Brasil: uma parodia para Cody

Caso queiram ler uma parodia para o livro de A. Cody “O Educador e o Oligarca” vejam este link.

 

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Enquanto vamos entrando, Chile vai saindo…

O Congresso Nacional do Chile aprovou dia 26-01-15 a reforma da educação que elimina o lucro no âmbito da educação nacional. No Chile utilizaram-se todas as artimanhas milagrosas copiadas das ideias americanas nas últimas décadas. Resultado: o lucro tomou conta da educação e a segregação educacional aumentou. Bachelet cumpre assim promessa feita em campanha para eliminar o lucro, o co-pagamento dos pais e a segregação de alunos nos estabelecimentos subvencionados pelo Estado. A reforma entra em vigor no próximo ano.

“El proyecto de ley tiene por objeto terminar con las desigualdades estructurales del sistema educativo, a fin de garantizar a todos los chilenos el derecho a una educación de calidad, sustentada en tres ejes: el fin del lucro en establecimientos que reciben recursos públicos, el término de la selección escolar y la derogación del sistema de financiación compartido. En esa línea, Bachelet destacó que con este proyecto, “aseguramos que los recursos públicos se inviertan en la educación de nuestros niños y jóvenes, lo que nos parece que es un inicio para avanzar en calidad. También nos va a permitir que nunca más nuestros niños y niñas puedan ser discriminados por sus condiciones familiares y sociales”, agregó la mandataria.”

“Durante la parte final de la sesión donde se debatió la reforma educativa, el presidente de la Cámara baja, Aldo Cornejo, ordenó el desalojo parcial de las tribunas, después de que algunos integrantes de la Confederación de Padres y Apoderados de Colegios Particulares Subvencionados (Confepa) protagonizaran una protesta”.

Enquanto isso, vamos por aqui na contramão: pensamos em terceirizar a educação, financiar empresas educacionais com fins lucrativos com dinheiro público e outras coisas. O dinheiro público deixa de ser aplicado nas escolas públicas e vai para o bolso dos empresários, atrasando a melhoria da qualidade da educação pública.

Mais um país contraria a ilusão dos nossos reformadores empresariais da educação brasileira, a de que privatizando por terceirização e outras formas pegamos um atalho que melhora a qualidade da educação, milagrosamente. A realidade parece contrariar a intuição.

Vejam materia aquí.

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Novo livro: “O educador e o oligarca”

Novo livro de Anthony Cody está disponível. Abaixo um breve resumo:

“Na primeira parte, Cody descreve o que ele chama de “o ataque à educação pública” travada por Gates e sua fundação. Na segunda parte, encontramos Cody em conversa direta com representantes da Fundação Gates descrevendo em detalhes as falhas de sua abordagem, e oferecendo alternativas construtivas. A parte três explora o futuro que as reformas de Gates estão trazendo para nossas escolas. Na seção de encerramento, Cody vira o jogo sobre Gates, responsabilizando-o e à sua fundação pelo impacto que eles tiveram sobre nossos filhos e escolas. Ao fazer isso, ele levanta questões perturbadoras sobre o papel crescente que as corporações filantrópicas, como a Fundação Gates, estão jogando na política pública, e os perigos que enfrentamos quando as forças de mercado tornam-se centrais para nosso sistema educacional.”

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Goiás: política pública com evidência

A Secretária de Educação do Estado de Goiás, Raquel Teixeira, quer fazer política pública educacional a partir de evidência empírica. O Governador de Goiás (PSDB) teve uma intuição (sic) de que terceirizar a educação vai melhorar a educação do Estado. A Secretária de Educação, então, está construindo uma base de evidência empírica para justificar (ou não, segundo ela) a intuição do Governador.

“Tenho estudado esses exemplos de escolas norte-americanas, no Chile e do modelo inglês, em que cada escola é uma unidade orçamentária e recruta no mercado um gestor para aquilo. Estou abastecida de dados. Não faremos mudanças sem evidências. A educação hoje não pode ser movida sem dados concretos”.

Parabéns. Isso não é recorrente. Em geral, o que ocorre é ficarmos ao nível da propaganda e da intuição do gestor. No entanto, a situação exige que nos coloquemos de acordo sobre o que se entende por “ter evidência empírica” a favor de uma ideia e como sistematizá-la.

É fundamental que a evidência disponível a favor ou contra uma proposta, tenha que possuir condições de orientar política pública. Portanto, não se trata de qualquer estudo de mestrado, ou pesquisa conduzida por este ou aquele pesquisador ou agência internacional individualmente. Trata-se do que o conjunto de pesquisas relevantes disponíveis em um dado momento consegue indicar como tendência para a resolução de um problema. Isso envolve o uso de métodos de pesquisa confiáveis.

Estudos experimentais pontuais serão menos valorizados do que estudos de acompanhamento sistemático de longa duração. Para orientar política pública são necessários estudos de meta-análise quantitativos, combinados com estudos qualitativos. Não conheço estudos disponíveis desse teor analisando a terceirização da educação proposta pelos reformadores empresariais da educação.

Os estudos que conheço e que temos divulgado por aqui não reúnem a condição de serem “orientadores de política pública” (veja o link Privatização, neste blog). Eles não apresentam resultados que possam ser considerados conclusivos. Basta considerarmos que a terceirização da educação americana que vem sendo feita nos últimos 20 anos não melhorou a posição dos Estados Unidos nas avaliações nacionais ou internacionais – para ficarmos só neste item de avaliação, o qual é hiper valorizado pelos reformadores empresariais, pois eles acreditam em testes como fator de medição de políticas.

Portanto, quando se fala de evidência empírica para apoiar política pública, fala-se de evidência empírica que reúne um volume de informações que apontam tendências apuradas no conjunto dos estudos. Isso coloca algumas dificuldades adicionais.

Primeiro, os estudos têm que ser comparáveis nos quesitos que sugerem.

Segundo, a metodologia dos estudos tem que ser robusta para os propósitos da pesquisa. Por exemplo: um erro recorrente nos estudos é comparar alunos que não são comparáveis e concluir que a diferença de médias de desempenho se deveu à política. Outro erro frequente é tomar um avanço na média dos desempenhos de um município ou estado e considerar que o aumento foi devido à política adotada, sem que se investigue o ciclo da política em questão e suas conexões entre a política macro, as instâncias de mediação e a política micro nas escolas.

Pelo caminho da mera correlação apressada de propostas e resultados pode-se encontrar até os efeitos da lua cheia na melhoria da educação. A pesquisa de efeito de políticas públicas, no entanto, tem métodos (quantitativos e qualitativos) reconhecidos que precisam ser respeitados.

Terceiro, tanto os achados favoráveis, como os desfavoráveis (incluindo as advertências que seus autores fazem sobre tais achados) precisam ser igualmente sistematizados.

Quarto, há que se levar em conta estudos que apontam os efeitos colaterais. Não é assim na medicina? Não somente as bulas informam quem pode ou não tomar o remédio, mas apontam os “efeitos colaterais do remédio”. Há que se examinar, para além do diferencial de médias dos estudantes envolvidos nas comparações, os efeitos sobre sua formação e as consequências para a educação a médio e longo prazo. Não é difícil que diferenças pequenas a favor de uma ideia sejam combinadas com fatores adversos como os mencionados acima, desaconselhando sua utilização como política pública.

Enfim, não se pode fazer uma “salada de estudos” na tentativa de justificar decisões. É fundamental que os pesquisadores da área estejam de acordo com os estudos incluídos e com os estudos excluídos. Somente uma vez esclarecida a base de estudos considerada, pode-se avançar.

Normalmente, políticos não podem esperar o resultado de estudos rigorosos. A agenda política brasileira é curta (dois em dois anos temos eleição para algum cargo) e as médias dos estudantes precisam estar mais altas para serem divulgadas na eleição seguinte. Daí que, usualmente, quando se chega neste ponto do debate, a conversa pare por aqui, e seja considerada “coisa de acadêmicos”. Estamos mais afeitos a fazer política eleitoral no lugar de política pública. Caso típico é a administração Haddad na cidade de São Paulo. Com dois anos no cargo, Callegari é substituído por Chalita por razões eleitorais.

