Comparação de escolas públicas com privadas

A Folha de São Paulo divulga hoje (9-10-16) uma matéria sobre o ensino médio na qual inclui um gráfico que compara o IDEB das escolas públicas (linha vermelha) com as privadas (linha amarela superior). É um gráfico muito estranho pois o eixo à esquerda é interrompido e marcado de forma irregular. Veja no primeiro gráfico.

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No formato da Folha, apesar da tendência geral ser mantida, a distância entre as curvas da escola privada e da escola pública parece, ao leitor, muito maior. A eliminação da parte de baixo da curva (entre a pontuação “0 e 3”), fornece ao leitor a impressão de que as públicas estão na “lona”, rasas, por estarem próximas ao “eixo” que começa em 3.1 e não em zero. Há uma ampliação dos valores dos intervalos no eixo à esquerda, combinada com a omissão da base do gráfico.

O segundo gráfico, produzido com parâmetros do excel, mostra toda a área.

Além disso, a interpretação destas distâncias que a Folha (e outros jornais) também tem publicado, em especial com os dados do ENEM, tem sido sofrível, pois tem veiculado a ideia de que se pode comparar escolas públicas com as privadas. Embora isso seja possível, o método para isso tem uma certa complexidade e não pode ser feito apenas a partir das médias.

Nem é suficiente apenas reconhecer que o nível socioeconômico das escolas privadas é maior do que o das públicas. Reconhecido isso, é preciso calcular os valores da diferença incluindo o nível socioeconômico em processos estatísticos que vão muito além do recurso à média de desempenho de cada uma.

Embora haja diferença nas médias, observe-se que em nenhum momento a média das escolas públicas cai. Ao contrário, nas escolas privadas houve queda de IDEB por dois anos seguidos. Pode ser argumentado que enquanto a pública tem média de 3,5 as privadas estão com 5,2 – mesmo após a queda. No entanto, é aí que entram os outros fatores que favorecem a escola privada, como o nível socioeconômico dos estudantes e o “método” de ensinar para passar em exames. A própria matéria da Folha diz no título “Vestibular ditará reforma do ensino médio nas escolas particulares”:

“Os colégios avaliam, porém, que a grande influência para as mudanças virá de provas como Fuvest e Enem.”

A reportagem é importante pois põe em relevo que a reforma do ensino médio conduzirá ao aprimoramento da era do ensino voltado para a preparação dos alunos para provas. Como se sabe, esta era foi iniciada por Fernando Henrique Cardoso e teve sua versão 2.0 feita por Reynaldo Fernandes quando esteve no INEP no governo Lula. Para Reynaldo Fernandes, como aponta a Folha nesta mesma matéria já referida:

“Presidente do Inep na época dessa mudança [ENEM ser considerado prova seletiva para o ensino superior], o professor da USP Reynaldo Fernandes diz que o formato atual já permite um uso customizado. “O Enem é separado por áreas e as notas são separadas. Ele já poderia ser usado pelas instituições de forma diferente”, diz, citando que cada curso aproveitaria somente as notas relacionadas.”

Nisso se resume a atual mudança do ensino médio: melhorar médias permitindo uma preparação mais definida para as provas. E por outro lado, procura eliminar a juventude mais pobre da competição por cursos na Universidade.

Note que, sem querer, Reynaldo Fernandes nos fala, hoje, da intencionalidade da reforma do ensino médio: considera que as áreas de avaliação do ENEM já existentes são separadas e podem ser usadas separadamente pelas universidades, segundo o curso que o aluno escolha no novo formato do ensino médio. Ele se esquece de que pelo menos uma área ainda não existe no exame do ENEM. Seu esquecimento desta, revela o próprio esquecimento a que se quer relegar uma grande parte da juventude que não deve, na visão dos arquitetos da reforma, ir para a Universidade. É a área da “formação técnica e profissional”. E, mantida a análise de Reynaldo, não deverá haver exame específico para ela na nova arquitetura, pois esta “área” é destinada a retirar as pessoas da linha do vestibular e do acesso ao ensino superior – usualmente aqueles alunos mais pobres que irão para o técnico profissional. Por isso, para Reynaldo, não é necessário mudar nada.

Além desta questão relativa à reforma, há que se insistir em que preparar para exames, não é sinônimo de boa educação. Nem mesmo, ter médias mais altas o é. Antes de medir, temos que discutir o que é uma boa educação.

Não faz sentido nenhum, portanto, a insistência da Folha (inclusive em edital recente) tentando mostrar que as escolas privadas são melhores do que as públicas, sem considerar os fatores que favorecem o aumento da média das escolas privadas. Por isso elas têm metas diferentes: a meta da escola privada é 6,3 e a meta da escola pública (estadual) é 4. Enquanto a escola privada está a 1 ponto de sua meta, a escola pública está a 0,5 ponto da dela. A escola pública está fazendo sua lição de casa melhor do que as privadas.

Neste sentido, a única comparação possível é com a própria evolução de cada uma delas. Se considerarmos a diferença entre o primeiro IDEB e o último IDEB obtido em cada uma delas, teremos: as privadas, nos últimos 10 anos de IDEB, caíram 0,3 pontos. E as públicas aumentaram 0,4 pontos.

Estas foram as regra do jogo fixadas pelo IDEB. Não vale agora, em pleno jogo, querer que a escola pública atinja a meta das escolas privadas – 6,3 – a meta dela é outra – 4,0. Ao serem fixadas as metas de cada uma, levaram-se em conta variáveis de contexto que, agora, em nome de desgastar a escola pública, estão sendo ocultadas e esquecidas.

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CNE será presidido por Deschamps

Eduardo de Deschamps, Secretário de Educação do Estado de Santa Catarina, recém nomeado como integrante do Conselho Nacional de Educação quando o Ministro da Educação revogou portaria de seu antecessor no cargo logo após o golpe e nomeou outros, se candidata agora a Presidente do órgão e assumirá a condução do mesmo, com a finalidade de garantir a MP do ensino médio e a base nacional curricular.

Em seu estado, a OCDE tem prestado assessoria e orienta mudanças na rede de ensino daquele estado.

Doutor em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Deschamps é professor titular, desde 1990, da Universidade Regional de Blumenau (Furb), da qual foi reitor, chefe de departamento e coordenador do colegiado do curso de engenharia elétrica. Docente avaliador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), foi diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de Blumenau e integrou o Conselho de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina, o Conselho da Associação Empresarial de Blumenau  e o Conselho de Desenvolvimento Regional de Blumenau.

Eduardo Deschamps é Secretário de Educação de Santa Catarina desde  2012, e presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), cargo que assumiu em fevereiro de 2015.

Ele veio para o CNE por sua participação na presidência do CONSED e passa a acumular as complexas funções de Secretário de Educação, presidente do CONSED e presidência do CNE.  Circula nos bastidores que o acúmulo de trabalho pode levá-lo a deixar o CONSED, entidade que o levou ao CNE e à presidência do órgão.

“Em seu discurso de posse, Deschamps enfatizou que o Conselho vai dar prioridade a duas pautas: a reforma do ensino médio e a base curricular.”

Leia aqui.

O novo presidente do CNE, novato naquele órgão, cuja “auto-indicação” recebeu alguns votos contrários, chega para reforçar a aprovação da MP do ensino médio enviada à câmara e que teve sua origem no interior do próprio CONSED, órgão do qual ele mesmo é seu presidente. Alguma dúvida da missão que lhe foi confiada?

Em julho o Ministro da Educação Mendonça Filho havia estado em Santa Catarina. Entre outros compromissos o ministro conheceu o Movimento SC pela Educação na sede da Federação das Indústrias do Estado – FIESC.

O Conselho Nacional de Educação passa por um realinhamento com os novos ocupantes do MEC, com o segmento empresarial representado pelo Sistema S e o ensino superior privado, além da fina sintonia com o Movimento Todos pela Educação e seus braços locais em cada estado e município.

O novo presidente da Câmara de Ensino Básico é José Francisco Soares – nenhuma novidade na indicação. Como sempre afirmamos, desde os tempos em que ele foi nomeado presidente do INEP, José Francisco é aderente a estas ideias de reforma que estão sendo implementadas pelo MEC.

Está claro que a ideia é aparelhar o CNE para que atenda aos interesses do MEC e dos reformadores empresariais, transformando-o em uma câmara subalterna e dependente do Ministério.

Aos educadores e suas entidades cabe o desafio de questionar estas práticas no interior da instância máxima da área, no que diz respeito a definição de políticas e suas normatizações, bem como manter as conquistas obtidas através de longas lutas realizadas.

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Mozart Ramos pode ser Secretário da Educação de Doria

Mozart Neves Ramos, um dos Diretores do Instituto Airton Senna (Instituição que trabalha com a LIDE – Grupo de Líderes Empresariais – fundada por Doria), pode ser indicado para a Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão Doria. Mozart foi membro do Conselho Nacional de Educação, Reitor da Universidade Federal de Pernambuco e trabalhou entre 2003 e 2006 nas gestões de Jarbas Vasconcelos (PMDB) e Mendonça Filho (DEM) – atual Ministro da Educação.

“Diretor de Inovação e Articulação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos foi sondado pela equipe do prefeito eleito em São Paulo, João Doria (PSDB), para chefiar a Secretaria de Educação.

Doria é muito próximo de Viviane Senna, irmã de Ayrton Senna e presidente do instituto que leva o nome do piloto. Já durante a campanha, Mozart contribuiu para o capítulo de educação do programa de governo e comandou eventos sobre a área.”

Leia aqui.

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SP: primeira escola é ocupada contra MP

“Um grupo de estudantes ocupa desde a noite desta sexta-feira (7) a Escola Estadual Caetano de Campos, no bairro da Consolação, região central de São Paulo. Trata-se da primeira escola da capital paulista a ser ocupada por alunos que são contra a reforma do ensino médio, proposta pelo governo do presidente Michel Temer (PMDB).”

