Campinas: Supervisores Educacionais contra militarização

Acompanhando os Coordenadores Pedagógicos da Rede Municipal de Campinas (SP), os Supervisores Educacionais rejeitam, em manifesto, a instalação de escolas cívico-militares nas escolas públicas. Depois de examinar a proposta, dizem:

“Por esses apontamentos apresentamos nosso posicionamento contrário à adesão ao Programa Nacional das Escolas Cívico Militares (PECIM) no município de Campinas, em escolas públicas, e à medida que visa instituir o modelo de escola denominada cívico-militar na EMEF Odila Maia Rocha Brito da Rede Municipal de Ensino de Campinas, entendendo como inaceitável essa implantação para quaisquer outras escolas do Sistema Municipal de Ensino de Campinas. Indicamos às famílias, aos estudantes e aos profissionais da educação que digam “NÃO” ao modelo de escolas Cívico-Militares, no âmbito das escolas públicas.”

Baixe a íntegra da manifestação aqui.

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Campinas: Coordenadores Pedagógicos contra militarização

Os Coordenadores Pedagógicos da Rede Municipal de Campinas se manifestam contrariamente às escolas-cívico militares:

“Ao Sr. Jonas Donizete – Prefeito de Campinas; à Sra. Solange Pelicer – Secretária Municipal de Educação; à Comunidade Escolar da EMEF Odila Maia Rocha Brito e às Unidades Educacionais da SME

O coletivo de Coordenadores Pedagógicos da Rede Municipal de Campinas vem a público manifestar posicionamento contrário à adesão ao programa da escola cívico-militar em qualquer unidade desta Rede e, em particular, na EMEF Odila Maia Rocha Brito.

Entendemos que o referido programa, tendo militares no apoio às atividades de gestão educacional, é contrário aos princípios, às normas, às resoluções e às diretrizes educacionais vigentes no país e na Rede Municipal de Campinas.

O programa afeta diretamente dois princípios básicos de nossa política educacional: o Projeto Pedagógico das nossas escolas e a Gestão Democrática, elemento central da política de Avaliação Institucional Participativa.

Em primeiro lugar, currículo não é apenas o estudo dos componentes curriculares, é todo o processo vivido na escola, sendo desenvolvido colaborativamente por professores, gestores e funcionários. E isto ocorre em um ambiente balizado pelo respeito à diferença, à pluralidade e aos ritmos de aprendizagem. Currículo é, portanto, muito mais que uma lista de conteúdos e estratégias de ensino.

Em segundo lugar, a Gestão Democrática, com sua política de Avaliação Institucional Participativa, tem o diálogo e a negociação como pilares. Neste contexto, os alunos podem discutir suas posições e seus pontos de vista, visando sua auto-organização e sua participação em coletivos escolares, vivenciando a possibilidade de decidir nos assuntos que afetam a qualidade da escola.

Não se teme a contradição, a polêmica e o debate das divergências, pois é a partir disso que encontramos as melhores soluções para as situações complexas que vivemos ao educar crianças e jovens. Como espaço educativo, a escola deve estimular a participação e colocar o conhecimento a serviço da efetivação do exercício da cidadania.

Ora, se o programa de escolas cívico-militares prevê a participação de militares na gestão educacional, é enganoso afirmar, a partir dos princípios elencados acima, que os professores e gestores terão autonomia pedagógica e que o projeto pedagógico não será alterado. Defendemos, portanto, que o trabalho pedagógico que envolve a gestão educacional das unidades deva ser desenvolvido apenas por profissionais da educação.

Reafirmamos NOSSA CONFIANÇA NAS EQUIPES DOCENTES E GESTORAS desta Rede para o avanço da qualidade da educação municipal. As equipes docentes e gestoras vêm realizando um trabalho, ao longo dos últimos anos, que tem resultado na melhoria dos índices de qualidade da educação da Rede municipal.

Entendemos, a partir de nossas Diretrizes Curriculares (2012, p.14), que:

a escola deve definir seu lugar na construção de um novo mundo, mais justo, em que todos tenham condição de vida digna, com acesso aos bens materiais e culturais. Então, podemos dizer que nosso desafio é, enquanto educadores, participar dessas mudanças com a intencionalidade própria de nossa atuação, compromissada com uma cidadania que inclua a todos, sem restrição de classe, raça, religião ou gênero.

Coletivo de Coordenadores Pedagógicos do Ensino Fundamental

Campinas, 17 de dezembro de 2019″

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Novo livro: Future-se? Impasses e perigos

LIVRO REÚNE CRÍTICAS E ALTERNATIVAS AO PROGRAMA FUTURE-SE

“Os professores Salomão Ximenes e Fernando Cássio, da Universidade Federal do ABC (UFABC), organizam obra em que é discutida a fundo a polêmica proposta de reforma da educação superior pública no Brasil, denominada “Programa Universidades e Institutos Empreendedores e Inovadores” – Future-se, apresentada pelo Ministério da Educação (MEC).

O livro Future-se? Impasses e perigos à educação superior pública brasileira conta com a colaboração de 13 autoras e autores, entre gestores e ex-gestores, pesquisadores de política e legislação educacional, economia e políticas de ciência e tecnologia. Os textos traçam um diagnóstico dos impasses e problemas hoje enfrentados pelas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), apresentam e criticam os principais aspectos do Future-se, entendidos como insuficientes e falhos quanto ao propósito oficialmente anunciado de aumentar a autonomia administrativa, financeira e de gestão das IFES. O livro desconstrói os mitos disseminados com a proposta e aponta tendências de debates de médio e longo prazo sobre a educação superior pública no Brasil, das quais o Future-se é uma peça relevante.

Em sua maioria, os 11 capítulos resultam dos debates realizados na UFABC desde a divulgação do programa pelo MEC, em julho de 2019, em especial do seminário “Future-se? A universidade pública brasileira entre impasses e promessas” (12 ago. 2019), co-organizado por Fórum Permanente de Políticas Educacionais da UFABC, Grupo de Pesquisa “Direito à Educação, Políticas Educacionais e Escola” (DiEPEE), Associação dos Docentes da UFABC (ADUFABC) e programas de pós-graduação da Universidade.

O livro é dedicado à memória do professor Reginaldo Carmello de Moraes, reconhecido pesquisador dos temas de política de educação superior em perspectiva comparada, que veio a falecer no mês de agosto último. Reginaldo participa da obra com um capítulo em que trata dos mitos e equívocos costumeiramente disseminados sobre o ensino superior nos Estados Unidos.”

O livro pode ser acessado gratuitamente em: https://cutt.ly/Crqn7or.

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Crescem rumores sobre saída de Weintraub

Nos últimos dias cresceram os rumores sobre uma eventual saída de Weintraub do Ministério da Educação, principalmente depois de sua desastrosa passagem pelo Congresso Nacional onde foi chamado para explicar acusações infundadas que fez às universidades federais.

O ministro saiu de férias e só volta em janeiro. Para alguns, isto é indício de que já se considera fora. Bolsonaro nega que vá promover mudanças e considera o ministro “excelente”.

Leia mais aqui.

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Rui Costa e os ensinamentos do trabalhismo inglês

Rui Castro, governador da Bahia, quer que o PT remodele seu programa em direção ao centro. Ele deveria por atenção nas eleições inglesas.

As eleições inglesas desta semana, consagraram o populismo nacionalista de Boris Johnson de forma inequívoca.

Como em outras partes do mundo, o fracasso das teses neoliberais e do liberalismo centrista abriu caminho para o populismo nacionalista de Johnson, mobilizando uma massa de insatisfeitos com a política e desejosa de que algum líder tome medidas em sua defesa.

Nas eleições desta semana, a esquerda inglesa tentou colocar-se contra o brexit e contra a austeridade econômica.

O programa trabalhista até poderia ser visto como um radicalismo desnecessário, mas o fracasso trabalhista nestas eleições não é produto de seu eventual radicalismo, mas, pelo oposto, é produto da trajetória centrista nada radical da “terceira via” de Tony Blair que, quando no poder, contemporizou com as teses neoliberais à moda Clinton e Obama. Nos Estados Unidos isso levou a Trump, e na Inglaterra a Johnson.

A terceira via não resolveu problemas importantes da população inglesa – da mesma forma que os conservadores neoliberais também não.

Leia aqui.

Então, o conservadorismo populista de Johnson soou como uma esperança para a população mais pobre que deixou o trabalhismo em busca de algo mais definido. O programa de Boris Johnson promete mais investimentos em saúde, educação e segurança – além da saída da ordem neoliberal europeia com o brexit. Neste sentido, a vitória de Johnson é, em igual proporção, uma vitória dos anti-globalistas e anti-neoliberais – em linha com Trump.

O trabalhismo ingles tem uma história de meias palavras vazias ligadas à terceira via que, associada à recusa do brexit, já não colava mais. Neste sentido, pode-se dizer que a esquerda inglesa pecou por falta de radicalidade.

No entanto, a defesa de uma esquerda que se posicione à esquerda e não ao centro, vai na contramão de certas recomendações que circulam na esquerda brasileira pedindo, por exemplo, que Lula “pacifique o pais” e que o PT ajuste seu discurso para aceitar o privatismo, como é o caso de Rui Costa, governador da Bahia, em entrevista à Folha de São Paulo.

Leia aqui.

