Meritocracia fracassa em Nova York

Postado originalmente na Uol em 1/04/2011

Tal como em São Paulo, na Cidade de Nova York a meritocracia também não funciona. O sistema de Nova York que inspirou o sistema aplicado em São Paulo foi interrompido. Curiosamente, sobre isso, os reformadores empresariais brasileiros se calam.

Programa de remuneração da equipe escola na Cidade de Nova York não apresenta resultados

Por Stephen Sawchuk em 9 de março de 2011

O agora extinto Programa de remuneração da equipe escolar por desempenho da Cidade de New York não aumenta o aprendizado do aluno de forma estatisticamente significativa, segundo um novo estudo de Harvard do professor Roland Fryer, economista da Universidade. E a grande maioria das escolas decidiu atribuir bónus a todos os professores por igual, ao invés de usar algum conjunto de critérios para reconhecer as contribuições de docentes específicos.

O estudo analisa os três anos do programa que funcionou de 2007 a 2010. Ele usa um experimento aleatório, com cerca de 200 escolas, comparando os resultados de um grupo de “tratamento” das escolas participantes do programa com os de um grupo “controle” que não implementou o programa.

Continue lendo em (inglês):

http://blogs.edweek.org/edweek/teacherbeat/2011/03/nyc_schoolwide_pay_program_sho.html
Publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Meritocracia: estudo internacional tem erros metodológicos

Postado originalmente na Uol em 1/04/2011

Estudo internacional baseado nos dados do PISA procurando mostrar que os países que usam meritocracia – pagamento de bônus – obtêm melhores notas em leitura e matemática, tem erros metodológicos. A OCDE, como mostramos em postagem anterior, está em Santa Catarina, recomendando este caminho.

Estudo Internacional sobre remuneração por mérito é insuficiente para orientar política

http://nepc.colorado.edu

Boulder, CO (31 de março de 2011)  Estudo entre países sobre pagamento de professores por desempenho, um relatório recentemente publicado pelo Programa de Educação Política e Governação (PEPG) em Harvard, afirma que os estudantes de nações onde os professores são pagos por “mérito” têm maior pontuação em um teste de alcance internacional. Matthias von Davier, cientista principal de pesquisa do Education Testing Service, analisou o relatório PEPG. Von Davier descobriu que as análises e interpretações feitas (também publicadas em uma forma abreviada na revista Education Next) se recusa a ouvir as advertências do próprio relatório, e tem muitas limitações para poder fornecer qualquer orientação política útil.

A revisão é publicada pela National Education Police Center, sediado na Universidade do Colorado em Boulder na Faculdade de Educação.

O estudo de autoria de Ludger Woessmann da Universidade de Munique, afirma que naquelas nações onde os professores são pagos com base no desempenho do aluno ou outra medida baseada no desempenho, os estudantes têm maior nota nos testes de leitura e matemática, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), um exame internacional com estudantes de 15 anos de idade.

Woessmann baseia as conclusões sobre uma série de análises de regressão dos escores PISA. Os dados são analisados a nível do país. Como existem apenas 28 pontos de dados (nações), na análise, o pequeno tamanho da amostra “exige extrema cautela na interpretação”, escreve von Davier. Basta excluir ou incluir um único país na análise para “resultar em grandes alterações no tamanho das relações relatadas.” Isto é, a presença de remuneração por desempenho pode ou não ter um efeito sobre os escores do PISA, mas esse tipo de estudo pode fazer pouco para responder a esta questão.

Von Davier observa que, “embora o autor enumere várias ressalvas, as suas conclusões gerais não atendem a estes cuidados.” As advertências são cruciais para a compreensão da utilidade dos resultados do estudo. Por exemplo, diferenças na maneira como diversos países realizar o pagamento com base no desempenho não são devidamente considerados. Talvez um tipo de abordagem seja benéfico, enquanto outro seja prejudicial. Além disso, variações na duração com que um país adotou este sistema de remuneração face a outros não são abordados. Um sistema que não foi implementado o tempo suficiente para ter um forte efeito é tratado igualmente a um que está em vigor por muito mais tempo.

Von Davier aponta que as diferenças entre as nações “, poderiam ser devidas a uma série de fatores”, certamente existem enormes diferenças entre países e entre os respectivos sistemas de ensino. Então, trazer à tona diferenças nas pontuações do PISA e, em seguida, atribuir essas diferenças à presença ou ausência de um sistema de pagamento por mérito, é problemático.

Como resultado das limitações múltiplas nos dados do relatório e dos problemas nos métodos analíticos utilizados, von Davier conclui, que são necessários mais estudos cuidadosos e aprofundados acerca das diferenças entre os sistemas educacionais antes de fazermos comparações internacionais para informar substancialmente nossas próprias decisões sobre pagamento por mérito.

A revisão de Matthias von Davier  esta em:

http://nepc.colorado.edu/thinktank/review-pisa-performance-pay

O estudo internacional de  Woessmann Ludger  está em:

http://www.hks.harvard.edu/pepg/MeritPayPapers/Woessmann_10-11.pdf

Publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Postagens antigas da UOL | Com a tag , | Deixe um comentário

Na mira da privatização

Postado originalmente na Uol em 1/04/2011

“O governo federal “apronta” um decreto para regulamentar a Lei 8.080, de 1990, a que criou o Sistema Único de Saúde. Não tenho a íntegra do documento, que ao que se sabe a presidenta Dilma Rousseff deve assinar no dia 7 de abril – se nada ocorrer até lá. Espero que “algo” ocorra até lá porque, pelo trecho que circula na rede, com observações do conselheiro Francisco Júnior, a abertura para a terceirização e a privatização está configurada. Até porque o PLP 92/2007, que permite a criação de fundações estatais de direito privado em várias áreas (saúde, cultura, esportes, ciência e tecnologia, meio ambiente) jaz esquecido no Congresso devido à maciça reação contrária das entidades de trabalhadores, especialmente do SUS. Estamos vivendo momento grave de definição de rumos do SUS. Os sinais não são bons.”

Texto em: http://www.teialivre.com.br/colaborativo/publish/sus-na-teia/Um-decret-o-para-ajeitar-o-SUS.shtml

Primeiro foi a privatização dos aeroportos, agora poderá ser a Saúde entre outras. E depois? …

Nas fundações estatais de direito privado, a forma de contrato é CLT e não estatutária.

(Esta postagem contou com a colaboração de Milta Torres.)

Publicado em Postagens antigas da UOL, Privatização | Deixe um comentário

Os milagres dos reformadores empresariais da educação

Postado originalmente na Uol em 5/04/2011

O milagre do Texas revisitado

By Diane Ravitch

05 de abril de 2011

Cara Debora, tenho certeza que você lembra que quando a lei No Child Left Behind estava em discussão, houve uma grande quantidade de publicidade sobre o “Milagre do Texas.” Lembro-me de reportagens em jornais sobre as maravilhas que tinham sido realizadas pela estratégia simples de testar e responsabilizar.

Logo após a eleição de George W. Bush como presidente, soubemos que ele era o arquiteto do milagre do Texas. O milagre ocorreu devido a essa estratégia: o estado testava cada criança a cada ano entre as séries 3-8; desagregava suas pontuações por raça, etnia e outras características, publicava a pontuação e, em seguida, premiava escolas onde as pontuações subiram e envergonhava as escolas onde não havia melhora. Mirabile dictu, funciona! Ou foi o que uma imprensa crédula nos disse. Os resultados dos testes subiam, subiam as taxas de formandos, e a distância entre desempenhos começava a diminuir. Alguns estudiosos advertiram que o milagre era uma ilusão.

Continue lendo (em inglês):

http://blogs.edweek.org/edweek/Bridging-Differences/2011/04/the_texas_miracle_revisited.html

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Com a tag , , | Deixe um comentário

Alô… Alô… lideranças educacionais

Postado originalmente na Uol em 6/04/2011

Foram apensados mais dois projetos, ambos de igual teor, aos que já tramitam sob o guarda chuva da lei de responsabilidade educacional, o PL 247/2011, como segue:

Projeto de Lei 413/2011 de Gastão Vieira PMDB-MA

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/840404.pdf

Projeto de Lei 450/2011 de Thiago Peixoto PMDB-GO

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/841096.pdf

Eles introduzem o controle da educação e repasse de verbas em função do desempenho acadêmico de alunos. Estão baseadas na equivocada crença de que o único fator que afeta a melhoria do ensino é a reponsabilidade do gestor. O gestor vai adorar repassar esta reponsabilidade para professores e alunos, nos Estados e Municípios, com legislação complementar que regule a distribuição de bônus, privatização por contratos de gestão e outras mazelas presentes na experiência dos países que seguiram este caminho. Educação de qualidade não se faz por decreto. No fundo estas medidas vão beneficiar apenas a indústria educacional – de avaliação e tutoria. Como dissemos em postagem anterior, a CNTE e o MEC abriram as portas do inferno, incentivando uma lei de responsabilidade educacional.