Apesar de ser a primeira ocupação em São Paulo, dezenas de escolas já estão ocupadas pelo país. Ao menos um outro colégio estadual paulista está ocupado, em Sorocaba, no interior do Estado. No Paraná, já são mais de 40, e há colégios ocupados também no Distrito Federal e em Belo Horizonte.”

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Educação do Campo contra a MP 746

O FONEC – Fórum Nacional da Educação do Campo – distribui nota na qual condena a MP do ensino médio. Veja abaixo as razões do campo para rejeitar a reforma:

  1. A elevação da carga horária mínima para 1.400 horas, combinada com um currículo obrigatório abrangendo somente o ensino da língua portuguesa e da matemática, combinada com a retirada do ensino das artes e da educação física e com a obrigatoriedade da formação técnica e profissional em pelo menos 200 horas da carga horária total, com a “inclusão de experiência prática de trabalho no setor produtivo ou em ambientes de simulação, transformará o Ensino Médio de etapa da Educação Básica em “cursinho” técnico-profissional, e dos mais precários.
  2. Áreas fundamentais para a formação humana integral, e mesmo para a compreensão específica do complexo mundo do trabalho e suas contradições, estão eliminadas por força de lei do Ensino Médio. Ainda que a MP supostamente preserve a liberdade de os sistemas incluí-las, o financiamento e a amarração ao sistema de avaliação, ou seja, os condicionantes impostos pela Lei e as experiências que temos na relação com os entes, indicam o contrário. No caso do campo, e das experiências comprovadamente exitosas realizadas com os sistemas estaduais e municipais de ensino, com os Centros de Formação por Alternância – Ceffa´s ou ainda apoiadas pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária -Pronera, estarão submetidas à disponibilidade de cada sistema de ensino. Isso significa que, se quiserem, poderão fazer, mas o financiamento será apenas para garantir o que seja obrigatório.
  3. A MP afirma que “Para efeito de cumprimento de exigências curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer, mediante regulamentação própria, conhecimentos, saberes, habilidades e competências, mediante diferentes formas de comprovação, como: demonstração prática; experiência de trabalho supervisionado ou outra experiência adquirida fora do ambiente escolar; atividades de educação técnica oferecidas em outras instituições de ensino; cursos oferecidos por centros ou programas ocupacionais; estudos realizados em instituições de ensino nacionais ou estrangeiras; e educação a distância ou educação presencial mediada por tecnologias.” Isso significa que os sistemas de ensino assegurarão apenas as disciplinas do currículo obrigatório, empurrando os estudantes para o trabalho precarizado, gratuito, explorado a título de estágio nas empresas existentes na cidade ou nas próprias empresas do agronegócio que certificarão elas mesmas as 200 horas de ensino profissional. Ou ainda no Sistema “S” que, tal como o conhecemos, é pago. Questiona-se onde se encontra o Ministério Público, a Organização Internacional do Trabalho, que se omitiram diante desta declaração pública de desrespeito às Leis sobre o trabalho na infância e na adolescência, idades próprias dos estudantes de Ensino Médio.
  4. A menção às áreas – Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas e das respectivas competências, habilidades e expectativas de aprendizagem, não pode ser confundida com a concepção de currículo por área que fazemos por meio das Licenciaturas em Educação do Campo, que rejeita os conceitos de formação por competência e habilidades e rejeita igualmente o conceito embutido na “expectativa de aprendizagem”, por responderem, no campo da educação, às premissas do mercado. Nossa concepção de formação por área pressupõe um Núcleo Básico de estudos que envolve conhecimentos de Ciências Humanas e Sociais, ciências da natureza e as diversas linguagens humanas, incluindo as Artes nas suas diversas manifestações, como condição para a formação humana básica e integral.
  5. A obrigatoriedade da Língua Inglesa, podendo, alternativamente, oferecer outros idiomas de acordo com a disponibilidade, se insere nas recomendações do Banco Mundial e do novo alinhamento do País especialmente aos interesses dos Estados Unidos, subtraindo a importância das relações com os países latino-americanos.
  6. A possibilidade de, ao concluir o ensino médio, as instituições de ensino emitirem diploma com validade nacional que habilitará o diplomado ao prosseguimento dos estudos em nível superior e demais cursos ou formações para os quais a conclusão do ensino médio seja obrigatória, aprofunda a dualidade do sistema, ao considerar que somente uma parte menor dos estudantes entrarão para o ensino superior. A maioria deverá contentar-se com um cursinho profissionalizante que não lhe deu as condições e a qualidade necessárias sequer para o anunciado pela MP: uma transição escolar para uma suposta “boa colocação no mercado de trabalho”.
  7. A MP estabelece que, nos processos seletivos de educadores, poderão ser contratados trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim, além de profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação para atender o disposto na nova organização curricular. Tal medida anuncia a total precarização do ensino, pela abertura à contratação de trabalhadores sem a qualificação pedagógica de um curso de formação de educadores, para atuarem neste nível de ensino. Os sistemas de ensino não mais necessitarão realizar concursos públicos para professores e as escolas do campo, já atendidas precariamente neste quesito, restarão ainda mais precarizadas.
  8. As alterações na Lei do Fundeb, estabelecidas na MP, cumprem com o objetivo de cabrestear as escolas e os sistemas ao cumprimento da nova Lei, desmontando com todas aquelas condicionantes feitas nos dispositivos de alteração da Lei, que preservavam o interesse dos entes federados. A Lei do Fundeb, alterada, condiciona o repasse dos recursos do MEC àquelas escolas que cumprirem integralmente com os requisitos, num prazo de dois anos.
  9. De maneira geral, o conjunto das novas medidas, no contexto das escolas do campo que não possuem as condições necessárias ao atendimento das exigências estabelecidas, contribuirão significativamente para o fechamento das escolas de que ainda resistem, eliminando as já precárias condições de oferta do Ensino Médio à juventude camponesa.

Baixe a íntegra do documento aqui.

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Evaldo Piolli analisa a MP do ensino médio

“Essa reforma deverá aprofundar essas diferenças na oferta, o que tem muita similaridade com as Reformas do Ministro Gustavo Capanema nos tempos da ditadura Vargas disseminou a ideia de uma “educação para os pobres” atrelada à profissionalização… o que também ocorreu com a reforma promovida pela Lei n. 5.692/1971, dos tempos da ditadura civil-militar.

Como sempre, os estudantes de origem social privilegiada e com uma condição socioeconômica mais elevada não se submeterão aos imperativos dessa reforma. No entanto, os estudantes de baixa renda serão incentivados e estimulados a buscar a profissionalização e o mercado de trabalho. Devemos lembrar que o texto da MP não garante que mais de uma formação seja oferecida por determinado sistema.

Penso que o projeto também limitará o acesso dos jovens de baixa renda ao ensino superior público. Tenho lido e escutado algumas entrevistas sobre isso. Os defensores dessa reformam, tem dito que o jovem para ter sucesso não precisa acessar o ensino superior. Para mim, a Universidade Pública, com essa medida, tenderá a caminhar na direção contrária da tendência recente, tornando-se ainda mais elitizada.”

Leia íntegra da análise aqui.

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BREAKING NEWS: 40 escolas ocupadas no Paraná contra a MP

“Subiu para 40 o número de escolas ocupadas por estudantes no Paraná, em protesto contra a reforma do ensino médio proposta pelo governo federal por meio da Medida Provisória 746/2016. Nessa quinta-feira (6), às 22h, o Colégio Estadual do Paraná (CEP), em Curitiba, foi ocupado por cerca de 500 estudantes. O CEP é o maior colégio do estado, com 5 mil alunos matriculados.”

Leia aqui.

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A salsicha e o cachorro: a regulação de Doria

O novo prefeito de São Paulo vai criar agências reguladoras para controlar a privatização inclusive da educação. Isso, ao contrário do que ele argumentará, é uma forma de retirar  o controle da sociedade sobre as redes de ensino e sobre as escolas, transferindo-o para agências supostamente “técnicas”.

A sociedade paulistana vai ter que ficar esperta e ir além disso, pois precisa garantir que haja nas escolas privatizadas as mesmas exigências feitas às escolas públicas e, de fundamental importância, garantir que nelas também exista a gestão democrática com participação social – e não só das mantenedoras ou agências reguladoras como quer o novo prefeito.

As agências reguladoras são farinha do mesmo saco do mercado. Elas sequestram a participação e o controle social do público e internalizam relações de controle “entre amigos”. Elas falam a linguagem do mercado e não a dos interesses dos cidadãos.

Nunca foi tão importante garantir a gestão democrática nas escolas paulistanas- inclusive das atuais e futuras terceirizadas. Adianto que estas farão de tudo para escapar tanto das regras que regem a escola pública, como da gestão democrática. Esta história de colocar agências reguladoras para controlar já é uma forma de evitar a gestão democrática e colocar o controle social sob tutela de agências corruptíveis.

Os liberais têm uma fé inabalável no mercado e na regulação. Mas geralmente quem faz a regulação são pessoas do próprio mercado ou com ligações perigosas com ele. A lógica do mercado inclui a corrupção como princípio e meio de seu funcionamento. É a guerra diária entre corporações. Ninguém liga porque é feita com dinheiro privado. Quando entra dinheiro público, vira lava-jato. Mas só neste caso.

Tanto é assim que a lei que pune corrupção, agora inclui o corruptor, ou seja, o próprio agente do mercado e não apenas o servidor público envolvido. O dinheiro vem de dentro do próprio negócio realizado e não poderia existir sem a concordância dos empresários. Se os empresários quisessem, eles acabavam com a corrupção imediatamente no Brasil, é só não receber/dar dinheiro e denunciar. Mas, fala mais alto a necessidade de abrir mercado. Esta é a principal fonte da corrupção: a própria dinâmica da disputa por mercados. Só que lá no mercado se dá o nome a ela de “lobby”.

