O link abaixo reúne um conjunto de fotos que retratam o que foram as mobilizações 15M, ou seja, do dia 15 de maio passado – contra o contingenciamento e cortes nas verbas da educação.
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O link abaixo reúne um conjunto de fotos que retratam o que foram as mobilizações 15M, ou seja, do dia 15 de maio passado – contra o contingenciamento e cortes nas verbas da educação.
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O delegado de polícia que presidia o INEP, no Ministério da Educação, foi demitido. A nova disputa se deu porque ele queria divulgar os dados que o INEP possui identificando alunos. Os procuradores reagiram ameaçando pedir demissão. O INEP nunca divulgou dados com nomes de alunos. Parabéns para o setor jurídico: nossas crianças agradecem.
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Nada garante que o próximo presidente também não queira fazer a mesma tolice. O MEC é um órgão, hoje, cada vez mais punitivo e tenderá a vincular sua atuação a políticas de premiação e punição em função de desempenho de escolas e alunos. A ideia é fazer passar vergonha todo aquele que não atingir metas: como se envergonhar gerasse qualidade na educação. Até Bill Gates nos Estados Unidos foi contra esta política quando ela esteve por lá. Ele escreveu: “Vergonha não é solução”. Lá tratava-se da divulgação nominal da avaliação dos professores. Escreveu:
“Na semana passada, o Tribunal de Justiça do Estado de Nova Iorque de apelação decidiu que as avaliações de desempenho individual dos professores poderiam ser tornadas públicas. Não tenho opinião sobre a decisão como uma questão de direito mas, como um prenúncio da política de educação nos Estados Unidos, é um grande erro.”
O novo presidente do Inep (Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais) na gestão de Jair Bolsonaro (PSL) é Alexandre Ribeiro Pereira Lopes. Essa é a terceira troca feita pelo governo Bolsonaro no comando do Instituto em cinco meses.
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Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp)
A propósito da anunciada manifestação de diversas entidades em defesa da Educação, prevista para 15 de maio, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) destaca a importância de a comunidade universitária debater as questões relativas aos complexos problemas da educação, ciência e tecnologia no Brasil e suas consequências para o desenvolvimento do País.
As universidades públicas estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) integram o sistema público de universidades brasileiras, respondem por mais de 35% da produção científica nacional e são responsáveis por 35% dos programas de pós-graduação de excelência no País.
Ocupam lugar de destaque entre as universidades brasileiras no que diz respeito a inovações, bem como nos rankings internacionais de ensino superior. Em conjunto com as outras universidades públicas, formam os melhores quadros profissionais do País, em todas as áreas do conhecimento.
Cerca de 95% da produção científica brasileira é feita em universidades públicas e por institutos de pesquisa, federais ou estaduais. Estas pesquisas produzem inovação e formam quadros de profissionais capazes de inovar e de desenvolver o País.
No Brasil, como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelo governo. Agências públicas federais de fomento que integram o sistema nacional de CT&I são fundamentais para o funcionamento das universidades, que dependem desses recursos para financiar suas linhas de pesquisa.
Interromper o fluxo de recursos para estas instituições constitui um equívoco estratégico que impedirá o País de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos do Brasil.
Campinas, 13 de maio de 2019.
Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp)
“Os cortes orçamentários na educação e os recorrentes ataques aos professores, acusados de disseminar o “marxismo cultural” no Brasil, estão longe de expressar a simples falta de projeto do governo para o setor, alerta o sociológo César Callegari, ex-secretário nacional de Educação Básica e integrante do Conselho Nacional de Educação por 12 anos.
“O Ministério da Educação transformou-se em um aparelho a serviço da guerra ideológica travada por Bolsonaro”, observa o especialista, para quem o sucateamento do ensino público também serve ao projeto privatizante do ministro Paulo Guedes. “É um ataque deliberado, orquestrado do Palácio do Planalto. Mas o principal caldeirão de maldades está, de fato, sendo servido no Ministério da Economia.”
Leia entrevista aqui.
Eis aqui um depoimento insuspeito do parlamentar Capitão Wagner sobre o que ocorreu na tarde de ontem e que demonstra que o Presidente da República gosta de jogar “camuflado”. Depois do presidente (pessoalmente e na frente de 12 parlamentares aliados), ordenar que o Ministro da Educação suspendesse os cortes de verba da educação, a Casa Civil desmentiu a notícia dada pelos próprios aliados e chamou o fato de boato – bem ao sabor das “fakes news”.
Assista aqui.
A forma de atuar coincide com uma tendência observada ao longo do curto governo Bolsonaro: tenta-se separar Bolsonaro das más notícias como se ele estivesse tomando medidas duras que não gostaria de tomar. Com isso, repassa para os Ministros o custo das medidas com o objetivo de preservar sua base eleitoral. Tem sido assim com a reforma da previdência e agora com os cortes na educação.
Isso tem sido uma marca no governo, que prefere jogar “camuflado” e dando “pistas falsas” para desorientar a oposição e a crítica, ao mesmo tempo que confunde e permite manter apoios eleitorais. Não é bate-cabeças. Não há nenhum bobo, desavisado ou inexperiente. Trata-se de tática política diversionista com o objetivo de esconder as reais posições de ataque e reinar na confusão.
“Giroux, autor de Neoliberalism’s War on Higher Education (“a guerra do neoliberalismo contra o ensino superior”, sem edição no Brasil), critica que as universidades estejam sendo atacadas com cortes contínuos em seu financiamento, especialmente os departamentos de humanas, para que deixem de ser centros de pensamento. E cita o caso brasileiro. Na semana passada, depois de dar uma palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, conversou com o EL PAÍS.”
Leia entrevista aqui.
A Assembleia dos Servidores da CAPES decidiu por tomar parte no movimento de paralisação de amanhã, dia 15 de maio (quarta-feira), chamado “Greve Nacional da Educação”. A atitude visa demonstrar solidariedade às Instituições de Ensino e sair às ruas em defesa da Educação Pública.
Leia aqui.
No que sugere ser uma manobra para esvaziar a greve de amanhã, aliados do governo divulgaram para a UOL que Bolsonaro teria desistido dos cortes na área da educação. Pouco depois, em nota, a Casa Civil desmentiu a notícia e reafirmou os cortes.
“Horas antes do que se projeta como a primeira grande greve do governo Bolsonaro, aliados e máquina pública batem cabeça nesta noite e divulgam informações contraditórias sobre os cortes orçamentários no Ministério da Educação.”
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Avaliações de larga escala, feitas para abranger municípios, estados ou mesmo uma nação podem ser feitas tanto de forma censitária, ou seja, envolvendo todas as escolas e estudantes, como de forma amostral, utilizando-se de procedimentos estatísticos fartamente conhecidos e utilizados em vários campos.
Em princípio, avaliações de larga escala devem servir para avaliar políticas educacionais dos governos, mas, com o advento das políticas neoliberais na educação – especialmente nos Estados Unidos, o campo da avaliação foi sequestrado por estas políticas e as avaliações passaram a ser voltadas para fiscalizar as escolas, invertendo sua direção. As políticas ficam ilesas e as escolas aparecem como as grandes culpadas.
A inversão da lógica obedeceu a um princípio: a qualidade da escola só melhorará se elas forem inseridas em um “mercado” concorrendo entre si. Exatamente por esta concepção mercadológica, a intenção sempre foi enfraquecer a escola pública (portanto, ao contrário do proclamado) e criar condições para inserir (por terceirização e/ou vouchers) as escolas na concorrência, privatizando-as.