Transcrevo abaixo uma parte:

“Art. 2º A qualidade do ensino fundamental e médio será periodicamente aferida pelo processo nacional de avaliação do rendimento escolar, previsto na lei de diretrizes e bases da educação nacional, conduzido pela União.

§ 1º A cada avaliação nacional realizada, as médias de resultados observadas em cada Unidade da Federação deverão ser superiores às verificadas na avaliação anterior, devendo para tanto ser desenvolvidas ações específicas, com a necessária alocação de recursos financeiros em volume compatível com os esforços a serem empreendidos em cada sistema e rede pública de ensino.

§ 2º Enquanto houver estudantes com desempenho inferior ao mínimo aceitável, definido em cada aplicação periódica dos instrumentos de avaliação nacional, as Unidades da Federação deverão desenvolver ações específicas, com a necessária destinação de recursos financeiros, compatível com as necessidades de superação das causas que estejam determinando as

insuficiências observadas em seus sistemas e redes públicas de ensino.

§ 3º No caso em que não haja elevação ou ocorra redução nas médias ou ainda aumento na proporção de estudantes com desempenho inferior ao mínimo aceitável, quando comparados os resultados de uma aplicação periódica dos instrumentos de avaliação nacional em relação à anterior, a Unidade da Federação deverá desenvolver ações específicas para a recuperação do nível de desempenho, com alocação adicional de recursos financeiros por estudante ao ano, em relação à observada no ano em que se deu a última avaliação, até que ocorra nova avaliação.

§ 4º As Unidades da Federação manterão estratégias específicas para prevenção e controle da repetência e da evasão escolar.

§ 5º A cada dois anos, as taxas de repetência e de evasão no ensino fundamental e no ensino médio, deverão ser menores que as respectivas taxas médias observadas no biênio anterior, em cada Unidade da Federação.

§ 6º A não observação do disposto no § 5º implicará a adoção de providências idênticas às previstas no § 3º deste artigo.

§ 7º As ações mencionadas nos §§ 1º a 3º deste artigo, bem como os recursos a elas destinados e a sua execução constarão de demonstrativos específicos, anualmente divulgados pelas Unidades da Federação.

Art. 3º As transferências voluntárias da União às Unidades Federadas, destinadas à manutenção e desenvolvimento do ensino, obedecerão a critérios de distribuição de recursos diretamente proporcionais:

I – aos esforços efetivamente realizados, correspondentes às necessidades de melhoria de desempenho observadas nos termos do art. 1º;

II – às melhorias de desempenho efetivamente evidenciadas pelo processo de avaliação nacional.

Parágrafo único. Excetuam-se do disposto neste artigo as transferências voluntárias que, por força de seu caráter universal, devam obedecer exclusivamente ao critério de distribuição pelo número de alunos.

Art. 4º O descumprimento do disposto nesta Lei caracteriza-se como:

I – crime de responsabilidade por violação patente contra o exercício de direitos individuais e sociais, nos termos do art. 7º, número 9, da Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950;

II – infração político-administrativa por deixar de defender direitos e interesses do Município, nos termos do art. 4º, VIII, do Decreto-lei nº201, de 27 de fevereiro de 1967;

III – ato de improbidade administrativa, especialmente nos termos do art. 11, II, da Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992.

Parágrafo único. Na hipótese de infrações sujeitas a penalidades de multa ou

com prazo definido, os valores e prazos serão aplicados em dobro em relação ao estabelecido na respectiva legislação.

Art. 5º O descumprimento do disposto nesta Lei ensejará a suspensão das transferências voluntárias da União ao Estado ou ao Município, relativas à manutenção e desenvolvimento do ensino e aos programas suplementares referidos no art. 212 da Constituição Federal, incluídas suas extensões a outras etapas da educação básica, enquanto perdurarem as irregularidades.

Art. 6º As Unidades da Federação terão o prazo de cinco anos, a contar da publicação desta Lei, para ajustar seus sistemas e suas redes públicas de ensino ao disposto nos incisos VII a IX do art. 1º.”

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

A lei de responsabilidade educacional americana

Postado originalmente na Uol em 6/04/2011

A lei de responsabilidade educacional americana No Child Left Behind, vista por quem a está experimentando.

Começou com o ‘No Child Left Behind’

By Diane Ravitch

New York Times  – 6 de março de 2011

É uma queixa antiga, ecoou através de toda a história americana: os professores não recebem o respeito que merecem. Foi um longo caminho desde a antiga denúncia até a atual campanha de difamação dirigida em nossa nação a mais de três milhões de professores.

As raízes desta campanha de difamação podem ser atribuídas à lei federal de 2002 chamada No Child Left Behind. Essa lei exige que todos os alunos devem estar “proficientes” nos testes estaduais em 2014, uma meta jamais atingida por qualquer nação ou estado. Qualquer escola que não consiga atingir esse objetivo utópico acabará por ser declarada “mal sucedida”, com conseqüências terríveis, inclusive a demissão de pessoal e fechamento da escola.

O pressuposto por trás dessa abordagem punitiva é que o desempenho deficiente do estudante é causado por professores e diretores incompetentes, apesar de décadas de ciência social mostrarem que a renda familiar é o preditor mais confiável dos resultados de um teste.

Continue lendo (em inglês):

http://www.nytimes.com/roomfordebate/2011/03/06/why-blame-the-teachers/it-started-with-no-child-left-behind

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Com a tag , | Deixe um comentário

Escolas charters em Pernambuco

Postado originalmente na Uol em 7/04/2011

Com a colaboração de Telma Mildner, indicamos abaixo alguns links sobre as Escolas Charters em Pernambuco, gerenciadas por contrato de gestão. As escolas charters foram concebidas ou copiadas em Pernambuco pela Secretaria de Educação Estadual, no nível do Ensino Médio, juntamente com a ICE (Instituto de Co-responsabilidade pela Educação) e com “apoio” do Bird e outros, entre 2004 e 2007. A partir de 2007 foi “repassada” para o ICE que, com “apoio internacional” – implementa as charters naquele nível de ensino. Isso pode ser visto em uma entrevista da Fundação ITAU à Folha de São Paulo, que foi posteriormente reproduzida em vários sites:

http://www.icebrasil.org.br/wordpress/?p=1006

O ICE é hoje o implantador oficial das Escolas Charters em Pernambuco nas escolas estaduais de ensino médio, contando com a parceria de outros como a Fundação ITAU e Fundações Estrangeiras.

http://www.icebrasil.org.br/wordpress/?page_id=232

O Estado de Pernambuco – pioneiro – de repente “desaparece” e em seu site nada se encontra sobre as escolas charters, sobre seu projeto inicial/original, o período de implementação, etc.

Outras fontes:

http://www.icebrasil.org.br/wordpress/?page_id=13.

http://romanticos-conspiradores.ning.com/profiles/blogs/a-escola-que-esta-virando-um

http://pt.braudel.org.br/publicacoes/livros/modelo-de-escola-charter/

No site http://www.icebrasil.org.br/wordpress/wp-content/uploads/ice.pdf encontra-se uma publicação do ICE, escrita por Marcos Magalhães “A juventude brasileira ganha uma nova escola do ensino médio: Pernambuco cria, experimenta e aprova.”

Infelizmente, não localizamos nenhuma avaliação independente da experiência de Pernambuco sobre as Escolas Charters.

Publicado em Assuntos gerais, Escolas Charters, Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Wellington, Rio de janeiro

Postado originalmente na Uol em 8/04/2011

Há oito anos, a propósito de um massacre em uma escola alemã, escrevi este artigo e enviei para a Folha de São Paulo. Foi recusado. Apesar das diferenças entre os casos, a questão de fundo, permanece a mesma. Na Folha de São Paulo de hoje, (8-04-2011) Eliane Castanhêde escreve: “É preciso tentar entender o que se passa nas escolas brasileiras, que tipos de violência e humilhação Wellington sofreu vida afora e como a família adotiva e as pessoas próximas não viram se aproximar o tsunami de dor, desamparo e violência.” Igualmente, é preciso que nos questionemos sobre o projeto que temos a oferecer para a juventude. Hoje, é passar no ENEM, pouco para uma juventude que precisa, além de português e matemática, ser formada afetiva, criativa e emocionalmente. Como diz Eliane Castanhêde: “De nada adianta, porém, reduzir a tragédia ao drama pessoal e aos demônios de Wellington. (…) Há muito mais em jogo.”

 AOS “ROBERTs” COM CARINHO…

 Luiz Carlos de Freitas (escrito em 2002)

“Robert, já não faz sentido, mas atire em mim…” Estas teriam sido as palavras de um professor que tentava impedir que o ex-aluno Robert Steinhaeuser (19), expulso da escola em fevereiro, continuasse a fuzilar professores e alunos nesta mesma escola alemã esta semana. O fato chocou mais pela extensão dos atingidos do que pela sua existência, pois repete o acontecido em outros países como Japão e Estados Unidos onde também alunos revoltados resolveram “fazer justiça” com as próprias mãos. O assunto é polêmico e delicado. Certamente comporta vários ângulos de análise.