É verdade que, com isso, pode-se não ganhar eleições. Mas não devemos colocar como meta central administrar o trem desgovernado do capitalismo. É preferível manter um discurso franco na esquerda e reconstruir uma credibilidade abalada neste momento, do que descaracterizar seu discurso com o objetivo de ganhar eleições, enfraquecendo suas teses.

Os bombeiros neoliberais se tornaram parte do problema do capitalismo e logo mais, como na Inglaterra ou nos Estados Unidos, estarão desacreditados por aqui também. Isso, no entanto, poderá fortalecer o discurso dos conservadores populistas, principalmente se a esquerda correr em direção ao centro descaracterizando suas propostas – sem se distinguir. O centro político brasileiro implodiu nas últimas eleições.

São as contradições sociais do capitalismo que fazem com que a esquerda sempre se revigore e renasça mais forte e não o discurso de centro, principalmente em um quadro de crise sistêmica do capitalismo.

O sistema não cairá apenas pela ação da esquerda, ainda que isso conte. Ele cairá sob o peso de suas contradições. Nisso não há nenhum fatalismo, já que é exatamente por isso que a ação humana se torna mais importante ainda, de forma a se construir um novo sistema social mais democrático e mais igualitário – pós-capitalista.

Neste quadro, as eleições inglesas sugerem que a esquerda não pode desgastar-se com discursos centristas adocicados e inconsequentes que, a exemplo da Terceira Via trabalhista inglesa, não conduzem a pautar mudanças efetivas para a população – mesmo que isso signifique perder eleições no curto prazo, construindo, porém, maior credibilidade futura, à medida que o agravamento das contradições sociais se imponha ante o populismo e o neoliberalismo.

É fundamental, neste momento, mais do que ganhar eleições, o trabalho de base, a luta de ideias que forma e esclarece – é preciso falar direta e francamente com a juventude, construindo uma ampla frente anti-capitalista (o que é mais exigente do que uma frente ampla centrista).

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Nota do fórum Licenciaturas da UF Viçosa

NOTA DO I FÓRUM DAS LICENCIATURAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA CONTRA A REFORMULAÇÃO DA RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 02 DE 2015

Nós, participantes do I Fórum das Licenciaturas da Universidade Federal de Viçosa, reunidos nos dias 9 e 10 de dezembro de 2019, manifestamos posicionamento contrário ao Projeto de Resolução do CNE, de 07 de novembro de 2019, e favorável à manutenção da Resolução CNE N°2/2015, defendendo a educação pública, gratuita, laica, plural, socialmente referenciada e para todos.

Viçosa/MG, 10 de dezembro de 2019.

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PISA Brasil: reflexo da cópia de políticas?

Políticos, comentaristas e acadêmicos se queixam de que os estudantes brasileiros estão paralisados no PISA desde 2009.

Coincidência ou não, o fato é que foi a partir de 2007 que se inventou de copiar o “No Child Left Behind” americano (Nenhuma criança deixada para trás) para o Brasil, com a implantação do IDEB por Reynaldo Fernardes, então presidente do INEP.

Em 2009 os estudantes brasileiros comecaram a ficar estagnados no PISA. Para justificar a cópia destas políticas Reynaldo dizia:

“Primeiro, os estudos empíricos mostram que a divulgação dos resultados de avaliações por escola e a fixação de metas melhoram as notas. Não há dúvida quanto a isso. Antes, era tudo muito “eu acho”, agora não. Existem as experiências dos anos 90, com estudos e resultados inequívocos.

Quando se cria um sistema de avaliação e passa a haver responsabilização pelos resultados, os gestores vão se preocupar com as notas e as metas. Qual é a defesa desse sistema: se existe um mecanismo para atribuir responsabilidades, os gestores vão melhorar o ensino. Quais são as críticas? Eles podem tentar falsear as notas, excluir os alunos mais fracos. Nos Estados Unidos, isso aconteceu. Esses argumentos não têm como ser revidados. Mas não se pode deixar de dar um “remédio” para a educação por causa dos efeitos colaterais que ele pode causar.”

Temos de ver se é melhor ou pior para a qualidade da educação. Acho que é melhor. Os efeitos colaterais devem ser combatidos. Quando a primeira-ministra Margareth Thatcher fez a reforma educacional, diziam que era uma visão de direita. Quando o Tony Blair se tornou primeiro-ministro, acreditavam que ele suspenderia a reforma. Mas ele a reforçou e combateu os “efeitos colaterais”. Criou um programa de combate à exclusão dos piores estudantes, e as expulsões de alunos diminuíram absurdamente.”

Leia aqui.

Ou seja, não havia dúvidas quanto ao seu sucesso e, além disso, todos os problemas tinham solução – eram meros “efeitos colaterais” inevitáveis em meio ao sucesso.

No entanto, essa não tem sido a realidade nem para a matriz e nem para a filial Brasil. A filial Austrália, que também fez cópia-cola das políticas, está pior ainda – lá o PISA não para de cair.

Como no Brasil nos últimos 10 anos, os jovens americanos de 15 anos não fizeram nenhum progresso significativo no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA). Se no PISA estão assim, na avaliação interna americana conhecida como NAEP –  Avaliação Nacional do Progresso Educacional – a situação não é diferente.

Para John Merrow, que escreve em “The Merrow Report”, não há dúvida: são as receitas da reforma empresarial da educação, que ele chama de “reforma escolar” – a mesma que foi copiada por Reynaldo Fernandes em 2007 -, a causa da estagnação da educação americana:

“No entanto, dados os resultados do PISA e a dura verdade de que as pontuações do NAEP são decepcionantes há muitos anos, é hora de renomear o NAEP. Vamos chamá-lo de Avaliação Nacional da Paralisia Educacional, porque a paralisia descreve com precisão o que vem acontecendo há mais de duas décadas de “Reforma Escolar”, de acordo com as políticas centradas em testes de George W. Bush e Barack Obama.

A menos que renunciemos a essas políticas equivocadas de “Reforma da Escola”, desenvolvidas sob o “Nenhuma criança deixada para trás” e o “Corrida para o topo”, a paralisia educacional continuará e milhões de crianças continuarão sendo mal educadas e com baixa escolaridade.”

Leia mais aqui.

O atual ministro da Educação acha que a culpa é do PT. Tem razão se pensarmos que esta política de reformas (inclusive a avaliação censitária no SAEB) foi desenvolvida sob os governos do PT, especialmente sob Fernando Haddad. Mas essa “desculpa” só valeria se ele professasse a recusa da política da reforma empresarial da educação, o que não acontece. Pelo contrário, o PT não tinha como proposta colocar a educação brasileira nas mãos do mercado, o atual governo tem.

Não é de se descartar que seja exatamente a cópia destas políticas americanas para a realidade brasileira, como reconhece ter feito Reynaldo Fernandes, a real responsável pela estagnação do desempenho dos estudantes – além de outras causas plenamente possíveis como examinei em outro post, e sem descartar igualmente um importante dado produzido pelo próprio PISA e reforçado pelo Diretor da Faculdade de Educação da USP: a maior inclusão de estudantes no sistema educacional, ou seja, sua crescente universalização, é que estaria segurando a expansão do desempenho dos estudantes brasileiros.

Provavelmente, todos estes fatores tenham uma parte de responsabilidade na atual situação. Em todo caso, penso como J. Merrow que se não rompermos com estas políticas educacionais de testes e responsabilização, de cunho mercadológico – incluindo a reverência ao PISA -, não iremos a nenhum lugar.

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Creches: Campinas privatiza atendimento

Ao invés de um plano robusto de ampliação do atendimento em escolas públicas, Campinas, município do Estado de São Paulo,  aprovou na manhã de 04 de dezembro de 2019, em sessão da Câmara Municipal, o Projeto de Lei nº 320/20191 que institui o Programa “Creche para Todos”. Através dele, recursos públicos serão desviados para o setor privado, enfraquecendo o setor educacional público.

O executivo municipal poderá autorizar o pagamento de bolsas de estudos às crianças de até 5 anos de idade que não foram contempladas com a garantia da educação infantil gratuita na rede pública. É um primeiro passo na direção da implantação de vouchers que poderá expandir-se para outros níveis educacionais.

Um conjunto de entidades elaborou uma Nota de Esclarecimento à população. Nela afirmam que:

“A privatização da oferta educacional tem sido uma estratégia de minimização do direito à educação amplamente criticada por pesquisadores e educadores de todo o mundo. Mesmo em países como Chile o subsídio público à provedores privados é hoje objeto de revisão inconteste: NÃO DEU CERTO! Os modelos acentuaram desigualdades e canalizam os já insuficientes recursos públicos para a realização de interesses privados (mercado, igrejas etc.) sob os quais o controle social é limitado.

O programa “Creche para Todos” do governo Jonas Donizette adere aos princípios ultraliberais da política instituída nacionalmente. Expressa alinhamento com interesses empresariais e de mercado, com intenções objetivas em desresponsabilizar o Estado pela garantia do direito à educação infantil pública, laica, gratuita, inclusiva, democrática e com qualidade social. Direitos estes construídos e garantidos a partir dos princípios curriculares da rede municipal de Campinas.”

Baixe aqui a integra da Nota.

