Sahlberg: padronização põe em risco a criatividade

 

Segundo Ravitch, Pasi Sahlberg, um educador finlandês que trava uma batalha intensa contra as reformas empresariais da educação, é o ganhador do LEGO Prize 2016. Em seu discurso, Pasi diz:

“Hoje, a curiosidade, a criatividade e, em última instância, uma aprendizagem genuína, estão em risco em qualquer lugar onde os testes de alto risco, Big Data e a responsabilização punitiva sejam os condutores dominantes do que os professores e os alunos fazem nas escolas. Esta é uma consequência direta do atual movimento global de reforma da educação. Escolas em todo o mundo tornaram-se locais de rotinas padronizadas que visam o cumprimento de objetivos pré-determinados em nome de melhorar a competitividade. Nossas crianças estão, portanto, sujeitas a testes e avaliações frequentes que as medem e as dividem com base unicamente em como elas se desempenham sob estas expectativas externas “.

Ver também do autor: Finnish Lessons.

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Começa a Certificação de Diretores

Como é sabido, o PNE incluiu a certificação de Diretores. O MEC publicou nesta quarta os editais de chamada pública. As instituições públicas federais podem se credenciar para concorrer no eixo de formação ou no de certificação. No primeiro, as instituições escolhidas estarão em condições de coordenar e executar os processos de formação continuada dos diretores, e no segundo, está incluída a aplicação de processos de avaliação para certificação inicial e avançada dos diretores que estão em exercício.

Veja aqui Edital com os PADRÕES NACIONAIS PARA FORMAÇÃO E CERTIFICAÇÃO DE DIRETORES ESCOLARES.

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SP: SARESP sob suspeita

É voz corrente dentro da rede estadual de ensino de São Paulo que algo ocorreu com a última edição do SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento do Estados de São Paulo) motivando a elevação das médias da rede. Na opinião de professores e alunos que participaram da prova, ela foi visivelmente mais fácil do que nos anos anteriores. Comprovada esta situação, teremos no mínimo um descuido, no máximo uma fraude.

Circulam ainda algumas explicações técnicas sobre uma possível “calibração” da prova para um patamar de menor exigência. A fase de calibração dos itens garante os parâmetros de qualidade de cada ítem. A fase de “equalização” garante que os itens das provas aos longo do tempo, sejam colocados em uma mesma escala, permitindo a comparação entre as aplicações feitas a cada ano.

O processo de calibração dos itens exige que se pré-teste cada item elaborado quanto à sua capacidade de discriminação, resposta ao acaso e dificuldade, na dependência do modelo de teoria da resposta ao item que se esteja usando. Todo este processo é documentado durante a fase de pré-teste com uma população de no mínimo 300 alunos, antes de ser aplicado a toda uma rede. A Secretaria tem conhecimento, portanto, do nível de dificuldade da prova.

No entanto, como se sabe, não há transparência da elaboração do processo de avaliação na rede estadual de São Paulo, o qual é entregue a empresas terceirizadas de avaliação. As bases de dados não estão disponíveis em formato de microdados que permita recálculo por pesquisadores independentes e, além disso, não há relatório técnico público do processo de montagem das provas e da pré-testagem.

Para se verificar a hipótese de rebaixamento de exigências na prova, seria necessário acessar o comportamento dos itens da prova na pré-testagem do ano de 2015 e anos anteriores que contivessem resultados dos pré-testes contrastados com os resultados finais obtidos nas provas reais, bem como acesso aos índices de discriminação e dificuldade dos itens que compuseram as provas nas suas últimas edições. Nada disso está disponível.

Não seria a primeira vez que teríamos uma situação como esta. Anos atrás, na Cidade de Nova York, Joel Klein, então Secretário da Educação, promoveu um rebaixamento das exigências nos exames da cidade para incentivar a percepção de melhoria na rede e acessar verbas federais. Lá, diferentemente, pode-se constatar o processo de facilitação. Klein perdeu o cargo.

Também aprendemos da experiência americana, o inverso. Quando se trata de acelerar os processos de privatização, as provas podem ser tornadas mais difíceis com o objetivo de culpar professores e escolas pelo fracasso dos estudantes e justificar processos de terceirização.

As provas do SARESP de 2015 e seus resultados estão, portanto, sob suspeita. E esta suspeita somente poderá ser afastada se a Secretaria de Educação constituir uma equipe de pesquisadores composta por profissionais da empresa terceirizada que elaborou os testes e também por profissionais independentes, para emitir um laudo final. Até lá, persistirá a dúvida.

É urgente que o Ministério Público seja acionado para garantir a transparência da qualidade das avaliações no Estado e que a Secretaria de Educação passe a abrir as bases de dados da série de avaliações do SARESP (bem como de seus relatórios técnicos de elaboração, composição das provas e pré-testagem), para serem baixadas e trabalhadas por pesquisadores independentes, na forma de microdados e não apenas em formato de dados agregados pela média das escolas, ou pelo IDESP.

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Manifestação de apoio (atualizado link)

Video gravado a pedido dos organizadores do ato de apoio dos educadores à Presidenta Dilma, ocorrido no dia de ontem em Brasília.

Link alternativo: https://youtu.be/9QHx3guvV4U

 

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GO: Secretaria adia privatização

Pressionada pelos estudantes que ocuparam as escolas e a própria Secretaria e pelo fracasso do primeiro chamamento feito para definir a escolha da Organização Social que vai gerir 23 escolas em Anápolis, dando início ao processo de privatização da educação pública de Goiás, a Secretaria de Educação não teve como não adiar para o início do segundo semestre o início da transferência das escolas.

Os estudantes, que deram uma trégua, já estão se mobilizando para definir como a luta vai continuar.

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RJ: mais escolas ocupadas

Subiu para 25 o número de escolas ocupadas no Rio de Janeiro. Os estudantes do Rio são os primeiros no Brasil a incluir formalmente em suas reivindicações o término de avaliações estaduais de larga escala, como o SAERJ. Tais avaliações não servem para apoiar as ações dos professores em seu trabalho e são somente uma forma de pressão sobre o trabalho da escola.

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GO: como funciona a “repressão liberal”

Recentemente comentei que o “golpe dos liberais” é um golpe comandado pela caneta jurídica e não como antigamente, pelo canhão. Eis um exemplo concreto da repressão “liberal” o que está acontecendo na Universidade Federal de Goiás. Lá, o Ministério Público Federal tenta censurar o debate da situação nacional naquela Universidade. Em uma “recomendação”, No. 75, o MPF conclui (leia íntegra aqui):

“RECOMENDA, posto isso, que a UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS:

8.1 – não realize nem permita, em suas dependências físicas, nenhum ato de natureza político-partidária, tendo por objeto o processo de impeachment da Presidente da República, seja favorável ou contrariamente;

8.2 – não utilize nem permita que seus bens móveis, materiais ou imateriais (aqui incluídos sites oficiais e redes sociais institucionais) sejam utilizados com o objetivo de promover qualquer ato sobre essa temática; e

8.2 – não utilize nem permita que recursos financeiros sob gestão dessa instituição custeiem ou patrocinem a participação de qualquer pessoa física ou jurídica, ou, ainda, agrupamentos de qualquer espécie, em atos pertinentes a essa temática.

9 – REQUISITA, no prazo de 5 (cinco) dias, encaminhe a esta Procuradoria da República resposta pertinente ao acatamento do que se recomendou acima, enumerando as providências consequentemente adotadas; bem como relação de todos os atos político-partidários relacionados ao impeachment da Presidente da República que tenham contado com algum tipo de participação dessa instituição, apontando data, hora, local, meios utilizados e responsável pela respectiva autorização administrativa.”

Em resposta ao MPF, o Conselho Universitário daquela instituição divulgou nota corajosa que reproduzo abaixo:

Documento foi elaborado em resposta à Recomendação Nº 75, de 4 de abril de 2016, do Ministério Público Federal (MPF/GO)

“O Conselho Universitário (CONSUNI) da Universidade Federal de Goiás (UFG) reunido na data de 08/04/2016 considera que a dinâmica acadêmica demanda, em suas práticas de ensino, pesquisa, inovação e extensão, o diálogo aberto com a sociedade em sua totalidade. Entendemos que o cenário de instabilidade política requer que a Universidade se antecipe, dialogue, investigue e realize debates públicos em busca de respostas para os problemas sociais, evitando a construção de saber enviesado e distante da sociedade.