Os reformadores empresariais usualmente costumam pinçar algum estudo da OCDE ou do Banco Mundial, ou de alguns pesquisadores próximos a suas ideias e assumí-lo como “evidência empírica” suficiente. Caso seja este o caminho que siga Goiás, não precisa perder tempo com procura de evidência. Basta reunir tais casos de advocacia pela intuição desejada, chamar os jornais amigos e “construir” a argumentação.

Pode-se encontrar “evidência” para quase qualquer intuição que um governador tenha e que se queira implementar em uma Secretaria de Educação: desde que não se olhe para a qualidade dos dados e nem para os métodos de sua conclusão.

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Testes: fraude globalizada

A experiente Educational Testing Service (ETS), empresa americana responsável por fazer o exame chamado SAT (Scholastic Aptitude Test)  nos Estados Unidos (o ENEM americano) está internacionalizando suas atividades e responsabilizando-se por aplicar o exame em outros países.

Nos últimos três meses tem sido conhecidas  sucessivas denuncias de fraude na aplicação do SAT americano fora dos Estados Unidos, na região asiática. As aplicações em outros países reciclam os testes já aplicados nos Estados Unidos e essa pode ser uma das causas das fraudes. A produção de testes é uma atividade cara e com a reciclagem dos testes, o lucro da indústria educacional eleva-se.

Observação importante: não é que não se saiba como fazer exames com alguma segurança; é que as medidas de segurança conhecidas terminam sendo secundarizadas pela indústria e sendo subordinadas ao império do lucro. Para os governos, é mais barato comprar um exame pronto do que fazer o seu próprio exame; para as indústrias fornecedoras de exames, é mais barato usar o que já está pronto em seu banco de testes, ao invés de fazer um novo.

Para Schaeffer:

“Em uma época de comunicação global instantanea através de websites secretos, mensagens de texto e aparelhos de celular com video, é irresponsável que os Administradores e a ETS atuem como se o conteúdo dos testes pudesse ser mantido “secreto” depois de serem administrados. A menos que os aplicadores dos testes parem de reciclar exames antigos na Asia, a segurança do teste SAT continuará a ser uma piada internacional.”

No entanto, a questão é um pouco mais complexa, devido à rede de empresas conectadas com o oferecimento de serviços de preparação de estudantes para os testes do SAT, como mostra a sequência abaixo. Há várias maneiras de se fraudar o SAT em andamento, mas uma das mais frequentes para ser a seguinte:

“- Empresas que se destinam a preparar estudantes para a realização de testes têm funcionários ou parceiros nos Estados Unidos e obtêm os exames SAT administrados recentemente, incluindo aqueles que estão oficialmente “não divulgados”, seja copiando ilegalmente os testes ou compilando o conteúdo das informações sobre os itens individuais que são compartilhadas em fóruns de discussão online como http://talk.collegeconfidential.com/sat-act-tests-test-preparation. Algumas destas empresas chegam a acessar os próprios testes.

- As empresas de preparação para testes mantêm no exterior bases de dados completas de perguntas e respostas corretas de testes administrados anteriormente. Elas os usam para treinar seus clientes regulares. Esses “serviços” de preparação para testes são fortemente anunciados em sites de língua chinesa, como Taobao, QQ e Wechat.

- No dia de aplicação do SAT, as empresas têm pessoas que participam do teste em locais asiáticos em zonas que ficam várias horas à frente da China (por exemplo, Auckland, Nova Zelândia onde a diferença é de cinco horas à frente de Beijing), memorizam os primeiros itens, em seguida, saem para ir ao banheiro, a partir de onde eles enviam essas informações para seus superiores. As empresas consultam o seu banco de dados e identificam o teste que será administrado na China mais tarde naquele dia.

- Uma lista de respostas certas é então transmitida para clientes pagantes através de tecnologias simples, como envio por e-mail do arquivo para seus telefones celulares ou carregando-os em calculadoras programáveis que os alunos estão autorizados a utilizar no centro de teste.”

Note-se que a fraude é gerada no interior da própria cadeia de empresas envolvida na produção, aplicação e treino para os testes.

No Brasil a fraude eletrônica está engatinhando, mas já se mostra presente:

“A fraude, segundo o procurador de Justiça André Estevão Ubaldino, funcionava da seguinte forma: pessoas, chamadas de “pilotos”, com alta capacidade intelectual, faziam parte das provas rapidamente, saíam com os resultados das questões e, com o apoio de colaboradores e sob a coordenação de dois líderes, repassavam o gabarito para os candidatos compradores das vagas por meio de transmissão eletrônica, com a utilização de equipamentos de última geração, alguns deles importados da China.”

Com o entusiasmo do Ministro da Educação em colocar o nosso ENEM on line e que possa ser realizado quando o estudante quiser em centros de aplicação do teste, pode ser que tenhamos surpresas frequentes. Isso se a rede de internet não cair na hora do exame, é claro…

Por falar nisso, será que o estudante vai poder fazer a prova de redação do ENEM online também ou ela não existirá?

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Escolas Charters americanas: descontrole e fraude

Nos últimos 20 anos os Estados Unidos incentivou o aparecimento e crescimento das escolas charters (escolas públicas administradas por concessão à iniciativa privada). Atualmente existem cerca de 6.000 escolas charters nos Estados Unidos. É como se toda a rede pública estadual de São Paulo fosse terceirizada. Mais de 100 milhões de dólares do erário público foram parar nos cofres privados das organizações que operam como terceirizadas. Dinheiro tirado da melhoria da escola pública e canalizado para a iniciativa privada.

Agora, se deparam com fraudes e má gestão das escolas charters (além de seu pífio desempenho acadêmico) como mostra o relatório que pode ser acessado aqui.

“Nós não deveríamos ter que esperar até que mais estudantes sejam prejudicados, ou milhões de dólares adicionais de impostos sejam roubados ou perdidos, antes de enfrentar este problema. (…) Em outras palavras, nenhuma agência, federal ou estadual, providenciou os meios necessários para investigar a verdadeira profundidade da questão, muito menos para evitar futuros problemas” – diz o relatório.

Em outro relatório, mostra-se como as escolas charters fraudam o Estado informando que atendem um número de alunos maior do que efetivamente estão matriculados. Estas escolas recebem do Estado uma importância em dólares por aluno que matriculam. Calcula-se que neste tipo de fraude possa se chegar a 2 bilhões de dólares roubados por estas terceirizadas americanas.

No Brasil, Goiás estuda privatizar a educação através de terceirizadas.

Que o Ministério Público se prepare por aqui.

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ENEM: fraude conhecida

A imprensa noticiou, mas ficou por isso mesmo…

 A primeira colocada no ENEM NÃO é uma escola, é uma artimanha jurídica que faz com que os alunos tenham suas notas computadas em duas listas diferentes.  Uma minoria que acerta muitas questões vai pro CNPJ novo e fica em primeiro lugar no ENEM. Todos os demais – a maioria – fica no CNPJ antigo e tem resultados muito ruins no ENEM (em 2013 a 569ª colocação).

Os resultados da primeira colocada são alardeados depois como forma de ampliar a captação de matrículas de novos alunos.

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SP: fraude em escola no SARESP

Alunos de uma escola estadual em São Paulo denunciaram que não puderam entrar no dia da prova do SARESP com a alegação de que haviam faltado demais durante o ano.

“Eles alegaram que funcionários da escola barraram um grupo de até 20 estudantes no portão do colégio em um dos dias da prova, tanto no período da manhã quando da noite, em novembro do ano passado, com o argumento de que haviam “faltado demais” às aulas. A evolução no desempenho dos estudantes na avaliação pode render bônus de até 2,9 salários a todos os funcionários da escola”.

Veja mais detalhes aqui.

Como já advertia Campbell em 1976:

“Quanto mais qualquer indicador social quantitativo é utilizado para tomada de decisão social, mais sujeito ele fica a pressões por corrupção e mais apto estará a distorcer e corromper os processos sociais que ele pretende monitorar.” Campbell, Donald T., Assessing the Impact of Planned Social Change The Public Affairs Center, Dartmouth College, Hanover New Hampshire, USA. December, 1976.)