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Carvalho: o significado político do PISA

Luis Miguel Carvalho discute os resultados do PISA:

“Mais uma vez, como sucede a cada 3 anos, o espetro dos resultados do PISA está entre nós! Com duas décadas de vida, o PISA é acolhido com uma atenção e reverência nunca atribuídas a avaliações congêneres.

Neste dia, mais do que a recepção mediática, ampliada pela pontual competência da OCDE na gestão da informação, saliento que os resultados do PISA são aceites, por muitos, exatamente como a OCDE os apresenta: um espelho tão perfeito da educação que com ele se monitoriza o desempenho do país. A minha posição é inteiramente outra: observo-o como tecnologia de governo, por forma a vir a compreender os mecanismos de administração da vida educativa e a influência em educação das organizações internacionais.”

Leia aqui.

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O PISA e a geocultura da desigualdade meritocrática

A implantação em escala mundial de uma “geocultura meritocrática excludente”, em substituição à “geocultura da inclusão social”, caminha a passos largos sob o comando da OCDE. O instrumento que a impulsiona em escala global é o PISA (e suas recomendações), uma avaliação da educação de jovens de 15 anos que atinge quase 80 países, induzindo-os a praticar esta geocultura.

Tais países, em seguida, replicam estas práticas a partir de atores internos em seus próprios países, promovendo avaliações de larga escala em toda a extensão de seus sistemas educacionais em nível federal, estadual e municipal e de forma censitária, inserindo todos os estudantes, professores e escolas na concorrência e na disputa por notas mais altas.

Ao contrário do que se pensa, não é à melhoria da educação que o PISA se destina, já que nota mais alta não é sinônimo de boa educação (Ravitch, 2010). O que importa é a vivência da concorrência e da disputa em cada sala de aula, bem como a ideia de que são seus resultados (positivos ou negativos) que devem ser a base de uma política educacional. A concorrência é ensinada à juventude como princípio geral de funcionamento social. De fato, este movimento global de reforma educacional (Salhberg, 2011) impulsiona a instalação de um “novo contrato social”, em substituição ao da democracia inclusiva, cujas propostas já haviam sido superadas no século 19.

Pela geocultura da meritocracia, ensina-se à juventude que o acesso aos direitos econômicos (melhores empregos, etc.) depende do “mérito” (ideia que será transferida em seguida para o acesso aos direitos sociais, políticos) e, através disso, constrói-se uma sociedade cuja estratificação social, produto da desigualdade socioeconômica, passa a ser explicada pela estratificação meritocrática: a desigualdade dever-se-ía ao “mérito” que cada um acumula – sendo cada um responsável por si mesmo e não dependente do Estado.

Como afirma J. R. Guzzo no Estadão: “a igualdade não é um direito – é o resultado do que o cidadão aprendeu”.

A noção de que todos têm direitos, independentemente de seu QI e posição social, pelo simples fato de que são “cidadãos”, passa a ser condicional: valerá para quem acumulou “mérito” e participa do “mercado”. O que cada um colhe como retorno, depende de quanto cada um contribua em um livre mercado de trocas voluntárias.

As distorções do sistema social vigente são vistas como distorções produzidas pelos próprios indivíduos (escolhas erradas) e a meritocracia ao justificar o sucesso daqueles que fizeram escolhas corretas, justifica igualmente a situação daqueles que fizeram escolhas erradas, produzindo uma classe de sub-cidadãos que, não podendo ser incluídos no mercado, permanecem dependentes do Estado e, como tal, são declarados não “merecedores” de direitos (Gamble, Strong State and Free Economy, 1988).

Esta “desigualdade meritocrática” é bem explicada por Markovits:

“A meritocracia conecta renda à educação e, através da educação, ao trabalho, família, cultura e até local [de residência], dando às diferenças econômicas novas dimensões tanto de qualidade como de quantidade.” (Markovits, D. The Meritocracy Trap, 2019, posição 1144.)

A conexão “renda/educação” acaba tendo precedência sobre a conexão “educação/renda”, contrariando as teses liberais da “igualdade de oportunidades”.

O PISA, na mesma lógica, ensina que olhemos para a desigualdade dos resultados da aprendizagem dos estudantes, mas não nos ensina a olhar para a desigualdade cultural e econômica com que os estudantes chegam à escola – a razão é que o PISA quer ressaltar o “esforço” de alunos e professores, independentemente das caracteristicas e de como este aluno chegue à escola.

Mas as soluções que o PISA aponta para a correção do problema não tocam na questão central, ou seja, no “ritmo único” imposto pela padronização da atual organização do trabalho pedagógico da escola, responsável pelo espelhamento das diferenças de chegada nas diferenças dos resultados que o PISA detecta.

Ao contrário, a ilusão da padronização da educação só complica e reforça a instalação de um conteúdo e ritmo unificados nas salas de aula, a partir de bases nacionais curriculares rígidas, que pretendem unificar o desempenho em escala nacional, sem reconhecer as características culturais dos estudantes e a importância da diversificação dos tempos de aprendizagem nas salas de aula. Ao invés disso, estas políticas promovem a ideia de que só através de avaliações seguidas se consegue fazer as crianças aprender, desqualificando seu oposto como “promoção automática”.

Além disso, as recomendações do PISA fazem caso omisso das variáveis extra-escolares e não dão conta de resolver, dentro da escola, o impacto da desigualdade social acumulada previamente pelos estudantes no âmbito da sociedade. Não é por outra razão que pelo menos 60% do desempenho dos estudantes em testes se explica pelo nível socioeconômico dos estudantes (Travitzki, 2013; Dalben, 2017).

Ravitch escreveu recentemente:

“Cientistas sociais documentaram repetidamente a estreita correlação entre pobreza infantil e desempenho acadêmico. Você não precisa ser um cientista social para olhar para qualquer gráfico que mostre os resultados dos testes e a renda familiar: as crianças das famílias mais ricas estão no topo e as crianças das famílias mais pobres estão embaixo. O que não é de surpreender, já que pessoas com menos renda têm menos acesso a segurança alimentar, assistência médica, moradia decente e todos os outros aspectos básicos da vida que famílias abastadas dão como certos.

Em postagem recente, Marc Tucker revisou os dados sobre pobreza infantil e sua relação com os resultados da educação. Ele cita um artigo da revista Economist sobre pobreza nos Estados Unidos e inclui um gráfico mostrando o aumento dramático da pobreza infantil de 2000 a 2016. Tucker volta ainda mais, a 1960, para observar que a desigualdade de renda não era tão grande na época como é agora. Os que estavam no topo tinham “mais”, é claro, mas não eram bilionários que habitavam um universo totalmente diferente dos que estão embaixo ou no meio. Algo está terrivelmente errado, com centenas de pessoas bilionárias, algumas delas com ativos de mais de US $ 100 bilhões, ao mesmo tempo em que mais e mais famílias e crianças vivem na pobreza.”

Leia aqui.

Mas para o “novo” entendimento de que a sociedade deve ser organizada pelo mérito, essa realidade é naturalizada e as justificativas estão sendo restauradas (aquelas dos tempos de H. Spencer e de F. Bastiat no século 19), afirmando-se que transferir dinheiro dos mais ricos para corrigir distorções sociais (agregue-se: produzidas pela dinâmica do próprio sistema social) não passa de um roubo àqueles que acumulam méritos (e propriedade) (ver J. Buchanan em N. MacLean (2017) Democracy in Chains).

É como se o “mérito” estivesse à disposição de cada um, independentemente de sua história de vida, dependendo do esforço de cada indivíduo. Nesta visão, “mérito é igual a QI + esforço” (M. Young (1958) The Rise of the Meritocracy).

A desigualdade meritocrática (Markovits) é o desdobramento da armadilha do liberalismo que pode ser resumida na expressão “igualdade de oportunidades”. Tudo se explica pela falta ou não de oportunidades que, uma vez garantida depende unicamente do “esforço” do adquirente para ser concretizada, não sem sofrimento, é claro, na boa tradição spenceriana do “darwinismo social”.

É esta lógica que o modelo de avaliação do PISA induz com a finalidade de legitimar uma desigualdade meritocrática como única maneira de se olhar para as desigualdades sociais e tirar, por outro lado, a legitimidade das demandas e direitos daquela sub-classe de cidadãos a que Gamble (1988) se refere e que o próprio sistema social capitalista produz. Por esta via, adverte Markovits:

“Assim, a meritocracia atrai a elite e a classe média – os ricos e o resto – para um abraço íntimo, mas hostil. A desigualdade meritocrática inspira a hostilidade, entrelaçando as classes em mal-entendidos, atritos, discórdias e até em guerra aberta. Meritocracia, é isto, nutre um conflito sistemático de classe que deforma a vida social e política”. (Markovits (2019) The Meritocracy Trap, posição 182.)

“O mérito em si não é uma excelência genuína, mas antes – como as falsas virtudes que os aristocratas anunciavam no antigo regime – uma pretensão, construída para racionalizar uma distribuição injusta de vantagens “. (Idem, posição 263.)

Neste sentido, ela é protofascista pois ensina a juventude a olhar para seu colega de classe como se ele fosse um “inimigo”:

“Como observou o teórico político Robert Dahl […] Se todas as brechas [em uma sociedade] ocorrem ao longo de uma mesma linha [divisória] … então é provável que a gravidade dos conflitos aumente. O homem do outro lado [da linha] não é apenas um oponente, ele logo se torna um inimigo. (Idem, posição 1148.)

