Entidades divulgam manifesto e convocam greve

ANDES-SN, ANPG, CNTE, FASUBRA, FENET, PROIFES, SINASEFE, UBES e UNE convocam greve para 13 de agosto e divulgam manifesto em defesa do ensino superior:

MANIFESTO EM DEFESA DO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO E GRATUITO

A educação no Brasil vem enfrentando grandes ataques por parte do governo federal: cortes financeiros que ameaçam o tripé da universidade brasileira (ensino, pesquisa e extensão), desvalorização do trabalho dos docentes e dos técnico-administrativos, campanhas difamando o papel de escolas, institutos federais e universidades, perseguição a professores e cientistas. Apesar do papel estratégico das instituições de ensino para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no país, assim como para a formação de qualidade e a oferta de serviços necessários para a sociedade brasileira, o atual governo escolheu a Universidade como inimiga de sua gestão.

Nos últimos dias, a grande imprensa vem noticiando sobre um projeto de reforma da “autonomia financeira” para a educação superior pública federal imposta pelo Ministério da Educação. Embora as informações ainda sejam difusas, trata-se do maior e mais profundo ataque à autonomia das instituições de ensino, abrindo caminho para a privatização do ensino superior e cobrança de mensalidades. Trata-se de mais um passo rumo à destruição de todo nosso sistema educacional.

Em uma só medida, Bolsonaro e Weintraub pretendem: a) desresponsabilizar o Estado na garantia do financiamento da educação superior, aprofundando os cortes e contingenciamento já iniciados; b) pôr fim à carreira pública de servidores federais da educação, estimulando a concorrência perversa com novos ingressos pelo sistema de contratação privada, sem qualquer garantia ou estabilidade de emprego; c) reverter a democratização da universidade que permitiu nos últimos 15 anos a entrada de milhares de estudantes de segmentos historicamente excluídos, como pobres, negros, índios, mulheres.

É importante ressaltar que os cortes nos orçamentos das universidades atingem não apenas o ensino, mas também o desenvolvimento científico de pesquisas que, por exemplo, contribuem para o descobrimento de vacinas, medicamentos e a produção de alimentos, assim como a extensão da universidade, por meio da qual estudantes, professores e técnicos prestam serviços para as comunidades (por exemplo, hospitais universitários e escolas). Esses ataques contra as instituições de ensino superior fazem parte de um projeto político que mata os sonhos da juventude brasileira e o futuro do país ao destruir serviços públicos e retirar direitos sociais. Parte desta mesma agenda é a Reforma da Previdência que, após ser aprovada em primeiro turno, será votada em 6 de agosto.

Diversas universidades já alertaram que não conseguem chegar ao próximo semestre se os cortes não forem revertidos. Agências de fomento não conseguirão pagar as bolsas de estudos de pós-graduação. A UFMT, por exemplo, teve sua energia elétrica cortada, significando que aulas não serão dadas, pesquisas não serão concluídas e a prestação de serviços será prejudicada. Além disso, estudantes que dependem de políticas públicas não conseguirão permanecer na universidade.

A política que Bolsonaro e seu ministro vem apresentando caminha na contramão da valorização do Ensino Superior. Países desenvolvidos investem em educação e ciência públicas e em momentos de crises financeiras contribuem para a retomada do desenvolvimento brasileiro. Enquanto anuncia cortes na educação e ciência, o governo triplica o orçamento para propaganda do governo, compra parlamentares para aprovação de seus projetos e permite o gasto de mais de R$ 1 bilhão de reais por dia para o pagamento de juros da dívida pública brasileira.

Diante desse cenário, precisamos estar atentos e preparados na resistência e em defesa da educação e da ciência públicas. Precisamos mobilizar cada vez mais a sociedade para lutar contra as medidas do governo Bolsonaro, dentre elas a sua tentativa de destruir a Previdência Pública por meio da PEC 6/2019 e a Educação Pública por meio de cortes orçamentários e do novo Programa Ministerial.

Em defesa da educação pública e gratuita conclamamos a todos e todas para a construção da Greve Nacional da Educação em 13 de agosto. Também destacamos a necessidade de uma Greve Geral para derrotar a política de privatização dos serviços públicos e a destruição dos direitos e conquistas da classe trabalhadora e do povo brasileiro.

Em defesa da educação pública e gratuita! Contra a privatização e os cortes nos investimentos em educação! Construir a Greve Nacional da educação em 13 de agosto! Combater a retirada de direitos e a destruição dos serviços públicos!

Baixe aqui.

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“Future-se” ou melhor, “vire-se”

No dia 17 passado, o MEC apresentou seu plano para o financiamento das universidades federais. O plano é destinado a “separar o joio do trigo”, segundo o ministro declarou ao Estadão, um dia antes de seu lançamento:

“O modelo deve ter adesão voluntária pelas universidades. “Permitindo separar o joio do trigo… as que quiserem ficar no atual modelo, poderão ficar”, disse Weintraub”.

Esta afirmação revela a intenção do plano, ou seja, colocar as universidades na dependência do mercado, em um ambiente concorrencial de acesso a recursos, onde sobreviverão as áreas que se ajustem aos interesses deste.

O blog “Emdescontrução” conversou com dois especialistas sobre os planos do MEC: Marina Avelar, pesquisadora associada do grupo Norrag, do Graduate Institute of Internacional and Development Studies, na Suíça; e Salomão Ximenes, professor de políticas públicas da UFABC.

“Para os entrevistados, o projeto é vago e pouco transparente; não resolve o problema imediato da falta de verba; acena com recursos incertos e sem liquidez; desresponsabiliza o poder público no financiamento do ensino superior público; joga na educação a responsabilidade pela solução de problemas econômicos; ameaça ampliar desigualdades entre universidades, cursos e áreas; e não contempla a expansão da rede.”

Leia aqui.

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Bônus por desempenho declina nos USA

Como já é sabido, o país que mais usou a política de bônus para professores há tempos manda sinais de que isso não funciona. Não bastasse isso, há o fracasso dos bônus aqui mesmo em São Paulo. Mas a mania não para, não funciona mas não morre, pois mantem-se cada vez mais a fé na mão invisível do livre mercado e da concorrência como método gerador de qualidade. Depois do fracasso de vários formatos de pagamento de bônus nos Estados Unidos, inventou-se com Obama o pagamento por valor agregado baseado em resultados dos alunos em testes.

Uma década depois da reforma educacional de Obama (o Race to the Top – que vigorou enquanto o Congresso americano discutia o destino de outra reforma falida, a No Child Left Behind de Bush) ter exigido dos Estados que colocassem em prática uma política de avaliação de professores conhecida como “pagamento por valor agregado”, calculado a partir do resultado dos alunos do professor em testes, esta política começa a sair de cena. Ela foi alimentada pela competição por recursos adicionais da federação que, em troca, cobrava o engajamento dos estados em práticas de avaliação e pagamento complementar dos professores por valor agregado.

O National Education Policy Center faz um balanço deste declínio.

“A Flórida parou de exigir que os distritos fizessem isso em 2017. O Departamento de Educação de Nova Jersey anunciou em agosto que estava reduzindo sua dependência desta prática. E, 20 anos depois de ter sido introduzida pela primeira vez em Wyoming, a prática foi eliminada inteiramente este ano pelos legisladores desse estado.

Uma década após a agora extinta competição por subsídios do programa Race to the Top, que criou um incentivo financeiro para atrair as legislaturas em toda a América a adotar políticas de avaliação de professores que dependem de resultados de testes de estudantes, a reviravolta está ganhando velocidade.

Até mesmo a Fundação Bill e Melinda Gates – que investiu US $ 700 milhões em iniciativas relacionadas a avaliações de professores relacionadas ao desempenho dos alunos – anunciou em 2017 que estava se afastando da prática.

Os pesquisadores, incluindo os do National Education Policy Center, bem que alertaram desde o início desta prática. Em 2006, quando os defensores da utilização dos testes padronizados dos alunos para avaliar os professores estavam entusiasmadamente alardeando a abordagem, Edward Wiley do NEPC escreveu um guia prático onde identificou múltiplas preocupações com os chamados modelos de “valor agregado” que usavam resultados longitudinais de alunos para avaliar o desempenho do professor. Os professores não são designados aleatoriamente às turmas, e alguns grupos de alunos são mais propensos do que outros a exibir crescimento, independentemente da qualidade de instrução que recebem em um determinado ano letivo. Os testes de desempenho dos alunos tendem a não ser projetados para avaliar os professores. E os erros de avaliação também podem afetar os resultados.”

Leia aqui.

Leia também a posição da Associação Americana de Estatística.

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MEC quer Universidades atuando como empresas

O MEC convocou reitores para anunciar o que deverá ser um projeto de privatização das Universidades Federais. Entre as medidas estaria a cobrança de mensalidades.

