USA: marcha de 30 de julho de 2011

Postado originalmente na Uol em 7/07/2011

Por que estou marchando em 30 de julho

Por Diane Ravitch, no Education Week

21 de junho de 2010

Eu estarei marchando com a coalizão “Save Our Schools” de professores e pais em 30 de julho em Washington, DC. Eu sei que você estará, também. Espero que estejamos unidos por muitos milhares de cidadãos interessados ​​que querem salvar as nossas escolas das ideias ruins e das más políticas que as estão prejudicando agora.

Estou marchando para protestar contra o status quo dos testes de alto impacto (high-stakes), os ataques à profissão da educação e a privatização humilhante.

Eu quero protestar contra as ideias punitivas do governo federal sobre a reforma da escola, especificamente, o No Child Left Behind e Race to the Top. Nenhum desses programas tem qualquer validação na pesquisa, na prática ou em evidências. Os professores do país e os pais sabem que NCLB tem sido um desastre político. O Race to the Top incorpora as mesmas ideias que falharam. Por que o Congresso não sabe?

Continue lendo em (inglês):

http://blogs.edweek.org/edweek/Bridging-Differences/2011/06/why_i_am_marching_on_july_30.html

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Resposta aos Reformadores empresariais

Postado originalmente na Uol em 7/07/2011

Em resposta aos reformadores empresariais (Claudio de Mora Castro (colunista da Revista Veja), João B. Araujo e Oliveira, (dono da Alpha e Beto) e Simon Schwartzman (membro do Conselho Consultivo da Empresa Avalia, do grupo Santillana), Gastão Vieira, Angelo Vanhoni e Newton Lima publicam artigo na Folha de SP de ontem (6-7-2011).

PNE é instrumento de avanço na educação

Folha de São Paulo, 06/07/2011 – São Paulo SP

O Congresso tem o dever de votar o melhor Plano Nacional de Educação já feito, para que o Brasil chegue ao posto de quinta potência do mundo

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0607201107.htm

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Corretíssimo, Ministro.

Postado originalmente na Uol em 8/07/2011

O Ministro Fernando Haddad está corretíssimo ao não tomar como referência o exame da OAB para avaliar cursos de Direito. Afinal existe um sistema próprio de avaliação do ensino superior muito mais sofisticado do que o da OAB e que vai além de medir o conhecimento do aluno. Anotemos porque a mídia tentará fazer o mesmo quando o ENEM dos Professores em 2012 for realizado. A lógica deveria ser a mesma – avaliar o candidato não é avaliar a instituição.

Ministro diz que lista da OAB não serve para avaliar cursos de direito

O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou hoje que o ofício recebido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que inclui 90 faculdades que não aprovaram nenhum estudante no último Exame de Ordem, servirá apenas como subsídio.

Continue lendo em:

http://www.conjur.com.br/2011-jul-07/lista-oab-nao-serve-avaliar-cursos-direito-haddad

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Deu no que deu…

Postado originalmente na Uol em 10/07/2011

Como era de se esperar, a participação das entidades científicas no Comitê de Governança do ENEM dos Professores, vai dando em nada. Apenas vai ser usada como legitimação. O que você acha que o INEP fará com a carta da Anfope abaixo? O ENEM dos professores prosseguirá como estava planejado e agora com o “apoio” da Anfope – a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação – que aceitou as matrizes de referência para elaboração do teste dos professores. As questões de fundo sobre a realização de um exame deste tipo, ficaram de fora. O jogo foi jogado nos termos do INEP – não podia dar em outra coisa.

Para o INEP interessa apenas o fato da Anfope “ter aceito o documento aberto sobre as matrizes”. O demais, já está decidido. É o jogo. Uma vez dentro dele, difícil sair. É sabido que CNTE, Undime e Consed apoiam o Exame. A entrada das entidades científicas no Comitê poderia ter sido o diferencial, pois poderiam se retirar dele, marcando uma posição contrária ao Exame. Ao invés disso, se dedicaram, em vão, a “aprimorar” o Exame. Resta à Anfope, o consolo de ter feito uma carta ao INEP com ressalvas, mas isso não resolverá a situação dos milhares e milhares de professores que terão que passar por este Exame. Não resolverá o impacto que estas medidas terão na política de formação dos profissionais da educação. Lembremo-nos disso. No fundo, as matrizes foram aceitas pela Anfope, legitimando o conteúdo e a forma do exame, bem como suas consequências.

ASSOCIAÇÃO NACIONAL PELA FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO

CONSIDERAÇÕES DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL PELA FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO (ANFOPE) EM RELAÇÃO AO DOCUMENTO ABERTO APRESENTADO AO COMITÊ DE GOVERNANÇA, PELO INEP, EM REUNIÃO, BRASÍLIA, 04/07/2011.

A Diretoria da Anfope reconhece os avanços neste Documento Aberto apresentado ao Comitê de Governança, pelo INEP ao ser comparado aos Documentos Referenciais para o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente – Documento para Consulta Pública e Matriz de Referência da Prova Nacional de Concurso para o Ingresso na Carreira Docente I. Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental – Proposta Inicial para Análise e Discussão.

Reconhece, também, que o documento em análise deixou de contemplar diversos itens do Documento Coletivo resultante do Seminário das Entidades de Estudos e Pesquisa em Educação, realizado em Brasília, 26-27/06/2011 e, encaminhado ao INEP.

Em face dos avanços já constatados, a Diretoria da Anfope declara aceitar o Documento Aberto apresentado ao Comitê de Governança, pelo INEP, porém, enumera, a seguir, as necessárias inclusões, reiterando que estas constam no próprio Documento Coletivo das Entidades.

  1. A concepção de      docência anunciada pelas Entidades em seu Documento Coletivo deve constar      da Matriz de Referencia como balizadora do delineamento do perfil      profissional que se deseja do candidato ao ingresso na carreira docente,      assim como dá indícios de que o rigor conferido à Prova      de Concurso deve ser em nível superior.

Para tanto anunciamos mais uma vez a nossa concepção de docência, compreendida na perspectiva apontada pela Resolução CNE/CP nº 01/2006, art. 2º, parágrafo 1º, que afirma:

  § 1º Compreende-se a docência como ação educativa e processo pedagógico metódico e intencional, construído em relações sociais, étnico-raciais e produtivas, as quais influenciam conceitos, princípios e objetivos da Pedagogia, desenvolvendo-se na articulação entre conhecimentos científicos e culturais, valores éticos e estéticos inerentes a processos de aprendizagem, de socialização e de construção do conhecimento, no âmbito do diálogo entre diferentes visões de mundo (Doc. Coletivo Entidades, 2011, p. 8).

 Destaca-se que é a esta compreensão de docência que as Entidades se reportam no Documento Coletivo, à medida que são apresentados os pontos que devem estar na base da organização da prova, quais sejam:

a) a compreensão do que seja uma escola pública de qualidade, considerados os condicionantes sociais que a determinam;

b) uma concepção docente vinculada a tal compreensão (grifos nossos);

c) o entendimento de que os conhecimentos da área, adquiridos no curso superior, constituem o substrato que dará condições de desenvolvimento das competências exigidas para o ingresso na carreira e a consequente atuação profissional.

As ideias de que a      pesquisa é “articuladora do trabalho pedagógico”, expressa no Documento      Coletivo das Entidades, no item A-CONHECIMENTOS DIDÁTICO- PEDAGÓGICOS,      Item 3) Organização e gestão do trabalho pedagógico (p. 12) e de que “os      processos educativos escolares são espaços de produção teórica, do      trabalho intelectual, sempre que possível articulada à práxis” (p. 7),      explicitam com maior clareza que o rigor conferido à Prova      de Concurso deve ser em nível superior

 Com vistas ao aperfeiçoamento da Matriz de Referencia a Anfope solicita que o processo das discussões no Comitê de Governança sobre a Matriz Referencial tenham continuidade, como tem sido historicamente realizado.

 Goiânia, 08 de julho de 2011.

 Iria Brzezinski

p/ Diretoria da Anfope

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Deu no que deu – II

Postado originalmente 10/07/2011

Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope), Centro de Estudos Educação e Sociedade (Cedes), Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae)

 Senhora Presidente do Inep,

 As Entidade de Ensino e Pesquisa em Educação participantes do Comitê de Governança, na condição de titulares e suplentes Anfope, Cedes Anped e Anpae, vêm  comunicar  a VS. que reconhecem avanços no Documento Aberto apresentado ao Comitê de Governança, pelo INEP, ao ser comparado aos Documentos anteriores sobre Matrizes Referenciais para a Prova Nacional de Concurso para Ingresso na Carreira Docente: Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental .Em face a isso, as Entidades renovam o compromisso de aceitar o Documento Aberto apresentado ao Comitê de Governança, considerando que este marca uma nova dimensão na concepção da prova, e também revela um processo em continuidade.Cada entidade, por certo, ainda tem contribuições que poderão encaminhar ao INEP com o intuito de fazer acréscimos ao referido Documento Aberto.

Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope)

Iria Brzezinski

Centro de Estudos Educação e Sociedade (Cedes)

Ivany Pino

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped)

Dalila Andrade de Oliveira

Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae)

Márcia Ângela Aguiar

 Brasília, 08 de julho de 2011

 Sra. Profa. Malvina Tânia Tuttman

Presidenta do Inep

Brasília-DF

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8 de julho de 2011: Dia de luto para a profissão

Postado originalmente na Uol em 10/07/2011

O dia 8 de julho de 2011 será lembrado como a data em que a maior central sindical dos trabalhadores da educação (CNTE) e quatro entidades científicas da área da educação (ANPED, ANPAE, CEDES e ANFOPE) associadas ao CONSED e UNDIME lançaram a política de formação dos professores na ótica dos testes de credenciamento. Não se pode deixar de notar a omissão do FORUNDIR – Fórum de Diretores de Faculdade de Educação – cuja voz não se ouviu.

É, portanto, um dia de luto. A profissão perdeu uma batalha importante. Não perdemos no campo de luta, infelizmente. Perdemos nas mesas de negociação entre estas entidades e o MEC-INEP. Sabemos que não podemos ganhar todas. Mas, pelo menos, devemos brigar por todas. Quando ao final de uma batalha bem dada, perdemos, lamentamos, mas resta o consolo de ter lutado. Não é o presente caso.

A CNTE, Undime e Consed sempre apoiaram o Exame. As entidades científicas esboçaram uma reação ao Exame, mas se contentaram em jogar o jogo do INEP, pretendendo melhorar o Exame. Ao invés de pautar o debate e denunciar as consequências do Exame, retirando-se dele se fosse necessário, investiram em um caminho sem volta que culmina, agora, no dia 8 de julho com a carta coletiva das entidades científicas aceitando a matriz de referência do INEP para a realização do Exame. Dando as costas à evidência científica e ao próprio senso comum, que indicam que não se pode avaliar a formação de um professor com testes de lapis e papel; e apesar das consequências negativas já contabilizadas em outros países que seguiram este caminho, este conjunto de entidades – incluíndo as científicas – oficializou o Exame.

E não é ninguém da “direita” que está na liderança destas entidades.

Com o apoio de suas principais entidades, foi feito um grande mal para a profissão dos professores neste país.

Dia 8 de julho é um dia de luto.

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Fraude em Atlanta é investigada

Postado originalmente na Uol em 10/07/2011

Nos links abaixo você pode acessar os relatórios da investigação:

 Vol. 1: Special Investigation Into Test Tampering in Atlanta’s School System (pdf)

 Vol. 2: Special Investigation Into Test Tampering in Atlanta’s School System (pdf)

 Vol. 3: Special Investigation Into Test Tampering in Atlanta’s School System (pdf)

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Termina a investigação nas escolas de Atlanta

Postado originalmente na Uol em 10/07/2011

Conforme divulgamos anteriormente, o distrito escolar de Atlanta (USA) dirigido pela poderosa Beverly Hall, Superintendente do Ano (2009), adepta das reformas empresariais, estava sendo alvo de uma investigação do Estado, a partir de denúncias que davam conta de que estava havendo adulteração da pontuação dos alunos para que Atlanta obtivesse os grandes avanços no desempenho de seus alunos.

Como diz um dos pais na reportagem abaixo, isso não é uma particularidade de Atlanta mas faz parte de uma disfunção geral, muito mais ampla, que afeta a educação americana e a forma como acolheu e implementou as teses dos reformadores empresariais naquele país. As autoridades e as escolas são pressionadas a mostrar avanços e terminam optando por aderir a fraudes que valorizam o resultado dos alunos nos testes.

Fraude sistemática é encontrada no Sistema Escolar de Atlanta

Por Kim Severson

Publicado em: 05 de julho de 2011 New York Times, USA

ATLANTA – Uma investigação do Estado divulgada terça-feira mostrou fraude desenfreada e sistemática nos resultados dos testes nas escolas públicas há muito conturbadas desta cidade, encerrando dois anos de ceticismo crescente sobre as melhorias notáveis exaltadas pelos dirigentes das escolas. O inquérito revelou que a administração da ex-superintendente Beverly L. Hall puniu delatores, escondeu ou manipulou informações e alterou documentos.

Os resultados da investigação, divulgados pelo Governador Nathan Deal, mostrou que a fraude ocorreu em 44 escolas e envolveu pelo menos 178 professores e diretores, quase metade dos quais confessou, disse o governador.

Continue lendo em (inglês):

http://www.nytimes.com/2011/07/06/education/06atlanta.html?_r=1&ref=education

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Reformadores em ação na mídia

Postado originalmente na Uol em 12/07/2011

A Folha de São Paulo de 11-07-2011 é dedicada, no assunto educação, a fortalecer as ideias dos reformadores empresariais.

Logo na página de Tendências e Debates abre-se espaço para Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco e que chefiou a divisão de desenvolvimento social do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Sua conclusão: “Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser um desafio estratégico para a sociedade brasileira. É preciso que tenhamos consciência de que, neste estágio de desenvolvimento do país, o médio é fundamental.”

Cara Wanda, o médio sempre foi fundamental. Vocês não tinham percebido, porque vocês só olham para a educação na dependência do “estágio de desenvolvimento do país”, ou seja, na dependência de quanto a falta de educação incomoda o capital, o lucro dos Bancos.

Em seguida, a Folha estreia sua inserção em bases de dados do INEP. É uma tendência da mídia nos Estados Unidos, processar bases de dados dos governos e tirar suas próprias conclusões – não raramente, orientadas por seus vieses ideológicos. A folha.com não foge disso.

Dentro desta matéria, primeiro alguns dados – até úteis – e outros que são rapidamente inseridos na maquiagem ideológica:

1. Turma privada é mais cheia que pública. No interior da matéria, os especialistas destroem a ideia de que turma maior é melhor, mas a imagem que a chamada do editor passa é que se a escola privada é melhor e tem turmas maiores, então ela é a) boa mesmo; b) não é motivo para as escolas públicas não ensinarem, mesmo que suas turmas sejam grandes. Não importa que o nível socio-econômico da turma seja alto ou baixo, se tem mais miseráveis ou não, se tem mais alunos com necessidades especiais ou não. É uma questão numérica.

2. Logo abaixo da matéria, o complemento. Abre-se espaço para o mais novo representante dos reformadores empresariais, Fernando Veloso – que já contestei aqui inúmeras vezes por sua fragilidade no conhecimento das receitas que sugere – para que ele possa dar a solução (que a Folha espera): louvar as escolas charters americanas – que já questionei aqui com dados da própria pesquisa americana. Mas Fernando vai mais longe agora. Ele quer que o MEC faça no Brasil o que o Departamento de Educação faz no governo americano: “financiar a realização e a avaliação de experiências inovadoras e fornecer recursos para a criação de bases de dados”. (…) Com se já não bastasse o INEP. “A construção de um sistema que estimule a adoção e a avaliação de iniciativas inovadoras tem grande potencial para elevar a qualidade da educação no Brasil.” Esta conversa de “inovação” também pode ser encontrada no texto da reforma do Ministério da Educação – já comentada aqui – e que foi publicada no Diário Oficial de 17 de maio último. Não há, de fato, nenhuma evidência conclusiva sobre se a qualidade das escolas charters são melhores que as escolas públicas americanas – apesar da vontade de Veloso.

3. Finalmente, abre-se espaço para José Francisco Soares, da UFMG e da empresa de avaliação educacional Avalia, refletir sobre a importância da “rotina pedagógica da escola”. O nome é bem sugestivo. Para os reformadores empresariais, a escola é como uma empresa. Ela tem uma rotina, uma espécie de linha de produção. Se você consegue colocar uma série de reloginhos que digam como está esta rotina, você consegue melhorar a escola. Esta é a lógica da padronização. Os reformadores empresariais partem do suposto de que há uma rotina objetiva que pode ser vista e medida no interior da escola e que tal rotina é passível de ser padronizada e portanto, controlada. Eles não conhecem como funciona uma escola fundamental, pois a última vez que estiveram lá foi quando estudaram nela, ou no máximo quando levaram seus filhos até a porta.

As vozes discordantes são localizadas no interior das matérias, enquanto a linha geral é garantida por reformadores empresariais escolhidos a dedo.

Como podemos ver, enquanto a CNTE, a ANPED, ANPAE, CEDES, ANFOPE gastam seu tempo tentando melhorar o Exame Nacional dos Docentes no INEP, a ser feito em 2012, o pessoal não perde tempo.

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Haddad admite interesse em eleições 2012

Postado originalmente na Uol em 12/07/2011

Haddad admite interesse em 2012, mas reconhece resistência do PT

Ministro da Educação tem apoio de Lula, mas admite que maioria do PT não endossa seu nome para a prefeitura paulistana

AE | 11/07/2011 10:15

O ministro da Educação, Fernando Haddad, admitiu em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que seu nome, com sua autorização, “está efetivamente sendo discutido” no PT como um dos possíveis candidatos do partido à Prefeitura de São Paulo, nas eleições municipais do ano que vem.

Continue lendo em:

http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/haddad+admite+interesse+em+2012+mas+reconhece+resistencia+do+pt/n1597074689006.html
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Professores do Rio mostram o caminho da luta

Postado originalmente na Uol em 13/07/2011

Professores boicotam exame que avalia escolas

Ruben Berta – 12/07/2011 – O GLOBO – RIO

 Frequência cai e secretário diz que provas de diagnóstico da rede estadual foram até pichadas com palavrões

O boicote promovido pelo Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) ao exame bimestral de diagnóstico de desempenho da rede estadual de ensino, o Saerjinho, está causando polêmica entre a entidade e a Secretaria de Educação.

