A imprensa e suas bobagens…

Postado originalmente na Uol em 6/07/2010

O governo brasileiro não dispõe de tecnologia para comparar escolas particulares com escolas públicas.

A tecnologia está disponível, chama-se cálculo de valor agregado, mas não é usada pelo INEP.

Portanto qualquer comparação entre escolas particulares e privadas é pura bobabem. Para realizar esta comparação seria necessário que se tivesse uma medida de como o aluno chegou na escola no início da primeira série do ensino fundamental. Fixado um ponto de partida, poder-se-ía, então, verificar quem ensinou mais: se a particular ou a pública. Ocorre que nas redes privadas os alunos chegam com um nível de conhecimento elevado já na primeira série, enquanto que na rede pública, já chegam com um nível menor de conhecimentos. Entretanto, isso não tem nada a ver com a escola pública. Uma escola pública que recebe um aluno com pouco conhecimento pode ensinar mais do que uma escola privada que recebe o aluno com alto nível de conhecimento e pouco agrega além disso. O alto nível de desempenho verificado ao final de uma série na escola privada, pode não ser mérito da escola.

Medir o final da quarta, da oitava série do ensino fundamental ou da terceira do ensino médio, não permite chegar a nenhuma conclusão. É preciso ter o dado de entrada. Tão simples assim.

Com seu viés privatista a mídia, novamente, veicula bobagens. Novamente tenta sugerir que o privado é melhor que o público.

 Folha de São Paulo, 05/07/2010 – São Paulo SP

Rede pública está 3 anos atrás da particular

Aluno que termina ensino fundamental em escola particular sabe mais que formando do ensino médio público. Apesar disso, distância entre as redes diminuiu entre 2005 e 2009, segundo dados do Ministério da Educação

Leia a matéria em:

http://www1.folha.uol.com.br/saber/761807-rede-publica-esta-3-anos-atras-da-particular.shtml

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A desigualdade social como demagogia…

Postado originalmente na Uol em 11/07/2010

A desigualdade social só é lembrada pelo mercado quando ele vê nela possibilidade de auferir mais lucros. Mais de 20 anos de aplicação destas soluções estão disponíveis para análise na literatura americana. Conforme antecipei em outras mensagens, vai se fechando o cerco para se fazer uso destas soluções falidas, ensaiadas pelos governos liberais de Reagan, Bush pai, Bush filho, Tatcher, Pinochet e outros, e que alguns desejam ver aplicadas no Brasil.

Arnaldo Niskier, volta à carga a favor delas na folha de hoje 11-07-2009. Segundo o presidente do CIEE/Rj – Centro de Integração Empresa-Escola – “a má qualidade da educação pública opera a favor da desigualdade social; são aconselháveis parcerias público-privadas para o setor”. Note então como funciona: primeiro encontro um motivo politicamente correto – corrigir as desigualdades sociais que eu criei, como sistema social, e depois agrego o acesso a verbas públicas na forma de parceria público-privada, o motivo real. Não se fala em aumentar o investimento público na escola pública, mas em diminuir a desigualdade social gerando lucro. Ora a educação não tem esta capacidade de regenerar a sociedade pervertida pela própria atividade econômica. Fala-se muito em que a educação tenha alavancado o desenvolvimento econômico em alguns países, mas que tenha diminuído a desigualdade social, está para ser provado. Todos sabemos que o processo produtivo consome cada vez menos mão de obra. Não há precisão de que as favelas diminuam seu crescimento, segundo a ONU.

Os defensores dos vouchers, charters schools ou seja toda sorte de privatização branca, falam que tais medidas geraram “ganhos apreciáveis” ou seja, quando são pequenos eles são transformados em “apreciáveis”. Se fossem de fato ganhos importantes, seriam “enormes vantagens”. Já mostrei aqui em outras postagens como o país que mais se exercitou nisso amarga hoje estagnação no PISA e meros 4 ou 5 pontinhos a mais nas avaliações internas, num período de 15 anos – os Estados Unidos, de onde saem tais idéias. Além disso, destruiu seu sistema público de ensino (Ravitch, 2010).

De fato o que está em jogo é como a iniciativa privada pode ampliar o mercado educacional através de acesso fácil ao dinheiro da viúva… o governo. A desigualdade social é apenas um argumento oportunista e demagógico, destinado a ocultar os reais motivos…

Abaixo aceso ao texto de Niskier.

Folha de São Paulo, 12/07/2010 – São Paulo SP

O que falta é vontade política

A má qualidade da educação pública opera a favor da desigualdade social; são aconselháveis parcerias público-privadas para o setor

 Leia a matéria em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1107201008.htm

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O Exame, a CNTE e o mundo da fantasia…

Postado originalmente na Uol em 15/07/2010

A CNTE continua sua tarefa de apoio ao Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente. Continua arranjando desculpas para apoiar o MEC. Reconhece que pode haver o problema do Exame virar avaliação do professor, entretanto, como já afirmamos em outras postagens, este não é o principal problema do Exame.

 A CNTE aponta para algo que não é relevante e com isso retira a conversa do ponto central: o estreitamento do currículo de formação do professor a partir da divulgação da matriz de referência – os 20 mandamentos do bom professor que estão sendo elaborados pelo INEP. Esta é a questão que a CNTE desconversa. O problema não é o Exame vir  a avaliar o professor, mas sim orientar a formação dos professores nas instituições formadoras, ou seja, o Exame vai virar currículo de fato. E se o Exame é só para ingresso, como afirma a CNTE, não deve avaliar nem professor e nem instituição formadora. Mas, note-se que isso não irá impedir que as instituições espelhem-se no Exame para montar seus currículos. O efeito vestibular e o efeito cursinho vão se instalar, independentemente da vontade do MEC e da CNTE. A única forma de evitar isso, é não ter Exame.

Se não é avaliação, a CNTE deveria propor ao MEC eliminar o dado sobre a instituição na qual o professor foi formado, por exemplo. Dessa forma, a instituição de origem não poderia ser identificada e avaliada por um Exame que é inadequado para tal propósito. Já que a CNTE reconhece que ele não deve avaliar o professor, também não deveria avaliar a instituição que o formou, porque não tem esta função e nem é adequado para tal. A Instituição deve ser avaliada dentro do SINAES.

Isso implica em que o INEP abra, para o comitê de governança, a base de dados que será constituida para cada participante do Exame.

A CNTE continua vivendo a fantasia de que um Exame poderá potencializar uma Carreira Nacional do Professor. Acredita no MEC quando este diz que o Exame não é para avaliar o professor (mas não fala que não avaliará a Instituição formadora do professor, produzindo estreitamente curricular inevitável). Finalmente, acha positivo o debate.

Também incluiu entrevistas na Voz da Educação, rádio da CNTE, na mesma linha de argumentação. Trouxe até aluna recém-formada de pedagogia para defender o exame.

A propósito do Comitê de Governança do Exame, qual a sua composição? As principais entidades científicas participam diretamente ou via um representante de todas elas? Se for esta última: queridas entidades científicas, vocês levaram um belo chapéu…!

Enfim, deixe-se registro do momento, para conferirmos no futuro.

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A direita educacional chilena contra-ataca…

Postado originalmente na Uol em 15/07/2010

O Ministério da Educação do Chile nomeou uma comissão de especialistas para indicar as mudanças a serem feitas no sistema educacional chileno.

Vale a pena ler o documento. Ele mostra a opção do grupo por alterar o sistema educacional centrando a atuação nos professores (docentes e diretores) atráves de uma série de mudanças. Esta é a visão que a direita tem sobre as mudanças no campo educacional hoje, para a América Latina.

– “A todos os egressos dos programas de pedagogia se exigirá um exame de habilitação para poder ensinar na educação subvencionada pelo Estado.”

– “Os desempenhos dos egressos dos diversos programas de pedagogia devem ser públicos. Estes devem ser considerados no processo de acreditação dos programas de formação inicial docente.”

