da rasa articulação da educação à lógica dos novos processos de acumulação de riqueza.

Nada surpreendente se este mesmo magistério retrogrado que não pensa nas crianças, for recebido a bala de borracha e a cassetetes nas ruas pelas justas manifestações em defesa de suas condições de trabalho. Terão merecido.

No entanto, a destruição do magistério é a própria destruição do futuro das nossas novas gerações. Representa a recusa explícita de uma nação em relação à soberana determinação de seu futuro.

De fato, o que interessa aos novos reformadores e sua central de inteligência, a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico -, é convencer os latino-americanos de que devem submeter sua força de trabalho à mesma selvageria que os asiáticos estão submetendo a sua. E para tal, sugerem que adotemos as mesmas estratégias educacionais que conduzem a ela.

Sr. Ministro, ao implementar a atual agenda proposta no documento preliminar da SAE, estaremos trazendo para o cenário da educação brasileira as vias de acesso a todas estas nefastas consequências que terminarão por configurar décadas perdidas para o desenvolvimento da educação brasileira – alguns aspectos da agenda já estão claramente indicados ali, outros se desenvolverão no momento seguinte, na esteira dos ali apontados. É o que a experiência internacional indica.

Estas são as preliminares da nossa proposta. Mas, de novo, qual é nossa agenda alternativa que se implementada agora, pode nos colocar em outra direção?