O governo alega que muitos profissionais têm incitado alunos a não fazer os exames de português e matemática usando informações incorretas. A direção do Sepe nega, mas admite a campanha contra o teste, que pode durar até o fim do ano letivo. Dados iniciais mostram que a frequência deve cair de 83% nas provas do primeiro bimestre para cerca de 75% no segundo.

Continue lendo em:

http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/17428/professores-boicotam-exame-que-avalia-escolas/

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As tabuletas de Ioschpe

Postado originalmente na Uol em 13/07/2011

Precisamos convencer Macaco Simão, o esculhanbador geral da república, a tomar a educação como tema de suas reflexões diárias. Como ele mesmo diz, este é o país da piada pronta, e certamente lá encontraria muito material para suas análises diárias. É o caso das tabuletas que o Gustavo Ioschpe quer colocar nas portas das escolas anunciando o IDEB delas. Mas não qualquer tabuleta, convenhamos. Uma tabuleta na porta da escola precisa ter a assinatura de um publicitário de peso, pois é uma tarefa difícil, daí que Nizan Guanaes já se prontificou a fazer a tal tabuleta na sua empresa.

Certamente G. Ioschpe teve esta ideia depois de uma noite mal dormida e como tem o hábito de escrever na Veja, foi lido por outro que resolveu fazer uma lei. Claro, por que não uma lei?

Em que se baseia a concepção de educação de G. Ioschpe, diplomado pela Veja como especialista da educação? Uma combinação de ideias requentadas que implicam em submeter a educação à competição, à vergonha e à cobrança. Esta concepção educacional, defendida pelos reformadores empresariais da educação, parte do suposto de que estas “virtudes” que funcionam na área dos negócios, também deveriam funcionar na área da educação.

Aliás seria muito interessante colocarmos uma tabuleta, concebida pelo Guanaes claro, na porta dos hospitais indicando qual o índice de mortalidade por infecção hospitalar; ou ainda uma tabuleta bonita na porta da Delegacia do bairro indicando qual o índice de criminalidade local. E assim por diante. Uma tabuleta nas portas das Faculdades de Economia indicando qual o índice de previsão de crises conseguido, também seria interessante. Mais ainda, não só onde há serviço público, mas nas que são administradas pela iniciativa privada também. Nem os americanos que lidam com estas ideias há 20 anos ou mais tiveram a criatividade de G. I. , comprovando de fato que este nosso país é o país da piada pronta.

A tese dos reformadores diz que um negócio (a educação é um negócio como qualquer outro para eles) submetido a competição, melhora a mercadoria ou serviços que produz. Para tal, há que divulgar os rankings dos negócios para o público. É como na bolsa de valores, você precisa saber da saúde das empresas para comprar ações delas. Os rankings orientam o investidor. Cada pai é como se fosse um “pai-investidor”. Ele confere na tabuleta de G. I. o IDEB da escola e aí entra o segundo conceito em jogo: a vergonha. G. I. acha que neste momento, os país vão se revoltar e colocar em cena o terceiro conceito, cobrar a escola a qual envergonhada, melhora. Estas teses são as mesmas do falido programa federal americano No Child Left Behind, implantado na era Bush inspirado na fraude do Texas.

Mas cuidado, leitor. Não pense que o modelo termina aí. Não. Ele tem outros passos. Depois de consolidada esta fase, o que se procura de fato é levar o modelo dos negócios às últimas consequências. Ou seja, na filosofia do “pai investidor”, o dinheiro deve ser dado ao pai (na forma de vouchers) e o pai decide para qual escola dá o voucher, definindo em qual escola matricular seu filho, orientado pelas tabuletas de G. I. Este é o estágio final dos reformadores, expresso no trabalho de Chubb and Moe dos anos 90, aplicado em larga escala nos Estados Unidos e que não melhorou em nada a educação americana que há dez anos está atolada na média do PISA – se já estava antes atolada, não se sabe, pois não havia PISA antes disso.

Estas ideias movem um mercado de quatro bilhões de dólares nos Estados Unidos. É muita grana. Isso explica o repentino interesse da área dos negócios na educação. G. I. é um homem de negócios. Só a Veja acredita que ele seja um “especialista em educação”.

D. Campbell, em 1976, alertou o mundo contra estas falácias dizendo: “Quanto mais um indicador social quantitativo é utilizado para fins sociais de tomada de decisão, mais sujeito ele estará à pressão de corrupção e mais apto ele estará a distorcer e corromper os processos sociais que se pretende monitorar” (p. 49).

Qual a primeira consequência que devemos esperar se esta lei for implementada?

Os resultados da Prova Brasil que servem para compor o índice do IDEB vão perder cada vez mais confiabilidade. A pressão, conduzirá à fraude. Já sabemos que ocorre fraude no SARESP em São Paulo e temos o recente exemplo americano do Distrito de Atlanta onde 44 escolas e nada menos do que 178 diretores e professores se envolveram em fraude para valorizar as notas dos alunos e justificarem grandes avanços escolares.

A segunda consequência. Submeter as escolas e seus profissionais à vergonha e à pressão, romperá as relações da escola com a comunidade. Isso é um crime, pois sabemos das intrincadas relações sociais que existem entre a escola e sua comunidade. Desgastada, vilipendiada e envergonhada, os melhores profissionais desertarão destas escolas ou da profissão, a tensão entre a comunidade e a escola aumentará – depredações, furtos e outras agressões podem aumentar com o desgaste da instituição escolar perante a comunidade.

Quando toda a pesquisa aponta para a importância do efeito vizinhança sobre a escola; quando se tenta valorizar uma boa relação da escola com a vizinhança e vice-versa, vem uma ideia maluca sugerir que a comunidade pressione a escola, colocando estas duas instituições em linha de choque. É o poder da Veja. Neste país se faz política pública e leis sem levar em conta as evidências científicas. Basta sair na Veja ou em um relatório da OCDE para ser considerado verdade.

Sabemos que 50% ou mais
variáveis que definem o rendimento escolar estão fora da escola. E aí chegamos ao ponto em que G.I. chega às beiras do ridículo acadêmico. Reconhecer o peso destas variáveis, não é reconhecer que o aluno é ineducável. Mas é reconhecer sim, que para que seja educável são necessárias medidas que não se esgotam no interior da escola – a começar pelas políticas públicas às quais G. I. não se refere.

Através de uma lógica falha, G. I. tenta demonstrar que Shangai, na China, é líder no PISA apesar de ter muito mais pobreza na escola do que o Brasil. Belo raciocínio. G. I seria reprovado em um Trabalho de Final de Curso de Graduação se escrevesse isso, fora das colunas da Veja. Mas na Veja, como a questão é ideológica, pode.

Ora, quem disse que relatórios da OCDE são confiáveis? Conheço trabalhos da OCDE que não passaram em revisão de pares nos Estados Unidos e já divulguei pelo menos um deles neste Blog. Ocorre que para os reformadores empresariais é Deus no céu e a OCDE na terra – ou seja, é uma questão de fé e não de ciência.

Shangai é uma cidade muito especial da China. Não representa a China. Shangai é só Shangai. Não se pode estender os resultados de Shangai para a China como um todo. A cultura chinesa é completamente diferente da brasileira. Não se pode fazer comparações simplesmente numéricas sem levar em conta os fatores culturais.

Mas o charlatanismo acadêmico e ideológico não tem limite. G. I. tenta se apropriar dos resultados positivos de Shangai para justificar sua tabuleta. Uma lógica canhestra. Shangai é o primeiro no PISA e ensina alunos miseráveis em maior proporção que o Brasil, logo colocar tabuleta nas portas das escolas brasileiras, procede.

A lógica deveria ser outra meu caro G. I.: se Shangai é a melhor do mundo, ensina miseráveis em maior proporção, etc. e faz isso sem por tabuletas nas portas das escolas, logo é desnecessário para melhorar a educação brasileira e ensinar os miseráveis no Brasil, colocar tabuletas nas portas das escolas. G. I. se apropria de um resultado positivo tentando sugerir que ele reforça suas brilhantes ideias. Socorro Macaco Simão…

Nem Shangai, nem Finlândia usam tabuletas. E não é só isso. Não usam as ideias dos reformadores empresariais americanos e brasileiros. E são os primeiros no PISA. Porque os reformadores empresariais pararam de falar da Finlândia? Simplesmente porque ela não usa as brilhantes ideias dos reformadores. Porque não falam da Suécia, onde um inteligente sistema combina as notas das provas nacionais (como o nosso IDEB) com a opinião dos professores das escolas sobre o aluno, valorizando os profissionais da escola (não submetendo-os à vergonha), humanizando o processo de avaliação e tendo dados mais fidedignos para projetar a aprendizagem futura do aluno? A resposta é simples: isso não implementa os “negócios educacionais” e a Veja não publica.

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CENPEC: estudo revela segregação

Postado originalmente na Uol em 13/07/2011

Localização da escola influencia aprendizado

Em áreas altamente vulneráveis, cerca de 50% dos alunos com baixos recursos culturais familiares têm desempenho abaixo do básico

Agência Estado – Hoje em Dia, 12/07/2011

Alunos com o mesmo perfil sociocultural têm desempenhos diferentes de acordo com o índice de vulnerabilidade social do local onde fica a escola em que estudam. A conclusão é da pesquisa Educação em Territórios de Alta Vulnerabilidade Social na Metrópole, que avaliou o impacto da localização do colégio na educação. (…)

A pesquisa é de Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Fundação Tide Setubal, Fundação Itaú Social e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 61 escolas públicas de Ensino Fundamental da subprefeitura de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.