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Yong Zhao: um mágico chamado PISA

Enquanto a mídia brasileira se deleita com os resultados do PISA ( veja aqui e aqui) e a esquerda disputa com o conservadorismo atualmente alojado no ministério da Educação – o ministro atribuindo o suposto desastre da educação brasileira na pontuação do PISA ao PT (veja aqui) e os ex-ministros do PT se defendendo e mostrando os avanços – muito dos quais verdadeiros – para a educação brasileira em seus governos (veja aqui e aqui), cada um a seu modo validando o PISA, vamos deixando de levar a sério a crítica que está sendo acumulada sobre este exame.

Há pouco tempo um time de 100 acadêmicos ao redor do mundo fez um abaixo assinado indicando os problemas deste teste – mas isso não é levado em conta (veja aqui).

Yong Zhao deverá publicar em breve no Journal of Educacional Change um artigo cujo nome será: “Duas décadas de destruição: uma síntese da crítica contra o PISA”. Segundo o Blog Answer Sheet, que antecipa parte deste artigo, o autor escreve:

“[A] base sobre a qual o PISA construiu seu sucesso foi seriamente desafiada. Primeiro, não há evidências para justificar, e muito menos provar, a alegação de que o PISA realmente mede habilidades essenciais para a vida nas economias modernas. Segundo, a alegação é uma imposição de uma visão monolítica e centrada nas sociedades ocidentais sobre o resto do mundo. Terceiro, a alegação distorce o objetivo da educação.”

Yong adaptou a primeira parte de seu artigo para um post no Answer Sheet no qual ele escreve:

“O PISA é um mágico magistral. Criou com sucesso uma ilusão de qualidade da educação e a comercializou no mundo. Em 2018, 79 países participaram deste show mágico, acreditando que este teste trienal mede com precisão a qualidade de seus sistemas de ensino, a eficácia de seus professores, a capacidade de seus alunos e a prosperidade futura de sua sociedade.”

Leia mais aqui.

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Demori: “extremo-centro engana-bobo”

Paulo Hartung, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa escrevem longo artigo na Folha de São Paulo – “Brasil vive entre riscos de extrema direita e recaída lulista” – procurando prosseguir na toada de que o Brasil só se salva pelo “centro” e eles são este “centro”.

Leia aqui.

Em excelente texto – “O extremo-centro engana-bobo” -, Leandro Demori, do Intercept Brasil, em artigo bem mais objetivo, destrói o tal “centro”:

“Todos lembram o destino do centro de 2018. O Partido Novo virou base de apoio de Bolsonaro. O PSDB virou Bolsodoria. Se estão abraçados ao capitão de hospício, não são de centro. É esse o mesmo centro que pregam Pessôa e seus companheiros? Se não é, qual seria? Pelo artigo, não podemos saber. No mundo real, onde se disputa votos para vencer uma eleição, na hora do pega pra capar, dirão que Bolsonaro (ou qualquer outro do seu tipo) “tem uma chance de ouro de ressignificar a política do Brasil”, como disse o centrista Luciano Huck? Se repudiam essa ideia, devem gritar mais alto, porque não dá pra ouvir.”

Minha única discordância é com o diagnóstico de Demori sobre a filosofia social deste grupo. Não constituem um centro-conservador, mas são pretensos “neoliberais progressistas”, disfarcados de centro, como já examinei em outro post.

Leia aqui.

Hoje, todos os “liberais” (centristas ou radicais), desde os honestos até os oportunistas, são favoráveis às reformas econômicas dos radicais (neoliberais e libertarianos) – e, portanto, à reforma empresarial da educação. No entanto, há divergência, como eles dizem, com a “pauta dos costumes”, com o papel do Estado e com o próprio “estado de direito” pelo qual tanto conservadores como neoliberais têm pouco apreço. Retirados os desacordos, o que surge como consenso deste “centro” são as reformas econômicas neoliberais que de centro não têm nada.

O fato é que para afastar a esquerda os liberais fecharam o nariz e se coligaram aos conservadores de Bolsonaro (incluindo os militares). Bolsonaro revelou-se mais difícil de ser controlado do que imaginavam e já criou seu próprio partido, ciente de que esta aliança é apenas eleitoral.

Há pontos de contato com o neoliberalismo, mas como este é globalista e os conservadores populistas bolsonarianos são filiados a Steve Bannon, um anti-globalista que defende a hegemonia da matriz americana no mercado global, a conversa fica limitada a um apoio ao livre comércio e não a um apoio a um livre mercado em escala global (multilateral).

Além disso, os conservadores sabem que os liberais não apoiam, como regra, seu plano de controlar as mentes das pessoas em vários aspectos relativos a condutas – começando por Damares e seus evangélicos. Portanto, criou seu próprio partido onde a pauta é dada por Steve Bannon via Eduardo Bolsonaro (seu representante para a América Latina).

Os remanescentes do falido PSDB que sempre, desde FHC, flertaram com o DEM, que congrega liberais de direita, estão tentando rearticular-se mas sabem que não podem perder o apoio do mercado e, por isso, vão manter as reformas econômicas neoliberais. Nisso, no neoliberalismo disfarçado de “progressivismo”, reside, para mim, o engana-bobo e não no apoio conservador.

O apoio conservador virá de qualquer forma no segundo turno, para neutralizar eventual avanço da esquerda, restabelecendo a coalisão eleitoral conservadora/liberal sempre que necessário for.

A questão que fica é: um fracasso (anunciado) do neoliberalismo reacionário ou progressista não fortalecerá mais ainda, no Brasil, os conservadores antiglobalistas de Steve Bannon, como ocorreu com o fracasso do neoliberalismo nos Estados Unidos, o qual gerou Trump e Bannon?

Estariam os liberais brincando com fogo?

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RJ: governo quer rede estadual como cívico-militar

Em mais um ataque à escola pública, o Governador do Rio, Wilson Witzel, enviou um projeto de lei para a Assembleia Legislativa, pedindo que os Colégios Estaduais do Rio sejam dirigidos por militares. As instâncias administrativas e pedagógicas estarão a cargo de profissionais da educação e a disciplinar e estratégica a cargo dos militares. Entre estes e as instâncias administrativas e pedagógicas não há hierarquia, o que significa que podem atuar autonomamente.

É a maior linha direta escola-prisão que se tem conhecimento.

INSTITUI O MODELO DE UNIDADE ESCOLAR CÍVICO-MILITAR NA REDE PÚBLICA DE ENSINO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Autores: PODER EXECUTIVO

DESPACHO: A imprimir e às Comissões de Constituição e Justiça; de Educação; e de Orçamento, Finanças, Fiscalização Financeira e Controle. Em 26.11.2019. DEPUTADO ANDRÉ CECILIANO, PRESIDENTE.

A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RESOLVE:

Art. 1º Fica instituído o Modelo de Unidade Escolar Cívico-Militar na Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, que funcionará em regime de colaboração entre a Secretaria de Estado de Educação e órgãos militares e/ou órgãos de segurança pública.

1º Compete ao Chefe do Poder Executivo Estadual editar o necessário ato de criação da Unidade Escolar Cívico-Militar, que integrará a rede da Secretaria de Estado de Educação.

2º O acesso às Unidades Escolares em questão será franqueado à população em geral, sem reserva de vagas para dependentes de militares ou policiais, mediante procedimento de matrícula definido pela Secretaria de Estado de Educação para todas as Unidades Escolares de sua Rede.

Art. 2º A Secretaria de Estado de Educação firmará instrumentos de parceria e congêneres com os órgãos militares e/ou órgãos de segurança pública, com o objetivo de efetivar a implantação e garantir o funcionamento das Unidades Escolares Cívico-Militares.

Art. 3º As Unidades Escolares Cívico-Militares de que trata esta Lei funcionarão em regime de Gestão Compartilhada entre a Secretaria de Estado de Educação e os órgãos militares e/ou órgãos de segurança pública.

1º A Gestão Compartilhada das Unidades Escolares Cívico-Militares observará, necessariamente, ao seguinte:

I – Gestão Administrativa: caberá à Secretaria de Estado de Educação e será exercida por servidores da carreira do magistério público estadual, em atendimento ao disposto no art. 8º, §1º, da Lei nº 1.614, de 24 de janeiro de 1990;

II – Gestão Pedagógica: caberá à Secretaria de Estado de Educação e será exercida por servidores da carreira do magistério público estadual, em atendimento ao disposto no art. 8º, §1º, da Lei nº 1.614, de 24 de janeiro de 1990;

III – Gestão Disciplinar: caberá ao órgão militar e/ou órgão de segurança pública a difusão de valores humanos e cívicos e a avaliação será baseada nos padrões das Unidades de Ensino Cívico Militar, sendo exercida pela supervisão escolar e em paralelo pelo apoio técnico, respeitados os limites impostos na Lei nº 1.614, de 24 de janeiro de 1990;

IV – Gestão Estratégica: caberá ao órgão militar e/ou órgão de segurança pública, articular junto aos gestores administrativos indução de boas práticas educacionais, com o escopo de proporcionar a igualdade e oportunidade de acesso à educação.