  1. Em primeiríssimo lugar, é necessária uma ampla discussão sobre o que a nação brasileira entende que deva ser uma boa educação para sua juventude, recusando a ideia de que haja uma identidade entre notas altas (em algumas disciplinas) e boa educação. Não há nenhuma evidência empírica que dê suporte à crença de que notas altas em testes seja sinônimo de uma boa educação. Isso, Sr. Ministro, é anterior a nos colocarmos de acordo sobre qual será o conteúdo da Base Nacional Comum na qual nossas redes e escolas deverão se referenciar.
  2. Segundo, será fundamental direcionar recursos federais para que os estados e municípios possam reduzir o número de alunos em sala de aula, o que, sim, é uma política pública que encontra respaldo em evidência positiva de pesquisa. Em primeiro lugar, nas áreas de risco, depois, de forma generalizada. Sem isso, qualquer tentativa de redefinir o ensinar e o aprender, como quer o documento da SAE, está fadada ao fracasso.
  3. Terceiro, é crucial que se diminua progressivamente a contratação de professores “horistas” que saltitam de escola em escola dando uma ou duas horas de aula em cada escola, numa itinerância que lhes impede de se dedicar a uma escola e participar da vida escolar, de seus problemas e de seus desafios.
  4. Será fundamental priorizar e apoiar, com recursos federais, políticas Inter setoriais locais de combate à pobreza, vinculadas à melhoria da atenção escolar.
  5. Monitorar a evasão escolar e suas causas, bem como o deslocamento de jovens para EJA de forma a impedir que os sistemas estaduais e municipais expulsem a pobreza com o objetivo apenas de manter ou elevar as médias de desempenho nas escolas, para atendimento de metas.
  6. De igual importância será impedir o uso de recursos federais para incrementar modelos baseados no estímulo à concorrência entre escolas, professores e estudantes, os quais agravam os processos de exclusão social e de eliminação da pobreza do interior dos sistemas de ensino.
  7. Apostar na gestão democrática da escola com a criação de canais que facilitem a valorização do coletivo da escola na direção do processo político e pedagógico, que estimulem a responsabilização participativa, negocial, rompendo com a ideia da centralização da gestão na figura do diretor escolar como um auditor de processos, centralizador, responsável pelo sucesso da escola, como está proposto no documento em questão.
  8. Será basilar, substituir a política de auditoria sobre as escolas e o magistério por uma política baseada no apoio e na confiança, mobilizar e apoiar cada escola para apropriar-se e refletir sobre os problemas que vivencia, demandando simultaneamente ações tanto de si como do poder público, e propiciando o envolvendo das forças positivas existentes dentro de cada escola e na sua comunidade.
  9. Criar programas de apoio no INEP para as escolas implantarem processos de responsabilização participativa, formas de auto avaliação e de organização das instâncias internas na escola para conduzir esta tarefa, apoiando a elaboração de planos de melhoria feitos pelas escolas com apoio técnico e de recursos federais geridos por escolas públicas de gestão pública.
  10. Elevar o status da profissão docente, induzir o cumprimento do piso salarial nacional e apoiar com recursos federais a qualificação inicial e continuada dos professores em Instituições de Ensino Superior públicas.
  11. Manter os objetivos iniciais da Prova Nacional Docente com a finalidade de apoiar a realização de concurso público nacional de ingresso, impedindo que se converta em processo de certificação de profissionais e em forma de induzir a padronização do currículo das agências formadoras.
  12. Eliminar o intervencionismo federal da proposta nas escolas e redes, bem como impedir o uso de recursos federais para quaisquer ações destinadas a trocar profissionais em função de desempenho da escola em testes, vedar a possibilidade de fechar escolas ou terceirizar sua gestão – no campo ou na cidade. Estas estratégias já foram testadas à exaustão sem sucesso ou com resultados pífios que se anulam pelos efeitos colaterais que produzem sobre a cultura escolar.
  13. Manter apenas um exame nacional para avaliação dos estudantes do ensino fundamental e outro para o ensino médio, a cada dois anos, de caráter amostral, abandonando a realização de exames censitários. Um exame amostral diz tudo que precisamos saber sobre nossas redes de ensino para efeitos de construção da política educacional e deve ter a única finalidade de diagnóstico do progresso do conjunto da rede de cada estado e município, vedado seu uso para fins de controle de escolas específicas e processos de bonificação. No ensino médio será necessário distinguir entre exame para efeito de diagnóstico da aprendizagem e exame para efeito de ingresso no ensino superior (ENEM). A junção destes dois objetivos em um único exame, termina por corromper os indicadores de diagnóstico do ensino médio.