O que quero destacar aqui, sem prejuízo de outros aspectos, é que o motivo da revolta de Robert esteve, pelo menos em parte, ligado à sua expulsão da escola por faltas não justificadas – e não teria ocorrido por notas. Expulso, não poderia fazer o Abitur – exame que permite acesso a níveis superiores de educação. Com isso, o aluno sentiu-se com seus horizontes de vida limitados e teria reagido de forma drástica matando de sala em sala 17 pessoas, entre elas 13 dos 53 professores da escola (incluída a Vice-Diretora).

O fato deveria reacender uma discussão importante em relação à escola: para que estamos formando nossos estudantes? Ao contrário disso, ele está ganhando conotação policial e de controle de porte de armas… Sintoma de que algo não anda bem tanto na escola, como na nossa sociedade contemporânea.

O acontecido deve ser um alerta. Estamos apertando o cerco sobre a escola, sobre os professores e sobre os alunos. Os processos de reestruturação produtiva assumem a escola como um instrumento de facilitação da acumulação de riqueza e com isso imprimem novas exigências. Governos, assumindo esta tarefa, criam sistemas inteiros de “avaliação” que pretendem “controlar” a qualidade da educação esperada na “porta da fábrica”. Mas com que finalidade estamos formando? Para que estamos avaliando? Insistimos na verificação do domínio de português e matemática, mas e os outros aspectos da formação humana? Os pais pressionam, igualmente, para que as escolas instruam – querem que seus filhos passem nos vestibulares. Mas e a formação? Estamos correndo o risco de criar “maníacos do parque” bem instruídos em português e matemática. Processos de avaliação brincam com o futuro dos alunos num abrir e fechar de portas frenético ao sabor do mercado.

Há o lado moral. Vão dizer que estamos defendendo o assassinato como forma de reação. Mas é claro que isto é uma maneira de desconversar e sair do tema. A questão está ligada aos fins da formação humana, ao papel da escola como formadora e não apenas como instrutora. Não basta ensinar bem português e matemática é preciso, além disso, formar valores. Robert certamente aprendeu muitas coisas na escola, mas teve que ser alertado por um professor sobrevivente, em meio a uma situação dramática, de que não fazia sentido continuar matando. Trancou-se em uma sala e em seguida suicidou-se. A vida dos outros e a sua, igualmente, não tinham sentido para ele. A tentativa de ensinar valores a Robert talvez tenha chegado muito tarde.

Robert é uma exceção – dirão. Será? Bem, mesmo assim, esta exceção custou a vida de 17 pessoas. O maior massacre no pós-guerra da Alemanha. Mas como explicar a expulsão por faltas em um aluno com aproveitamento? Como explicar a própria expulsão em si como forma de educação – independentemente do desempenho?

Fico imaginando o drama de Robert. Sou solidário com ele – ainda que não com a forma usada. Os “Roberts” são produzidos por uma estrutura escolar e social que busca a excelência da instrução e se esquece de investir na excelência da formação humana. Talvez estas pessoas todas não tenham morrido em vão – depende de levarmos a sério o acontecimento e fazermos uma profunda reflexão sobre o que estamos querendo da escola – governo, pais, professores e alunos. Transformar o problema em uma questão de porte de armas não agrega nada. Como disse sabiamente o Chanceler alemão Gerhard Schroeder, a propósito do caso: “Eu acho que todos nós precisamos de tempo para superarmos isto em nossas mentes. Há questões aqui que a sociedade tem que responder como um todo”. Haverá tempo ou já estamos na barbárie?

Publicado em Assuntos gerais, Militarização de escolas, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Chile: comerciais em livros didáticos

Postado originalmente na Uol em 9/04/2011

Governo chileno aprova anúncios publicitários em livros didáticos

  08/04/2011 – 17:46 | João Paulo Charleaux | Santiago

Entre o abecedário e a tabuada, estudantes menores de 12 anos estão recebendo nas escolas privadas do Chile um bombardeio de propagandas feitas por empresas multinacionais, como a Claro, do setor de telefonia, a Monarch, fabricante de bicicletas, e a Nestlé, gigante mundial produtora de alimentos.

Os banners, jingles e reproduções de outdoors aparecem entre diálogos de personagens infantis e inseridos em exercícios de leitura em voz alta. As editoras do Chile dizem não receber nada pela propaganda e o Ministério da Educação define o conteúdo como exemplos de textos “autênticos e de circulação nacional”.

Leia a matéria completa aqui.

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Privatização | Deixe um comentário

Frase do dia

Postado originalmente na Uol em 9/04/2011

“Elaborado pelos departamentos de Educação e Serviço Secreto do governo dos Estados Unidos após o atentado de Columbine, o relatório final da “Iniciativa Escolas Seguras”, concluiu ser um engano tentar “perfilar” um atirador em potencial a partir de dados demográficos, sociais, pessoais ou escolares. Nos 37 casos (1997-2000) estudados, por exemplo, a maioria dos assassinos tinha bom desempenho escolar e socialização ampla somente um terço era considerado “solitário”.”

http://oglobo.globo.com/rio/sem-perfil-unico-atiradores-tem-sensacao-de-perda-dao-sinais-de-alerta-2798341

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Educação chilena

Postado originalmente na Uol em 10/04/2011

Para uma visão crítica da educação em Chile veja o link abaixo:

www.opech.cl

Publicado em Assuntos gerais, Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Muitos corpos pelo caminho…

Postado originalmente na Uol em 11/04/2011

Na Folha de SP de hoje (11-4-2011) Ricardo Semler, empresário, reflete sobre educação. Alertado por um estudo da Universidade de Chicago, ele descobriu que o atual formato das escolas não é bom para a juventude. Ótimo, antes tarde do que nunca. Se empresários e economistas dessem ouvidos aos educadores profissionais, poderiam ter percebido isso há mais tempo. O estudo da Universidade de Chicago mostra que 96,7% de tudo que é passado como matéria na escola é esquecido por completo. Era so conversar com os professores nas escolas e isso seria revelado. Mas claro, Chicago é Chicago.

Os estudos sobre avaliação alertam que preparar para os testes que os governos fazem frequentemente para provar sua grande qualidade de ensino, não é o mesmo que ensinar os alunos. Vide os americanos que estão entalados no PISA há 10 anos. Mas a virtude de Semler é fazer a pergunta que os governos temem: “Que escola dita forte ou de elite teria a coragem de reaplicar uma prova de, digamos, biologia, um ano depois, para o mesmo grupo de alunos? Sabe que vai ver nota 2 onte havia uma nota 9 um ano antes”. Pois é. E por que continuamos a testar, testar e testar e a achar que ir bem em testes é ter uma boa educação? http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb1104201103.htm .

Aliás, hoje a Folha resolveu atirar contra os rankings das universidades. A pergunta é avassaladora: “Quem ranqueia os rankings?”. Um estudo crítico do último ranqueamento das universidades conclui que a USP pode variar entre a 19a. e a 471a. posição na dependência dos critérios que se usem para ranquear. Perfeito. Entretanto, há que se completar que a escolha dos critérios é um fenômeno subjetivo e marcado pelas concepções de quem os escolhe. Esta é a questão. Daí que se tenha argumentado contra o ranqueamento em vários níveis de ensino, pois o que vale para o ranqueamento das Universidades – que desagradou a elite paulista pois a USP fica em má posição -, vale também para o ranqueamento que se faz na Secretaria de Educação deste mesmo Estado para pagar bônus às equipes escolares – procedimento copiado da Cidade de Nova York e abandonado ano passado naquela mesma Cidade. Dezenas de estudos mostram que os ranqueamentos – mesmo os feitos em base a dados acumulados por vários anos e com técnicas de valor agregado sofisticadas – oscilam gerando falsos positivos e falsos negativos. E por que continuamos a ranquear escolas, ranquear professores, alunos, etc…

Não é diferente também o ranqueamento que a CAPES faz dos Cursos de Pós-Graduação. Uma metodologia “porca” que só se mantém porque deve ser critério para ocupar a Presidência da Capes ser autista e nomear CTCs igualmente autistas que auto-proclamem seus procedimentos de avaliação como sendo “de nível mundial” ou ainda melhor. A CAPES jura que tem um sistema de avaliação que é modelo para o mundo. Um dia vamos rir de tudo isso, como estamos rindo hoje do ranqueamento das Universidades. Entretanto, enquanto isso, estas metodologias vão deixando muitos corpos pelo caminho. Corpos da juventude que é levada a crer que esta corrida é o motivo central da vida. Corpos de jovens pesquisadores que acham que se engordarem seus currículos no Lattes, serão considerados bons pesquisadores. Corpos de professores que indignados com a política de envengolhá-los perante a sociedade abandonam a profissão. Corpos de alunos que são desestimulados a prosseguirem seus estudos pois acreditam nos resultados de testes cuja validade não é conhecida nem mesmo por quem os construiu.

Quem sabe um dia os educadores profissionais sejam ouvidos. Claro, não no dia seguinte a episódios como o massacre do Realengo, no Rio.

