Educação Infantil está virando Ensino Fundamental

Recentemente, a Fundação Lemann enviou uma proposta de mudança para os estudos que estão definindo a base nacional comum da educação infantil no Brasil. Nela, propõe-se uma maior ênfase na alfabetização.

Diane Ravitch mais uma vez relata em seu blog estudos que mostram os efeitos deletérios da antecipação escolar proposta no Brasil pela Fundação Lemann e que evidenciam que as pressões por antecipar ambientes estruturados de aprendizagem voltados para habilidades escolares típicas da primeira série (hoje já iniciando-se aos seis anos no Brasil) produz efeitos nefastos na formação das crianças. Especialmente, porque não param nas proximidades dos seis anos, mas vão em cascata afetando os anos iniciais da pré-escola e até mesmo a creche.

Esta concepção induz a uma febre para “aproveitar janelas de desenvolvimento” criadas por teorias duvidosas do desenvolvimento infantil e que constituíram um mercado milionário para as empresas educacionais, transformando as crianças em cobaias de “inovações” supostamente ancoradas em neuro-ciência.

No referido post Diane mostra a que levam as pressões que o Common Core (algo como uma base nacional comum restrita a leitura e matemática nos Estados Unidos) e as pressões por antecipação dos testes que geralmente acompanham estes movimentos, conduzindo a mudanças que não são bem vindas para a formação das nossas crianças. Mencionando publicação do The Atlantic Magazine, por Erika Christakis, diz:

“Um estudo, intitulado “É o Jardim de Infância a nova primeira série?“, que compara atitudes dos professores de jardins de infância em todo o país entre 1998 e 2010, constatou que o percentual de professores que esperam que as crianças saibam ler até o final do ano havia subido de 30 para 80 por cento. Os pesquisadores também relataram mais tempo gasto com manuais e tarefas, e menos tempo dedicado à música e arte. O jardim da infância é, de fato, a nova primeira série, concluíram os autores melancolicamente. Por sua vez, as crianças que faziam uso dos anos do jardim de infância como uma transição suave para a escola estão, em alguns casos, sendo retidos antes que tenham a chance de começar. Um estudo de Mississippi descobriu que, em alguns municípios, mais de 10 por cento dos alunos das escolas de jardins da infância não foram autorizados a avançar para a primeira série.

“Até recentemente, habilidades de prontidão escolar não eram uma prioridade na agenda de ninguém, nem a ideia de que os alunos mais novos poderiam ser desqualificados para passar para uma fase posterior. Mas o jardim de infância agora serve como um “porteiro” e não como um tapete de boas vindas para a escola primária e as preocupações com a preparação para a escola começam cada vez mais cedo. Uma criança que se quer que leia até o final do jardim de infância deveria de fato estar se preparando na pré-escola. Como resultado, as expectativas, sem dúvida, que poderiam ter sido razoáveis para os mais velhos de 5 e 6 anos, como ser capaz de se sentar em uma mesa e completar uma tarefa usando lápis e papel, estão agora dirigidas às crianças ainda mais jovens, que não têm habilidades motoras e não têm a capacidade de atenção para ser bem sucedidas. “

“Salas de aula da pré-escola se transformaram em espaços cada vez mais tensos, com os professores fazendo ameaças de que as crianças devem concluir o seu “trabalho” antes que eles possam ir brincar.

“Novas pesquisas destacam aspectos particularmente inquietantes. Uma grande avaliação do sistema de financiamento público da pré-escola em Tennessee, publicado em setembro, encontrou que, embora as crianças que frequentaram pré-escolas inicialmente exibiram mais “habilidades de prontidão escolar” em relação às que não fizeram jardim de infância, durante a primeira série, no entanto,  as atitudes em relação à escola foram se deteriorando. E na segunda série se saíram pior em testes que mediram habilidades de alfabetização, linguagem e matemática. Os pesquisadores disseram à revista New York que a dependência excessiva de instrução direta e repetitiva, uma pedagogia pobremente estruturada, foram provavelmente as culpadas; crianças que tinham sido submetidas ano após ano às mesmas tarefas insípidas foram, compreensivelmente, perdendo seu entusiasmo pela aprendizagem estruturada. “

Segue o resumo da pesquisa:

“Recentes estudos sugerem que as pressões por accountability que hoje invadiram as primeiras séries e o jardim da infância são caracterizadas por um maior foco nas competências acadêmicas e uma redução de oportunidades para brincar. Este artigo compara as salas de aula do jardim de infância entre 1998 e 2010, utilizando dois grandes conjuntos de dados nacionalmente representativos. Mostra mudanças substanciais em cada uma das cinco dimensões consideradas: crenças dos professores de jardim da infância sobre prontidão para a escola, tempo gasto com conteúdo acadêmico e não acadêmico, organização da sala de aula, abordagem pedagógica, e utilização de avaliações padronizadas. Os educadores de infância no período posterior tinham expectativas acadêmicas muito mais altas para as crianças, tanto antes da entrada no jardim de infância como durante os anos de jardim de infância.

Eles dedicam hoje mais tempo à alfabetização avançada e conteúdo de matemática, instrução dirigida pelo professor e avaliação, e substancialmente menos tempo para arte, música, ciência e atividades selecionadas pelas crianças. As alterações foram mais acentuadas para as escolas que atendem altas proporções de crianças de baixa renda e não-brancas.”

Refletindo sobre a Finlândia, Erika diz no The Atlantic:

“Aqui está o que os finlandeses, que não começam uma instrução formal de leitura antes de 7 anos de idade, têm a dizer sobre a preparação de pré-escolares para ler: “A base para o início da alfabetização é que as crianças tenham atenção e ouçam … que elas tenham falado e conversado, que as pessoas tenham discutido [coisas] com elas … Que elas tenham feito perguntas e recebido respostas. “

Ou seja, há opções bem sucedidas ao estudo da Lemann. É preciso ter claro que a opção pela orientação Lemann reproduz caminhos que conduzirão a efeitos nefastos para a formação de nossas crianças, como de resto a pesquisa tem sucessivamente evidenciado.

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Goiás: “diálogo” dura pouco

A Secretária da Educação, Cultura e Esportes de Goiás, Professora Raquel Teixeira, enviou ofício à Saneago solicitando que fosse interrompido o fornecimento de água nas escolas públicas estaduais ocupadas por estudantes secundaristas, que lutam contra a terceirização das escolas públicas em Goiás.

Como se vê, a proposta de diálogo do governo de Goiás durou pouco. Já partiu para a repressão.

Neste momento já são 22 duas as escolas ocupadas.

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Goiás: 19 escolas ocupadas, 6 em Anápolis

“Estudantes de Goiás ocuparam hoje (dia 16) ao menos sete escolas da rede pública de ensino do estado. Eles são contra reformas anunciadas pelo governo estadual, que pretende transferir a administração das instituições de ensino estaduais para organizações sociais. Pelo menos 19 escolas estão ocupadas na capital, Goiânia, e no interior, segundo a organização do movimento.

As ocupações ocorrem em 10 escolas de Goiânia; duas de Aparecida de Goiânia; seis em Anápolis e uma em Cidade de Goiás. Inspirados nas ocupações ocorridas em São Paulo, as manifestações dos estudantes de Goiás começaram há uma semana, após o governador Marconi Perillo autorizar a formalização da parceria que transfere a gestão das escolas da rede estadual para organizações sociais, que são entidades privadas filantrópicas.”

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SP: video debate a reorganização

Segue o link de acesso ao vídeo do programa “Assembleia Convida”, que contou com a presença do deputado estadual Raul Marcelo e dos professores da Faculdade de Educação da Unicamp, Luiz Carlos de Freitas e Evaldo Pioli.

O programa foi gravado em um momento em que a luta contra a reorganização proposta pelo Governo Alckmin se desenvolvia, terminando por ser vitoriosa semanas depois. O vídeo também aborda questões relativas ao Plano Estadual de Educação que se encontra em tramitação na Assembleia Legislativa.

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Goiás: Educação da UFG é contra militarização e privatização

A Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás emitiu nota pública em que se coloca contra a militarização das escolas e a proposta do Governo de Goiás de entregar a educação estadual às Organizações Sociais.

 “A FE/UFG se posiciona contrariamente à militarização e à proposta de gestão escolar via OS por entender que não é por nenhuma dessas duas vias que o estado alcançará o objetivo de construir uma escola verdadeiramente pública, laica, gratuita e de qualidade para todos”, diz a nota.