Doria anuncia que vai criar agências reguladoras municipais. Não é nada novo. Isso já existe em países que praticam diariamente o que ele quer fazer aqui, ou seja, a privatização, ou entrega do governo para corporações privadas. Uma maneira fácil de ser “gestor”. Dória pratica a dupla negação: nega ser político e depois nega ser gestor, pois não gere, entrega a outros para gerir.

“O prefeito eleito João Doria (PSDB) vai criar agências reguladoras municipais para fiscalizar empresas prestadoras de serviço e organizações sociais que cuidam da gestão de equipamentos públicos. O objetivo é repassar aos órgãos a responsabilidade pelo acompanhamento das metas a serem impostas à iniciativa privada no pacote de concessões e privatizações anunciado pelo tucano, como a venda dos complexos de Interlagos e do Anhembi, além de supervisionar os concessionários atuais na limpeza, iluminação e transporte público.”

Leia mais aqui.

Além de ter as agências reguladoras para vigiar as privatizações, será preciso fiscalizar as próprias agências reguladoras. É aí que entra a gestão democrática das escolas e das redes de ensino.

Os Estados Unidos privatizam a educação há mais de 20 anos. Isso não melhorou a educação, porque a privatização da educação não é uma reforma educacional e sim uma reforma administrativa/financeira, destinada a gastar menos. Também não levou aquele país a ter mecanismos eficazes de controle do mercado, simplesmente porque o mercado é incontrolável. Ou burlam a regulação e a amenizam ou quando não conseguem e a regulação aperta demais para garantir os interesses do cidadão, eles abandonam aquela área de mercado e procuram outra. Fazem isso com países também.

Conforme informou Diane Ravitch nesta semana:

“Em uma inacreditável guinada de eventos, o Escritório Federal da Inspetoria Geral emitiu um aviso de que as escolas charters representam um risco para as metas do Departamento de Educação [americano]”.

Leia aqui.

“Além disso, o relatório da inspetoria geral descobriu que o Departamento de Educação não tem controles internos eficazes para monitorar, avaliar e mitigar esses riscos, nem garantir que os departamentos estaduais de educação supervisionem as escolas charter e as suas organizações de gestão.”

Como um país que privatiza há décadas não consegue ter controle das privatizadas? É porque, como descobrirá Doria, não é tão fácil assim lidar com o mercado. Aliás, o novo prefeito está dando diariamente demonstrações de ingenuidade administrativa, para dizer o mínimo. É o que ocorreu com o anúncio populista do congelamento das tarifas de ônibus. Vai gerar dívida extra que pode chegar a 2 bilhões e além disso colocou Alckmin na fogueira, pois ele terá que reajustar as tarifas dele, enquanto a prefeitura não o fará.

Com o desenvolvimento da privatização no Brasil o mais provável é que a lava-jato vai migrar para as áreas privatizadas. Isso tende a acontecer quando se coloca o próprio cachorro para tomar conta da salsicha. O antídoto é a gestão democráticas nas redes de ensino e escolas.

Para quem quiser ver o que é a privatização em ação em um país que é a meca da privatização da educação há décadas, os Estados Unidos, clique aqui.

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SBF contra a MP do ensino médio

A Sociedade Brasileira de Física divulgou hoje, em seu Boletim posicionamento sobre a MP746 do ensino médio.

NOTA PÚBLICA DA SBF SOBRE A MEDIDA PROVISÓRIA DO ENSINO MÉDIO

A Sociedade Brasileira de Física vem a público manifestar preocupação quanto à Reforma do Ensino Médio por meio de Medida Provisória encaminhada ao Congresso Nacional. Reconhecemos a necessidade e urgência de reforma. Entretanto, por também reconhecer a complexidade do tema e a necessidade de construir, por meio de debate público qualificado, elementos para a sustentação de mudanças efetivas e eficazes, entendemos que tal questão não deve ser apreciada em caráter de Medida Provisória.

Consideramos que aspectos da MP 746 atentam contra os objetivos preconizados, quais sejam, a ampliação do tempo de escolarização e a necessidade de se pensar um Ensino Médio que seja atraente, flexível e atenda aos interesses e demandas de formação dos estudantes.

Dentre eles, destacamos:

  1. A MP estabelece como condição para exercício da docência “trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim” e, para a parte técnica do currículo, outros profissionais, que, mesmo sem ter a qualificação profissional requerida, “detenham notório saber”. Assim, em lugar de indicar ações efetivas para formação de professores e estímulo à entrada e permanência na carreira, a MP apenas legitima a precarização hoje existente  – segundo o censo de 2015, quase 40% dos professores em exercício não tem formação adequada para as disciplinas que lecionam. No caso da Física, esse número é de 68,7%. A SBF reafirma a necessidade de fortalecer a formação de professores com cursos de licenciaturas específicas nas áreas de conhecimento e condições de trabalho e carreira que tornem a profissão atraente.
  2. A MP reduz o componente de formação geral, destinada aos conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), das atuais 2400 horas para 1200 horas. Ou seja, a formação geral, cultural e científica dos estudantes é reduzida pela metade e não ampliada, como se anuncia. O tempo restante se volta para uma preparação para o  mercado de trabalho, sem qualquer alusão a outro princípio educativo. Não há espaço, no novo Ensino Médio anunciado, para formação ética, estética e científica dos estudantes. A ampliação referida pela MP é da carga horária anual mínima fomentando a implementação das Escolas de Ensino Médio em tempo integral.
  3. A proposta não estabelece a obrigatoriedade de oferta dos componentes curriculares em todas as escolas ou sequer de todas as áreas de conhecimento. A flexibilização pretendida não pode privar os estudantes do acesso ao conhecimento, como na prática poderá ocorrer com o Novo Ensino Médio anunciado. A proposta estabelece como única obrigatoriedade da escola a oferta de Matemática, Língua Portuguesa e Língua Inglesa. Assim, escolas poderão simplesmente abolir a oferta de componentes como Física, Química, Sociologia, Filosofia, História, Artes, Educação Física, Biologia…  A gravidade desse fato dispensa maiores comentários.
  4. A MP não menciona aspectos fundamentais para um projeto de reforma do Ensino Médio tais como:

a) Ações e diretrizes para formação de professores e valorização da carreira docente.

b) Condições materiais e organizacionais para que as escolas possam oferecer, com qualidade, currículos amplos e diversificados;

c) Indicações sobre a oferta de Ensino Médio noturno (30% das matrículas atuais);

d) Indicação de diretrizes para projetos de escola integrada ou de tempo integral ou indicação de legislação complementar a este respeito. O projeto parece desconhecer as avaliações de políticas públicas e projetos em andamento em vários estados e munícipios brasileiros.

5. A MP menciona a BNCC que, entretanto, não está ainda regulamentada. Os princípios da BNCC, que constam no texto aprovado após consulta pública,  não estão sendo considerados. Do mesmo modo, a  extensão de conhecimentos propostos na BNCC são incompatíveis com as 1200 horas anunciadas.

Por esta razão, a SBF vem a público se manifestar contra a forma e os termos com que foi apresentada a Reforma e recomenda a retomada, em caráter de urgência, das discussões sobre um Projeto de Lei de Reforma do Ensino Médio brasileiro, com amplo debate com a sociedade e qualificada participação de especialistas e entidades científicas.

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Nota do INEP: não incluir os IFs foi um erro

Como divulgamos em post anterior, os Institutos Federais foram deixados fora do cálculo do ENEM divulgado no dia 4-10. O INEP divulgou nota na qual reconhece que de fato houve erro na divulgação das notas do ENEM, deixando os Institutos Federais fora do cálculo. O INEP afirma que foi um erro de interpretação da equipe técnica que trabalhou nos cálculos.

Leia a nota do INEP.

Segundo a Folha/UOL:

“Com a liberação dos resultados dessas instituições, a ordem das escolas no ranking pela média deve sofrer mudanças. O campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo havia obtido o 1º lugar entre todas as escolas públicas do país nas provas objetivas. O que a deixaria entre as 100 melhores notas do país. O posicionamento geral da rede pública também pode ser alterado.”

Leia mais aqui.

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STF nega mandato contra MP 746

“O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), não conheceu (negou o trâmite) do Mandado de Segurança (MS 34432) impetrado por um advogado contra a edição, pelo presidente da República, Michel Temer, da Medida Provisória (MP) 746/2016, que institui a chamada “Reforma do Ensino Médio”. O ministro aplicou ao caso jurisprudência pacífica do Tribunal no sentido da inadequação do mandado de segurança para questionar “lei em tese”, e que o pedido busca, por vias transversas, uma declaração de inconstitucionalidade da MP.

No MS, o advogado sustenta que a medida ofende a Constituição Federal por não cumprir os requisitos de urgência e relevância necessários à sua edição, além de violar princípios constitucionais do direito à educação, da dignidade da pessoa humana, da proporcionalidade e da participação popular.

Em sua decisão, o ministro Luiz Fux entendeu inexistir “direito líquido e certo” a ser protegido, requisito para a concessão de mandado de segurança. Citou a Súmula 266 do STF, segundo a qual é juridicamente impossível a concessão da segurança contra lei em tese. Isso porque uma lei, como norma abstrata de conduta, não lesa diretamente direito individual.

“A MP 746/2016, ao propor mudanças no currículo escolar do Ensino Médio no Brasil, tratou de fixar, bem ou mal, por intermédio de norma geral, impessoal e abstrata, a procedimentalização de novas políticas de ensino”, afirma o ministro. O caráter da norma é de alcance genérico, não havendo ofensa imediata ao autor do MS.