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL | Com a tag | Deixe um comentário

Se deram conta, mas agora pode ser tarde…

Postado originalmente na Uol em 12/04/2011

O governo retirou do PNE a determinação de que se tenha uma Lei de Responsabilidade Educacional. Certo. Mas, agora pode ser tarde. De fato, esta ação é inócua, pois ela está sendo elaborada, como adverti recentemente neste Blog, em outro lugar do Congresso.

O fato é que, agora, as portas do inferno foram abertas. O MEC já começa a pagar o preço. De nada adiantava dizer que o PNE queria uma lei de responsabilidade educacional se de fato ela pode estar pronta antes mesmo do PNE ser aprovado. Foi o governo que começou tudo isso, mandando separadamente um projeto deste teor para o Congresso, junto com o PNE. Mas a ação do MEC não será suficiente se não retirar igualmente a estratégia 7.3 da meta 7 do PNE que oficializa a vinculação da assistência técnica e financeira da União à obtenção de metas de qualidade intermediárias.

O Movimento Todos pela Educação, que representa os interesses das grandes corporações, já reagiu. Ele quer a Lei. O MEC lavou as mãos e transferiu o problema para o Congresso. Lá, como mostra a reação do Movimento Todos pela Educação, vão incluir o controle por metas acadêmicas e não apenas financeira como queria o MEC. O projeto 450/11 apensado dia 6-04 ao PL 247/11 que trata da Lei de Responsabilidade Educacional tem este objetivo.

Reportagem de hoje do Globo mostra a tergiversação. Argumentam que haverá irresponsabilidade educacional, que não se quer punir desvios de verba e corrupção. Acontece que ninguém é contra o controle financeiro. O que somos contra é a colocação da assistência técnica e financeira da união na dependência de metas do IDEB ou de outro índice. Isso foi feito nos Estados Unidos em 2001, os resultados desastrosos estão lá para serem observados.

O Movimento Todos pela Educação mostra a cara. Diz ele:

“Além de correr o risco de ter tramitação lenta, a LRE, como está no PL 8.039/2010, precisaria de emendas ou de um substitutivo que detalhasse melhor as sanções, afirma Priscila Cruz:

– Ele não detalha pontos como punição. Quem cometer falhas na educação vai ser impedido de se candidatar de novo? Vai sofrer corte de verbas?

O PL também exclui das obrigações relativas à educação “o alcance de metas de qualidade aferidas por institutos oficiais de avaliação”. Isso faria, por exemplo, com que fique de fora o não alcance de boas notas no Ideb.

– Mas, se o aluno não aprende, alguém tem que responder por isso – destaca Priscila. – O atual projeto da Lei de Responsabilidade Educacional está aquém do seu nome.”

http://oglobo.globo.com/educacao/novo-plano-federal-para-setor-de-educacao-exclui-lei-que-pune-gestor-por-mau-uso-de-recursos-2798063

É a visão de que se você punir o gestor, a educação melhora. A visão de que boa educação se faz por decreto. Esta visão punitiva, depois, é repassada, nos Estados e Municípios, para o professor na forma de pagamento por bônus e pressão para que se possa demitir quem não atinge metas acadêmicas. 17 Estados estão preparando legislação para implantar meritocracia baseada em bônus – inclusive com apoio da OCDE. Todas estas medidas já foram testadas nos Estados Unidos. Antes delas eles estavam na média do PISA e depois delas continuam na média do PISA.

A argumentação mistura ao controle de metas acadêmicas o debate da corrupção para justificar a inclusão das duas.

É o que o MEC produziu – agregue-se é claro, apoiado pela CNTE que também quer uma lei de responsabilidade fiscal. Pior: o governo pelo menos disse que era só financeira e não acadêmica, a CNTE nem isso fez.

Vamos deixar bem claro: se o Congresso implantar os falidos processos de responsabilização e meritocracia que os Estados Unidos utilizaram na última década e cujo único objetivo foi destruir o sistema público de educação americano, a responsabilidade será do Mec e do Governo Dilma. Primeiro porque foi o MEC que puxou a questão – com apoio da CNTE, cujas posições atrasadas são de conhecimento público -; segundo porque o Governo Dilma tem maioria no Congresso e poderia, sim, dar um curso diferente à Lei; e terceiro, porque ainda existem instrumentos dentro do PNE que articularão este a uma eventual lei de responsabilidade educacional que o Congresso venha a produzir. Separar-se do problema eliminando a questão no PNE, como se não tivesse nada mais a ver com o problema criado, é pouco. O Governo terá que fazer muito mais para nos convencer de que mudou de idéia, se é que mudou… A ação soa mais a uma tática diversionista do que a convicção.

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

O fracasso dos vouchers nos USA

Postado originalmente na Uol em 13/04/2011

Os vouchers estão retornando, mas porquê?

By Diane Ravitch

12 de abril de 2011

Os vouchers estão de volta nas notícias. Vários governadores conservadores estão a empurrá-los, e os membros republicanos do Congresso, em um confronto com o presidente Barack Obama, conseguiram restabelecer o financiamento do programa de vouchers para o Distrito de Columbia, que foi cortado pelo congresso anterior controlado pelos democratas. Em clima pós-colonial, a liderança da Casa insistia em reviver o financiamento para vales e eliminar o financiamento para abortos, embora o prefeito do Distrito se oponha a ambas decisões. Apenas alguns dias atrás, a legislatura de Indiana aprovou um programa de vouchers, aplaudidos pelo Gov. Mitch Daniels e Michelle Rhee.

(…)

Os últimos resultados dos testes do estado de Wisconsin revelaram que alunos de escolas públicas de Milwaukee tiveram pontuações superiores aos das escolas com voucher. Entre os estudantes de baixa renda, aqueles em escolas com voucher tiveram o mesmo rendimento que os estudantes de baixa renda das Escolas Públicas de Milwaukee. Algumas escolas com voucher foram melhor do que as escolas públicas de Milwaukee, mas a maioria não fez nem melhor, nem pior. Mas as escolas com voucher não têm tanto estudantes com necessidades especiais em comparação com as escolas públicas de Milwaukee. De acordo com dados do estado, apenas 1,5 por cento dos estudantes de educação especial estão nas vouchers, enquanto nas escolas públicas, o valor é de cerca de 19 por cento.

Continue lendo em (inglês):

http://blogs.edweek.org/edweek/Bridging-Differences/2011/04/vouchers_make_a_comeback_but_w.html

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Privatização, Responsabilização/accountability, Vouchers | Deixe um comentário

Bônus é proibido para médicos…

Postado originalmente na Uol em 14/04/2011

Sábia a decisão da ANS – Agência Nacional de Saúde – pois ia ter muita gente precisando fazer exame e o médico negando para não estourar o seu limite e ganhar o bônus. Todos sabem que isso não funciona, só os reformadores empresariais da educação que insistem..

Planos estão proibidos de oferecer prêmios para médicos

Agência Estado 13/04/2011 – 19h41

Brasília – Planos de saúde estão proibidos de oferecer prêmios para médicos que respeitarem uma cota mínima para solicitação de exames ou outros procedimentos complementares. A prática, que de acordo com profissionais é adotada por boa parte das operadoras para reduzir os custos, agora é expressamente considerada uma infração, de acordo com instrução normativa da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) publicada hoje no Diário Oficial da União.

Continue lendo em:

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,planos-estao-proibidos-de-oferecer-premios-para-medicos,705904,0.htm

Publicado em Avaliação de professores, Meritocracia, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Pobreza e educação

Postado originalmente na Uol em 16/04/2011

Uma das dificuldades para a educação melhorar sua qualidade é o nível de vida da população mais pobre. Os testes não medem só o que os alunos sabem ou não, medem igualmente a desigualdade social, elegantemente chamada de nível sócio econômico.

O Banco Mundial nos informa: “A contínua valorização dos preços das commodities ameaça aumentar a população mundial de pobreza.”

Em um ano as matérias primas valorizaram modestos 36%. Com isso mais 44 milhões de pessoas entraram na linha de pobreza extrema, ou seja, pessoas que vivem com renda de 2 reais por dia – 60 reais por mês. Uma mesada dos filhos da classe média.

Se tais commodities subirem mais 10%, outros 10 milhões serão lançados na pobreza extrema.

Ao todo, no mundo, existem 1 bilhão e 200 milhões de pessoas na linha da miséria extrema dos dois dólares por dia.

E querem que a educação tenha qualidade… Os que geram a pobreza transferem o problema para as escolas. Todos têm que aprender independentemente do nível de pobreza. Chamam isso de equidade. E mais, se as escolas não conseguem equidade, têm que ser “responsabilizadas” – afinal alguém tem que ser responsável… Menos os que geram a pobreza.

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Segregação/exclusão | Deixe um comentário

Gestão privada: contra ou a favor?

Postado originalmente na Uol em 17/04/2011

Claim Zaher (do grupo empresarial SEB – Sistema Educacional Brasileiro) está na Folha de São Paulo de hoje (17-4-2011) defendendo a privativação da gestão da educação. Ele não quer privatizar: “não estou dizendo que tem de privatizar as escolas públicas” – diz ele. De fato, para os investidores no negócio da educação, é mais cômodo ficar com a parte boa: a gestão. O governo cuida da infra e eles “exploram” o mercado educacional.