– “As instituições formadoras terão que encarregar-se, obrigatoriamente a seu custo, da nivelação de seus egressos que havendo sido reprovados no exame de habilitação, queiram fazê-lo uma segunda vez.”

O Exame de Ingresso na Carreira Docente proposto pelo nosso MEC, não vai ser diferente, em que pese aparecer, agora, sob outra roupagem. Pode não conter um ou outro aspecto, mas nasce no mesmo contexto. Parte-se da idéia de que o culpa pelo fracasso é do professor ou então da agência que o formou. O Ministério acaba, com esta agenda internacional, sendo pressionado a caminhar na mesma direção.

O aluno pode não ir bem em um Exame por vários motivos, não só porque não sabe. E quando não sabe, não se pode dizer que a agência formadora é a única responsável, pois esta lógica parte da idéia de que o aluno está disponível para aprender, o que pode não ser verdade. Muita gente vem aos cursos de pedagogia e não pretende dar aula, vem para ter um diploma somente. Se esta pessoa decidir um dia ser professor, certamente, não conseguirá passar no Exame. Há outras variáveis. Fazendo com que uma instituição privada, por exemplo, se encarregue de ensinar novamente o aluno que não passou no exame, esta instituição irá pressionar mais ainda seus alunos em exames e simulados internos, durante sua formação. O curso se converte, portanto, em uma preparação para o Exame, estreitando a formação do aluno. Além do que, aumentando a pressão sobre o aluno, as instituições vão gerar mais evasão. Mas, se hoje, já não temos professores suficientes, como ficaremos se a evasão aumentar?

Mas não é só isso. Há outras recomendações no documento chileno. Os processos de avaliação docente no decorrer da carreira são amarrados a benefícios pecuniários.

– “Recomendamos que a partir dessa base o Ministério da Educação estabeleça um perfil de remunerações válido só para os docentes destacados, que todos os mantenedores públicos devem satisfazer. Estes docentes são aqueles que obtiveram a máxima qualificação na avaliação docente e o perfil de remunerações deve conciliar experiência com mérito.”

– “Cada mantenedor desenvolverá sua própria avaliação docente […] Esta avaliação deverá ser também o critério fundamental para definir a continuidade dos professores.”

– “A seleção e contratação de cada diretor suporá a aceitação de um convênio de desempenho que estabelecerá as metas que o mantenedor definiu para os cinco anos de gestão do diretor. O convênio estabelecerá, além disso, reconhecimentos e eventuais sanções de acordo com o grau de cumprimento das metas. “

– “Ampliar as atribuições dos diretores no manejo dos recursos humanos, dando-lhes um papel ativo nas funções de selecionar, avaliar, fixar remunerações e desvincular …”

E por aí vai…

Ou seja, mais controle sobre o diretor, que por sua vez coloca mais controle sobre o professor, o qual, é claro, colocará mais pressão sobre o aluno.

“Darwinismo concorrencial” – a lei do mais forte. Sobreviverá o mais forte. E o mais forte é o mais apto… Este modelo é passado também para os alunos, como visão de mundo.

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TFA: voluntários mal treinados para escola de pobres …

Postado originalmente na Uol em 16/07/2010

O Portal UOL Educação trouxe no dia 14-07-2010 notícia sobre a Teach for America (TFA), uma ONG sem fins lucrativos, (mas que vive de polpudas doações, por exemplo, da Walton Family Foundation, uma das quatro ou cinco fundações as quais ditam a agenda educacional do governo americano) que busca voluntários para trabalhar em escolas públicas com índices elevados de pobreza.

A introdução no mercado de trabalho de milhares destes professores improvisados (junto com outras ações de credenciamento) pode aliviar a pressão pela formação adequada de mais professores e ajudar a aliviar a pressão por melhores salários, aumentando artificialmente a “oferta de professores” o que permite adiar investimento público. Ao mesmo tempo, professores melhores formados são movimentados para atender os alunos mais bem posicionados economicamente. O impacto, entretanto, no conjunto do sistema é pequeno. Os Estados Unidos têm 4 milhões de professores e a TFA lança no mercado em torno de 10.000 “professores” por ano. Levando-se em conta que 80% não ficam, tem-se uma dimensão do problema.

Para ser professor na ONG basta uma inscrição online, uma entrevista por telefone, a apresentação de um plano de aula, uma entrevista pessoal, um teste escrito e uma discussão em grupo monitorada.  Um curso de cinco semanas os prepara para atuar como professores. Não é preciso ser formado em pedagogia ou ter licenciatura. Fácil. Algo assim como aquela antiga “Operação Rondon” que os governos militares institucionalizaram, melhorada.

Afinal, é para a pobreza mesmo. Mas note que sempre que se quer ocultar a indústria educacional  a justificativa é a pobreza. Parte do mercado educacional se esconde atrás da pobreza ou busca nela sua “justificativa”. Trata-se na verdade de pessoal desempregado ou recém formado sem emprego que fica na ONG durante algum tempo até passar a crise e arrumar outro emprego.

A própria matéria do UOL diz que neste ano houve um aumento na demanda por vagas na TFA de 32% e explica porque: “há pouca dúvida de que os números foram alimentados pela crise econômica, que limitou as opções de emprego até mesmo para indivíduos que se formaram pelas melhores universidades nos Estados Unidos”.

80% destes desempregados mal treinados que entram na profissão de professor da TFA  abandonam-na  em até três anos (Boyd and Grossman; Kane and Rockoff).

Como diz Diane Ravitch, um professor demora dois ou três anos para se tornar qualificado, após devidamente formado, na prática. Se os professores da TFA saem em até três anos, deixam a escola exatamente no momento em que poderiam vir a ser mais eficientes no ensino (p. 191).  Para ela é uma “ilusão pensar que a TFA pode fechar a defasagem de desempenho” destes alunos situados em escolas mais pobres.

Sobre esta questão pode-se acessar também o debate entre Julie Mikuta e Arthur Wise, sobre a TFA.

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Inglaterra: Associações pedem mudanças no sistema de avaliação

Postado originalmente na Uol em 18/07/2010

Duas das maiores associações de professores da Inglaterra divulgam documento pedindo alterações no sistema de avaliação de larga escala dos alunos.

Eles criticam o uso indevido dos dados de avaliação para propósitos de associar a eles alto impacto (accountability): “temos agora uma grande e excessiva rede de mecanismos de responsabilização afetando escolas e professores”, diz o documento.

Estas e outras sugestões estão no documento Make Assessment Measure Up.

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MEC incentiva o ranqueamento com o novo ENEM

Postado originalmente na Uol em 19/07/2010

Aos poucos vai ficando claro que avaliar para comparar escolas é um indicador precário. Sempre foi, mas as razões não eram divulgadas. Na época do FHC comparavam-se escolas públicas e privadas como se fossem plenamente comparáveis. A Folha de São Paulo tem saudade deste tempo. Seu viés privatista até hoje não consegue apagar esta paixão pelos rankings que enaltecem as escolas privadas. O MEC ajuda, pois transformou o ENEM em uma corrida para entrar na Universidade deixando de por atenção ao que ele deveria ser: um indicador da qualidade global do ensino médio. Um indicador global de desempenho e não de uma escola determinada. Seu objetivo deveria ser discutir a qualidade e suas razões.

Note-se também, que o ENEM, hoje, é composto de quatro provas objetivas  (ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemática) e a redação. O MEC divulga duas notas, a da prova objetiva (180 questões) e a nota final que inclui a redação. Ao fazer isso, o MEC tira o foco do desempenho dos alunos em cada uma das disciplinas avaliadas e coloca a atenção em uma nota final que nada revela das disciplinas específicas e direciona para o ranqueamento de escolas. Ao invés de discutirmos o que os alunos, em geral, estão aprendendo de fato, escalonamos escolas pelo desempenho que pode levar em conta apenas 2% dos seus alunos. Mais ainda, estes alunos não são representativos dos demais. Há escolas particulares que pagam seus alunos para participar do ENEM e, certamente, não pagam para os piores irem fazer as provas.