O ministro afirma ainda que o pedido busca efetivamente como resultado a declaração de inconstitucionalidade da MP, uma vez que a ação alega que a norma teria descumprido pré-requisitos para sua edição e violado diversos princípios constitucionais. O relator explicou que, ao pedir que o ato seja considerado nulo de pleno direito, o advogado almeja, na realidade, a tutela de direito objetivo, com efeito erga omnes (para todos), resultado próprio das ações de controle abstrato de constitucionalidade.”

Leia a íntegra da decisão.

Quarta-feira, 05 de outubro de 2016 –  FT/AD

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Tentativas de controlar ideologicamente a escola avançam

Ao mesmo tempo em que a privatização avança com o objetivo de controlar a gestão da escola, por outro, os conservadores se articulam para controlar aquele que é o local mais “perigoso da escola” na visão destes: a sala de aula e o professor, através das teses da “escola sem partido” e outros projetos de lei. Com isso, fecha-se o cerco sobre a escola e maximiza-se o controle político e ideológico sobre todos os espaços da escola pela direita: da gestão à sala de aula.

Já tramitava o Projeto de Lei n. 867/2015, do Deputado Izalci (PSDB-DF), que: “Inclui, entre as diretrizes e bases da educação nacional, o “Programa Escola sem Partido””. Agora foi apensado a este em 5-10-16 o projeto de lei 7180:

“Comissão Especial destinada a proferir parecer ao Projeto de Lei nº 7180, de 2014, do Sr. Erivelton Santana, que “altera o art. 3º da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996” (inclui entre os princípios do ensino o respeito às convicções do aluno, de seus pais ou responsáveis, dando precedência aos valores de ordem familiar sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa), e apensados (PL 7180 14 ).”

Acompanhe aqui.

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As notas dos IFs sumiram do ENEM?

O Conif divulgou a seguinte nota no dia 04 Outubro 2016:

“A ausência dos Institutos Federais no resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 por escola, divulgado nesta terça-feira, 4/10, causou indignação ao Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif). Para buscar um esclarecimento, o Conif oficiou ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) uma solicitação de reunião.

De acordo com o presidente do Conif, Marcelo Bender Machado, o Conselho não tinha ciência de que a Rede Federal seria desconsiderada na última avaliação do Enem. “As instituições da Rede vêm crescendo positivamente no ranking. Portanto, tínhamos uma expectativa diferente para a divulgação do resultado. Cabe-nos, agora, dialogar e tentar reverter esta situação”, afirma.

No resultado referente a 2014, divulgado em agosto do ano passado, as instituições da Rede Federal tiveram reconhecido desempenho e foram destaque entre as melhores do Brasil. O campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) obteve o 1º lugar entre todas as escolas públicas do país nas provas objetivas.”

A exclusão foi objeto de uma portaria do INEP que regulamentou como seria a inclusão ou não inclusão na divulgação das notas em 2016. Diz a Portaria:

“Art. 2º São considerados participantes do Enem 2015 os estudantes que atendam cumulativamente aos seguintes requisitos:

I – Tenham realizado as quatro provas objetivas e a prova de redação do Enem 2015;

II – Tenham obtido proficiências superiores a zero em todas as provas objetivas e não tenham sido eliminados na redação do Enem 2015; e

III – Tenham sido matriculados em turmas da 3ª série do ensino médio regular, excluídos os do ensino médio não seriado, de escolas públicas e privadas, de acordo com o Censo Escolar de 2015, publicado no Diário Oficial da União em 18 de janeiro de 2016.”

Baixe aqui a Portaria do INEP.

O inciso III é o causador da polêmica, ao retirar as instituições de ensino médio não seriadas, atingindo os IFs.

Aparentemente, salvo alguma razão técnica desconhecida, a medida não procede. Um estudante que nem esteja fazendo o ensino médio pode fazer o ENEM para efeito de certificação e se obtiver 500 pontos, recebe o diploma de concluinte do ensino médio. Portanto, não há uma justificativa pedagógica para não incluir uma instituição só pelo fato de não ser seriada.

A ausência de explicações gera uma série de hipóteses: Tendo os IFs um desempenho elevado e sendo escola pública, haveria algum interesse em retirá-los do ranqueamento para favorecer o brilho das escolas privadas e aprofundar a ideia de que as públicas são ruins? Ou os IFs estariam incomodando porque mostrariam que quando há condições de trabalho a escola pública pode ter desempenho elevado nas avaliações?

Não morro de amores para ver as instituições incluídas no ENEM, mas excluir discricionariamente, exatamente, escolas públicas que estão se saindo bem, parece uma brincadeira de mal gosto que precisa, no mínimo, ser muito bem explicada.

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Ravitch: best-seller da autora tem edição ampliada

Sai nos Estados Unidos a edição ampliada (2016) do best-seller de Diane Ravitch, editado pela primeira vez em 2010: Morte e Vida do Grande Sistema Escolar Americano.

Acesse aqui.

Segue um pequeno trecho da nova edição:

“O movimento de privatização finge que está lutando bravamente contra “o status quo”, mas com políticos cooptados, tanto em nível federal como estadual, bem como grupos de reflexão, as fundações mais ricas do país, um círculo de bilionários e grandes conselhos editoriais, este movimento é o status quo. E furtivamente avança com uma agenda anti-democrática, envolta em retórica enganosa, que o público não está ciente e não entende.

Esta combinação de dinheiro e poder político tem sido potente no avanço dos programas de ”vouchers” escolares, que já foram considerados uma ideia de extrema direita de mau gosto, mas foram recentemente promulgados em cerca de vinte estados. Vouchers raramente são agora chamados de “vouchers”, porque os eleitores os têm consistentemente rejeitado: em 2007, os vouchers foram derrotados por uma margem de 62-38 no estado de Utah, e a Florida os recusou em 2012 por 58-42. Por isso, os promotores dos vouchers os sancionam agora através de leis sem realização de referendos e tentam esconder a sua finalidade, chamando-os de “bolsas de oportunidade”, “créditos tributários”, ou “contas de poupança de educação.” Qualquer que seja o nome, o resultado é o mesmo: esses programas transferem dinheiro público para escolas privadas e religiosas, mesmo quando a constituição do estado (por exemplo, em Nevada e Indiana) proíbe especificamente.

Este mesmo movimento – infelizmente bipartidário – encorajou o crescimento de escolas charter de gestão privada, que são comercializados como sendo superiores às escolas públicas (embora elas geralmente não sejam). As escolas charters são uma forma menos controversa de privatização do que os vouchers, porque elas não envolvem questões de Igreja-Estado. E, no entanto, as escolas charter eliminam o controle democrático das escolas, porque elas são de gestão privada e em alguns casos controladas por cadeias corporativas de fora do estado, por vezes, sem fins lucrativos, às vezes com fins lucrativos. Em muitos estados, as escolas charter não obtêm melhores resultados em termos de notas dos alunos do que o menor desempenho das escolas públicas tradicionais, e às vezes elas são ainda piores do que as de menor desempenho das escolas públicas. As escolas charters deveriam ser inovadoras, mas suas inovações mais eficazes até à data consistem em escolher os seus alunos com cuidado, excluindo ou removendo os estudantes que poderiam obter piores resultados nos testes, e em impor uma disciplina de acampamento militar com aqueles que permanecem.”

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Monica Ribeiro relata audiência pública do ensino médio

Monica Ribeiro distribuiu resumo sobre a Audiência Pública do Ensino Médio, realizada na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

“Prezados/Prezadas, envio um relato (minhas notas durante as falas; desculpem por eventuais erros de digitação) da Audiência Pública MP 746 – 04/10/2016 – Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

Primeira mesa

Confederação Nacional da Indústria – CNI – o Ensino Médio precisa se adequar ao mercado de trabalho para que o Brasil possa ter “estoque populacional” para atender ao desenvolvimento econômico. Traz como exemplo os países desenvolvidos e a adequação da escola ao desenvolvimento econômico. Defende a divisão em itinerários diferenciados e defende a ampliação da formação técnica como treinamento, incluindo a forma “aprendizagem”.

Federação Nacional das Escolas Particulares –  FENEPE – Amabile – defende a ampliação do tempo pois as escolas privadas fazem isso para ensinar 16 disciplinas e por isso os alunos têm melhor desempenho. Que tem há cinco anos feito intervenções no Congresso Nacional para mudar o ensino médio.

Daniel Cara da Campanha Nacional pelo Direito à Educação faz uma fala contundente contra o ato de MP que lembra os decretos da ditadura e contextualiza as reformas atuais que retrocedem na oferta da educação pública. Cita o relatório do UNICEF que ouviu os jovens e por que evadem da escola – violência dentro do ambiente escolar, infraestrutura escolar, questão curricular (em que pedem ampliação de atividades esportivas e artísticas) e que nenhuma delas é atendida pela MP. Analisa a MP e salienta os pontos críticos e que contrariam as metas do PNE. Traz o manifesto do movimento nacional em defesa do ensino médio e salienta os pontos criticados pelo movimento.

CONSED – o Ensino Médio mostra um esgotamento e justifica o uso do instrumento da MP devido à demora nos debates, inclusive legislativos. Fala das várias juventudes e das exigências da economia do século XXI. Fala das notas do ENEM. A reforma tem recebido críticas e estas estão munidas de pressupostos ideológicos.

Maria Helena Guimaraes de Castro – defende o uso do instrumento da Medida Provisória. O Ensino Médio foi muito discutido durante a elaboração da LDB. Recupera a trajetória desde 1996 e afirma que a MP coroa esse debate, não sendo, portanto por falta de diálogo que a reforma não será aprovada. Defende cada uma das propostas que constam da Medida Provisória e a justifica com base no baixo desempenho dos estudantes nas avaliações em larga escala. Defende os itinerários formativos como um “pout pourri educacional” (sic!).