Para Claim “escola para dar certo tem de ter dono”. O que interessa não é a privatização da escola em si, mas sim a privatização da gestão da escola via contratos de gestão, a abertura de um novo nicho de mercado empresarial. Não se trata do embate clássico entre público e privado, mas uma abordagem mais próxima ao PPP, parceria público privada.

Como diz a reportagem: “Claim é uma espécie de Silvio Santos da educação”.

Pois é: enquanto o Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública não aprova incluir em seus princípios a defesa pela gestão pública estatal da educação, o senhor Claim não tem a menor dificuldade em defender a gestão pública não estatal da educação.

Como não existe neutralidade, a posição do Fórum fortalece a posição dos Claims.

Leia a matéria em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1704201115.htm

Publicado em Postagens antigas da UOL, Privatização, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Uso de Vouchers: Fundações que forçam a barra…

Postado originalmente na Uol em 19/04/2011

Novo relatório da Fundação Friedman sobre o uso de vouchers em educação não convence. Vouchers são programas que dão recursos públicos para aos pais dos alunos escolherem a escola que gostariam para seus filhos. É uma das muitas formas de privatização da educação pública em uso nos Estados Unidos.

O novo relatório ganha-ganha sobre escolas vouchers ainda não é um vencedor

http://nepc.colorado.edu

Boulder, CO (19 de abril de 2011) – Em 2009, a Fundação Friedman para a Escolha Educacional publicou um relatório intitulado “Uma solução ganha-ganha: a evidência empírica sobre como os vouchers afetam as Escolas Públicas”. O relatório foi revisto  pelo professor Chris Lubienski da Think Twice – projeto da Universidade de Illinois –  que concluiu que o relatório de 2009, pretendia reunir todos os dados empíricos disponíveis sobre a questão dos efeitos da concorrência usando vales, encontrando um forte consenso de que os vouchers ajudavam as escolas públicas. Entretanto, o relatório, baseado em uma revisão de 17 estudos, seletivamente interpretava a evidência para apoiar as conclusões da própria Fundação.

A Fundação Friedman já lançou uma versão atualizada do relatório, combinando a antiga discussão sobre os efeitos da competição escolar com uma nova discussão dos vários resultados de participantes de programas de voucher. O novo relatório, no entanto, é igualmente falho.

O relatório anterior da Friedman afirmava que “contrariamente à tese generalizada de que os vales prejudicam as escolas públicas, a evidência empírica consistentemente apoia a conclusão de que os vouchers melhoram as escolas públicas. Nenhum estudo empírico jamais indicou que os cheques tenham um impacto negativo sobre as escolas públicas “(vide sumário executivo do relatório).

A revisão de Lubienski explica que o Relatório de 2009 escolhe evidencias e que a maioria dos estudos citados “foram produzidos por um grupo muito pequeno de pessoas em grande parte associados a organizações que apoiam a opção pela escolha [uso de vouchers]” (p. 6).

A revisão de Lubienski sobre o relatório original explica que “Os estudos incluem alguns trabalhos rigorosos feitos por pesquisadores respeitados. Mas questões de metodologia, interpretação e generalização emergem quando a pesquisa é empacotada simplesmente para apoiar uma agenda estreita, como a da Fundação Friedman. Então, a tentação para seletivamente fazer um balanço da investigação distorce os resultados reais “(p. 5).

Por exemplo, Lubienski aponta o mal uso feito do relatório de pesquisa de Carnoy e seus colegas “(2007). O novo relatório continua a usar inadequadamente o trabalho de Carnoy, bem como outros, a fim de afirmar que os cheques têm um efeito de “concorrência” positivo sobre os sistemas de escola pública. De fato, como afirma Lubienski, o estudo que Carnoy e colegas conduziram para testar os efeitos da concorrência dos sistemas de voucher “não encontrou nenhum efeito da concorrência” em seus resultados (p. 5).

Lubienski também critica o relatório Friedman anterior por defender a expansão dos programas de vouchers sem reconhecer que expansões anteriores não aumentaram os efeitos positivos que poderiam ser atribuídos à concorrência. O novo relatório novamente evita uma explicação para esta falta de sucesso, exceto para apresentá-la como prova da necessidade de ampliar os programas de forma mais agressiva.

O que o novo relatório agrega é uma discussão sobre pesquisas relativas a efeitos dos programas de voucher sobre os estudantes que recebem os vales. O relatório cita oito estudos, a maioria deles realizados por declarados defensores dos vouchers.

É notável como o relatório não tem limites para procurar encontrar conclusões sobre os “efeitos positivos” do sistema de voucher, quando uma leitura compreensiva desses estudos mostraria que o efeito é mínimo ou inexistente. Mais desconcertante é a fraude e a distorção utilizadas pelo relatório na tentativa de descartar o notável estudo, revisado por pares, de Alan Krueger e Pei Zhu, de Princeton, que não encontrou efeitos do programa de voucher na Cidade de Nova York.

Enquanto o novo relatório ganha-ganha melhora os argumentos do relatório original em algumas áreas, a lógica global e as provas correspondentes ainda estão aquém de torná-lo defensável. O relatório não é uma revisão útil dos efeitos da concorrência escolar promovida por programas de vouchers.

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Privatização, Responsabilização/accountability, Vouchers | Com a tag , | 1 Comentário

Legislação distribuída: estratégia liberal

Postado originalmente na Uol em 22/04/2011

Mais uma vez os liberais mostram como será a estratégia de seu avanço. O tema é o código florestal. Ante a possibilidade de que o código não seja aprovado segundo as expectativas liberais (redução de áreas de proteção, permissão para desmatamento de morros, etc.) as forças liberais pressionam os governadores para que – seguindo o exemplo de Santa Catarina e Minas – cada estado tenha seu código florestal.

A constituição federal permite que os estados legislem sobre o tema desde que não sejam mais permissivos que as leis federais – diz uma reportagem na Folha de S. Paulo de hoje (22-04-2011). Note que este exemplo é bastante completo, pois as mudanças que interessam aos liberais contam com apoio até mesmo na esquerda, com PC do B na dianteira e PT mais reticente. Já mencionei neste Blog, antes, que há no Congresso um Movimento de Deputados para ampliar as possibilidades de criar leis nos Estados, incluindo a educação.

Esta estratégia pode ser seguida tambémna educação. Foi o próprio governo quem enviou a lei de responsabilidade educacional e formulou o Plano Nacional de Educação. Tais leis, contam com apoio dos liberais. O Movimento Todos pela Educação – conhecido por seus vínculos com as corporações empresariais – apoia as leis propostas. O Parceiros da Educação, mais ainda. Mas há gente da chamada esquerda embarcado nisso também. Sabe-se, no entanto, que a estratégia liberal de legislar pelos estados como forma de compensar eventuais perdas na esfera federal, já está mais avançada no caso da Educação. Mais de 17 estados já preparam legislações locais sobre responsabilização e meritocracia. O Estado de Santa Catarina até contratou a própria OCDE para reformar a educação no estado, baseado nestes princípios.

Como as forças liberais olham para o PNE? Primeiro, tentarão passar suas posições. O Movimento Todos pela Educação assopra, o Parceiros da Educação bate. O Movimento Todos pela Educação não está apresentando emendas ao PNE, mas está fazendo um estudo das que outras entidades já apresentaram. Prefere trabalhar mais discretamente apostando na adesão às suas idéias, que não se distinguem da Parceiros da Educação, senão pela forma de atuação. Certamente, o Movimento Todos pela Educação não vai guardar seu estudo sobre as emendas na gaveta. Isso será usado para orientar deputados e senadores nas votações. A batalha é longa. Se a mesma estratégia do código florestal for usada, as forças liberais deverão apostar em um PNE o menos restritivo possível, permitindo que, depois, os Estados complementem à sua maneira a legislação federal, ao nível de cada Estado. Um PNE que não atrapalhe já está bom. O resto será feito distribuindo a legislação entre os vários entes federados – estados e municípios. Interessa o conjunto da legislação e não apenas o PNE.

Isso significa que certas questões básicas para conter as forças liberais privatistas precisam estar colocadas claramente no PNE. Entre elas a restrição para que a gestão da escola pública seja obrigatóriamente uma gestão pública estatal – em especial na educação básica. Isso implica em fechar o espaço dos contratos de gestão que caminham via conceito de gestão pública não estatal.

O que está em jogo para os liberais é, para uns, a interferência ideológica no projeto da educação e da escola e, para outros, a abertura da atividade educacional ao capital, ao mercado. A mídia apoiará. Portanto, a batalha é contra os reformadores empresariais da educação e seus aliados. A discussão entre público e privado, não pode ser feita nos moldes de 10 anos atrás. Temos que levar em conta a subdivisão do público em estatal e não estatal. E, tal como na questão do código florestal, foi a esquerda que inventou esta divisão. Ou seja, a briga começa dentro de casa…

 

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Secretária de Educação de Nova Yorque é demitida

 Postado originalmente na Uol em 23/04/2011

John Klein deu lugar a Cathleen Black no final do ano passado na cidade de Nova Yorque. Passados três meses, Cathleen Black, vinda da grande indústria da mídia para comandar a maior rede pública de ensino dos Estados Unidos, sai e dá lugar, agora, a Dennis Walcott. Diane Ravitch analisa o significado destas mudanças, abaixo.