A reforma empresarial da educação proclama que seus métodos servirão para melhorar a educação e toma como referência a nota dos estudantes, criando a ilusão de “nota mais alta é igual a melhoria na qualidade”. Mas os verdadeiros objetivos da reforma não são apenas quantitativos, são também qualitativos. Os objetivos quantitativos (melhoria das notas das escolas nos rankings) nunca foram alcançados, mas os objetivos qualitativos, sim. É por isso que, apesar de seu fracasso como política educacional destinada a melhorar quantitativamente a educação, ela continua.
O objetivo qualitativo não é outro senão introduzir a juventude na lógica concorrencial do mercado, formando a juventude no “espírito” da sociedade neoliberal onde cada indivíduo deve ser visto como um “empreendedor de si mesmo” concorrendo no mercado. Os exames estão permanentemente inserindo os jovens na competição, criando a lógica de uma verdadeira “corrida para nenhum lugar”. Os danos desta política são conhecidos: narcisismo, competição violenta, depressão. A solidariedade é substituída pela concorrência.
Esse resultado qualitativo só pode ser induzido com avaliações censitárias que envolvam todas as escolas e alunos, já que as avaliações amostrais não permitem que se chegue a uma escola específica ou a um determinado aluno ou turma. Daí que sempre que aparece a ideia de fazer uma avaliação amostral, os liberais e neoliberais reajam imediatamente contra.
Bastou o MEC informar que fará uma avaliação da alfabetização amostral este ano, para que a Folha de São Paulo reagisse explicitando a que vieram as avaliações censitárias no Brasil, introduzidas com a Prova Brasil e o IDEB:
“uma prova por amostragem é capaz de fornecer quadros regionais e estaduais, mas não de produzir indicadores precisos sobre cada cidade ou escola.”
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Eis o que incomoda a Folha: o fato de não poder “produzir indicadores precisos” sobre cada escola. Eis o ponto. O objetivo é chegar até a escola e inserir todas na lógica mercadológica, de preferência colocando uma tabuleta na porta da escola com o IDEB alcançado por ela. Disso, da lógica natural do mercado, emergirá a qualidade da educação brasileira.
Uma mentira repetida mil vezes, tem o poder de transformar-se em uma pós-verdade. As avaliações de larga escala devem colocar em julgamento as políticas públicas dos governos e não voltar-se para culpabilizar escolas, professores e estudantes. Se o objetivo é analisar a política dos governos, então, não necessitam ser censitárias. Quando muito, os Estados e Municípios, que estão mais próximos da escola, podem fazer provas censitárias (mas nem isso seria em tese necessário para melhorar a educação brasileira).
Fazer avaliação amostral seria muito mais barato e igualmente eficaz. É assim que se faz na avaliação nacional dos Estados Unidos de onde gostamos de copiar coisas. Esta brincadeira censitária custa ao INEP 500 milhões de reais a cada dois anos. Dinheiro jogado no ralo e que poderia ser melhor aplicado no desenvolvimento da escola pública.
Delfim Netto comenta as últimas do ministério da educação:
“O encarregado da Educação Nacional insistiu, sob o olhar aprobativo do presidente, numa proposição inimaginável. Disse ele, “imagine uma família de agricultores cujo filho entrou na faculdade e, quatro anos depois, voltou com o título de antropólogo”, coisa absolutamente inútil. O que sugeriu o John Dewey tupiniquim?”
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Como era previsível, os “liberais” vão colaborar com o MEC de Bolsonaro em nome de uma “agenda da aprendizagem”. A reforma empresarial da educação deve retomar seu ritmo. O erro de Bolsonaro com Velez, ao não compor com os liberais, está sendo corrigido agora com Weintraub, através da Secretaria de Educação Básica. O site do CONSED – Conselho Nacional de Secretários de Educação – informa:
“Até esta terça-feira (30), secretários estaduais e municipais de Educação, discutem um plano de ação conjunto com o MEC, para desenvolver uma agenda integrada. O convite foi feito pelo Secretário de Educação Básica do ministério, Jânio Macedo. Também participam das discussões representantes de entidades do terceiro setor, como os professores Mozart Ramos e Ricardo Paes de Barros, do Instituto Ayrton Senna.
Do Consed, além da presidente, Cecilia Motta (MS), estão presentes os secretários Fred Amancio (PE), Luiz Castro (AM), Pedro Fernandes (RJ) e Marioneide Kliemaschewsk (MT). Ainda compõem o grupo o secretário executivo adjunto da Secretaria de Educação do Amazonas, Raimundo Barradas, e o superintendente da Secretaria de Educação do Paraná, Raph Gomes.
O primeiro dia de atividades foi aberto com uma apresentação do presidente do Instituto Natura, Davi Saad. Ele relacionou os temas prioritários da Agenda da Aprendizagem (criada por Consed/Undime) e do projeto Educação Já (elaborado pelo terceiro setor) com as metas do Plano Nacional de Educação. Segundo ele, não é preciso inventar a roda para resolver os problemas.
Para a presidente do Consed, Cecilia Motta, as agendas apresentadas mostram que os gestores dos estados e municípios sabem aonde querem chegar. “Portanto, essa iniciativa do MEC, de escuta, de querer aproveitar o que já existe de bom, com base em evidências, é vista com bons olhos pelo Consed. A nossa expectativa é que possamos sair daqui com uma agenda integrada, avançando no regime de colaboração.”
Além dos Institutos Natura e Ayrton Senna, também participaram representantes do Instituto Unibanco, da Fundação Lemann e do Todos Pela Educação.”
Gewirtz (2006) mostra, com o apoio da literatura sobre justiça social, como o liberalismo apostou na meritocracia para explicar o sucesso e o fracasso dos indivíduos. A meritocracia liberal justificava a existência da desigualdade social desde que todos tivessem tido igualdade de oportunidades para se tornarem bem-sucedidos, deslocando o debate das condições objetivas de vida para outro, o da existência de direitos formalmente iguais, igualdade de acesso e de participação. Ou então, enfatizando a igualdade de resultados, procurando assegurar níveis de sucesso iguais para diferentes grupos sociais, através de intervenção direta para prevenir desvantagens.
Esta concepção estava no contexto da democracia liberal representativa que oferecia ao “cidadão”, em alguma medida, a expectativa de participação (direitos políticos e sociais) com algum progresso. O estado do bem-estar social não foi outra coisa senão o reconhecimento de que o capitalismo precisava, pelo menos, dividir um pouco dos lucros com o andar de baixo para que não se precisasse mudar muito o próprio capitalismo. Este liberalismo centrista começou a esgotar-se nos anos 70 em países centrais (Wallerstein, 2013).
Uma série de contradições internas (ao nível dos processos de acumulação, crises fiscais e ambientais) reduziu drasticamente esta margem de manobra, gerou estagnação e permitiu que as teses neoliberais embrionárias na primeira metade do século passado se constituíssem em uma saída para tentar estabilizar novamente o sistema. Neste sentido, radicalizou-se a ideia de uma meritocracia baseada em um liberalismo econômico – o livre mercado – que se opõe ao tipo de Estado proposto pelo liberalismo centrista, no contexto de uma estagnação econômica que aprofunda a desigualdade.
Se a meritocracia liberal já era limitada, pois que omitia os problemas fundamentais relativos à hierarquia de poder e riqueza pré-existentes às condições formais de igualdade de oportunidades, com o neoliberalismo ela se reafirma como um proto-fascismo onde apenas os vencedores têm legitimidade para reivindicar.