Segunda Mesa

Simon Schwartz – salienta o mérito do debate e que o Ensino Médio é um desastre. Defende a divisão em ênfases porque ninguém consegue aprender 13 disciplinas. Defende uma base que defina as competências requeridas pela BNCC e aferidas pelos exames. Critica as ênfases propostas e propõe outra forma de dividir as áreas. Fala sobre o “ensino profissional” e defende o que está definido no mundo como avaliação de competências para então definir os cursos. O ENEM é incompatível com o sistema de ênfases. Tem que fazer um sistema diversificado de avaliação aliado a uma parte que avalie as competências gerais da base comum. O sistema S tem que ter um papel fundamental na diversificação para a formação técnica. Fala várias e várias vezes que “no mundo inteiro não é assim”, ao referir-se ao “desastroso ensino médio brasileiro”. Defende a aproximação com o sistema produtivo. Faz uma fala contrária às 1400 horas “porque isso custa muito caro”.

Secretario da Educação do Estado de Pernambuco. Menciona o substitutivo ao PL 6840/13.  Fala que já está havendo um amplo debate no país envolvendo a BNCC. Diz que flexibilidade é a palavra que resume a proposta. O que tem de mais positivo é justamente que se substitui a palavra “deverá” pela palavra “poderá” ser desse ou daquele jeito, e quem definirá são os sistemas de ensino.

CNTE – Marta Vanelli. Critica o uso do instrumento da MP e também o conteúdo. Defende a LDB e o Ensino Médio como Educação Básica – como formação geral básica. Lembra da CONAE e suas várias etapas. Pede a rejeição ou retirada da Medida Provisória. Sobre o conteúdo. A questão da ampliação do tempo e as ênfases indicam que todo Ensino Médio será de tempo integral e que todo o ensino médio será profissionalizante ao longo do tempo.

Tereza Pontual – SEB MEC- Diretoria de Currículo. A proposta de tempo integral faz menção à meta 6 do PNE. Fala de cada uma das proposições da MP e vai a cada uma afirmando que não houve entendimento por parte das pessoas que a criticam. (Ela foi de Harvard, daquele grupo que fez formação pela Fundação Lemann).

DEBATES

Deputado Izalci. Fala da importância da audiência pública. Participou da CEENSI e que participou da elaboração do PL 6840/2013. A consultoria legislativa está preparando um relatório das emendas. O relator da MP na Comissão mista ainda não foi definido (nem a presidência).

Deputado Átila Lira – o conceito básico é o da flexibilidade. Vê isso como algo muito positivo.

Deputado Danilo Cabral – PSC Pernambuco. Critica a forma, o uso da MP! E vai pela rejeição. (Conversei com ele, que leu o manifesto e se colocou à disposição do movimento).

Deputada Dorinha – qualquer mudança precisa de investimento, só conversa de nada adianta.

Deputado Pedro – fala da urgência em se ocupar do tema da educação

Deputado Rogério Marinho – nosso ensino médio é um desastre. Defende a escola sem partido.

Observações finais e encaminhamentos:

Nosso manifesto foi entregue a todas as pessoas presentes.
Conversei com a Professora Dorinha e com o Senador Lindbergh solicitando que sejamos ouvidos em próximas audiências.  Daniel (Cara) também irá atuar nessa direção. Conversei com Paulo Senna que considera que serão poucas as audiências públicas.
Agora há pouco me ligou o assessor da deputada Dorinha, solicitando alguns dados para que ela apresente amanhã, durante a instalação da Comissão Mista do Senado e da Câmara, o requerimento da audiência pública e na qual o Movimento será ouvido.
O Congresso Nacional está às voltas com temas candentes como a Lei do Pre-Sal e a PEC 241. Amanhã haverá uma manifestação no Auditório Nereu Ramos contrária à PEC 241. E está convocada uma mobilização nacional em defesa dos direitos sociais e do serviço público também para o dia 05.
No Paraná, em São José dos Pinhais, são três as escolas ocupadas de ontem para hoje.

Abraços
Profa. Dra. Monica Ribeiro da Silva
Universidade Federal do Paraná
Curitiba, Brasil

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BNCC no Congresso: Dorinha faz voto “em separado”

A Deputada Professora Dorinha entregou voto “em separado” no qual argumenta que a Base Nacional Comum não deve ser enviada ao Congresso para aprovação e sim, seguir os trâmites previstos no PNE. O voto discorda do Parecer do Relator do Projeto que propôs enviar a Base ao Congresso. Dorinha defenderia, em tese, a posição do MEC, contrária ao envio ao Congresso.

A tendência  na Comissão de Educação da Câmara parece ser que a Base vá mesmo para o Congresso. Esta estratégia do voto “em separado” pode ser preparatória para o embate que deverá acontecer, em seguida, no plenário da Câmara que é para onde o projeto irá, se aprovado pela Comissão de Educação.

Baixe aqui o voto em separado.

Em 30 de agosto o Relator entregou seu Parecer recomendando que a BNCC fosse para o Congresso. (Veja aqui o Parecer.)

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Mauro Sala: MP é ataque à formação geral e técnica

“Já discutimos, em outros artigos publicados nesse diário, algumas implicações da atual reforma do Ensino Médio. Já mostramos que essa reforma implicará redução e corte de disciplinas no currículo escolar, que ela não garante a escolha pelos estudantes de seu itinerário formativo e que ela significará redução e privatização da escolarização em nível médio. Neste artigo iremos discorrer um pouco sobre os impactos dessa reforma para a educação técnica e profissionalizante.

Embora não altere diretamente a seção IV-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que trata da educação profissional técnica de nível médio, essa reforma terá profundas consequências para a formação profissional e técnica de nível médio.” (…)

“Assim, coloca-se duas questões importantes de nos atentarmos: 1) a formação técnica e profissional, como um “itinerário formativo específico” desprendido da formação geral de nível médio, acaba, por via indireta, com as modalidades concomitantes e integradas; e 2) a possibilidade dessa formação profissional se dar por programas de qualificação para o trabalho, com certificados intermediários, o que fragmentará e esvaziará ainda mais a formação dos jovens trabalhadores. (…) Trata-se de um duplo ataque: primeiro por separar a formação geral da formação técnica; e segundo por reduzir a formação técnica à simples qualificação profissional.”

Leia a íntegra do texto aqui.

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ENEM: “queijo suíço” na festa midiática!

Todo ano é a mesma coisa. É hora do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio – ganhar a mídia e incentivar a critica ao ensino médio, à escola pública e outras coisas mais. A maioria dos leitores parte do pressuposto de que o dado divulgado autoriza certas críticas feitas. Mas o ENEM tem tantos “furos” que mais se assemelha a um “queijo suíço” na festa midiática.

Uma rápida olhada nas observações que cercam as divulgações já vai mostrando isso. Mas nem sempre os leitores prestam atenção nelas. A manchete comanda a opinião do leitor. Podem-se ler manchetes como “38 escolas em 100 são reprovadas no ENEM“. Uma manchete mais favorável poderia ser o inverso: “62 escolas em 100 são aprovadas no ENEM”: quem define a ênfase?

As notas de advertência mostram a precariedade dos dados. Em um gráfico se lê: “a média não levou em conta a redação”, só as provas objetivas. Em outros um conjunto de “restrições” é apresentado:

“Só são divulgados os dados de escolas em que pelo menos metade dos alunos participaram do Enem. Também é necessário um mínimo de dez alunos participantes. Dessa forma, 60% das escolas públicas brasileiras ficam fora da lista. No Estado de São Paulo, por exemplo, 75% das unidades não tiveram notas divulgadas. A participação no Enem nas escolas particulares é o oposto. Só 23% das escolas privadas do país não atingiram o critério mínimo de divulgação.”

Ou seja, o ENEM não serve para fazer prognósticos e nem comparações entre escolas. É um exame voluntário. Os estudantes fazem se querem ou não. Nas escolas privadas são incentivados a fazer seja pela escola, seja pelos pais, seja pelo ambiente que assinala para eles que é preciso ir para a universidade. Nas escolas públicas isso nem sempre é verdade. Os estudantes não se inscrevem no exame, não é uma necessidade colocada para o estudante que muitas vezes tem uma auto-estima baixa e que não o estimula a enfrentar um exame, entre outras razões.

O INEP divulga nota de escolas com mais de 50% dos alunos presentes no exame. É pouco para se ter uma ideia do desempenho da escola. O PNE fixa 85% para suas avaliações do ensino básico regulares (SAEB). Além disso, pode não haver representatividade nos 50% dos alunos de uma escola que se inscrevem no ENEM. Podem ser todos de maior nível socioeconômico ou de menor nível socioeconômico – em relação à escola original.

40% das escolas participantes têm nível socioeconômico alto ou muito alto e apenas 5% das escolas participantes têm nível socioeconômico baixo e muito baixo.

Enfim: é um dado que só serve, e olha lá, usando de muito boa vontade, para indicar algum desempenho do aluno em determinadas áreas escolhidas para exame.

A média não é média, é média de média. Qual o sentido de se fazer média de “médias de  habilidades” de cinco áreas. Como se interpreta esta “meta-média”… Em alguns casos se exclui do cálculo da média a nota da redação do aluno, em outros se mantém. Quatro provas são objetivas, a redação não é.

Mas… deixa-se tudo isso de lado na hora da “festa”. Há que justificar a MP do ensino médio e, portanto, pau no ensino médio e na escola pública. Não é que esteja bom o ensino médio, mas é que a solução apresentada, além de errada, não pode ser justificada a partir do ENEM.

Para comparar escola pública com escola privada, como já se disse incansavelmente, tem que ter controle pelo menos do nível socioeconômico em ambas, fazendo uso de processos estatísticos de certa complexidade. O INEP não realiza ou não divulga tais estudos. Tampouco exige dos fornecedores contratados. No caso do ENEM, com tantos outros “furos” nos dados, talvez não valha a pena mesmo.