2º Não há hierarquia entre as esferas de gestão das Unidades Escolares Cívico-Militares, que atuarão de maneira autônoma e independente, conforme suas atribuições, e buscarão sempre a mútua colaboração, em atenção ao princípio da gestão democrática do ensino público.

Art. 4º A Secretaria de Estado de Educação definirá as Matrizes Curriculares das Unidades Escolares Cívico-Militares de que trata esta Lei.

Parágrafo único. O órgão militar e/ou órgão de segurança pública parceiro poderá designar servidores para ministrar a parte diversificada da Matriz Curricular, quando couber.

Art. 5º A Secretaria de Estado de Educação poderá também celebrar instrumentos de parcerias e congêneres com entes e órgãos da Administração Pública, ou com instituições públicas e privadas da área de educação ou área correlata, com o objetivo de efetivar a implantação e garantir o funcionamento das escolas cívico-militares.

Art. 6º Os recursos orçamentários e financeiros necessários ao funcionamento das Unidades Escolares Cívico-Militares ficarão a cargo da Secretaria de Estado de Educação, exceto:

I – Quando houver previsão distinta nos instrumentos mencionados nos arts. 2º e 5º desta Lei;
II – Aqueles necessários ao pagamento das remunerações dos servidores designados para atuar na Gestão Disciplinar, na Gestão Estratégica e na parte diferenciada da Matriz Curricular, na forma do parágrafo único do art. 4º desta Lei.

Art. 7º A autonomia pedagógica das Unidades Escolares Cívico-Militares compreende a adequação e o desenvolvimento local da proposta educativa, com o estabelecimento de formas próprias de organização do ensino-aprendizagem, observadas as diretrizes legais
unificadoras do sistema de ensino e as da Secretaria de Estado de Educação, com vistas ao cumprimento da Lei nº 3.067, de25 de setembro de 1998.

Art. 8º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2019

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“Future-se” X “Outro Futuro”

Universidades federais paulistas lançam agenda alternativa ao Future-se do MEC. O documento “Outro Futuro” reafirma os princípios constitucionais que estão sendo desconsiderados pelo Future-se.

Baixe o documento aqui.

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Máfia de ONGs operava em creches paulistanas

A privatização da educação nem começou para valer e os esquemas fraudulentos que usualmente acompanham a entrega da educação ao setor privado já estão operando desviando milhões de reais.

170 milhões de reais deixaram de ser investidos em escolas públicas de gestão pública e foram repassados para ONGs administrarem creches. Destes, pelo menos 10 milhões já foram identificados como fraude até agora, sem contar a sub-contratação de laranjas.

Leia aqui.

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A sinceridade de Guedes

O ministro da Economia, Paulo Guedes, teve um ataque de sinceridade e invocou uma eventual recriação do Ato Institucional No. 5 da ditadura militar para, como ele gosta de pensar, garantir a “ordem” necessária ao “progresso”.

Leia aqui.

O ministro é dado a ter ataques, usualmente de ira, mas este foi de sinceridade. A lógica é coerente com o que pensam os neoliberais: se nada (note bem: “se”) nada perturbar o mercado (nem o Estado, nem os esquerdistas, nem os sindicatos) e ele for deixado à sua “ação natural”, ao sabor da “práxis dos indivíduos” produtores (Mises), o mercado “perfeito” emergirá; os desequilíbrios, percebidos pelo empresariado (todos nós, afinal, agora, somos todos empresários de si mesmos) serão convertidos em novas oportunidades de lucro e o progresso emergirá, fazendo com que todos possam compartilhar o “bolo” – lembram da tese do compartilhamento do crescimento do bolo na ditadura militar? – cada um recebendo proporcionalmente à contribuição dada. A sociedade reassumirá, assim, sua evolução “natural” onde o mérito é a referência para o acesso aos direitos. A questão central, portanto, é não perturbar o mercado.

Dessa maneira, entende-se que Guedes tenha sido “apenasmente” sincero: é fé no mercado e não na democracia. Na sua visão, não é a democracia que promove a inclusão e o progresso, é o mercado. Como dizia Hayek, defendendo Thatcher: o que importa é o mercado e não a urna (Selwin, 2015).

Segundo Guedes, também, o seu governo ganhou uma eleição democraticamente. No seu conceito de “democracia”, quem discorda deve fazê-lo de maneira a não prejudicar a dinâmica natural do mercado.

Mourão já havia dito que o capitalismo é uma característica fundamental do seu entendimento do que seja uma “democracia”.

“(A democracia é) Fundamental, são pilares da civilização ocidental. Vou repetir para você: pacto de gerações, democracia, capitalismo e sociedade civil forte. Sem isso, a civilização ocidental não existe”, declarou o vice aos jornalistas.”

Leia aqui.

Logo, qualquer tentativa de protestar contra o capital é anti-democrática. Para eles, a democracia supõe o capitalismo, o livre mercado, o que, na prática, significa o inverso: o capitalismo tornou-se incompatível com a verdadeira democracia, cujo conceito, agora, deve ter como fundamento o livre mercado, sendo este, portanto, inquestionável. De fato, uma ameaça ao funcionamento dos mercados legitima que seus defensores possam intervir em nome da “democracia” de livre mercado.

O conceito de democracia de Guedes também é curioso: quando a oposição perde uma eleição e discorda das propostas do governo eleito, ela não deve protestar. É como se ao perder a eleição, perdesse também o direito de ser oposição. Nada a ver com os movimentos contestatórios de quando o PT estava no governo, ocasião em que a direita ocupou as ruas para impulsionar um golpe. Mas, como eram movimentos a favor do livre mercado, foram considerados democráticos.

Em sua fala aos empresários nos Estados Unidos, Guedes foi apenas traído pela sinceridade. Quando percebeu o tamanho da encrenca tratou de consertar. Mas para quem leu Hayek e Mises é fácil detectar sua sinceridade.

Mises esbravejava em Viena, na Comissão Internacional do Comércio, no início do século passado, contra a passividade do governo face às manifestações dos trabalhadores que contestavam nas ruas (Slobodian, 2018). Hayek visitou três vezes o Chile durante a ditadura militar de Pinochet a quem admirava. Como já comentei em outro post (veja aqui) para ele era possível um ditador atuar como um liberal. Vem daí, a ideia de uma “ditadura de transição” para garantir o livre mercado – base da liberdade pessoal e social para ele.

Esta é a maior dificuldade com as políticas neoliberais em países periféricos: são, além de destrutivas, golpistas. Apesar desse autoritarismo, se ficarmos aguardando para contestar, pouco restará para salvar no Estado brasileiro. Lula pegou o ponto certo: o problema central é o neoliberalismo e a critica é inegociável.

Mas será igualmente necessário enfrentar o “neoliberalismo de esquerda” ou “progressista” que está sendo gestado na centro-direita brasileira à sombra do PSDB. Todas as versões levam ao mesmo lugar.

Conservadores, neoliberais e militares, apesar das diferenças, têm um porto seguro onde se encontram: o autoritarismo. Portanto, não há nada de novo na fala de Guedes: ele expressa o que pensam os fundadores do neoliberalismo (ou liberalismo radical) e não é bom achar que foi apenas um lapso do ministro – dada a história recente do período 2014-2018.

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FUNDEB: “future-se” da educação básica?

“Com a expectativa do fim do Fundeb, pelo menos duas agendas disputam o modelo de financiamento educacional futuro: a primeira defende um modelo nos moldes do atual fundo, porém com uma atuação mais cooperativa da União, expresso pela PEC 15/2015 e respectivas propostas de aperfeiçoamento. Já a segunda agenda advoga a substituição do Fundo por lógicas privadas de financiamento, seja pelo mercado ou terceiro setor, expressas pelos vouchers e escolas charters.”

Zara Figueiredo Tripodi discute as opções no Jornal GGN.

Acesse aqui.

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Blog da Helena: falsos consensos na BNC da Formação

“A Folha de São Paulo de hoje, 24 de novembro, traz artigo do relator da Comissão Bicameral do MEC, Conselheiro Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, uma Organização Social de caráter privado, a qual, em articulação com outras OS e o Movimento pela Base, vêm  se impondo no CNE com a presença dos representantes do empresariado nacional na implementação da reforma educativa em nosso país desde o golpe de 2016.”

Leia aqui.

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Milhares de professores em defesa da escola pública

Milhares de professores em Indianapolis (USA) marcham em defesa da escola pública, de seus estudantes e por menos testes.

 

Veja aqui também.

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Um estranho casamento?

Bresser-Pereira:

“Enquanto, desde 2008, o neoliberalismo está em crise econômica no mundo rico, e, desde 2016, em crise política, sob ataque de um nacionalismo de direita, no Brasil existe hoje um estranho casamento entre o neoliberalismo e esse tipo de nacionalismo”.

Leia aqui.

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REDUCA: empresariamento da educação na AL

Erika Moreira Martins defendeu tese de Doutoramento na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – sob orientação da Dra. Nora Rut Krawczyk com o título: EMPRESARIAMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA NA AMÉRICA LATINA: REDES EMPRESARIAIS PROL EDUCAÇÃO.

Resumo

O objetivo da pesquisa é investigar a mobilização — o conjunto de propostas, iniciativas, e ações — de grupos empresariais prol educação na América Latina, a partir do estudo da REDUCA (Rede Latinoamericana de Organizações da Sociedade Civil para a Educação). A REDUCA representa o fortalecimento de uma ação organizada empresarial que conecta diversas associações do espectro da nova direita aos interesses de governos de turno.