Reivindicando os mais de 40 anos de experiência no campo da formação de professores e de pesquisa, a FE/UFG diz entender “que a gestão escolar via OS se constitui num processo de terceirização da oferta de educação pública e que a militarização das escolas é uma solução equivocada tanto para a suposta resolução do problema da violência nas escolas quanto para a melhoria da qualidade do ensino”.

 A nota, assinada pelo Conselho Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, pergunta:

“se o estado possui recursos para que OS e Polícia Militar administrem escolas, por que não investe estes mesmos recursos num projeto próprio, verdadeiramente público e democrático, de melhoria da qualidade da educação no estado?”

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Veja também que a Justiça de Goiás negou reintegração das escolas, solicitada pelo Governo.

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Novo livro

Acaba de ser publicado um novo livro:

The Global Testing Culture: shaping education policy, perceptions, and practice

GlobalTesting

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Goiás: já são 8 escolas ocupadas

Subiu para oito o número de escolas ocupadas em Goiás. O processo de privatização começará pela cidade de Anápolis e uma das oito escolas ocupadas está lá.

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Acompanhe aqui.

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BNC: o assédio à educação infantil

Era de se esperar. O tal movimento pela base, composto fundamentalmente por reformadores empresariais e simpatizantes, volta à carga com a inclusão da alfabetização na educação infantil. Querem alterar a base proposta para incluí-la.

“Não podemos ter medo de perder o lúdico ao incluir a alfabetização no ensino infantil” diz Denis Mizne, da Fundação Lemann.

Eles reuniram 150 especialistas e elaboraram um documento propondo antecipar a escolarização.

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Ensinar para o teste não é educar

A educação, como processo formativo, está sendo reduzida a aprendizagem nas teses dos reformadores empresariais. Não sabendo como lidar com a educação (uma relação ampla entre educandos e educadores) eles a reduziram a aprendizagem (um resultado do aluno, medido pelo seu desempenho em testes de habilidades e competências). Com esta redução, a noção de qualidade fica igualmente reduzida à pontuação que o aluno obtém. Toda a complexidade e riqueza da ação educativa desaparece e com isso, as soluções mágicas e as receitas, tomam lugar da boa educação. Ela pode ser terceirizada, ou como os liberais gostam de dizer “desestatizada”.

Uma vez eliminada a complexidade do fenômeno educativo, é fácil estabelecer que se a média do aluno sobe, temos boa educação. Igualmente, se ela desce, temos má educação. Essa simplificação é uma ação fundamental para viabilizar a privatização por terceirização de gestão das escolas.

A privatização da educação via transferência de gestão para a iniciativa privada, no modelo escolas charters americano, é uma modalidade de privatização via contrato de gestão. Para evitar chamar de privatização, algo que politicamente não convém, constrói-se uma nova “interpretação” do que é considerado “público”. Entende-se por “pública”, em contraposição a “estatal”, uma escola que seja administrada por uma terceirizada, reservando-se a denominação de escola pública regular, que temos hoje, para a categoria “estatal”.

Para poder “terceirizar” é preciso que se estabeleçam metas e “regulação”. Os privatistas brasileiros consideram que o segredo está na “boa regulação”. Para eles, quando a privatização não vai bem é falha da regulação e não do conceito. Pensam que poderão fazer, no Brasil, uma regulação melhor do que foi feita nos Estados Unidos, Suécia, Chile etc. Eles farão melhor. Será a versão 3.0. É questão de fé ideológica.

É aí que jogam papel relevante duas iniciativas – IDEB e BNC – mencionadas acima. Sem elas, não há “objetividade” na contratação. Uma fixa quanto o IDEB tem que estar ao final do contrato de gestão em um determinado ano, e a outra estabelece o que é obrigatório para a terceirizada ensinar e avaliar em cada ano escolar.

Quando assumem uma rede, as Organizações Sociais contratam seus profissionais para a escola via CLT, sem estabilidade portanto. Alinham o professor, os objetivos de ensino, os conteúdos, os métodos (apostilado) e os testes (com treinos em simulados) e passam a ensinar para obter índices e médias em testes, estreitando o ensino das crianças em duas dimensões: primeiro estreitam a educação restringindo a atenção da escola às disciplinas que caem nos testes e depois, aos conteúdos e habilidades que são incluídos nos itens dos testes, e a tradição de testes anteriores se constitui em uma tradição de exame que orienta o que se ensina. Quem passou por cursinho sabe como funciona.

O que mais entusiasma os gestores do PSDB e outros é que, ao terceirizar, eles fazem um “contrato de índices a serem obtidos” e esperam dormir tranquilos aguardando os resultados. Não correm riscos com a lei de responsabilidade fiscal, pois os gastos com terceirizadas não entram no cômputo desta lei. E nem com a da responsabilidade educacional.

É, no entanto, o maior atestado de incompetência administrativa. Não tendo competência para educar a juventude, resolveram estreitar a educação através de uma BNC conteudista e fixa, e apostar no ensino para o teste. Alinham o conteúdo ao teste, treinam as crianças como se fosse um cursinho preparatório e “batem a meta”. De quebra se apresentam à sociedade como “competentes”, pois aumentaram a média dos índices.

A questão é que aumentar médias em provas restritas em que os alunos respondem fazendo “x”, não é sinônimo de boa educação. É mero treino para o teste.  E ensinar para o teste, não é educar. Quanto mais rapidamente professores, pais, estudantes e gestores se derem conta deste engodo que está sendo vendido pelos políticos ao povo brasileiro, mais rapidamente superaremos esta farsa que se instala na nossa educação – como de resto acontece em vários outros espaços da vida nacional.

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Goiás: começa a ocupação de escolas

Escolas de Goiás começaram a ser ocupadas em defesa da escola pública de gestão pública, contra a terceirização. No link acima pode ser vista a primeira ocupação. Durante o dia este número já aumentou para três escolas ocupadas.
A exemplo de São Paulo, Goiás começa a defender suas escolas.
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Goiás: Secretária “cria” justificativas para aventura privatista

Em entrevista na Folha de São Paulo, a Secretaria de Educação de Goiás, Raquel Teixeira, “cria” argumentos com a intenção de justificar a privatização da educação naquele estado. Afirma, por exemplo, que:

“apesar de Goiás ter a melhor rede estadual do país no ensino médio, a qualidade é baixa (9% dos alunos têm conhecimento adequado em matemática).”

A despeito da incongruência da afirmação (é uma das melhores, mas de qualidade baixa) a Secretária, a partir de uma disciplina, matemática, julga todo o trabalho da rede e conclui que ela tem baixa qualidade. O dado de que matemática no ensino médio tem apenas 9% de alunos com aprendizagem na categoria adequada, tem que ser visto no conjunto do que é a educação no Brasil e em Goiás, e não isolado para argumentação oportunista. Este dado parece ter sido veiculado errado pelo Jornal. Ele não está publicamente disponível, porque no ensino médio a avaliação é amostral e não censitária como no 5o. e 9o. anos. É provável que ele se refira à matemática na 9a. série do ensino fundamental, onde então faria sentido e não no ensino médio.

No caso da rede de ensino fundamental, Goiás bate todos os demais estados parceiros da região Centro Oeste (bate também o próprio estado de São Paulo), em porcentagens de alunos proficientes em português e matemática, tanto na 5a. como na 9a. série, além de estar acima da média brasileira.

No ensino fundamental, anos iniciais, Goiás quase atingiu a meta do ideb de 2021. No ensino fundamental, anos finais, já atingiu a meta de 2015 em 2013. E no ensino médio é o melhor índice do Brasil, tendo atingido a meta de 2015 em 2013. (Veja aqui material disponível.) Mas para justificar privatizar, é preciso dizer que não está bom.

A Secretária deveria parabenizar a rede por produzir resultados em meio a um passivo histórico que inclui os professores temporários que ela admite serem 30% da rede. Ao contrário disso, dá como recompensa, a aventura privatista. Nós não acreditamos em testes como medida de qualidade, mas os reformadores acreditam, portanto, nos critérios da medida que eles escolheram, as escolas estão se saindo bem.

O mesmo vale para a seguinte observação constante da entrevista:

“Desde então [1999] aumentaram os recursos para a educação e os salários dos professores, a gestão democrática. Não foi suficiente para melhorar o ensino.”