Continue lendo em:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,localizacao-da-escola-influencia-desempenho-do-aluno-revela-pesquisa,743726,0.htm

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Rio: de costas para o debate

Postado originalmente na Uol em 16/07/2011

A Secretaria Municipal do Rio antecipa a lei de G. Ioschpe, de costas para o debate.

 Rio obriga escolas a divulgar nota em avaliação

DO RIO – Folha.com, 13/07/2011

As escolas municipais do Rio terão que afixar em suas portas, ou em outro local de fácil visualização, suas médias e metas a serem atingidas a partir das avaliações de qualidade feitas pelo governo federal e pela Secretaria Municipal de Educação. A medida será tomada por meio de um decreto que o prefeito Eduardo Paes publica nesta quarta-feira no “Diário Oficial” do município. A secretaria municipal de educação distribuirá um cartaz padrão onde deverão ser afixadas as médias e metas de cada escola. Os dois indicadores que deverão constar do cartaz são o Ideb e o IDE-Rio.

Leia mais em:

http://www1.folha.uol.com.br/saber/942760-rio-obriga-escolas-a-divulgar-nota-em-avaliacao.shtml

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Os liberais também sofrem

Postado originalmente na Uol em 15/07/2011

Quando retornei ao Brasil após auto-exílio no Chile, em 1974, por força das circunstâncias tive que ganhar a vida no campo da administração de recursos humanos. Durante seis anos, tive contato com inúmeras empresas multinacionais que estavam, então, reestruturando sua ação neste campo (e em outros) em função da mudança do paradigma da produção.

Vinham do modelo fordista e, este, não dava conta das novas exigências. Emergia o modelo Toiotista com profundas alterações na concepção de produção e na forma de organizar a força de trabalho.

Aprendi algumas coisas com esta experiência. A primeira delas foi que as grandes corporações preferiam construir fábricas novas ao invés de investir no remodelamento das existentes. Às vezes, vendiam a antiga e ao lado construíam a nova. Que significava isso? Uma interação muito forte entre arquitetura e a concepção produtiva. De fato, a nova concepção – baseada em ilhas de produção e não mais em linha de produção – não cabia na forma antiga. Tentar adequá-la seria caro demais e pouco eficiente.

O segundo aspecto da aprendizagem – e este é bem situado historicamente, pois perdi contato com a área: dinheiro, não é tudo no processo de motivação. Leio isso até hoje em alguns escritos de estudiosos dos incentivos da área empresarial. Os empresários estavam muito mais interessados em pessoas “intrinsecamente motivadas” do que “extrinsecamente motivadas”. Ou seja, não queriam pessoas unicamente movidas a dinheiro. Diziam, com razão, que motivações extrínsecas são mais efêmeras do que motivações intrínsecas. Mais ainda, que a motivação extrínseca tem por suposto a existência de uma motivação intrínseca. Não se trata de que a motivação extrínseca não tenha efeito, a questão é que não é duradouro ou gera contra-controle cujo custo de gerenciamento é alto.

Na época ainda se investia em recursos humanos com a perspectiva de reter o funcionário na empresa. A partir dos anos 80 esta relação rompeu-se. A empresa admite e demite pessoas em função do fluxo de vendas. Não há mais interesse em manter o funcionário, em geral, por muito tempo. A precarização do trabalho intensificou-se. É a flexibilização da produção para garantir não imobilizar dinheiro em estoque com mercadorias paradas – produz-se o que já foi vendido.

Saído de um treinamento pesado em minha graduação e pós-graduação sobre técnicas de controle do comportamento humano (na graduação fiz a célebre disciplina de laboratório animal baseada no livro de Keller and Schoenfeld, com direito a experimento em laboratório com ratos e tudo o mais; e na pós fiz psicologia experimental no famoso B10 do Instituto de Psicologia da USP, com a grande Carolina Bori, ex-presidente da SBPC – no tempo em que esta entidade era notada) estes resultados logo fizeram sentido. Alí “instalávamos” ou “eliminávamos” comportamentos em ratos e logo a questão da “manutenção” do que era instalado ou eliminado aparecia. O famoso livro “Schedules of Reinforcement” – esquemas de reforçamento – era o ápice do conhecimento à época. Tudo isso era regado a B. F. Skinner e seus livros “Ciência e Comportamento Humano” e “Tecnologia do Ensino”. Nos Estados Unidos, T. Gilbert montava uma das primeiras empresas de “engenharia comportamental”. A despeito das discordâncias que foram se consolidando, aprendi muito sobre ciência e metodologia.

A leitura do livro de Skinner “Ciência e Comportamento Humano” continha um capítulo sobre “Controle do Comportamento Humano”. Todo reformador empresarial da educação deveria ler este capítulo. Alí – estou citando de cabeça – encontrará um conceito chamado “Contra-Controle”.

A tese skinneriana é mais ou menos a seguinte: todo controle gera um contra-controle. Planejar o controle, implica em levar em conta o contra-controle. É um jogo de gato e rato ou, mais elegantemente – de tática e estratégia. Mas, note bem, há um custo para o contra-controle e que não é apenas financeiro, gera ansiedade, raiva, sabotagem, fraude etc.

Como behaviorista à época e praticante de todas estas teses, as conheci por dentro. E quanto mais as conheci, mas se concretizou a decisão de abandoná-las em 1984. É muito curioso reencontrar estas teses após mais de 20 anos que as deixei, no cenário educacional presente.

Por outras linhas de raciocínio, D. Campbell, o famoso autor de “Delineamentos Experimentais e Quase-Experimentais em Educação” chegaria a conclusão parecida:

“Quanto mais um indicador social quantitativo é utilizado para fins sociais de tomada de decisão, mais sujeito ele estará à pressão de corrupção e mais apto ele estará a distorcer e corromper os processos sociais que se pretende monitorar”.

Por que estou dizendo tudo isso? Os reformadores empresariais acham, na trilha do behaviorismo skinneriano, que os incentivos podem ser planejados e que os problemas de contra-controle são questões técnicas de ajuste que a pesquisa e a prática resolverão.

Penso que a prática demonstrará, como vem demonstrando, que estão equivocados. Skinner chegou a isso guiado por uma concepção positivista sobre o ser humano e as leis que o regem. Basta ler o seu livro “Comportamento Verbal”. Os reformadores empresariais da educação acham que é uma questão de “manejar adequadamente os incentivos”. Essa tese supõe que só os reformadores são inteligentes e os professores são dóceis corpos a serem moldados por suas “contingências de reforçamento”, sem pensar.

Tome o caso da utilização de bônus na rede pública estadual de São Paulo: primeiro deram bônus para o professor individualmente. Com a crítica à prática da individualização da responsabilidade de uma atividade complexa como a do ensino, centrada no professor, passaram a dar bônus para a equipe. Mas aí precisava controlar o fato de que as escolas poderiam investir nos melhores alunos para aumentar suas notas e não nos alunos que mais precisavam aprender, abaixo da média. O esforço era menor lidando com quem já sabia. Então veio à luz o Idesp que exige que a escola tenha crescido no desempenho dos alunos que estão abaixo da média. Resultado: o montante do valor de bônus distribuído em 2010 é a metade do que foi distribuído em 2009. Teria o magistério perdido o interesse no bônus, ou teria o bônus ficado inacessível? Ou ambas?

Em outros países a tragédia não foi diferente. Nova York dava bônus baseado no desempenho do professor em um ano de atividade escolar, isso mostrou que não havia estabilidade nos modelos de análise que calculavam os bônus. Passaram para três anos a base de dados – e continua não havendo estabilidade nos modelos. Ao que sei, neste ano estão dando bônus iguais para todos os professores e não mais diferenciados por desempenho. É isso que chamo de gato e rato. E não tem fim. Em Atlanta, como divulguei neste blog, 178 professores e diretores fraudaram (metade confessou) os testes do Estado para ficarem bem na cena. A Secretária da Educação recebeu 230 mil dólares em bônus em 2010. A investigação que seguiu mostrou a existência de uma “conspiração do silêncio” nas escolas a favor das fraudes e a punição daqueles que se rebelavam contra tais fraudes, tudo com aval da Secretaria.

Eis a questão. Isso nos leva ao fato com o qual comecei: a própria arquitetura física e social da escola. Nossa escola foi concebida para excluir alunos e não para ensinar a todos. Isso não é uma invenção do professor ou do diretor, é uma necessidade de nossa organização social que fixou esta função social para a escola: excluir ao longo da formação. Superpor a esta estrutura a pressão de bonificações, gera contra-controle pesado. Elas mexem com a vida das pessoas, e estas contra-controlam para sobreviver.

Os reformadores empresariais querem que esta instituição, de repente, a partir de bônus para seus profissionais e apostilas, passe a ensinar e incluir a todos. É a utopia liberal que, por um lado, não quer perder a boquinha do lucro extraído com a geração de pobreza na sociedade, mas por outro, fica com remorso (falo dos mais honestos) com este fato e quer que as escolas corrijam esta distorção internamente, pelo menos na falaciosa tese da “oportunidade para todos” o que não significa garantia de “resultados para todos”.