O que aprendemos com o fracasso de Cathie Black?

19 de abril de 2011

Diane Ravitch, no Education Week

(…) Nos bons tempos, a educação não seria má notícia, mas estes não são bons tempos. Cada dia nos traz más notícias – sobre um bairro que fecha escolas públicas ou demite professores ou introduz testes para o jardim de infância. Sabemos como é difícil resistir aos ataques seguidos a professores, diretores, administradores e à educação pública.

A grande novidade recente foi a decisão do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, de substituir a chanceler das escolas da cidade, Cathleen Black, em 07 de abril. Ela ficou apenas três meses, o que estabelece um recorde de menor duração jamais visto nesta posição. O prefeito anunciou imediatamente a seleção de seu vice-prefeito de confiança, Dennis Walcott, como chanceler.

Continue lendo em (inglês):

http://blogs.edweek.org/edweek/Bridging-Differences/

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Mercado educacional continua se preparando

Postado originalmente na Uol em 24/04/2011

O controlador de escolas de idiomas Wizard, Yázigi e Skill (o Grupo Multi) vai ingressar no mercado de reforço escolar de matemática e português. Como já dissemos, há duas indústrias educacionais se movimentando: a de avaliação e a de tutoria.

O pessoal da avaliação ganha identificando os alunos que precisam de reforço, e o pessoal do reforço ganha fazendo a tutoria. Para haver uma indústria da tutoria é porque se prevê que haverá a quem tutorar por muitos e muitos anos. Ou seja, não haverá melhora nos padrões escolares.

É como querer que a indústria farmacêutica encontre a cura do câncer. É mais lucrativo vender remédios para os doentes do que eliminar a doença.

Milhões de reais serão desviados das escolas para estas indústrias, a título de melhorar a qualidade da educação, quando tais recursos deveriam ser investidos diretamente em fatores que alavancam a qualidade da própria escola. Mas se a escola melhorar, mata a galinha dos ovos de ouro – eis porque educação não combina com negócios.

Além do mais, estas indústrias conseguem alguns resultados utilizando-se de uma “pedagogia penal” que submete o aluno a procedimentos militares de controle – procedimentos que as classes médias altas não aceitariam para seus filhos.

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Privatização | Deixe um comentário

Inacreditável frase do dia…

Postado originalmente na Uol em 24/04/2011

Parece que a estadia de Gilberto Dimenstein em Harvard não foi de todo em vão. Ele tem estado entusiasmado com a interdisciplinaridade e com o cruzamento e a unificação dos saberes. Motivado por isso, ataca:

“E pensar que tanta gente acredita que se pode medir um aluno por suas notas em português e matemática.”

Gilberto Dimenstein, Folha de São Paulo 24-04-2011

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2404201122.htm

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Bônus falha em São Paulo

Postado originalmente na Uol em 25/04/2011

Estou de acordo com a reportagem que mostra o fracasso do pagamento de bônus para a equipe da escola em S. Paulo. Falhou igualmente em Nova York, de onde foi copiado. Há exemplos internacionais, portanto, que acompanham esta tendência. Os liberais sempre dizem que vão melhorar isso e que uma modificação aqui e outra alí, melhorará o sistema. Mas sabemos que o problema é muito maior. Pagamento de bônus inclusive por métodos mais sofisticados, considerando vários anos de atuação do professor e feitos por uso de valor agregado, também não conseguem modificar a situação do desempenho dos alunos de forma consistente. O problema é que estes recursos (bônus) são importados da lógica dos negócios ou da visão de mercado. Mas, como mostra muito bem Daiane Ravitch em postagem anterior neste Blog, não há intercambiabilidade entre a área de negócios e a educação. O Estado de São Paulo foi alertado sobre a inadequação destas políticas, preferiu não ouvir. Pior, outros Estados estão se preparando para cometer o mesmo equívoco. Algo em torno de 17.

Entretanto, no caso específico de São Paulo, acho que falta um estudo mais aprofundado sobre esta política. Não basta apenas ficarmos com a impressão de que o bônus não deu certo a partir de uma genérica queda no desempenho dos alunos. Essa queda, por outros fatores, poderia não ter ocorrido. Nem por isso significaria que a política de bônus estaria correta, considerando o resultado obtido em outros países, igualmente pífio. Mas não há, para o caso de São Paulo, uma demonstração empírica entre queda de desempenho e bônus. Portanto, creio que estudos mais aprofundados deveriam demonstrar (ou não) esta relação. O fato é que as Universidades, como espaço independente e autônomo de pesquisa, estão desaparelhadas para realizar tais pesquisas, o que é uma lástima. Acabamos ficando nas mãos dos governos, os quais pesquisam aquilo que lhes interessam ou se calam quando convém.

Sem estudos mais aprofundados, ficamos ao sabor da inclinação da curva de desempenho dos alunos que, como sabemos, reage a diversificados fatores intra e extra-escolares, ou até mesmo psicométricos. E se a curva tivesse se mantido ou subido, o bônus estaria surtindo efeito?

Bônus para professores não melhoram qualidade do ensino em São Paulo

Publicada em 22/04/2011 às 23h00m

Leila Suwwan

SÃO PAULO – Lançada em 2008 como uma solução inovadora e meritocrática para melhorar a qualidade do ensino público, a política de pagamento de bônus salarial para os professores da rede estadual fracassou e levou o governo de São Paulo a repensar suas propostas educacionais. O incentivo, que pode chegar a quase três salários extras, é calculado a partir do desempenho dos alunos, baseado nos dados do fluxo escolar e das notas do Saresp, o “provão” paulista de português e matemática dos ensinos fundamental e médio.

O bônus cria uma atitude de desresponsabilização do gestor público.

Continue lendo em:

http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2011/04/22/bonus-para-professores-nao-melhoram-qualidade-do-ensino-em-sao-paulo-924303729.asp

Publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Mais pragmatismo à vista…

Postado originalmente na Uol em 29/04/2011

Segundo a Folha de São Paulo (29-4-2011) Dilma tem reiterado à sua equipe que “não vai considerar um tabu a manutenção dos serviços de operação dos aeroportos nas mãos da infraero”. Mais ainda: “indagada por assessores se não temia a reação de servidores da estatal, ela afirmou também.

É hora de começarmos a cobrar do governo Dilma seu posicionamento sobre o Plano Nacional de Educação, que não pode ser somente compreendido como diz o Secretário Executivo Adjunto do MEC, Prof. Chagas, como sendo “uma proposta ao Congresso”. Alí está a posição do governo e ela não reflere, ao contrário do que ele crê, a Conferência Nacional de Educação – ou as mesmas entidades que estiveram na elaboração da Conae não estariam agora tendo que apresentar emendas às centenas ao PNE do governo. Parece que os únicos que estão satisfeitos com o PNE do governo são exatamente aqueles que não votaram em Dilma.

Portanto, temos que cobrar do Governo um posicionamento político sobre o que queremos para a educação nos próximos anos: alinhar a educação com as necessidades das corporações empresariais e com as aspirações de uma classe média emergente, ou termos um projeto de formação e desenvolvimento para a juventude brasileira, soberano e emancipatório – para além de sua vinculação estrita com o trabalho. Uma coisa é certa: o corporativismo empresarial vai jogar pesado e ele tem acesso direto à Presidência.

que prefere “brigar” com os funcionários da Infraero a enfrentar a insatisfação da classe média com os serviços dos aeroportos.”

A questão é se esta mesma racional despolitizada e pragmatista não acabará orientando os assuntos educacionais

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Governo do Pará quer meritocracia

Postado originalmente na Uol em 30/4/2011

O Governo do Estado do Pará estuda adotar meritocracia nas escolas, através do pagamento de bônus para professores. O falido sistema usado em São Paulo, copiado de Nova York, onde foi interrompido em 2010, continua fazendo adeptos – alguns desavisados, outros claramente comprometidos com a ideia de transferir a lógica dos negócios para a educação.

A elaboração do Plano Nacional de Educação não pode desconhecer esta realidade que está acontecendo em vários estados e precisa deter esta onda meritocrática e privatista que destruirá o sistema público de educação brasileiro. O PNE não pode se omitir na matéria pois deixará espaço aberto aos reformadores empresariais da educação nos Estados e Municípios.