Claro que melhorou. É só olhar os dados apresentados. Além disso, a Secretária não cita nenhum estudo que dê suporte à sua constatação de que não foram suficientes as medidas tomadas antes. Como já disse, a Secretária admite a existência de 30% de professores temporários, portanto precariamente contratados e este é um exemplo de ação predatória sobre a aprendizagem das crianças que não pode ser retirado de cena. Serão mais precarizados ainda, ao serem transferidos para as terceirizadas. Enfim, não há estudo que referende as afirmações da Secretária quanto à alegada má qualidade da rede estadual de Goiás ter sua origem em políticas anteriores que não deram certo, como a gestão democrática e aumento de salários, por exemplo. Não só os dados não mostram isso, como não possui estudos científicos sobre a afirmação.

A evolução conseguida pela educação fundamental em Goiás é clara quanto aos progressos que têm sido obtidos. O quadro abaixo mostra o acréscimo em porcentagens:

 
BRASIL  2011
GOIÁS 2011
BRASIL 2013
GOIÁS 2013
PORTUGUÊS 5 +4 +8 +7 +11
PORTUGUÊS 9 -1 +3 +2 +7
MATEMÁTICA 5 +2 +6 +6 +13
MATEMÁTICA 9 +1 +3 0 +5

A entrevista configura a tática de mostrar para a população uma crise na educação de Goiás que venha a justificar a privatização.

E a receita está dada: se uma OS não conseguir, chama-se outra, diz a Secretária. A questão, portanto, não é a qualidade da educação de Goiás e sim, como “bater meta” acima das metas atuais. Neste processo, já se pode imaginar que as escolas que estão abaixo da meta serão alvos preferidos da Secretária e estão na primeira fila das que serão terceirizadas para a iniciativa privada. Tendo fracassado com estas, o estado as abandona à própria sorte. A segregação escolar vai aumentar com a terceirização.

A Secretária, em um profundo desrespeito a centenas de professores que lutam em suas salas de aula para chegar a estes resultados, não vê nenhum problema em dizer que o estado é o melhor mas não tem qualidade. Escolhe uma disciplina em um determinado ano (matemática) para criticar a rede e esquece todo o esforço aplicado até agora. E mais, sugere que o que foi feito até agora não melhorou o ensino. Isso para que possa escolher a privatização como a salvação da lavoura em Goiás. Tudo baseado em sua opinião, sem citar um único estudo sério.

A Secretária não foge à regra alarmista dos reformadores empresariais: descrever o caos para justificar remédios duvidosos baseados na introdução da lógica da iniciativa privada nas escolas.

Curiosamente, são as escolas particulares em Goiás que não atingem as metas. Somente conseguem atingir metas no ensino fundamental dos anos iniciais. Nos anos finais e no ensino médio não atingem as metas do IDEB previstas para elas.

A entrevista ainda apresenta uma “inovação” conceitual:

“Às vezes há o entendimento de que estamos chamando empresário para privatizar a educação. Nada mais longe da verdade. Empresário pode ficar rico. Mas ele tem o lado humano, filantrópico, social, quer ajudar. Eles estudam economia, administração. Entendem mais de administração do que nós, educadores.”

Esta manifestação bem que comportaria uma resposta da ANPAE, que reúne profissionais da administração escolar. Como argumento complementar, a Secretária diz que os diretores atuais das escolas que venham a ser terceirizadas não serão mudados.

“Eles serão os mesmos e terão mais tempo para focar no pedagógico.”

Ou seja, foram transformados em “coordenadores pedagógicos” sob a tutela de uma Organização Social, com a desculpa de que não entendem de gestão. Serão subordinados à OS. Bela forma de reconhecer o esforço de seus diretores. No mínimo degradante. Uma recompensa pelo bom trabalho que fizeram por terem colocado a educação pública de Goiás no patamar em que ela está.

Nestas situações a argumentação para privatizar é sempre a mesma: não perderemos o controle pedagógico da escola. É como se a gestão da escola fosse uma coisa separada do processo pedagógico, coisa de profissionais específicos da OS. A administração é apenas burocrática. As escolas de Goiás vão ter um “interventor” para tutelar seus diretores “pedagógicos”.

A confusão conceitual continua:

“Privatizar é pegar um bem estatal e passar para entidade privada. Não estou passando escola para entidade privada, perdendo controle e permitindo lucro de uma empresa. Toda a orientação pedagógica é da Secretaria de Educação, o livro será o mesmo.”

É óbvio que não se pode vender uma escola para a iniciativa privada. Igualmente não se vendem as estradas, coloca-se pedágio. Ocorre que não é apenas a posse ou não dos prédios que definem a privatização, mas são as relações que ocorrem dentro dos prédios. As relações do setor privado são distintas das do setor público. O estado de Goiás está entregando à administração privada um bem público e isto chama-se privatização por concessão de gestão.

Quanto às empresas lucrativas, elas virão com o tempo. Neste momento, o mercado ainda está em construção. Primeiro virão as confessionais e as não lucrativas. Uma vez constituído o mercado, aparecerão as lucrativas.

Durante a entrevista, a Secretária deixa claro que está fazendo experimentação de má qualidade com a rede.

“É um piloto para observarmos a diferença de desempenho entre grupos, entre escolas”.

Respondendo se com os mesmos recursos passados a OS a escola pública não poderia melhorar, ela diz:

“É o que queremos observar. Veremos se a OS, com sua agilidade, pode ter resultado melhor.”

E se não melhorar. Se não melhorar, ela já deu a receita: chamamos outra. E mais outra. Até dar certo. Enquanto isso, destrói-se a educação pública e não se melhora a qualidade. Mergulha-se a educação de Goiás num cenário de competição entre escolas e OSs.

Os dados da experiência americana estão disponíveis para se saber que esta solução não melhorou a educação americana ou a sueca. Além disso, não é apenas uma questão de aumento de médias. Há todo um conjunto de efeitos colaterais que termina anulando os parcos resultados obtidos com esta estratégia privatista. Em 2403 escolas charters americanas estudadas em 2009, 83% tem o mesmo desempenho que as escolas públicas de gestão pública ou é pior que elas. Apenas 17% tem algum desempenho melhor. Apenas uma em quatro escolas charters ultrapassa o desempenho das escolas públicas regulares. (Veja material aqui.)

Não é ético se fazer experimentos com dezenas de escolas para ver se vai dar certo. Não se pode mexer com a vida de professores, pais, estudantes e gestores para ver se dá certo. Mais ainda se já temos os resultados disponíveis destas estratégias em outros países. Política pública se faz com pesquisa disponível. Já sabemos que a estratégia das charters não deu os resultados esperados, e pior ainda, produziu efeitos colaterais indesejados.

E para finalizar, aponte-se a mania nacional de fechar escolar. Como ela diz:  “Algumas escolas serão integradas [fechadas].”

Só para variar.

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Saldaña: post de Travitzki detona reorganização paulista

Post de Rodrigo Travitzki examina os argumentos da Secretaria de Educação de São Paulo para propor a reorganização das escolas. O post foi divulgado pelo Blog de Paulo Saldaña (Estadão) e pode ser lido aqui.

“Quando passei a levar em conta o nível socioeconômico das escolas, a relação entre ciclos e desempenho se inverte! Sim, o que parecia bom se torna ruim e vice versa. Os alunos de escola com único ciclo passam a ter, em média, 8 pontos abaixo dos outros – o que corresponde a 4% da média. Vale notar que as escolas com ciclo único apresentam, em média, um nível socioeconômico mais alto do que as outras”.

No post, Travitzki demonstra o equívoco típico destas teorias veiculadas pelos reformadores empresariais da educação: lidar com uma variável de cada vez, segundo seus interesses do momento.

Estas teorias, quando convém, definem a gestão como variável decisiva. Quando não, é a separação por ciclos. Só lembram de outras variáveis quando se trata de discutir salário e condições de trabalho. E mesmo assim, para voltar a enfatizar uma das anteriores. E assim, vão construindo explicações “ad hoc” para justificar seus interesses ligados à conversão da educação em mercado.

É assim que ocorreu em países onde estas ideias prosperaram. Basta ler como elas evoluíram por lá.