Em nota a Secretaria de Educação afirmou que não houve registro de irregularidade e que na 3a. série do ensino médio desta escola o número de alunos que participaram do SARESP aumentou em relação ao último ano anterior de 79% para 85%.

Se você conversar com um reformador empresarial ele citará uma série de análises e contas estatísticas que mostrará que isso não comprometeu os resultados da avaliação da escola. Mas certamente não poderá ocultar os efeitos das atitudes desta escola sobre a formação dos seus estudantes. O que estamos ensinando aos nossos estudantes? Além da fraude em si, se comprovada, a impunidade pela fraude.

A política de bônus que já não deu certo em outros países é insistentemente copiada pela Secretaria de Educação do  Estado de São Paulo sem resultados, e agora pretende ser copiada pelo próprio MEC.

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200 mil acessos

Hoje atingimos 200 mil acessos neste Blog. Obrigado a todos que ajudam a difundir informações que podem contribuir para que o Brasil não tenha mais uma década perdida nas mãos das políticas educacionais dos reformadores empresariais.

Tais políticas visam a destruição da escola pública de gestão pública e não poupam esforços para denegrir o magistério e abrir espaço para drenar cada vez mais verbas que deveriam ser destinadas ao desenvolvimento da qualidade do ensino público. Só a escola pública de gestão pública pode garantir o avanço em direção à democracia e à inclusão real.

A primeira batalha é garantir acesso às evidências que mostram o fracasso destas políticas ou seu alcance limitado, evidenciando igualmente os efeitos colaterais deletérios que ela produz na vida dos profissionais da educação, nos estudantes e na sociedade.

A segunda batalha, simultânea, é questionar a concepção e os objetivos educacionais destas propostas mostrando como elas estreitam os horizontes da sociedade e de sua juventude numa política educacional de testes e medidas que favorece o status quo e a manutenção de privilégios daqueles que, alegando defender os mais necessitados e a promoção da equidade (formal), apostam de fato na manutenção das desigualdades sociais como princípio e meio de funcionamento social, camuflando-as na meritocracia e privatizando a escola pública e/ou sua gestão como forma de controlar o trabalho pedagógico das escolas na ótica de seus interesses privados e imediatos.

 

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Nova página no Blog

Inauguramos hoje uma nova página neste Blog: Bibliografia. Nesta página o leitor pode encontrar bibliografia selecionada que analisa a política educacional dos reformadores empresariais da educação. O leitor também pode encaminhar sugestões de bibliografia para este Blog.

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Factcheck: resultados em testes e produtividade

Para Samuel Pessoa, em artigo que comentei, “até onde é possível haver “comprovação” empírica em ciência social, há sólida evidência de que desempenho elevado em testes como o PISA resulta em maiores taxas de crescimento. Como já apontei (…) educação é um dos fatores mais importantes a explicar as diferenças de produtividade do trabalho entre países” diz ele.

Como esta conversa dos reformadores é mais ou menos recorrente, alguém resolveu checar e um estudo americano mostra que não é assim:

“Cada vez que novos resultados de avaliações nacionais e internacionais mostram que os estudantes dos EUA estão desempenhando-se em níveis medíocres, dezenas de especialistas em educação fazem reivindicações alarmantes sobre o sistema de ensino e a competitividade econômica. Na opinião deles, a estagnação nas notas de avaliação indica iminente declínio econômico e ameaça a competividade global da nação. Um olhar mais atento aos dados de avaliação e econômicos, no entanto, mostra que este não é o caso.”

O estudo mostra que nas medições nacionais (NAEP) enquanto o crescimento em leitura e matemática nos Estados Unidos é praticamente nulo ao longo do tempo, a produtividade americana cresceu disparadamente. Em relação ao PISA, os Estados Unidos não passam da média no desempenho do teste, mas em produtividade estão acima de todos os países que ocupam o topo do PISA.

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A esquizofrenia educacional dos reformadores

Samuel Pessoa comenta hoje (18-01-15) na Folha de SP o livro de Amanda Ripley “As crianças mais inteligentes do mundo”. É editado pela Três Letras, também do Grupo Folha de SP. Comentei o livro neste blog há algum tempo, pois sabia que ele ia parar na mídia sendo apropriado para justificar a política de reformadores empresariais como Samuel o faz. Samuel foi membro do grupo que organizou o programa de Aécio Neves (PSDB) e que recentemente lançou um “manifesto” pró reformas chamado Sob a Luz do Sol.

Comecemos por evidenciar que o trabalho de Amanda é jornalístico e não científico. Ela não faz uma pesquisa de educação comparada, como teria que ser. Apenas, como reconhece Samuel “oferece-nos uma viagem para três sistemas educacionais, dois de elevado desempenho, os casos sul-coreano e finlandês e um que tem apresentado progresso expressivo, o polonês”. Mas tal reconhecimento da natureza do trabalho de Amanda, infelizmente, não relativiza as conclusões de Samuel que, em seguida, fará recomendações de política pública a partir do sequestro das conclusões da autora em prol das ideias de reforma educacional empresarial.

Note-se de partida que a autora, e também Samuel, juntam sistemas que têm propostas de política educacional diferentes – sem falar das diferenças culturais. A Finlândia se destaca exatamente por negar a política dos reformadores empresariais da educação, pois não faz nenhum exame até que a criança termine o equivalente ao nosso ensino médio. Tem uma política de formação de professores de alto nível e controla o número de alunos em sala de aula em torno de 20, sem falar do salário. Nada disso emociona Samuel, no entanto. Sequer é mencionado.

Quando lembra da Finlândia é para dizer que:

“Na Finlândia, um dos melhores sistemas educacionais, segundo PISA, metade dos alunos com 17 anos em algum momento da vida escolar necessitou de aulas especiais e de recuperação. Nem por isso ficaram estigmatizados.”

Sem dúvida, pois não são expostos a avaliações ridículas que pretendem medir ano a ano a média das escolas ou dos alunos e controlar o trabalho dos professores. As avaliações de larga escala, quando existem, são amostrais, não identificam nem pressionam escolas e o professor é o condutor da avaliação de seus alunos. A filosofia é de confiança nos professores e não de certificar, avaliar e pagar bônus por desempenho como ele (e agora o Ministro da Educação Cid Gomes) propõe. Note que é isso que o sistema educacional americano fez nos últimos 30 anos e não deu certo. Tanto que Amanda corre o mundo procurando por soluções…

Mas Samuel prefere sequestrar a política educacional Finlandesa naquilo que lhe interessa para justificar suas teses já amplamente demonstradas ineficazes na literatura disponível. O ponto central desta crença é que notas mais altas são sinônimo de boa educação. Diz ele:

“Educação de qualidade significa que os alunos têm desempenho elevado em testes internacionais de proficiência como o PISA.”

Como já demonstramos, com a opinião de outro economista americano, Levin:

Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”

Segundo Samuel (que concorda com Amanda) o PISA é bom porque: a) “as questões são formuladas para avaliar competências básicas nas soluções de problemas com que nos defrontamos ao longo da vida profissional e pessoal. Não se perde tempo com decorebas e erudição inútil.” E b) “até onde é possível haver “comprovação” empírica em ciência social, há sólida evidência de que desempenho elevado em testes como o PISA resulta em maiores taxas de crescimento. Como já apontei (…) educação é um dos fatores mais importantes a explicar as diferenças de produtividade do trabalho entre países.”

Tudo isso afirmado sem ter que demonstrar nada pois em linguagem jornalística isso fica liberado. Mas basta ler Levin, citado acima, para ver que não é bem assim. Pode-se consultar também os neurocientistas para ver a opinião deles sobre os testes padronizados e desenvolvimento intelectual.

A contradição vem do próprio texto “é bom porque as questões são formuladas para avaliar competências básicas”. Este é o nível de exigência dos testes padronizados, o que contrastará com o clamor por exigências de desempenho dos pobres mais adiante formulado por ele mesmo:

“As baixas expectativas do sistema – pais, professores e gestores – sobre o desempenho dos filhos, especialmente o dos alunos negros e pobres, constitui poderosa armadilha de pobreza”.