O liberalismo, ao contrário, com seu discurso da igualdade de oportunidades, propunha garantir direitos (formais) de aprendizagem, acesso e participação, e/ou ainda, estipulava níveis de sucesso supostamente iguais (por exemplo, cobrando as escolas por atingir o nível de desempenho “suficiente” para todos nas avaliações de larga escala), com o objetivo (proclamado) de permitir a participação social na democracia liberal representativa.
No entanto, o neoliberalismo radicalizou a meritocracia com a conversão da escola (e de outras instituições sociais) em uma organização privada e concorrencial através das teses de uma reforma empresarial da educação. Por estas teses (padronização, avaliação, accountability e privatização), a escola é redefinida como um espaço privado em que a “qualidade” (dos estudantes e da escola) é produto da concorrência. Define a escola (e seus professores) como o locus de garantia das condições de aprendizagem para os estudantes, isolando o direito à aprendizagem dos demais direitos econômicos, sociais e políticos, inserindo tanto estudantes como professores e suas escolas em um ambiente concorrencial de tipo empresarial, cujas diferenças de desempenho se explicam pelo esforço do indivíduo e pela disciplina. Marilena Chauí, captando a velha razão liberal transmutada na neoliberal, a chama de “neocalvinismo” (Chauí, 2018).
Agora, já não se proclama mais a preparação de um cidadão de direitos para a participação na democracia liberal representativa, pois isso, além de ser perigoso, encarece o Estado e exige mais impostos. Ao contrário, a “nova democracia” é agora a própria participação do indivíduo no interior do “livre mercado” onde ele pratica sua liberdade individualmente concorrendo com seu próximo, sendo responsável por tornar-se ganhador ou perdedor.
A antiga democracia liberal e sua concepção de Estado gerou demandas sociais e deixou de ser garantia da liberdade (econômica). Para o neoliberalismo, o que é relevante é limitar a participação do Estado na economia, que deve ser mínima, deixando em aberto a forma de governo (a democracia ou não) sendo, portanto, possível haver liberdade (econômica) sem democracia (Selwyn, 2015). É a liberdade econômica que funda a liberdade pessoal e social e não a democracia.
Desta forma, se o livre mercado é garantidor da liberdade, a questão da pobreza é um assunto que se resolve com a re-inserção dos mais pobres no próprio mercado, bastando que sejam alfabetizados e tenham alguma qualificação elementar.
ONGs são criadas para centralizar doações de filantropia praticada pelos muito ricos, de forma a subempregar os mais pobres. Caso não aceitem este lugar, a recusa desobriga o Estado neoliberal da responsabilidade por eles – afinal, tiveram sua oportunidade. Qualquer ação de proteção só é admitida como emergencial e destinada à sua volta ao mercado e não deve onerar o próprio Estado com demandas que venham a repercutir em mais impostos.
O “cidadão” foi lançado ao mercado. Não é mais dos espaços coletivos que se pensa a sociedade, mas sim de lugares atomizados, no interior do livre mercado, que a sociedade deve ser pensada como uma expressão direta, sem mecanismos intermediários, através de uma “nova política” que seja a expressão daquela individualidade do livre mercado concorrencial que, por um lado, funda, como dissemos, por si mesmo, a liberdade, e por outro, impede que esta mesma liberdade seja colocada em risco pela antiga democracia liberal com suas pressões coletivas “ilegítimas” sobre a liberdade econômica, feitas em nome dos direitos sociais e políticos do “cidadão”. A propriedade privada está novamente a salvo das “massas fracassadas” e do próprio Estado liberal que só criou “esquerdistas” e “vagabundos”.
A “nova política” da “nova democracia” dissolve o coletivo no individualismo e ataca todas as possibilidades de organização social coletiva fora da lógica do mercado. É a ampliação da “lógica de condomínio” onde se espera que a “ordem condominal” proteja cada uma das propriedades privadas, deixando do lado de fora aqueles que não puderam entrar, quando muito destinando-lhes uma renda mínima miserável para que não ameacem a sua segurança, ou se resignem a aceitar algum subemprego miserável oferecido pelos vencedores. Ao recusarem esta oferta “generosa” tornam-se assunto da polícia ou das milicias terceirizadas.
A “nova escola” proposta pela reforma empresarial da educação, agora, deve preparar para esta “nova democracia” neoliberal, organizada como uma expressão direta do nível de mérito acumulado por cada um no mercado, o qual cria uma hierarquia social “justa” – porque produto das próprias opções dos indivíduos.
Esta é a lógica que foi construída como agenda política entre 1930 e 1970, paralelamente ao estado do bem-estar social keynesiano (MacLean, 2017). É produto das mesmas leis operacionais do capitalismo em luta com seus próprios problemas estruturais não resolvidos pelo liberalismo centrista e pela socialdemocracia.
Continua no próximo post.
Continuação de post anterior.
Nossa resposta a esta questão [por que a reforma empresarial prossegue em meio à falta de evidência de seu sucesso?] é que não são os resultados quantitativos destas políticas que importam, mas sim, a vivência em uma escola planejada como uma “organização empresarial”, cujo ethos é o da concorrência e da meritocracia. São na realidade estes resultados qualitativos que importam, ao permitir que a juventude vivencie, ao nível da sua formação escolar, as teses da “democracia do livre mercado” e da concorrência.
Essa percepção se firma ainda mais quando consideramos que, agora, não apenas se tem interesse no controle dos conteúdos “cognitivos”, mas também se incluem as tais “habilidades sócio-emocionais”, entre elas a resiliência.
Como assinala Streeck (2016), a resiliência está associada a “distúrbio”, ou à capacidade de adaptar-se ou ajustar-se à “inovação” que pode ser disruptiva, típica dos momentos de incerteza ou ainda dos processos concorrenciais. Tem o significado de “tornar-se forte novamente” ante as dificuldades persistentes, habilidade essencial em um mundo onde ter mérito, ou seja sobreviver, está associado a vencer o concorrente.
A escola é sequestrada para que seja o palco da formação para a concorrência (em oposição à formação para a solidariedade), para o domínio do seu “inimigo concorrencial”, seu próprio colega da escola ou das outras escolas, seus professores ou as demais escolas em luta pelo melhor índice nas reiteradas avaliações.
É esta atitude que está sendo ensinada quando convertemos a escola em um ambiente concorrencial. Por isso, a reforma empresarial, mesmo fracassando nos resultados quantitativos, continua gerando um resultado qualitativo, uma visão de mundo, que é vital para a manutenção da lógica neoliberal que terceirizou para o indivíduo, pela meritocracia, o próprio sucesso ou insucesso, isentando o próprio sistema por não ter conseguido promover o progresso coletivo – tarefa com a qual a modernidade havia se comprometido. O sistema quer reafirmar, agora com maior radicalidade, que só é responsável por “dar a oportunidade”. O indivíduo é que a concretiza ou não, sem intervenção do Estado.
Caso não seja bem-sucedido, deve culpar a si mesmo e não as instabilidades sistêmicas que devem ser consideradas próprias da concorrência, próprias da vida. Mas, se for bem-sucedido, não deve deixar de louvar o livre mercado, agora elevado à categoria de uma “nova democracia”, onde o Estado cuida não mais de uma “res-pública”, mas de uma “res-mercatori” a serviço dos monopólios (Dowbor, 2017) em um movimento suicida e sem fim destinado a acumular capital para acumular mais capital.