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Goiás: Fórum debate privatização

Os professores e estudantes de Goiás se reuniram hoje 08-12-15 em uma audiência pública, convocada pelo Fórum Estadual de Educação, com a finalidade de debater com a Secretaria de Educação a proposta de privatização de 30% das escolas por concessão de gestão a Organizações Sociais. A Secretaria esteve ausente.

O material que apresentei nesta audiência é colocado aqui para ser baixado pelos interessados.

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ANPED e ABdC criticam base comum

A Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação e a Associação Brasileira de Curriculum divulgaram posicionamento sobre a base nacional comum em desenvolvimento, enviando ofício ao Conselho Nacional de Educação, órgão que deverá examinar os trabalhos que estão sendo feitos pela Secretaria de Educação Básica do MEC.

Baixe o documento aqui.

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A luta dos servidores do Inep

Há pouco mais de uma semana, divulgamos aqui uma denúncia de que, aproveitando-se da necessidade de cortes orçamentários, pretendia-se redimensionar o INEP extinguindo diretorias e mudando funções do órgãos, vinculado à articulação com a Organização Social Cepraspe.

O presidente do INEP em carta aos servidores do INEP que um anônimo anexou neste blog, disse em 2-12 que:

“4 – A reestruturação preservará todas as atribuições institucionais desenvolvidas pelo Inep. A proposta de novo decreto a ser apresentada pelo Inep para o MEC deverá incluir novas funções, além das já estabelecidas no decreto de 2007, tais como as instituídas pelo PNE.”

Hoje, 6-12, os servidores voltam ao seu blog para atualizar a situação e dizem que:

“Na última segunda-feira de novembro, 30, a Associação dos Servidores do Inep (Assinep) foi informada pela Presidência da Autarquia que, em função da necessidade de se efetuar cortes de alguns cargos de confiança, o Instituto passará por uma reorganização: a extinção de três diretorias-fim e a organização delas em duas diretorias-fim, e a criação de uma diretoria-meio, responsável sobretudo pela logística de aplicação dos exames e avaliações. Isso seria definitivamente formalizado, por decreto, nas próximas duas semanas.
O projeto tem parentesco inegável com outro que o MEC tentou impor ao Inep em 2011. Nele, também se extinguiam e se reorganizavam as mesmas diretorias-fim e se criava uma diretoria-meio. No entanto, desta vez a Presidência da Autarquia propôs mudanças no Decreto n. 6.317/2007 que redefinem suas finalidades, de modo que, se implementadas, não apenas dificultariam o bom funcionamento do Instituto, mas, sobretudo, reduziriam a sua missão. Além disso, a reorganização de diretorias, extinguindo as atuais Diretorias de Avaliação da Educação Básica (DAEB), de Avaliação da Educação Superior (DAES) e a de Estudos Educacionais (DIRED), aglutinando-as em outras duas, não contempla todas as suas atuais atribuições sem transferir a nenhum outro setor da Autarquia, de tal modo que, na prática, também reduz a missão do Inep e pode comprometer processos cruciais, especialmente no campo da avaliação educacional, colidindo contra o Decreto, a Lei do Inep  e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação NacionalLei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.”

Os servidores também consideram que:

“Quanto a este último tema, embora a Assinep tenha, há tempos, formalmente requerido informações precisas sobre o contrato de gestão com a OS, o que se tem até agora são raras declarações, no mais das vezes, lacônicas. Ao informar, esta semana, por email aos servidores, que aguarda um novo parecer da Procuradoria-Geral Federal (órgão vinculado à Advocacia-Geral da União – AGU) que para dar prosseguimento ao caso, a gestão mostra-se interessada em superar o impasse gerado por pareceres técnicos – inclusive jurídicos – contrários à assinatura do termo aditivo do contrato de gestão com a OS Cebraspe. Ao lado disso, cabe perguntar por que não se informa quais são os valores previstos nesse novo acordo. Seriam bilhões? Em pleno ajuste fiscal? Por que até agora não foram apresentados todos os anexos do contrato de gestão assinado em fevereiro de 2014, bem como o seu Plano de Trabalho até 2019? São documentos de natureza pública.
Um governo empenhado com o diálogo, a transparência, a lisura e a boa-administração se manterá intransigente e imporá uma reorganização improvisada e de discutível sintonia com o Interesse Público? Como justificará essa insistência em enfraquecer uma instituição pública com quase 80 anos de serviço ao país e, ao mesmo tempo, fortalecer uma OS criada há menos de dois anos? Manterá esse desmonte do Instituto, com efeitos profundos e possivelmente deletérios para a política de educação?”

Leia mais aqui no Blog dos Servidores do INEP.

Enfim, tudo indica que o INEP está em risco, como parte da onda de reorganizações que temos assistido em vários lugares visando a redução do papel do estado, e está em risco também em relação ao papel que deveria estar cumprindo, maximizando suas funções de promover estudos e pesquisas e não ser apenas um coletor de informações e organizador de “big data”.

Já que agora não teremos mais os cortes emergenciais em face da aprovação das novas metas fiscais no congresso, subentende-se que a necessidade desapareceu. Inclusive porque com frequência se diz que a educação deve ser preservada.

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A entrevista de Joel Klein na Revista Exame

Não é sem razão que a Revista Exame veicula uma entrevista de Joel Klein, o ex-secretário de educação da Cidade de Nova York na era do prefeito Bloomberg, que também nos anos 2000 realizou várias reorganizações das escolas, a exemplo do que tentou fazer Alckmin em Estado de São Paulo.

Claudia Costin em recente entrevista também elogiou a atuação de Klein:

“Mas voltando  a Nova York e Washington, as duas grandes reformas foram as dessas cidades, e as duas deram resultados muito bons.  Com grandes  confrontos. Uma da pautas mais importantes em Nova York quando entrou o prefeito Bloomberg foi tirar as bonificações. Não houve pesquisa importante que mostrasse que o efeito era negativo.”

As duas entrevistas (de Costin e de Klein) são cheias de evasivas e de fugas dos temas mais conflituosos. Quem estava na reforma mencionada por Costin na Cidade de Nova York era Joel Klein e quem estava na de Washington era Michelle Rhee. A terceira pop-star dos reformadores empresariais americanos estava em Atlanta. Klein e Rhee escaparam de investigações. Não teve a mesma sorte Beverly Hall, em Atlanta,  que acabou indiciada e só não foi julgada por ter falecido. Hoje Joel Klein se dedica a viajar divulgando as suas ideias e a cuidar de uma das empresas que adquiriu de seu chefe Rupert Murdoch, e Michelle Rhee cuida de sua fundação “Students First”.

Não há evidência tendencial que suporte a fala de Costin de que os resultados destas aventuras em Nova York e em Washington tenham sido bons. (Veja estudo  aqui também) E há muitas ressalvas. Os modestos avanços no NAEP americano obtidos pela era Klein (2002-2009) não são diferentes de outras cidades que não usaram suas receitas milagrosas como Atlanta, Boston, Charlotte, Chicago, Cleveland, o Distrito de Columbia, Houston, Los Angeles e San Diego. Nos dois casos, depois de implementadas as reformas, os prefeitos perderam as eleições – Bloomberg depois de 12 anos no poder (Klein foi demitido antes). Nenhum destes reformadores estão no comando de redes de ensino hoje.

Na entrevista dada a Exame, Joel Klein comenta suas mudanças naquela cidade. Entre outras falas diz:

“Dividimos, por exemplo, uma grande escola, de 3 000 alunos, em seis outras com 500 estudantes cada uma. E demos aos pais e aos estudantes a opção de escolher. A Fundação Bill & Melinda Gates se entusiasmou por esse processo quando fizeram uma avaliação nacional de programas para resgatar as piores escolas e viram que nossa estratégia era a que funcionava melhor.”

Isto é apenas uma meia verdade pois a própria Fundação Bill Gates parou de incentivar esta estratégia. De fato, entre as cidades que tentaram esta estratégia a única que deu mais certo foi a administrada por Bloomberg tendo Klein como Secretário de Educação, devido à violência com que os princípios da administração da iniciativa privada foram transferidos para a área da educação. Uma máquina despótica de controle. Nas demais localidades que tentaram isso, houve fracasso. Para mostrar como a questão não é simples, cito  um estudo realizado pela própria Fundação Bill Gates nos Estados Unidos que diz:

“Quando os resultados das unidades menores criadas a partir de reorganização são calculados pela média, no entanto, temos encontrado pouco ou nenhum impacto sobre a frequência ou aproveitamento dos alunos. Os nossos dados qualitativos sugerem que a atenção e os recursos em muitas das escolas reorganizadas apoiadas pela fundação foram focados em mudanças estruturais e que as questões de currículo e instrução nessas escolas foram postergadas (Shear et al., 2005).”