Ou seja, como já comentei aqui: a pobreza tem que ser “disciplinada” para poder aprender. Mas a exigência feita aos pobres não combina com a montagem de testes a partir de “competências básicas” como visto acima. Sem contar que é exatamente a falta de “erudição” considerada inútil, que pode nos levar à carência de um dos aspectos mais importantes do crescimento econômico dos países: a inovação.

Ou ainda como aponta Ravitch:

“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro”. Veja aqui.

Finalmente, cabe assinalar como reconhece Samuel que:

“O livro não apresenta o mapa do tesouro para chegar à educação de qualidade para todos. Qualquer pessoa que já gastou algum tempo nesse tema descobriu que não há bala de prata e que as soluções serão locais e a partir do que se tem. Mas há alguns princípios gerais que são comuns aos sistemas bem sucedidos.”

Os princípios gerais dizem respeito a “bom recrutamento de professores”, leia-se “altamente seletivo” e “haver elevada expectativa sobre o resultado e cobrança estrita de desempenho”. Tudo que a Finlândia faz, mas não a partir da teste-mania, mas sim da confiança nos seus professores. Finlândia é a antítese da proposta dos empresários.

Para completar o sequestro das ideias finlandesas, colocadas agora sob a direção dos reformadores empresariais, Samuel recomenda que o leitor depois de ler Amanda, leia João Batista Araujo e Oliveira, ou seja, um reformador empresarial. Como Amanda não é conclusiva, ele sugere que o leitor agora chegue às conclusões que ela não chega lendo João Batista, empresário e diretor do Instituto Alfa e Beto. O peixe morre pela boca.

Como mostra Amanda, a Finlândia vai bem, obrigado. Os americanos vão mal, tanto que estão vasculhando quem tem sucesso para copiar. A pergunta que não cala é por que os reformadores empresariais brasileiros e agora o MEC seguem nesta esquizofrenia educacional de copiar as soluções americanas que NÃO deram certo e deixam de considerar a política educacional finlandesa que dá certo.

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É a redação, estúpido…

Hélio Schwartsman, especialista em tudo, aborda hoje (16-01-15) na Folha de SP o tema do ENEM, mais precisamente, a redação no ENEM. Vejamos a conclusão a que chega Helio: 529 mil alunos (entre quase 7 milhões) que fizeram o ENEM, zeraram na redação. 53% nem escreveu texto algum. Os outros foram mal. Como algumas instituições privadas não usam a redação na composição da nota de ingresso, deixando fora do cálculo a redação, a explicação para isso é que os alunos mais sábios e que perceberam esta situação estão deixando de fazer a redação, e já que 250 mil alunos (em 7 milhões) adotam esta estratégia, a solução Hélio seria eliminar a redação do ENEM e ficar só com as provas objetivas. Agrega ele: seria mais barato, pois não teria que contratar um batalhão de corretores de redação e de quebra o resultado sairia mais rápido.

É a redação que atrapalha, estúpido…

Mas não é tudo. Ele já pensou mais além, na reação à sua proposta de retirada da redação do ENEM. Segundo o autor, não devemos nos preocupar: os pedagogos gostam da redação e até admite que ela é um bom instrumento de medição, mas… há um preço alto a pagar: a correção de 5 milhões de dissertações de modo objetivo. A perda com a retirada da redação não será nula diz, porém, “é administrável”. Primeiro porque há uma “correlação entre o desempenho em testes de múltipla escolha e a capacidade de expressão verbal” (sic), segundo porque a retirada da redação “não significaria a morte da escrita” pois a vida de estudante “oferece inúmeras e melhores oportunidades para provas dissertativas”. Pronto, tudo resolvido. Ou seja, nivelemos por baixo, pensemos pequeno, ao sabor das minorias que operam pela ‘lei de gerson” e das instituições menos exigentes. É assim que se constrói uma educação de qualidade…

Nada como ser ignorante em um assunto e ter o poder da pena em um jornal de grande circulação. Pode-se falar sem ter que demonstrar nada. Às favas o conhecimento científico. “Opinião” vira recomendação de política pública.

A questão não é se avaliar é caro ou barato, mas qual é nosso conceito do que seja uma boa educação para nossa juventude, que oriente as escolas e os processos de avaliação, pois sabemos que os exames criam tradição e repercutem sobre os currículos das escolas e sobre o esforço de professores e estudantes. Boa parte das vezes, esta repercussão é negativa ou produz estreitamento curricular. A pouca repercussão positiva que a redação teria, obrigando os alunos a lerem, por exemplo, quer agora ser retirada. Para Helio, boa educação é sair-se bem em provas objetivas fazendo “x”.

Que haja correlação entre a parte de testes objetivos e expressão verbal na prova de redação diz muito pouco. Além disso o ENEM reúne habilidades multidimensionais e usa uma TRI unidimensional. Ninguém quis ainda abrir esta caixa preta, mas quando ela for aberta, não quero estar por perto… Há também um modelo de TRI multidimensional, mas ele não é usado no INEP e nem facilita o ranqueamento que é o objetivo de uma seleção – função atual do ENEM. E se Helio quer medir expressão verbal em provas de matemática ou ciências naturais, teria que usar pelo menos TRI multidimensional e não correlação estatística. Hélio comete o erro de acreditar que testes unidimensionais podem medir “objetivamente” habilidades multidimensionais em uma mesma prova.

A solução simplista é tirar a redação pois é muito caro avaliar dessa forma. Fiquemos só com os testes objetivos e baratos. Ou seja, se estamos fazendo bobagem, a recomendação do especialista é: façamo-la completa.

Adicione-se que o ingrediente fundamental, hoje, do avanço de um país (inclusive economicamente) é a criatividade, mãe da inovação. A redação é a única prova do ENEM que permite ao aluno exercitar um pouco esta habilidade, e Hélio quer retirá-la.

As demais provas são escolha entre alternativas e ao que se saiba, fazer “x” em provas não favorece a criatividade. Ao contrário, a grande preocupação dos americanos depois de dopar as suas crianças com testes é essa: são treinados a fazer “x” em testes e mais testes para os quais se preparam em simulados burros. Estão emburrecendo junto. E o alerta já foi dado por Levin:

“Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”

A teoria da medição com testes alerta há muito tempo que os testes são limitados. Os testes não podem avaliar tudo e são obrigados a fazer escolhas. Portanto, cuidado com o uso. Uma das razões pelas quais os testes não podem avaliar tudo é que seria custoso demais e muito demorado para o aluno responder. Teriam que ficar dias e dias durante o ano fazendo testes.

Mas o pessoal da “teste-mania” quer medir com testes “objetivos” grandes áreas do conhecimento, embora “não a qualquer preço!”. Mesmo admitindo-se a medição de competências e não de conteúdo com a ajuda da TRI, a amplitude de um teste é sempre amostral. O antigo SAEB resolvia isso fazendo vários cadernos diferenciados que eram respondidos por amostras diferentes de estudantes. Nem todos respondiam o mesmo, e a amostragem de habilidades e competências envolvidas podia ser maior. Porém, este formato teve que ser substituído por uma prova igual para todos para propósitos de seleção para as universidades. Com isso o ENEM ficou esquizofrênico: a prova tem que servir tanto para selecionar para a universidade, como para avaliar o ensino médio. E um erro leva a outro.

Como afirma Ravitch:

“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro”. Veja aqui.

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Milagre pernambucano: mais comentários de quem viu

Um leitor envia o seguinte comentário:

“Prof. Freitas, a sua hipótese para a evasão da EJA [em Pernambuco] está corretíssima. O governo começou no primeiro mandato Campos com a correção de fluxo através do programa Travessia, da Fundação Roberto Marinho. Paralelo ao projeto, que tinha como principal chamariz o término do ensino médio em metade do tempo, 1 ano e meio.