“Reitores são convidados a participar de reunião institucional na próxima terça-feira 17 no Ministério da Educação e da apresentação do Programa Ministerial referente às universidades públicas, no dia seguinte; projeto pretende viabilizar cobrança de mensalidades, reduzir autonomia das instituições e congelar orçamentos.”

Leia aqui.

Salomão Ximenes discute a possibilidade de se cobrar mensalidades:

“É juridicamente possível cobrar mensalidades ou algo equivalente em universidades públicas? Seria necessário alterar a Constituição para fazer isso? Simplificar a resposta a essas perguntas só faz sentido se o objetivo é o autoengano ou a mera defesa forense. Superado esses estágios primitivos é preciso entender o que é o direito e como ele funciona, quando funciona. Direito é norma e interpretação, existem normas de vários tipos e estruturas.”

Leia aqui.

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Livro: Conversas sobre Avaliação

imagens.pngBenigna Villas Boas, pesquisadora do campo da avaliação, organiza mais um livro que poderá ser muito útil para a atividade de avaliação do professor em sala de aula.

Como sabemos o campo da avaliação possui pelo menos três níveis distintos de realização: o plano das políticas públicas de avaliação, usualmente conhecido como o campo das avaliações de larga escala; o campo da avaliação da instituição escolar ou campo da avaliação institucional da escola; e o campo da prática da avaliação da aprendizagem em sala de aula. Estes três níveis deveriam se complementar.

No entanto, nem sempre isso ocorre. Nos tempos atuais, marcados pela reforma empresarial da educação, as avaliações de larga escala acabam por retirar do professor sua autonomia na realização da avaliação em sala de aula, obrigando-o a regular-se por bases nacionais comuns associadas a avaliações externas que determinam as avaliações internas (em forma e conteúdo). Não raramente a avaliação em sala de aula é tomada por simulados e por treinos para que os alunos se saiam bem nas avaliações de larga escala.

O livro, entre outros temas, inova as relações entre estes níveis de avaliação e, ao mesmo tempo, valoriza a autonomia, a transparência e as práticas da sala de aula e constitui uma importante contribuição.

“Este livro propõe-se a dialogar com professores de todas as áreas do conhecimento, da educação básica e superior, especialmente os que atuam em cursos de licenciatura, assim como aqueles em formação, sobre os temas mais recorrentes e que mais geram dúvidas quando o assunto é avaliação. Os textos aqui reunidos não só colocam em evidência as fragilidades dessa prática, como vão além, apontando caminhos e possibilidades para o dia a dia em sala de aula de toda a comunidade escolar, incluindo pais e responsáveis.
Em formato de conversas, com linguagem objetiva e acessível, a obra afirma seu compromisso com uma educação verdadeiramente interessada nas aprendizagens de todos os estudantes que, de tão preciosas, exigem cuidados para que desabrochem e não murchem, mas floresçam sempre. Para isso, a avaliação deve manter-se vigilante.”

Veja aqui.

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FUNDEB: “Pensar a Educação” entrevista Chico Soares

Em entrevista muito didática, o professor Francisco Soares (ex-presidente do INEP) explica o Fundeb e as possibilidades de mudança. Na entrevista, entre outros temas, recusa o repasse de verbas do Fundeb condicionado a resultados, já que as verbas são para garantir o direito, ressaltando que isso não significa que se deva deixar de examinar se o direito está sendo cumprido.

“O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) atende toda a educação básica, da creche ao ensino médio. Substituto do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), que vigorou de 1997 a 2006, o Fundeb está em vigor desde janeiro de 2007 e se estenderá até 2020. A estratégia é distribuir os recursos pelo país, levando em consideração o desenvolvimento social e econômico das regiões — a complementação do dinheiro aplicado pela União é direcionada às regiões nas quais o investimento por aluno seja inferior ao valor mínimo fixado para cada ano. Ou seja, o Fundeb tem como principal objetivo promover a redistribuição dos recursos vinculados à educação. Para falar sobre o FUNDEB, nessa reta final, conversamos com o professor José Francisco Soares.”

Acesse aqui.

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Livro: Diálogos críticos e BNCC

Diálogos Críticos:

BNCC, educação, crise e luta de classes em pauta

Antonio Marcos da Conceição Uchoa e Ivânia Paula Freitas de Souza Sena (Orgs.)

Os Diálogos Críticos constituem-se do compromisso de um conjunto de educadores ativistas, de diversos estados do país, em defesa da educação pública, gratuita e laica. Reúnem exposições feitas nas mesas de diálogo que deram início a esse movimento que se coloca contra a perspectiva mercadológica da BNCC e em defesa de uma educação emancipadora.

Acesse gratuitamente aqui.

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Será o Ceará o nosso Texas? Sim.

Em setembro de 2016 perguntei em um post: Será o Ceará o nosso Texas? A resposta chega agora em reportagem da Folha, indicando que o modelo será adotado pelo MEC e por alguns estados. Na época escrevi:

“Com a ênfase em “bater metas” no Ideb, as escolas de “sucesso” serão aquelas que treinarem os alunos para se sair bem nas provas de matemática e português. Uma total inversão dos objetivos da formação humana. Esta é a “filosofia educacional” que deverá se fortalecer no país. O atual governo deverá estabelecer incentivos para isso também, agravando mais ainda a “corrida para nenhum lugar”.

Os municípios e estados que quiserem ser bem sucedidos deverão ter um controle cada vez mais rígido sobre o que se faz em sala de aula e adicionar um conjunto de provas intermediárias que farão o monitoramento da “aprendizagem” do aluno e o ensinarão a ir bem nas provas. O que importa é a média subir – por bem ou por mal. O exemplo mais claro disso é Sobral no Ceará. Isso irá tornar o magistério ainda mais desestimulante e o estudante em alguém doente, estressado.

O Ceará colocou o desenvolvimento educacional dos municípios como parte das condições de partilha do ICMS estadual. Isso certamente está gerando competição e um controle intenso no interior das redes e escolas, via avaliação. Pelas regras de distribuição, 25% do ICMS é repassado aos municípios em função de resultados em educação, saúde e meio ambiente. No caso da educação, cabe a ela 18% deste valor, assim dividido: 12% baseado na avaliação da alfabetização dos alunos na 2a. série do EF e 6% baseados no índice de qualidade educacional dos alunos da 5a. série do EF. A avaliação do fundamental I, anos iniciais, portanto, define parte do ICMS recebido pelo município. Além disso, distribui-se 25 milhões de reais em meritocracia.

A que pressões estão sendo submetidas as redes públicas do Ceará? Já que o modelo deverá ser imitado, eis aí um bom tema de pesquisa. Como as redes estão respondendo a estas pressões para garantir as metas? Há efeitos colaterais? A regra de distribuição do ICMS e da meritocracia nutrem a crença de que os problemas de desigualdade escolar são intrínsecos à escola, quando sabemos que, além dos intrínsecos, mais de 60% das variáveis que afetam o desempenho do aluno na escola estão fora da escola, na vida ou nas características pessoais dos estudantes.”

A resposta a esta questão feita em 2016 chega agora na reportagem da Folha de São Paulo: “MEC quer condicionar repasse para estados a resultados na educação”. Modelo inspirado pelo Ceará foi adotado por Pernambuco e está em estudo pela gestão Doria e por mais 2 estados.

Leia aqui.

Para entender o que vai acontecer, basta tomar como referência Sobral, no Ceará, também considerada modelo pelos reformadores empresariais.

Leia aqui.

Também nos Estados Unidos, talvez por outros motivos, houve o “milagre do Texas” (veja abaixo) e serviu para impor a geocultura meritocrática para todo o pais através da lei No Child Left Behind, uma lei que, para se constatar seu fracasso na elevação da qualidade da educação, levou 14 anos, até ser substituída por outra. Seu sucesso não se mede pela qualidade que implementou, mas pela eficácia em promover a privatização da educação americana.

George Bush (filho), ao assumir a presidência, implantou esta lei em 2001, gabando-se de sua atuação como governador do Texas. Ele aplicou antes em seu estado, quando era governador, os princípios da No Child Left Behind. Apresentou “resultados” para convencer democratas e republicanos a embarcar na lei. Mas logo o “milagre do Texas” seria desfeito. Mas não antes de que a lei fosse aprovada. No link abaixo, você pode conhecer um pouco desta história. Abaixo, uma das conclusões:

“As pontuações no teste do Texas subiram, mas no SAT para estudantes universitários potenciais caíram. Os pesquisadores descobriram que os testes do Texas projetados pela Pearson mediam principalmente a habilidade de fazer testes. Apologistas escolheram a dedo as pontuações do National Assessment of Educational Progress  para mostrar o progresso, mas no geral o Texas perdeu terreno para o resto do país, como mostrou o Dr. Julian V. Heilig, um pesquisador em educação da Universidade do Texas. Mas aí já era tarde demais. O Milagre do Texas, miragem ou não, era a lei da terra.”