Os liberais nunca se deram bem com o fato das pessoas terem direito a resultados iguais na educação básica. Eles preferem dizer que devem ter oportunidades iguais. Isso pode valer para a Universidade, onde as aptidões falam mais forte, mas na educação básica, não. É direito a ter resultados iguais (mesmo que em áreas diferentes de atuação) e não apenas oportunidades iguais. E, mais, tais oportunidades não podem segregar determinadas classes sociais em determinadas profissões.

De fato, nós que criticamos o liberais, somos muito mais exigentes com a escola do que eles -apesar deles quererem aparecer como os paladinos da defesa dos direitos dos pobres à aprendizagem. Como mostram os estudos de valor agregado, as crianças já chegam desiguais à escola. Responsabilizar a escola por ser a única redentora desta desigualdade criada pela sociedade do lucro, é não enfrentar o problema de frente.

Como se pode ver, os liberais (honestos) também sofrem.

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Ioschpe na pré-história

Postado originalmente na Uol em 16/07/2011

Aos que quiserem saber onde vai dar esta história do Ioschpe querer colocar tabuletas com o IDEB nas portas das escolas, entrem no site do Ministério da Educação do Chile, no link abaixo.

mapas de Lavín

Lavín é o Ministro da Educação do Governo Piñera no Chile. Um requintado sistema de localização de escolas mostra com um esquema de cores qual o resultado da escola obtido em um exame nacional feito pelo Ministério (SIMCE). Algo semelhante se fez no Estado de São Paulo, no passado, tentando dar cores e letras para as escolas.

Como se pode ver, as tabuletas de Ioschpe são coisa do passado, é a pré-história dos reformadores empresariais. Com tanta tecnologia, ele ainda está na época das tabuletas… Mas isto não é o principal, é só uma brincadeira. O fato é que sua proposta não tem nada de original, faz parte de uma agenda internacional (no Chile bem mais criativa) dos reformadores empresariais.

Até mesmo reformadores empresariais mais informados criticam esta estratégia.

Como em São Paulo, onde cores e letras não funcionaram, o SARESP está em queda, as tabuletas terão igual destino.

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Avaliação e motivação

Postado originalmente na Uol em 17/07/2011

Ao contrário da educação, onde a mídia improvisa um “especialista em educação” por mês, a área da medicina não se porta assim. E nem a mídia se atreve a inventar “especialistas em medicina”. É gente da pesada, com prestígio social, lida com a vida de todo mundo e todo mundo respeita. Educadores não. São corporativistas, preguiçosos – só funcionam com bônus -, enfim, uma gente detestável.

Hoje, um médico do porte de Miguel Srougi (USP) ocupa a página três da Folha de S. Paulo (17-07-2011) para dizer o seguinte a propósito de críticas que foram formuladas ao Hospital das Clínicas de São Paulo:

“E quero enfatizar que dirigir ao HC acusações injustas pode produzir desalento irremediável numa instituição que representa uma das últimas esperanças de atendimento digno e competente para os mais desprotegidos da nossa sociedade”.

A situação de escolas que estão agora em risco de receber as tabuletas do Ioschpe com a nota do IDEB estão na mesma situação. O IDEB é falho. Os debates sobre o IDEB no contexto do Plano Nacional de Educação, confirmam isso. Escolas e seus profissionais correm o risco de receber avaliações públicas que não correspondem a elas. O efeito desmotivador irá instalar-se.

Avaliações como o IDEB além de precisarem ser reformuladas, são avaliações de políticas públicas e não de escolas.

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Olho no Chile, Dilma.

Postado originalmente na Uol em 17/07/2011

Em postagem anterior mencionei os mapas de Lavín. Lavín é Ministro da Educação de Piñera, Presidente do Chile.

Esta semana os estudantes chilenos estão nas ruas pedindo ensino gratuito. Pinochet privatizou tudo e reduziu os investimentos públicos em educação à metade. Os que vieram depois, nada fizeram. A crise vai se arrastando.

Hoje, foi divulgado que o índice de aprovação nacional do Governo de Piñera é de apenas 31%. Mas, detalhe, é a menor avaliação que um governo chileno tem nos últimos 40 anos.

Olho no Chile, Dilma.

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Reformadores se encontram em setembro

Postado originalmente na Uol em 17/07/2011

 Os reformadores empresariais da educação têm encontro marcado para setembro entre os dias 13 e 16. Com o título: “Congresso Internacional  “Educação: uma agenda urgente”, temas como Justiça pela qualidade da Educação, Regime de Colaboração, Definição das Expectativas de Aprendizagem, Formação inicial do professor, Carreira do professor, Avaliações externas e seu uso da gestão educacional, Educação integral, Equidade e inclusão, serão tratados. Haverá também, no dia 16 de setembro, uma sessão especial: Movimentos pela Educação na América Latina.

A agenda brasileira será acertada com a agenda internacional dos reformadores neste evento. Aguardem.

A mídia vai dar cobertura total.

Patrocinam o evento: Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, Fundação Educar, Fundação Itau Social, Instituto Gerdau e Itau.

Apoiam: Agencia Tudo, Canal Futura, Conselho Nacional de Educação, Confederação Nacional da Indústria.

Apoiam institucionalmente: Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e Grupo de Institutos Fundações e Empresas – GIFE.

Parceiros: Associação Brasileira de Magistrados, Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação, INEP, MEC, SBPC, UNESCO, União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e UNICEF.

É pouco?

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Fracasso faz Nova York suspender bônus

Postado originalmente na Uol em 19/07/2011

Como as evidências vinham sugerindo, programas de bônus para professores (individualmente ou coletivamente (escola), com base em um ano de dados de alunos em provas ou em mais anos, além de não terem a eficácia alardeada pelos reformadores ainda geram contra-controle custoso. Fazer experiências com redes inteiras é falta de responsabilidade. Deveria dar processo por improbidade administrativa.

A Cidade de Nova York, meca dos reformadores empresariais brasileiros, suspendeu seu programa depois que um estudo da RAND não encontrou evidências de efeito positivo. A pergunta é: como vai ser recuperada a motivação dos professores? Suspender o programa é fácil, curar as feridas, é um pouco mais difícil. Os modelos de cálculo de valor agregado não têm estabilidade e mesmo que algum efeito positivo pudesse ter sido encontrado, ainda teríamos esse “osso duro de roer”: os cálculos geram falso positivo e falso negativo – como ficou claro em Los Angeles.

Nova York Abandona Programa de Bônus para Professores

Terça-feira 19 de julho, 2011

Por SHARON Otterman, The New York Times

Um programa da Cidade de New York que distribuiu US$ 56 milhões em bônus por desempenho para professores e outros membros do pessoal da escola nos últimos três anos vai ser permanentemente interrompido, informou o Departamento de Educação da cidade neste domingo.

A decisão foi tomada à luz de um estudo que descobriu que os bônus não tiveram efeito positivo tanto sobre o desempenho dos alunos como nas atitudes dos professores em relação a seus empregos.

Continue lendo aqui (em inglês).

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Estudo da Rand implode programa de bônus em NY

Postado originalmente na Uol em 19/07/2011

O leitor interessado em acessar o estudo completo da RAND que implodiu o programa de bônus em Nova York pode encontrá-lo no link abaixo, em inglês.

http://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/monographs/2011/RAND_MG1114.pdf

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Estado de choque

Postado originalmente na Uol em 20/07/2011

Os reformadores empresariais brasileiros estão em choque com a implosão do programa de bônus em Nova York. A razão é simples: eles têm uma dependência intelectual tão grande dos reformadores empresariais americanos que o que é bom para Nova York é bom para o Brasil, mas agora, terão que encontrar uma saída para a lógica oposta: o que não é bom para Nova York não é bom para o Brasil.

Não é esta a razão pela qual somos contra o bônus. Independentemente de Nova York se dar bem ou não, o fato é que os campeões do PISA não usam estas idéias extraídas da área dos negócios. Vão bem, obrigado, sem elas. E não é só a ideia do bônus que não usam.

Na literatura sempre se poderá achar (ou produzir sob encomenda a uma Fundação) um estudo que mostre algum alento para o uso de bônus.

Anos atrás, Maria Helena Castro dizia que “estudos internacionais mostram a eficiência”. Eu era ideológico quando discordava dela e ela era científica porque concordava com o bônus – baseada em estudos cuja fontes nunca eram reveladas.

Em postagem anterior, expliquei minha posição contrária ao bônus a partir do histórico behaviorista destas ideias. Eles, os reformadores, acham que podem “controlar” a escola como o Banco Central tenta (às vezes sem sucesso) controlar a economia. Basta “desenvolver um modelo”.

Agora, na Folha de SP de hoje (20-7-2011) ela diz: “A medida lá certamente terá impacto aqui. As redes vão parar e pensar”. Que bom. Não estavam pensando. Bônus, no Brasil, era uma questão de fé. Agora, pelo menos vão pensar.

Mas não acreditem que ela tenha mudado de ideia, logo agrega: “Maria Helena afirma que ainda precisa analisar melhor a decisão tomada em Nova York. “Outras redes, como a de Washington, reforçaram a política de bônus”. Claro, o governo Obama dá dinheiro para tais políticas e uma forma de obtê-lo é coloca-las em prática, independentemente de sua eficácia, como mostrou a experiência aqui relatada por nós em Atlanta, com as fraudes.

Mas mesmo em Washington a aplicação destas ideias custou caro a Michele Rhee, musa dos reformadores empresariais. Ocorre que sua política educacional foi parte da razão pela qual o prefeito de Washington não se reelegeu e ela ficou sem emprego. Washington não é referência.