No segundo governo, ele também reduziu o EJA MÉDIO, ou seja, a EJA regular, para metade do tempo e diminuiu bastante as turmas de travessia. Com isso, os alunos com “perfil problemático” para os resultados, os fora de faixa, os alunos trabalhadores, foram sendo canalizados para o projeto e depois para o EJA da própria rede que se tornou uma máquina de emitir certificação de conclusão.

Para se ter uma ideia, foi estabelecido que o aluno que já tivesse cursado o ensino médio regular (1 ano) podia se matricular direto no 3º ano da EJA. Quer dizer.. e a questão do currículo? e o que o aluno deveria aprender do programa do 2º ano e que não estudou no primeiro regular, para onde foi? não importa.

O entendimento tácito é de que o aluno nesse perfil só quer o papel do certificado e o governo quer as estatísticas, para comemorar o aumento da escolaridade da população e coisas do tipo.

Sobre a evasão, tem um dado muito interessante. No sistema informatizado que foi implementado na rede (o SIEPE), quando um aluno é transferido, não é contado como evasão. Então, o aluno evadido, foi praticamente “extinto” da rede, embora, seja corrente que turmas da EJA tenham um nível de evasão absurdo.

Dei aula em turmas que começaram com quase 50 e terminaram o ano com menos de 20. Digo que se o governo federal exigisse pelo censo que fosse informado o destino do aluno transferido e a confirmação da escola que recebeu o aluno, Pernambuco desceria ladeira abaixo no IDEB. E tem mais, se um aluno tiver média 0,0, 1,0, 2,0, 0,0, por exemplo… e conseguir 6,0 na prova de recuperação, ELE SERÁ APROVADO !!!!!, e quando uma média bimestral fica com décimos, por exemplo, 5,6, obrigatoriamente tem que se arredondar para 6,0. Dessa forma, um aluno para não passar de ano, ele tem que ser muito persistente no erro, garantindo assim, os dividendos do fluxo almejados pelo governo.

Mas o santo tem pés de barro, se analisarmos a série de resultados de proficiência da rede, veremos um crescimento inercial, ainda que considerando as proliferação das práticas de treino, simulados, e estreitamento curricular, visando os testes anuais.

Resumindo professor, como pesquisador da área, professor e analista em gestão educacional, posso afirmar que “o milagre de Pernambuco”, é bala de festim, infelizmente, levará mais algum tempo para afundar nos próprios erros, já que a contestação é mínima. E o prejuízo de fato fica para a população.”

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Goiás: privatização por concessão avança

Raquel Teixeira, que também é  membro da Comissão Técnica do Movimento Todos pela Educação (acesso em 14/01/2015, 10 h.), assume a Secretaria de Educação do Estado de Goiás.

Comissão Técnica do Movimento Todos pela Educação
Viviane Senna
Coordenadora

Célio da Cunha
Claudia Costin
Claudio de Moura Castro
Marcelo Neri
Maria Auxiliadora Seabra Rezende
Maria Helena Guimarães Castro
Mariza Abreu
Nilma Fontanive
Raquel Teixeira
Reynaldo Fernandes
Ricardo Chaves Martins
Ricardo Paes de Barros
Ruben Klein”

A nova Secretária pretende dar continuidade às políticas que vêm sendo aplicadas no Estado (entre elas bonificação de professores). Mas vai além disso, pois encontra-se nos Estados Unidos “aprendendo” com os americanos o que são Escolas Charters, ou seja, como privatizar escolas públicas por concessão à iniciativa privada.

Leia mais aqui sobre os planos do Governo de Goiás para entregar as escolas públicas a organizações sociais.  Para o Governador do Estado, o “modelo a ser adotado obteve grande sucesso nos Estados Unidos”.

O argumento é o mesmo da direita americana: se as escolas particulares dos ricos são boas, então devemos permitir que os pobres estudem em escolas do mesmo nível dos ricos, ou seja, privatizá-las por concessão. As escolas continuam sendo públicas, gratuitas para os estudantes e o Estado paga a concessionária para fazer a gestão delas. Portanto, trata-se de adotar o modelo gerencial privado e repassar recursos para ele e não em investir na escola pública para construir a qualidade desta escola pública.

Sobre os resultados dessa estratégia este blog tem divulgado uma série de relatórios e também de posts (veja aquiaqui, aqui, aqui, aqui, use o buscador do blog para encontrar outros pelo título “charters”).

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Callegari volta ao MEC?

A tranquilidade com que Cesar Callegari, até agora Secretário de Educação do Município de São Paulo, aceitou sua saída aqui da prefeitura paulistana pode significar que, na verdade, houve um comum interesse, pois ele aparece agora cotado para assumir uma Secretaria do MEC na administração Cid Gomes.

No tabuleiro político, a movimentação de Callegari para o MEC favorece a política local de aproximação de Haddad com o PMDB – daí o posto ter sido dado a Chalita (ex-PSDB, hoje PMDB). Por outro lado, ajuda fortalecer a equipe de Cid com pessoal que já conhece a máquina federal, pois Callegari já foi Secretário da Educação Básica do MEC e tem proximidade com as ideias do Todos pela Educação onde também já foi do Conselho de Governança desta entidade que representa a posição oficial dos empresários na educação. Curiosamente, Callegari é do PSB.

Cesar Callegari. Sociólogo. Secretário Municipal de Educação de São Paulo, Membro do Conselho Nacional de Educação e Coordenador da Câmara Temática de Educação da Região Metropolitana de São Paulo. Foi Secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, Diretor de Operações do SESI-SP e Membro do Conselho de Governança do Movimento Todos pela Educação. Na área científica, foi Secretário Executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada – IBSA e Presidente do Conselho Administrativo da FINEP. Foi Deputado Estadual por dois mandatos e é autor de vários trabalhos publicados sobre educação pública.

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USA: formação de professores sob ataque

O modelo de valor agregado amplamente questionado pela comunidade científica para avaliar o desempenho de professores nos Estados Unidos vai sendo ampliado, agora, naquele país, para avaliar as Faculdades que os formaram. O modelo avalia os professores individualmente a partir do resultado de testes aplicados aos estudantes do professor. Provocou reação contrária até da Associação Americana de Estatística. O que se pretende nesta nova fase é que o resultado dos testes padronizados dos alunos de um professor seja usado para avaliar a Faculdade na qual o professor foi formado.

Nova legislação está em estudo pelo Ministério da Educação americano e deve ser implantada ainda este semestre.

No Brasil, Haddad propôs fazer provas nacionais de ingresso docente e a partir daí influenciar a proposta curricular das Faculdades com os resultados de seus ex-alunos nas provas nacionais. Cid Gomes já está indo mais longe e sugerindo usar as provas nacionais como certificação docente, ou como ele diz, “porta de entrada da profissão”.

A proposta do governo americano foi revisada pelo National Education Policy Center e suas conclusões se aplicam aos movimentos que estamos observando também no Brasil.

Regulamentos Federais propostos provavelmente prejudicarão a Educação

Regulamentação sem base em evidência científica impõe custos desnecessários à formação de professores, é susceptível de asfixiar o ingresso na educação, e pode desencorajar recrutamento de professores para trabalhar com alunos de maior necessidade

 BOULDER, CO (12 de janeiro de 2015) – Propostas recentes de regulamentos federais que imporiam novas obrigações aos programas de formação de professores são susceptíveis de prejudicar, em vez de ajudar, os esforços para melhorar os resultados escolares, de acordo com uma nova revisão publicada hoje.

Os projetos de regulamentação foram revistos por Kevin K. Kumashiro, decano da Faculdade de Educação da Universidade de San Francisco.

Dr. Kumashiro é autor ou editor de 10 livros sobre educação e justiça social, incluindo “Bad Teacher!: How Blaming Teachers Distorts the Bigger Picture”.

Kumashiro examinou a proposta elaborada nos termos do Título II da Lei de Ensino Superior, que o Departamento de Educação dos EUA lançou em 3 de dezembro de 2014. O Departamento de Educação estabeleceu um prazo até 02 de fevereiro de 2015, para comentários públicos sobre os regulamentos.