Leia o texto completo aqui e aqui.

Vale lembrar também que há uma “lei de responsabilidade educacional” empacada no Congresso.

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Privatização: seminário lançará rede de pesquisa

Seminário do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política Educacional (GREPPE) – FE/UNICAMP, convida para o VI Seminário Internacional de Pesquisa: Privatização na Educação Básica: novos diálogos, a ser realizado na Faculdade de Educação – Unicamp, nos dias 15 e 16 de agosto de 2019, onde será lançada a Rede Latino-Americana e Africana de Pesquisadores em Privatização da Educação.

O evento contará com a presença de pesquisadores da África e da América Latina, com vistas a ampliar o debate sobre o tema em diferentes contextos.

“A REDE, inscrita em um cenário global de subordinação ao mundo corporativo – no qual as pesquisas desenvolvidas em países de capitalismo periférico têm sofrido com a brusca redução de investimentos públicos e correm o risco de perder a necessária autonomia para o exercício da produção científica – objetiva potencializar o diálogo entre pesquisadores/as latino americanos e africanos sobre privatização da educação, por meio da disseminação de resultados de estudos localmente desenvolvidos, da troca solidária de informações entre grupos de pesquisa e pesquisadores/as e do diálogo com organizações da sociedade civil que possam aportar aos estudos sobre privatização análises que auxiliem na construção de evidências para o entendimento da educação PÚBLICA, GRATUITA e LAICA como condição para a realização do Direito Humano à Educação.”

Leia aqui.

 A programação pode ser conferida aqui.

 Principais datas:

Submissão de trabalhos (textos completos e pôsteres): até 22/07

Inscrição online participantes ouvintes: 12/08/2019

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A farsa das terceirizadas “sem fins lucrativos”

Há uma predisposição das pessoas a fazer uma diferença entre escolas terceirizadas para entidades com fins lucrativos e as terceirizadas para entidades sem fins lucrativos. As “sem fins lucrativos” tendem a ser melhor aceitas, pois passam a imagem de serem filantrópicas. Nos Estados Unidos, a terceirização é feita na forma de “charters schools”, na Inglaterra de “academy schools” e no Brasil começa a ser conhecidas como “escolas públicas de gestão privada” ou simplesmente “terceirizadas”.

As terceirizadas que não têm fins lucrativos são usadas como escudo para sugerir que não se trata de obter lucro com a educação, mas sim, envolver-se na democratização da educação, especialmente para atender as camadas mais pobres da população. Para incentivar a retirada do Estado da educação, bilionários fazem doações diretamente a estas escolas.

A distinção entre terceirizadas com e sem fins lucrativos permite, também, que os políticos escapem da desconfortável posição de admitir que as escolas terceirizadas visam lucro na educação. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos políticos do Partido Democrata usam esta formulação, como veremos abaixo. No Chile, a política de Bachelet propunha-se a eliminar o lucro da educação, permitindo apenas as “sem fins lucrativos”.

Peter Greene já disse que as escolas terceirizadas sem fins lucrativos são máquinas de lavagem de dinheiro. Carol Burris, da Network for Public Education, explica abaixo, em post de Diane Ravitch, como isso funciona. E se você quiser uma explicação mais elaborada sobre isso, pode consultar um artigo que acaba de ser publicado, mostrando as práticas usadas pelas terceirizadas tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra. Carol Burris escreve:

 “Quando os candidatos democratas são questionados sobre escolas charter [terceirizadas], muitos costumam responder: “Sou contra escolas charter com fins lucrativos”. Todos comemoram. Os políticos criaram uma dicotomia conveniente (e falsa) que diz que as escolas charter sem fins lucrativos são boas e que as escolas charter com fins lucrativos são ruins.

Não se deixe enganar. Existem agora apenas dois estados que permitem escolas charter com fins lucrativos – Arizona e Wisconsin. Califórnia mudou suas leis.

No entanto, 35 estados permitem que suas escolas charters sem fins lucrativos sejam administradas por Organizações Gestoras de Charters (CMOS) com fins lucrativos.

40% das escolas charter na Flórida são administradas por empresas constituídas como Organizações Gestoras de Charters com fins lucrativos. Embora a Escola Charter individual seja uma organização sem fins lucrativos, ela pode transferir tudo, desde contratação, currículo e gerenciamento financeiro para uma corporação com fins lucrativos. Em Michigan, 80% das chamadas escolas charter sem fins lucrativos são administradas por empresas com fins lucrativos.

Para entender como esse acordo funciona, leia este blog que escrevi sobre a Flórida. Você vai ler sobre os irmãos Zulueta que estavam no conselho de uma escola charter da Academic, mesmo quando suas empresas imobiliárias com fins lucrativos, incluindo uma no Panamá, estavam alugando propriedades para as escolas.

Há uma razão pela qual o lobby das escolas charters nunca reclama quando um candidato diz que é contra escolas charter com fins lucrativos. Isso significa que nada vai mudar.”

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Livro: Políticas educacionais no Estado de Pernambuco

Livro organizado por Ana Lucia Felix dos Santos; Edson Francisco de Andrade e Luciana Rosa Marques analisa as políticas educacionais no Estado de Pernambuco

“Passada uma década das reformas educacionais que colocaram Pernambuco como “exemplo de política bem sucedida” no Brasil (tomando como referência o ranqueamento do IDEB), as pesquisas publicadas no livro examinam, sob diversos aspectos e perspectivas teóricas, as tensões e contradições de tais políticas.

A despeito do discurso governamental e das organizações internacionais, os estudos publicados na obra elucidam o estabelecimento de políticas de responsabilização e intensificação do trabalho docente como marca central da política educacional em Pernambuco. “Para fazer valer esse intento o Governo de Pernambuco assume o modelo de gestão gerencial como lógica de ação do Estado. As práticas decorrentes desse modus operandi focalizam o estabelecimento de metas e a cobrança de resultados busca a intensificação do trabalho docente e instiga a competitividade entre docente e escolas”.

É um livro voltado ao exame crítico que questiona a propaganda governamental e eleitoral sobre a política do Estado de Pernambuco, destinado a pesquisadores, professores, gestores e estudantes.
O E-book é de acesso gratuito na loja virtual da Editora da UFPE.
O acesso é possível com o navegador Google Chrome.
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Plataformas “on line”: novos problemas para os pais

O uso de plataformas de aprendizagem on line cresce. Os problemas ligados a elas também. Os pais americanos reagem à intensificação destas plataformas nas escolas que colocam em risco os dados privados e a saúde de seus filhos.

Uma organização chamada Parents Coalition for Student Privacy (Coalisão dos pais pela privacidade dos estudantes) divulga documento no qual examina os riscos de uma destas plataformas conhecidas por Summit Learning. Os riscos podem ser os mesmos com o uso de outras plataformas e deveriam ser levadas a sério pelos pais brasileiros. Diz o documento:

“A Summit é uma cadeia de escolas charter na Califórnia que usa uma plataforma on-line para coletar dados de estudantes e ministrar ensino e avaliações. Desde o ano letivo de 2015-2016, o uso da plataforma Summit Learning expandiu-se para mais de 300 escolas públicas de gestão privada (charters), com financiamento e apoio da Fundação Gates, Facebook, a Fundação do Vale do Silício, e agora a Iniciativa Chan Zuckerberg (CZI), com fins lucrativos de Mark Zuckerberg, a LLC.

As organizações que dão suporte à plataforma gastaram cerca de 200 milhões de dólares em seu desenvolvimento. Pagam professores e administradores para participar de treinamentos e até doam laptops para escolas para incentivar o uso da plataforma.

A partir do próximo outono, a plataforma Summit Learning será administrada por uma nova corporação sem fins lucrativos, chamada T.L.P., para professores, alunos e parceiros, com uma diretoria composta de três membros, presidida por Priscilla Chan, esposa de Mark Zuckerberg.”

Leia a íntegra do documento aqui.

Após esta apresentação, o documento lista os problemas que os pais têm encontrado:

“Em pelo menos 16 estados, os pais recuaram devido ao tempo excessivo de tela que o Summit Learning exige, com alguns alunos relatando que eles estão gastando até três horas por dia em computadores. Os pais também observaram que grande parte do currículo é de baixa qualidade, que seus filhos estão tendo problemas de saúde e ansiedade como resultado, e que eles estão preocupados com a quantidade volumosa de dados pessoais dos alunos fluindo para mãos privadas e corporativas através da plataforma, inclusive para o Facebook e agora CZI, especialmente Zuckerberg que tem sido um infrator reincidente quando se trata de privacidade do consumidor.