A questão adicional é se faz sentido tirar uma média das 5 notas obtidas pelos alunos nos testes e na redação. Que poder explicativo tem esta média do ponto de vista de aprendizagem do aluno?

A Folha de São Paulo produz, hoje, um caderno especial sobre o ENEM, na esteira da divulgação dos dados pelo MEC. Como dizíamos, aos poucos vai ficando claro que avaliar para comparar não é uma boa proposta. Nem a Folha pode esconder os problemas e, ao desenvolver a matéria, o bom senso vai sendo, ainda que envergonhadamente, revelado. A fala da Secretária da Educação Básica do MEC é um oásis: “Não é pelo fato de ser particular que a escola está no topo. É preciso pensar quem estas particulares estão atendendo, qual a bagagem que estes meninos trazem.” Ou seja, o que Maria do Pilar Lacerda quer dizer é que o ENEM não mede valor agregado, ou seja, não registra como o aluno chegou na escola e como ele saiu ao final da escolarização. Isto, que é uma medida banal nos Estados Unidos ou na Inglaterra, não é feito pelo INEP. Sem valor agregado, a Folha não pode comparar escolas particulares e públicas.

Como a Folha de São Paulo diz em seu caderno especial: “O Colégio Maria Imaculada (zona sul de SP) trocou o 92o. lugar pelo 7o. O Batista Brasileiro o 116o. pelo 14o. Um ponto comum foram poucos alunos na prova. Estudos do INEP mostram que as escolas tendem a ter melhores resultados quanto menos alunos seus fazem o exame – são os menos preparados que mais desistem. ” Como explicar um salto deste de um ano para outro?

Por fim estão também as considerações, no mesmo caderno, feitas por Eduardo de Carvalho Andrade: “é possível que a contribuição de um colégio para o aprendizado dos alunos seja maior numa escola com pior posição no ranking.” Qualquer um que lide com cálculo de valor agregado sabe que as escolas particulares recebem alunos “mais sabidos” e portanto têm uma margem de progressão menor do que se recebessem alunos “menos sabidos”. Este é o caso das escolas públicas, por exemplo, mas ocorre também entre as escolas particulares.

Por fim, cabe salientar as palavras do próprio Presidente do INEP: “Um parâmetro que pode ser usado para saber a situação da escola é a nota média do desempenho individual dos alunos em 2009 — 500. Essa é a nota da média dos estudantes de terceiro ano que fizeram o Enem 2009. Se a escola está com a nota muito abaixo pode ser sinal de problemas.

Outro fator que deve ser considerado é o número de participantes (sempre informado pelo Inep). Não se entusiasme, por exemplo, se uma escola obteve uma nota excelente com 5% de participação de seus alunos.  “O exame é voluntário, portanto o estudante tem algum tipo de motivação [para participar]”, explica Soares Neto. Essas motivações — usar a avaliação para ingressar no ensino superior ou para concorrer a uma bolsa de estudos do Prouni — podem atrair os alunos mais interessados e mais aplicados daquela escola.

Uma medida que pode evitar o mau uso das informações é comparar escolas ou instituições com perfis semelhantes. Se você quer saber o quão boa (ou ruim) é a escola particular do seu filho, por exemplo, compare a nota dela com a de uma outra instituição privada do seu bairro. Tente observar semelhanças no perfil administrativo (a escola é particular, estadual, federal ou municipal?). Observe também o tipo de público que ela atende (em sua maioria, os alunos vêm de famílias com mesmo nível sócioeconônico?).”

Segundo Neto:

“A partir do próximo Enem, será possível fazer uma análise do desenvolvimento da escola no decorrer dos anos. Isso se deve à adoção da TRI (Teoria de Resposta ao Item), uma metodologia de avaliação que leva em conta não apenas o número de acertos do estudante mas também o nível de dificuldade das questões corretas e a coerência no conjunto das respostas.”

http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/07/19/enem-2009-por-escola-ao-comparar-notas-analise-instituicoes-com-perfil-semelhante.htm

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O ENEM do professor de amanhã…

Postado originalmente na Uol em 19/07/2010

O ENEM de hoje, é o ENEM do professor de amanhã.

A lógica vai se impor, independentemente da vontada do MEC ou da CNTE. Uma vez feito o exame de ingresso à carreira do magistério deve-se esperar, para o dia seguinte da divulgação dos dados, o mesmo ranqueamento que agora se observa no MEC e nos jornais de hoje – com direito a caderno especial da Folha e tudo o mais.

Anote para conferir…

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A TFA já está aqui, no Rio…

Postado originalmente na Uol em 19/07/2010

Chega ao Brasil Teach for America com o nome de Teach for All ou Ensina! (ver aqui e aqui). A Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro é a porta de entrada desta organização internacional que vai alocar trainees para lidar com a pobreza do Rio, conforme adiantamos em postagens anteriores.

 Escolas municipais terão reforço de trainees 

Data: 18/07/2010 – Veículo: O GLOBO

Editoria: RIO – Jornalista(s): Ruben Berta

Rio será a primeira cidade do país a receber programa internacional de formação de líderes em educação

Ruben Berta

O Rio de Janeiro será a primeira escala para a chegada ao Brasil de uma rede internacional de formação de líderes na área de educação: a Teach for All (Ensino para Todos). A partir de agosto, começará a ser realizada a seleção de 40 universitários e profissionais recém formados em qualquer área de conhecimento, que participarão de um programa de trainee em colégios da rede municipal de ensino. No ano que vem, eles iniciarão um período de dois anos auxiliando professores com aulas de reforço de aprendizagem para estudantes de unidades localizadas em áreas de risco, as Escolas do Amanhã.

O programa Teach For All está atualmente em 13 países e já formou mais de 17 mil profissionais.

Continue lendo em:

http://oglobo.globo.com/rio/escolas-municipais-terao-reforco-de-trainees-2977626

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Enquanto isso, a indústria educacional se prepara…

Postado originalmente na Uol em 22/07/2010

Dona do ‘FT’ compra parte da SEB e triplica de tamanho no Brasil

Negócio, que chega a quase R$ 900 milhões, inclui os sistemas de ensino COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name, além de uma gráfica e o site Klick Net

Naiana Oscar, de O Estado de S. Paulo

 A Pearson, empresa do segmento editorial e de informação digital que controla o jornal Financial Times, comprou parte do Sistema Educacional Brasileiro (SEB) – grupo com origem em Ribeirão Preto (SP) que controla escolas e oferece sistemas de ensino. O negócio chega a quase R$ 900 milhões. Com isso, a Pearson triplica sua operação no Brasil e passa a ter o País como seu maior mercado na América Latina, à frente do México.

O acordo entre as duas empresas prevê que o grupo britânico passe a ter o controle do sistema de ensino das quatro marcas que pertenciam ao SEB: COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name (esse último voltado apenas para escolas públicas). Na prática, o sistema de ensino compreende a elaboração de material didático e serviços de assessoria para as escolas contratantes. É um modelo exclusivamente brasileiro e que vem atraindo o interesse de grandes editoras.

Continue lendo em:

http://www.estadao.com.br/noticias/economia,dona-do-ft-compra-parte-da-seb-e-triplica-de-tamanho-no-brasil,584878,0.htm

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Transparência na avaliação

Postado originalmente na Uol em 24/07/2010

O grande equívoco da política educacional do Governo Lula foi implementar a Prova Brasil e o IDEB. Antes, tínhamos a centralidade do SAEB o qual, sendo amostral e não censitário como a Prova Brasil, impedia que se estabelecessem alto impacto associado à avaliação para cada escola. Com a Prova Brasil, o longo braço do INEP passa a monitorar cada uma das escolas, individualmente. Com isso, associa-se a cada escola uma meta IDEB, que a imprensa transforma em valor social.