Orquestrada por organizações internacionais que expressam o padrão de dominação imperialista na América Latina, a REDUCA, se estrutura em torno de um processo de reinvenção do capital com vistas a salvaguardar interesses mercantis. Por isso, sustentamos que o fundamento desta ação empresarial está na ‘estratégia de acumulação’, que se estende a questões políticas e ideológicas, nas quais a educação representa uma dimensão decisiva. Articulando processos globais, trajetórias nacionais e dinâmicas regionais, metodologicamente, utilizamos a abordagem relacional, na qual a ação coletiva empresarial seria o resultado das relações de forças existentes, destacando a dimensão conflitiva e histórica.

Uma vez que a REDUCA se constitui como uma ‘rede de redes’ promovendo a ‘governança em rede’, ao interior da Análise de Redes Sociais mobilizamos os conceitos de ‘redes de políticas’, bem como instrumentos como a etnografia de redes. Como resultados, temos que a reorganização empresarial, no espaço de incidência na política educativa, deve ser entendida como parte de um projeto hegemônico que afirma seu interesse geral na acumulação, mas que, igualmente, alavanca os interesses particulares das forças subordinadas.

Com efeito, o surgimento da REDUCA, pode ser assimilado como parte da resposta que atende tanto aos anseios empresariais, quanto aos interesses do imperialismo estadunidense diante dos novos contornos geopolíticos. O fortalecimento e aprofundamento dos vínculos entre empresariado e educação tem alcançado um nível inédito na história latinoamericana: situação que impôs aos empresários o refinamento da matriz discursiva sobre a participação da ‘sociedade civil’ e ‘direito à educação de qualidade’.

Para as frações burguesas latinoamericanas esta seria uma tentativa de realinhar forças sociais em torno a estratégias de acumulação e projetos estatais, dinamizando a acumulação do capital em escala nacional ou internacional. Por sua vez, o imperialismo, mantém sua dominação e dependência da região, garantindo uma penetração realizada por eficientes ‘organizações’ conectadas em redes. As relações de dependência continuam vigentes, mas agora, são revigoradas e dinamizadas.

MARTINS, E. M. Empresariamento da educação básica na América Latina: Redes empresariais prol educação. Tese (Doutorado)—Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2019.

Baixe aqui.

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Diretrizes da Formação e “a mão visível do mercado”

Olinda Evangelista, Letícia Fiera e Mauro Titton publicam em Universidade à Esquerda uma análise sobre a aprovação das Diretrizes da Formação Docente no Conselho Nacional da Educação: “Diretrizes para formação docente é aprovada na calada do dia: mais mercado”.

“No começo da noite do dia sete de novembro, professores e aspirantes ao magistério Brasil afora foram tomar uma cerveja e dançar forró, alheios talvez aos conflitos que pululam na América Latina, aos desmandos do governo Bolsonaro e às rasteiras que vêm sofrendo seu ofício… Não sabiam ainda – talvez jamais saibam – que o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovara, durante aquele dia, a venda de formação docente e as inumeráveis mercadorias a ela associadas. No período da ditadura empresarial-militar dizíamos que as “forças da opressão” agiam na calada da noite… Continuam agindo na calada, mas não se importam mais com o turno…

Semelhante insanidade foi testemunhada e apoiada pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) que noticiou o feito no mesmo dia, quando a noite chegava. Entretanto, a organização (2019) não foi a única “parceira” presente, embora a única que, até o dia seguinte, assumiu os esforços feitos para definir Diretrizes Curriculares para Formação Inicial de Professores da Educação Básica e Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (DCNFD) (BRASIL, 2019a). Quem mais estava lá? Quem teria colaborado para que as DCNFD fossem tão celeremente – quase na clandestinidade – aprovadas? Que consenso quase-secreto, e de quem, a trouxe à luz?”

Leia aqui.

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Faleceu Wallerstein

Com certo atraso, informo que Immanuel Wallerstein, sociólogo do “sistema mundo”, faleceu em 31 de agosto de 2019 aos 88 anos. Sua maior obra, “O Moderno Sistema Mundial”, cuja publicação iniciou em 1974 e foi composta por quatro volumes, pode ter ficado inacabada já que contemplava seis volumes. Deixa ainda um grande número de outros livros – inclusive sobre a África, que marcou o início de seus estudos.

Defendia a tese de que o Liberalismo era uma filosofia social em desagregação, juntamente com o sistema histórico capitalista. Descreveu em detalhe, em seu Volume 4, como se constituiu, durante o século 19, o que ele chamou de “liberalismo centrista”.

Sua visão foi fundamental para que colocássemos o sistema capitalista em perspectiva como um organismo vivo que nasce, cresce e acelera seu processo de deterioração no tempo presente, não como teleologia inevitável, mas como um processo sistêmico que permite o desenvolvimento de opções históricas, o que muito nos ajuda a compreender tanto o passado, como o momento presente.

Imagina a construção de um mundo pós-capitalista, contraposto ao esgotamento do sistema capitalista, a partir da união em todas as frentes de luta pelo desenvolvimento de outro sistema social, cujas características básicas eram a de ser mais democrático e ser mais igualitário – sem o que não seria outro sistema.

Deu o bom combate.

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Artigo: Piolli e Sala examinam o Novotec em SP

A introdução do Programa Novotec em São Paulo vai criar uma maior estratificação no Ensino Médio. É o que analisam Evaldo Piolli e Mauro Sala no artigo: O Novotec e a implementação da Reforma do Ensino Médio na rede estadual paulista, que aparece na revista Crítica Educativa.

“O artigo analisa o processo de implementação da Reforma do Ensino Médio, a partir do programa Novotec que introduz o itinerário profissionalizante no sistema público estadual de ensino paulista. Aborda as interfaces desse programa com as Escolas Técnicas Estaduais (ETC´s), as escolas do Programa de Ensino Integral (PEI) e o Programa Inova Educação. Concluímos que o Novotec e esse conjunto de programas irão criar uma maior estratificação hierárquica no Ensino Médio do estado, contribuindo para uma formação desigual da força de trabalho para um mercado de trabalho cada vez mais precarizado.”

Acesse aqui.

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E segue a desconstitucionalização de direitos

Agora, o governo não quer mais construir escolas com a finalidade de reduzir a desigualdade regional. PEC desobriga poder público: a retirada do Estado tem por objetivo ampliar a privatização na educação; trecho retira do Orçamento função de reduzir desigualdade regional.

Leia aqui.

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Constitucionalização da barbárie, privatização e meritocracia

As medidas do governo Bolsonaro estão sendo acompanhadas por Projetos de Emendas Constitucionais – PECs – de forma a eternizar na Constituição as características distintivas do conservadorismo e do neoliberalismo. Especialmente no caso da economia, trata-se de blindar o livre mercado pela Constituição, de forma que as demandas provenientes das lutas populares dificilmente possam ser acatadas pelo Congresso.

A mais nova ideia a ser enviada ao Congresso atual é a relativização do papel do Estado na garantia dos direitos sociais, o que deverá conduzir à ampliação das áreas disponíveis para privatização e legitimar a transferência de recursos públicos para o setor privado, via mecanismos de atenção mínima (vouchers, por exemplo).

O artigo 6º da Constituição diz:

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a Previdência Social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

O governo Bolsonaro está propondo introduzir na Constituição Federal um dispositivo que condiciona estes direitos sociais à existência de recursos financeiros do Estado.

Leia mais aqui.

Leia a PEC aqui.

A consequência desta mudança é limitar o alcance do artigo sexto e estabelecer que os direitos, para serem exercidos, dependem da existência de recursos disponíveis. Ou seja, tais direitos passam a ser problemas pessoais que devem ser resolvidos por cada um no mercado. Direitos são convertidos em serviços a serem adquiridos segundo a possibilidade de cada um (por seu próprio mérito), sendo, portanto de responsabilidade pessoal e não mais de responsabilidade do Estado. O Estado pode até ajudar, mas de acordo com seus limites orçamentários.

A mudança incentivará o acesso a estes direitos pela via do mercado, na forma de “serviços”, ampliando a privatização. A ideia é incentivar a privatização pela omissão do Estado, combinada com atendimento mínimo, sensível a quanto dinheiro o Estado  tenha, sem pressionar cobranças de impostos.

No caso da educação, incentiva a abertura da área para a emergência da privatização por terceirização de escolas e pela introdução de vouchers, que permitem ao Estado definir um limite máximo de ajuda ao cidadão para que ele cuide da educação dos filhos. Os vouchers permitem pagar um certo nível de escola, a partir do qual, se ele desejar algo melhor, deve complementar com recursos próprios. Enquanto as elites complementam e pagam ingresso de seus filhos nas melhores escolas, os mais pobres só têm a escola pública (agora dilapidada pela transferência de recursos para a iniciativa privada) ou particulares de média e baixa qualidade para matricular seus filhos com o dinheiro do voucher (Treviño, 2018).

O Estado se desobriga de garantir educação de qualidade para todos, sendo esta uma questão para o indivíduo resolver dentro da lógica do mercado, na dependência de quanto dinheiro cada um carrega no bolso.