Segundo a Folha, 91% das escolas públicas ficaram abaixo da média geral (neste caso, sem a nota de redação). Mas a média não expressa o conjunto dos estudantes das escolas brasileiras que fizeram o ensino médio em 2015, pois é um exame voluntário. E como ela mesma nota, 60% das escolas públicas brasileiras ficaram fora da divulgação por não atingirem o mínimo de estudantes necessários. Ou seja, não faz sentido o dado em meio a tantas restrições.

Com todos estes limites, os dados acima mostram que nossos estudantes melhoraram em Ciências Humanas (de 546 para 555) e melhoraram também na redação de forma significativa (um salto de 491 para 543) em relação ao obtido em 2014. Houve queda em Ciências da Natureza, Linguagens e Matemática. É claro que nem a melhora nem a piora podem ser atribuídas especificamente ao ensino médio, sem levar em conta dificuldades acumuladas que são produzidas ao longo da vida do estudante desde a educação fundamental.

Acesse a apresentação do INEP.

Acesse as informações do INEP.

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Paulo Carrano analisa a MP do ensino médio

“Falar que está se fazendo isso porque o Ideb demonstrou fragilidade não quer dizer muita coisa, porque o Ideb já vem congelado, pelo menos, desde 2011. E a gente tem uma estratégia que é lenta porque é responsável, e foi assim que a sociedade brasileira determinou, expressa nas metas do PNE. Então, são dois absurdos: criar um cronograma sem diálogo com a sociedade através da Medida Provisória e solapar duas leis, que são o PNE e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional [LDB].

E, além disso, absolutizar um índice que, ainda que possa ser importante, é limitado. Primeiro porque é um índice quantitativo, e sabemos que os índices quantitativos expressam algumas qualidades, mas não todas. Segundo porque esse próprio índice é constituído em torno de duas únicas disciplinas que são português e matemática. E aí reside outro reducionismo que é termos uma reestruturação do ensino médio em torno de disciplinas rainhas: português e matemática. Ou seja, todas as outras são servas dessas duas grandes disciplinas que dirigem o processo educacional.”

Leia a íntegra da entrevista aqui.

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Em carta, SBPC pede revogação da MP do ensino médio

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência encaminhou carta ao presidente Michel Temer pedindo a revogação da MP do ensino médio:

“A SBPC entende que modificações profundas no Ensino Médio são necessárias e urgentes, no sentido de melhorar a qualidade do ensino, reduzir a evasão escolar e oferecer possibilidades educacionais e profissionais diversificadas e qualificadas a nossos jovens. No entanto, a utilização de uma medida provisória não é instrumento adequado para promover o necessário debate nacional, que deve ser amplo e democrático, para enfrentar um problema tão complexo e que envolve milhares de instituições públicas e privadas, de organizações da sociedade civil, milhões de estudantes e profissionais da educação.

Assim, solicitamos a V. Exa. a revogação da Medida Provisória 746/2016 e a retomada das discussões, em caráter de urgência, na forma de um Projeto de Lei de Reforma do Ensino Médio brasileiro, que possibilite o envolvimento efetivo das instituições de ensino e de pesquisa, entidades científicas e educacionais, especialistas, secretarias de educação, órgãos de governo e demais setores da sociedade brasileira.”

Baixe aqui a carta.

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Doria e a privatização da educação paulistana

Doria é eleito em primeiro turno e assumirá a Prefeitura da cidade de São Paulo, pelo PSDB. Surpreso e com cara de “cheguei e não sei bem o que fazer: privatizemos”, ele tentará se tornar uma referência na aplicação da reforma empresarial da educação. Ele mesmo faz questão de dizer que é gestor e empresário e não um político. Hoje anunciou a ampliação de creches fazendo convênios com Organizações Sociais.

O vazio que existe em sua proposta é bem ilustrado por medidas intempestivas que propõe tomar. Questionado pela BBC Brasil sobre as 315 mortes a menos que o prefeito Fernando Haddad associa à medida (redução da velocidade em marginais), o populista desconversa:

“Não haverá genocídio. Vamos fazer o que a Prefeitura não fez: programas de educação de trânsito usando rádio, televisão, internet e escolas públicas para que as pessoas compreendam e respeitem as regras.”

Enquanto não aprendem, morrem. Sempre que pode, ele reafirma que não é político:

“Sou gestor e empresário, embora respeite os políticos.”

Com um patrimônio declarado de 180 milhões, é fundador e presidente do GRUPO DORIA, grupo de Comunicação e Marketing composto por seis empresas: DORIA ADMINISTRAÇÃO DE BENS, DORIA EVENTOS, DORIA EVENTOS INTERNACIONAIS, DORIA EDITORA, DORIA MARKETING & IMAGEM e LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, que reúne mais de 1.700 empresas filiadas, que representam 52% do PIB privado nacional. Acesse aqui quem é Doria.

A argumentação fútil é prodiga. Questionado sobre a relação de sua história com a de pais de família que vivem com um salário mínimo, Doria diz que respeita a todos:

“Eu vejo sem discriminação. Eu nunca discriminei os pobres nem os ricos. Não há o bem ou mal. Não há o rico ou o pobre no ponto de vista da diversidade. Temos que melhorar a qualidade de vida no ponto de vista da cidade.”

Isto acontece quando pessoas sem nenhuma tradição são alçadas à categoria de candidatos e acabam sendo eleitos por circunstâncias especiais nas quais estamos vivendo (há mais voto banco, nulo e abstenções do que o número de votos que ele recebeu). Vinicius Mota, na Folha, afirma que:

“Pela terceira vez desde a redemocratização, os eleitores de São Paulo colocaram na prefeitura um candidato sacado da cartola de um oligarca partidário. A moda começou em 1996 com Celso Pitta, inventado por Paulo Maluf, reincidiu em 2012 com Fernando Haddad, imposto ao PT por Lula da Silva. Repete-se agora com João Doria, concebido na proveta do tucano Geraldo Alckmin.”

Pelo menos Haddad vinha com oito anos de experiência política no Ministério da Educação. Qual a experiência política de Doria. Zero. Nem quer tê-la. Vai atuar baseado na crença de que sabendo gerir suas empresas, basta aplicar o mesmo método na administração pública da cidade.

Mas, Doria tem muito claro a que veio:

“Eu defendo o Estado mínimo, e vou fazer isso. A Prefeitura vai vender tudo aquilo que não for essencial para a gestão pública e a assistência à população que mais precisa. Vamos começar vendendo o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. Numa mostra clara e definitiva de que o Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário. Quem deve administrar estes locais é o setor privado.” (Grifos meus.)

O Grupo Doria, como é conhecido, é o articulador da LIDE – Grupo de Líderes Empresariais.

“LIDE é uma organização de caráter privado, que reúne empresários em doze países e quatro continentes. O LIDE debate o fortalecimento da livre iniciativa do desenvolvimento econômico e social, assim como a defesa dos princípios éticos de governança corporativa no setor público e privado. Fundado no Brasil, em 2003, o LIDE é formado por líderes empresariais de corporações nacionais e internacionais, que promove a integração entre empresas, organizações e entidades privadas, por meio de programas de debates, fóruns e iniciativas de apoio à sustentabilidade, educação e responsabilidade social. O LIDE reúne lideranças que acreditam no fortalecimento da livre iniciativa no Brasil e no mundo.”

É um “bunker” em defesa das teses da livre iniciativa e do livre mercado. Seu “modelo de atuação política” é, como ele mesmo declarou recentemente, “Bloomberg”, o magnata também adepto do livre mercado que governou a cidade de Nova York por 12 anos. A LIDE organiza empresários para lutar em mais de 20 áreas. Um destes campos é a educação, comandada por Osmar Zogbi, que preside o Comitê. Empresário com 40 anos de experiência no Setor de Celulose e Papel, foi presidente da Ripasa e da Associação Brasileira de Celulose e Papel. Preside, atualmente, a EcoBrasil Florestas e a EAZ Participações.

Segundo consta em sua página, a LIDE Educação considera que:

“A educação é a principal via capaz de desenvolver potenciais, transformando-os em competências e habilidades para que o indivíduo possa viver, conviver, conhecer e produzir com sucesso na complexa sociedade do século 21.

E esta é a maior urgência de nosso país: prover milhões de alunos com educação pública de qualidade para que possam aprender, passar de ano e ter sucesso na trajetória escolar e no seu projeto de vida.

Para ajudar a responder a essa urgência, formamos um grupo de líderes empresariais de organizações de origem, porte e setores bastante distintos e que, no seu conjunto, representam uma fração importante da economia nacional. Nossa resposta proativa ao desafio social brasileiro foi a opção de agir coletiva e estrategicamente, atuando em larga escala.

Isto porque, pela magnitude do desafio, só alcançaremos resultados efetivos se empresas que acreditam em um Brasil melhor e mais justo unirem seus ideais e recursos em favor da educação pública.”

 

Não tendo conhecimento na área da educação a LIDE Educação firmou uma “aliança” com o Instituto Airton Senna:

“A ideia de aliança social do LIDE Educação traduz o conceito de corresponsabilidade em que empresas, atuando em grupo, unindo esforços, assumem o compromisso pelo futuro do país, impactando mais crianças e mais jovens para transformar realidades inteiras. E somente por meio dessas alianças é que mudanças reais e em escala podem acontecer, saindo da esfera de ações pontuais para mudar redes de ensino de cidades e estados, alcançando amplas vitórias. (…)

Baseada nesses princípios foi concretizada a aliança entre a LIDE Educação e o Instituto Ayrton Senna.”

E continua:

“O LIDE Educação decidiu atacar os problemas da educação direto na fonte – ou seja, na rede de ensino fundamental -, e foi buscar inspiração na experiência de trabalho bem-sucedida do Instituto Ayrton Senna.”