Embora a Summit afirme que cada aluno recebe pelo menos dez minutos por semana com um professor “mentor”, muitos dos alunos dizem que não recebem muito tempo individual com seus professores. Os pais têm observado que seus filhos ficaram tão entediados e infelizes que queriam abandonar a escola e, em alguns casos, as famílias transferiram seus filhos para escolas particulares, decidiram educá-los em casa ou sair do distrito.”

Aqui estão algumas perguntas que os pais e alunos devem fazer à escola se estiverem considerando ou se adotarem uma plataforma, segundo o documento:

Onde está a pesquisa independente revisada por pares que indica que a plataforma ajuda os alunos a aprender?

Quantas horas os estudantes gastarão em computadores e quanto feedback eles receberão? Quanta oportunidade os alunos terão para fazer perguntas e participar de discussões em sala de aula e debate?

Foi feita alguma análise para ver se o currículo da plataforma está alinhado com os padrões de aprendizagem, e se sim, onde está essa análise?

O programa foi adotado com o pleno conhecimento e consentimento dos pais, professores e/ou lideranças do município?

A escola tem um contrato escrito e, em caso afirmativo, o contrato cumpre com as leis estaduais e federais de privacidade dos dados dos estudantes?

Os pais poderão desativar as informações do cadastro de seus filhos (nome, endereço de e-mail, etc.) a serem divulgados, e/ou excluir os dados uma vez que tenham sido divulgados, de acordo com as políticas de privacidade da empresa?

Que supervisão está sendo empregada pela escola ou distrito para garantir que os dados dos alunos não sejam violados, da mesma forma que a informação pessoal em sido violada no Facebook?

Leia íntegra do Kit para os pais aqui.

O documento conclui com um conjunto de referências sobre a plataforma Summit de aprendizagem on line. Eis algumas:

Parents rebel against Summit learning platform, Student Privacy Matters, Aug. 31, 2017

Connecticut School District Suspends Use of Summit Learning Platform, Edsurge, Dec 20, 2017

Two Districts Roll Back Summit Personalized Learning Program, Ed Week, Dec. 22, 2017

Zuckerberg and the parent pushback vs Summit schools; Student Privacy Matters, Feb. 2, 2018

What Just Happened to Summit? , Curmudgucation, October 14, 2018

Brooklyn students hold walkout in protest of Facebook-designed online program, NY Post, Nov. 1, 2018

Why parents and students are protesting an online learning program backed by Mark Zuckerberg and Facebook, Washington Post, Dec. 20, 2018

Summit Learning declined to be studied, then cited collaboration with Harvard researchers anyway, Chalkbeat, January 17, 2019

Silicon Valley Came to Kansas Schools. That Started a Rebellion. NY Times, April 21, 2019

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Pensar a Educação entrevista Miguel Arroyo

Pensar a Educação divulga entrevista com o Prof. Miguel Arroyo: Educação no Brasil: tradições autoritárias.

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Bilionários militantes

Já publicamos, antes, a posição do bilionário Nick Hanauer que, depois de aplicar muitos milhões em filantropia para financiar a privatização das escolas americanas, concluiu que isso não mudou o cenário educacional. Ele diz:

“Ao todo, dediquei incontáveis ​​horas e milhões de dólares à simples ideia de que, se melhorássemos nossas escolas – se modernizássemos nossos currículos e nossos métodos de ensino, aumentássemos substancialmente o financiamento escolar, erradicássemos maus professores e abríssemos escolas charters suficientes – as crianças, especialmente aquelas em comunidades de baixa renda e classe trabalhadora, voltariam a aprender. As taxas de graduação e os salários aumentariam, a pobreza e a desigualdade diminuiriam e o compromisso público com a democracia seria restaurado.

Mas depois de décadas organizando e doando à causa, cheguei à desconfortável conclusão de que estava errado.”

Leia aqui.

Agora, um grupo de 400 bilionários mandou uma carta ao Congresso americano pedindo que não diminuam as taxas de impostos sobre seus ganhos e invista mais em programas sociais. “O movimento não é de esquerdistas sonhadores, inclui gente como Warren Buffett, o americano mais bilionário do mundo, e Bill Gates.”

Leia aqui.

Na carta eles dizem:

“Em vez disso, pedimos ao Congresso que aumente nossos impostos para trazer receitas adicionais necessárias e restaurar os investimentos em serviços vitais. Isso ajudará a criar empregos, fortalecer a classe média e garantir o sucesso econômico dos EUA. Sob nenhuma circunstância a reforma tributária deve perder receita, especialmente para fornecer cortes de impostos para os ricos e corporações.”

Leia a carta aqui.

Outro evento que está chamando a atenção, também, é que George Souros se associou a seu oponente Charles Koch para criar um “think tank” contra a guerra. A medida é tomada depois que Trump ameaçou iniciar uma guerra contra o Irã e recuou.

“Soros é acusado de defender causas “esquerdistas”; Koch é patrono de uma rede ultraconservadora. Juntos, eles querem uma nova estratégia militar para os Estados Unidos.”

Leia aqui.

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Estudo da música favorece desempenho, diz estudo

O “foquismo” pedagógico, posição que defende a prioridade do ensino de português, matemática e ciências, secundarizando o ensino de outras disciplinas da área de humanas, está sendo contrariado em um estudo publicado em junho de 2019 no Journal of Educational Psychology.

O estudo indica que alunos que estudam mais música se saem melhor nas disciplinas básicas: ciências, matemática e inglês. A relação foi observada em estudantes independentemente do perfil socioeconômico ou background cultural.

“A pesquisa foi realizada a partir do histórico escolar de mais de 110 mil alunos canadenses, e indicou que os que estudavam música tendiam a ter notas melhores. Trata-se de um estudo observacional, ou seja, que apenas observa dados, sem estabelecer, a princípio, causa e consequência. Mas, como a tendência a notas melhores ocorreu em estudantes de diversos tipos, independente de perfil socioeconômico ou background cultural, por exemplo, os pesquisadores acreditam que encontraram uma causalidade.”

Leia aqui em Nexo.

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Doria inicia criminalização da disciplina nas escolas

O governo Doria vai implantar um projeto piloto com policiais da reserva dentro de escolas da rede de ensino estadual. Serão contratados 622 policiais para serem alocados a 216 escolas com  alta vulnerabilidade. Não vem com o nome de “militarização”, mas é a mesma vertente. O projeto de lei do governo Doria vai endurecer as regras disciplinares nas escolas. A tal da “tolerância zero”, bem conhecida nas escolas americanas como “no excuses”, começa a ser ensaiada na rede pública do Estado de São Paulo.

Trata-se de um filosofia reacionária que acredita que a aprendizagem dos estudantes mais pobres depende de endurecer a disciplina. Virá como projeto piloto, camuflado de proteção aos professores e aos estudantes contra violências como a de Suzano. O caminho é o mesmo feito nos Estados Unidos e que não resolveu o problema por lá. Mas, certamente, dá votos e contará com apoio de pais desinformados, principalmente na classe média.

O projeto prevê vigilância por câmeras, detetores de metais, um regimento único para disciplinar medidas de segurança, contratação de 57 psicólogos e 28 assistentes sociais para as diretorias regionais apoiarem as escolas em mediação de conflito e habilidades sócio-emocionais, além dos policiais. O programa também prevê medidas disciplinares para alunos envolvidos em violência e vandalismo.

Começa assim, a criação de uma linha direta entre a escola e as prisões. Primeiro são punidos na escola, afastados e vão para a criminalidade, acabando presos. Alguns voltam para “acertar as contas com a equipe escolar” posteriormente aumentando os casos de agressão. A questão da disciplina vira coisa de polícia e não matéria a ser tratada no contexto da organização pedagógica da escola. Tem problema com o aluno? Chama o policial de turno.

Como sempre ocorre nestes casos, a legitimação virá de casos de agressão. Não tendo havido no passado recente nenhum esforço adequado para equacionar a questão como parte das atividades das escolas, agora apela-se diretamente para a versão policial da criminalização da disciplina escolar. Um atalho que leva a mais violência.

A experiência de outros países, como os Estados Unidos é clara. Nos Estados Unidos, o aumento do controle disciplinar nas escolas tem sido considerado danoso para a educação dos jovens e criado uma “linha direta” entre as escolas e as prisões, o que levou a Associação Nacional de Educação americana (2016) a se manifestar sobre a prática:

“Linha direta da escola para prisão significa o uso de políticas e práticas que estão direta e indiretamente empurrando estudantes negros para fora da escola e colocando-os no caminho para a prisão, incluindo, mas não limitando-se a: políticas severas de disciplina escolar que abusam da suspensão e expulsão, aumento do policiamento e vigilância que cria ambientes parecidos com prisões nas escolas, excesso de confiança no encaminhamento para a aplicação da lei e no sistema de justiça juvenil, e um ambiente acadêmico voltado para testes de alto impacto e alienantes.”