Wallerstein (2001) mostra a funcionalidade da meritocracia no âmbito do capitalismo, ao denunciá-lo como uma ideia pretensamente universalista que colocaria o progresso ao alcance de todos. A meritocracia sugere que todos poderão chegar ao andar de cima do capitalismo, desde que tenham mérito, o que depende do esforço pessoal.
No entanto, ao mesmo tempo que a meritocracia “explica e justifica” que o andar de cima seja o mais rico, justifica igualmente que o andar de baixo não o seja. Mais ainda, para conter esta universalidade, o capitalismo aciona simultaneamente explicações biológicas baseadas no racismo e no sexismo, de forma a justificar que nem todos poderão chegar aos céus do capitalismo.
Em uma situação sistêmica praticamente caótica, a meritocracia (combinada com o racismo e com o sexismo) é o cimento que o capitalismo precisa para enfrentar um período de intensas crises de acumulação e evitar que surjam novas revoltas. Justificada a posição social daqueles que por incompetência própria não podem acender aos céus, então, como aponta Gamble (1988) retira-se destes, em seguida, o próprio direito à reivindicação de melhores condições objetivas de vida. São apenas massas fracassadas sem direito algum e que estão a sobrecarregar, com gastos sociais, os honestos e esforçados pagadores de impostos – um verdadeiro roubo que funciona como um prêmio para os incompetentes e uma punição para os competentes (MacLean, 2017).
Continua no próximo post.
A meritocracia, ou seja, a hierarquia social justificada pelo mérito do indivíduo que obteve a “justa” recompensa (em vida) através de um suposto esforço pessoal, torna-se cada vez mais uma explicação corrente para o fracasso ou sucesso da juventude em um mundo capitalista marcado pelo colapso motivado por suas próprias contradições internas. A escola está sendo chamada, pela reforma empresarial da educação, a oficializar cada vez mais esta crença como projeto formativo da juventude.
A sociologia macro-histórica há tempos explicitou a inviabilidade do capitalismo como um sistema social estável, nestes seus 500 anos de existência (Wallerstein, 2001). O aparecimento do neoliberalismo não é outra coisa senão um sintoma de agravamento permanente de seu metabolismo doentio baseado no insano objetivo de acumular capital para acumular mais capital – a despeito das condições sociais e ambientais da empreitada.
Nesta sua fase crítica, parte significativa dos indivíduos são lançados ao mar por conta de uma suposta incompetência pessoal, com a finalidade de dissimular as dificuldades do próprio sistema em cumprir promessas históricas de lhes oferecer “progresso”. Soa quase como um último esforço no sentido de salvar o próprio sistema ou ainda, como uma espécie de botão “dane-se” diante do desastre anunciado. Em meio a isto, surge um “anti-globalismo” saudoso do auge do imperialismo americano.
Alguns indagam por que o governo Bolsonaro retirou de cena o tema da desigualdade social. A resposta pode ser que, para o neoliberalismo, não há desigualdade social, mas apenas diferenças de mérito.
Esta crença não é nova, não representa uma “nova razão do mundo” como sugerem Dardot e Laval (2016), mas antes, é a mesma “velha razão do mundo” liberal, agora radicalizada e elevada à condição de projeto formativo para a juventude pelo neoliberalismo, como expressão da gravidade do momento vivido, no mundo, pelo capitalismo histórico a partir dos anos 70. Não se trata aqui, convém reforçar, de se supor uma solução inexorável a partir da existência de tais contradições. Mas elas não podem ser ignoradas no desenvolvimento histórico.
Durante décadas, o liberalismo centrista (Wallerstein, 2001) e a socialdemocracia ajudaram a postergar conflitos com a promessa de que o Estado do bem-estar social constituía um meio termo entre os interesses do mercado e os interesses de progresso social daqueles deixados para trás. A tentativa levou a uma incompatibilidade entre o capitalismo e a própria democracia liberal.
Esta promessa não cumprida gerou a descrença no papel do Estado conciliador e na própria Política e será difícil recuperar a confiança desta tese em meio à crise estrutural do capitalismo que passa pelo aumento da precarização do trabalho, pela crise fiscal do Estado, e pelos problemas ambientais e culturais – além do próximo impacto da nova onda de automação, caracterizada pela introdução da inteligência artificial no processo produtivo, que atingirá também a classe média (Collins, 2013).
De fato, após 1989 e com o refluxo dos movimentos anti-capitalistas, o capitalismo está em luta com suas próprias contradições vindas de dentro dele mesmo (Wallerstein, 2001). Vale dizer: ele nem precisaria de inimigos externos se quiséssemos aceitar a improvável existência de uma força interna indutora de “progresso”, inaugurada pela modernidade do capital nos séculos XV e XVI, que inexoravelmente nos levaria ao socialismo ou a algum sistema superior ao capitalismo. De fato, há quem diga que o capitalismo é vítima de seu próprio sucesso (Streeck, 2016) ao ter conseguido atingir seu objetivo insano de acumular capital para acumular mais capital ainda, em um movimento sem fim, cujo alerta soou na crise de financeirização de 2008.
Independentemente dos destinos do capitalismo, um tema que permanece aberto, o fato concreto com o qual a moderna sociologia macro-histórica ou dos “sistemas-mundo” concorda é que o capitalismo como sistema histórico está em crise (Wallerstein, Collins, Mann, Derluguian, & Calhoun, 2013) podendo até levar, dentro de algum tempo não tão distante, à sua substituição por outro sistema (melhor ou pior). Enquanto isso não ocorre, o capitalismo vai radicalizar suas teses até o limite do possível, na forma já anunciada pelo neoliberalismo onde a meritocracia é reforçada como o grande manto mágico da ocultação tanto das relações sociais como dos próprios limites do capitalismo.
Em todas as épocas históricas, a educação não foi outra coisa senão a expressão dos interesses daqueles que dominaram sua época, sob protesto e intensa disputa feita pelas vítimas de tal dominação. A escola sempre foi um local de disputa.
No interior da atual crise do capitalismo, sob a radicalização neoliberal, a escola não poderia ser outra coisa senão um local de disputas. Mas o que há, afinal, de novo nisso?
Sob a lógica neoliberal, a escola (ou qualquer instituição social) deve comportar-se como uma organização empresarial em um ambiente concorrencial, que Marilena Chauí descreve como sendo uma lógica concorrencial mascarada de “meritocracia” (Chauí, 2018).
Neste processo, a escola é convertida (como as demais instituições sociais e o próprio Estado) em uma “organização de tipo empresarial” onde a sua “qualidade” é produzida (a exemplo dos mercados) pela concorrência entre escolas, professores e estudantes.
A escola, portanto, é disputada como um local de vivência da concorrência, mascarada de meritocracia. O objetivo desta é naturalizar os perdedores como vitimas de si mesmos. Para tal, a qualidade deve ser pretensamente expressa em “resultados quantitativos” obtidos em um processo concorrencial chamado “avaliação de larga escala”, produzindo ranqueamento de uma suposta “qualidade”, com o objetivo de orientar a escolha da escola pelos “clientes”, retirar da avaliação os fatores sociais que limitam a qualidade produzidos pelas próprias instabilidades do sistema e, por este processo, declarar as escolas “comparáveis” a despeito de suas realidades.