Assim, o Consuni repudia a recomendação do MPF/GO de que a Universidade se abstenha de promover ou participar de atividades cujo tema se relacione ao debate político em torno do impeachment. Entendemos ainda que tal recomendação fere a autonomia e a liberdade para aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber como bens necessários para que se desenvolva o conhecimento científico conforme garante a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e o Estatuto da UFG.

Do mesmo modo repudiaremos sempre qualquer atentado à liberdade de expressão e à autonomia universitária.”

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GO: dissertação vê impactos dos reformadores na educação especial

Erika Marinho Witeze defendeu sua dissertação de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás analisando os impactos das políticas dos reformadores empresariais em crianças portadoras de necessidades especiais. Tem como título: “Processos de inclusão/exclusão escolar de estudantes com necessidades educacionais especiais: análise do impacto da Prova Brasil na escolarização do público-alvo da educação especial em duas escolas estaduais da cidade de Goiânia”. O trabalho teve a orientação do Prof. Régis Henrique dos Reis Silva. Abaixo, segue o resumo do trabalho:

“O presente trabalho discute os aspectos envolvidos na participação de alunos com necessidades educacionais especiais na Prova Brasil, tendo como recorte duas escolas estaduais da cidade de Goiânia-GO. A partir dos dados coletados em campo e de entrevistas semiestruturadas com gestores, profissionais de apoio e professores de recursos, explicitamos as tensões e contradições vividas pelos estabelecimentos investigados na compatibilização entre dois modelos distintos de avaliação e organização do trabalho pedagógico: o primeiro, fundamentado no reconhecimento da diversidade e na flexibilização dos conteúdos curriculares, dos recursos didáticos e das temporalidades; o segundo, ordenado a partir da homogeneização do desempenho dos alunos nos testes padronizados, numa perspectiva classificatória e mercadológica.

Veremos como a busca pelo aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e o controle verticalizado dos resultados nos exames externos acirra a competição entre escolas, justificando mecanismos como a responsabilização, a meritocracia e a privatização do ensino público. Discutimos também em que medida a lógica neotecnicista interfere nas formas de organização do currículo, das rotinas escolares e do trabalho docente, em consonância com as diretrizes definidas pelo Ministério da Educação (MEC) e pelas agências multilaterais como o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A partir dos marcos legais e da produção acadêmica no campo da educação inclusiva e das avaliações em larga escala, falamos das consequências das práticas de regulação e monitoramento do ensino no campo da educação especial. Evidenciamos, além disso a coexistência de processos de inclusão/exclusão, decorrentes da estruturação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) no Brasil.

Outro ponto problematizado em nosso estudo refere-se aos limites do discurso em defesa das diferenças no enfrentamento das várias formas de exclusão e marginalização de alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação no contexto neoliberal. Nessa perspectiva, analisamos as possíveis contribuições da Avaliação Institucional Participativa (AIP) – como estratégia de cunho contra regulatório – na elaboração de padrões de qualidade socialmente referenciados, que possam servir de suporte para o trabalho educativo nas escolas inclusivas.”

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RJ: estudantes ocupam escolas

Os estudantes secundaristas continuam assumindo protagonismo nas lutas pela educação pública. No Rio de Janeiro, até ontem, eram 15 as escolas ocupadas. Estudantes que participaram das ocupações de São Paulo prestam sua solidariedade e contam suas experiências aos alunos do Rio para transferir formas de organização da luta. Também os estudantes de Goiás que recentemente ocuparam escolas dão dicas. Cresce a articulação entre os estudantes.

Entre as reivindicações estão as necessidades de mudanças no currículo das escolas e o fim do Sistema de Avaliação do Estado do Rio de Janeiro, o SAERJ. Os estudantes apoiam também a greve dos professores do Rio que já está chegando em 40 dias.

Infelizmente, quanto à primeira reivindicação os estudantes cometem o erro de querer que as mudanças se voltem para preparar para o ENEM. Aqui, o erro está em não colocar em pauta uma educação para além do ENEM. Esta posição seria mais coerente com a outra reivindicação que é exatamente o fim do SAERJ. Os estudantes também reivindicam o fim do corte de verbas para a educação.

Veja mais sobre a questão aqui, aqui e aqui.

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A entrevista de Mercadante

Com obviedades do tipo “a educação não pode parar em tempos de crise” ou frases como “ou o Congresso se debruça sobre o financiamento da educação ou não adianta dizer para repassar o recurso que nós não temos”; “temos que fazer mais com menos” e outras, Mercadante dá entrevista onde continua sua trajetória confusa pela educação. Depois de comentar o lançamento do portal “A hora do ENEM”, uma plataforma para “treinar estudantes para a prova”:

“O Ministro falou também sobre a necessidade de uma lei que regule as greves de professores: “É um direito, mas não podemos ter greves prolongadas que prejudiquem o processo de aprendizagem”, disse.”

A fala dele é idêntica à de Samuel Pessoa na Folha de São Paulo, o coordenador da campanha de Aécio Neves para quem é preciso:

“votar lei de greve de servidor que proteja os interesses dos cidadãos”.

Mercadante não percebe que a lei de greve será usada na fase pós-golpe para calar uma das áreas em que haverá resistências às políticas neoliberais, ou seja, o serviço público. Isso porque suas “teses” já estão se igualando tanto àquelas, que ele já não consegue mais distinguir. É o que também mostra o trecho seguinte de sua entrevista. O Ministro:

“defendeu mais investimento para a educação básica e sugeriu a criação de um fundo de contribuição de ex-alunos de universidades públicas. “O aluno sai, se depois teve êxito, se é de uma família que tem posses, por que ele não pode contribuir para a universidade que ele estudou de graça? Em modelos internacionais, há universidades que se financiam principalmente com essa iniciativa, precisamos criar essa cultura. Esse fundo seria gerido pelos conselhos universitários, portanto só pode ser aplicado naquilo que a legislação estabelecer e é uma gestão pública desse recurso.”

Mais ainda:

“Eu sou totalmente favorável a essa recomendação do Congresso Nacional de que na pós-graduação lato sensu você cobre pelo curso. Um profissional que já está formado e vai ter especialização, por que ele não paga, ajudando inclusive a financiar a bolsa de estudo daqueles que não podem ficar na universidade?”.

Lamentável. A entrevista poderia ter sido interessante a julgar pelo posicionamento do Ministro em relação à privatização do ensino:

“Agência Brasil: O que o senhor acha sobre a transferência da gestão de escolas públicas, por exemplo, a organizações sociais?

Mercadante: É possível ter bons modelos de gestão dentro de uma visão de escola pública. O modelo de voucher [que permite que dinheiro público seja usado para pagamento de matrículas em escolas particulares] que, no fundo, é o que está por trás, começou lá no final dos anos 50, 60, nos Estados Unidos. Só 3% da rede americana foi nessa direção. Não há nenhum estudo acadêmico que diga que isso melhorou a educação. A educação é universal. Nos países que têm os melhores sistemas de educação, a escola é pública. Toda a rede tem que ter qualidade, precisamos inovar, melhorar a gestão, por isso a formação de professores, por isso esses novos instrumentos, mas eu não acho que privatizar a gestão vá resolver o problema da qualidade da educação.”

E nisso ele está correto. Embora o Ministro confunda terceirização de gestão com voucher, que é outra forma de privatização, ele generaliza sua crítica contra processos de privatização. Valeu, neste caso, pela reafirmação da educação pública.

Este é o zig-zag do governo Dilma e seus ministros.

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Americana(SP): Fóruns de Educação Infantil protestam

 MANIFESTO CONTRA A TERCEIRIZAÇÃO DE PROFISSIONAIS DOCENTES NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O FPEI vem manifestar-se contra a terceirização de profissionais docentes na educação infantil no Município de Americana-SP, como uma política de precarização do trabalho na educação infantil. Temos como prioridade na nossa carta de princípios a defesa pela Educação Infantil Pública e por profissionais docentes concursados no serviço público.