É claro que alguns Estados e Municípios já vinham praticando este tipo de avaliação, mas assumir esta política ao nível Federal, incentivou a oficializou a associação de alto impacto aos processos de avaliação.

Contraditoriamente, no interior do próprio INEP, outra orientação – com apoio da Secretaria de Educação Básica – gerou a Provinha Brasil. Em minha opinião, este era o caminho correto. A Provinha Brasil é um instrumento que é colocado à disposição das escolas e professores, sem que seja associado a ela quaisquer consequências, além daquelas que a própria escola ou o professor estabeleçam. Como é aplicada e corrigida pela própria escola, não movimenta a indústria da avaliação.

Com a Prova Brasil, a indústria dos exames e testes objetivos foi ampliada. Ganhou escala. Grandes comporações como a Santanilla (Espanhola) já estão chegando para operar no Brasil. O mercado educacional movimenta-se, como se viu com a recente aquisição do COC pelo Financial Times.

A lógica dos negócios prepara-se para entrar no campo da educação: apostilamento, franquias, avaliações por testes, material didático preparatório para testes, editoras ( o grupo Santanilla controla a Ed. Moderna, p. ex.), empresas de prestação de serviços para recuperação de alunos com dificuldades, etc.

Desde 1983 os Estados Unidos estão trilhando este caminho. Desde 1995, quando se começou a medir o desempenho do sistema educacional americano, não há mudanças significativa em tais desempenho, como já comentamos antes aqui.

Porém, a lógica dos negócios tem sua própria motivação. O campo da avaliação de larga escala está, agora, nas mãos de profissionais que fazem pesada interface com os negócios e com os políticos que ocupam cargos nas secretaria de educação, prefeituras, etc. Uma perigosa coalizão entre conhecimento, política e negócios está sendo formada. E o que é pior, as Universidades não têm como controlar a qualidade desta coalizão, pois ela tem tecnologia e caminhos próprios.

Protegida pela iniciativa privada, nada se sabe de seus métodos de trabalho, frequentemente registrados apenas em relatórios técnicos sigilosos, quando existentes. São dados a conhecer os resultados, mas sem indicação precisa dos problemas ocorridos durante a obtenção e processamento dos dados. Não raramente, os resultados são “ajustados” para atender interesses políticos, como também já comentamos antes.

Urge que as entidades científicas e governamentais criem instrumentos legais, que pressionem, como se fez com as pesquisas eleitorais, a publicização dos métodos de trabalhos das corporações que são contratadas pelo poder público para realizar avaliações de larga escala. Deveria tal legislação exigir que se publicassem, junto com os resultados, os relatórios técnicos metodológicos e de processamento dos dados. As agências de avaliação estatais deveriam ser obrigadas a manter em seus sites informações precisas e amplas sobre seus procedimentos de avaliação (delineamento de obtenção de dados, indicadores de calibração dos itens versus dados reais obtidos na aplicação dos mesmos, indicadores de discriminação e dificuldade dos ítens utilizados, prova de que os testes controlam vieses de raça, culturas, etc., relatório de dados faltantes, procedimento de construção das escalas de desempenho com os itens considerados âncoras nas escalas, banco de dados e tratamentos de variáveis eventualmente realizados, dicionário de variáveis, entre outros). Deveria também exigir que um relatório amplo desse conta dos resultados por classe social, por gênero, por raça entre outros cortes, além da disponibilização das bases de dados (e seus relatórios técnicos de confecção) em formato transparente e utilizável por pesquisadores independentes.

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Os empresários e a educação, receitas que nos atingem

Postado originalmente na Uol em 25/07/2010

Há muitos anos que a educação vem sendo definida pelos empresários nos Estados Unidos. Sua forma de atuação é persistente e contínua. Os últimos 20 anos de desenvolvimento da educação americana mostram a forma de atuação desta categoria. No Brasil, o Estado de São Paulo é o que é mais sensível a esta política, pelo fato de estar há mais de 15 anos nas mãos de políticos neoliberais, ponta de lança dos interesses das corporações.

A atuação vai se dando por sucessivas investidas em especial no plano da administração, da gestão dos sistemas educacionais e através de formulação de leis. A título de envolver a comunidade na educação, coloca a escola nas mãos dos empresários, comerciantes, etc. Essa é a história da educação nos Estados Unidos desde os anos 20 (Au, 2009).

A mais nova face das demandas desta categoria pode ser encontrada no relatório do National Center on Education and the Economy: “Tough choices or tough times”.

Neste relatório as corporações fazem proposições sobre o sistema público de educação americano e sobre a questão da formação de seus professores.

Segundo Au (2009) o relatório considera o sistema educacional público como algo desatualizado, ineficiente e insuficiente para treinar as novas gerações de trabalhadores criativos necessários para os Estados Unidos competirem no mercado global. O relatório considera que atual sistema de formação de professores deve ser descartado e um novo sistema deve ser desenvolvido onde cada Estado tenha sua Agência de Desenvolvimento do Professor para centralizar e coordenar o recrutamento, o treinamento, a certificação. O relatório ainda sugere desmantelar o atual sistema de aposentadoria e criar um que espelhe a forma de atuar das corporações industriais, associado a uma estrutura de pagamento por desempenho.

Como se pode ver, o que o Estado de São Paulo está ensaiando não é mera coincidência.

Este relatório, encontra-se disponível, desde 2007, e se propõe a ser, hoje, o segundo “A nation at risk” que foi elaborado na era Reagan em 1983.  O link abaixo leva até ele. Boa leitura.

http://www.skillscommission.org/pdf/exec_sum/ToughChoices_EXECSUM.pdf

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Curiosidade

Postado originalmente na Uol em 28/07/2010

Em 1983 o relatório “A Nation at Risk” estabelecia correlações entre a queda nos testes educacionais nacionais de português e matemática e a queda na produção industrial americana. Lá, o sistema educacional já aparecia como vilão que impedia os EUA de avançar na liderança econômica mundial. Entretanto, hoje se sabe que à época daquele relatório, era a nação mais competitiva e produtiva do mundo.

Em 2005 a revista americana Fortune publicou uma matéria alarmista sobre a falta de engenheiros nos EUA.  Sob o título de “A América não está pronta” dizia que a China formava 600.000 engenheiros, a Índia 350.000 e os Estados Unidos apenas 70.000. Como sempre, culpava o sistema educacional por isto.

Um estudo dos pesquisadores da Duke University, entretanto, encontrou que, de fato, os Estados Unidos produziam anualmente 137.437 engenheiros com no mínimo “Bachelor´s Grade”, enquanto que a Índia produzia 112.000 e a China 351.537. Ou seja, os EUA tinham mais graduados por milhão de habitantes do que as outras nações citadas.

Mesmo depois da divulgação do estudo da Duke, os números da Fortune continuaram a ser divulgados como verdade. E o sistema educacional a ser culpado pelo fracasso dos EUA em formar engenheiros.

Portanto, é fundamental que fiquemos atentos às crises educacionais que periodicamente são fabricadas.

Tudo isto está num interessante capítulo do livro de George Madaus, Michael Russell e Jennifer Higgins – The paradoxes of High Stakes Testing, editado pela Information Age Publishing: 2009.

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Jogo aberto

  Postado originalmente na Uol em 29/07/2010

Cobramos, aqui, há   algum tempo que as medidas feitas pelo INEP tivessem suas bases reveladas. De   fato, o INEP é ausente quando se trata de relatórios técnicos relevantes.

Para exemplificar   do que falava, abaixo o link do NAEP americano, com suas decisões   técnicas.

http://nces.ed.gov/nationsreportcard/tdw/sitemap.asp

Já que copiaram a   idéia dos exames nacionais de lá, deveriam ter feito a cópia completa.

Insisto: alguém   deve fazer uma lei obrigando o INEP a divulgar a saúde técnica das avaliações   que faz.

Testes são   imperfeitos e é preciso saber, para cada um, seus graus de imperfeição.