Precisa ter muita fé para achar que algo pode ir bem na política educacional americana, há dez anos estagnado no PISA e sem alterações significativas nos exames nacionais.

Até G. I. (Gustavo Ioschpe) agora faz ressalvas: “A ideia de que o sistema de incentivos pode ser decisivo por si só sempre me pareceu otimista demais”.

Os reformadores vão adotar agora duas posições principais:

1.       Vão dizer que é preciso mais pesquisa; que os dados são controversos. Por um tempo, até acharem algum experimento da Mackinsey, do BID ou da OCDE vão ter esta posição.

2.       Vão dizer que o bônus tem que ser combinado com outras ações.

Mas aqui há um problema ético que tenho denunciado. Os reformadores empresariais estão fazendo experimentos anti-éticos com redes inteiras aplicando ideias que não têm base em pesquisa. E não é uma ou outra pesquisa. Em revisões do estado da arte, as quais levam em conta tanto experimentos que funcionam como os que não funcionam, os bônus não têm sido aprovados e considerados prontos para virar política pública. Isso não é ciência, é “business” por um lado e “política de governo apressado” de outro.

A recente revisão do estado da arte feita pela Nacional Academy of Sciences americana é muito mais importante do que o experimento da RAND que implodiu Nova York ou que a própria decisão do Departamento de Educação de suspender o bônus. No entanto, foi solenemente ignorada pelos reformadores empresariais brasileiros.

Não se pode, pela ética e pela probidade administrativa, fazer experimentos com redes inteiras. Nos últimos anos, São Paulo vem fazendo isso sistematicamente. O SARESP não teve nenhum impacto. A olho nu, quando o bônus foi implantado em 2008 a média era de 272. Em 2009 foi para 274 e em 2010 caiu para 265. Entretanto, não há estudos sistemáticos que estabeleçam um link causal entre estas ações (bônus e queda no Saresp).

Independentemente disso, não é ético submeter uma rede inteira a procedimentos não claramente compreendidos. E não se faz experimento com redes. Experimentos são válidos mas em situações controladas.

Quem responde pelo gasto de 340 milhões em bônus no Estado de São Paulo, sem nenhuma consequência para a qualidade do ensino? Pior, desestruturando a profissão do magistério. Os Tribunais de Contas do Estado deveriam abrir uma investigação para responsabilizar os governadores que aplicaram ideias sem base científica com custo para os cofres públicos – é questão de improbidade administrativa. O TCU, por muito menos, fiscaliza o custo benefício dos programas federais.

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Apostilas: mercado em expansão

Postado originalmente na Uol em 21/07/2011

Quase metade das cidades paulistas usa apostila nas escolas municipais

 O número de prefeituras que adotam sistemas apostilados passou de 187 para 282, entre 2008 e 2011; de olho no aumento da demanda, empresas desenvolvem material específico para a rede pública, diferente do que chega aos colégios particulares

Ocimara Balmant – O Estado de S.Paulo – 21 de julho de 2011 | 0h 00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Andrea Vialli

 Dos 644 municípios do Estado de São Paulo, 282 – ou 44% – utilizam sistema apostilado de ensino, de acordo com levantamento feito neste ano pelo Anglo, um dos mais tradicionais métodos do País. Dentre eles estão 115 cidades que abandonaram totalmente os livros didáticos, distribuídos gratuitamente pelo governo federal, e outros que continuam utilizando o material, mas também aderiram às apostilas.

Continue lendo em:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110721/not_imp747606,0.php

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Pesquisa, só quando convém…

Postado originalmente na Uol em 21/07/2011

Como antecipei, eles não mudam. Assim se portam os reformadores empresariais da educação: quando as pesquisas os contrariam, dão de ombros. Dizem que é bobagem.

Em qualquer outra área, isto não seria possível. Na educação, pode.

Bônus, no Brasil, é questão de fé. Na realidade, é mais que fé: é “business”.

Professor esforçado deve ganhar mais?

Gilberto Dimenstein

Esse pergunta que faço aqui é estimulada pela decisão da cidade Nova York de suspender o pagamento de bônus para os professores, baseado no desempenho da escola. É um grande pretexto para quem é contra a premiação por mérito na educação atacar medidas semelhantes implantadas no Brasil. Bobagem. Não acredito que nenhuma instituição funcione sem um sistema de premiação do esforço. Do contrário, a preguiça e a mediocridade são recompensadas.

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/946114-professor-esforcado-deve-ganhar-mais.shtml

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Entrevista

Postado originalmente na Uol em 22/07/2011

Bônus para docentes não gera motivação, diz especialista

Ricardo Carvalho, da Carta Capital

21 de julho de 2011 às 15:04h

Após a divulgação dos resultados de um estudo comandado pela RAND Corporation, influente instituto de pesquisa que analisa políticas públicas nos Estados Unidos, a cidade de Nova York decidiu abolir permanentemente o programa que distribui bônus por mérito a professores do município. O Departamento Municipal de Educação nova-iorquino já havia suspendido temporariamente os pagamentos em janeiro devido a “preocupações quanto a sua eficácia”.

O programa, adotado pela primeira vez no ano letivo 2007-2008, distribuiu 76 milhões de dólares a docentes nos últimos três anos e é a inspiração da política de pagamento de incentivos do estado de São Paulo. Aqui, os professores que superam a nota estabelecida para a sua escola no Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação), que considera as provas do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar) e também dados da progressão escolas, podem receber até 2,4 salários adicionais no final do ano. Em 2010, foram 340 milhões de reais a professores e funcionários de mais de 70% dos colégios da rede.

A pesquisa coordenada pela RAND constatou que não havia desempenho superior entre os alunos cujos professores recebiam as bonificações e os estudantes matriculados nas demais instituições. “Nós não encontramos melhoras no desempenho dos estudantes em nenhum ciclo de ensino”, disse ao The New York Times Julie A. Marsh, pesquisadora-chefe do estudo. “Muitos diretores e professores viam os bônus como um reconhecimento e uma recompensa. Mas não era necessariamente algo que os motivava”. Outra hipótese para falta de eficiência da política é que as escolas da cidade norte-americana já enfrentam pressões para aumentar as notas de seus alunos, sob a ameaça de severas sanções. “Nesse ambiente, um pequeno bônus – que pode atingir 1,5 mil dólares por professor após descontar os impostos – talvez não seja significante”, relatou o jornal.

A nível nacional, o governo norte-americano é entusiasta das bonificações. Os repasses federais saltaram de 99 milhões em 2006 para 439 milhões no ano passado.

O professor de Educação da Unicamp e especialista em avaliações, Luiz Carlos de Freitas, faz duras críticas a essa política de meritocracia. Em entrevista a CartaCapital, ele qualificou de “mera cópia improvisada” o modelo adotado em 2008 pelo estado de São Paulo. “Essa forma de pensar vem da área dos negócios. Os reformadores empresariais acham que se puderem pagar mais aos professores cujos alunos se saem melhor nas provas, isso poderia ser um estímulo. Ocorre que os professores não entram nessa profissão motivados unicamente por dinheiro – como se fossem vendedores de carros interessados nas comissões”, destaca. Confira os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Como foi a adoção dessa política pelo governo de São Paulo? Nova York era tida como um exemplo a ser seguido?

Luiz Carlos de Freitas: Os reformadores empresariais brasileiros restauraram uma velha ideia do tempo da ditadura: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Nova York é tida como a meca para os reformadores brasileiros. Foi assim que, em 2008, o Estado de São Paulo embarcou nesta política. Primeiro foi o secretário de Educação John Klein a aplicar isso em Nova York. Com sua saída da secretaria, sob suspeitas de a cidade estar inflando as notas dos alunos com testes fáceis para acessar verbas federais, os que o sucederam mantiveram a política. O Obama impulsiona a política de pagamento por bônus disponibilizando recursos federais para quem as aplica. O que o Brasil tem feito é copiar tais ideias – e não é só a do bônus. Felizmente, aqui, o governo federal não embarcou nisso.Há um mês ou pouco mais a National Academy os Sciences americana divulgou um estudo sobre o estado da arte em aplicação de incentivos (bônus) nas escolas americanas e recomendou cautela com esta política. Já apontava que não havia efeitos positivos a serem comemorados com sua adoção. A própria RAND, que implodiu com seu estudo o programa de bônus de Nova York este mês, já havia alertado em pesquisas anteriores a não eficácia destas políticas. Mas há poderosas razões que fazem com que os reformadores empresariais da educação americana insistam nela: tais ideias giram um mercado de 800 bilhões de dólares. Dificilmente eles (e os nossos que estão construindo aqui seu mercado) vão aceitar o resultado destas pesquisas. No caso do Brasil, há pelo menos 15 secretarias de educação pensando em usar o sistema de bonificação.

CC: Quais as principais deficiências dessa política de bônus? Escolas localizadas na periferia, com maiores problemas de evasão escolar, por exemplo, não estariam em desvantagem?