Reconhecemos o cenário atual de crise econômica e política, no entanto, defendemos e acreditamos que o enfrentamento ao momento histórico pelo qual passa o Estado brasileiro precisa ser feito sem ceder às tendências conservadoras, fascistas, privatistas e fundamentalistas em curso e reafirmamos o compromisso de promoção e garantia dos direitos humanos arduamente conquistados pelas lutas sociais e que têm importância fundamental no amadurecimento do processo democrático brasileiro.

Desse modo, vimos a público nos manifestar contra a terceirização da Educação Infantil no município de Americana e não aceitamos propostas que desrespeitem os preceitos garantidos em Lei para o atendimento a esta etapa da educação. Posicionamo-nos contra toda e qualquer forma de privatização da Educação Infantil, quer seja no âmbito do acesso, dos processos pedagógicos ou da gestão, mantendo-nos na luta por políticas públicas de educação que aumentem, com qualidade, o quantitativo de Centros de Educação Infantil para todas as crianças, com profissionais qualificados e concursados no serviço público.

Assinam

  • Fórum Paulista de Educação Infantil – FPEI
  • Centros de Estudos Educação e Sociedade – CEDES
  • Fórum de Educação Infantil da Região de Sorocaba
  • Fórum Municipal de Educação Infantil de Vinhedo – FMEIV
  • Fórum Municipal de Educação Infantil de Campinas – FMEIC
  • Movimento Interforuns de Educação Infantil do Brasil – MIEIB
  • Fórum Municipal de Educação Infantil de São Paulo – FMEISP
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Bastos comenta a “Hora do ENEM”

“Tenta-se replicar em nosso país o atual funcionamento das escolas públicas estadunidenses, marcado pela obsessão em aferir o desempenho acadêmico dos alunos por meio da utilização de testes padronizados de larga escala (de aplicação censitária), a ponto de comprometer a quantidade de tempo destinada à própria instrução, principalmente dos alunos desfavorecidos.

A maioria dos pesquisadores sérios (independentes) em educação já advertiram que esses testes não possuem a eficácia, a abrangência e nem a idoneidade necessárias para contemplar em toda sua complexidade as dimensões cognitivas do desenvolvimento intelectual do educando, sem falar nas igualmente relevantes dimensões não-cognitivas.

Vige no senso comum o entendimento de que os testes padronizados de aprendizagem são instrumentos científicos confiáveis, tão objetivos e precisos como um termômetro ou qualquer outro dispositivo utilizado para medições no âmbito da ciência. Nada mais ilusório. Pesquiso em minha Tese de Doutorado, no bojo do assalto à educação pública em escala global, as limitações desse tipo de avaliação discente.

A primeira limitação refere-se à abrangência do conteúdo testado. Tais tipos de testes conseguem atingir apenas uma pequena amostra de um amplo campo cognitivo, ou do conteúdo de uma determinada disciplina, a ser ministrada em uma série escolar específica. Por essa razão, a nota do aluno em um teste dessa espécie não consegue espelhar o seu nível de aprendizagem de todo o conteúdo a ser ministrado. E mais: não conseguem também mensurar as habilidades não cognitivas interpessoais , e nem as individuais, tais como a capacidades de escutar, de refletir, o controle dos impulsos, a paciência, a persistência, a empatia, a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, a resiliência, a autodisciplina, a desenvoltura, as responsabilidades social e ambiental, a dimensão cívica, e outras de mesma índole e importância social. Ambos os tipos de capacidades não cognitivas, as interpessoais e as individuais, interagem com as habilidades cognitivas para o desenvolvimento integral do ser humano.

Tendo em mente que os pais desejam obter para seus filhos, das escolas, habilidades acadêmicas e conhecimentos básicos, pensamento crítico e resolução de problemas, apreciação das artes e da literatura, preparação para o emprego qualificado, habilidades sociais e ética de trabalho, cidadania e responsabilidade pela comunidade, saúde física e saúde emocional, é importante que eles saibam que, desses oito objetivos, os testes padronizados apenas começam a medir O PRIMEIRO. Todos os demais são completamente inatingíveis por meio dessa patológica obsessão por skinnerianos testes padronizados.

A maioria das pesquisas acadêmicas sobre avaliação discente atesta que a melhor forma de se mensurar a aprendizagem dos alunos se dá pelas atividades que eles desenvolvem individual e coletivamente, em sala de aula e em casa (seja por meio de tarefas escolares ou de seus próprios projetos independentes), tais como artigos relatando alguma pesquisa, ensaios escritos (dissertações ou composições) e outras produções do gênero, e não recorrendo a testes padronizados.

Esse adestramento para testes padronizados leva ao estreitamento curricular, e aí reside A DIFERENÇA ENTRE TREINAR E EDUCAR.

Um dos efeitos mais daninhos da instituição dos testes padronizados de larga escala como ferramenta nuclear das políticas educacionais de viés empresarial tem sido a subtração do tempo anteriormente destinado à instrução com vistas a intensificar a preparação para aqueles testes, os quais se transformaram de meio de aferição (com todas as suas limitações) do conteúdo que deveria ser ministrado em objetivo último de todo o processo de ensino-aprendizagem, seu zênite supremo. Para atingi-lo, não se mede as consequências do estreitamento curricular que tem engendrado um alunado hábil na aplicação de técnicas e “bizus” com vistas a se sair bem naqueles testes, todavia ignorante de conhecimentos básicos essenciais para a conformação de um adulto minimamente instruído para o convívio em sociedade.”

Remo Bastos

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A “Hora do ENEM”: MEC lança sistema

Governo Federal lança plataforma on line para aluno se preparar para exames do ENEM. O portal é uma parceria do MEC com o Serviço Social da Indústria (SESI), além da TV Escola, canal público do MEC. O Programa foi lançado por Dilma e Mercadante e também estiveram presentes no evento o secretário de Educação do Distrito Federal, Júlio Gregório, que representou o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), e o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, parceiras da iniciativa. Segundo o INEP:

 

“Os participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passam a contar agora com uma ferramenta inédita e gratuita de preparação para as provas do exame. Trata-se da Plataforma Hora do Enem, lançada pelo governo federal nesta terça-feira, 5, no Palácio do Planalto. A iniciativa reúne na internet um conjunto de ações, como simulados e vídeoaulas, para auxiliar na preparação dos estudantes.”

 

Para Mercadante, que apresentou o programa:

“Com duas horas e meia de estudo personalizado, a partir do diagnóstico individual do estudante, a melhora do Enem é da ordem de 30%”, disse.

Segundo a descrição do INEP:

“Ao usar um computador, tablet ou celular para acessar a plataforma, o estudante marca o curso em que quer passar e quanto tempo tem para estudar por dia para o Enem. A partir desse diagnóstico, a plataforma oferece um plano de estudo com pontos fortes e fracos na medida do participante, com exercícios, resumos e videoaulas direcionados.”

O conceito de educação é reduzido, aqui, ao de sair-se bem na prova, ou seja, preparar-se para testes. Este tipo de sistema interativo com “avaliação embarcada” é o que deverá, com o tempo, também chegar às escolas. O Estado de Nova York, nos Estados Unidos, vai gastar 40 milhões de dólares para preparar um sistema deste tipo para suas escolas estaduais. O nome destas plataformas personalizadas de ensino é “competence based instruction”. Voltamos ao conceito de “livro ramificado” de Skinner, nos anos 70. Como se nota, na descrição abaixo, por aqui não será diferente.

“A plataforma Hora do Enem é um aplicativo disponível para web e android que reúne centenas de videoaulas e milhares de exercícios abrangendo toda a matriz de conteúdo do Enem. Permitirá um diagnóstico individual e um plano de estudos personalizado para cada estudante, com base no curso desejado e nas necessidades específicas. O aplicativo ainda permitirá que os gestores das redes públicas e o Ministério da Educação acompanhem o progresso dos alunos até a realização do Enem. Os dados poderão ser utilizados para aprimorar o ensino e direcionar medidas de melhoria na educação pública.”

Acesse aqui a plataforma.