  14. Impedir o uso de recursos federais para adoção de exames na educação básica de caráter atitudinal ou socioemocional, deixando a cargo de cada rede e escola o desenho dos processos de diagnóstico.
  15. Preservar os avanços já conquistados com programas como o Mais Educação e ampliá-lo em direção à educação de tempo integral, recusando converter os atuais esforços em palco para submeter os alunos mais pobres a processos de conformação socioemocional no contra turno.
  16. Retirar da base nacional comum qualquer perspectiva de ser feita para apoiar o desenvolvimento de sequências de capacitação diferenciadas, entendendo a BNC como uma referência curricular para estados e municípios organizarem sua própria ação educativa, com apoio nas Diretrizes Curriculares Nacionais já disponíveis no Conselho Nacional de Educação – CNE.
  17. A Base Nacional Curricular não deve ter a finalidade de eliminar a diversidade na educação brasileira – nisso todos concordam. Mas, será preciso levar esta concordância à prática, impedindo que a BNC seja construída com o objetivo precípuo de subordinar-se à avaliação no momento seguinte, dando origem a sequências de capacitação diferenciadas. De nada adiantará incluir a diversidade no ato de elaboração da BNC, se depois, os processos de avaliação do INEP padronizarem a educação nacional. A alegada diversidade incluída na BNC fica sendo mera declaração de princípio jamais operacionalizada na prática das escolas pela ação normatizadora da avaliação censitária, a qual deixa de ser diagnóstica para se tornar uma verdadeira auditora de processos de inclusão com destinação definida, em sequências de capacitação previamente autorizadas. Sob o impacto da meritocracia, tais sequências de capacitação, coroadas pelas escolas de referência, converter-se-ão na maior máquina de padronização e segregação escolar já inventada.
  18. Eliminar da proposta a responsabilização verticalizada baseada em meritocracia e não permitir o uso de notas dos alunos para premiar ou castigar os professores e escolas, bloqueando recursos federais para tal propósito.
  19. Impedir a escolarização antecipada das crianças na educação infantil, bem como o uso de quaisquer tipos de testes com recursos federais nesta fase de educação, garantindo o espaço para o desenvolvimento da criatividade. Quando a “instrução didática” se impõe ao jogo e à brincadeira na educação infantil, mata-se o desenvolvimento da criatividade da criança, base da produção da inovação na fase adulta, tão necessária à sobrevivência das próprias nações no cenário internacional da economia.
  20. Eliminar qualquer possibilidade de se aprofundar o dualismo da escola brasileira com a criação de escolas de referência, em especial com vagas que sejam preenchidas por concorrência entre estudantes.
  21. Eliminar qualquer possibilidade de se aprofundar o dualismo da escola brasileira com a oficialização de sequências de capacitação, confiando que o local para melhor se avaliar a diversificação de metodologias, de ritmos e profundidades da aprendizagem é a própria sala de aula conduzida por um magistério bem formado, bem remunerado e no qual o país deve confiar e não desacreditar submetendo-o a uma permanente cultura de auditoria, com a implantação de processos de certificação e avaliação. A cultura de auditoria deve ser substituída pela cultura da confiança.
  22. Os processos apontados no documento, se não forem obstados, atingirão duramente os povos do campo, quilombolas, áreas indígenas entre outras, com uma intensidade muito maior do que nas áreas urbanas, levando ao colapso a diversidade e a riqueza cultural, bem como as possibilidades de desenvolvimento de abordagens educacionais e formativas em sintonia com tais diversidades. A padronização se imporá via avaliação.
  23. Eliminar o experimentalismo na política pública educacional e basear a elaboração desta em pesquisa. Não é ético experimentar, em redes inteiras, ideias que não foram referendadas pela prática e por tendências consistentes de pesquisa. O experimentalismo é benvindo na academia ou em locais que operam sob controle e consentimento, onde os eventuais efeitos nefastos podem ser rapidamente isolados, corrigidos ou bloqueados, sem afetar a vida de milhares de pessoas. Redes públicas não devem ser usadas para experimentos em escala. Não é ético.
  24. Finalmente, Sr. Ministro, deve-se impedir a proposta de elaboração de um cadastro nacional de alunos o qual se constituirá em uma fonte de preocupação em relação aos usos e acessos que ele possa vir a ter, colocando em risco a privacidade dos dados pessoais e acadêmicos de nossas crianças e jovens – sem contar a possibilidade de gerar processos de triagem de nossa juventude motivados por intolerância religiosa, de raça, política, de gênero, ou de desempenho em testes, entre outras.