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TFA agora em São Paulo: discretamente

Postado originalmente na Uol em 31/07/2010

A tática da TFA – Teachers For America – é clara: introduzir-se no Brasil discretamente, na forma de tutores para apoiar alunos com dificuldades. Foi assim no Rio, cujo lançamento ocorreu na semana passada. Lá já se avisava que o projeto se estenderia para São Paulo. A Folha de hoje, 31-07-2010, veicula discretamente o início de um projeto de tutores para ensinar matemática nas escolas públicas estaduais. Não fala nada de TFA, pois aqui o sindicato é mais organizado e iria reclamar. Note: tanto no Rio como em São Paulo quem financia a iniciativa é o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. Nosso antigo conhecido.

Com uma rede que beira os 50% de professores precarizados, temporários e com salários defasados, o Estado continua agora a precarização de outra forma: tutores improvisados (alunos do ensino médio que ensinarão os alunos do fundamental com dificuldades em matemática). Com isso, não contrata um número maior de professores e nem diminui a quantidade de alunos em sala de aula. Improvisa como sempre.

As elites têm claro que não vão poder resolver o problema dos professores: por um lado não estão dispostos a pagar bem, dignamente; por outro, vão ter dificuldades para encontrar, mesmo pagando melhor, quem queira ir para área de riscos, onde se encontra a pobreza que derruba as média nacionais na Prova Brasil. A solução será colocar tutores – ou seja, desempregados que queiram faturar algo por algum tempo enquanto arrumam outro emprego. E é isso que a TFA faz nos Estados Unidos como já mostramos em outra postagem. Lá com a ajuda milionária de Fundações privadas, aqui, como elas não existem, com a ajuda do BID – por enquanto.

O custo destas ações das elites recairá sobre as novas gerações – em especial de pobres. Só a Unesco acredita que em 2015 o Brasil eliminará a pobreza.

Sem equacionar a questão docente de fato, não há saída para a educação de qualidade. E este será apenas um dos primeiros passos necessários.

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Brincando com fogo

Postado originalmente na Uol em 1/09/2010

O movimento Todos pela Educação conseguiu aglutinar em torno de si um conjunto de entidades (ver abaixo algumas delas) que lançaram em Brasília a Carta Compromisso (mais uma) visanso sensibilizar os candidatos a presidente para as questões da educação.

Curioso ver no mesmo barco (o de uma educação etérea e sem definição ideológica, como se isso fosse possível) o Todos pela Educação – que reune a nata do capitalismo no Brasil – com entidades como:

Associação Nacional de Política e Administração da Educação – Anpae

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – Anped

Central Única dos Trabalhadores – CUT

Centro de Estudos Educação e Sociedade – Cedes

Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE

União Nacional dos Estudantes – UNE

A carta em si é uma despolitização total da questão da educação. A ilusão destas entidades é que, despolitizando o texto, consigam passar suas posições. Mas quais? Dirão, certamente que “foi o possível no contexto dos embates políticos”… Mas como não existe vácuo ideológico, ele é apropriado no momento seguinte por aqueles que detêm o poder político e econômico e legitimado por todos.

Basta ler o editorial da Folha de São Paulo sobre esta Carta. O Editorial é politicamente mais claro e neste sentido termina sendo mais avançado que a própria Carta das entidades. Ele está no próprio site do movimento Todos pela Educação. O que podemos ver neste Editorial é o bisturi político da Folha operando para retirar da Carta o que lhe interessa. Depois de louvar o objetivo de aumentar as verbas para a educação – afinal o mercado educacional está esperando – a Folha diz:

” …o acréscimo de recursos precisa estar vinculado a objetivos determinados e ao aperfeiçoamento da gestão, sob pena de desperdício. Outros objetivos também suscitam reserva, pois os meios de alcançá-los não se mostram tão consensuais quando poderia parecer. Além da parcela do PIB, são eles: valorização dos profissionais da educação, gestão democrática das escolas e aperfeiçoamento das políticas de avaliação e regulação. (…) E conclui o Editorial: “todos os candidatos deveriam subscrever o compromisso, ainda que fazendo as ressalvas cabíveis no que respeita à aplicabilidade e explicitando que interpretação dariam aos princípios sujeitos a controvérsia”.

Leia a matéria em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3108201001.htm

Acho bem mais objetiva e honesta a posição da Folha. Pelo menos dá concretude ao debate no campo político/ideológico e retira a Carta de um mundo apolítico em que as entidades educacionais se enfiaram.

Comendo pela mão do Todos pela Educação, as entidades citadas estão brincando com fogo e fornecendo justificativa para a leitura mercantilista que este movimento tem da educação. Basta olhar para seus apoiadores.

Destaco quatro questões da Carta para ilustrar o que digo:

1. Diz o texto que um dos pilares deveria ser a instituição de “consequências legais inerentes ao não cumprimento das respectivas responsabilidades pelos entes federados”.

Note que a questão da educação é colocada em tom punitivo. Isso pede avaliação, já que a punição aos entes nunca poderá ser sem fundamento, portanto, deverá haver um processo de avaliação. A própria Carta falará sobre isso como veremos mais adiante, em detalhe. Por acaso não é isso que o No Child Left Behind fez nos Estados Unidos e abriu um mercado educacional fantástico para produção de materiais e de avaliação ao nível nacional? Os Estados que não demonstram estar progredindo em direção às metas fixadas são punidos com perda de recursos. Como não querem perdê-lo “dão um jeito” de mostrar que estão avançando… Notas são infladas, exigências são reduzidas.

2. Sem nenhuma cautela, as entidades endossaram na Carta que os entes federados “devem implementar de forma integral e imediata, a Lei N° 11.738/ 2008, que determina o Piso Salarial Profissional Nacional para os Profissionais do Magistério Público da Educação Básica. Complementarmente, até o ano de 2014, os mesmos devem produzir leis e políticas públicas capazes de estabelecer Planos de Carreira e Remuneração que tornem a educação uma área valorizada e atrativa profissionalmente”.

No mínimo isto teria que ser circunstanciado. As entidades teriam que ter indicado, até porque a CONAE assim o aprovou, que serão contra quaisquer vinculação das politicas de remuneração com premiações (bonus) ou castigos. Curiosamente, a CONAE é amplamente citada na Carta quando convém legitimar outros aspectos.

3. Diz a Carta que se deve “criar programas de fortalecimento da gestão democrática, por meio da necessária estruturação dos conselhos escolares, municipais, estaduais, distrital e nacional de Educação, garantindo a participação de toda a comunidade na gestão educacional, especialmente dos estudantes;

Novamente aqui, vive-se no mundo das idéias. Os Estados Unidos desde 1920 implementam esta política. Lá, tais conselhos serviram para abrigar homens (e mulheres) de negócio em tais conselhos, os quais desfiguraram a política educacional americana e a transformaram numa atividade regida pelo mundo dos negócios.

Seria necessário aqui, investir contra a mercantilização da educação, no mínimo.

E finalmente:

4. Aperfeiçoamento das políticas de avaliação e regulação: é preciso avançar nas práticas nacionais de avaliação, aprimorando a regulação e fortalecendo o controle social na Educação pública e privada. Na Educação Básica: aperfeiçoar os sistemas de avaliação existentes por meio de três esforços complementares. (1) Examinar de forma mais ampla os resultados obtidos nas avaliações, aprofundando a análise de dados sobre os diferentes níveis de aprendizagem entre os estudantes de uma mesma escola ou rede pública. (2) Relacionar os resultados das avaliações, com outras informações pertinentes às políticas educacionais, tais como: insumos existentes nas unidades escolares, formação e remuneração dos profissionais da educação, mecanismos de participação na gestão escolar da referida escola, nível de escolaridade dos pais de alunos, além de dados socioeconômicos do entorno. (3) Produzir relatórios que devem ser debatidos por toda comunidade escolar nas escolas e nas esferas de tomada de decisão das redes de ensino. No Ensino Superior: fortalecer e aprimorar o sistema de avaliação das instituições de ensino, para elevar os padrões de qualidade. Deste modo, é imprescindível aperfeiçoar a regulação das Instituições de Ensino Superior públicas e privadas.