A sua qualidade, agora, é expressa pela “nota” ou pelo “índice de avaliação” pelo qual todas as escolas e estudantes são colocados na mesma “métrica” abstraída de sua realidade ou quando muito acrescida de outra “métrica”, o seu nível sócio-econômico médio. Submetidas à padronização das BNCCs, controladas por processos de “accountability” oriundos de ambientes organizacionais, a juventude vivencia as regras empresariais da concorrência desde a pré-escola: como nos “mercados”, agora a escola tem “ganhadores e perdedores” (Ravitch, 2013). O lema “educação para todos” tem, agora, um complemento “educação para todos os que acumulem mérito nas avaliações”.
Não importa a engenharia que se crie para alinhar padronização, avaliação censitária e responsabilização, o fato relevante na disputa da escola, hoje, não é tanto o seu resultado quantitativo face a uma meta estipulada, mas o que ele encobre: a vivência da concorrência pelos “gestores”, professores e estudantes. Importa a “formação” da juventude em uma ambiência concorrencial gerada pelas avaliações sucessivas feita em um processo contínuo de accountability que os leve à crença de que é natural a existência de ganhadores e perdedores em todos os processos sociais e que estes são produtos derivados da existência ou não do “esforço pessoal” – nada mais.
Dizemos que a reforma empresarial não se importa com os resultados quantitativos que proclama e isso pode causar reações de indignação. No entanto, se considerarmos as evidências que demonstram que a introdução da política educacional da reforma empresarial nas escolas não tem apresentado melhoria relevante nem mesmo ao nível quantitativo nos países que vivem esta realidade neoliberal há muitos anos (Koretz, 2017) (Freitas, 2018), veremos que tais resultados negativos ou indiferenciados destas políticas privatistas não produziram uma autocrítica nestes reformadores, mas apenas a reafirmação das mesmas teses, mesmo quando os dados não permitem suportar a recomendação de tal política educacional.
No entanto, nota-se que, associado a tais resultados quantitativos pífios, está o crescimento da segregação escolar (Freitas, 2018) sem que isso seja considerado, de fato, um problema social no interior destas políticas, supostamente voltadas para combatê-la. O que mantém, então, tais políticas sendo recomendadas pelas agências internacionais e pelos seus adeptos, motivando que mais e mais países entrem nesta roda? Estaria a segregação escolar, apesar dos discursos, sendo naturalizada pela lógica da meritocracia?
Continua no próximo post.
Paulo Blikstein da Escola de Educação da Universidade de Stanford (USA) reflete sobre os 100 dias de Bolsonaro no Jornal Estadão:
“Em vez de ouvir planos estruturantes de longo prazo nesses 100 dias, ouvimos que os adolescentes não têm de receber educação sexual – essencial para o seu bem estar e saúde –, que o professor tem de andar armado, que o livro de História tem de ser revisto, que a escola tem de ser militarizada. Só factoides e ações sem embasamento empírico, sem dados, sem evidência. O desafio do ministro é parar com esse negócio.”
Leia íntegra da entrevista aqui.
Marcelo Silva de Souza Ribeiro analisa em “Pensar a Educação” a proposta de ensino domiciliar:
“Ao abrir a possibilidade legal do ensino domiciliar (movimento importado dos E.U.A. e chamado de homeschooling) há fragilização do dever do estado e direito das famílias em relação à garantia de escolas para as crianças e adolescentes. Uma porta se abre na direção de relativizar a oferta de vagas/escolas por parte do estado.”
Acesse aqui.
Novo livro sobre as políticas de accountability em educação é lançado pela Editora Unijui com autoria de Marilda Pasqual Schneider e Elton Luiz Nardi.
“Sob o lume das políticas neoliberais, a obra focaliza a centralidade do Estado na definição de objetivos e conteúdos educacionais controlados pelo mercado e realça a função assumida pelos dispositivos de accountability nesse setor. Reconhecendo a polissemia do conceito e suas variações consoante os cenários em que é referida, aponta especificidades no uso de dispositivos de responsabilização e prestação de contas em políticas de avaliação educacional encetadas singularmente em países da América Latina.”
Quando privatizamos a educação, uma área estratégica, a colocamos nas mãos de grandes grupos econômicos. Isso quer dizer que abrimos mão da soberania sobre a formação de nossos estudantes e a colocamos nas mãos do que pensam estes grupos econômicos.
Caso emblemático é um movimento religioso da Turquia que controla mais de 200 escolas charters em território americano, o grupo Gulen. O jornal USA Today afirma que:
“O movimento fundou Centenas de escolas charter em todo os Estados Unidos e ao redor do mundo, ele tem a sua própria organização de mídia, e esteve profundamente enraizado com o regime turco até ser posto para fora há dois anos. ”
Veja reportagem aqui.
Diane Ravitch, nos informa sobre a fábrica de transferência de dinheiro público para mãos privadas nas charters do grupo:
“Ontem escrevi sobre a decisão de se aprovar uma escola charter Gulen na zona rural do condado de Washington pela Alabama Charter School Commission, apesar do fato de que o Estado pagou à Associação Nacional de Autorizadores de Escolas Charters para revisar a proposta e ela a rejeitou. Há pouca ou nenhuma demanda no município por Charters, o qual tem boas escolas públicas. O CEO da charter planeja pagar a si mesmo 300.000 dólares por ano para administrar uma escola para 240 alunos, além de uma comissão sobre outras fontes de renda.”
É isso que move o mundo das conveniadas charters nos Estados Unidos. É isso que estamos importando.
Não adianta falar em regulação das charters pelo Estado, como propõe Naércio Menezes. Não há regulação que segure o livre mercado, até porque ele entende que regulação é uma interferência indevida do Estado sobre o mercado. Se existe regulação, procuram eliminá-la ou simplesmente burlá-la.
Ravitch também nos informa que estará disponível em 29 de abril próximo um documentário sobre esta cadeia de charters nos Estados Unidos: Killing Ed (infelizmente, em inglês).
Killing Ed:
A Documentary Film About Charter Schools, Corruption, and the Gülen Movement in America
“KILLING ED é um novo documentário que expõe uma verdade chocante: uma das maiores redes de escolas charter financiadas pelos contribuintes nos EUA é o pior ambiente possível – operado com questionáveis padrões acadêmicos, trabalhistas e de vistos H1-B por membros do “Movimento Gülen” – um grupo islâmico global em rápida expansão cujo líder, Fethullah Gülen, vive em reclusão nas montanhas de Pocono, na Pensilvânia.
KILLING ED ilumina seu público em todo lugar com um olhar chocante, em primeira mão, dentro das escolas, enquanto revela a corrupção daqueles que tentam privatizar nossas escolas públicas através de uma “reforma” educacional na América.”
Quem pensava que Romário estava aposentado, enganou-se. Ele acaba de articular o que pode ser um grande gol do senador no Congresso, com um Projeto de Lei que pretende tornar a Filosofia e a Sociologia obrigatórias no ensino médio. Ocorre que com a reforma do ensino médio, do governo Michel Temer, o ensino dessas disciplinas deixou de ser obrigatório e passou a ser optativo no ensino médio. Os educadores e as entidades educacionais precisam apoiar a iniciativa.
Segundo a Agência Senado:
“A sugestão partiu do professor Ricardo Reiter, do Rio Grande do Sul. Ele argumenta que a filosofia e a sociologia são fundamentais na formação humana de indivíduos politizados, autônomos e capazes de exercer a cidadania com consciência. Acrescenta, ainda que, a partir da filosofia, o aluno desenvolve o pensamento crítico e que a sociologia, por sua vez, o ajuda a compreender o que é a cidadania.”