Sr. Ministro, que não se diga que não foram apresentadas ideias alternativas, mesmo que incompletas. Que não se diga que as consequências nefastas que estaremos introduzindo em nossas escolas, não eram bem conhecidas. Vossa Senhoria será chamada, pelas gerações futuras, a prestar contas dos caminhos que vier a pavimentar neste momento decisivo para o futuro da educação brasileira.

A área da educação, através de suas entidades científicas e sindicais, deve se mobilizar para que lhe seja fornecido o apoio necessário para enfrentar a cultura de auditoria e as políticas de mercantilização em curso na proposta do documento preliminar da Secretaria da Presidência da República. Some-se a esta luta.

Ainda há tempo para fortalecermos a escola pública de gestão pública, laica, gratuita e de qualidade para todos.

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CARTA ABERTA – I

No seminário realizado hoje na UNICAMP, disponibilizei uma Carta Aberta ao Excelentíssimo Sr. Ministro da Educação. O objetivo, além de subsidiar o seminário, foi colocar elementos para ajudar as reflexões que estão sendo feitas nas várias entidades científicas e sindicais pelo país afora.

Um grupo de profissionais ali reunido, propôs que a Carta pudesse ser transformada em uma manifestação mais coletiva, podendo ser assinada por aqueles que concordassem com o seu teor. Concordei e estou disponibilizando-a na forma de uma petição pública ao Sr. Ministro da Educação, no link abaixo.

Assine aqui a Carta Aberta.

Segue seu texto na íntegra em dois posts.

Excelentíssimo Prof. Dr. Renato Janine Ribeiro, Ministro da Educação

Prezado senhor:

Sabemos que V. Excelência foi tão surpreendido quanto nós, com a divulgação do Documento preliminar da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República propondo políticas para a educação básica brasileira.

Naquele documento, o que está em discussão é uma agenda conceitual e de direcionamento dos recursos federais da educação que define para onde irá, nos próximos anos, o apoio político, técnico e financeiro do governo federal, ou seja, define-se que tipo de política pública será considerada válida e incentivada.

Isso se deve, como V. Excelência bem sabe, a que a educação básica não é operacionalizada diretamente pela União, mas sim através de Estados e Municípios. Temos razões de sobra para temer que no quadro de crescente conservadorismo, as ideias ali contidas constituam uma base para desdobramento de medidas que conduzirão a educação básica brasileira ao retrocesso.

Portanto, a configuração da atuação do governo federal proposta naquele documento, é de grande relevância pois valida e abre caminho para o aprofundamento de determinadas concepções e práticas educacionais, que no presente caso, alinham-se com a conhecida política dos reformadores empresariais da educação.

Apesar das poucas linhas críticas registradas no início daquele texto a esta política, não nos enganemos, pois, o restante do documento, dedica-se a criar as bases para o seu desenvolvimento.

O centro de tal política está na constituição de um núcleo fundamental baseado na definição de um currículo nacional ancorado em um forte sistema de avaliação nacional censitário, regado a responsabilização por mérito, com abertura da área educacional a Organizações Sociais e ao mercado empresarial.

É uma política baseada em controle e pressão sobre as escolas e seu magistério, sendo uma propositura carente de base empírica que a recomende como política pública referendada em pesquisa. Onde foi acolhida, mesmo sem evidência de que funcione, suas teses são mantidas por uma crença de que a educação pode-se beneficiar da mesma lógica que o empresariado utiliza em suas instituições produtivas.

Tal lógica apoia-se na visão mercadológica da promoção da concorrência entre escolas, professores e alunos, no pagamento por desempenho diferenciado, independentemente das condições de trabalho oferecidas, na centralização da gestão na figura do diretor, em processos seletivos de identificação de talentos, na racionalização organizacional voltada para resultados imediatos – todos incompatíveis com os reais objetivos de uma educação voltada para a formação humana solidária que nos coloque em posição mais vantajosa frente a um mundo cada vez mais imerso no conflito, na intolerância ideológica, racial, e de gênero, e para o qual não precisamos de um sistema educacional que valorize ainda mais o individualismo e a assimilação de um empreendedorismo de rapina.

Há tempos que estamos em uma disputa de agenda entre uma proposta legitimamente construída historicamente há décadas no âmbito das CBEs, CONEDs e CONAEs e uma proposta que atravessa tal construção, disputando diretamente nos gabinetes do governo e do congresso nacional, o acesso aos recursos federais da educação pela imposição de uma agenda exógena, sem lastro no interior da área educacional. O que o documento da SAE propicia é a apropriação do programa Pátria Educadora por uma agenda baseada na proposta da reforma empresarial da educação.

O documento preliminar revela com clareza que o governo Dilma está prisioneiro desta agenda. De fato, tal agenda reformista já se encontra em andamento em vários estados e municípios brasileiros e agora tenta chegar aos cofres federais organizando um ideário e arregimentando uma “vanguarda pedagógica” que utilize o poder político e organizativo da União e seus recursos para reforçar este movimento ora em curso em nosso país.

A esta agenda é preciso contrapor outra, a dos profissionais da educação. E qual é ela?