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Americana (SP): educação à venda

Seguindo os passos de Campinas (SP) que já opera com escolas de educação infantil com terceirização de gestão, Americana divulga pregão.

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A mercantilização da educação avança a passos largos nos municípios e estados. A crise fiscal vai criando as justificativas para se entregar a terceiros a responsabilidade do estado.

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PE: Dissertação analisa política dos reformadores

Nesta semana, defendeu sua dissertação de mestrado Maria Lucivânia Souza dos Santos com o título “Políticas de avaliação educacional no Estado de Pernambuco: contra números há argumentos!”, orientada por Katharine Ninive Pinto Silva do Centro Acadêmico do Agreste em Caruaru (PE) da Universidade Federal de Pernambuco.

A experiência dos reformadores empresariais da educação em Pernambuco vem deste o governo de Eduardo Campos e, com quase 10 anos de duração, constitui-se em uma reforma que precisa ser estudada. A pesquisa apresenta elementos importantes que desmistificam os impactos frequentemente alardeados pela imprensa e pelos consultores que trabalharam com a Secretaria de Educação de Pernambuco. A experiência está sendo copiada pelo Estado de São Paulo e por outros estados do nordeste.

O estudo, logo que receber sua versão final, fica disponível para o público nos próximos meses.

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USA: rede conclama boicote nacional aos testes

A Rede pela Educação Pública conduzida por Diane Ravitch, nos Estados Unidos, lançou uma campanha nacional para que os pais retirem suas crianças dos testes padronizados e as impeçam de fazê-los. Segundo esta organização:

“Os testes não têm valor de diagnóstico. Eles são usados para classificação e pontuação dos alunos, professores e escolas, mas não fornecem informações para ajudar os professores ou alunos. Eles são inúteis.

Eles consomem uma quantidade absurda de tempo. Os filhos gastam mais tempo fazendo testes do que os exames legais.

Os testes têm uma exigência absurdamente alta de aprovação, o que garante que a maioria dos alunos irá falhar.

Os testes não ajudam as crianças. Eles prejudicam as crianças. Nós não sabemos como medir o que mais importa.”

Veja nota completa da associação aqui.

No ano passado, mais de meio milhão de pais americanos, retiraram seus filhos dos exames padronizados nos Estados Unidos.

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Os saudosos de FHC e os dilemas do golpe (atualizado)

Atualizado às 17 horas, com a resposta de Dilma ao editorial da Folha de SP.

Em post anterior, afirmei que a segunda onda neoliberal em curso, cuja agenda vinha sendo disputada durante os governos do PT pela oposição, é uma retomada do governo FHC, ou seja, da primeira onda neoliberal ocorrida naquele governo. Em outro, apresentei o que pensa o PMDB para um eventual Governo Temer: um projeto de Estado (neoliberal) e não uma mera troca de presidentes.

É exatamente por isso, que não cabem comparações entre os governos do PT que “flertaram com as políticas neoliberais” (e este blog criticou isso abertamente), e a atual proposta pós-impeachment, pois esta última é uma reforma profunda do próprio Estado em seu conjunto, feita na ótica neoliberal. A razão é muito simples, portanto: se fosse igual ao que o PT vinha fazendo, não precisava trocar o governo com a farsa do impeachment.

Hoje, na Folha de São Paulo, Samuel Pessoa confessa abertamente seu saudosismo em relação ao governo FHC, bem como sintetiza qual é a expectativa do PSDB e que, para ele, responderia aos anseios de 80% da população (sic):

“Um primeiro item dessa agenda já foi identificado: reduzir ao mínimo o intervencionismo estatal no funcionamento dos mercados (…) O estado do bem-estar social e o nacional-desenvolvimentismo não cabem no Orçamento.”

Um segundo item da agenda é reformar o funcionamento do Estado. Esse processo está parado desde o governo FHC e precisa ser retomado: modernizar toda a gestão de pessoal do serviço público, votar lei de greve de servidor que proteja os interesses dos cidadãos e criar e adotar como prática corrente a avaliação das políticas públicas com regras legais que garantam o encerramento dessas políticas ou porque atingiram seus objetivos ou porque não funcionam, entre outras providências.” (Os grifos são meus.)

Complementarmente, o co-autor do Programa do candidato derrotado Aécio Neves (PSDB) à presidência da república, também defende que se deve cortar os “programas caros” que garantem universidade pública gratuita “à classe A”, definida amplamente como aqueles que estudaram em escolas particulares.

Eis a visão de futuro dos eventuais “novos governantes” mensageiros da “esperança”.

Veja também, na Folha de São Paulo de hoje (03-04-16) o “dilema” deste jornal: “Nem Dilma, Nem Temer“. A Folha quer que a presidenta renuncie e se façam novas eleições – presumindo, é claro, uma vitória do PSDB nas eleições. Quem sabe até mesmo com Alckmin? Temer não teria a necessária legitimidade. Eis aí um motivo de reflexão para aquela parte da esquerda que está defendendo eleições gerais também. Os extremos se encontram?

Para a Folha, penso eu, somente o PSDB seria confiável para conduzir este processo de reforma o qual requer a legitimidade eleitoral (inclusive pela extensão dos danos sociais previstos com a reforma). Para a Folha, há uma “minoria expressiva” (sic) que apoia a presidenta – um novo conceito criado. Os liberais temem fazer a lição de casa pela metade, parando em Temer. Temem também a reação desta “minoria expressiva”. Até para se reprimir é preciso ter legitimidade, na visão liberal. Não é sem razão que Samuel Pessoa, acima, quer uma “lei de greve que proteja o cidadão”. O caminho mais rápido e com menos custo político (e histórico), para este jornal, seria a renúncia da presidenta e de Temer. Mas, nada indica que este caminho fácil (da renúncia) levará o PSDB até a presidência.

Veja resposta de Dilma ao editorial da Folha: “jamais renunciarei”.

Embolou, pois, afastada Dilma, Temer (PMDB – o partido da “boquinha”) vira presidente e Cunha (sim, ele, imerso em suspeitas de corrupção) vira “vice-presidente”. Daí que a Folha desejaria, de fato, que o Tribunal Superior Eleitoral julgasse e afastasse ambos de imediato, antes do impeachment, abrindo caminho para novas eleições em 90 dias, pela qual emergeria um PSDB legitimado. Mas, o que fazer com Cunha neste período? Eis os dilemas do golpe.

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Governo Temer: um “novo” projeto para o Estado

Quem achar que estamos apenas diante de uma “troca de presidente” pode se enganar redondamente. A questão é muito mais profunda. Trata-se, de fato, de uma nova configuração de estado e de desenvolvimento para o país que as elites empresariais e financeiras exigem que seja posta em prática, sem o que não aceitam investir no Brasil. Separei, abaixo, os eventuais impactos para a área da educação.

Portanto, argumentar em defesa do estado de direito e contra “golpes de caneta” é necessário, mas já não é mais suficiente. Passado o susto inicial, há que se debruçar sobre as propostas que um eventual governo Temer está articulando. Ver-se-á que estamos diante de uma nova onda neoliberal em complemento à realizada por FHC antes dos governos do PT. Portanto, é fundamental que politizemos esta questão do golpe para além da defesa do estado de direito: não ao golpe e não ao projeto de arrocho neoliberal.

A nova proposta de Estado começou a ser elaborada no final do ano passado com a divulgação de um programa pelo PMDB chamado “Ponte para o Futuro”. Este projeto inicial sofreu já algumas alterações conforme mostra Carta Capital.