O projeto de proposta, Kumashiro explica em sua avaliação, enumera uma série de regulamentos que seriam determinados pelo governo federal e seriam obrigatórios para os estados individualmente. Os regulamentos exigem que os estados avaliem todos os programas de formação de professores anualmente e classifique-os como “excepcional”, “eficaz”, “em risco”, ou “de baixo desempenho”, baseado em grande parte, numa abordagem de responsabilização com base na atribuição de pontuação aos professores a partir dos ganhos de pontuação dos seus alunos em testes e, em seguida, propõem atribuir essa pontuação dos professores para os programas que formaram estes professores.

Os regulamentos também exigiriam dos estados prestar assistência técnica aos programas com classificação de “baixo desempenho”, e esses programas correriam o risco de perder o credenciamento do Estado, seu financiamento e ajuda financeira federal para seus alunos.

Em sua avaliação, Kumashiro aponta para uma série de “preocupações políticas vitais” levantadas pelos regulamentos propostos. Eles incluem:

  • Eles subestimam os custos e encargos de sua implementação, o que Kumashiro aponta como sendo não só “muito altos”, mas também “desnecessários”.
  • Sem nenhum fundamento em evidência, tais regulamentos culpam os professores individualmente – ao invés de causas sistêmicas de fundo – pelo fosso que separa os resultados educacionais dos estudantes ricos e brancos dos de estudantes economicamente desfavorecidos e pertencentes a grupos minoritários raciais.
  • Eles se apoiam em uma definição “indevidamente estreita” do que significa para os professores estar pronto para ensinar.
  • Eles se baseiam na prestação de contas baseadas em testes e mensuração de valor agregado de professores para analisar o desempenho do professor – mesmo quando essas medidas e ferramentas foram “cientificamente desacreditadas.”
  • Eles têm como premissa explicações imprecisas para as causas do desempenho dos alunos e o insucesso escolar, e como consequência vão desencorajar os professores a trabalhar em escolas com alunos de maior necessidade.
  • Eles provavelmente vão limitar o acesso à profissão docente, especialmente para os futuros professores de cor e de renda mais baixa, por asfixia da ajuda financeira federal.

Finalmente, Kumashiro adverte que os regulamentos propostos estão enraizados em “uma visão injustificada, estreita, e prejudicial das próprias finalidades da educação.”

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Sobre milagres: comentário de quem viu

“É muito preocupante a expansão da política educacional de Pernambuco para todo o Brasil. Sou Pernambucana e apresento em minha dissertação de mestrado, “A Política de Ensino Médio no Estado de Pernambuco: um protótipo de gestão da educação em tempo integral” (2014), como os reformadores empresariais apoiados pelo governo estadual tentam deixar intocadas as determinações do mercado como regulador do direito fundamental à educação em nosso estado. Na prática, a política educacional pernambucana, apontada como um sucesso, apenas acelera a privatização da educação pública ocultando formas particulares da diferenciação socioeducativa.”

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Cid caça milagres

O Ministro Cid Gomes está à caça de milagres educacionais pelo Brasil afora. E como esta dádiva só é dada a reformadores empresariais, é bem provável que oriente a política do ministério para a reprodução das ideias destes milagreiros.

O critério da cúria ministerial para se chegar à conclusão sobre o que é ou não um milagre educacional é ter melhora destacada no ranqueamento do IDEB. Como Pernambuco saltou 16 pontos no ranking do IDEB (e não na nota) enquanto outros estados caíram, indo o Estado para a 4ª. posição no ensino médio no Brasil, isso é considerado pela cúria educacional um milagre e digno de ser visitado.

Ou seja, se entendo bem a análise, Pernambuco aparece em relevo porque outros caíram ou estagnaram. Belo critério de milagre…

De fato Cid está fazendo jogo de cena, pois conhece a experiência de Pernambuco já que a importou para Fortaleza e Sobral quando governador do Ceará. O namoro é antigo.

Sobre a experiência de Pernambuco já comentamos várias vezes neste blog. A evolução do IDEB em Pernambuco nos últimos anos foi 2,7 – 3,0 – 3,1 – 3,6 em 2013. As experiências com a privatização do ensino médio em Pernambuco (com forte apoio dos empresários) começaram mais ou menos neste mesmo período. A evolução não tem nada de surpreendente. O que ocorre é que Pernambuco tinha um Ideb baixo demais. Apenas igualou-se com os outros que estão neste mesmo patamar sem terem aplicado nenhum milagre.

A comparação numérica feita por Cid não é suficiente (quantos pontos se saltou no ranking do Ideb), já que oculta a realidade das notas do Ideb daquele Estado e a cúria ministerial enganou-se ao promulgar o milagre pernambucano. Note que o milagre já havia sido antes copiado pelo Estado de São Paulo na gestão Alckmin e por aqui, não surte o mesmo efeito. A medida, aqui em São Paulo, nem sequer ajudou a melhorar o Ideb do Estado que caiu de 3,9 em 2011 para 3,7 em 2013.

Mas o empresariado vai adorar replicar a experiência de Pernambuco que começa com uma cópia do que foi feito em Nova York com a implantação das Escolas Charters. (Veja aqui também.)

A visita a Pernambuco foi para conhecer:

… experiências que levaram o ensino médio de Pernambuco a ter registrado crescimento de 16% — o maior do País — na avaliação do índice de desenvolvimento da educação básica (Ideb) de 2013.

O objetivo do MEC é expandir experiências bem-sucedidas a todo o Brasil na busca da melhoria da qualidade nos últimos anos da educação básica. Entre 2011 e 2013, o estado subiu 17 posições no ranking desta etapa do ensino.

“Entre todos os grandes desafios da educação no Brasil, melhorar a qualidade do ensino médio é um dos maiores” disse o ministro. “No Brasil, nos últimos dois anos, o estado que teve a melhor evolução percentualmente foi Pernambuco.”

Cid Gomes pediu ao governador Paulo Câmara e ao secretário estadual da educação, Fred Amâncio, uma exposição da experiência do estado. “Para que possamos multiplicá-la”, afirmou.

Segundo Amâncio, as estratégias de melhoria da educação no ensino médio envolvem investimentos em infraestrutura, ensino integral e técnico, formação continuada e programas de incentivo aos professores e alunos.

“Além de ter uma das melhores notas no Ideb, Pernambuco apresenta hoje a menor taxa de abandono escolar do ensino médio do Brasil”, ressaltou Amâncio.

Leia mais aqui.

É claro que implantar educação de tempo integral, dotar as escolas de professores e com boa infraestrutura é uma iniciativa louvável em educação (digamos, uma obrigação). Apesar disso, a objeção à experiência de Pernambuco é que ela é feita com recursos da iniciativa privada que desobrigam o Estado e sob o comando de uma concepção de educação baseada na lógica empresarial. Segundo o ICR – Instituto de Co-responsabilidade Educacional, uma Organização Social que é responsável pela condução da experiência:

“O padrão de gerenciamento das escolas baseia-se na experiência empresarial, modelada para atender as necessidades da organização escolar. A aplicação dessa experiência se traduz na tecnologia chamada Tecnologia Empresarial Socioeducacional – TESE. Ela é definida como a arte de coordenar e integrar tecnologias específicas e educar pessoas por meio de procedimentos simples e que facilmente podem ser implantados na rotina escolar.”

A experiência de Pernambuco tem posto em relevo o avanço de 16 posições do Estado no ranking do Ideb entre 2011 e 2013, mas não contrasta de onde a nota partiu e onde chegou (2,7 a 3,6). O Ideb de São Paulo, por exemplo, é 3,7. Não há nenhum milagre nisso a não ser o interesse de louvar experiências financiadas pela iniciativa privada que permitem a introdução da lógica empresarial no interior da educação, cria mercado educacional e controle sobre a escola.

Não vou entrar aqui em outras questões, mas seria interessante que se investigasse como andam as matrículas do Estado de Pernambuco em Educação de Jovens e Adultos, ou seja, no depósito de jovens que vão “voluntariamente” deixando a escola sem serem contabilizados como evasão. Se estou certo, Pernambuco é o segundo Estado do nordeste (só perde da Bahia) que mais tem jovens em EJA, cerca de 214 mil, sendo 44 mil em EJA na rede estadual do ensino médio, onde tem cerca de 357 mil matrículas regulares em 2013.