O “sucesso” a que Joel Klein se refere não derivou das medidas implantadas por ele, como se constatou depois. Ele deixou o cargo após os testes do Estado de Nova York indicarem que as notas dos estudantes na avaliação do Estado mostravam uma realidade diferente daquela que aparecia nas provas da Cidade. As notas de Klein estavam infladas.

Afastado do cargo, dedicou-se a difundir suas receitas. Em 2012 esteve na Inglaterra fazendo consultoria. Foi ele também quem assessorou a Austrália e ajudou-a a copiar as receitas americanas para lá (Murdoch, seu chefe na área empresarial, é de origem australiana). Não me surpreenderia se ele aparecesse por aqui também com elas, depois desta entrevista divulgada pela revista Exame.

Na entrevista, faz-se referência a um livro de Klein onde ele apresenta o sucesso de sua política na cidade de Nova York, no entanto, esta não é a opinião do pesquisador Gary Rubenstein. (Veja estudo  aqui também.)

Contrariando resultados de pesquisas, Klein afirmou em 2010 que:

“O fator mais importante que determina se os alunos têm sucesso na escola não é a cor da sua pele ou seu CEP ou mesmo a renda dos pais – é a qualidade de seu professor.”

Klein sempre criticou o fato dos professores terem direito a aposentadoria, mas ao final de sua gestão na cidade de Nova York, angariou uma aposentadoria pela sua breve passagem pela Secretaria no valor de 34.000 dólares anuais.

Sobre as escolas charters, na entrevista mencionada, Joel Klein não evita as palavras:

“Uma mudança de paradigma que aposto que permanecerá [refere-se a Bloomberg ter perdido as eleições recentemente] são as escolas charter, administradas por uma entidade privada. Essas escolas dão às famílias mais pobres a possibilidade de escolher se querem matricular seus filhos numa escola pública tradicional do bairro ou num colégio público sob concessão privada. Essa liberdade de escolha tira o monopólio do governo.”

O cenário que pinta não é verdadeiro, pois as escolas públicas regulares em muitos locais são fechadas para serem transferidas para a iniciativa privada. A alegada escolha nem sempre é possível. Além disso, uma grande parte das charters opera por sorteio, ou seja, os alunos se inscrevem e são aceitos através de um sorteio. Muitos não ingressam e outros nem tentam, usualmente os mais pobres.

Para falar da “qualidade” das charters Klein limita-se à sua declaração de que são muito boas, mas não remete a nenhum dado empírico que dê suporte a suas afirmações. Mas os estudos existem e não corroboram suas afirmações. (Veja aqui também.) Ele apenas afirma e espera que o leitor acredite. Sobre suas reorganizações e outras receitas, o australiano Gary S. Stager, reagindo às influências de Klein naquele pais, diz:

“Klein mudou a estrutura organizacional do distrito tantas vezes que o caos se seguiu” (…) Qualquer pessoa com acesso ao Google poderia facilmente aprender que as alegações de Klein sobre aumentos milagrosos de pontuação nos testes foram desacreditadas por especialistas de todo o espectro político. Isto é particularmente trágico desde que sob a sua liderança, escolas de cidade de NY foram transformadas em fábricas dickensianas de exploração onde administradores assustados intimidavam professores criativos a seguir scripts curriculares a fim de aumentar as notas dos alunos. O Sistema de Relatório Escolar anunciado por Klein, com o qual ele pretendia envergonhar as escolas para aumentar os resultados dos testes, provaram ser inválidos ao classificar com notas baixas escolas nacionalmente reconhecidas pela sua excelência”.

E ainda:

“Entre em conflito com Klein ou um de seus impositores e você poderá ir  encontrar-se com outros 700 professores designados para o que é conhecido como “salas de isolamento” em toda a cidade. Ao invés de se envolver no processo de demitir professores acusados ou colocá-los em licença, Klein prefere humilha-los e puni-los antes de que qualquer culpa seja provada. Estes mais de 700 professores devem apresentar-se a um “centro de realocação de professores”, onde eles olham para um relógio durante todo o dia, cinco dias por semana. Se isso não fosse suficientemente kafkiano, Klein emprega psicólogos que usam duvidosas avaliações para determinar a aptidão dos professores para ensinar. Não importa que o sétima Corte Federal de Apelações considere isso como charlatanismo ilegal, obtenha um atestado de um bom médico e sua próxima parada será a “sala de isolamento”. Um educador veterano aclamado como “Professor do Ano” pelo prefeito Giuliani passou quase cinco anos indo diariamente a uma dessas salas”.

A transferência da experiência Americana para a Austrália, ao que parece, não deu muito certo pois este país está caindo nas avaliações do PISA. Os Estados Unidos nunca decolou no PISA.

Prepare seu estômago, este pessoal vai começar a desfilar por aqui.

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SP: Claudia Costin no lugar de Herman?

Um dos nomes que está sendo estudado para ocupar o lugar de Herman na Secretaria de Educação de São Paulo é o de Claudia Costin, que foi secretária municipal da cidade do Rio de Janeiro, hoje atuando no Banco Mundial (veja aqui o que ela pensa).

Para o caso do governador ter esquecido, lembremos que quando seu nome foi pensado para ocupar cargo no Ministério da Educação, houve um intenso protesto. Acabaram desistindo de nomeá-la. Outro nome é Alexandre Schneider que já esteve na secretaria municipal de São Paulo quando Gilberto Kassab foi prefeito de São Paulo.

Colocar Claudia Costin é o mesmo que tentar apagar fogo com gasolina. Certamente, deve ser a preferida dos empresários que cercam o Governo Alckmin.

Leia também aqui.

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Saldaña: governo revogará decreto (atualizado)

Atualização: o decreto de revogação foi publicado hoje, 5-12-15.

Segundo Paulo Saldaña (Estadão) apurou, o governo deverá revogar o decreto da reorganização das escolas paulistas ainda neste sábado. Os estudantes decidiram manter ocupações até que o governo faça gestos concretos de que a reorganização foi encerrada.

Leia mais aqui.

Isto, além da revogação do decreto que autoriza a movimentação de servidores entre escolas, poderá ter outras exigências como a não punição aos estudantes que ocuparam as escolas ou participaram de manifestações.

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Cai Secretário da Educação de SP

Herman já não é mais Secretário de Educação do Estado de SP. Abalado pelas manifestações e ocupações, responsabilizado pela queda de popularidade a níveis jamais vistos para Alckmin, o Secretário já estava de férias desde segunda feira e não deverá voltar para o cargo.

Leia mais aqui.

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Suspensa a reorganização em SP

Atualizado em 4/12 13:45.

O governador, acuado por manifestações estudantis de rua, ocupações de 200 escolas e manifestações de solidariedade que incluíram a Anistia Internacional, parece disposto a recuar em sua determinação de reorganizar e fechar escolas paulistas.

Não se sabia exatamente em que consistiria esta suspensão anunciada pela manhã. Há pouco mais de uma semana, houve anúncio parecido pela mídia que constatou-se depois ser mais uma manobra tática do que realidade.

Em entrevista, o governo  no entanto, embora mantenha o horizonte da reorganização, diz que pretende adiar para o ano de 2016 o debate da implantação. Não está dito se isso acontecerá nos primeiros meses ou se durante o ano todo. Com isso, o que o governo quer é  dividir o movimento e negociar com cada escola separadamente. A organização estudantil terá que estudar como lidar com esta tática.

No entanto, houve ganho:

“Alunos continuam nas escolas que estudam. Os debates serão feitos em 2016”, disse. “Recebi e respeito a mensagem dos estudantes e seus familiares em relação à reorganização. Por isso decidimos adiar a reorganização e rediscuti-la escola por escola”, acrescentou o governador.

O Secretário da Educação, Herman, está de férias desde segunda feira. Irene Miura é quem está assinando documentos da Secretaria. A negociação passou para a Casa Civil num claro gesto de descontentamento do governo com a atuação de Herman. Cogita-se que irá para o ITA.

