O golpe da MP do ensino médio, impondo o barateamento da formação básica neste nível, é só mais uma face do golpismo que se instalou no país. Por falar nisso, Temer, sem querer, reconheceu o golpe quando estava nos Estados Unidos nesta semana:
“Sugerimos ao governo que adotasse as teses que nós apontávamos naquele documento chamado ‘Ponte para o futuro’. E, como isso não deu certo, não houve adoção, instaurou-se um processo que culminou agora com a minha efetivação como Presidente da República.”
Não tem nada a ver com pedalada, a saída de Dilma. É golpe mesmo. A proposta recusada por Dilma visava retomar a aliança com a classe empresarial nacional que apoiou Fernando Henrique na tentativa de conectar o país às cadeias produtivas internacionais, ou seja, entregar o país a tais cadeias comandadas por grandes corporações e por agências de investimento. Como bem aponta Bresser Pereira:
“… os dividendos dos rentistas das empresas multinacionais e os altos salários de seus dirigentes originam-se mais do exterior, do mercado global, do que dos mercados internos. Dessa maneira, a ideia de nação foi profundamente enfraquecida nos países ricos.”
Como conta Temer, a proposta do projeto “Ponte para o Futuro” foi recusada por Dilma e isso motivou o golpe. Temer resolveu aproveitar a oportunidade que apareceu sob o olhar atento do PSDB, fiel escudeiro da entrega do país, para quem não interessava queimar-se propondo diretamente tais medidas. Abre-se o segundo ciclo de reformas neoliberais. Como decorrência natural, o Ministério da Educação é retomado pelos mesmos atores do governo Fernando Henrique (PSDB).
O golpe contém dentro dele vários mini-golpes que deverão se suceder à medida em que as condições políticas sejam favoráveis. Aguardemos pelo período pós-eleitoral, quando os outros que estão sendo gestados agora, aparecerão. Por ora, no caso da educação, está na pauta a MP do Ensino Médio. O ex-presidente do INEP, Francisco Soares, justifica a MP do ensino médio dizendo:
“… quando o Enem se estabeleceu como o principal processo seletivo do ensino superior no País, acabou se criando um “padrão único” para a saída do ensino médio. “Todo mundo estuda o que cai no Enem, o que é ruim, porque obriga todos os alunos a aprenderem determinadas coisas com as quais nem todos se relacionam. Agora, com as novas trilhas, a prova vai ter de refletir uma nova base comum, de boa qualidade.”
O que ele rejeita por ser um “padrão único” é exatamente a garantia de uma educação básica “comum” a todos, independentemente da classe social em que o estudante esteja. Se foi convertida em ENEM, este foi o erro, que agora está prestes a ser cometido de novo. Foi alertado que isso ocorreria. Todo exame gera uma tradição em relação ao que cai na prova e começa a ser ensinado pelas escolas, seja no dia a dia, seja em cursinhos. Mas não adiantou falar. E vai acontecer de novo, pois a atual Base Nacional do ensino médio será atrelada novamente a exames. Nasce com esta finalidade dentro de uma política educacional que visa a responsabilização verticalizada e a meritocracia.
Ele considera ser ruim o modelo atual porque “obriga todos os alunos a aprenderem determinadas coisas com as quais nem todos se relacionam”. Mas este é o sentido de “educação básica”. Por isso é básica. A escola não ensina apenas o que o aluno gosta, ela deve ensinar a partir de um entendimento da sociedade do que seja uma educação de boa qualidade. O que a MP faz é introduzir uma nova concepção do que se considera ser básico para aprender na educação básica, sem discutir com a sociedade. Impõe uma concepção restrita de formação humana, adotada “por default” e não discutida. Esta nova concepção está implícita na MP, por isso é desonesta com a sociedade, com a nossa juventude. É feita de forma oculta.
Mais ainda: ao longo do tempo, implicará em antecipação da escolarização. Vai haver uma pressão para que a escolarização comece antes de forma a incluir em níveis anteriores (inclusive educação infantil) o que agora está sendo negligenciado no ensino médio.
Nesta vertente, boa educação é ter nota alta em português, matemática e inglês. Nem ciências está incluída na obrigatoriedade dos três anos, ou seja, para aprendizagem de todos. Para Chico Soares, boa educação é o que está na matriz de avaliação dos exames, definido a partir de uma Base Nacional que padroniza para avaliar. A orientação de elaboração da Base Nacional atual é voltada para responsabilizar e avaliar. Sua finalidade é atualizar a matriz de referência de um novo exame no lugar do atual ENEM, que agora será “de boa qualidade”. De onde vem o critério para considerar que agora ela é de “boa qualidade”? De uma concepção de formação que não é explicitada e nem debatida.
A proposta atual de Base Nacional Comum não parte de uma concepção de formação humana e sim de uma visão instrumental do que é básico (português, matemática e inglês), sendo o demais acessório. Daí que só estas três disciplinas sejam obrigatórias ao longo dos três anos do ensino médio, na proposta da MP.
Os problemas que estamos tendo com a retirada de artes e educação física, para não falar de espanhol, filosofia e sociologia, se deve ao fato de que não discutimos o que entendemos por formação humana, por boa educação, e queremos definir isso na canetada da MP, com o objetivo de evitar o debate e de fazer uma nova matriz de referência e cobrar a moçada para que o IDEB aumente.