LCF: É óbvio que há uma poderosa interação entre a escola e sua vizinhança – o “efeito vizinhança”, como tem sido chamado. Todos sabemos que os testes não medem somente competências e habilidades, medem juntamente, com isso, o “nível sócio-econômico”. Estigmatizar uma escola e seus profissionais que dão duro em condições adversas somente levará ao desânimo e ao abandono da profissão ou das escolas situadas nas periferias. Quem quer dar aula em uma escola que é apresentada à comunidade como “fracassada”? Quem quer dar aula em uma escola que não pode ser qualificada para ganhar bônus? Melhor procurar outras onde o esforço seja menor e mais garantido. Mas o problema maior é que você não pode isolar o efeito de um bom ou mau professor, sobre um aluno, dos outros professores que deram aulas a este aluno. Um aluno que teve um mau professor em um ano, continuará sentindo as suas consequências, mesmo que no ano seguinte caia com um bom professor. E este bom professor, por mais que se esforce, não poderá deixar de sentir, em seu trabalho, o fato do aluno ter estado antes com um mau professor. Se ele não recebe o bônus por causa destes alunos, certamente cairá no desânimo. Em um mesmo ano podem haver professores bons e maus, eles afetam os alunos e tais efeitos não são separáveis.

CC: O fim da política de bônus em Nova York ocorreu após um estudo revelar não haver diferenças de aproveitamento entre escolas que recebiam bonificações e escolas que não recebiam. Existe algum controle no modelo paulista?

LCF: O estudo da RAND foi a gota d’água. Mas antes já havia o estado da arte produzido pela prestigiosa Academia Nacional de Ciências americana, o qual foi solenemente ignorado pelos reformadores empresariais brasileiros. No caso de São Paulo, não há um delineamento experimental que procure investigar o programa de bônus. É mera cópia improvisada. Nova York é muito mais “controladora” do que São Paulo, com relatórios mais sistemáticos. Além disso, o Departamento de Estado contrata pesquisadores independentes para examinar seus programas. No Brasil há apenas “fé” nestes programas e quase nenhum estudo sistemático. Os reformadores convencem os governadores ou secretários de Educação a aplicar estas ideias, citando “estudos internacionais que provam sua eficácia”. Os governadores, com pressa de apresentar resultados antes das próximas eleições, embarcam nestes programas.

CC: Essa avaliação em São Paulo, baseada em grande parte nas provas do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar), é confiável?

LCF: Não existe sequer a possibilidade de análise independente das bases de dados do Saresp em São Paulo. Em geral, no Brasil, é muito precário o estágio de produção, aplicação e processamento dos testes. São feitos por empresas privadas contratadas pelos governos e seus resultados não são submetidos a auditoria. Não sabemos com que “saúde” tais provas são elaboradas e nem com qual metodologia são aplicadas e, seus dados, processados. Relatórios técnicos não são divulgados. Em geral, a apresentação dos resultados é feita por uma autoridade na forma de uma press release, em que ele destaca o que lhe interessa. Os Tribunais de Conta dos Estados precisam entrar na análise destas relações rapidamente. Quem paga o fracasso do programa de bônus em São Paulo que consumiu, no ano passado, 340 milhões de reais? É dinheiro do contribuinte que não gerou mais qualidade na escola. Temos que começar a cobrar “probidade administrativa” dos governos de forma que não se encantem com a primeira ideia que lhes seja apresentada, prometendo “milagre educacional a curto prazo”.

CC: Como é o debate da bonificação por mérito no restante dos EUA e em outros países?

LCF: Essas ideias penetraram na Europa também. Mas deve-se notar que os líderes do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), por exemplo a Finlândia, não usam essas ideias. Os Estados Unidos, que as usa há mais de 15 anos, estão há 10 anos estagnados na média do Pisa (desde que este iniciou) e nos testes nacionais não há melhora significativa. Há quem sustente que piorou.

CC: Você acredita que essa decisão de Nova York pode influenciar no fim dessa política também em São Paulo?

LCF: Pode arrefecer e fazer os governos pensarem um pouco mais. Em São Paulo, o Secretário de Educação (Herman Voorwald), desde que assumiu desconfia destas políticas. Por isso tem insistido na questão da carreira. Penso que há gente competente em São Paulo para aposentar a bonificação, mas há um entorno de defensores destas ideias mais antigos ligados ao PSDB que certamente dificultará esta decisão. Já era hora de São Paulo se livrar disso – ou vão passar mais vergonha.

CC: Quais as principais diferenças entre a bonificação adotada em Nova York e a paulista?

LCF: A ideia básica é a mesma, a forma de pensar vem da área dos negócios. Nova York é mais exigente e controladora. Os reformadores empresariais acham que se puderem pagar mais aos professores cujos alunos se saem melhor nas provas, isso poderia ser um estímulo a estes profissionais e até chamaria bons quadros para a educação, motivados por ganhos adicionais. Ocorre, como mostra o estudo da RAND, que os professores não entram na profissão movidos apenas por dinheiro – como se fossem vendedores de carros interessados nas comissões. Quem tiver motivação baseada em dinheiro, em geral, procura outra profissão. A RAND encontrou que os professores se motivam com sua formação continuada e com o fato de poderem ver seus alunos aprenderem – não apenas por dinheiro. Salários dignos são necessários, é claro.

http://www.cartacapital.com.br/politica/copia-fiel

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Parem a política de bônus

Postado originalmente na Uol em 25/07/2011

O importante desta crise provocada pelo estudo da RAND que implodiu a política de bônus em Nova York é que ela revela vários aspectos da agenda dos reformadores empresariais.

Primeiro, mostra o oportunismo de um grupo de porta-vozes do movimento. Bastou Nova York ter problemas e estes porta-vozes imediatamente alardearam pela mídia que “não era bem assim”. Segundo eles, em Nova York não deu certo ainda, mas vai dar. Tudo o que precisa é fazer mais pesquisas. Além do que, há – segundo eles – estudos que mostram que o bônus funciona na Índia, no Chile e no Reino Unido. Como sempre, não são apresentados os tais estudos para que o público possa consultá-los. Quem os fez, onde os publicou, com que metodologia? O ônus da prova é posto nas costas do leitor.

Segundo, mostra como o movimento dos reformadores se organiza em articulação com a mídia. A Folha de São Paulo de hoje (25-7-2011) tem um editorial sobre bônus. Editoriais são de responsabilidade do jornal. Note-se a importância atribuída à sustentação da ideia de que dar bônus vai funcionar. São esperadas mais manifestações de “amor”. E os argumentos são os mesmos: são necessárias mais pesquisas e há estudos que contradizem nova York – de novo, Índia, Chile e Reino Unido. Nenhum destes países é top no PISA e os que são top não usam bônus. Mas não tem importância quando se trata de defender as ideias dos reformadores. Note que no Estado de São Paulo onde se usa bônus os resultados do SARESP despencaram em 2010. Mas nada disso conta.

Isso é importante porque revela que a divulgação destas ideias não passa, de fato, pela pesquisa. É uma crença e crenças não são racionais. É, de fato, uma ideologia importada da área dos negócios. Daí a reação tão forte dos reformadores: se funciona nos outros negócios, não é possível que não funcione nos negócios da educação.  Não é sem razão que sejam os “especialistas em educação” oriundos da área dos negócios ou a ela ligados, os que estejam defendendo estas ideias que ecoam na mídia.

Está em disputa a agenda educacional brasileira. Os empresários, como o fizeram nos Estados Unidos na década de 90, vão disputar este espaço. Nada contra a disputa, é claro.

Como tenho dito em outras postagens, há mais um “ato falho” compreensível neste momento de desespero para os reformadores: ao admitirem que são necessárias mais pesquisas, eles admitem que fizeram experimentos com redes inteiras usando ideias pouco conhecidas. Só em São Paulo usaram tais ideias com 5.000 escolas e mais de 200 mil professores e gastaram só no ano passado 340 milhões de reais. Isso é antiético e de baixa probidade administrativa. Se não conhecem, não deveriam experimentar com redes inteiras. Onde está a probidade administrativa deste pessoal que gasta dinheiro público com ideias que pouco pesquisaram?

Só há uma saída: suspenda-se a utilização de bônus nas redes até que as pesquisas esclareçam tais práticas – é o que pede a coerência dos argumentos.

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Bom senso

Postado originalmente na Uol em 25/07/2011

Ideb na placa

Algumas dificuldades precisam ser levadas em conta na interpretação nos resultados das avaliações

FERNANDO VELOSO

Folha de São Paulo, 25/07/2011 – São Paulo SP

(…) Em resumo, o tema do acesso a informações sobre a qualidade das escolas é muito importante, mas é preciso debatê-lo em maior profundidade, fazer experiências em pequena escala e avaliar seus resultados antes de criar novas leis.

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb2507201103.htm

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Bônus: terão mais crises

Postado originalmente na Uol em 25/07/2011

Os reformadores empresariais brasileiros resolveram considerar Nova York a meca das inovações educacionais de sua conveniência. Isso significa que teremos muito mais crises pela frente e não apenas esta produzida pela queda da política de bônus em Nova York.

Atrevo-me a prognosticar que uma das próximas crises será relativa a outra “inovação” muito cultivada pelos reformadores do Brasil, as “charter schools”. São escolas administradas por contrato de gestão. Há tempos os estudos mostram uma grande interrogação sobre esta inovação. No Reino Unido elas são chamadas de “escolas independentes”. Dimenstein, ama. Em Nova York elas não estão bem das pernas e logo teremos barulho…

Mas há muitas outras crises potenciais em curso.