Se isso for confirmado, teremos uma disputa interna novamente pela Secretaria da Educação e tudo indica que os empresários tenham se fortalecido nesta segunda gestão de Alckmin o suficiente para colocar um Secretário que seja da confiança do empresariado que cerca a educação paulista.

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MEC institui certificação de diretores

Foi publicada, hoje, Portaria 1.118 do Gabinete do Ministro da Educação instituindo programa de formação e certificação de Diretores. A Portaria cria também um conselho gestor entre MEC, Undime e Consed.

Baixe a Portaria aqui.

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SP: MP e Defensoria entram com ação contra reorganização

O Ministério Público do Estado juntamente com a Defensoria Pública do Estado ajuizaram ação contra a continuidade da reorganização das escolas paulistas. Ontem esta ação havia sido dada como provável, junto com outra que ocorreu no interior paulista.

Baixe aqui o texto da ação interposta no dia de hoje.

O Juiz deu 72 horas para que o governo se manifeste. A ação pede que:

a) Pede-se, por fim, a integral procedência dos pedidos, para que seja a requerida condenada a sustar os efeitos da reorganização escolar na Capital e em todo o Estado de São Paulo, garantindo-se que os alunos, em 2016, continuem matriculados e frequentando as escolas onde já estavam matriculados e frequentaram as aulas em 2015, garantindo-se o percurso educacional tal como previsto antes do anunciado plano de reorganização escolar, sem qualquer alteração administrativa quanto a transferência compulsória ou separação de ciclos, garantindo-se, em outras palavras, o fluxo educacional tal como se daria sem a implementação da reorganização anunciada;

b) Seja a requerida obrigada a não alterar a organização das escolas que seriam afetadas pela anunciada reorganização, preservando-se os ciclos e turnos de funcionamento e garantindo-se, inclusive, a matrícula de novos alunos – onde existam vagas, para o ano letivo de 2016;

c) Pleiteia-se, também, para que não reste dúvida, seja a requerida condenada a não fechar qualquer escola estadual – notadamente as 94 unidades apontadas no plano de reorganização escolar, mantendo-as em regular funcionamento ao longo de 2016, inclusive com recebimento de novas matrículas;

d) Pleiteia-se seja a requerida condenada a refazer a matrícula de todos os alunos que tenham sido compulsoriamente remanejados, de forma a que possam permanecer na escola que estudavam em 2015 e a que possam acessar a rede escolar em sua forma e extensão anteriores à reorganização escolar (transferências voluntárias e novas matrículas);

e) Seja a requerida compelida a estabelecer, a partir e ao longo do ano de 2016, agenda oficial de discussão e deliberações a respeito de política pública para a melhoria da qualidade da educação em São Paulo com as comunidades escolares, assegurando-se a participação de grêmios estudantis, Conselhos de Escola, Conselhos Municipais de Educação, do Conselho Estadual de Educação, além de organizar audiências públicas amplas, tendo em conta, inclusive, que tramita na Assembleia Legislativa o projeto de Lei do Plano Estadual de Educação e que, de acordo com o artigo 9º da Lei nº13.005/2014 (PNE), os Estados deverão aprovar leis disciplinando a gestão democrática até junho de 2016;

f) Seja fixada multa diária no valor de R$ 100.000 (cem mil reais) pelo não cumprimento do determinado nos itens anteriores, garantindo-se, especialmente, que os alunos continuem matriculados e frequentando as escolas onde se encontram, sem qualquer alteração administrativa quanto a transferência compulsória ou separação de ciclos, devendo a multa a ser recolhida ao fundo de que trata o art. 214 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que deverá ser corrigida no momento do pagamento.

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SNE: projeto tem substitutivo

O projeto 413/2014 sofreu movimentação com a entrega do voto do relator. Ele trata da criação do Sistema Nacional de Educação. O substituto procurou levar em conta tanto o texto do projeto da SASE, como o projeto da SAE, feito pelo Mangabeira. Resultou daí o substitutivo.

Baixe aqui o texto do substitutivo com o voto do relator.

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SP: professores da UFABC questionam reorganização

Documento da Universidade Federal do ABC, assinado pelos professores abaixo indicados, questiona a reorganização proposta pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo:

Marcos Vinicius Pó: Mestre e doutor em Administração Pública e Governo pela Fundação Getulio Vargas/SP. Professor adjunto do Bacharelado em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), dos cursos de Pós-graduação de Políticas Públicas e de Ciências Humanas e Sociais e coordenador da Comissão Própria de Avaliação da UFABC.
Erika Mayumi Kasai Yamada: Graduada em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP).
Salomão Barros Ximenes: Doutor em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor Adjunto do Bacharelado em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC). Coordenador do Bacharelado de Políticas Públicas da UFABC.
Gabriela Spanghero Lotta: Doutora em Ciência Política pela USP, mestre e graduada em administração pública pela FGV. Professora adjunta do bacharelado de políticas públicas e da pós-graduação em Políticas Públicas da UFABC. Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB) da UFABC.
Wilson Mesquita de Almeida: Doutor e Mestre em Sociologia pelo Programa de PósGraduação em Sociologia da Universidade de São Paulo. Professor adjunto da Universidade Federal do ABC (UFABC).

RESUMO-EXECUTIVO 

Desde a apresentação da Reorganização Escolar o secretário estadual de educação Herman Jacobus Cornelis Voorwald afirmou que uma das bases para a proposta de alteração na oferta de ciclos escolares era um estudo realizado pela Coordenadoria de Informação, Monitoramento e Avaliação Educacional (CIMA) da Secretaria Estadual de Educação, denominado “Escolas estaduais com uma única etapa de atendimento e seus reflexos no desempenho dos alunos”, que mostraria um melhor desempenho das escolas de ciclo único.

A presente Análise da proposta de Reorganização Escolar está dividida em duas dimensões: o estudo que a embasou e as questões que ainda estão nebulosas em relação à reorganização enquanto política pública. Concluímos que o estudo não apresenta elementos para fundamentar, nem sequer sugerir, as conclusões anunciadas pelo Secretário, pelos seguintes motivos:

  1. Não é mostrado nenhum embasamento teórico e/ou empírico que indique os mecanismos causais pelos quais a oferta de ciclos pode afetar a gestão e o desempenho escolar.
  2. A escolha da variável de desempenho não está justificada. Por que apenas o Idesp? Por que apenas os resultados de 2014?
  3. O estudo desconsidera outras variáveis importantes segundo a literatura da área de educação para explicar o desempenho escolar.
  4. Não é feito nenhum tipo de controle, qualitativo ou estatístico, para efetuar a comparação das escolas exclusivas e não-exclusivas, comprometendo ainda mais as ilações feitas entre oferta de ciclos e desempenho.
  5. Há inconsistências e indefinições no estudo quanto aos procedimentos e critérios para classificação das escolas, não permitindo aos leitores compreender em mais detalhes a comparação realizada.
  6. Não é mostrada nenhuma forma de significância estatística ou de cuidados quantitativos para os resultados da análise.

Além dessas objeções, há um conjunto de questões não respondidas na implementação da política pública de reforma educacional, relacionadas à mudança do perfil das escolas, aos aspectos administrativos, aos impactos na estrutura da rede escolar e ao acompanhamento e manutenção dos indicadores de desempenho. Todas as ações na área educacional devem ser tomadas com muita cautela, reflexão, transparência e debate público, embasado em evidências sólidas, uma vez que as consequências são verificáveis apenas no médio e no longo prazo. Todavia, não conseguimos verificar materiais ou evidências que detalhem os desdobramentos da atual ação e as medidas complementares que certamente serão necessárias. Dessa forma o debate fica inviabilizado e pouco transparente, o que aumenta consideravelmente a chance de que a política encontre problemas inesperados e dificuldades na sua implementação, podendo gerar consequências negativas para os estudantes e demais envolvidos.

Por esses motivos, recomendamos à Secretaria de Educação:

  1. Qualificar e aprofundar o embasamento técnico e os estudos da proposta de Reorganização Escolar.
  2. Aumentar a disponibilidade de informação sobre a Reorganização, detalhando a proposta e respondendo às questões levantados no item 3 dessa análise e outras que venham a ser apresentadas pelos atores e grupos envolvidos.
  3. Uma vez que tenha produzido e disponibilizado de forma transparente os embasamentos técnicos e os estudos de Reorganização Escolar, ampliar o debate público sobre a medida, propiciando e estimulando a participação de toda a comunidade.