O relatório de realizações do LIDE educação é o próprio relatório anual do Instituto Airton Senna. Na página do LIDE o mais recente é o de 2014. Pelo relatório, pode-se fazer uma ideia das propostas que serão feitas à rede paulista de educação.

Mas há também o programa de Doria para sua gestão.

“Promover foco no currículo e nas aprendizagens esperadas. Todas as diretrizes, programas e ações administrativas devem ser priorizadas, planejadas e acompanhadas a partir desse foco;

Estabelecer processos e parâmetros para acompanhamento e avaliação das aprendizagens, de forma que os gestores, equipes escolares e a sociedade possam realizar escolhas que favoreçam e ampliem o conhecimento, atribuindo a cada unidade escolar autonomia para definir a ação corretiva;

Criar a agência regulatória de convênios que reunirá os setores da sociedade para implementação, acompanhamento e avaliação da oferta de vagas para as crianças de 0 a 3 anos.

Criar programas de desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais para os alunos da rede municipal de ensino.”

Entre outras ações propostas.

O foco é avaliação da aprendizagem associada ao conceito de “ação corretiva”. Mas o programa tem como objetivo implementar a privatização. A agência regulatória de convênios é a chave desta interpretação, começando com 0 a 3 anos. Ela vai intermediar a relação com Organizações Sociais.

E por aí… vai.

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Saviani: Democracia e Educação no Brasil

Dermeval Saviani analisa os acontecimentos nacionais em “Democracia e Educação no Brasil: os desafios do momento atual”:

“O desafio da educação em meio a uma ruptura democrática é o enfrentamento da própria contradição entre liberdade, acesso pleno a tudo que é público e desmonte de direitos adquiridos. A passividade ou capacidade de luta do pedagogo será determinante para garantir que o processo educacional seja questionador e libertário.”

Baixe aqui.

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Tampio: precisamos de uma BNCC?

Nicholas Tampio, da Fordham University nos Estados Unidos, acaba de publicar um artigo “Democracia e Padrões Educacionais Nacionais” no qual discorda da necessidade de uma base nacional comum. Abaixo segue o resumo do trabalho.

“Este artigo intervém no debate sobre se as democracias devem adotar padrões nacionais de educação. Para muitos democratas, os padrões nacionais de educação podem promover o crescimento econômico, justiça social e um conjunto comum de interesses. Neste artigo, eu reconstruo o alerta de John Dewey contra oligarcas que usam a padronização para controlar as escolas, bem como o seu argumento de que a democracia requer autonomia do estudante, professor e da comunidade. O artigo argumenta que a iniciativa do Common Core State Standards tem sido uma política de cima para baixo, que visa preparar as crianças para a economia em vez de prepará-las para a democracia e para o futuro previsível, e que as elites econômicas tendem a dominar os esforços para criar padrões nacionais de educação. Na conclusão, eu produzo um argumento pragmático a favor do controle local da educação e me oponho a que as democracias precisem de padrões educacionais nacionais para assegurar a equidade racial. “

Baixe aqui direto da página do autor.

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Uruguay: privatização avança

Central sindical uruguaia conclamou a uma paralisação de 24 horas contra a privatização da educação naquele país. A paralisação é contra o anúncio do plano de privatização por meio de PPP feito pelo governo. Os sindicatos advertiram que o projeto de PPP ainda que se refira agora à construção de escolas e terceirização de atividades não pedagógicas, no momento seguinte, conduzirá à privatização também da direção pedagógica das escolas. Algo semelhante está sendo feito no Estado de Mato Grosso também.

Los gremios advierten que el plan de financiar obras con Participación Público Privada (PPP), esconde un proyecto para legar la administración de los centros educativos “a empresas privadas, como pasó en España”, pese a que según informó la Administración Nacional de Educación Pública (ANEP) esto no será así.

El proyecto, para el cual se están redactando los pliegos de licitación, incluye la construcción de 165 nuevos centros de enseñanza, que se planea estén prontos para 2019, antes de finalizar el gobierno de Tabaré Vázquez.

El director de Infraestructura de la ANEP, Mario Corrales, dijo días atrás a El País que la ganancia de los inversores está en encargarse durante 20 años de las tareas de mantenimiento, seguridad y limpieza de cada uno de los centros construidos. En un momento se manejó la posibilidad de que también se hagan cargo de la comida de los estudiantes, pero esto fue descartado. Los pliegos licitatorios establecen, además, que luego de estas dos décadas las construcciones deben devolverse “como nuevas”, según dijo Corrales.

Pero la CSEU planteó un panorama distinto de cómo se financiarán estas obras. Advirtieron que además de que las empresas se harán cargo de estos servicios, recibirán todos los años un dinero por parte del gobierno que será mayor al precio de las obras. También sostuvieron que la idea es luego “privatizar también la dirección pedagógica” de cada una de las instituciones.”

Leia mais aqui.

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A MP das “desculpas amarelas” ou o “roto que justifica o rasgado”

Hélio Schwartsman, em sua coluna na Folha, tenta salvar o que restou da MP 746 do ensino médio. Mas, a argumentação é um recurso linguístico vazio que só consegue se sustentar a custo de comparar-se com o indevido. Aliás, esta tem sido a estratégia quase que geral na defesa da indefensável MP – por exemplo, a argumentação de que “era preciso fazer alguma coisa ante o tamanho do caos no ensino médio”.

Este tipo de argumentação desvia o debate sobre a qualidade da proposta da MP e põe em relevo que a MP em si, não tem argumentos técnicos para se defender: qualquer coisa ante o “caos” está automaticamente justificada, não importando as consequências. Algo como uma “roleta russa” desesperada ou melhor ainda, como o relatório americano “A nation at risk” que descreveu o caos na educação americana e serviu para passar as ideias dos reformadores empresariais da educação naquele país.

No caso Hélio, a argumentação não foge à regra.

“É exagerada a celeuma que estão fazendo com a suposta retirada da educação física e das aulas de artes do ensino médio. Em primeiro lugar, mesmo que essas disciplinas venham de fato a deixar de ser obrigatórias, isso está bem longe de significar uma supressão. (…)  Como não dá para ocupar toda a grade só com as três obrigatórias, ele inevitavelmente teria de preenchê-la com outras disciplinas. Aqui, mesmo sem bola de cristal eu arriscaria afirmar que educação física e artes permaneceriam entre as favoritas.”

Ora, mesmo que isso ocorra, as disciplinas ficam agora na dependência da “boa vontade” dos sistemas de ensino, que estão sob pressão para apoiar a formação de mão de obra para as empresas da vizinhança. Não é preciso muita argumentação para se perceber a diferença. É dar um “prêmio de consolação” a estas disciplinas por terem perdido o status de obrigatórias. A formação da criatividade e da criticidade (e do próprio desenvolvimento físico da criança) não é uma questão optativa – é uma necessidade do mundo moderno  (para todos) e de uma teoria da formação humana integral.

Outra argumentação “amarela”:

“No mérito, é bastante consensual a ideia de que é necessário flexibilizar o ensino médio. O problema é que ainda não surgiu um gênio da matemática que explique como fazê-lo mantendo as 13 disciplinas hoje obrigatórias nessa condição.”

A argumentação assume a premissa da “flexibilização”, sem discutir. Consensual entre quem? Virou axioma, flexibilizar. Quem disse que flexibilizar é a melhor forma de melhorar o ensino médio. Como já foi dito, este nível de formação ainda é “educação básica” e portanto, não é hora de antecipar a preparação profissional a partir de supostas motivações profissionais dos estudantes que no caso das camadas populares é mais pressão para resolver problemas financeiros ou de consumo.

A questão não é numérica: 13 disciplinas. Há outras formas de se equacionar esta questão debatendo a extensão e localização das disciplinas, pois são três anos de formação. Ter 13 talvez seja tão problemático como reduzir a três obrigatórias, de olho nas avaliações de larga escala, para melhorar o IDEB.

A melhoria das condições motivacionais da escola não passa apenas por fazer aquilo que as crianças gostam, numa etapa que é básica, mas sim, por aquilo que é preciso ser feito e de forma que a escola possa realizar o seu trabalho motivando os seus estudantes. Isso inclui bons professores (e não notório saber), infraestrutura, laboratórios, gabinetes de trabalho, condições para estudo do meio, quadras, gabinetes de artes, visitas programadas etc., e sobretudo, maior participação dos estudantes na vida da escola, na condução do dia a dia da escola (e não na mera escolha de disciplinas). Hoje eles estão segregados das decisões. Sem isso, a flexibilização será um mero tapa-buraco para atender exigências da demanda empresarial por mão-de-obra destinada a reduzir o salário médio da força de trabalho. Agora, tudo isso é incompatível com cortar gastos em educação.

E finalmente a derradeira tentativa do colunista:

“Também me parece despropositada a grita em torno da possibilidade de o aluno escolher parte das cadeiras que cursará. Não faz muito sentido dizer que ele não está pronto para decidir sua área de concentração, se lembrarmos que, em menos de dois anos, vai ter de optar pelo curso universitário que, em princípio, definirá todo o seu futuro profissional.”

Pois é. A comparação é indevida, pois exigir definições lá na universidade também está errado. Muitas propostas de organização das universidades estão lidando criticamente com esta exigência precoce de optar por uma profissão, no início da entrada do aluno na universidade, e criando formas de integração ou de mudanças internas no percurso do aluno. Novamente, a argumentação recorre ao “roto” para justificar o “rasgado”.

De fato, só concordo mesmo é com o final do texto e assim mesmo com um reparo:

“É verdade que o governo Temer colhe o que semeou quando resolveu propor uma reforma dessa natureza por medida provisória. Fica parecendo mesmo que quer impor seus planos goela abaixo da sociedade.”