Porque Nova York é tão importante? Alí, Bloomberg o magnata da mídia, prefeito de Nova York, experimenta uma série de medidas que envolvem a transferência da lógica dos negócios para o campo da educação. Mais do que medidas específicas é isto que está em jogo. Esta é a grande tese. Entre outras “inovações” está a transferência para a educação da estrutura autoritária da iniciativa privada, onde o chefe manda o resto obedece.

É assim que ele interfere no Conselho de Educação da cidade de Nova York onde tem maioria. Seus prepostos têm instruções claras de obedecer seus ditames ou sabem que serão trocados. Portanto, tem controle total de todas as decisões do órgão.

John Klein ex-superintendente de Bloomberg na educação em Nova York, hoje demitido e assessorando o Reino Unido, foi responsável pela engenharia que motivou a inflação dos resultados de aprendizagem em Nova York, o que foi confundido com melhoria da qualidade do ensino na cidade. Desmascarado, saiu discretamente. A sua substituta, vinda diretamente das empresas de Bloomberg, da Hearst, não durou três meses e caiu depois que considerou que a melhor maneira de se reduzir a superpopulação das salas de aula nova-iorquinas seria promover o controle de natalidade. Este pessoal é que é modelo para os reformadores brasileiros. E ainda ficam chocados quando algo não dá certo por lá.

Nos últimos meses os reformadores empresariais mudaram seu discurso. Primeiro falavam muito da Finlândia, a estrela do PISA. Depois perceberam que ela era boa – segundo os critérios do PISA – mas não usava suas ideias. Resolveram silenciar sobre seu sucesso. Depois tentaram divulgar Shangai, mas a China é uma incógnita e Shangai outra.

Restou falar do Chile. Mas o Chile não é estrela no PISA – a não ser que comparemos apenas países da América do Sul, e mesmo assim, o Uruguai, que não usa estas ideias, está cabeça a cabeça com o Chile, quando não o supera. Nunca dizem isso, pois não convém. O Chile é o fiel escudeiro das teses dos reformadores na América Latina, desde os tempos de Pinochet.

Ensaiam, agora, introduzir o Reino Unido. Mas ocorre que os conservadores de Tatcher voltaram ao poder apenas recentemente e não há resultados concretos a exibir. Se formos ao PISA, o Reino Unido não é nenhum primor.

Os reformadores empresariais jogam com os dados segundo as conveniências. Quando a pesquisa convém, falam dela. Quando não, silenciam como fazem agora com o estudo da RAND que implodiu a política de bônus em Nova York. Quando um país está em alta e podem atribuir, ainda que arbitrariamente, seu sucesso às suas ideias, o divulgam. Quando não convém, trocam de país.  Quando uma “inovação” não dá certo, dizem que precisa ser melhor pesquisada ou que ela funciona quando associada a outras medidas. Ou seja, quando não pode ser identificada e pesquisada objetivamente. E por aí vai.

Isso não pode ser sério… Abaixo, o editoral da Folha de 25-7-2011 do qual falei ontem.

Bônus na berlinda

Folha de São Paulo, 25/07/2011 – São Paulo SP

Política de remuneração de professores com base no mérito é promissora, mas precisa ser alvo de estudos para poder ser aperfeiçoada

Leia em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2507201101.htm

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Bônus: persistindo no erro

Postado originalmente na Uol em 28/07/2011

A Prefeitura Municipal de São Paulo, do Prefeito Kassab, vai implantar bônus para os professores. Na realidade, eles já tinham um bônus por assiduidade que agora vão ampliar para desempenho também.

Não é necessário que acrescentemos nenhum comentário mais a esta ideia, dado o que já dissemos por aqui. A cidade de São Paulo acha que vai inovar com um bônus que vai levar em conta nível sócio-econômico da escola, ou controlando ausência de aluno na prova. Nada que não tenha sido tentado em Nova York.

Apenas o registro: há certas ideias que não são derrotadas pelos dados, pela pesquisa, ou pela análise teórica sequer. Elas são derrotadas pela prática. Portanto, que venham os bônus. Quanto mais rápido foram aplicados, mais rápido teremos seus resultados práticos. Embora a educação não melhore e os políticos que as aplicam, sim.

Um detalhe: na cidade de S. Paulo, a criança que não estiver presente no dia da prova receberá zero de nota, penalizando a média da escola. Nada significa para o aluno, pois não conta na sua aprovação. É um mecanismo de pressão sobre a escola para tentar impedir fraude. O que você acha dessa ideia, do ponto de vista pedagógico?

É o malabarismo dos reformadores empresariais. A brincadeira de “gato e rato” é a seguinte: No dia da prova, os professores mandam os alunos que sabem menos ficar em casa. Acontece de Nova York até São Paulo – no Saresp. Então, para coibir isso, se o professor ou o diretor mandar o aluno ficar em casa, ele tem zero na prova. Isso penaliza o professor e a escola e ela fará de tudo para trazer o aluno para a prova. Certo. Só que há vida inteligente do lado de lá, também.

Se o aluno que não sabe – ou não quer aprender – é obrigado a fazer a prova, haverá aumento de outras formas de fraude, por um lado, e aumento do “treino para o teste”, por outro.  Ambos os casos aumentarão as notas dos alunos – deixarão os políticos bem na cena, na hora da reeleição – mas não significam melhor educação ou mais aprendizagem.

Levará sim, a uma disputa das escolas pelos melhores alunos e uma recusa das escolas em receber os piores. Mecanismos de seleção prévia. Burocratas acham que isso não pode acontecer. Mas, eles não conhecem o dia a dia de uma escola.

A médio prazo, teremos bolsões compostos por escolas dedicadas apenas a estes alunos. Seus professores sabem que lá, não ganham bônus. Não terão interesse em dar aula nelas e se forem obrigados, já estão desestimulados de partida.

Na outra ponta, a pressão vai acabar sendo feita sobre o aluno. Aumenta-se a tensão sobre a juventude – feita pelos pais e professores.

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Escolas Charters: a bola da vez?

Postado originalmente na Uol em 30/07/2011

Um “resumo comentado” do estudo de Hoxby sobre as escolas charter da cidade de Nova York

por Matthew DiCarlo

8 de julho de 2011

Há quase dois anos, um relatório sobre as escolas charters da cidade de New York abalou o mundo da política educacional. Foi escrito pela pesquisadora Caroline Hoxby da Hoover Institution com Murarka Sonali e Kang Jenny, co-autores. Sua descoberta principal foi que: em média, um aluno que frequentou uma escola charter em todas as séries do jardim de infância por oito anos, vai fechar cerca de 86 por cento da “diferença de desempenho Scarsdale-Harlem” [a diferença de pontuação entre os alunos do Harlem e os do bairro rico de NYC] em matemática e 66 por cento da diferença no desempenho em Inglês.

A conclusão transformada em manchete foi acriticamente repetida pela maioria dos canais de notícias, incluindo o New York Post, que chamou o efeito charter de “fora dos planos”, e o NY Daily News, que anunciou que, daquele dia em diante, aqueles que se opusessem às escolas charters estariam “lutando para impedir que milhares de crianças tivessem uma melhor educação”.

 Uma ou duas semanas mais tarde, o prefeito Michael Bloomberg citou especificamente o estudo ao anunciar que ele estava procurando expandir o número de escolas charters na cidade de Nova York.  Ainda hoje, o relatório é frequentemente citado como evidência primária que atesta a eficácia das escolas charters.

Gostaria de revisitar este estudo, mas não como um meio para reforçar o debate “as escolas charters funcionam?”. Na verdade, eu já argumentei antes que nós gastamos muito tempo debatendo se charters schools “funcionam”, e muito pouco tempo perguntando por que algumas poucas são bem sucedidas. Em vez disso, meu objetivo é ilustrar uma máxima importante da pesquisa: mesmo análises bem concebidas e  sofisticadas, com importantes conclusões, podem estar comprometidas por uma apresentação enganosa dos resultados.

Resumo rápido do estudo: Como a maioria das escolas charters de NYC estão “superlotadas”, elas têm uma admissão baseada em sorteio. Simplificando, Hoxby e co-autores são capazes de explorar esse processo de seleção aleatória para comparar alunos “selecionados por sorteio” que freqüentam escolas charters com aqueles de escolas que não o fazem. Este procedimento pode ser responsável por muitas das diferenças entre os alunos (especialmente efeitos de seleção) que podem influenciar os resultados do desempenho dos alunos.

Em uma revisão do estudo feita pelo NEPC, o economista Sean Reardon observou duas graves questões metodológicas no planejamento da pesquisa de Hoxby. Eu não vou entrar em detalhes técnicos, mas a principal se resume ao fato de que os alunos são “selecionados por sorteio” nas escolas charters, apenas uma vez, ao invés de a cada ano. Mas, desde que o modelo Hoxby “segue” os alunos das escolas charters durante todos os anos depois que eles foram designados para suas escolas (mais especificamente, o modelo utiliza as notas prévia de desempenho dos alunos como co-variável), isso atua como um “diluidor” da vantagem da atribuição aleatória inicial – e provavelmente significa que o modelo Hoxby exagera os efeitos das escolas charters da quarta até a oitava série. Reardon também observa a dificuldade de Hoxby para levar em conta o erro de medição na pontuação prévia nos testes dos estudantes o que também pode ter efeitos tendenciosos na elevação observada nas escolas charter.

Leia mais em inglês em:

http://nepc.colorado.edu/blog/%E2%80%98summary-opinion%E2%80%99-hoxby-nyc-charter-school-study

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