Além deste item padecer dos mesmos problemas já ditos em relação aos anteriores, nada se fala contra o uso de testes de alto impacto na educação, nada se fala contra tomar decisões sobre a vida das pessoas a partir de uma única medida de seu desempenho.

A pergunta é: porque a questão da avaliação entra aquí? Os liberais não discordam em nenhum momento do horizonte traçado na Carta para a política pública de avaliação. Apenas alertam que têm sua maneira de ver a questão. O Editorial da Folha faz isso. E nós: que visão temos destas afirmações descontestualizadas. Até o Nacional Center for Educational Statistics americano concordaria com isso. Aliás se o INEP fosse competente, bastaria copiar o formato dos relatórios que ele faz para o NAEP americano.

Os ingredientes estão dados: sobre a base da idéia de punir quem não cumprir metas – a tal da Lei de Responsabilidade Educacional (No Child Left Behind brasileira, nos Estados Unidos a lei tem algo em torno de 1000 páginas), articulam-se as outras idéias: remuneração de professores (preferencialmente por bonus) e conselhos escolares abertos à “comunidade” dos negócios – tudo isso regido é claro por um sistema de avaliação regulatório eficaz.

Eis o modelo de política pública que as entidades estão referendando, em nome da CONAE sem sequer ter assinalado timidamente uma divergência explícita.

Isso não é participação é capitulação…

Deixa Dilma à vontade para fazer a política liberal e deixa os liberais à vontade para cobrar de Dilma a política deles.

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Comissão Homologatória do ENEM dos Professores

Postado originalmente na Uol em 3/09/2010

Foi publicada ontem Portaria do Ministro que institui o Comitê de Governança do ENEM dos professores.

Ele será composto por 11 representantes. A matemática é a seguinte: 3 do INEP, portanto do MEC; 4 de entidades de gestão estadual e municipal (Consed e Undime), que aceitam o exame; 2 da CNTE, porta-voz do MEC; e dois representantes de instituições formadoras de professores (?).

Ou seja, supondo que houvesse uma divergência no comitê, mais séria, em relação aos rumos do Exame, o resultado já é previsível: 9 a 2 a favor do MEC, ou na dependência da interpretação dos dois representantes de instituições formadoras de professores, 11 a 0.

Bem fez quem pulou fora do barco…

A CNTE vai carregar para sua história o fato de ter apoiado e participado da implementação deste Exame.

Vejamos as atribuições do Comitê:

“Art. 3º São atribuições do Comitê de Governança do Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente:

I – apreciar a matriz de referência para o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente, a que se refere o art. 3º da Portaria Normativa MEC nº 14, de 21 de maio de 2010, a qual será elaborada pelo INEP com a assessoria de uma comissão de especialistas;

II – opinar sobre procedimentos e formas de adesão ao Exame por parte das Secretarias de Educação, de inscrição dos candidatos ao Exame, de divulgação e utilização dos resultados por parte dos interessados, de modo a garantir que os objetivos elencados no art. 2º da Portaria Normativa MEC nº 14, de 2010 sejam atingidos;

III – opinar, sempre que solicitado pelo Presidente do INEP, em assuntos relacionados ao Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente.”

Ou seja, é meramente homologatória.

Anotemos.

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Um rápido e informal balanço da situação

Postado originalmente na Uol em 8/09/2010

Abaixo, uma notícia sobre o avanço do pagamento de professores pelo desempenho de alunos. Isso serve para mostrar que não estamos falando de “fantasmas”…

Sob polêmica, avaliação de professores cresce no país

Folha de São Paulo, 06/09/2010 – São Paulo SP

Seis Estados já adotaram algum tipo de aferição do desempenho em aula. Para sindicatos, método é simplista, pois ignora salários e condições de trabalho; especialistas apontam problemas

ANGELA PINHO DE BRASÍLIA

Polêmica entre especialistas da educação e sindicatos de professores, é cada vez mais comum no Brasil a avaliação de docentes da rede pública, com recompensa financeira para aqueles que tenham melhor desempenho. Inspiradas em experiências de países como Estados Unidos e Chile, as avaliações já são feitas na Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo -seis Estados administrados por partidos diversos, como o PSDB e o PT.

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0609201001.htm

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Ocupando espaços vazios…

Postado originalmente na Uol em 10/09/2010

A prova de que a carta de compromisso do Movimento Todos pela Educação e mais 26 entidades é inodora, sem posicionamento político, é que todos os candidatos a presidente assinaram-na. Isso significa que conseguiu-se redigir um texto no qual cada um dos candidatos consegue ver seu programa e seu viés ideológico. Daí sua inutilidade para as forças mais progressistas.

Alguns podem comemorar isso. Da minha parte, acho que quem sai vitorioso são as forças liberais e conservadoras pois apoiadas na grande empresa – articuladora e financiadora do Movimento Todos pela Educação – continuará a pressionar as autoridades educacionais para converter a educação em mercadoria e adotar na área a lógica dos negócios. E, neste caso, a carta ajudará nisso com a agravante de ter todas as entidades educacionais ao seu lado como signatárias.

Mesmo um eventual governo da Dilma, não garante que a educação não tomará esse rumo. Não esqueçamos que desta vez o PMDB faz parte do governo formalmente.

O Movimento Todos pela Educação apenas ocupou um espaço deixado vago por aquelas entidades da área da educação que têm compromisso com idéias mais progressistas. Elas deixaram de se organizar para escrever sua própria carta, com clareza política e ideológica, tentando puxar os candidatos para ela. Uma carta deste tipo não poderia deixar de pedir a não mercantilização da educação, o fim dos testes de alto impacto como política de avaliação do INEP, a recusa à lógica dos negócios na educação, mais recursos, o cumprimento das deliberações da CONAE, entre outras.

Mais um espaço que vai sendo ocupado pelas forças de centro-direita graças à falta de ação da centro-esquerda.

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Um livro surpreendente

Postado originalmente na Uol em 13/09/2010

Making de Grades: my misadventures in the standardized testing industry (Sausalito: PoliPointPress, 2009) é um livro de Todd Farley contando sua experiência de trabalhar durante 15 anos no interior das indústrias que realizam testes educacionais nos Estados Unidos. Segundo o autor:

 “se você conhecesse o que eu conheço sobre esta indústria, você ficaria horrorizado com a idéia de um teste estandartizado ser um fator decisivo no futuro de até mesmo um único estudante, professor, distrito ou estado. Eu, pessoalmente, fico absolutamente perplexo com esta possibilidade.  A idéia dos formuladores de política de ignorar as avaliações dos professores nas salas de aula, os quais passam dias com seus alunos nos distritos, e ouvir a opinião de alguma indústria de teste (frequentemente empresas “lucrativas”) distante em um estado é, em minha opinião, estupidez. É jocoso. “

Enfim, aí temos uma opinião de quem conheceu por dentro como opera tal indústria, no país que mais faz uso de testes. O livro está receado de situações que descrevem e fundamentam esta opinião geral (252 práginas).

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Saudade dos clássicos…

Postado oribinalmente na Uol em 20/09/2010

O debate sobre avaliação tem revelado que pelo menos dois clássicos precisam ser relidos atualmente, mas com atenção: D. Campbell e E. F. Lindquist. A constatação vem de estudos que tentam lidar com a guinada americana que generalizou naquele país o uso da avaliação para produzir responsabilização de professores, alunos, diretores e outros. Neste processo, frequentemente recorrem a estes autores para fundamentar sua crítica à responsabilização através de testes de alto impacto.

O primeiro autor, D. Campbell, aparece para alertar que quanto maior as consequências sociais associadas a um indicador quantitativo (p. ex. pontuação em um teste) maior a probabilidade de que este indicador seja corrompido, alterando o processo que se quer medir.