Não tenho condições de propô-la de forma acabada e muito menos completa nesta carta. É tarefa coletiva que deve ser feita em conjunto com as entidades da área educacional. Mas arrisco, aqui, premido pela agenda dos reformadores, a contribuir com tal agenda alternativa para informar uma Pátria realmente Educadora, com a esperança de ela substitua a proposta de uma Pátria Auditora. Tal agenda parcial deve ser validada e complementada pelas entidades da área da educação, legítimas interlocutoras neste processo.

A lógica geral da nossa proposta de uma Pátria verdadeiramente Educadora baseia-se na concepção de que a área da educação não se presta à incorporação das regras de funcionamento do mercado. No mercado, existem ganhadores e perdedores. É da sua natureza. Na educação, só devem existir ganhadores. A educação é um esforço basicamente cooperativo no interior das escolas e dos sistemas. Portanto, procedimentos de incentivo à concorrência, à disputa entre escolas, professores, estudantes, gestores e demais profissionais, não se aplicam à educação, sem que sejam gerados pesados efeitos negativos amplamente descritos na literatura que já analisou experiências igualmente realizadas em outros países a partir destas mesmas ideias, notadamente nos Estados Unidos e no Chile.

Dada a natureza e a duração deste encontro de hoje, não vou elencar esta bibliografia aqui, mas a disponibilizei neste blog na área de Bibliografia e em Links e relatórios.

Entretanto, não podemos deixar de constatar que a proposta da SAE vem à luz sem sequer apontar uma bibliografia que sirva de referência para a discussão acadêmica do documento. Privados disso, não podemos avaliar as evidências que sustentam suas proposições – ainda que saibamos pela experiência de outros países que dificilmente elas validam as proposições feitas – e ficamos igualmente privados de poder apontar suas omissões em relação à produção científica já disponível. Eis aqui, a primeira questão direta ao documento preliminar: onde está a bibliografia? Em que evidência de pesquisa o documento preliminar da SAE está baseado?

No endereço que mencionei antes, podem ser encontradas evidências pouco alentadoras para quase todas as proposições formuladas no documento da SAE:

– seja em relação ao pagamento de bônus a escolas, estratégia que onde foi usada desorganizou as relações salariais do magistério e impôs vexatória dependência salarial deste aos resultados de testes de seus alunos, em uma área em que é sabido que até 60% de tais resultados em testes são explicados por variáveis que estão fora da escola, e que para hierarquizar o desempenho docente recorre a modelos estatísticos de valor agregado instáveis que só agravam a motivação para o magistério;

– seja nos pífios resultados, quando ocorreram, dos processos de privatização por vouchers e por terceirização da gestão escolar para organizações sociais ou similares, pavimentados pelos conceitos propostos no documento;

– seja em relação à destruição que estas políticas operam na constituição do magistério, gerando estratégias de formação de professores com duração mínima acopladas a processos de certificação;

– seja na produção de doenças no seio do magistério;

– seja no elevado abandono da profissão por parte dos professores;

– seja na destruição da educação infantil por antecipação exagerada da escolarização;

– seja na ampliação dos processos de segregação escolar que atingem principalmente aqueles a quem diz defender, os mais pobres, com o intuito de preservar o recebimento de recursos federais ou bônus por desempenho;

– seja na oficialização de um sistema de educação baseado na preparação para o teste e não em formação de fato, que idiotiza nossa juventude restringindo sua formação à escolha de alternativas em testes padronizados;

– seja no estreitamento curricular da formação dos nossos jovens baseado na ênfase do estudo apenas das disciplinas que são objeto dos exames, sonegando-lhes uma formação ampla que contemple o desenvolvimento das artes, do corpo, e que os conduza ao desenvolvimento da criatividade e da inovação, tão cruciais no próprio desenvolvimento econômico contemporâneo;

– seja pelo conservadorismo moral e comportamental que tais propostas geram sobre as crianças desfavorecidas, que recuperam teorias já descartadas pela ciência em relação à interpretação da formação da personalidade das crianças e seu desenvolvimento socioemocional;