Em sua versão original, já são claras as evidências de uma formulação destinada a mudar o que foi concretizado até aqui na Constituição de 88 e nas políticas públicas que se seguiram com os governos do PT. Neste documento, lê-se que:

“Nosso propósito é criar as condições para o crescimento sustentado da economia brasileira (…) Para cumprir estes princípios será necessário um grande esforço legislativo porque as leis existentes são, em grande parte, incompatíveis com eles. Vamos precisar aprovar leis e emendas constitucionais que, preservando as conquistas autenticamente civilizatórias expressas em nossa ordem legal, aproveite os mais de 25 anos de experiência decorridos após a promulgação da Carta Magna, para corrigir suas disfuncionalidades e reordenar com mais justiça e racionalidade os termos dos conflitos distributivos arbitrados pelos processos legislativos e as ações dos governos. Essas reformas legislativas são o primeiro passo da jornada e precisam ser feitas rapidamente, para que todos os efeitos virtuosos da nossa trajetória fiscal prevista produzam plenamente seus efeitos já no presente. Será uma grande virada institucional (…)” (p. 16)

Como se vê, é a Constituição de 88 que está na mira das alterações propostas. O que são “conquistas civilizatórias”? Um termo para se diferenciar de “conquistas sociais”? É o que esclarece o trecho seguinte:

“O ajuste fiscal não é um objetivo por si mesmo. Seu fim é o crescimento econômico que, no nosso caso, sem ele, é apenas uma proclamação vazia.Nos últimos anos o crescimento foi movido por ganhos extraordinários do setor externo e o aumento do consumo das famílias, alimentado pelo crescimento da renda pessoal e pela expansão do crédito ao consumo. Esses motores esgotaram-se e um novo ciclo de crescimento deverá apoiar-se no investimento privado e nos ganhos de competitividade do setor externo, tanto do agronegócio, quanto do setor industrial.” (p. 17).

“Temos que viabilizar a participação mais efetiva e predominante do setor privado na construção e operação de infraestrutura, em modelos de negócio que respeitem a lógica das decisões econômicas privadas, sem intervenções que distorçam os incentivos de mercado, inclusive respeitando o realismo tarifário. Em segundo lugar, o Estado deve cooperar com o setor privado na abertura dos mercados externos, buscando com sinceridade o maior número possível de alianças ou parcerias regionais, que incluam, além da redução de tarifas, a convergência de normas, na forma das parcerias que estão sendo negociadas na Ásia e no Atlântico Norte. Devemos nos preparar rapidamente para uma abertura comercial que torne nosso setor produtivo mais competitivo, graças ao acesso a bens de capital, tecnologia e insumos importados.”

Note-se acima, o “dedo” do capital internacional.

“Em terceiro lugar caberá ao Estado, operado por uma maioria política articulada com os objetivos deste crescimento, com base na livre iniciativa, na livre competição e na busca por integração com os mercados externos, realizar ajustes legislativos em áreas críticas. (p. 17).

Na visão de Carta Capital, temos abaixo as propostas iniciais do documento ‘Ponte para o futuro’ comentadas. Separei aquelas de maior impacto para a educação:

“1) Novo regime orçamentário, com o fim de todas as vinculações de receitas. Dito dessa forma, parece uma medida burocrática. Mas é simplesmente o fim de todo o modelo de financiamento da Educação e da Saúde Pública brasileira.”

“3) Fim de todas as indexações, seja para salários, benefícios previdenciários e tudo o mais. Quando a indexação é pelo salário mínimo, como é o caso dos benefícios sociais, a distorção se torna mais grave, pois assegura a eles um aumento real, com prejuízo para todos os demais itens do orçamento público, que terão necessariamente que ceder espaço para este aumento.”

7) Estabelecer um limite para as despesas de custeio inferior ao crescimento do PIB, através de lei, após serem eliminadas as vinculações e as indexações que engessam o orçamento. Isso gerará estagnação econômica, dificuldade de tirar o país da recessão e pode tornar o país ingovernável a menos que acabe ou desmonte boa parte dos programas sociais.

8) Ampliar a idade mínima para a aposentadoria, de sorte que as pessoas passem mais tempo de suas vidas trabalhando e contribuindo, e menos tempo aposentados. Querem uma idade mínima que não seja inferior a 65 anos para os homens e 60 anos para as mulheres, com previsão da idade mínima aumentar dependendo dos dados demográficos.

9) É indispensável que se elimine a indexação de qualquer benefício, inclusive aposentadorias e auxílios a pessoas deficientes, ao valor do salário mínimo.

12) Privatizações. Executar uma política de desenvolvimento centrada na iniciativa privada, por meio de transferências de ativos que se fizerem necessárias, concessões amplas em todas as áreas de logística e infraestrutura

13) Fim do Regime de Partilha para o Pré-Sal

19) Reduzir os gastos sociais em assistência, saúde e educação. Eufemisticamente propõem estabelecer uma agenda de “transparência” e de “avaliação de políticas públicas”, que permita a identificação dos beneficiários, e a análise dos impactos dos programas. O documento afirma que “o Brasil gasta muito com políticas públicas com resultados piores do que a maioria dos países relevantes”

20) Fim da CLT. Na área trabalhista, permitir que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais.

Novas propostas que vão ser incluídas no documento “Ponte para o futuro:

“Neste domingo, 27 de março, o Jornal Estado de São Paulo publicou novas propostas complementares ao documento “Uma Ponte para o Futuro”, também coordenadas pelo Moreira Franco:

4) Estender o Pro-uni para o ensino médio com o objetivo de privatizar de forma muito mais generalizada o ensino médio.

5) Limitar o Pronatec que é um sistema de bolsas de ensino para cursos profissionalizantes rápidos para a camada mais pobre da população e que tem muita dificuldade material e não-material de realizar cursos profissionalizantes tradicionais que são extensos, dispendiosos ou focados para jovens com bom embasamento educacional.

6) Limitar as concessões de empréstimos estudantis pelo FIES. O objetivo declarado é gerar mais “meritrocracia”.  Na prática, isso significa que milhões e milhões de jovens deixarão de ter acesso à universidade.

7) Concentrar os programas sociais apenas aos mais miseráveis, os 10% mais pobres, que vivem com menos de 1 dólar por dia.”

É esta política que nos espera no dia seguinte ao impeachment.

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Saviani: “é golpe sim”.

A CRISE POLÍTICA ATUAL: UMA GRANDE FARSA
Dermeval Saviani
Professor Emérito da UNICAMP e Pesquisador Emérito do CNPq.  Educador

A crise que se abateu sobre o país tem sido justificada em nome do combate à corrupção e, por meio da insistente repetição dos diversos meios de comunicação, vem induzindo a população a acreditar que foi o PT que, ao chegar ao governo, institucionalizou a corrupção instalando uma verdadeira quadrilha empenhada na apropriação privada dos fundos públicos. Mas a verdade é bem outra. O erro do PT foi, ao assumir o governo, não ter tentado desmontar o esquema que já existia e do qual se serviam todos os partidos que chegavam ao poder. Ao contrário, para assegurar uma base de apoio no Congresso sem o que não conseguiria governar, o PT lançou mão do esquema que já se encontrava em funcionamento muito antes do seu surgimento. Portanto, o apelo atual à luta contra a corrupção não passa de uma grande farsa.

Como afirmou o delegado da Polícia Federal Armando Coelho Neto, que se aposentou faz apenas dois anos e foi presidente da Associação dos Delegados da Polícia Federal, a PF na era FHC estava desaparelhada e carecia de autonomia tendo havido, inclusive, um empréstimo francês para seu aparelhamento que, embora recebido e o governo já estivesse pagando juros, não foi utilizado por falta de planejamento. Em contrapartida, a gestão Dilma tomou treze medidas que aparelharam a Polícia Federal e lhe deram autonomia, assegurando-lhe condições de atuar fortemente na investigação dos atos ilícitos, em especial no caso da corrupção. Mas ele constata que, na verdade, não se está lutando contra a corrupção. Se isso estivesse ocorrendo outras operações estariam em curso.

A Operação Zelotes, por exemplo, está abafada porque nela estão envolvidos grandes personagens da política, grandes empresas e bancos, grupos de comunicação, à testa a Rede Globo, num grande escândalo intermediado pelo Banco HSBC que, por conta disso, acabou se retirando do país.

Na própria Operação Lava-Jato as delações trouxeram à baila nomes do PSDB e de outros partidos que, no entanto, são blindados. A Conclusão do ex-presidente da Associação dos Delegados da Polícia Federal é que o que está em curso não é uma luta contra a corrupção, mas uma guerra contra o governo e o PT.