A escalada de violência, por vários motivos, faz com que, hoje, mais que nunca, se debata nos Estados Unidos a colocação da polícia no interior das escolas, ao lado do endurecimento nas regras disciplinares destas. O saldo é apresentado por Sam Sinyangwe, diretor do Projeto Mapping Police Violence (Giroux, 2018):

“Os dados (…) que existem (…) mostram que mais policiais nas escolas levam a mais criminalização dos estudantes e, especialmente, estudantes negros e pardos. Todos os anos, cerca de 70 mil crianças são presas nas escolas … [Além disso] desde 1999, 10 mil policiais adicionais foram colocados nas escolas, sem impacto na violência. Enquanto isso, cerca de um milhão de estudantes foram presos por atos que seriam punidos anteriormente com detenção ou suspensão, e os estudantes negros têm três vezes mais chances de ser presos do que seus pares brancos. ”

Mais informações sobre o projeto Doria aqui.

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Enem digital

A ideia de transformar as avaliações do ENEM em avaliações digitais ganha força. Duas reportagens resumem as dificuldades e vantagens de transformar as avaliações feitas em papel em avaliações feitas em computador. Destaco a discussão entre as tecnologias que apenas digitalizam os testes e as tecnologias que tornam o teste “adaptativo”.

“Segundo os especialistas, uma prova pode ser simplesmente uma versão em suporte digital do que antes era impresso (ou seja, um “teste baseado em computador”, ou TBC), mas também pode ser um “teste adaptativo informatizado” (TAI, também chamado de CAT, na sigla em inglês). Nesse segundo caso, o computador vai adaptando o teste em tempo real e para cada participante, à medida que ele acerta ou erra as questões apresentadas.”

TAI é a tecnologia que, associada à inteligência artificial, no futuro integrará as plataformas de aprendizagem on line que serão disponibilizadas por corporações privadas que operam na educação, nas quais a avaliação será uma “tecnologia embarcada” à disposição do aluno no ato da sua aprendizagem.

Quando estiver integrada a plataformas on line de ensino, ela será apresentada como “ensino personalizado”, mas como salienta Diane Ravitch é, de fato, “ensino despersonalizado” previamente desenhado em base a algoritmos que definem possíveis caminhos para a aprendizagem do aluno, tentando imitar a atividade do professor.

Tais algoritmos não são públicos, pois são propriedade das empresas educacionais on line que operam em escala planetária. Não sendo públicos, não se sabe exatamente as decisões que tomam. O grau de controle do trabalho do professor e o estreitamento curricular será potencializado.

As vítimas serão a autonomia do estudante e do professor, ambos voltados para assegurar respostas previamente definidas de forma a maximizar o desempenho nos testes. Em um momento em que se fala de “autonomia do estudante” e em “inovações”, não deixa de ser contraditório.

É por isso que há um forte movimento nos Estados Unidos para que os algoritmos de aprendizagem constantes nestes sistemas sejam abertos à análise de especialistas independentes.

Acesse abaixo as duas reportagens:

Enem digital é melhor que Enem em papel? Veja o que dizem especialistas.

O que é o Enem Digital. E quais suas vantagens e desafios.

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Mudança permite uso de policial como professor

“O Congresso Nacional promulgou nesta quarta-feira (3), em sessão solene, uma emenda constitucional que abre a porteira para que as salas de aula das escolas públicas em todo Brasil sejam tomadas por policiais militares travestidos de professores.

A emenda resume-se ao acréscimo de um parágrafo ao artigo 42 da Constituição (sobre as forças militares dos Estados, Territórios e Distrito Federal), permitindo a dupla função sem impor qualquer limite ou regulamentação ao uso destes profissionais no ensino público.

A partir de agora, membros das polícias militares, dos corpos de bombeiros e demais instituições organizadas militarmente poderão acumular cargos e salários de professores nas escolas, com a única condição de que haja compatibilidade de horários.”

O texto autoriza o exercício de dois cargos de professor; de um cargo de professor com outro técnico ou científico; ou de dois empregos privativos de profissionais de saúde.

Leia mais aqui.

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“PISA – S” é lançado no Brasil

Vem aí mais pressão sobre escolas, professores e estudantes. No dia 13 de junho passado, em evento coordenado pela Cesgranrio, foi lançado no Brasil o PISA Schools da OCDE. Segundo o site de lançamento:

“O PISA-S é uma avaliação voluntária, que apoia os esforços de melhoria da escola participante com base nas matrizes e escalas do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA) da OCDE. Os itens dos testes são desenvolvidos e calibrados de acordo com as escalas internacionais e estudos que apoiam o rigor e a validade dos resultados do PISA Mundial.

Desenhado para oferecer às escolas participantes informações e análises, acerca das competências e habilidades dos estudantes de 15 anos, aplica questionários que coletam dados socioeconômicos e informações sobre o ambiente de aprendizagem, o engajamento dos alunos, seus interesses e atitudes em leitura, matemática e ciências.

Cada escola participante do PISA-S recebe um relatório detalhado, com evidências sólidas acerca dos fatores que afetam o seu desempenho e com indicações de como promover a melhoria da aprendizagem para todos os estudantes. Os relatórios individuais de cada escola são de domínio da escola ou rede de ensino, e não é permitido divulgar os resultados obtidos sem autorização expressa dos gestores escolares. A partir de 2019, o PISA-S será oferecido por meio de plataforma da OCDE e todas as provas serão on-line.

O PISA-S contribui para o desenvolvimento de uma avaliação dos conhecimentos, competências e habilidades que são relevantes, no mundo atual, e incentiva experiências inovadoras de aprendizagem na solução colaborativa de problemas, desenvolvimento da criatividade, autonomia e do pensamento crítico dos estudantes.”

Veja os objetivos do exame aqui.

Veja aqui também na Fundação Lemann.

A rede estadual de São Paulo já embarcou no programa. Trezentas escolas vão participar. Segundo seu Secretário de Educação:

“Não temos expectativa nem para uma nota acima nem abaixo da brasileira, mas sim aprender a usar o resultado. Vamos participar para fazer uma apreciação e ter uma referência efetiva de onde estamos”, disse Rossieli.

Leia mais aqui.

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Cingapura: mais crianças doentes fazem currículo mudar

A geocultura meritocrática que a OCDE está impulsionando ao redor do mundo com a supervalorização de exames como o PISA e com o PISA Schools (este recém chegado ao Brasil) feito com escolas do ensino básico, está destinada a formar os jovens no espírito da concorrência, induzindo as escolas à competição e à concorrência através de intensivos processos de avaliação e responsabilização nas escolas.

As consequências previstas para tal geocultura meritocrática, já observadas em países como os Estados Unidos, foram captadas, agora, em Cingapura. Quando Cingapura despontou no PISA, foi alardeada pelos reformadores empresariais brasileiros como modelo. Os efeitos nefastos daquela política educacional não tiveram que esperar muito:

CINGAPURA – Líder em rankings mundiais que medem a qualidade da educação, Cingapura lançou uma reforma para tentar reduzir o estresse no ambiente escolar, dado o grande número de crianças que são vítimas de ansiedade desde a escola primária.”

Leia aqui.

Para amenizar a situação, este país está eliminando alguns testes na educação básica e fazendo modificações curriculares.

“Nos últimos anos (…) tenho visto mais e mais adolescentes vindo de escolas com boa reputação, mas eles são dominados pelo estresse”, disse Lim Choon Guan, do Instituto de Saúde Mental, em Cingapura.”

Além disso, haverá uma valorização da educação artística e musical, bem como da educação física.

Se as escolas forem entregues às empresas educacionais, o compromisso com os acionistas virá antes do que a própria saúde de nossas crianças. quanto mais rapidamente os pais se convencerem disso, mais rapidamente evitarão ter seus filhos nas mesmas condições.

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A velha razão do mundo (em apuros) – final

Continuação de post anterior.

Em post anterior, mostramos, com a ajuda da análise de Chauí (2018), os traços básicos deste padrão sócio-cultural neoliberal, que Wallerstein chama de “geocultura”, e que está sendo implementado sob a égide das reformas neoliberais.

A análise destacava a homogeneização das instituições sociais e do próprio Estado a partir da lógica das organizações empresariais. Este processo arrasta também o indivíduo, o qual passa a ser visto como um “empresário de si mesmo” e que, portanto, precisa ser formado, como tal, nos processos educacionais, para o que se disparou, via OCDE, o que Sahlberg (2011) chama de Movimento Global de Reforma da Educação.