O destino desta linha de ação do ministério será, com o tempo, passar de “caça milagres” a “caça fantasmas”. Mais tempo perdido para a educação brasileira, não sem antes abrir caminhos para a privatização da educação básica via Organizações Sociais.

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CNTE tem audiência com Cid

Em audiência com o novo Ministro da Educação a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação – CNTE –, entre outros aspectos tratados, “reiterou ser contrária a avaliação dos profissionais da educação vinculada a provas aplicadas aos estudantes. Para a CNTE, a avaliação da educação deve “ser institucional, abrangente (incluindo todo o sistema), ter caráter pedagógico, objetivando a melhoria da qualidade da educação e não a punição dos trabalhadores escolares.”

Como sempre, o Ministro prometeu discutir.

A visão que os reformadores empresariais da educação têm dos sindicatos é que eles são atrasados, retrógrados e defendem apenas interesses corporativistas. Lembremo-nos, como exemplo,  que Paulo Renato Costa Souza foi elogiado pelo The Economist quando esteve na Secretaria da Educação do Estado de SP por ter “enfrentado os sindicatos”.

Os reformadores se acham avançados e se colocam como defensores dos interesses das crianças, e das crianças mais pobres, enquanto acusam os sindicatos de voltarem-se contra elas.

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Haddad convida Chalita para Educação

O prefeito Fernando Haddad (PT) convidou o ex-secretário Gabriel Chalita (PMDB) para ser o novo Secretário Municipal de Educação.

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USA: lógica de mercado não melhora educação

Uma das formas de privatização da educação é a adoção de vouchers destinados aos pais os quais escolhem em qual escola querem matricular seus filhos. A filosofia do sistema é que os vouchers criariam uma competição entre as escolas para receber o dinheiro dado aos pais e com isso a qualidade da educação melhoraria.

Periodicamente, relatórios são emitidos tentando mostrar a eficácia desta ideia. Ontem mais dois relatórios que tentavam mostrar os benefícios da “competição” foram derrubados pelo National Education Policy Center.

Metade de um elogio para dois relatórios

BOULDER, CO (05 janeiro de 2015) – Uma dupla recente de relatórios que defendem a escolha da escola pelos pais (vouchers) para melhorar os resultados educacionais diferem em sua utilidade relativa, mas ambos ficam aquém devido a sua fé sem fundamento nas forças de mercado para efetivamente melhorar o ensino público, de acordo com uma nova avaliação divulgada hoje.

Erin McNamara Horvat e David Everington Baugh co-autores da análise examinaram os relatórios do American Enterprise Institute e da Connecticut Coalition for Achievement Now ou ConnCAN. O Dr. Horvat é professor adjunto de Educação Urbana da Universidade Temple e estuda questões de acesso, equidade e envolvimento da família. O Dr. Baugh é superintendente de um distrito escolar que avaliou inúmeras solicitações para abertura e continuidade de escolas charters, enquanto líder de um distrito diverso e de tamanho moderado no subúrbio de Filadélfia.

O relatório ConnCAN chamado “A crise que podemos resolver: Escolas de Connecticut que fracassam e seu impacto”, baseia-se principalmente em evidência anedótica para apoiar suas crenças na escolha da escola como solução para os problemas que ele identifica no sistema público de ensino do Estado. “É apenas um documento de advocacia pró-escolha e é, portanto, de pouco valor para assuntos de reforma política sérios ou pesquisadores acadêmicos”, escrevem os revisores.

O relatório da AEI chamado “Melhores dados, melhores decisões: informando os optantes de escolas para melhorar os mercados da educação”, tem mais a oferecer, Horvat e Baugh escrevem: “Fundamenta-se em erudição sólida e dados de pesquisa existentes sobre escolha da escola, bem como em pesquisa realizada pelo autor. Faz sugestões úteis sobre como a escolha pode ser mais eficazmente implementada”.

Os revisores alertam, no entanto, que o relatório da AEI “faz alegações infundadas sobre o poder da escolha para reformar as escolas e para melhorar os resultados educacionais.”

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Cid: avaliar, avaliar e avaliar…

Vem aí a Prova Brasil anual. Hoje é aplicada a cada dois anos. Mas o novo ministro entende que é pouco. É preciso que seja anual.

“É fundamental que a gente estabeleça metas [para a educação básica]. Metas de acesso, metas de regularidade, metas de aprendizado e avaliações permanentes. Eu, por exemplo, pretendo fazer com que as avaliações, hoje feitas de dois em dois anos, possam ser feitas anualmente”, afirmou Gomes em entrevista ao “Bom dia Brasil”, da Rede Globo.”

Metas para tudo e avaliação para tudo. Mais do mesmo que no mundo desenvolvido foi usado e não melhorou a educação por lá. É claro que isso prepara mais meritocracia para o sistema educacional, o que conduzirá também a mais privatização. Estas ações andam sempre juntas.

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Exame nacional de ingresso como certificação

As teses dos reformadores empresariais estão sendo seguidas impecavelmente pelo novo Ministro. Uma delas é que a avaliação tem centralidade na melhoria da educação. Por isso, seu foco na avaliação que deverá, é claro, ser seguida de meritocracia. Isso era esperado. Não vai faltar avaliação para ninguém: alunos, professores e diretores. Para o ministro:

“No caso dos professores, ponderou Cid, a avaliação poderia ser utilizada como “passaporte para o ingresso” do professor na carreira docente, em vagas ofertadas por Estados ou municípios.”

É isso. Quando apareceu a ideia de uma prova nacional para ingresso no magistério, advertimos à exaustão a CNTE e as entidades educacionais que esta prova poderia ser convertida em certificação para ingresso no magistério.

(Veja, por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui.)

Para minar resistências, ele ameniza dizendo que a avaliação “será uma opção do professor”, mas é claro que perante as redes, isso não será optativo e, socialmente, aquele que não realizar o exame estará em condições inferiorizadas perante outros que o fizeram.

Com a palavra, a CNTE e as entidades da área da educação.

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Cid: carreira e exame de professores

O Ministro Cid Gomes defendeu logo após sua posse a melhoria da carreira dos professores atrelada à exames. “É um debate que pretendo colocar em pauta” disse.

Sempre dizendo que precisa debater muito, o Ministro repete uma forma de atuação usada em seu governo no Ceará.

No Ceará, por exemplo, propôs seminários nas Universidades Estaduais para discutir a proporção entre aulas efetivamente dadas e número de horas destinadas à preparação destas. Um debate deste tipo conduzido pelo governador do Estado de São Paulo com as Universidades Estaduais Paulistas seria impensável, pelo nível de detalhe. “Ouviu” e desconhecendo a natureza do ensino superior, comparou-o ao ensino médio e terminou concluindo, por si mesmo, que o correto era que esta proporção fosse de 52%. Fez esta “proposta” para as universidades e a “grande discussão” ficou nisso mesmo.

Cid vai ter que convencer que os debates pretendidos não são apenas uma tática de implantação de ideias já prontas e sim um real desejo de atuação embasado em uma construção coletiva. Vai ter que convencer que não se trata apenas de um aprimoramento das suas ideias já definidas. Isso significa que abrir-se para o debate é estar disposto a retirar parâmetros prévios que engessem o próprio debate, abrindo-se ao contraditório e até mesmo à própria negação da ideia.

Não raramente o “debate” tem sido mais uma tática dos reformadores do que um real desejo de acertar ou fazer política pública com evidência.

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Reviravolta em SP: Herman fica na Educação

Alckmin decidiu manter Herman na Secretaria de Educação. O impasse criado com os nomes sobre a mesa levaram o governador a não arriscar uma mudança. Em certo momento as opções estavam entre Barjas Negri, Valeria de Souza e Vitor Lippi.

Para o Estado a decisão pode não ser má, pois poderia significar que a linha adotada até agora será mantida. Herman construiu pontes de relacionamento com a rede ao contrário de seus antecessores. Pior se Alckmin capitulasse entregando o cargo de Secretário a um representante direto dos empresários.