Bresser-Pereira, por sua vez, que foi um dos mais importantes ministros do governo FHC, tem evidenciado o ódio dos endinheirados contra o PT e, num dos últimos vídeos ele afirma que nos governos de Lula e Dilma os pobres ficaram menos pobres e os ricos mais ricos, sendo que a classe média foi a menos beneficiada. Daí, o cultivo do ódio da classe média contra o PT, ódio incentivado com a insistência da mídia que diariamente, repetindo à exaustão, se dedica a esmiuçar denúncias não comprovadas contra Dilma, Lula e o PT. E isso é muito perigoso porque está em curso uma onda fascista que se manifestou explicitamente com saudações nazifascistas e incitação ao armamento da população, como o fez o deputado Jair Bolsonaro. Este, segundo consta, teria sido avisado previamente da condução coercitiva do Lula que, segundo o plano seria levado preso de Congonhas para Curitiba num jatinho que já estava pronto para decolar, quando a operação foi abortada pelo destacamento da aeronáutica que faz a segurança do aeroporto de Congonhas.

Mas Bolsonaro já teria se dirigido a Curitiba para lá incitar a população a se manifestar em apoio à prisão de Lula assim que ele chegasse à carceragem. É um quadro muito preocupante que nos faz lembrar da Alemanha das décadas de 1920 e 1930 com a ascensão de Hitler, apoiado pelo fanatismo que se apossou da população. Naquela situação também a Justiça se revelou draconiana com as ações da esquerda e complacente com a truculência da direita. Agora, no Brasil, está em curso iniciativas que, como observou o jurista Fábio Conder Comparato, deixa o Estado de Direito em frangalhos, com violações de normas constitucionais.

A situação é muito grave e, ao que parece, o golpe irá se consumar porque todas as instituições da República (Judiciário, Ministério Público, a própria OAB, Parlamento, Partidos políticos, toda a grande mídia televisiva, escrita e falada) encontram-se conspurcadas e obcecadas com o único objetivo de destruir o PT e impedir Lula de voltar a se candidatar. E, para isso, não têm pejo em violar as normas jurídicas relativas aos direitos mais elementares, inclusive dispositivos constitucionais.

A hipocrisia é tanta que jornalistas, representantes do Judiciário e parlamentares repetem à exaustão que Lula não pode ser ministro porque é investigado, ao mesmo tempo em que se posicionam a favor do impeachment que vem sendo conduzido e manipulado por um parlamentar que não apenas é investigado, mas é réu e se mantém como Presidente da Câmara dos Deputados sendo, nessa condição, o segundo na sucessão da Presidência da República. Então, a pergunta que não quer calar é: por que Eduardo Cunha, que é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal, pode continuar como deputado e, mesmo, como Presidente da Câmara obstruindo a Comissão de Ética e articulando todos os passos do processo de impeachment; e  Lula, que apenas está sendo investigado, não pode assumir a Casa Civil?  Diga-se de passagem que esse impedimento é também violação da Constituição a qual determina que a nomeação de ministros no âmbito do Poder Executivo é prerrogativa exclusiva da Presidência da República.

Sim, o que está em curso é um golpe. Claro que o impeachment está previsto na Constituição não podendo, pois, por si mesmo, ser caracterizado como golpe. Mas quando esse mecanismo é acionado como pretexto para derrubar um governo democraticamente eleito sem que seja preenchida a condição que a Constituição prescreve para que se acione esse mecanismo, ou seja, a ocorrência de crime de responsabilidade, então não cabe tergiversar. O nome apropriado nesse caso não é outro. É, mesmo, Golpe de Estado, pois a Constituição não estará sendo respeitada, mas violada. E até agora, nenhuma das alegações apresentadas para justificar o impeachment caracteriza crime de responsabilidade. Aliás, Dilma sequer está sendo investigada ao passo que a Comissão do impeachment tem mais da metade de seus membros em investigação e, no conjunto da Câmara, 302 deputados encontram-se na mesma situação.

A farsa está, pois, escancarada: um bando de corruptos julgando e condenando uma presidenta que não cometeu crime algum. E, como a oposição ensandecida deverá, engrossada pelo PMDB, conseguir maioria para aprovar o golpe, restará ao Supremo, cumprindo seu papel de guardião da Constituição, evitar esse desfecho. Se isso não acontecer, a farsa se transformará em tragédia. E o Estado Democrático de Direito deixará de existir no Brasil, vitimado por um Golpe de Estado jurídico-midiático-parlamentar. É, pois, de suma importância uma grande mobilização das forças democráticas, independentemente de partidos e da avaliação positiva ou negativa do governo Dilma, para evitar essa tragédia.

Campinas, 31 de março de 2016.

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SP: bônus será mantido

Acabou a novela. Governo Alckmin recua e pagará bônus por desempenho.

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PR: tese sobre o PISA

No dia de ontem (28-03-16) Gisele Adriana Maciel Pereira defendeu tese de doutorado com o título “O PISA como parâmetro de qualidade para as políticas educacionais no Brasil e na Espanha: pressupostos epistemológicos”, orientada por Rose Meri Trojan, da Universidade Federal do Paraná, Setor de Educação.

O trabalho desvela as categorias envolvidas na montagem da avaliação internacional da OCDE, conhecida como Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA – que inclui o embate entre os conceitos de igualdade e equidade; resiliência; auto-eficácia e individualismo – todas induzidas pelas políticas da OCDE.

Trata-se de significativa contribuição ao entendimento da política que orienta as reformas empresariais da educação.

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SP: incorporação de bônus avança

O bônus para os servidores da educação paulista não será pago. Haveria um reajuste de 2,5% em abril para toda a categoria com estes recursos. Projeto de lei está pronto e foi apresentado aos sindicatos.

Veja matéria aqui.

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Uma nova onda neoliberal

Depois do impeachment de Fernando Collor, veio a primeira onda neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Há razões para se acreditar que depois do impeachment de Dilma, teremos uma segunda onda neoliberal comandada pela oposição, PMDB à frente.

Mais ainda, Dilma não tem como parar a operação Lava Jato da Polícia Federal porque a mesma foi, basicamente, feita contra ela, o PT e Lula. Moro, que conduz a Lava Jato, é um juiz que já foi criticado, no passado recente, por supostos excessos em investigações e, pasme, por ninguém menos do que o próprio Gilmar Mendes.

Toda a pressão por geração de evidências que conduzam ao impeachment recai sobre o empresariado nacional pego pela Lava Jato, o mesmo empresariado que deu sustentação ao governo Lula e Dilma, enquanto o empresariado internacional que sempre foi contra e que está envolvido no escândalo do Metro de SP está fora da prisão. Mas, sem Dilma e Lula desaparece o motivo para se manter a Lava Jato, abrindo caminho para um grande acordão que salve os políticos que estão sendo processados com foro especial, via STF. Ou seja, aprovar o impeachment de Dilma pode ter virado tábua de salvação de boa parte do Congresso que vê, neste, o fim das investigações.

Diz-se que impeachment não é golpe porque está previsto na constituição. Sim, mas as condições para se aplicar o dispositivo exigem que haja crime de responsabilidade e, se isso for seguido, não há como justificar o mesmo no caso de Dilma. Impeachment não é golpe apenas se as regras do jogo forem seguidas. Se não forem, é golpe sim. Aqui entra o Supremo Tribunal Federal, único, a meu ver, que pode parar este processo, se houver mobilização social.

“Pedalada fiscal” não dá impeachment e não há nenhuma investigação em curso sobre envolvimento de Dilma com as propinas. Ou seja, até agora, não há crime de responsabilidade. A Lava Jato está pressionando os executivos da Odebrecht como cartada final para ver se sai algo. No presidencialismo não cabe “voto de desconfiança” do Congresso sob pressão “das ruas”, isso é coisa do regime parlamentarista que a população brasileira rejeitou em plebiscito. Presidente não é Primeiro Ministro que o Congresso derruba em uma votação sob pressão das ruas ou de pesquisas de opinião.

Se isto for adiante, o que ocorrerá com a educação?

O desejo do PSDB na privatização não é segredo e o PMDB acompanha. São os governos do PSDB que já estão puxando, hoje, a privatização em Goiás, Pará e em São Paulo. Mas isso, está sendo feito em pequena escala. Trata-se, agora, de montar uma política pública em larga escala para induzí-la para a federação. Os documentos de Mangabeira que tanto nos horrorizaram, parecerão coisa de principiante.