Acesse aqui o texto original da Secretaria, objeto da crítica.

Acesse aqui o texto integral do documento dos professores da UFABC.

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O governador e o corporativismo empresarial em SP

O governador atacou as universidades paulistas porque suas Faculdades de Educação não apoiaram a ideia improvisada de reorganizar o sistema escolar do Estado de São Paulo. Bem ao estilo do que o Chefe de Gabinete do Secretário de Educação pediu que os Diretores fizessem com os alunos e professores que ocupam as escolas.

A educação paulista está sendo assediada por uma macartismo denuncista que fotografa pessoas, placas de carros, submete a pressões professores, funcionários e alunos no interior das escolas, aterroriza professores ameaçando de que não receberão salários pelo fato das escolas estarem ocupadas, corta bônus nas escolas ocupadas em ato retaliatório, pressiona pais e os joga contra os seus filhos, coloca a polícia ostensivamente na frente das escolas, quando não as utiliza para desocupar escolas e acabar com manifestações a poder de bombas de efeito moral. Há medo nas escolas, uma verdadeira máquina de aterrorizar, criada a pedido do Chefe de Gabinete do Secretário de Educação.

 No caso das Universidades, o governador tem dificuldade para entender que elas têm autonomia para se manifestar e que sua principal função é exatamente exercer a crítica do seu tempo e fazer avançar o conhecimento, visando prover melhores formas de lidar com os variados problemas que afetam a vida social e a natureza.

Universidades e seus pesquisadores não são quintais do governador do Estado que devessem ter alguma fidelidade às políticas públicas dos governos, ainda que possam muito contribuir com  sua formulação e sua crítica. E este é exatamente o problema existente.

Sem consultar ninguém, inclusive o sistema público de Universidades que o próprio Estado paga, preferiu ouvir consultorias privadas pagas por empresários que ofereceram a ele receitas milagrosas já fracassadas em outras plagas, para ressuscitar o moribundo sistema educacional do Estado que segundo seu próprio Secretário de Educação, é uma vergonha.

O Secretário ao proferir sentença de morte para o sistema educacional que administra, esqueceu-se apenas de que é o seu partido, o PSDB, que está no poder há mais de 20 anos no Estado e que, a vergonha que ele sente, deve-se à política traçada por este mesmo partido ao longo de sua longeva presença no poder estadual.

O governador não argumenta. Desqualifica o debate. Tudo na sua política educacional está correto: o que atrapalha são as Universidades, a APEOESP, os infiltrados, o MST, os invasores, os alunos, o Ministério Público etc. Com isso, tenta jogar uma cortina de fumaça, com ajuda da mídia, para ocultar a incompetência de sucessivas gestões tucanas. O governo apenas pede que em um “ato de fé” todos acreditem em suas boas intenções com a educação paulista, pois o que está fazendo é para “melhorar a educação”.

Ignora que está lançando uma grande confusão pelas comunidades do estado afora. Pais terão que gastar mais para que seus filhos se locomovam até as novas escolas designadas; crianças menores terão que transitar sozinhas por áreas desconhecidas e às vezes perigosas; alunos deixarão de frequentar a escola pois terão que locomover-se a maiores distâncias impedindo que saiam do trabalho e cheguem a tempo para as aulas; professores poderão ser demitidos; escolas deixarão de atender sobrecarregando outras que receberão seus alunos, aumentando o já vergonhoso número de alunos que o estado ostenta: em média 30 alunos no ensino fundamental e em média 40 no ensino médio.

A tudo isso o governador considera certo e quem estiver contra é porque é corporativista. Perde o Estado de São Paulo oportunidade de ouro para reduzir o número de alunos em sala de aula mudando de uma “média de 30 alunos” para “no máximo 30 alunos por sala”. Perde a oportunidade de, em áreas de risco e pobreza, reduzir o número de alunos em sala a 20. Para isso, precisará de mais professores e escolas e não de menos. Perde a oportunidade de ampliar as escolas para tempo integral. Perde a oportunidade de permitir que os professores tenham uma carga menor de aula e possam se aperfeiçoar e planejar melhor sua atividade.

Tudo isso, para o governador, é corporativismo. Para ele, só fazendo mais do mesmo, a educação paulista vai melhorar. Copiou a política de bônus usada na Cidade de Nova York. No ano passado, o Estado jogou pelo ralo 1 bilhão de reais em pagamento de bônus e a educação, segundo seu próprio Secretário, é uma vergonha. A Cidade de Nova York parou há tempos com esta bobagem importada da iniciativa privada, mas o Estado de São Paulo continua a jogar dinheiro no lixo.

Agora, o Estado resolveu importar a fracassada reorganização que Joel Klein realizou no início dos anos 2000 naquela cidade. Joel Klein deixou o cargo desmoralizado, pois os estudantes da Cidade de Nova York tiveram suas notas infladas para que o Departamento de Educação pudesse mostrar a eficácia de suas receitas milagrosas. Como podem as Universidades Paulistas apoiarem tal política?

Se o governador quer ser candidato em 2018 e precisa de um fato novo no moribundo sistema estadual, este não é o compromisso das universidades as quais devem ajudar aqueles que sejam bem intencionados a colocar em prática políticas públicas para as quais haja evidência empírica consistente.

A Secretaria de Educação sequer se deu ao trabalho de fazer um planejamento fundamentado em evidências que pudesse ser analisado pelas Universidades e pela comunidade em geral. Seu documento mais recente é um Decreto publicado no Diário Oficial com não mais de 20 linhas e um alegado estudo de 19 páginas mal feito e que não obteve apoio nem do Movimento Todos pela Educação, financiado pelos próprios empresários brasileiros. Mesmo este documento, precisou ser obtido pela lei de acesso à informação, compulsoriamente.

O governador está bravo pois não esperava a reação dos estudantes. Foi mal assessorado se é assim, pois as consultorias que o atendem, em especial a Mckinsey, foi quem trabalhou com Joel Klein em Nova York, e eles sabem que esta proposta ia ter resistência. Os estudantes estão dando uma grande lição ao governo. O governador conseguiu recriar o movimento estudantil no Estado. Por isso, temos que cumprimentá-lo. Depois das ocupações, a educação do Estado não será mais a mesma. Novas lideranças estão emergindo nesta luta.

Ao invés do governo Alckmin acusar as Universidades Paulistas, que o povo paulista financia, de serem “corporativas” só porque discordam das suas propostas infundadas, ele deveria aprender com elas, pois elas são mantidas com dinheiro público, e deixar de ouvir a plêiade de empresários-educadores improvisados que transitam pelos gabinetes do governo com suas ideias mirabolantes requentadas destinadas a privatizar a educação paulista e a abrir mercado.

Se há algum corporativismo aqui, ele está exatamente na atuação dos  empresários alojados na educação paulista que tentam aprisiona-la e coloca-la a serviço de seus interesses privados. Isso sim, governador, é corporativismo. E ele mora ao seu lado, não é preciso procura-lo nas Universidades Paulistas.

 

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Enquanto isso… Alckmin reduz orçamento da educação

O ajuste fiscal de Alckmin em São Paulo diminuirá pelo segundo ano consecutivo os recursos para a área da educação. São 28,4 bilhões, ou seja, 13,75% do total do orçamento, contra 13,87% gastos no ano que acaba, 2015.  Uma queda de 6,5%, ou seja 250 milhões a menos.

Veja matéria aqui.

A Consultoria Falconi que hoje está atuando em São Paulo, com as modificações que introduziu quando assessorou o Estado de Minas Gerais, produziu lá, 3 bilhões de excedente para investimentos.

Ou seja, não é uma reforma educacional que está em curso em São Paulo, é uma reforma administrativa com ajuste fiscal destinado a sobrar dinheiro para investimentos. Educação não é vista como investimento nas novas gerações e sim como gasto que precisa ser reduzido.

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Sakamoto: E se morrer um estudante?

“O governo do Estado de São Paulo resolveu entrar em guerra contra as ocupações de escolas públicas mantidas por estudantes insatisfeitos com o projeto que prevê o fechamento de unidades de ensino e a transferência forçada de milhares de alunos. Não sou eu que afirmo isso mas membros da própria administração estadual em uma gravação divulgada pelos Jornalistas Livres.

A força policial tem usado de violência para cumprir ordens, seja nos protestos em vias públicas, seja em unidades escolares – principalmente na periferia. Pois sabemos que a vida e a dignidade valem menos à medida em que nos afastamos do centro expandido da capital paulista.”