A privatização da educação tem a função adicional de permitir, pela vivência da lógica do mercado, a introdução da figura de “ganhadores e perdedores” no âmbito da educação. Ela permite a vivência do jogo da concorrência e do empreendedorismo, guiado pela meritocracia excludente. A educação, alojada no mercado, forma a juventude segundo a lógica deste mercado. A meritocracia, em sua aparência democrática, exalta os “ganhadores” e justifica a posição de “perdedores” como falta de mérito. Desigualdades sociais são reconvertidas em desigualdades de mérito – sendo, portanto, legitimadas.

A mudança visa dotar os governos em todos os níveis da federação de uma justificativa legal para promover a barbárie. É possível ver na medida o reflexo da visão neoliberal que considera que isso levaria o povo a se motivar e a pensar no futuro, ao invés de depender do Estado – afinal, o pobre também precisa apender a poupar e não a gastar tudo que ganha. Ele precisa “evoluir”.

A constitucionalização da barbárie induz um processo de privatização, o qual induz à vivência da concorrência e da meritocracia. Esta, por sua vez, justifica a barbárie, realimentando todo o círculo. Sob pressão da crise sistêmica do capitalismo, este círculo vicioso se converte em uma espiral de violência proto-fascista que se não for interrompida, levará a formas fascistas de organização social.

A constitucionalização da barbárie, mascarada de boa economia, esconde todo o darwinismo social que orienta as teses deste liberalismo radical. Suas bases bem poderiam ser explicadas pelo pensamento de Herbert Spencer em suas queixas contra o Estado em meados do século 19:

“Os pobres merecedores estão entre os que são taxados [com impostos] para apoiar os pobres indignos. Como sob a velha Lei dos Pobres, o trabalhador diligente e previdente tem que pagar para que a pessoa inútil não sofra, até que, frequentemente, sob este fardo extra, ele mesmo se desmorona e tem que refugiar-se no abrigo [de pobres] (…). (Spencer, H. (1892) O Indivíduo contra o Estado, posição 1719.)

Para Spencer, é lícito que a família ajude os filhos até uma idade em que possam construir sua vida, de forma a preservar a espécie; é lícito também que um indivíduo decida (com seu dinheiro) ajudar outra pessoa, embora isso não seja recomendado sem alguns cuidados; mas não é lícito que o Estado arrecade impostos de uns (bem-sucedidos) para ajudar a outros (mal-sucedidos).

Para ele, o sofrimento tem uma função adaptativa e a mitigação deste pode interferir com as leis naturais da evolução. Se isso ocorre:

“Em vez de diminuir o sofrimento, acaba aumentando. Ela favorece a multiplicação daqueles que são os que pior se adaptam à existência e, por conseqüência, impede a multiplicação daqueles que melhor se ajustam à existência – deixando, assim, menos espaço para eles. Tende a encher o mundo com aqueles a quem a vida trará mais dor, e tende a manter fora dele aqueles a quem a vida trará mais prazer. Inflige a miséria positiva e impede a felicidade positiva. ”- Social Statics, pp. 322-5 e pp. 380-1 (edição de 1851). O lapso de um terço de século desde que essas passagens foram publicadas, não me trouxe nenhuma razão para me retirar da posição assumida nelas.” (Idem, 1892, posição 1657.)

Esta filosofia ensina que o sofrimento tem um lugar na evolução da humanidade e sua mitigação além de interromper tal evolução, somente pode ser feita por via filantrópica e nunca pela ação arrecadadora de impostos do Estado que, ao proceder assim, penaliza exatamente aqueles que, por serem esforçados e mais evoluídos, injustamente sofrem tanto quanto os imprevidentes e desmotivados que não evoluíram – leia-se que não se esforçaram e que, portanto, não têm mérito. Estes são uma sub-categoria de “cidadãos” sem mérito e portanto, podemos agregar, considerados sem direito a direitos (Gamble, 1988).

Esta forma de ver a sociedade e que se quer agora constitucionalizar, tem a ver também com as reformas que estão sendo induzidas na educação. É lá que se está preparando a juventude para aceitar esta visão, seja pela reforma empresarial, seja pela militarização. Para Spencer:

“O professor da velha escola que mostrou ao seu aluno o caminho para sair de cada dificuldade, não percebeu que estava gerando uma atitude mental que jogava contra o sucesso na vida. O professor moderno, no entanto, induz seu aluno a resolver suas dificuldades acredita que, ao fazê-lo, está preparando-o para enfrentar as dificuldades para as quais, quando ele for ao mundo, não haverá ninguém para ajudá-lo, e encontra confirmação para essa crença no fato de que uma grande proporção dos mais bem-sucedidos se fizeram por si mesmos. Bem, não é óbvio que essa relação entre disciplina e sucesso seja boa em nível nacional? (Spencer, H. O indivíduo contra o Estado, 1892, posição 2538.)

O mundo spenceriano é um mundo do “empreendedor de si mesmo”, vivente da concorrência que o desenvolve e o faz evoluir. Não é um mundo da solidariedade e a escola deve preparar seus estudantes para esta falta de solidariedade no mundo da competição natural. O ser humano não deve ser preparado para mudar este mundo descrito por ele, mas sim deve aprender a viver nele – deve adaptar-se a ele para sobreviver e fazer evoluir sua capacidade de adaptação às mudanças.

Esta ideia de valorizar o sofrimento (resiliência?) como evolução é que informa a ideia do liberalismo radical de impedir a ação equalizadora do Estado, pois isso, além de prejudicar a evolução de alguns, levaria a ampliar as funções do Estado, exigindo maior cobrança de impostos dos outros mais evoluídos, os virtuosos ricos.

É isto que significa constitucionalizar a visão de que os direitos sociais passam a depender da situação econômica do Estado (o que permite ter espaço para desonerar o capital, diminuir impostos). Os direitos sociais não têm valor, em si mesmo, como peça de equalização da participação de todos na arena política. A participação se dá no mercado.

A participação está reservada aos esforçados e meritosos. Qual o papel do Estado, então? Garantir a vida, no sentido de proteger da agressão de outros Estados; garantir a liberdade, no sentido de poder empreender por si mesmo, e garantir a propriedade acumulada durante a vida pelo uso da liberdade – quando acumulada. Mais que isso o Estado não deve fazer, pois interfere com a lógica suprema do livre mercado que a tudo ilumina e faz evoluir sob o lema de que a cada um se dá segundo sua contribuição no mercado (Streeck, 2016).

O liberalismo centrista que emergiu no final do século 19 (Wallerstein, 2011) e que ampliou as funções inclusivas do Estado com a noção do cidadão de direitos iguais, uma proclamação nem sempre cumprida, reconhecia que os direitos sociais viabilizariam a maior participação de todos nos processos decisórios políticos. Bem ou mal, realidade ou ficção, assume que todos têm direito a participar (independentemente de seu QI e de suas posses) e que para tal, garantir alguns direitos sociais e políticos são fundamentais para aumentar e viabilizar tal participação – por exemplo, garantindo a todos educação básica, permite-se que seja aumentada a qualificação da participação. Portanto, os direitos sociais também viabilizam o exercício dos direitos políticos.

Para o atual governo não interessa maximizar a participação política e portanto, não há interesse nos direitos sociais que viabilizam tal participação. Para governos autoritários (e nisso tanto conservadores como neoliberais convergem) o inimigo da boa economia é a participação popular, a qual é guiada por políticos “corruptos” e corporativistas (usualmente sindicalistas) que promovem a destruição do livre mercado, impedindo o crescimento econômico de todos, ao atender as pressões da participação popular. Nada melhor, então, do que cortá-los condicionando-os à situação econômica. Fornece-se, dessa maneira, a base jurídica para o autoritarismo governamental. O estado de exceção é perenizado na Carta Magna. O livre mercado é constitucionalizado, como recomendava James Buchanan em seus estudos financiados pelos irmãos Koch (MacLean, 2017)

Como a fase atual do capitalismo é a de uma crise sistêmica permanente (Meszaros, 2009; Wallerstein, 2011) para a qual não se viabiliza nenhuma forma (incluindo o neoliberalismo) de sair dela, interrompendo o circuito baixo crescimento/desigualdade que conduz a mais desigualdade/baixo crescimento (Streeck, 2016), é claro que o Estado estará em permanente crise e, portanto, permanentemente negando os direitos sociais à maioria da população, agora com a Constituição a seu favor.

Enquanto isso, a título de aumentar o crescimento da economia (leia-se rentistas e produtores) se argumenta que o capital deve ser apoiado pelo Estado, com a desculpa de que gerará empregos (reconhecidamente precários), sendo legítimo desonerar a produção e diminuir impostos que, a exemplo do que faz Trump nos Estados Unidos, favorecem amplamente as elites.

O Estado, com esta constitucionalização da miséria, assume, dessa forma, um lado claro: apoio ao capital (e as elites) como forma de subsidiá-las durante a crise sistêmica do capitalismo. Isso é claramente a constitucionalização do “darwinismo social” – antessala do fascismo. Estamos assistindo o fim do capitalismo “democrático” (Streeck, 2016) e a emergência do capitalismo autoritário.

O papel da educação está definido pela reforma empresarial da educação: pela meritocracia dos exames e das provas – deve permitir a vivência do individualismo concorrencial que destrói a formação da solidariedade. A introdução da concorrência nas salas de aula permite constituir nos jovens a base do descarte do outro pela destruição da solidariedade. Os estudantes passam a não ter companheiros de turma – mas apenas concorrentes. E concorrentes devem ser eliminados e não ajudados.