O segundo autor, E. F. Lindquist é dono de frases como estas:

– Os objetivos da educação são diversos e apenas alguns destes são acessíveis aos testes padronizados.

– Tais objetivos, acessíveis, podem ser acessados de uma forma muito menos direta do que nós gostaríamos.

– A interpretação do desempenho do aluno em testes reflete sua necessária e sistemática imperfeição dos testes.

Nos esquecemos facilmente das origens da teoria da medição. Preferimos ficar nos delírios da indústria da avaliação e do uso político da avaliação – ambos atendendo a objetivos imediatistas e nem sempre éticos: ambos exigem esquecer o passado e declarar que a avaliação por testes reflete a realidade do aluno, das escolas e dos sistemas. Tanto que associam consequências aos resultados destes testes.

Não consegui achar os textos on line. Abaixo a bibliografia:

Campbell, D. Assessing the impact of planned social change. In Social Research and Public Policies: The Dartmouth/OECD Conference, ed. Gene Lyons (Hanover, NH: Public Affairs Center, Dartmouth College, 1975.

Lindquist, E. F. Preliminary considerations in objetive test construction. In E. F. Lindquist, ed., Educational Measurement (Washington, DC: American Council on Educacion, 1951).

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A curva normal é uma concepção de educação

Postado originalmente na Uol em 21/09/2010

A inocente curva normal não é apenas um conceito estatístico. Tem, na sua formulação, uma concepção de educação. Parte da idéia que a educação escolar não pode ser completamente assimilada por todos e que esta capacidade se distribui na forma de um “sino”, com alunos nas extremidades (que aprendem muito em uma ponta e que não aprendem muito na outra, sendo que uma grande maioria se concentra em torno da média).

A partir dessa idéia, as avaliações têm que captar esta “variabilidade”. Sem variabilidade, não há estatística na forma como a conhecemos correntemente. Portanto, os testes têm que ser proposições que permitam verificar quanto o aluno aprendeu e localizá-lo nesta curva.

Porém, se pensarmos que a educação, de fato, visa ensinar tudo a todos, podemos dizer que a normalidade da curva é apenas o atestado de nossa incompetência de ensinar. Se cumpríssemos com o compromisso de ensinar tudo a todos, então todos os alunos estariam na mesma extremidade. Suponhamos que todos os alunos dominassem o conteúdo de uma disciplina, propósito da educação, teríamos todos com nota 10, sem variabilidade.

Esta é a razão pela qual os produtores de testes eliminam destes um item de avaliação que todos os alunos acertem. Dizem que “não discrimina bem”.

A boa educação deveria ser aquela que permite que todos atinjam o mais alto patamar, em matéria de aprendizagem escolar. Isso não tem nada a ver com aptidão ou com escolha profissional. Claro que as pessoas não são iguais em seu desenvolvimento global, mas em termos de escolarização, não deveria haver esta diferença, a não ser em caso de portadores de necessidades especiais.

Aliás, para surpresa dos liberais, foi um liberal que formulou a seguinte proposição: 95% dos alunos podem aprender tudo em algum tempo. Ao uniformizarmos o tempo de aprendizagem, produzimos a curva normal, ou seja, a diferenciação de desempenho. Ao diversificarmos o tempo, operamos inversamente e produzimos a unificação do desempenho.

Ou seja, se nossa concepção de educação fosse realmente igualitária e não apenas baseada em equidade (leia-se: igualdade de oportunidades) nossos alunos deveriam, todos, aprender em um nível equivalente e ter a mesma nota, pelo menos no que diz respeito a desempenho escolar. Quem precisaria da estatística?

Para produzir esta situação de igualdade de aprendizagem, deveríamos olhar para o número de alunos em sala de aula, o tempo disponível para aprender a ajuda adequada para que tem dificuldades, a qualificação do professor, sua carreira, a infra-estrutura das escolas e outras questões que as políticas públicas preferem ignorar para “responsabilizar” o professor e o próprio aluno pelo fracasso.

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Organizações de Direitos Civis se erguem contra política de Obama

Postado originalmente na Uol em 26/09/2010

As organizações de Direitos Civis nos Estados Unidos estão em pé de guerra com a política educacional do Presidente Obama. Em um documento de 17 páginas eles fazem a crítica de uma política baseada na competição por fundos federais e exigem que o país reposicione sua  política educacional. É conhecido os compromissos que o Secretário de Educação Arnie Duncan tem com as Fundações americanas que despejam bilhões de dólares para atrelar a agenda educacional americana aos interesses das grandes corporações empresariais.

Sobre o novo programa de Obama o Race to the Top, que distribui recursos federais e incentiva a competição entre os Estados, diz: O Fundo Race to the Top e estratégias similares de prover fundos federais para a educação conduz estados a competirem com estados, pais a competirem com pais, e estudantes a competirem com outros estudantes. Agrega que enfatizando a competição por incentivos a maioria dos estudantes de baixa renda e as minorias ficarão para trás e como resultado, os Estados Unidos ficarão para trás como líder global.

Sobre a expansão das escolas charter – política amplamente incentivada pela Fundação Bill Gates e aceita por Obama – diz que não há evidencia de que as escolas charters sejam mais efetivas na produção de desempenhos mais altos dos estudantes em nível nacional. Na opinião das organizações civis elas não podem ser uma solução universal.

Veja também opinião de Diane Ravitch sobre o movimento das organizações civis.

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Mais uma derrota para o pagamento de professores por bonus

Postado originalmente na Uol em 28/09/2010

Em um relatório de 86 páginas o pagamento de professores por mérito volta a sofrer outra derrota. É o que mostra uma equipe de pesquisadores que acaba de divulgar o relatório Teacher Pay for Performance de Matthew G. Springer et al. O estudo acompanhou durante três anos o pagamento de professores por bonus adicional por mérito e concluiu que os professores que receberam bonus não apresentam melhores resultados do que os que não receberam bonus. O pequeno ganho obtido em uma das séries, a quinta série, desapareceu na sexta série. Ou seja, pagar por mérito não faz diferença.

Para os liberais é difícil reconhecer que os professores simplemente estão fazendo o melhor que podem e que nem todos são preguiçosos à espera de um bonus, como eles supõem.

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A burrice americana… e a brasileira

Postado originalmente na Uol em 1/10/2010

Lucas Mendes ecoa os equívocos da política educacional americana em seu blog com o texto que reproduzo abaixo. Ele o intitula de “a burrice americana”. Considero seu texto um exemplo da “burrice brasileira”, a mania de copiar americanos no velho estilo: “o que é bom para os americanos é bom para o Brasil”. Cita as escolas charters como se elas fizessem diferença nos Estados Unidos. Já mostrei aqui, recentemente, como os estudos desmentem isso. Culpa os sindicados de professores americanos como se eles fossem a causa de todos os males, sem considerar outros fatores sociais, como a pobreza. Típico raciocínio de terceiro mundo deslumbrado com o primeiro… Leia você mesmo abaixo.

A burisse americana

Lucas Mendes

De Nova York para a BBC Brasil

Os americanos não eram burros. A burrice começou na década de 70, culpa de políticos oportunistas e, maior ainda, dos sindicatos dos professores de escolas publicas que conseguiram proteções e vantagens extraordinárias como a estabilidade, uma espécie de cátedra. Depois de três anos de trabalho, é quase impossível demitir um professor de uma escola pública.

Os salários são baixos. A maioria dos professores são atraídos pela moleza: mais dias de férias, poucas horas de trabalho e pensões generosas, mas a profissão atrai um numero baixíssimo de bons universitários. Nos três países líderes em educação – Finlândia, Cingapura e Coreia do Sul – os professores vêm da nata das universidades, têm salários altos e prestígio social.

Continue lendo em:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,lucas-mendes-a-burisse-americana,617631,0.htm

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Crise na educação infantil americana

Postado originalmente na Uol em 5/10/2010

Como os testes estão afetando a educação infantil nos Estados Unidos? Um relatório da Alliance for Childhood mostra o problema com base na cidade de Nova York e Los Angeles.