Como vimos, o objetivo desta reforma empresarial da educação é desenvolver esta “percepção” de que o futuro de cada um depende do que o indivíduo faz, por si mesmo. Esta ambiência envolve inserir escolas, professores e estudantes em processos concorrenciais, guiados pela padronização de metas, avaliação e responsabilização constantes. Juntamente com os conteúdos cognitivos, enfatizam-se determinadas habilidades sócio-emocionais e até mesmo se procura desenvolver para o estudante um “projeto de vida”.

A vivência da concorrência oferece uma perspectiva individualista e imediatista, ligada ao “status quo”, ao “real”, e que promove a disputa: o vencedor leva tudo. Não se trata de apontar para uma construção coletiva e solidária, mas de enfatizar uma decisão pessoal e imediata de construir, agora, “seu próprio projeto de emancipação”, o qual se realiza pelo acúmulo de mérito no “mercado”. Fora da lógica concorrencial do mercado, não haveria futuro. A tríade “vida, liberdade e propriedade” é oferecida como rota de emancipação: vida é o seu futuro, liberdade é o seu presente (portanto, veja o que vai fazer com ela) e a propriedade é o resultado do que cada um fez com sua liberdade. Tudo isso sob o manto das “habilidades para o século  XXI”, entre elas a “autonomia” e a “resiliência“.

O que está oculto nesta formulação é que “estar no mercado” é aceitar a subordinação à sua lógica, a qual levaria à suposta “emancipação”, mas sempre no limite do seu mérito, ou melhor, desde seu lugar na hierarquia meritocrática.

Ocultados os condicionantes sócio-econômicos que regulam a obtenção do mérito, o que aparece para o jovem é o seu “esforço”, que agora passa a ser o responsável pelo seu grau de mérito – isentando o próprio sistema social pelo seu eventual infortúnio. Acuado pelas crises, o capitalismo apertou o botão “dane-se”. Estar “incluso” é reduzido à dimensão da inclusão no mercado concorrencial, por conta e risco próprios: daí advém o proto-fascismo neoliberal da sobrevivência do mais forte.

Mas não seria a promessa neoliberal uma nova decepção? As notícias não são boas para este neoliberalismo individualista. O problema é que o seu fracasso conduziu ao populismo reacionário de Trump.

A questão para a esquerda é como e em que momento isso se torna claro para a juventude? Que outra proposta temos para ela? Qual o trabalho político que tem que ser feito para este esclarecimento? Novamente, temos o desafio educacional pela frente.

O papel dos conservadores no Brasil é este: travar as propostas da esquerda, enquanto os neoliberais desenvolvem uma nova geocultura. É isso que Paulo Guedes quer dizer quando afirma que os conservadores colocam “ordem” e os liberais “o progresso”.

Examinando as possibilidades da esquerda nos Estados Unidos, Fraser diz:

‘Hoje, portanto, os dois polos de crise – um objetivo, o outro subjetivo – estão em pleno desenvolvimento. Eles se mantêm ou caem juntos. A solução da crise objetiva requer uma grande transformação estrutural do capitalismo financeirizado: uma nova maneira de relacionar a economia à política, a produção à reprodução, a sociedade humana à natureza não humana. O neoliberalismo, sob qualquer pretexto, não é a solução, mas o problema”. (Posição 320.)

E isso vale para as reformas neoliberais em curso no Brasil e mostra a importância de se enfrentar a reforma empresarial da educação – que é a ponta de lança da geocultura meritocrática do neoliberalismo (reacionário ou progressista) para a formação da juventude.

Sem que desvelemos as reais razões pelas quais o liberalismo e a democracia liberal representativa estão em crise, ou seja, o lado objetivo destacado por Fraser, não recuperaremos a credibilidade necessária para criarmos um padrão sócio-cultural alternativo ao neoliberalismo reacionário. Muito menos ainda, se o discurso da esquerda resolver seguir no Brasil o caminho norte-americano do “neoliberalismo progressista”, cunhado pela “terceira via” de Blair, Clinton e Obama.

Para Fraser, no caso americano, pode ser necessário contrapor ao “populismo reacionário” de Trump, um “populismo progressista” de esquerda, ainda que não como estratégia final:

“Por mais distante que a perspectiva possa parecer agora, nossa melhor chance de uma resolução subjetiva-objetiva é o populismo progressista. Mas mesmo isso pode não ser um ponto final estável. O populismo progressista pode acabar sendo transitório – uma rota a caminho de alguma nova forma pós-capitalista de sociedade.” (Posição 326.)

Para ela, a defesa de uma combinação entre uma “redistribuição igualitária” associada ao “reconhecimento não-hierárquico”, poderia ter a chance de mobilizar amplos setores sociais e produzir uma maior união da classe trabalhadora.

“Mais do que isso, poderia posicionar essa classe, entendida de forma expandida, como a força principal de uma aliança que também inclui segmentos substanciais de jovens, a classe média e o estrato profissional-gerencial ”. (Posição 249.)

A polarização que se observa na política (e mesmo a suposta “nova razão”), não passa de uma ação desesperada para salvar ou prolongar a vida de um sistema doente. Sua violência, revela sua fraqueza.

Com o edifício do capitalismo em chamas, sendo obrigado a chamar os bombeiros neoliberais – os antigos “Chicago boys” com suas medidas radicalizantes e cada vez com menos margem de manobra -; sendo obrigado a rejeitar a própria democracia liberal; e tendo chegado a transferir para o próprio indivíduo a razão de seu eventual fracasso – enquanto os monopólios assaltam o Estado em busca de garantias para sua acumulação contínua -, o capitalismo não apenas trai suas promessas de progresso social (mesmo que relativo, produzido no âmbito de um liberalismo centrista e socialdemocrata), mas no rastro deste fracasso, que atinge todas as instituições sociais, cria um vácuo propício ao populismo reacionário. Esta é a crise da velha razão liberal do mundo, posta em marcha ainda no século XVI com o advento do capitalismo.

Se nos Estados Unidos foi a crise dos neoliberalismos que abriu espaço para o populismo reacionário, é preocupante que, por aqui, o populismo reacionário já tenha se associado ao neoliberalismo antes mesmo deste se configurar em fracasso, como que em uma antevisão, a espreitar pelas oportunidades futuras.

Isso torna urgente que nos empenhemos não apenas na resistência ao neoliberalismo e ao populismo reacionário, mas na aglutinação das forças anti-sistêmicas, com vistas a construir novas alternativas pós-capitalistas que nos levem a um sistema social mais igualitário e mais democrático, única forma de termos, de fato, uma “nova razão do mundo”.

Viveremos tempos difíceis, mas igualmente promissores.


As referências podem ser encontradas na página “Bibliografia” neste Blog.

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A velha razão do mundo (em apuros) – V

Continuação de post anterior.

Embora no caso brasileiro seja cedo para concluirmos que a análise de Fraser se aplica à configuração do atual governo, dadas as condições políticas de um país semi-periférico e os autores envolvidos (militares inclusive), o que se vê nestes primeiros meses de governo se parece muito ao quadro americano. Especialmente quanto às dificuldades para que se crie um bloco hegemônico que ofereça “segurança” para o “mercado”. Este é o lado subjetivo da crise.

Mas há um lado objetivo desta crise, o econômico, o qual no caso brasileiro ainda não é creditado ao neoliberalismo, como no caso norte-americano, pois não vivenciamos plenamente todas as consequências dos ensaios de neoliberalismo havidos no Brasil, o que ainda permite acenar para as classes médias e até as mais pobres, embaladas pelas políticas de inserção no consumo da socialdemocracia, e manter durante algum tempo o apoio necessário a tais políticas reacionárias, até que fique claro que são políticas destinadas a maximizar os ganhos do financismo rentista. Isso gera dificuldades para que se tenha uma percepção mais ampla do que Fraser chama de “crise objetiva”, derivada dos parâmetros de funcionamento do capitalismo rentista típico do neoliberalismo. Somente agora, com Paulo Guedes, estamos entrando nesta era de forma plena.

Parece-nos, portanto, que as reformas neoliberais em curso no Brasil são o ponto de ancoragem mais efetivo para a crítica do atual governo e a reconstrução da esquerda, do que a crítica ao conjunto das formulações conservadoras. Tal constatação, ou seja, a importância de enfrentarmos as políticas neoliberais, coloca a educação como uma frente de luta essencial já que é por ela que o neoliberalismo reacionário pretende formar a juventude nas teses de uma geocultura meritocrática. É dentro destas reformas neoliberais que teremos a continuidade da reforma empresarial da educação com seu componente privatista, fundamental para a reconfiguração da geocultura liberal centrista em uma geocultura meritocrática.