– seja na perda do controle pelo estado do que ocorre com a formação da sua própria juventude, como projeto nacional, ao colocar a educação de seus jovens sob controle de organizações sociais ou cadeias nacionais e até internacionais de prestação de serviços educacionais, desnacionalizando e/ou privatizando o projeto formativo da juventude da nação;

– seja pela proliferação de um mercado educacional voraz cuja única lógica no trato com a educação é a geração de lucro, mercado este que atinge bilhões de dólares e que colocou as principais definições da educação americana nas mãos de meia dúzia de fundações privadas e que, neste momento, no Chile é objeto de um esforço concentrado para barra-lo pela edição de nova legislação educacional, após ser vítima de sua sanha nas últimas décadas, numa demonstração clara de que não devemos seguir por este caminho.

A lista é longa, Sr. Ministro, e não termina aqui. Sobre todas estas mazelas, há evidência empírica acumulada. Existem alertas dos países que já passaram por estas políticas de voo curto, destinadas em primeiro lugar a atender a constituição de um mercado educacional que a título de promover nossa juventude, de servir aos mais pobres, de fato mercantiliza e submete os processos educacionais a seus interesses privados.

(Continua no próximo post.)

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Pátria Educadora: debate na UNIRIO

Amanha é na UNIRIO. O documento da SAE será debatido no Auditório Paulo Freire da Unirio.

Assista pelo link abaixo a partir das 9:30 h.:

http://webconf2.rnp.br/uab_unirio/

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Pátria Educadora: DEBATE na UNICAMP

Brasil: Pátria Educadora? Lema de quem, para quê?

Dia 18 de maio, próxima segunda-feira, na Faculdade de Educação da UNICAMP

MESA 1: “Brasil, pátria educadora: lema de quem, para quê?”

Horário: 09h às 12h
Coordenação: Prof. Dr. José Claudinei Lombardi – FE/UNICAMP
Prof. Dr. João Ferreira de Oliveira – ANPAE
Prof. Dr. Idevaldo da Silva Bodião – Campanha Nacional pelo Direito à Educação
Profa. Dra. Ivany Rodrigues Pino – CEDES
Profa. Dra. Helena Costa Lopes de Freitas – ANFOPE
Profa. Dra. Nilda Guimarães Alves – ANPED

MESA 2: “Brasil: Pátria Educadora? Análise e encaminhamentos possíveis”

Horário: 14h às 17h
Coordenação: Profa. Dra. Theresa Maria de Freitas Adrião – FE/UNICAMP
Profa. Dra. Gilda Cardoso de Araujo – Universidade Federal do Espírito Santo – UFES
Prof. Dr. Raimundo Luiz Silva Araujo – Universidade de Brasília – UNB
Prof. Dr. Luiz Carlos de Freitas – Faculdade de Educação da UNICAMP

Acesse pelo link abaixo em seu computador:

https://www.fe.unicamp.br/ead/andamento.html

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O PISA, Hanushek e o aumento do PIB

Hanushek é bem conhecido nos meios educacionais norte-americanos pelo seu destacado papel em defesa do complexo industrial de testes. Por lá, já vaticinou milagres como o que agora propõe, estando a serviço da OCDE, analisando os resultados do PISA recém divulgados. Nos Estados Unidos:

“O economista da Hoover Institution, Eric Hanushek, é um dos principais braços direitos dos reformadores empresariais da educação e do complexo industrial de testes. O seu trabalho de forma consistente nos lembra a definição de “economista” como “um especialista que saberá amanhã por que as coisas que ele previu ontem não aconteceram hoje.” Como um exemplo perfeito dessa caracterização, Hanushek dá preferência para usar dados empíricos para especular o seu caminho em direção à aceitação compartilhada de noções preconcebidas de seus patronos plutocráticos através da construção de um castelo de cartas estatístico dentro de um futuro hipotético que podemos apreciar mais pelo seu valor de entretenimento, do que pela veracidade factual.”