Publicado em Meritocracia, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Dimenstein: um eterno deslumbrado

Postado originalmente na Uol em 1/05/2011

Alguém precisa avisar Dimenstein que os Estados Unidos são um país decadente, em crise fiscal e que a única maneira dele dar conta de suas responsabilidades com a população é transferir os serviços públicos para a iniciativa privada. Não está em jogo de fato aumentar a qualidade de vida ou da escola e, sim, reduzir custos. Além disso, desenvolveu-se na área educacional uma rede empresarial que mama diariamente nas verbas do governo e vive de chupinar outros empresários que por sua vez chupinam o imposto de renda, deixando de recolher impostos que poderiam ser usados nos serviços públicos. Esta confluência de interesses produziu a devastação do sistema público de ensino americano. Empacados no PISA, patinam em soluções privatistas há mais de 15 anos sem resultados.

Dimenstein está de volta na Folha de São Paulo de hoje (1-05-2011) para alardear as soluções privatistas encontradas nos Estados Unidos. Desta vez é o Harlem, um bairro abandonado pelo governo, de negros e pobres, que está à mercê da caridade de Wall Street para organizar a sua vida em um experimento social chamado Harlem Children’s Zone.

Criado por Geoffrey Canada que é hoje o “presidente e CEO – Diretor Executivo” desta “empresa”, ela envolve uma articulação entre uma série de medidas para atacar problemas da comunidade associadas à criação de uma rede de escolas privadas de G. Canada que atende a área. Baseado em doações, construiu-se uma empresa que funciona recebendo 100 milhões de dólares e atende diretamente a 8.000 alunos. Existem variadas ações como controle médico da asma que afeta a população do Harlem até ações de escolarização. O “plano do negócio” pode ser lido em  http://www.hcz.org/images/stories/pdfs/business_plan.pdf.

Obama adorou e agora quer 210 milhões de dólares do Congresso para incentivar mais 21 comunidades pelo país afora.

Como se a moda pegar deixa as tradicionais escolas charters americanas – que não têm ligações com outros programas sociais locais como tem a experiência do Harlem, onde as charters foram associadas a programas sociais – em situação de desvantagem frente a verbas públicas e, principalmente, doações das empresas, a disputa instaurou-se.

Um primeiro relatório atestou a eficiência do experimento. Feito em Harvard, ainda não foi objeto de revisão por pares – e, ao contrário do que se faz por aqui, lá não se aceitam relatórios – mesmo que de Harvard – que não tenham passado por revisão de pares.

As reações, entretanto, têm sido de ceticismo. Diz Holden examinando o relatório de Harvard:

“O resultado é emocionante, mas:

• Este é apenas um estudo, e o tamanho da amostra não é grande (especialmente para uma análise mais rigorosa baseada em randomização). É um estudo muito recente – não foi revisto por pares ainda – e ele não teve muita oportunidade de ser criticado.Estamos ansiosos para ver a revisão crítica dele e (se o consenso é que vale a pena replicar) os resultados das repetições.

• Os efeitos são observados principalmente em notas de matemática. Efeitos sobre a leitura são encorajadores, mas menores. Será que esse melhor desempenho se traduz em melhorias em todos os aspectos do gap de desempenho (causal ou porque os maiores escores do teste seriam sintomas de uma melhoria geral no desenvolvimento pessoal dos estudantes)? Nós não sabemos.

• Só porque um programa funcionou em um lugar não significa que financiamento pode induzir automaticamente mais do mesmo. O sucesso pode ser devido a pessoas cuja função é de difícil replicação em outro lugar, por exemplo. Com efeito, se o consenso é que este programa “funciona”, descobrir o que funciona nele e como ele pode ser estendido será um enorme desafio em si mesmo.”

Também o Brookings Institute não gostou. Já havia feito um relatório anterior dizendo que as escolas charters de Geoffrey Canada estavam apenas 10 pontos acima das escolas públicas regulares da cidade de New York, enquanto outras charters (as três escolas KIPPs da área) estavam a 30 pontos. Geoffrey Canada respondeu que eles haviam considerado apenas as charters de tipo I, de sua empresa, e não as de tipo II. O Instituto voltou à carga e refez a análise com as duas mostrando que isso não faz diferença.  Brookings questiona se de fato os programas sociais que acompanham as escolas charter de Geoffrey têm efeito no desempenho dos alunos. Uma briga entre escolas charters.

Esta é a situação. No entanto, a Folha de São Paulo através de seus arautos deslumbrados com os USA apresenta um cenário completamente diferente para os brasileiros. Diz Dimenstein a propósito do Harlem Zone:

“G. Canada articulou uma rede educativa que abrangia da creche ao fim do ensino médio, com uma preparação para a faculdade. Surgiram escolas públicas independentes” (agrego: eufemismo para escolas sob contrato de gestão privado, pagas com dinheiro público) “para que a comunidade pudesse escolher (e demitir) seus diretores e professores, além de estabelecer o próprio currículo”.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0105201121.htm

Eis aí a mensagem principal.

Se o Instituto Brookings está certo, a diferença entre escola pública regular e as charters do Sr. Canada estão cabeça a cabeça, com uma diferença de 10 pontos que se forem bem pesquisados, a se julgar pelo desempenho de outras charters nos USA, pode ser menos. Sabe-se que a escola pública regular nos USA está relegada aos alunos menos motivados e mais pobres – os mais pobres entre os pobres. Ou seja, para Dimenstein, fechar comunidades em uma Zona e colocá-la sob controle de empresários caridosos que pagam outro empresário caridoso local dono de uma cadeia de escolas dentro desta Zona, é avançado. Como o programa inclui atendimento médico, uma das principais fontes de doações, cerca de 3.700 milhões de dólares, são provenientes de empresas farmaceuticas – claro, desinteressadas… no mercado desta Zona.

A mesma irresponsabilidade que pesquisadores atribuem a Obama por financiar a generalização deste experimento sem maiores pesquisas, aplica-se ao Sr. Dimenstein por apresentar este mesmo experimento como um êxito a ser implementado no Brasil.

Para finalizar, cabe alertar que colocar a educação e comunidades inteiras nas mãos dos caridosos empresários, em tempo de crise, pode ser uma estratégia arriscada. Em 2008, o Harlem Zone foi afetado pela crise financeira. Se a crise persistir, experimentos como estes estarão com os dias contados.

É por estas e outras razões que a educação é um bem público e deve ser de responsabilidade do Estado, inclusive com administração estatal. A estratégia proposta por Dimenstein é de tratar a pobreza com a caridade dos ricos. Educação, entretanto, é direito.

Dimenstein: tenha dó do meu domingo…

Publicado em Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL, Privatização | Deixe um comentário

Fabricando relatórios “científicos”

 Postado originalmente na Uol em 2/05/2011

Está se firmando no Brasil a tendência a considerar qualquer relatório emitido por uma ONG, Empresa Privada como a McKinsey, Fundações, etc. como de validade científica. Isso é extremamente perigoso.

Normalmente, em países civilizados como os USA, relatórios deste tipo só têm validade depois que passaram por revisão de pares. Isso se deve ao fato de que eles não são publicados, como no caso de revistas e livros, depois de serem apreciados por pesquisadores independentes.

Via de regra estão cheios de erros metodológicos ou generalizações indevidas. Relatórios como os que Veloso divulga na Folha não passaram por procedimentos de certificação e usam argumentos de autoridade, como se McKinsey fosse uma instituição de credibilidade científica. Não é. É uma empresa privada de auditoria interessada em ganhar dinheiro e que está comprometida para avaliar propostas, via de regra, que atendem a seus interesses.

Como reformar a educação

Relatório compara trajetórias de países e expõe lições para alcançar excelência no ensino

FERNANDO VELOSO – Folha de São Paulo, 02/05/2011 – São Paulo SP

Leia em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb0205201103.htm

Publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Entrevista a Carta Capital

Postado originalmente na Uol em 3/05/2011

A meritocracia e o ilusionismo

Rodrigo Martins

2 de maio de 2011 às 9:29h

 Sem reajuste salarial desde 2005 e descontentes com os critérios usados para o pagamento da chamada “bonificação por resultados”, professores das escolas técnicas (Etecs) e faculdades de tecnologia (Fatecs) do estado de São Paulo ameaçam entrar em greve nas próximas semanas.

Uma das principais queixas foi a inclusão, em 2007, de critérios de produtividade para a concessão do benefício aos docentes. Quem aprova mais alunos, recebe um bônus maior. Especialista em avaliação, Luiz Carlos Freitas, professor de Educação da Unicamp, afirma que o modelo gera corrupção no sistema. Confira a entrevista concedida a CartaCapital.

CartaCapital: Como o senhor avalia essa política de bonificação instituída na rede pública paulista?

Luiz Carlos de Freitas: A ideia da bonificação é importada da iniciativa privada. Os reformadores empresariais da educação acreditam que a educação é uma atividade como qualquer outra, passível de ser administrada pelos critérios da iniciativa privada, ou seja, a escola é vista como se fosse igual a uma pequena empresa. Para este pensamento, o problema educacional se resolve com um choque de gestão. Uma empresa vai bem quando os lucros aumentam, e na escola, o equivalente aos lucros são os resultados dos testes. Se eles aumentam, então a escola vai bem, logo seus profissionais merecem um bonus, se as notas não aumentam, então alguém tem que ser responsabilizado, ou seja, demitido – tal como s e fosse uma fábrica de sapatos. Ocorre que não há intercambiabilidade entre a área dos negócios e a área da educação. São lógicas diferentes. No mercado há ganhadores e perdedores e os ganhadores não têm que se preocupar com os perdedores. A educação é um direito de todos e temos que nos responsabilizar pelo avanço de todos. São lógicas incompatíveis. Os testes ganham então uma relevância extraordinária. Há, entretanto, um princípio antigo, de Campbell, que diz que quanto mais um indicador social é usado para controle, mais ele distorce e corrompe o processo social que ele tenta monitorar.