A âncora desta formulação parte da constatação de que a base da proposta econômica, tanto de liberais como de neoliberais, no Brasil, são as reformas econômicas neoliberais, dentre elas a reforma empresarial da educação. Este é o ponto de partida. Os conservadores não têm projeto, pois não querem mudar nada, apenas restabelecer a ordem passada já conhecida e que acreditam ter sido maculada (curiosamente pelos liberais).

A divergência entre liberais e neoliberais está na intensidade e profundidade destas reformas e no maior ou menor respeito à democracia liberal, o que permite pensar que, tal como nos Estados Unidos, poderemos ter a emergência de um neoliberalismo “progressista”, formulado em contraposição ao neoliberalismo reacionário de Bolsonaro. Uma espécie de neoliberalismo que, por contraste com Bolsonaro, pareça progressista, mas sob forte hegemonia da direita liberal/neoliberal, sem os excessos dos conservadores. O mal estar dos reformadores empresariais da educação com Bolsonaro é só este. Quanto a esquerda vai embarcar nisso também não é possível antever, mas se deseja ter algum futuro, precisará se diferenciar já – tirando algum ensinamento da derrocada do liberalismo centrista (socialdemocracia, inclusa).

É preciso atentar para um elemento central nesta diferenciação. O projeto neoliberal envolve o sequestro da proposta “emancipatória” da esquerda (daí os ataques a Paulo Freire desfechados pelos conservadores sob o silêncio dos neoliberais). Tal projeto será reconfigurado, agora, como “emancipação pela meritocracia”. Sobre isso adverte Fraser, ao examinar as políticas de Obama:

“A igualdade significava meritocracia. A redução da igualdade à meritocracia foi especialmente fatídica. O programa neoliberal progressista, para criar uma ordem mais justa, não visava abolir a hierarquia social, mas “diversificá-la”, “empoderar mulheres “talentosas”, pessoas negras e as minorias sexuais para chegarem ao topo. Esse ideal é inerente a classes específicas, voltado para garantir que indivíduos “merecedores” de “grupos sub-representados” possam alcançar posições e estar em pé de igualdade com os homens brancos heterossexuais de sua própria classe. A variante feminista é reveladora, mas, infelizmente, não é a única. Focada em “inclinar-se” e “quebrar o teto de vidro”, seus principais beneficiários só poderiam ser aqueles que já possuíam o necessário capital social, cultural e econômico. Todos os outros ficariam presos no porão”. (Idem, 2019, posição 85.)

A problemática racial, por exemplo, e mesmo a questão mais ampla da inclusão social não são apenas uma questão moral, como quer fazer parecer o neoliberalismo progressista e meritocrático, mas são um limite imposto pela organização social do capitalismo, ligado à estruturação e dinâmica de suas classes sociais.

A questão, portanto, não é incluir os melhores de cada classe social, numa espécie de bônus por mérito. É a própria existência de uma lógica exploradora entre seres humanos – potencializada pelo proto-fascismo neoliberal – a responsável pela crise objetiva – ecológica, econômica e social -, sob a égide de um sistema cuja finalidade central é acumular dinheiro para acumular mais dinheiro, em um círculo sem fim que esgota a natureza humana e não humana.

Continua no próximo post.

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A velha razão do mundo (em apuros) – IV

Continuação de post anterior.

Em posts anteriores (ver aqui (I), aqui (II) e aqui (III)) refletimos sobre uma suposta “nova razão do mundo” que estaria sendo oferecida na contemporaneidade com o objetivo de justificar, ideologicamente, uma metamorfose no padrão sócio-político vigente. Argumentamos que a “nova razão” não passava de uma nova roupagem para os mesmos personagens antigos.

Essa percepção é corroborada por alertas, que ganham força, denunciando o esgotamento da democracia liberal representativa, chegando mesmo ao reconhecimento da existência de uma crise do liberalismo.

É bom recuperarmos, então, pelo menos duas coisas importantes sobre esta crise, sem as quais não se completa o quadro: primeiro, seguindo a tradição de Wallerstein, é necessário reconhecer que a crise da democracia liberal (centrista) é, antes, uma crise do capitalismo – ecológica, econômica e social -, pois que foi para ajustar as contradições deste sistema que se redigiu o “contrato social liberal” que agora teme-se que esteja em crise.

De fato, este contrato não era para ser cumprido, como se verificou ao longo dos últimos 200 anos, mas enquanto durou, foi bom para as classes mais abastadas e nem tanto para os mais pobres. Ao final, apesar de sua utilidade política, terminou dificultando os processos de acumulação de riqueza no andar de cima (custos da inclusão x impostos x lucros), e não produziu melhorias substantivas no andar de baixo, desgastando-se perante este como proposta de futuro. O contrato ocultou bem as contradições fundantes do sistema histórico capitalista, as mesmas que levaram à necessidade de uma metamorfose que procurou converter o liberalismo centrista em um neoliberalismo econômico radical – o que nos conduz ao segundo ponto.

A crise do liberalismo, inclui a crise do chamado “neoliberalismo”, ou seja, a crise das reformas neoliberais que estão sendo implementadas neste momento no Brasil. Se por aqui são apresentadas como novidade, mundo afora colecionam fracassos – exceto para o 1% mais rico. Os movimentos sociais e as demandas dos trabalhadores, junto a outras contradições sistêmicas, levaram à crise o liberalismo centrista (como organização política), motivando um neoliberalismo reacionário como resposta. Mas, nem mesmo uma variante conhecida por “terceira via”, uma espécie de “neoliberalismo progressista” como define Fraser (2019), mais light, conseguiu sobreviver. Um retorno a um liberalismo centrista (socialdemocracia inclusa) ou ao neoliberalismo (reacionário ou progressista) somente levaria a mais do mesmo já testado por onde este passou.

Sem adicionar estes elementos, o quadro da crise do liberalismo apenas remeteria àquilo que convém às forças dominantes, ocultando o essencial e apontando como saída (especialmente em países semiperiféricos ainda não atingidos plenamente pelo neoliberalismo, como o Brasil) uma proposta de superação dos limites do liberalismo na forma de um neoliberalismo – um novo liberalismo -, portanto, no plano da política (como uma recomposição de hegemonia liberal), evitando-se, dessa forma, uma análise da base material da sociedade que é a verdadeira razão da crise ecológica, econômica e social vigente. Isso também poderia nos levar a acreditar erroneamente que estaríamos, de fato, frente a uma “nova razão do mundo”.

Este caminho só interessa às elites dispostas a conter a crítica social através de uma recomposição de hegemonia. Como bem mostra o neoliberalismo reacionário, de há muito se abriu mão da democracia liberal, criando um padrão sócio-político baseado na “democracia do mercado e pelo mercado”. A “participação” ou a própria “emancipação” à qual acenou oportunistamente o liberalismo centrista, via Estado, se daria, agora, não mais pelo liberalismo centrista da “igualdade, liberdade e fraternidade” (que valorizou o Estado – e os impostos) mas pela radicalização das teses liberais (na forma neoliberal), ou seja, pela “participação e inclusão dos indivíduos no livre mercado”, segundo o mérito que acumulem, na esteira da retomada das ideias de Mises e Hayek.

Dessa forma, o que é visto, hoje, como desigualdade social, seria reconvertido em “desigualdade de mérito”, criando uma meritocracia que justificaria as diferenças sociais pelo mérito legitimamente acumulado. O acúmulo de mérito se obtém via participação no livre mercado, fonte geradora da liberdade – e não pelo Estado, fonte de interferência que distorce o livre mercado. Portanto, qualquer ameaça ao livre mercado é igualmente considerada uma ameaça à liberdade (pessoal e social) e, se a democracia liberal representativa incorpora pelo voto as aspirações das massas que se sentem traídas pelo liberalismo centrista, ameaçando o livre mercado, então, o que vale é o livre mercado e não a democracia. Vão se os anéis (a democracia), ficam os dedos (o sistema de acumulação).

Tal proposta visa conter o avanço de formulações alternativas que buscam uma emancipação real das pessoas sob bases pós-capitalistas, na esteira do fracasso do liberalismo centrista (incluindo a socialdemocracia), que atingiriam a própria dinâmica do sistema capitalista de forma mais profunda, se defendidas pelas massas excluídas. No cenário global, visa roubar a bandeira da emancipação até agora defendida pela esquerda e redefinir a geocultura liberal centrista para preservar os mesmos fins. E é neste contexto que a reforma empresarial da educação em curso deve ser examinada também.

Nancy Fraser acaba de publicar um pequeno livro chamado: “The Old Is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond” que pode ajudar a compreender o momento presente e eventualmente antecipar os passos do próprio neoliberalismo no Brasil, na forma de um “neoliberalismo progressista” criado para substituir o “neoliberalismo reacionário” do atual governo.