Em função disso, Romário irá transformar o que era uma sugestão apoiara por 140 mil pessoas em um projeto de lei a ser tramitado:
“O ensino de filosofia e sociologia poderá voltar a ser obrigatório no nível médio. O senador Romário (Pode-RJ) anunciou, na semana passada, que acatou uma sugestão popular com esse pedido. A sugestão (SUG 20/2018) vai se tornar um projeto e será analisada pelas comissões do Senado. Conforme informou Romário, o pedido alcançou o apoio de quase 140 mil cidadãos no portal e-Cidadania, até o mês passado. Para que uma sugestão popular seja analisada, o mínimo exigido é de 20 mil apoios.
O senador disse considerar que se trata de uma iniciativa pertinente. Ele destaca que a Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei 9.394/1996) estabelecem de maneira explícita que a educação tem três finalidades: o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Daí a importância do ensino da filosofia e da sociologia para o desenvolvimento do senso crítico do estudante.
— As disciplinas são base para o pensamento crítico e para a formação cidadã do aluno — afirmou o senador.”
Se a matéria se tornar lei, o ensino voltará a ser obrigatório juntamente com as disciplinas tradicionais, como português e matemática.”
Agência Senado (Reprodução autorizada): leia aqui.
Naércio Menezes examina a proposta de vouchers e escolas charters (terceirizadas) para a educação brasileira, constante do governo Bolsonaro. Ele critica a adoção de vouchers, com base no fracasso generalizado da proposta, mas entende que as conveniadas (terceirizadas) podem ser um caminho para “chacoalhar a educação brasileira”.
No entanto, o autor se esquece de que as conveniadas ou terceirizadas tipo charters, são um passo inicial em direção aos vouchers. As duas propostas aparecem na história da privatização da educação de forma concomitante. Se não se corta o mal pela raiz, ele desabrochará. As conveniadas são o passo inicial em que o Estado cria o mercado para os vouchers, através de repasse de recursos públicos para a iniciativa privada.
Além disso, os dados mostram – e este blog tem apresentado tais dados – que as escolas conveniadas (terceirizadas), igualmente aos vouchers, não melhoraram a educação onde foram instaladas. Não haveria razão, portanto, para se criticar uma e não a outra alternativa – a não ser a fé no livre mercado como gerador de qualidade, promessa que as duas não conseguiram cumprir.
O que se oculta é o óbvio: aos poucos, a transferência dos recursos públicos para a iniciativa privada, vai devastando as escolas públicas nos locais onde se criam conveniadas. Não existem dois dinheiros: ou ele vai para melhorar a qualidade da escola pública, ou ele vai para o bolso do empresário conveniado. As terceirizadas são a morte anunciada da escola pública.
No entanto, o autor considera que:
“Para isso, seria bom usar os recursos públicos com o intuito de estimular competição por alunos entre as escolas públicas e as geridas pelo setor privado, permitindo que as famílias possam escolher as unidades de sua preferência usando dinheiro público. O grande desafio é a regulação do sistema. Por esse motivo, o modelo de escolas conveniadas gerido por organizações privadas parece ser a melhor opção para chacoalhar a educação brasileira.”
Leia texto completo aqui.
Aos poucos, os defensores da privatização da educação vão se apresentando (veja aqui também a posição do criador do IDEB), revelando a raiz da crítica que sempre formularam à educação pública a partir de dados do PISA, IDEB e outras formas de medição como o SAEB censitário.
Nos Estados Unidos, as terceirizadas, lá chamada de charters, também nasceram com o objetivo de gerar “boas práticas”, novas formas criativas de se ensinar, para que tais “boas práticas” fossem, depois, repassadas para as escolas públicas.
Mas isso revelou-se apenas uma desculpa para iniciar o processo de criação do mercado da privatização em direção aos vouchers e neovouchers. As próprias terceirizadas, depois de constituídas, passaram a aceitar os vouchers. Assim, as próprias charters (com ou “sem” finalidades lucrativas) tornaram-se um objetivo em si mesmo, nas mãos do “mercado”, com a finalidade de ganhar dinheiro captando vouchers.
Portanto, não existe esta separação que Naércio quer fazer entre “vouchers” e “conveniadas”. Ambas são formas articuladas de se promover a privatização da educação. Ambas não cumpriram as promessas de melhoria da qualidade da educação.
A função da privatização é acelerar a adoção do modelo empresarial como forma de organização da escola e inserir alunos, professores e gestores na lógica concorrencial do mercado, que aposta no desenvolvimento de uma concepção de educação voltada para o individualismo e a concorrência entre professores, alunos e escolas. Uma ideia nefasta que gera no âmbito da educação, como no mercado, ganhadores e perdedores em um espaço onde só deveriam haver ganhadores.
Inseridos nesta lógica individualista, a vivência da concorrência vai instalando a competição na juventude, no lugar da solidariedade, e vai corroendo, por dentro, a própria democracia, transformando o direito à educação em um serviço a ser adquirido no mercado.
Em um momento em que o direito à educação ameaça transformar-se em um serviço a ser adquirido ou vendido no mercado, é relevante voltarmos ao tema da educação e da democracia. O professor Carlos Roberto Jamil Cury (UFMG/PUC-Minas) comenta a relação entre educação e democracia e mostra que: sem direitos, não há democracia.
“O decreto da nova Política Nacional de Alfabetização do governo Jair Bolsonaro (PSL) manteve o foco no chamado método fônico, alvo de críticas. O texto inicial havia sido alterado nos últimos dias, com anuência de secretários de Educação, mas a versão final teve nova redação.”
Leia mais aqui.
Forçar (ainda que veladamente como faz o MEC na nova versão do Decreto) o uso de um método específico pelas escolas, pela chantagem do Estado que só distribui verbas federais se as redes “optarem” pelo uso do método fônico, disfarçado de instruções pedagógicas, deveria ser motivo de debate no Congresso, procurando-se estabelecer instrumentos legais que impedissem ao Estado de fazer isso.
Nos Estados Unidos, a nova lei que regula as relações no campo da educação entre o governo federal e os estados evoluiu em relação à lei anterior conhecida como No Child Left Behind e impediu que a nova versão condicione o acesso a recursos federais, à obediência de instruções centralizadas, por exemplo, na concepção da avaliação dos sistemas de ensino estaduais.
Que Velez estava “fazendo hora extra” no MEC, já se sabia. A demora em demiti-lo se deu em função da busca de um novo nome para o Ministério da Educação. Não era uma tarefa fácil dada a existência de uma coalizão conservadora/neoliberal que perpassa todo o governo. Vários nomes foram indicados e até mesmo o nome de Mozart voltou a ser sugerido nos bastidores, o que confere com a intensa agenda que este teve nos últimos dias com participação no programa Roda Viva e entrevistas, em uma das quais disse ser um “soldado da educação brasileira”, quando indagaram se aceitaria ir para o MEC no governo Bolsonaro.
Novamente o governo desperdiçou a possibilidade de pacificar o MEC pelo menos com a área liberal da educação. Mas Bolsonaro não quer mesmo isso, pois considera, como já disse anteriormente, que esta é uma área contaminada pelo marxismo cultural.
O novo ministro é, e não é, mais do mesmo. Por um lado, é seguidor de Olavo de Carvalho como o anterior. Diz o novo ministro que para se combater o marxismo cultural é preciso “humor e inteligência”. Ou seja, a hipocrisia e a ironia vão aumentar.