Se fosse feito primeiro uma discussão do que entendemos por boa educação, veríamos que uma matriz moderna de formação humana não pode deixar de conter, para todos obrigatoriamente, a criatividade e a criticidade que são induzidas pela escola e que as disciplinas que estão deixando de ser obrigatórias têm grande possibilidade de alavancar.
Ocorre que o Brasil optou por colocar-se de forma dependente no cenário da economia internacional, optou por ser dependente das cadeias produtivas internacionais e do capital especulativo que vive de juros. Para esta estratégia, não é preciso ter Ministério da Ciência e Tecnologia, não é preciso de Ministério da Cultura (foi uma luta mantê-lo), não é preciso também ter educação básica para todos no nível médio. Tudo isto já está definido nas grandes cadeias internacionais de produção de conhecimento e cultura, basta internalizar e adaptar no Brasil. A MP decorre desta mesma concepção.
De fato, basta ter técnicos em número suficiente para derrubar o salário médio, serem empregados ou subempregados (quando houver emprego) e alimentarem uma máquina econômica subserviente, sendo lançados de um lado para outro no mercado, junto com os volumes de investimentos de capital que se movimentam na dependência das taxas de retorno. E que a juventude se dê por satisfeita com isso, pois a alternativa é o desemprego (agora estrutural). Assim lida o capital com os países dependentes.
A flexibilização permitirá que os sistemas de ensino se ajustem às demandas de técnicos feitas pelas corporações e empreendimentos locais abastecendo as empresas ou criando excedentes de pessoal que reduzem o salário médio. As desigualdades de formação se aprofundarão, permitindo que uma pequena elite de fato continue seu processo formativo em direção à universidade – a elite dirigente – e para as profissões mais valoradas.
Não precisa ser criativo ou crítico, pois tudo já está pronto nas grandes cadeias internacionais, seja de produção de bens e serviços, seja de conhecimento científico. Haverá impacto nas universidades também, quando chegar a vez delas.
É esta visão de subserviência ao grande capital internacional que faz o Brasil desdenhar a América Latina e substituir o espanhol pelo inglês como disciplina obrigatória. Não interessa ao atual governo integrar-se à América Latina, mas sim ao grande capital.
Este é um país que vendeu sua juventude para o grande capital internacional. Vai emburrecê-la para que seja subserviente. Prescinde da formação crítica e criativa. Necessita que não haja proteção social de maneira que ela esteja à mercê do capital inteiramente disponível para trabalhar pelo salário que quiserem lhe pagar – sem regras de CLT, sem aposentadoria que encareça o capital, sem proteção social, sem formação, sem capacidade crítica para levantar a cabeça perante as exigências do capital.
Como afirma Mercadante:
“Arbitrariamente, o campo curricular obrigatório foi reduzido a 50% e anunciado que seriam eliminadas disciplinas como Espanhol, Educação Física, Artes, Filosofia e Sociologia. Com a previsível reação contrária a equipe logo desmentiu, mas a verdade é que as disciplinas obrigatórias foram reduzidas para 50% da carga horária, sem respeitar a convergência democrática construída no projeto da BNCC.”
“A oferta de itinerários alternativos e a eleição de disciplinas opcionais pelo estudante, sem a fixação do que deve ser oferecido a todos como dever do estado, vai legalizar a desigualdade de oportunidades de aprender. Trata-se de revestir com a norma legal a desigualdade de oportunidades de aprendizagem, o que, na pratica, atinge todos os brasileiros, especialmente, os mais pobres.”
Indagado sobre como o Estado de São Paulo, o mais rico, implantaria a MP, o Secretário de Educação diz que:
“Isso está em aberto, vamos começar a discutir. Dá para usar todo o equipamento, não só o nosso. Podemos usar equipamentos do município, porque os dois planos, tanto nacional quanto estadual (de educação), incentivam a parceria. Vamos poder usar recurso (espaço) de escolas privadas. O Sistema S (formado por Senai e Sesc, entre outros), então, vamos aproveitar tudo. Nada indica que tenhamos de deixar o aluno no mesmo espaço físico.”
A MP assume que a escolha pela especialidade que o aluno fará depende de sua “aptidão” e “interesse”. Mas na nossa sociedade esse nível de escolha só pode ser exercido por uma classe social que tem melhores rendas. Os pobres não têm a mesma liberdade de escolha, vão ser encaminhados às instalações do SENAI para serem técnicos de produção – a elite não vai querer seus filhos no SENAI. Portanto, é hipocrisia alegar “aptidão” quando do ponto de vista prático, da localização de classe social, a escolha já está definida.
Finalmente, a nova MP trará, ainda, além de variadas consequências, mais privatização da educação. O fatiamento permitirá conexão com OS que se especializarão nesta ou naquela área. Além disso, estimulará o ensino “on line”.
Este é um cenário que não se limitará ao ensino médio. Outras reformas virão. É fruto de uma opção de país subserviente ao grande capital internacional e para tal é preciso criar, também, um modelo subserviente de educação.