No entanto, vamos aguardar pelos planos de Herman para o novo mandato e pela indicação do Sub-Secretário.

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Fim de ano

A todos os que nos acompanharam por este blog, desejamos um excelente final de ano e um grande 2015, lutando pela escola pública e contra o uso do campo da avaliação para justificar a privatização do público e a desmoralização do magistério.

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Preparando-se para uma renascença na avaliação: pela Pearson

Uma das maiores corporações mundiais no campo da educação e da avaliação divulga texto em que desenha como será o futuro: “Preparando-se para uma renascença na avaliação”. Em um texto de 88 páginas (em inglês), a Pearson mostra seus planos para modificar a educação em escala mundial.

Peter Greene comenta (em inglês) o documento em várias postagens de seu blog: Parte 1Parte 2Parte 3Parte 4.

 

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SP: impasse na educação?

Vitor Lippi, Deputado Federal eleito pelo PSDB e ex-prefeito de Sorocaba 2005-2013 é o novo nome em disputa pela Secretaria da Educação de São Paulo. Antes disputavam o cargo apenas Barjas Negri (ex-prefeito de Piracicaba e na FDE da Secretaria da Educação do Estado) e Valéria de Souza (do programa de Escola de Tempo Integral da Secretaria). Valéria tem apoio do empresariado ligado à educação do Estado.

Ao que parece, as opções internas estão empacadas. A área da Educação será uma das últimas, junto com Transportes, a ter definido o seu Secretário.

Alckmin promete nomear o Secretário de Educação até dia 31.

 

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Cid Gomes: de Sobral para o mundo… – II

(Final do post anterior.) Na Wikipedia pode-se ler que:

“Sobral é o segundo município mais desenvolvido do estado do Ceará, atrás apenas de Fortaleza, de acordo com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Sobral também é líder em trabalhadores com carteira assinada no interior do Ceará e possui a quarta maior arrecadação em ICMS do Estado, atrás de Fortaleza, Maracanaú e Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A cidade também é destaque nas exportações, sendo o único município do interior que compete com a Capital a liderança nas exportações do Estado. A cidade de Sobral é considerada, de acordo com o IBGE, uma Capital Regional.

A cidade de Sobral foi apontada por 2 vezes (2011/12 e 2013/14) pelo guia de investimentos estrangeiros editado pelo grupo jornalístico britânico Financial Times como uma das 10 cidades do futuro da América, a única cidade brasileira do seu porte.”

Cid Gomes é engenheiro civil, passou por vários partidos incluindo PMDB (1983 – 1988); PSDB (1988 – 1996); PPS (1996 – 2003); PSB (2003 – 2013) onde esteve durante 10 anos até que Eduardo Campos rompeu com Dilma e ele mudou para o atual PROS – Partido Republicano da Ordem Social. Em 2005 mudou-se para Washington onde atuou como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID.

Segundo Cid, no seu primeiro mandato de prefeito em Sobral ele executou todas as melhorias possíveis no sistema municipal de educação e ao final de quatro anos fez uma avaliação externa do sistema e constatou que 60% das crianças depois de 3 anos de escolarização ainda não sabiam ler e escrever. Então, decidiu criar o Paic para alavancar a alfabetização no município porque, segundo ele, sem saber ler toda a aprendizagem na escola estaria comprometida. Desta experiência, Cid concluiu que o principal em educação é a avaliação externa e a alfabetização.

Da atuação como governador, Cid considera que seu programa educacional no Estado do Ceará tem dois pilares básicos: alfabetização e ensino médio com formação profissional. O Estado tem mais de 100 escolas de tempo integral onde se faz também formação profissional. Cid tem uma visão pragmatista da educação, uma visão simplista dos problemas educacionais, ou como ele diz, “feijão com arroz”.

Tem dito no Ceará que uma vez no Ministério o ensino médio será prioridade. Cid também afirmou ter ‘simpatia’ pela ideia de um exame nacional para professores, nos moldes do Enem, que assegure às famílias a qualidade dos docentes.

Em Sobral quem mais cresceu em desempenho no IDEB foi o ensino fundamental dos anos iniciais. Foi assim no Brasil inteiro. Mas lá chama a atenção porque o ensino municipal entre 2007 e 2013 avançou na sequência 4,9 – 6, 6 – 7, 3 – 7, 8 (meta era 5) este último índice referindo-se a 2013.

Em termos de porcentagem de alunos que atingiram o nível de aprendizagem adequado na rede municipal, em português é de 75% e em matemática 82%. Os poucos alunos dos anos finais do ensino fundamental (512) matriculados no município têm  no 9º. ano uma porcentagem de estudantes em nível adequado de domínio de 30% em português e 24% em matemática. A maioria do ensino dos anos finais é feita pelo Estado. Mas, nas escolas do Estado, o número de alunos que atingem o nível adequado não é melhor sendo no 9º. ano em português 25% e em matemática 13%.

Aqui o avanço das escolas dos anos finais do fundamental no município é bem menor. Não há ao nível de 6ª. a 9ª. séries o mesmo tipo de intervenção que se realizou nos anos iniciais já que as escolas são estaduais e não municipais. Chama a atenção, no entanto, que as crianças saídas da 5ª. série não transfiram habilidades deste nível para os anos finais do fundamental (6ª. a 9ª.), afinal estas crianças continuaram indo às escolas da cidade em anos posteriores e todas são provenientes do ensino municipal de 1ª. a 5ª.. Não seria surpresa em um ambiente escolar altamente controlado como o que foi implantado nas escolas de 1ª. a 5ª. séries, que o aprendido pelas crianças tivesse perna curta, ou seja, estivesse mais focado no básico e voltado para sair-se bem em provas.

Para complicar o caso Sobral, vejamos o comportamento do ensino privado na cidade, que é sempre alardeado como o mais eficaz. Ele está abaixo das metas em todos os níveis: no 5º. ano deveria ter 6,4 e tem 6,1; no 9º. ano ele deveria ter 6,3 e tem 5.8; e no ensino médio ele deveria ter 6 e tem 5,3.

Este descompasso com o desenvolvimento global do ensino na cidade e o avanço acelerado pouco usual no 5º. ano das escolas municipais merecem, no mínimo, serem pesquisados mais detidamente antes de que se assuma que Sobral é modelo de política pública.

Note-se que em termos do Estado do Ceará, a administração de Cid Gomes em 8 anos de governo – com a Secretária de Educação do Estado, Izolda Cela, sendo a mesma que foi Secretária de Educação em Sobral – não tem nada de excitante nos índices do IDEB do Estado.

Para as escolas estaduais do Ceará, em 2013, no quinto ano a sequência de crescimento é 3,5 – 4,2 – 4,4 – 5 (para uma meta 4,3); no 9º. ano a sequência é 3,4 – 3,6 – 3,7 – 3,9 (para uma meta 3,6) e no Ensino Médio a sequência é 3,1 – 3,4 – 3,4 – 3,3 (para uma meta 3,5) ou seja declinante e abaixo da meta.

Ou seja, a mesma Secretária (Izolda) não conseguiu transferir de Sobral para o Estado do Ceará os supostos avanços educacionais de Sobral. Isso prova que é um pouco mais difícil gerir a educação quando se tem mais de 40 escolas de educação fundamental de anos iniciais para cuidar; é bom, portanto, baixar as expectativas. Principalmente porque medidas que ali são usadas e que agora estão sendo oportunistamente apontadas como responsáveis pelos avanços (bônus é um deles), são usadas em outros estados brasileiros em redes maiores e estes estão empacados (São Paulo, por exemplo).

A Secretária de Educação do município de Sobral, que virou Secretária da Educação do Estado do Ceará na gestão Cid, agora é Vice-governadora eleita do Ceará junto com o novo governador do PT, Camilo. Não a teremos em Brasília no MEC.

Com o PNE que foi aprovado, só faltava achar o Ministro “certo”, e este é Cid Gomes: ex-consultor do BID, convencido das ideias dos reformadores empresariais, crente da avaliação externa (o INEP não precisa se preocupar) e ainda por cima político pragmático e falante.

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