Examinando o que se tem dito para um eventual governo de transição do PMDB, alguns desenvolveram a convicção de que haverá uma grande onda neoliberal de privatização do Estado brasileiro, em especial da educação e da saúde (ver aqui, na fala do último palestrante). Mas não só.

Está em curso um amplo processo que começa com o impeachment, mas não se sabe onde terminará. Possivelmente com a alteração da própria constituição de 88 com a retirada de despesas constitucionalizadas (entre elas as da educação) a revisão do Plano Nacional de Educação (adeus 10% do PIB) e a retirada de direitos sociais hoje garantidos por ela, sem falar de ampla reformulação das relações de trabalho que pode chegar até à substituição da atual CLT. Revisão de regras de aposentadoria e aumento da idade mínima para aposentar, e, claro, a destruição do serviço público pela privatização. É um projeto para um novo estado brasileiro.

Dias trágicos se aproximam para a educação brasileira. A hora é agora.

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“Povo” x “militantes”: preparando a nova lógica da repressão?

O momento atual exige um posicionamento claro de todos. Com todo respeito aos leitores deste Blog, não posso deixar de me posicionar também. É preciso que a História saiba em que lugar cada um de nós estávamos, quando os fatos em curso se concretizarem.

Passei por dois golpes ao longo da vida. Um no Brasil, em 64 e outro no Chile, em 73. Ambos foram golpes conduzidos com o protagonismo dos conservadores. Conservadores, dão golpes arregimentando os militares, uma instituição que aparece para o público como honesta e imparcial, além de apartidária. À semelhança da Polícia Federal e do Judiciário neste momento. A diferença é que um tem o poder do “canhão” e o outro da “caneta”. Eu escrevi “da caneta”, porque é por ela que se registra a interpretação das leis. A lei sempre precisa ser interpretada ao ser aplicada, pois se fosse tão objetiva, não precisaríamos ter “advogados” e “juizes”.

Caiu de moda o golpe com canhão. Foi substituído por algo que poderia ser chamado de “golpe da caneta dos liberais” – que, é claro, nunca dispensa totalmente o trabalho sujo dos conservadores. Na verdade, os liberais sempre se esconderam atrás dos conservadores nestes momentos e enquanto conveniente. Agora estão invertendo o protagonismo, para não ter que bancar historicamente e judicialmente os “estragos do canhão”.

Parece que passarei por um terceiro golpe. Não consigo entender como uma presidente que teve mais de 50 milhões de votos, pode ser declarada impedida, sem motivos, com a “justificativa” de que “as ruas”, ou seja, apenas 3 milhões de pessoas, assim pedem. Ou, ainda, porque as pesquisas de opinião não lhe são favoráveis e a maioria não considera seu governo bom ou razoável. A matemática não fecha. E é por isso que é golpe, a despeito do nome que se queira dar a ele.

O atual golpe é de estilo “liberal”. Não envolve, portanto, os militares e nem está ancorado na igreja – duas instituições que normalmente compuseram os golpes que tinham a hegemonia conservadora. Não pelo menos abertamente. Costuma-se dizer que para se dar um golpe ao estilo conservador, se faz necessário um jornalista, um padre, um político e um militar. As demais áreas, são submetidas quando necessário à força, inclusive o judiciário e a polícia.

No golpe liberal, não é necessário ter explicitamente um padre e um militar. Mas é fundamental ter alguém no judiciário com poder (STF), alguém na polícia (PF), a mídia e alguém no congresso (Cunha). O golpe de 64 fechou o Congresso. Naquela época, o Congresso fez um papel mais digno do que o atual congresso faz. Hoje, a mídia, associada à ação da PF, apoiada no judiciário e turbinada por manifestações de rua, constituem o eixo do golpe, acompanhado e referendado pelo congresso atual. Tudo flui pelos meandros da “interpretação jurídica”, assentada na caneta supostamente imparcial dos julgadores – ora a PF, ora o Judiciário, ora o congresso. Se o juiz é a favor do golpe, é imparcial; se é contra, é porque houve “bolivarianismo”. A mídia repercute seletivamente para insuflar as ruas.

Mas, no dia de ontem, houve uma mudança no discurso liberal que é digna de registro. Todo golpe leva à repressão. O atual golpe em curso, começa a preparar a lógica da repressão. O discurso inicial apareceu ontem na mídia por arautos do Estadão, entre eles, Eliane Cantanhede. Uma perigosa diferenciação começa a ser estabelecida entre os cidadãos. Nos golpes anteriores a dicotomia era entre “povo” e “subversivo”. Quem era a favor do golpe militar era chamado de “povo”; quem era contra, era chamado de “subversivo”. Subversivo era a senha para se aceitar a repressão dos que discordavam do golpe. Entre os “subversivos” estavam os “comunistas”, mas não só. Se eram comunistas (ou se pareciam estavam com eles) mereciam. Vimos no que deu.

O discurso que começa a ser construído no golpe liberal brasileiro, prepara a reedição desta dicotomia: existe agora o “povo” que foi às ruas contra o governo e os “militantes” que pertencem ao PT e às organizações sociais e que apoiam o governo. Segundo esta visão, as manifestações anti-governo, são feitas por pessoas comuns que não têm experiência em mobilização, que não têm a militância, ou seja, cidadãos nobres; as manifestações pró-governo, são feitas por profissionais da política com grande experiência em arregimentar pessoas, comunistas ou amigos deles como o MTST e o MST. Constituem uma minoria que precisa ser derrotada pelo “povo” ordeiro e trabalhador que sofre com a recessão produzida por um governo incompetente. O discurso do ódio, unifica a direita.

Esta configuração como alertam alguns é extremamente perigosa. Os liberais não têm uma liderança sequer que seja aceita para falar aos participantes em suas próprias manifestações “apartidárias”. Aécio e Alckimin não duraram 20 minutos na avenida e tiveram que retirar-se sob vaias nas próprias manifestações anti-governo promovidas por eles. Ao contrário, a manifestação de ontem, contou com um discurso que durou uma hora, feito por Lula, e que saiu da avenida ovacionado pela massa. Outras lideranças políticas estiveram presentes e não foram vaiadas. Todos foram ouvidos.

Eis a acefalia política que as manifestações contra o governo estão produzindo no pais guiados por apelos liberais que queimam as pontes entre as ruas e a política, criando o eixo golpista que vai da PF e do Judiciário para as ruas, com a concordância do congresso e o entusiasmo da mídia, mas sem o próprio protagonismo dos políticos liberais que fogem das ruas. Os militares foram substituídos pelos “Moros” e correlatos. Os políticos pelos Cunhas e Aécios e estes sem aceitação nas manifestações. Este é o eixo do apartidarismo oportunista que leva ao incentivo para a criação de milícias que resolvem agir fora da institucionalidade, movidas pelo sentimento de impotência no campo da política, criado pelos liberais. Estão semeando o ódio.

Vivi para ajudar a derrotar os outros dois golpes conservadores, torço para viver e ajudar a derrotar mais este golpe, agora de estilo liberal, se ele vier a se concretizar. Os golpistas (conservadores e liberais) não aprendem que as contradições são mais fortes e continuarão a atuar, mesmo depois do golpe e com mais intensidade ainda. Estão tão cegos que querem neutralizar a única liderança capaz de falar às ruas e pregar, certo ou errado, a conciliação de classes que, no fundo, é uma proposta dos próprios liberais. Inverteu-se: os liberais incentivam o ódio; os “militantes” o entendimento.

Para a educação, este retrocesso será lamentável. Para o campo da avaliação educacional idem. Ele trará com ênfase maior toda a política dos reformadores empresariais da educação para o centro da política pública, acompanhada de todas as consequências que os golpes produzem em um país.

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INEP: novo presidente nomeado

O novo presidente do INEP foi nomeado. Segundo a Folha de SP é Luiz Roberto Liza Curi. Ele é sociólogo e economista:

“Curi é membro do CNE (Conselho Nacional de Educação) e tem fortes ligações com o setor privado de educação. Até 2014, foi diretor de ensino superior do grupo Pearson no Brasil. A Pearson, empresa de origem britânica, controla o Sistema de Ensino COC, Dom Bosco e Pueri Domus. Entre os sócios da Pearson no país está Chaim Zaher, que também é acionista do Grupo Estácio –uma das maiores companhias da educação superior.”