O livro é uma tentativa de analisar os acontecimentos norte-americanos que conduziram à eleição de Trump. A autora considera que foi, no caso americano, o esgotamento do neoliberalismo (tanto o reacionário, como o progressista) que motivou a vitória de Trump. Diz ela:

… “as pessoas estão dizendo que não acreditam mais nas narrativas neoliberais reinantes. Eles não têm fé nos partidos políticos estabelecidos na centro-esquerda ou na centro-direita que as proclamaram. Elas querem tentar algo completamente diferente. Esta é uma crise de hegemonia!” (Fraser, 2019, posição 398.)

No caso americano, isso refere-se a uma história política recente na qual se alternaram tanto as políticas neoliberais reacionárias (Reagan – Bush) como as políticas neoliberais “progressistas” (Clinton – Obama). O descrédito nestas proposições, abriu caminho para Trump com seu populismo reacionário – visto como algo diferente do neoliberalismo, em que pese a prática de seu governo o contrarie.

Com uma história política diferenciada, o Brasil viveu situação semelhante na qual se alternaram ensaios de políticas neoliberais (PSDB/DEM) com a socialdemocracia (PT). É visível que estes Partidos sofreram baixas consideráveis nas últimas eleições. No nosso caso, uma débil democracia liberal permitiu que práticas de “lawfare” criadas no cenário da “lava-jato”, hoje explicitadas, potencializassem um golpe jurídico/parlamentar. Rompido o bloco hegemônico, a direita liberal só conseguiu mais tempo para recompor-se associando-se aos conservadores bolsonaristas e aos militares. É importante atentar para a análise de Fraser sobre o caso americano. Para a autora:

“O neoliberalismo hiper-reacionário de Trump, no entanto, não constitui um novo bloco hegemônico. Ao contrário, é caótico, instável e frágil. Isso se deve em parte à psicologia peculiar de seu portador [Trump] e, em parte, devido à sua dependência disfuncional com o establishment do Partido Republicano, que tentou e fracassou em reafirmar seu controle e agora está aguardando um tempo, enquanto busca uma estratégia de retirada. Não podemos agora saber exatamente como isso vai acontecer, mas seria tolice descartar a possibilidade de que o Partido Republicano se divida. De qualquer maneira, o neoliberalismo hiper-reacionário não oferece nenhuma perspectiva de hegemonia segura. ” (Idem, posição 202.)

Continua no próximo post.

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Educação e desigualdade

“A inclusão de novos dados na análise sobre as causas da desigualdade e, em particular, da desigualdade de renda do trabalho, permite uma visão abrangente e mais complexa do fenômeno e contesta antigas teorias, como aquela amplamente difundida no Brasil, de que a desigualdade de renda do trabalho é explicada pelo nível de escolaridade dos indivíduos.

Essa visão é apresentada na entrevista a seguir pelo sociólogo Rogério Barbosa, autor da tese “A Educação e a Desigualdade da Renda do Trabalho: Um enfoque sociológico” (2017). Nessa pesquisa, ele questiona “a história que se conta no Brasil, segundo a qual a educação é a chave para se combater a desigualdade”. De acordo com ele, a análise acerca do aumento da desigualdade de renda do trabalho entre anos 1960 e 1970 mostra que o aumento da desigualdade de renda do trabalho no período provavelmente esteve relacionado a razões políticas, como o ajuste fiscal feito à época.

Segundo o sociólogo, os dados daquele período sugerem que “a educação como política urgente para reduzir a desigualdade social não é efetiva” e “ao focar demais na educação” com o objetivo de enfrentar as desigualdades de renda do trabalho, “deixamos de lado causas muito mais urgentes e de curto prazo que podem ter afetado as tendências para enfrentar as desigualdades”.

Na entrevista a seguir, dada à IHU On-Line, o sociólogo Rogério Barbosa examina estas questões, comenta a atual crise do país e frisa que desde 2016 observa-se “um aumento da pobreza”.

Leia entrevista aqui.

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5 questões sobre o uso de vouchers

“O uso de vouchers na educação tem sido debatido recentemente como uma possibilidade para o ensino brasileiro. No modelo, cheques escolares seriam dados pelo Estado para os pais pagarem as escolas dos seus filhos – religiosa, privada ou pública (administrada pelo Estado, mas com cobrança de mensalidade).

Para analisar a proposta, o Instituto NET Claro Embratel convidou o professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Carlos de Freitas, e a coordenadora do Grupo de Trabalho “Estado e Política Educacional” da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Theresa Adrião.”

Leia aqui.

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Cronin: o que é desempenho?

Ann Cronin é educadora em Connecticut. Ela explica que desempenho não tem nada a ver com pontuação em testes.

“Há todos os tipos de sugestões para melhorar o desempenho dos alunos – privatizar escolas públicas, aumentar o número de testes padronizados que os alunos realizam, implementar padrões nacionais de aprendizagem e radicalizar a disciplina de sala de aula. Nenhuma dessas práticas, no entanto, fez alguma diferença. Isso por dois motivos. Uma das razões é que as causas subjacentes à pobreza e à injustiça racial não foram abordadas, e a outra razão é que as pontuações padronizadas dos testes nunca podem medir a realização e, ao contrário, indicam apenas uma coisa: o nivel sócio-económico dos pais do participante.

Portanto, o primeiro passo para aumentar o desempenho dos alunos é redefinir o que entendemos por isso.”

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Reinaldo Azevedo: de liberal para “liberal”

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Arroyo: “Educação no Brasil: tradições autoritárias?”

O Projeto “Pensar a Educação, Pensar o Brasil” da UFMG realizará mais uma conferência da programação do seu XIII Seminário Anual no dia 27 de junho às 19 horas. A conferência será com o professor Miguel Gonzalez Arroyo: “Educação no Brasil: tradições autoritárias?”

O professor propõe uma reflexão dos tempos atuais e as faces do autoritarismo que emergem neste cenário. Além disso ele propõe uma comparação entre as características autoritárias com princípios democráticos na educação, como a inclusão. Ele questiona que possibilidades de educação, humanização temos em tempos de vidas ameaçadas e quais são as exigências políticas-éticas para a educação e para a docência.

Na ocasião será realizada também uma homenagem ao professor Miguel Arroyo por sua inestimável contribuição para a Educação Democrática e para o pensamento brasileiro. A homenagem contará com uma fala da professora Shirley Miranda destacando a vida e o trabalho realizado pelo professor.

Miguel Gonzalez Arroyo possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestrado em Ciência Política pela mesma instituição e doutorado em Educação pela Stanford University. É Professor Titular Emérito da Faculdade de Educação da UFMG. Já foi Secretário Adjunto de Educação da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, coordenando e elaborando a implantação da proposta político-pedagógica Escola Plural. Acompanha propostas educativas em várias redes estaduais e municipais do país.

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A conferência terá transmissão ao vivo pelo canal do Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil no YouTube.

Local: Auditório Neidson Rodrigues FaE/UFMG
Endereço: Av. Antônio Carlos 6627 – Pampulha – Belo Horizonte

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Charters: relatório da Flórida falha na metodologia

Um novo relatório divulgado pela Flórida (USA) tenta advogar pela superioridade das escolas charters e vouchers. O National Educational Policy Center – NEPC – analisou o relatório e mostra as deficiências metodológicas que o tornam pouco relevante para orientar política pública.

“Recentemente, o Departamento de Educação da Flórida publicou um relatório que consiste quase inteiramente em gráficos simples comparando níveis de aproveitamento, lacunas de desempenho e ganhos de desempenho em testes estaduais entre alunos de escolas charters e de escolas públicas regulares. O comunicado de imprensa do Departamento divulgou o relatório mostrando que os alunos da escola charter do estado superam consistentemente seus pares em escolas públicas.

O comunicado também cita o Secretário de Educação da Flórida afirmando em várias estações de televisão, jornais e sites on line que o “relatório fornece mais evidências de que as políticas de escolha da escola são adequadas para a Flórida” e que “não há como negar que a escolha da escola [pelos pais] funciona”.

No entanto, comparações simples como as apresentadas neste relatório revelam muito pouco sobre a eficácia relativa das escolas charter. Robert Bifulco, da Syracuse University, analisou o estudo e mostra que ele é de uso extremamente limitado.”

Acesse a revisão do NEPC, por Robert Bifulco, aqui.

Acesse o relatório “Student Achievement in Florida’s Charter Schools: A Comparison of the Performance of Charter School Students with Traditional Public School Students”, aqui.

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Entrevista na TV Uno

Disponibilizo entrevista produzida e gravada pela TV Uno, o canal da Universidade Unochapecó, em 28-05-2019.

 

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