Por outro lado, o novo ministro é mais do que conservador. Ele vem da área econômica e tem experiência na lógica operativa do neoliberalismo. Foi diretor estatutário do Banco Votorantim, CEO da Votorantim Corretora no Brasil e da Votorantim Securities nos Estados Unidos e na Inglaterra. Dessa forma, é um nome que reúne as teses conservadoras e a lógica da privatização e da concorrência.
Com Velez argumentávamos que deveriam existir duas etapas no MEC: uma conservadora e outra neoliberal, pois ele só teria condição de conduzir a agenda conservadora. Com o novo ministro ganha-se a possibilidade de fazer as duas agendas seja de forma simultânea, seja em série – na dependência das prioridades do plano geral de privatização do governo, com sede na área do Ministério da Economia.
No momento, a prioridade é com a agenda conservadora e a recuperação da capacidade de gestão do MEC. Os ex-alunos e olavetes que foram retirados do MEC na gestão Velez, tendem a ser recolocados no órgão. Há quem diga que isso fez parte do acordo. O diferencial nesta fase, em relação a Velez, é que ela será feita com mais gestão – eliminando os problemas recorrentes que criaram situações embaraçosas para o governo até agora.
O número dois do MEC, seu secretário executivo, já está definido no próprio acordo: será Eduardo de Melo e ele tem trânsito com os evangélicos, tem formação na área militar e tem o apoio de Olavo de Carvalho. Com isso, tenta-se apaziguar as outras correntes do MEC: evangélicos e militares e criar algum tipo de armistício entre estas forças. Mas, detalhe, Eduardo também tem interface com a iniciativa privada.
O conjunto de forças que emerge desta alteração, reforça a ideia de que se mantém a agenda conservadora e desloca-se para o órgão um pessoal que tem condições também para a fase neoliberal de privatização, sob a batuta de Paulo Guedes do Ministério da Economia.
Mas, mais importante ainda, é que a vivência dos novos ocupantes na iniciativa privada permitiu a eles desenvolver uma compreensão da lógica de funcionamento neoliberal. Como diz Marilena Chauí, o neoliberalismo não é só uma questão que se explica pelo regime acelerado de financeirização, mas ele é, em si, um padrão sócio-político.
Neste sentido, o alto comando do MEC tem agora pessoas que podem orientar o órgão, por um lado, pelas teses conservadoras e, por outra, na lógica operativa do padrão sócio-político do neoliberalismo. Pode, portanto, destruir o MEC como instituição social que é, e transformá-lo em uma “organização empresarial”. Por tanto, não é apenas mais do mesmo, mas é mais do mesmo ampliado no contexto de uma coalizão conservadora-neoliberal.
Resta saber como vão se comportar os liberais de raiz. Estes, embora concordem com a agenda econômica neoliberal, têm divergências com os conservadores e neoliberais ligadas à preservação da democracia liberal representativa. Tudo vai depender de como o novo ministro caminhe no combate ao marxismo cultural e na intensidade da privatização.
Se tal combate for tolerável, os liberais de raiz apoiarão o novo ministro “em nome do Brasil”, “em nome da educação brasileira”, em nome de que “não podemos torcer para dar errado”. Principalmente se as propostas que vinham sendo executadas no governo Temer forem mantidas e desenvolvidas.
Devemos agora aguardar pelas mudanças nos postos do MEC que poderão ocorrer nos próximos dias e as primeiras ações do novo ministro.
Bolsonaro, como a realidade demonstrou, perdeu a oportunidade de conciliar-se com a direita liberal (incluindo a social-democracia) ao recusar o nome de Mozart. Com isso, interrompeu abruptamente toda uma política educacional que vinha sendo construída nos últimos anos desde Dilma ou até mesmo antes. A esta política costuma-se chamar de reforma empresarial da educação. Em seu lugar, o MEC de Bolsonaro colocou em prática a política do “retrovisor”, andando para trás.
Mozart poderia ter mantido a política da reforma e, hoje, o governo Bolsonaro estaria em uma situação política mais confortável – com o Todos pela Educação apoiando. Não teria que ler na Folha de hoje uma manchete sobre seu governo dizendo que é preciso “remover o entulho” do MEC. Nada mais correto, o nome certo é entulho mesmo – um pessoal que ainda está ressentido com a revolução francesa.
Parece que depois de amanhã, dia 8-4-19, haverá outra janela de oportunidade para Bolsonaro fazer as pazes com os liberais. Os jornais arriscam dizer que ele trocará o atual ministro. A questão parece ser quem colocar no lugar.
Tenho dúvidas se aproveitará a nova janela indicando Mozart ou mesmo qualquer outro liberal do âmbito da educação. A visão do governo, ainda é a de que o MEC é um órgão importante do ponto de vista ideológico e, por outro lado, que tanto ele como a própria Educação brasileira estão aparelhados pelo marxismo cultural – um conceito amplo que inclui tudo aquilo que é diferente do que o conservadorismo pensa. Isso faz com que o futuro ministro tenha que estar comprometido com esta agenda conservadora e ele terá dificuldades para encontrar lideranças liberais competentes na área da educação para levar isso adiante, o que o obrigará a valer-se novamente de militares, olavetes, evangélicos ou congêneres da tal “escola sem partido”.
Por isso, pode ser que não encontre liberais e tenha que apelar para mais do mesmo. Quem vai querer comandar um órgão complexo com uma verdadeira mixórdia de indicados para postos internos, com o aval de Olavo de Carvalho, milicos e demais? Quem vai aceitar ser ministro sem poder de nomear seus auxiliares? Portanto, a troca pode ser mais do mesmo, com o objetivo apenas de eliminar tropeços administrativos e adicionar mais gestão ao que já se viu.
Outra dificuldade para Bolsonaro achar um novo ocupante para o MEC é que o novo ministro terá que aceitar a privatização proposta por Guedes: a destruição do sistema público de educação por terceirização e vouchers.
Para nós que discordamos tanto da reforma empresarial como da política conservadora, tal situação incomoda, pois o sistema educacional brasileiro estará andando para trás com os conservadores, como já demonstrou Velez, ou permanecerá andando de lado – com a reforma empresarial dos liberais. Não nos interessa um MEC que ande para trás ou de lado, como caranguejo.
De um jeito ou de outro, os próximos governos progressistas terão que reconstruir a educação pública brasileira. Infelizmente, a escolha será entre a “política do retrovisor” e a “política do caranguejo”.
Alguém poderia dizer que ainda é melhor andar de lado do que para trás. Infelizmente, isso não se aplica quando andar de lado significa a destruição da escola pública pela privatização.
O governo Dória escalou um consórcio de quatro fundações para definir quem pode ser gestor na rede de educação pública de São Paulo. Chama-se Aliança o nome do grupo e a parceria chama-se Líderes Públicos (fundações Brava e Lemann e Institutos República e Humanize). E é sem custos.
Primeiro, os atuais diretores regionais serão entrevistados por Rossiele, o Secretário e seu sub, importado do Espírito Santo onde aplicou assiduamente o receituário da reforma empresarial da educação na gestão Hartung (Doria chamou também Hartung para integrar o Conselho Estadual de Educação de SP). Depois entram em cena as fundações a título de avaliar “competências” dos gestores.
A conversa é a mesma de sempre, vencer o corporativismo, qualificar gestores, ter diretores que são lideranças e “não se acomodam a resultados negativos”, enfim, ser um implementador alinhado com a política da reforma empresarial (apesar de estar empacada há duas décadas no Estado). Mas, este discurso é apenas para consumo externo, pois seus objetivos são outros.