O reparo é o seguinte: não é que “fica parecendo que [ele] quer impor”. Ele quer mesmo impor, encerrar o debate pela via da MP e fazer reforma educacional com texto de MP, quando no mínimo se esperaria uma proposta técnica formal, bem escrita e divulgada para debate, como se faz “internacionalmente”. Ao invés disso o MEC divulga textos com perguntas e respostas.

Para completar, Temer tem o péssimo hábito de desdenhar dos opositores. Agora, converteu a MP do atraso em “ousadia” e os que discordam dela em meras “vozes dissonantes”, certamente, algo como os “40 que protestam na paulista”.

Temer confunde “ousadia” com “improviso” e “atropelo”. Nada mudou em Brasília, continuamos vítimas da política rasteira e apressada que quer posicionar-se no tabuleiro das próximas eleições presidenciais: a disputa está instalada e é preciso chegar lá com a cesta cheia de “realizações”, não importa a que preço e com quais consequências para o futuro do país.

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JEDUCA entrevista Secretário sobre a MP 746

Assista aqui uma longa entrevista com o Secretário da Educação Básica do MEC sobre a MP 746 promovida pela Associação de Jornalistas de Educação – JEDUCA.

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Luciano Mendes: o “catecismo” da MP do MEC

Luciano Mendes comenta dois documentos distribuídos pelo MEC para ajudar os Estados a interpretar a MP 746.

“O problema, dentre outros, é que, por melhor elaborado que seja (e esse não é o caso do Catecismo do MEC sobre a MP), o catecismo não opera milagres. E essa seria a única fórmula capaz de salvar a MP do descrédito e extirpar os seus defeitos de nascimento. Mas, infelizmente, muitas pessoas do MEC parecem acreditar em milagres desse e de outros tipos!”

Leia mais aqui e baixe os documentos do MEC também.

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Marise Ramos analisa a MP do ensino médio

No último dia 22 de setembro, o governo publicou a Medida Provisória 746, que modifica o Ensino Médio no país. Desde o primeiro momento, a medida gerou críticas contundentes de organizações e pesquisadores da educação. Nesta entrevista, a professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Marise Ramos, analisa a medida ponto a ponto e explica porque a reforma apresentada pelo governo nem de longe resolve a situação do ensino médio brasileiro, pelo contrário, reforça as desigualdades e relega a maior parte dos jovens uma formação mínima e precarizada.

Leia aqui.

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Link para videoconferência sobre MP 746

Clique abaixo no link a partir das 14 horas de 30 de setembro.

https://www.youtube.com/watch?v=FpPJYh4n7tw

A fim de mobilizar os educadores e sindicatos filiados, a comunidade escolar e a sociedade em geral, a CNTE e a APEOESP/SP realizarão uma webconferência sobre a reforma do ensino médio no dia 30 de setembro, das 14h às 17h, no Clube Homs, situado na Av. Paulista, 735, Bela Vista, São Paulo.

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Reaprender, com a direita, a luta de classes?

No Fórum Econômico Mundial discute-se o “futuro do trabalho” e se chega à conclusão de que:

“Nada será como antes no mundo das carreiras. Até 2020, 35% das habilidades mais procuradas hoje na maioria das ocupações vão mudar completamente por conta de avanços tecnológicos e fatores socioeconômicos, segundo o relatório “O Futuro do Trabalho”, do Fórum Econômico Mundial.

Entre as capacidades profissionais que serão mais buscadas nos próximos anos estão a inteligência emocional, o pensamento crítico, a empatia e a criatividade, é claro.”

Mais ainda:

“A economia criativa – entendida como mix de cultura, artes, economia e tecnologia ou, ainda, como o conjunto de atividades capazes de gerar mais valor agregado a um produto ou serviço – está em expansão rápida.”

Leia mais aqui.

Poderíamos chegar facilmente à conclusão de que a MP 746 do ensino médio está na contramão desta tendência moderna. Mas, isso é apenas parte da questão. Esta necessidade de mais “pessoal criativo e crítico” só aparentemente está em contradição com o que o governo Temer está fazendo com o ensino médio, ao declarar optativas disciplinas como artes, filosofia, sociologia entre outras disciplinas.

A razão é que para esta lógica da “economia criativa” é prudente que apenas uma parte da força de trabalho seja criativa e crítica. Tais habilidades devem ser distribuídas moderadamente e sob o mais estrito controle ideológico. Os demais, devem ser mesmo bons e obedientes “seguidores” – possuidores, no máximo, de “habilidades socioemocionais” adequadas, entre elas, a capacidade de submeter-se. Além disso, a criatividade, em especial, estará disponível a “preços módicos” nas grandes cadeias produtivas internacionais que monopolizam a produção de conhecimento, tal como indica o Fórum Econômico Mundial.

É isso que a MP impõe: formar uma pequena elite criativa (de fato mais adaptativa do que criativa) e uma grande massa emburrecida com capacidade suficiente apenas para seguir ordens e “fazer” bem feito aquilo que outros criarem. Uma atualização do “exército de reserva” do qual o capital faz uso para reduzir salário médio, exército que agora está imerso no desemprego estrutural, mas que tem que estar sempre a postos quando é chamado – devidamente certificado pelo ENEM (no âmbito nacional) e pelo PISA (no âmbito internacional).

É assim que Mangabeira Unger também via a sua “pátria educadora” e propunha retirar os “melhores” do fluxo normal do ensino médio colocando-os nas Escolas Federais Anísio Teixeira de ensino médio. O mesmo é feito agora com as trilhas de progressão diferenciadas da MP: cria-se uma espécie de “fast track”, uma linha rápida de evolução para uma pequena elite criativa e crítica (sob controle ideológico da escola sem partido) que cresce livre da companhia indesejável da massa “atrasada”.

É o método direto de alinhamento da escola às necessidades do mundo do trabalho aprofundando a dualidade do sistema educacional e alimentando a divisão do trabalho, acobertando tudo isso no discurso de “atender às necessidades e interesses dos próprios jovens que acham a escola aborrecida”.

Condenar a maioria dos jovens a trilhas escolares que sejam um local de vivência permanente do trabalho produtivo (tendo no nosso caso como trilha alternativa a irrelevância de profissões menos valorizadas ou monótonas) e ainda mais com especialização prévia, como diria Krupskaya, teórica russa, é “tirar o nervo vital da escola”.

Todos estes acontecimentos recentes devem nos lembrar que durante os últimos anos, parte da esquerda aderiu à tese do fim da luta de classes. Ironicamente, a esquerda agora está tendo que reaprender rapidamente com a direita como se faz luta de classes. E é luta de gente grande. Alimentando ilusões, a esquerda se desarmou com noções equivocadas da “teoria das brechas” dita gramsciana, que para alguns não era senão uma forma elegante de fugir da noção de luta de classes, para um “lugar social confortável”. Deixou de cuidar da articulação com os movimentos sociais.

Pois bem, ei-la de novo à nossa frente. Posta agora pela direita radical.

Juntamente com termos descartado antecipadamente a luta de classes, caímos também no “conto” bem contado pela direita do fim da divisão entre “direita e esquerda”. Alguns chegaram até mesmo a propor o “fim da história”. Nada disso existiria mais. Sem contar a versão “cristã” de que os avanços se propagariam pelas micro-lutas cotidianas de cada um, ou ainda pelas “descontinuidades discursivas”. Daí a surpresa de muitos com a recente “polarização” sob comando da direita.

Tudo isso nos desarmou. Talvez o grande ensinamento da era Lula seja que o ganha-ganha que ele exercitou no âmbito sindical, não é transferível para o âmbito da sociedade onde o bem-estar de uma classe que ganha milhões de dólares (por hora) como rentista, se beneficia da exploração de quem vive de salário e de alguns “benefícios” que, segundo os primeiros, estão agora “quebrando” os países. Eis o fundamento da luta de classes que não pode ser “cancelado” por um ato de vontade dos governantes ou líderes políticos. Quando postergado, cobra juros e correção monetária.

Nos últimos anos, a direita está fazendo aquilo que se dizia que não funcionava mais: está mobilizando suas bases mais jovens para promover uma feroz luta de classes e firmar seu controle político e ideológico sobre os variados aparatos de controle social (do governo até as escolas). A privatização é uma das armas de seu arsenal: ao mesmo tempo que abre mercado para os processos de financeirização que penetram em todas as áreas da economia, constitui um poderoso instrumento de controle político e ideológico da gestão e do processo pedagógico.

Fundações e institutos privados dedicam-se a financiar a ida de jovens para as mecas liberais onde são preparados e formados para defender as ideias do livre-mercado. A esquerda está surpresa. Antigamente, ela foi acusada de mandar seus jovens estudar em Cuba ou na Rússia. Hoje a direita forma seus líderes políticos em países de tradição de livre mercado e os devolve para a luta política e ideológica, para incrementar a luta de classes.

Talvez a direita esteja presciente de que se aproxima um período de resolução de conflitos por métodos de alto poder destrutivo em escala mundial e que, para tal, necessita ampliar a qualquer custo seu controle econômico, militar, político e ideológico na maior parte do mundo, a partir de uma geopolítica de guerra. Desde a década de 1970, a hegemonia cambaleante dos Estados Unidos agoniza produzindo efeitos ao redor do mundo. A financeirização atingiu seu mais alto e possivelmente derradeiro grau, com os episódios de 2008 – a quebradeira geral. Mais financeirização, mais degradação. O sistema capitalista emite grau elevado de alerta. Os defensores da “destruição criativa” estão a postos.

Uma vez ouvi de um líder de esquerda, que devíamos aprender com a direita a fazer eleições. Penso que talvez possa dizer, então, que, agora, devemos reaprender com a mesma direita a fazer luta de classes. E antes que algum promotor queira me processar por apologia à violência, em tempos de golpe e insegurança jurídica, nunca está demais dizer que deixei em aberto as formas pelas quais se deve dar esta luta de classes.

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