Leia texto completo no Blog do Sakamoto aqui.

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MP entra com ação contra reorganização em SP

A ação intempestiva de Alckmin decretando a reorganização levou a questão para os tribunais, judicializando a matéria. O decreto é um ato administrativo que agora só pode ser contestado na justiça. Deixa evidente tanto o ato como a indisposição para a negociação. Há perdas claramente visíveis para os alunos, suas famílias e as comunidades, se a matéria avança de forma intempestiva.

A justiça tem que proteger os indivíduos de uma ação autoritária do estado cujos alegados benefícios exigem do cidadão um “ato de fé no governo”, em nome de uma vantagem não demonstrada e de difícil superação dos prejuízos que causa. Atua corretamente o MP. Tudo que o governo tem feito é repetir que a medida “é para melhorar a educação”, sem trazer nenhuma evidência de que conduzirá a tal melhoria.

Não só os estudos para lidar com uma matéria complexa como esta são improvisados, como também a demonstração das vantagens. Contra o governo pesa o fato de ter feito uma reorganização em 1995 que fechou 155 escolas na época sem que isso ao longo do tempo tivesse se convertido em benefício – o próprio Secretário da Educação reconhece isso ao dizer que tem vergonha da educação do Estado hoje, depois de seu partido ter estado à frente dos governos por mais de 20 anos. Fracasso reconhecido.

A Cidade de Nova York, modelo que orienta a Secretaria da Educação, não melhorou devido a esta ação de reorganização. E não foi apenas uma vez que Joel Klein, então Secretário da Educação daquela cidade, reorganizou a rede. Foram pelo menos três reorganizações que deixaram a cidade mais desorganizada do que antes. No entanto, cumpriu a função de terceirizar a gestão das escolas para Organizações Sociais.

Lá ele adicionalmente adotou a fórmula de fechar escolas consideradas de baixo rendimento e transformá-las em escolas charters (terceirizadas). O radicalismo deste grupo que tomou conta da educação paulista, levará a isso. Joel Klein saiu desmoralizado do governo depois de se mostrar que os ganhos nos rendimentos dos alunos da cidade não eram produto de seus malabarismos, mas sim devido a ter inflado as notas dos estudantes durante este período.

Não há portanto, nenhuma base empírica consistente para a ação que o governo Alckmin está colocando em marcha. Por isso, devemos saudar que os promotores do grupo de educação do Ministério Público Estadual tenham entrado com uma ação contra a reorganização proposta por Alckmin em SP na região de Agudos e Presidente Prudente no interior paulista. Na petição o promotor Luiz Antonio Miguel Ferreira argumenta que:

“Ao que tudo indica, o governo estadual não está realizando uma reorganização visando à melhoria da educação oferecida pela rede estadual, mas sim uma reforma administrativa que visa reduzir gastos com a educação. Com isso, o impacto imediato da reestruturação será o fechamento de escolas”.

Correto. É uma reforma administrativa acompanhada de ajuste fiscal que permitirá ao governador, pela segunda vez, estagnar o orçamento da área da educação. Os promotores afirmam ainda que medida semelhante foi realizada em 1995 e tais medidas não promoveram a melhoria da escola pública estadual e nem de suas condições de ensino e trabalho.

Também o Ministério Público de São Paulo vai entrar com pedido de liminar solicitando a suspensão da reorganização na capital paulista.

“De acordo com o promotor João Faustinoni, do Grupo Especial de Educação (GEDUC) do MP de São Paulo, assim que a reorganização escolar foi anunciada pela gestão Alckmin, em setembro deste ano, o MP instaurou um inquérito para buscar uma interlocução entre o Governo e a comunidade escolar. “Mas, como os últimos acenos do Governo foram no sentido de que não há volta”, disse o promotor, “é possível que o MP entre com um pedido de liminar para a suspensão da reorganização”. Segundo a reportagem apurou, a liminar deve sair nos próximos dias.”

O grupo do MP também entende que houve falta de consulta às famílias dos alunos, os próprios alunos não foram ouvidos, não houve consulta aos conselhos estaduais e municipais de educação e finalmente, não se deve levar em conta apenas dados oficiais da prova do SARESP, pois há outros fatores a serem incluídos na análise.

O Ministério Público é um importante aliado na luta pela melhoria da qualidade da escola pública sem que isso seja feito às custas da destruição do próprio ensino público (no campo ou na cidade). A população não pode pagar pelos equívocos do governo que administra a educação há duas décadas. A reorganização e demais medidas que sucederão a esta constituem um ato de desespero de Alckmin frente a seu desejo de ser candidato em 2018. A educação pública é um patrimônio coletivo que deve ser preservado dos interesses particulares dos gestores em ganhar eleições ou permanecer nos cargos.

Deve-se exigir como base da política pública, estudos baseados em evidência empírica consistente, que reúnam informações relevantes sobre as ações que devem ser implementadas nas redes de ensino. Não é ético fazer experimentos com a rede de ensino paulista causando transtornos para todos. Foi assim com a política de bônus que não melhorou em nada a educação, igualmente copiada da Cidade de Nova York.

Ao invés do governo Alckmin acusar as Universidades Paulistas, que o povo paulista financia, de serem “corporativas” só porque discordam das suas propostas, ele deveria aprender com elas, pois elas são mantidas com dinheiro público, e deixar de ouvir a plêiade de empresários-educadores improvisados que transitam pelos gabinetes do governo com suas ideias mirabolantes destinadas a privatizar a educação paulista e a abrir mercado.

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MT: CAED e Falconi juntos

Secretaria de Educação de Mato Grosso contrata curso que será dado pelo CAED – UFJF e pela Falconi. O CAED é um grupo fundado por Manuel Palácios que vende consultoria em avaliação para 19 Estados brasileiros. Palacios está hoje na Secretaria de Educação Básica do MEC e conduz a elaboração da base nacional comum. (Neste vídeo Palácios conversa com W. Risolia quando o último ainda era Secretário de Educação do Rio de Janeiro, hoje Risolia é presidente da nova unidade da Consultoria Falconi para a área educacional). O CAED também acaba de fechar um contrato para avaliar a educação no estado de Alagoas.

Realizar cursos nos estados é uma estratégia de vendas. Através deles vão sendo difundidas as ideias, ofertados serviços que depois viram contratos. Só a avaliação em Florianópolis custará cinco milhões de reais aos cofres públicos.

Os reformadores, quando estão fora do governo, estão ligados às indústrias educacionais; quando estão no governo, deixam temporariamente a empresa e levam suas teses para lá e fazem a política que apoia a indústria educacional. Há mais gente no MEC ligado à indústria educacional, mas isso só ficará claro quando deixarem seus cargos.

Dois instrumentos fundamentais que favorecem a privatização da educação brasileira foram ou estão sendo produzidos por reformadores empresariais da educação ocupando cargos no MEC: o IDEB e a Prova Brasil censitária, desenvolvido por Reynaldo Fernandes quando era Presidente do INEP, hoje militando na indústria educacional brasileira e defensor das escolas charters que privatizam a gestão da escola pública; e outro, a base nacional comum, em desenvolvimento na Secretaria da Educação Básica do MEC exatamente sob controle de Manuel Palácios, que também milita na indústria de testes brasileira.

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SP: com 200 escolas ocupadas, Alckmin decreta

Com 200 escolas ocupadas, o governo do Estado de São Paulo, depois de mascarar o autoritarismo na imposição da reorganização empresarial das escolas, derruba a máscara e publica decreto que impõe a reforma, sem diálogo. Podemos dizer agora que a reforma está sendo imposta por decreto, sob vigilância e força policial.

Estas decisões fazem parte do conservadorismo que vai tomando conta do pais e viabilizando que procedimentos já condenados no passado sejam restabelecidos.

Bem fizeram os estudantes que não caíram no conto das Diretorias de Ensino que fingiram querer diálogo, dando resposta à altura para o governo do Estado. Se de fato Alckmin queria dialogar, é claro que não imporia por decreto a reorganização. O diálogo pregado pelo governo é só em relação a como fazer, ou seja, está disposto a pequenos ajustes. Mas tem que fazer.

Mas não é isso que os alunos desejam. Querem um debate fundamentado sobre a motivação da mudança e suas implicações na vida da comunidade.

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