CC: Por que o senhor acredita que o sistema de bonificação por resultados, como o implantado em São Paulo, gera corrupção no interior das redes de ensino?

LCF: Há muitos exemplos que comprovam isso. Recentemente, Beverly Hall, Superintendente do sistema educacional de Atlanta nos EUA foi demitida do seu cargo em função de que uma investigação governamental encontrou fraude na avaliação de 58 escolas públicas de Atlanta. Na Cidade de Nova York, John Klein deixou o cargo de Superintendente depois que em junho do ano passado a bolha de desempenho da cidade de Nova York explodiu mostrando que as altas notas que os alunos estavam tirando nas escolas estavam infladas.Cathleen Black, que o sucedeu, vindo de um posto bem sucedido na iniciativa privada (Hearst Magazines) conseguiu ficar apenas três meses no cargo e foi demitida no começo de abril. Black não conseguiu administrar o sistema de educação da cidade de Nova York pois não dominava o mundo educacional, apenas era uma gestora bem sucedida no campo da iniciativa privada. Entre suas gafes está sua recomendação de que as sala de aulas superlotadas de alunos poderiam ser mudadas se houvesse mais controle de natalidade. Isso tudo mostra que entre o mundo dos negócios e o mundo da educação há uma grande distância. A escola não é uma pequena empresa.

CC: O sindicato dos professores do ensino técnico afirma que a bonificação tem sido usada como desculpa para a falta de reajustes salariais nos últimos anos e que o sistema leva em conta critérios que não dependem só do docente, como evasão escolar e aprovação dos alunos. Essas críticas procedem?

LCF: Procedem. Em geral, todos admitem que mais de 50% das variáveis que explicam o bom rendimento do aluno se deve a fatores que estão fora da escola. Entretanto, na hora de pensar nas soluções para aumentar o rendimento dos alunos isto é esquecido e se pensa exclusivamente em termos de variáveis intraescolares, em especial o papel do professor. Isso leva à tentação de aumentar o salário somente para aqueles professores que possam ser associados à melhoria do rendimento de seus alunos, medido em testes, e demitir aqueles que não são associados à melhoria do rendimento do aluno. Por isso, os defensores destas políticas são contra o aumento salarial para todos e são igualmente contra a estabilidade do emprego do professor, pois precisam ameaçar com a demissão ou com o não pagamento de bônus .

CC: Ao incluir como critério do bônus a “produtividade”, isto é, o número de alunos aprovados em relação ao total de matrículas, isso não provoca distorções na avaliação dos alunos?

LCF: A prática diz que sim, como relatei acima no caso de Atlanta nos EUA. Mesmo no caso do Estado de São Paulo, com a aplicação da avaliação do SARESP para rede regular de ensino, esta interferência da avaliação tem sido detectada. Há ainda a questão do aumento de simulados no interior das redes que acaba por tomar tempo precioso da aprendizagem dos alunos que acaba sendo substituido por treino para as provas. Aprendizagem é algo diferente de ser treinado para se sair bem em testes. É corrente nos Estados Unidos o fato de que há estados que rebaixam as exigências nos testes locais para que seus alunos possam se sair bem e então acessarem verbas federais.

CC: No Brasil, há experiências de escolas charter (administradas pela iniciativa privada) no sistema público? De que forma esse tipo de iniciativa está associada à política de bonificação e quais são os riscos dessa aposta?

LCF: No Brasil a experiência mais próxima deste conceito foi feita em Recife, Pernambuco, no ensino médio, embora tenha sido interrompida. Não há uma avaliação independente dos resultados desta experiência. A única avaliação foi feita por uma agência que atua na própria divulgação da ideia o que torna a avaliação suspeita. As avaliações feitas nos Estados Unidos sobre as escolas charters não são alentadoras. No caso americano, quando as escolas não conseguem fazer com que seus alunos melhorem nos testes, elas podem ser fechadas e transferidas à iniciativa privada por meio de contrato de gestão (escolas charters), em um processo que está previsto em sua lei de responsabilidade educacional. Tal lei, aprovada em 2001, previa que em 2014 todas as escolas americanas deveriam ter seus alunos na categoria de “proficientes” em leitura e matemática. Há um mês o Ministro de Educação americano afirmou que 80% das escolas dos EUA não estarão em condições de cumprir esta meta. Ou seja, a lei serviu unicamente para promover a privatização do sistema público de educação americano, destruindo-o com a implantação de escolas administradas por contrato de gestão. Antes destas medidas, os EUA estavam na média do PISA – o programa de avaliação de estudantes da OCDE – e depois destas medidas, no PISA de 2009, o país continua na média.

CC: Que lição fica para o Brasil?

LCF: As escolas charter não levaram os americanos a uma melhor posição educacional. Nos testes nacionais igualmente não houve melhora e há quem diga que até piorou. Portanto, estas ações que são no Brasil alardeadas pelos reformadores empresariais como o Movimento todos pela Educação e o Movimento Parceiros da Educação não se mostraram com condições de melhorar a educação no país que mais fez uso destas medidas. Por que devemos acreditar que fariam diferença no Brasil? Aliás, o Brasil vem melhorando no PISA sem ter que recorrer a tais medidas.

Rodrigo Martins

Rodrigo Martins é repórter da revista CartaCapital há quatro anos. Trabalhou como editor assistente do portal UOL e já escreveu para as revistas Foco Economia e Negócios, Sustenta!,Ensino Superior e Revista da Cultura, entre outras publicações. Em 2008 foi um dos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Postagens antigas da UOL | Com a tag | Deixe um comentário

Rumo certo em São Paulo

Postado originalmente na Uol em 4/05/2011

Entrevista com o Secretário de Educação do Estado de São Paulo põe em evidência os equívocos na condução da política nos últimos anos.

Qual a sua opinião sobre a remuneração por desempenho?

A carreira acadêmica é uma carreira de mérito. Nós, professores, somos avaliados diariamente, pelos alunos, por nossos pares, pela família, pela sociedade. Os meninos nos veem como exemplo nesse processo cotidiano de avaliação. Na universidade, isso se dá na forma da carreira, em que você evolui através do seu esforço. É possível, ao ir se qualificando, galgar posições e ter salários melhores. A carreira acadêmica tem de privilegiar o comprometimento para com a atividade- fim e permitir que avancem aqueles que quiserem, tiverem compromisso e se esforçarem. Não acredito em nada que não venha de trabalho e esforço. Isso feito, a carreira tem de permitir que haja uma evolução.

E a prova de mérito instituída para avaliar a qualidade em São Paulo?

Não concordo. Não é uma única prova que irá dizer se o professor está comprometido com sua atividade; é um equívoco. Essa prova permite um aumento salarial de 25% para até 20% daqueles que foram aprovados. Também não concordo. Você tem um contingente que tira a nota mínima e só 20% têm a possibilidade de ter os 25%. Isso não é carreira. Essa prova pode ser um item em um conjunto que analise o comprometimento. Uma prova única não pode avaliar o mérito. A carreira que vamos construir indicará outras questões tão importantes quanto a prova.

Continue lendo em:

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/169/correcao-de-rumo-234937-1.asp

Publicado em Avaliação de professores, Meritocracia, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário

Educação X renda média

Postado originalmente na Uol em 5/05/2011

A Folha de SP de 04-05-2011 publica estudo da FGV que confirma dados anteriormente divulgados por Paul Krugman para os Estados Unidos. Lá como cá, à medida que mais gente se forma no ensino médio e superior, menor é o salário. No Brasil o estudo da FGV aponta que, com mais gente formada no mercado, a renda caiu de 2.743 reais para 2.262 reais.

Eis porque as corporações querem que se aumente o número de formandos. Aumentando a base de formandos, mais pessoas disputam a mesma vaga e elas podem reduzir salários. A grita das corporações por falta de mão de obra não é, necessariamente, um desejo de mais qualidade na educação, mas uma imperiosa necessidade de derrubar salários e manter seus lucros.

Confira abaixo.

“A renda média desse grupo mais escolarizado caiu de R$ 2.743 em 2001 para R$ 2.262 em 2009. Isso porque, hoje, há mais gente que chega ao ensino superior. Em 2001, esse contingente era 11% da população; em 2009 chegou a 15%.

Neri explica que o fato de haver mais pessoas disputando uma vaga acaba reduzindo a renda do grupo.”

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0405201104.htm

Publicado em Assuntos gerais, Links para pesquisas, Postagens antigas da UOL | Deixe um comentário