Na proposta a ser enviada ao congresso para alterar o Artigo 6º. ainda será possível ler:

“Será observado, na promoção dos direitos sociais, o direito ao equilíbrio fiscal intergeracional”.

Este discurso oportunista faz eco a outra argumentação de Spencer na qual ele diz:

“Evidentemente, deve-se admitir que a hipótese de um contrato social, seja sob a forma assumida por Hobbes ou sob a forma assumida por Rousseau, não tem fundamento. Mais ainda, deve-se admitir que, mesmo que esse contrato tivesse sido constituido, não poderia ser obrigatório para além daqueles que o constituiram.” (Spencer, H. (1892) O Indivíduo contra o Estado, posição 2723.)

O objetivo, portanto, é redefinir o contrato social vigente. Um contrato social que garante a inclusão, segundo esta visão, seria autoritário ao impor sacrifícios intergeracionais.

É uma maneira engenhosa de roubar o bem-estar das gerações futuras, alegando que não podemos decidir por elas. No entanto, ela oculta que a juventude, de forma intergeracional, já está, simultaneamente às gerações mais velhas, participando dos mecanismos de definição da vontade geral, pois vota nas eleições nos seus representantes.

Tudo se passa como se estes seres iluminados pelas teses neoliberais houvessem descoberto as regras do bom desenvolvimento econômico, que querem eternizar agora na Constituição, e que conduziriam ao progresso geral. É como se não fossem representantes dos interesses das elites que, cientes da crise do capitalismo, promovem a destruição do Estado da “vontade geral”, inclusivo, ainda que precariamente espelhado na modesta democracia liberal representativa, para reservá-lo ao atendimento dos seus próprios interesses, reservando o que resta dele, para os propósitos acumulativos da elite e de seus filhos.

O que Guedes reinvida é o “direito” de impor às futuras gerações, unilateralmente, a aceitação das teses do neoliberalismo – hoje e sempre, de maneira que fiquem a salvo das pressões que as lutas populares farão sobre o Congresso. Trata-se de constitucionalizar o “livre mercado” e as teses neoliberais ou, se quisermos dizer o mesmo pelas consequências desta decisão, trata-se  de constitucionalizar o “bem-estar” das elites e a miséria da grande maioria da população.

O que as elites não conseguem ver é que enquadrando a sua própria juventude nos limites estreitos de uma meritocracia excludente e permanente, os vencedores deste jogo, seus próprios filhos, estão entrando em uma armadilha autodestrutiva (Morkovitz, 2019).

O sistema capitalista “crachou”, como se diz em informática. Faliu. E as elites resolveram cuidar apenas de si mesmas, e pensam que, com isso, estão  garantindo o bem-estar para elas e seus filhos – hoje e sempre. Para tal, tiveram que tomar o Estado de assalto e reservá-lo para si mesmas. Nisso coincidiram os interesses, por diferentes caminhos, de conservadores absolutistas e neoliberais autoritários.

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Obs.: A bibliografia pode ser encontrada neste blog, na página Bibliografia.

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CNE aprova Base Nacional da Formação

“O Conselho Pleno e a Câmara de Educação Básica do CNE, em sessão extraordinária conjunta aprovaram, no dia de hoje, 07 de novembro, o Parecer e a Resolução que define as Diretrizes curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica e institui a Base Nacional Comum de Formação Inicial de Professores da Educação Básica. 

Revogada, portanto, a Resolução 02/2015, para aquelas instituições que ainda não a implementaram, resguardando os direitos daquelas que iniciaram o processo com prazo de 02 anos para se adaptarem.  Nesse processo, atingem duramente a autonomia das instituições universitárias quanto à suas propostas curriculares, uma vez que esta Resolução é muito mais prescritiva do que a DCN 02/2015 e o Parecer em sua 3a. versão se referencia em experiências de outros países que vêm implementando as politicas neoliberais que aprofundam a exclusão e a segregação escolar, conforme já analisamos em posts anteriores.”

Leia aqui.

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Vinhedo (SP): coletivo divulga carta

O Coletivo de Professores em Defesa da Educação Pública, de Vinhedo (SP) , divulga carta aberta onde condena a “omissão, contradição e perseguição” contra professora que tratou da questão da violência contra a mulher em sala de aula. Entre outros aspectos, a nota ressalta que:

“A Secretaria de Educação não prestou qualquer apoio institucional diante das agressões de que a professora foi alvo e nem teve nenhuma iniciativa de se posicionar e promover um debate público diante do ocorrido”.

Leia a íntegra  aqui.

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“SAEB americano” mostra desastre das receitas

Saíram os resultados do que se poderia chamar de “SAEB americano”, ou seja, uma avaliação da educação básica americana – lá feita de forma amostral, pois são os estados que fazem as avaliações censitárias.

Diane Ravitch comenta os resultados da avaliação americana:

“Depois de uma geração de reformas destrutivas – “Nenhuma criança deixada para trás” e “Corrida para o topo”, Avaliação do professor por valor agregado e Base Comum – após uma década ou mais de desinvestimento na educação, depois de anos de agredir e desmoralizar professores, a Avaliação Nacional do Progresso Educacional (NAEP) para 2019 mostra os resultados:

Na última década, não houve progresso no desempenho em matemática ou  leitura, e os alunos com pior desempenho estão piorando”, disse Peggy Carr, pesquisadora associada do Centro Nacional de Estatísticas da Educação, que administra o NAEP.” De fato, no longo prazo em leitura, os alunos com menor desempenho – aqueles que mais sofrem – não fizeram progresso desde a primeira administração do NAEP, quase 30 anos atrás.”

Desde 2017, o desempenho da leitura caiu significativamente nas séries 4 e 8, com desempenho misto em matemática, com base nos resultados da Avaliação Nacional do Progresso Educacional de 2019, lançada quarta-feira. Algumas lacunas no desempenho entre raças se fecharam – em parte devido à queda na pontuação entre os estudantes brancos – e as diferenças entre estudantes com mais dificuldades, comparados com os de mais alto desempenho, continuaram a aumentar.

A secretária de Educação, Betsy DeVos, usou os resultados como uma oportunidade para solicitar mais terceirização e vouchers, embora a Flórida (seu estado modelo, com grande número de terceirizadas e voucher) tenha visto declínios significativos em leitura e matemática nas duas séries avaliadas.”

Leia mais aqui.

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Petróleo: leiloando o futuro da Educação

O Instituto de Energia e Ambiente da USP divulga importante Nota Técnica na qual demonstra que o leilão de campos de petróleo previsto para 6 de novembro próximo “fere o interesse nacional, ao passo que transfere aos agentes que venham a vencer o certame um montante substancial de recursos que poderiam ser utilizados em benefício da sociedade brasileira.”

No momento em que se discute o FUNDEB, principal fonte de financiamento da educação básica, é particularmente importante atentarmos para o desmonte do financiamento do Estado que está em curso.

O relatório estima os prejuízos:

“Para o cenário mais provável de volume máximo dos campos e preço do petróleo de 60 dólares por barril, a perda da União seria da ordem de 300 bilhões de dólares ao longo dos 30 anos da operação dos campos, sendo que a maior parte destes recursos são gerados nos anos iniciais do desenvolvimento da produção. Uma perda esperada para este caso, pelo fato da União se omitir de um investimento estimado em 111 bilhões, já abatidos dos 300 bilhões líquidos. Como esse investimento estimado é conservador, as perdas potenciais poderão ser ainda maiores. Ao cambio atual esses 300 bilhões de dólares correspondem a 1,2 trilhões de reais, uma vez e meia a economia preconizada pela reforma da previdência. Por outro lado, podemos ter uma dimensão do que significa esses ganhos, quando consideramos que o PIB brasileiro é da ordem de US$2 trilhões. ” (…)

Considerando todos os dados aqui expostos, a presente nota técnica conclui que o leilão programado para ocorrer no próximo 06 de novembro de 2019, para oferta dos recursos dos campos, fere a soberania e avilta o interesse nacional, na medida em que promove a renúncia do direito e da obrigação do Governo de manter o controle sobre ritmo de produção do petróleo, visando manutenção de seu preço no contexto geopolítico, e ainda causa prejuízos econômicos de grande magnitude à União e, consequentemente, à sociedade brasileira, que perderá recursos que poderiam estar disponíveis para avançar rumo ao seu desenvolvimento.”

Baixe a íntegra da Nota aqui .

Estes recursos poderiam estar financiando, entre outros itens, o desenvolvimento educacional dos brasileiros, ao invés de ir parar no bolso dos empresários.

Assinam a nota:

Ildo Luis Sauer é Professor Titular de Energia do Instituto de Energia e Ambiente da USP; Ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras (2003-2007), responsável pela formulação da reorientação estratégica da Petrobras, para dar ênfase à exploração e produção, promover inserção do gás natural na matriz energética como início da transição energética e investir no desenvolvimento de fontes renováveis de energia.

Guilherme de Oliveira Estrella é Geólogo, ex-superintendente do CENPES; Ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras (2003-2011), responsável pela condução dos trabalhos que culminaram com a descoberta dos recursos do pré-sal em 2006.

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