“Muitas vezes, Eric Hanushek é visto como pertencente à “Universidade de Stanford,” quando na verdade ele está no Instituto Hoover, uma entidade diferente alojada em Stanford. Em um recente artigo que foi pego e reimpresso como se tivesse sido publicado em um jornal com revisão de pares, Hanushek afirma que “a substituição de 5-8 por cento dos professores com [baixo desempenho] por professores [com desempenho] médio, moveria os EUA para perto do topo dos rankings internacionais de matemática e ciências, [gerando] um valor atual de 100 trilhões de dólares “.”

Porém como aponta Diane Ravitch em uma discussão com Hanushek:

“Quando Rick [Hanushek] diz que “a pesquisa mostra” que a remoção dos [professores] de “5-10 por cento [de desempenho] inferiores” geraria resultados [positivos] dramáticos, ele está se referindo aos seus próprios cálculos (grifos meus LCF), não a qualquer programa real que já tenha sido tentado.”

Ou seja, Hanushek faz hipóteses que não podem ser comprovadas e as trata como verdades que devem orientar políticas públicas hoje. O mesmo pode ser dito de seu novo “milagre”: a elevação do PIB de países como o Brasil em até 7 vezes com a melhoria da educação.

Segundo reportagem da BBC – IG Educação de 14/05/2015:

“Eric Hanushek, professor da Universidade de Stanford (EUA) e um dos mais respeitados acadêmicos especializados em Educação, é um dos autores do novo relatório internacional que mostra, mais uma vez, o enorme abismo entre os estudantes latino-americanos e os do leste asiático. `O futuro da América Latina realmente depende do que acontece em suas escolas`”

Hanushek indica cinco lições para a América Latina. Em uma delas afirma-se que:

“A conclusão é de que, se o Brasil proporcionar educação básica universal eficiente para todos os adolescentes de 15 anos, pode ajudar seu PIB a crescer mais de sete vezes nas próximas décadas. E se todos os adolescentes do México cursassem o Ensino Médio e obtivessem um nível básico em Matemática e Ciências – ou seja, capacidade em raciocinar e resolver problemas com os conceitos aprendidos -, o PIB do país poderia ser 551% maior em 80 anos. O PIB da Argentina também cresceria 693% nessas condições.”

A propósito do novo milagre, Diane Ravitch diz:

“Não está claro que habilidades de jovens de 15 anos em testes preveem alguma coisa sobre o futuro de uma economia. Quando foi feito o primeiro teste internacional de matemática em 1964, 12 nações participaram. Os EUA ficaram em penúltimo lugar na oitava série e em um mortal último lugar na décima segunda série. No entanto, ao longo dos 50 anos seguintes, a economia dos EUA superou as das outras 11 nações. Os resultados dos testes não previram nada.”

Mas a questão é mais dramática ainda do que aponta Ravitch. Em estudo que pode ser consultado aqui, pode-se ver que se Hanushek tivesse feito esta previsão em 1971 para o seu próprio país, ele teria passado imensa vergonha. Em 1972, considerando valor “0” para os testes americanos (NAEP), o PIB americano e a produtividade americana, a predição de Hanushek para acertar deveria ter antecipado que como o resultado nos testes americanos variou próximo de “0”, então, o PIB e a produtividade do período (1972-2014)  deveriam ter ficado comprometidos.

No entanto, não é o que se observa. Apesar da porcentagem de crescimento do desempenho dos alunos em testes ter permanecido todo o período próxima de “0”, no mesmo período, o PIB teve um crescimento de 100% e a produtividade um crescimento de 375%. Ou seja, o desempenho dos testes não previu coisa nenhuma sobre a evolução do PIB e da produtividade da economia nos Estados Unidos.