Como já demonstramos em várias ocasiões neste Blog as reformas não acarretam melhorias na qualidade da educação. No entanto, elas difundem a lógica da reforma empresarial nos processos educativos internos – também chamado de gerencialismo -, contribuindo para que ela seja assumida como regra no âmbito da educação. Aqui, o “dar certo” não se refere a índices e resultados, por mais que eles sejam alardeados, como faz hoje a Folha, mas à assimilação da lógica empresarial nos processos de gestão.
Deste ponto de vista, é fundamental que os líderes da rede pública estejam adequadamente inspirados por esta forma de pensar. A expropriação do pensar que já atinge os professores e estudantes, agora sobe pela escala hierárquica e pega o gestor: a forma de gerir será padronizada previamente. Na visão da reforma, a responsabilização por resultados a ser “gerenciada” por diretores é central para o sucesso. Depois de duas décadas padronizando, parece que a Secretaria quer apertar, via gestão, o cerco sobre professores e estudantes.
O alcance da medida afetará 1597 diretores e 621 supervisores que estão designados para tais funções nas 5.400 escolas do Estado. Os demais são concursados. Em primeiro lugar, serão convocados os diretores regionais (91).
Para a reforma é imprescindível padronizar e alinhar para poder cobrar (ou seja, responsabilizar). Esta forma de pensar a educação desenvolve a privatização por dentro, fixando os limites de atuação do gestor dentro dos padrões de gestão empresarial assumidos pela Secretaria de Educação. Depois disso, o passo seguinte é a terceirização das escolas e/ou vouchers.
A jornalista Eliane Cantanhêde informou que “Bolsonaro decidiu demitir o ministro da Educação, Velez Rodrigues. Os motivos são óbvios”. Pode ser em horas ou em dias, diz. Mas a decisão já está tomada.
A pá de cal parece ter sido o desempenho do Ministro na Comissão de Educação onde ele afirmou que o MEC é um “abacaxi do tamanho de um bonde”.
A questão, agora, é quem virá…
A Agência Brasil informa que em reunião de 26-3-19 o Conselho Nacional de Educação (CNE) se declarou incompetente “para definir o valor financeiro e precificação do Custo Aluno Qualidade Inicial [CAQi]” previsto do Plano Nacional de Educação e até agora não implementado.
“O CAQi definiria quanto o país deveria investir no mínimo por aluno ao ano nos níveis de ensino infantil, fundamental e médio das redes públicas de todo o território, em regra, vinculadas às prefeituras municipais ou aos governos estaduais.
“Não é competência [do CNE] estabelecer valores financeiros. Isso seria inconstitucional. Não sabemos quais são as fontes orçamentárias para que estados, municípios e mesmo a União possam cumprir o que está definido”, disse a relatora do parecer no CNE, Maria Helena de Castro, ex-secretária-executiva do Ministério da Educação. “
Leia aqui.
A decisão retira pressão sobre o governo para que este financie adequadamente a educação. Como afirma Ximenes:
“Na prática, o MEC delega à área econômica a definição sobre os parâmetros de qualidade. Assim, a partir de agora, oficialmente, prevalecerão os limites econômicos na definição da “valores per capita associados à qualidade da educação básica, vinculada a existência das correspondentes fontes de custeio ou financiamento”. Ou seja, um direito à educação cuja extensão se define na área econômica, uma completa inversão da própria noção de direito. “
Mas além disso, há que se agregar outras intenções do núcleo neoliberal no Ministério da Economia do governo Bolsonaro. Os neoliberais desistiram há muito tempo da escola pública e consideram que ela é irrecuperável. Eles querem privatizar a educação brasileira e isso se faz criando-se a figura dos “vouchers”, ou seja um valor fixo em dinheiro que é dado aos pais para que eles escolham e custeiem a escola que desejarem para seus filhos – incentivando a migração dos alunos da escola pública para a privada. Caso os pais queiram uma escola melhor do que aquela que o valor do “voucher” permite ter, ele deve completar com seus próprios recursos. Como sabemos, tudo que se converte em mercadoria, se fragmenta em vários níveis de “qualidade”, acessíveis segundo o dinheiro que se carrega no “bolso”.
A decisão do CNE abre possibilidade de que, sem uma definição adequada do valor que custeia um aluno, isso possa ser livremente feito na forma de “voucher”, dentro do plano global de privatização da educação básica, sem interferência do CNE.
Sendo o “voucher” uma unidade de transferência de recursos públicos para pagamento da iniciativa privada quando ela atende um aluno (incluindo homescholling), se o CNE fixasse este valor, ele poderia amarrar também o valor do “voucher”.
Agregue-se ainda, que para os neoliberais, a qualidade da educação não depende de mais investimentos, mas sim, de que a atividade educativa seja inserida no mercado, o que geraria competição entre as instituições educacionais, resultando em maior qualidade. Como já vimos neste blog, a tese nunca foi comprovada, mas é mais uma ideia-zumbi neoliberal a vagar pelo mundo fazendo vítimas.
Deixo para debate esta hipótese, alertando que no desgoverno geral criado por Bolsonaro, a área econômica é um dos polos que sabe muito bem o que quer – além de ter apoio de neoliberais, liberais e militares. O governo (e o MEC especialmente) pode parecer paralisado, mas isso não se aplica ao núcleo neoliberal.
Avaliação de Miriam Leitão sobre a situação do Ministério da Educação.
Acesse aqui.
O Ministério da Educação voltou atrás e diz, agora, que vai continuar avaliando a alfabetização das crianças como vinha sendo feito. A moratória de dois anos foi cancelada – se é que se pode acreditar em alguma decisão naquele órgão. Ocorre que a decisão de suspender a avaliação ocorreu sem que o ministro fosse informado.
O Estadão resume a situação em matéria que pode ser lida aqui. O Globo resume os desencontros aqui.
Velez está proibido pelo presidente de demitir ou indicar novos colaboradores no MEC, portanto tudo depende do presidente. A Secretária da SEB, ontem, havia pedido demissão, pois discordava da medida do presidente do INEP, feita a pedido de Carlos Nadalim, para suspender a avaliação.
Ontem Velez se reuniu com o presidente do INEP e o “demitiu”. Segundo o Estadão teria demitido também Carlos Nadalim (quem originou toda a confusão), mas outros jornais não confirmam. No entanto, tudo isso está parado na Casa Civil e precisa ter a concordância do presidente. A briga é alimentada por duas correntes, pelo menos, de um lado o grupo dos militares e de grupo os “olavetes” de Olavo de Carvalho.
O MEC foi instrumentalizado por três vertentes de apoiadores de Bolsonaro: evangélicos, olavetes e militares. Na partilha do governo, empresários e financistas ficaram com o Ministério da Economia. É o “neo-corporativismo de Estado”, a tal da “nova política”. O governo perdeu a dimensão republicana e é um amalgama de interesses particulares, diversos e desconexos, gerando toda sorte de confusão. Some-se a isso a falta de quadros e experiência em gestão pública.
Tânia Almeida deixará a Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Ela vinha sendo atacada por olavetes e além disso, mesmo sendo a responsável pela área, ela não foi informada sobre a mudança na avaliação da alfabetização. Pediu para sair. Tudo indica que a mudança na avaliação foi uma solicitação feita por Carlos Nadalim, da Secretaria de Alfabetização diretamente ao presidente do INEP.