Entre os problemas encontrados estão:

– Na educação infantil as crianças estão passando duas e três horas sendo ensinadas e testadas em alfabetização e matemática e somente têm 30 minutos ou menos de tempo para brincadeiras ou jogos.

– Testes padronizados são agora uma atividade diária, apesar de inadequação destes para crianças com menos de oito anos de idade.

– Materiais destinados a apoiar brincadeiras e jogos estão desaparecendo das escolas e em muitas delas já não há mais tempo para estes, dizem os professores.

– Há uma clara antecipação da escolarização normalmente exigida na primeira série do primeiro grau.

O relatório chama-se Crise na Educação Infantil: por que as crianças necessitam brincar na escola.

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Mais notícias da matriz…

Postado originalmente na Uol em 9/10/2010

Abaixo segue reportagem da Revista Educação sobre a política educacional americana, a matriz inspiradora dos liberais brasileiros.

REVISTA EDUCAÇÃO – EDIÇÃO 161

O novo estigma

Com as novas políticas de responsabilização adotadas nos Estados Unidos, professores correm o risco de ser tachados de “excedentes” e afastados da docência

Luisa Leme, de Nova York

O que são escolas boas, ruins e como melhorá-las? Quem acompanha o noticiário sobre educação nos Estados Unidos hoje percebe que há um frenesi generalizado para obter essas respostas. O presidente Barack Obama é um dos que se arriscaram a buscar uma alternativa. Sua nova política educacional está alicerçada em dois programas: o Race to the Top, competição entre estados por recursos financeiros em que aqueles que apresentarem a proposta mais inovadora para melhorar o desempenho acadêmico recebem mais verba; e o School Improvement Grant (SIG, Bônus para a melhoria das escolas, em português), que prevê a repaginação das escolas de baixa performance acadêmica no país.

Continue lendo em:

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12974

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Movimento contra testes na ANPEd

Postado originalmente na Uol em 11/10/2010

MOVIMENTO CONTRA TESTES DE ALTO IMPACTO NA EDUCAÇÃO

https://sites.google.com/site/movimentocontratestes/

Email: sitemovimento@uol.com.br

Convidamos você para uma primeira reunião com os organizadores do Movimento Contra Testes de Alto Impacto (conhecido como High-Stakes Testing em inglês) que ocorrerá durante a Reunião Anual da ANPEd. No evento divulgaremos a hora o dia e o local da mesma. Testes de alto impacto são avaliações que têm sérias conseqüências associadas a ela como, definir se um aluno continua a estudar em um nível superior, definir o salário de professores, definir a continuidade de uma administração escolar, exposição pública de profissionais e da escola e outras. Este Movimento tem o objetivo de lutar contra a apropriação indevida do campo da avaliação pelas teorias de responsabilização (accountability) na educação. As conseqüências nefastas desta apropriação já estão claras tanto aqui, como nos países que assim procederam gerando falseamento nos dados de avaliação de desempenho; indução à desonestidade; substituição dos esforços de ensino pelos de “preparação para testes”; estreitamento curricular reduzindo-o à dimensão do teste; segregação das camadas mais pobres em guetos escolares; desestruturação profissional do magistério; extrema ansiedade em alunos, professores, administradores e pais, privatização acompanhada de sucateamento do sistema público educacional; antecipação da escolarização na educação infantil; desenvolvimento da indústria de avaliação em associação com editoras, transformando o campo em um grande mercado de negócios; entre outras.

A avaliação de política pública, tarefa de governos, deve ser desenvolvida sem o recurso a exposições públicas, premiações ou castigos destinados a responsabilizar alunos, professores, administradores e pais pelas conseqüências educacionais da falta de condições. Somente uma concepção estreita e limitada de educação pode chegar à conclusão de que existem investimentos suficientes na educação brasileira.

Alunos não podem ter sua vida definida por uma única medição feita em testes que o impedem de prosseguir em seu processo de desenvolvimento; professores não podem ter seu desenvolvimento profissional condicionado a medições em testes; as escolas não podem continuar a ser submetidas à execração pública. Tais testes, produzidos pelos governos, além dos problemas já citados, têm algoritmos de processamento e padrões de qualidade que não são transparentes e públicos.

A  exposição pública e a vergonha não são a melhor forma de se motivar alunos, profissionais da educação e pais. É preciso trabalhar com eles e não contra eles.

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Lançamento Movimento contra Testes de Alto Impacto (High-Stakes)

Postado originalmente na Uol em 20/10/2010

No dia de ontem, 19 de outubro de 2010, foi lançado na 33a. Reunião Anual da ANPED, em Caxambu (MG) conforme previsto, o Movimento contra Testes de Alto Impacto com a presença de mais de 45 colegas de vários Estados.

Foi constituido um coletivo composto por professores o qual deverá dar prosseguimento aos trabalhos do Movimento.

Os presentes ressaltaram a importância do Movimento na formação de opinião pública, incluindo pais e estudantes, e sugeriram várias ações que deverão agora ser encaminhadas pela organização.

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Exame: MEC acha que pode suspender as leis de mercado

Postado originalmente na Uol em 22/10/2010

Durante a 33a. Reunião Anual da Anped participei de um debate sobre a questão do Exame Nacional de Docentes. Estavam presentes o Representante do Ministro da Educação, o Presidente da CNTE, a Presidenta da ANPEd e eu.

O Representante do Ministro desfilou as realizações do governo no campo da educação e nada falou sobre o Exame Nacional. O Presidente da CNTE seguiu pelo mesmo caminho, confirmando o que temos dito neste Blog sobre o seu comportamento: linha auxiliar do governo na implantação do Exame.

Compreende-se que o Representante do Ministro não tocasse no Exame Nacional de Docentes pois trata-se de tema polêmico. Mas que a CNTE não o mencionasse isso é outra coisa. O exame é a maior agressão que um governo já fez contra as Instituições Formadoras de Profissionais da Educação no Brasil e contra os próprios profissionais que a CNTE diz representar. Interfere, via exame, com os currículos destas Instituições, estreitando-os. Como estabelece um padrão de conhecimentos para participar do Exame, termina criando escala que atrairá as grandes corporações de preparação para Exames.

Além disso, está claro que no dia seguinte ao Exame, os dados serão processados com a intenção de se localizar as melhores e as piores escolas formadoras de professores, como ocorre atualmente com o ENEM.

Em entrevista que divulguei ontem neste Blog o Representante do Ministro argumenta que o Governo tem mecanismos para evitar a investiga da área dos negócios. Cita como exemplo o Programa do Livro Didático. Mas a comparação não procede. A menos que o Ministro tenha condições de sustar as regras de funcionamento do sistema capitalista. No caso do Livro Didático o Governo é o definidor dos livros, define as regras. No caso do Exame, não define produtos e nem compra nada, ou seja, não tem poderes para interferir em uma empresa que produza kits de preparação para o Exame. Não só o currículo das instituições formadoras será afetado pelos Kits como estes serão os preparadores dos professores de fato, segundo regras estreitas. Ou não é assim que ocorre com o ENEM?

Durante os debates o Governo afirmou que produzirá um Exame que não tem como referência nem o conteúdo do Ensino Médio Magistério e nem o da Pedagogia, mas sim, a escola. Ora, aí está o viés pragmatista que já se anuncia na elaboração do exame. Um fenômeno não se explica em si mesmo, sem categorias e conceitos de análise. Estes estão nas ciências que estudam o fenômeno. O Magistério trata estes conteúdos com uma profundidade e a Pedagogia com outra. Com qual ficará o INEP? Pelo que diz o Governo, com nenhuma. Portanto, somente incluirá aquilo que é da Escola – sua prática. Daí o pragmatismo que deverá caracterizar o Exame.

Os demais argumentos, já os utilizei neste Blog em ocasiões anteriores.

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