Portanto, se Hanushek quer nos convencer de que é tão sabido para prever o futuro da economia latino-americana com seus modelos econométricos, a partir de resultados de testes, ele terá que nos convencer, primeiro, que tem igual sabedoria para provar que o estado atual da economia é produto do bom ou do mal desempenho em testes no passado. Ele pode começar por seu próprio país. Deveria ser mais fácil pois os dados estão todos à mão.

Mas antes de gastar tempo nisso, recomenda-se que Hanushek invista algum tempo para demonstrar uma relação causal entre “habilidades de estudantes de 15 anos em testes” e “crescimento econômico”, sem o que seus cálculos não têm nenhuma utilidade.

De fato, o que interessa à OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico -, escalando Hanushek, é convencer os latino-americanos de que devem submeter sua força de trabalho à mesma selvageria que os asiáticos estão submetendo a sua. E para tal, adotem as mesmas estratégias educacionais dos reformadores empresariais que conduzem a ela.

Antes, portanto, que esta bobagem se espalhe e convença nossas autoridades, é melhor que nos antecipemos.

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O roto e o rasgado: Dilma nos USA

Dilma vai aos Estados Unidos buscar, entre outras coisas, cooperação para o ensino técnico. De fato, o mundo dá voltas: na década de 70 brigamos contra os Acordos Mec-Usaid e não queríamos a interferência americana nos nossos assuntos educacionais. Agora vamos aos EUA pedir ajuda.

“Em sua visita aos Estados Unidos em junho, a presidente Dilma Rousseff deverá buscar parcerias no ensino técnico e o incremento do comércio com os americanos, enquanto o presidente americano, Barack Obama, tentará fechar um acordo na área climática e abrir o mercado brasileiro para a indústria de defesa americana, segundo assessores governamentais e diplomatas dos dois países ouvidos pela BBC Brasil. ”

Se o PISA mede alguma coisa, podemos observar que, um deles, o roto, está na 60ª. posição no ranking e, o outro, o rasgado, está na 28ª. posição. Há dez anos que os Estados Unidos está no mesmo lugar no PISA.

Já que se quer pedir cooperação, a Finlândia está na 6ª. posição, pelo menos.

Como o que está no pano de fundo desta visita é comércio, devemos esperar um aumento também do comercio na área educacional – as grandes corporações americanas de avaliação, consultoria e ensino, já farejaram terceirização. E note-se que pelo dicionário de Haddad, também do PT,  terceirizar por concessão não é privatizar:

“Tem gente que considera que toda e qualquer parceria, mesmo que temporária com o setor privado, é privatização. Aí é uma questão semântica. Eu não considero. Eu considero privatização a alienação de um bem”, explicou. “Quando você faz uma parceria e aquele bem retorna para o âmbito do Estado, eu não considero privatização porque aquele bem continua público. Ele só está sendo administrado em parceria com o setor privado, é diferente.”

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Pátria Educadora: debate na Unicamp

Na próxima segunda feira, dia 18, a Faculdade de Educação da UNICAMP promove via videoconferência um debate sobre o documento Pátria Educadora. É possível participar de dois modos: a) como polo (até 19 polos são possíveis de serem conectados) retransmitindo para seu estado ou Universidade  o debate; e ou b) via streaming, em seu próprio computador.

Para ser um polo, contatar barboza@unicamp.br ou rleandro@unicamp.br. Pode ser também pelo telefone (19) 3521-5690. No dia 15 de maio, amanhã, serão feitos testes  as 9:30; as 10:30 e às 15:00 horas.

Para acessar via streaming no dia do evento basta utilizar em seu computador o link

https://www.fe.unicamp.br/ead/andamento.html .

Participe. Baixe aqui o folder.

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Pátria Educadora: mais críticas

O Deputado Paulo Pimenta elaborou documento em que critica a proposta da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Baixe e leia o documento aqui.

O ex-Secretário de Educação do Estado do Rio Grande do Sul José Clovis de Azevedo também disponibilizou documento em que critica a proposta da SAE. Baixe e leia o documento aqui.

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