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O discurso da “comunidade” – I

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, depois de engasgar com a reorganização das escolas no ano passado, anuncia 15 reuniões do Secretário com estudantes espalhadas pelo Estado para discutir “a escola que queremos”. Qual o significado disso?

Há uma saudável insistência para que a “comunidade” seja envolvida nas transformações propostas para a educação e mais especificamente para a escola. Este discurso tem estado presente no questionamento que o Ministério Público tem feito de algumas propostas governamentais e também na própria fala dos que damos o enfrentamento a tais políticas empresariais na educação. É mesmo uma tradição nas propostas da esfera progressista. Estaria agora o discurso da “comunidade” (interna e externa à escola) passando para a fala dos liberais/conservadores, os quais atendendo aos procuradores do MP  e à pressão dos estudantes resolveram ser mais “democráticos” em suas reformas?

O pressuposto da ampliação dos interlocutores é que, se ampliamos a discussão, então podemos encontrar mais adesão para um caminho alternativo às propostas dos reformadores. Mas teríamos, nós, um poder de influência igual ou superior ao deles sobre os agentes sociais e sobre os profissionais da escola? Haveria algo como uma igualdade de oportunidade para convencer outros parceiros? Em se tratando dos reformadores, um empresariado com fartos recursos econômicos e midiáticos, isso pode não ser verdadeiro.

Não existe “a comunidade” como um bloco homogêneo. Os sociólogos já se encarregaram de explicar isso. O que existe são “classes sociais” com interesses distintos e não raramente antagônicos e que possuem “poderes” diferentes de intervenção social. Quando uma classe se torna hegemônica, ela tende a liderar as demais e convencê-las de que tem as melhores propostas para organizar e conduzir a “comunidade”, através de um complexo sistema que envolve o estado, o governo e a própria sociedade civil. Mesmo no interior da escola há uma micro política do poder.

Estes grupos possuem poderes de arregimentar influências que são desiguais. Imaginar homogeneidade, é ingenuidade. Disso não se deduz que não devemos ouvir os profissionais da escola e a sociedade mais ampla. Mas aqui já começa uma diferença: devemos “ouvir” ou “envolver na elaboração da solução”? Ou seja, devemos ter clareza de que o “diálogo” não será “um passeio no parque”, sendo necessário muita clareza de propósitos e unidade de ação – algo que tem estado em falta ultimamente. A avalanche conservadora que se abate sobre nosso país, não promete ajudar-nos.

Como temos divulgado por este Blog, os Estados Unidos é o país que mais utilizou os princípios dos reformadores empresariais para “consertar” as escolas. Tais princípios, até agora, estiveram baseados no entendimento de que as reformas educacionais devem ser implantadas “top down”, ou seja, “de cima para baixo” para impedir que elas sejam “capturadas” pelos sindicatos; de que é necessário responsabilizar as escolas e seus professores para que a qualidade da educação melhore; que para tal, os sistemas de avaliação externa devem orientar o pagamento dos professores na medida em que seus alunos demonstrem, nos testes, haver aprendizagem; há que se definir uma base nacional comum que sirva para definir uma avaliação externa da escola; há que se estabelecer consequências para os que não demonstrem avanços na qualidade do ensino; e que são necessários novos materiais didáticos que permitam caminhos individualizados através de recursos eletrônicos, entre outros. As variáveis externas à escola, não haviam recebido até agora atenção específica.

O enfoque corrente, no entanto, tem demonstrado ao longo do tempo seus limites e os próprios reformadores começam a se dar conta destes (o fracasso da experiência de Zuckerberg, dono do Facebook, em Newark é paradigmático). Apenas responsabilizar a escola e seus profissionais não tem permitido alavancar a qualidade da educação e até mesmo tem posto parte da “comunidade” contra estas políticas e não raramente a favor dos profissionais da educação. Por aqui, o fracasso da “reorganização” no Estado de São Paulo chamou a atenção para isso. Por lá, não é desprezível que mais de meio milhão de pais tenha aderido ao movimento pela retirada de seus filhos dos testes de larga escala nos Estados Unidos. Por outro lado, os estudos não param de apontar os limites destas políticas. A nova lei da educação americana fez avanços pelo menos em relação ao poder dos Estados americanos sobre o seu próprio sistema de ensino, neutralizando os efeitos da federação sobre as escolas, e dando mais atribuições a eles.

No Brasil, ainda estamos sob o impacto da primeira onda de reformas empresariais que aposta no controle da escola (e da federação) focalizando no que acontece em seu interior, em especial na sala de aula. Mas tem ficado claro, cada vez mais, que o interior da escola não está isolado do que ocorre no exterior da escola, em especial na “comunidade” e isso inclui as condições de vida da população e o estabelecimento de alianças com as lideranças comunitárias.

A pobreza, que até pouco tempo era considerada uma mera “desculpa” para encobrir o fracasso da escola, começa ainda que de forma envergonhada, a ocupar outro lugar e começa a ser vista também como um limitador externo à tarefa da escola. Mais de 50% dos fatores que afetam o desempenho dos alunos depende de variáveis que estão fora da escola, nos dizem os estudos.

Isto tem feito emergir entre os reformadores americanos um “novo” discurso sobre a importância da “comunidade” nos processos de melhoria da qualidade da educação. Recentemente, pode-se notar alguns movimentos que tendem a incorporar esta visão mais ampla na solução dos reformadores empresariais da educação, ampliando o foco anteriormente aplicado exclusivamente à escola e tentando enxergar a “comunidade” como parte da solução. De fato, os reformadores sempre arregimentaram uma parte da comunidade para solucionar o problema da escola através da captação de recursos financeiros via filantropia provenientes das empresas. Mas as soluções propostas centravam na questão do que acontecia na sala de aula, via transferência dos métodos de administração empresariais para o aparato educacional. Mas agora, aspectos da “comunidade” passam a ser pautados como “fatores a serem controlados”, simultaneamente ao controle da escola, antes restrito ao processo pedagógico e de gestão.

A proximidade de discursos pode causar confusão e até danos aos movimentos que enfrentam as políticas dos reformadores empresariais. De fato, o que os reformadores se deram conta é de que precisam disputar – com os sindicatos, partidos, associações e lideranças locais – a difusão de suas concepções junto à comunidade de forma a pressionar (em especial através dos pais, mas não só) as mesmas mudanças que já fazem parte de seu ideário. Trata-se de cercar a escola e seus profissionais de fora para dentro, com a finalidade de viabilizar seu projeto de controle da gestão e de controle do processo pedagógico das escolas já em curso. Com que enfoque vamos enfrentar este debate inevitável? O que revela esta inflexão da Secretaria de Educação do Estado de SP? Mera coincidência?

Em outro post apresentaremos evidências da mudança dos reformadores nesta direção, provenientes da “meca dos reformadores empresariais”, e tentaremos indicar alguns dos componentes que deveríamos incluir neste “diálogo”. No entanto, o que queremos é estimular a análise do problema, mais do que fornecer uma solução. Precisamos de mais gente debruçada sobre isso.

Continua no próximo post.

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Ensino médio integral: segregação?

O CENPEC divulgou uma pesquisa realizada em quatro estados brasileiros sobre o ensino médio. A pesquisa está sendo veiculada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo para validar as ações do estado nesta área. Mas, a julgar pelas considerações que Maria Alice Setubal, do próprio CENPEC, faz sobre os resultados da pesquisa, em seu blog na UOL, e pela leitura do próprio relatório da pesquisa, penso que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo deixou de comentar outros aspectos que menos lhe convém.

A Secretaria de Educação, explorou o lado quantitativo:

“A Educação de São Paulo possui um dos melhores índices de ensino do país. Foi o que revelou uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC), divulgada nesta semana. Além da capital paulista, foram avaliados os índices dos estados do Ceará, Pernambuco e Goiás, todos selecionados pelos bons indicadores de resultados obtidos em medidas como investimento em reformas curriculares, crescimento no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), entre outros fatores.

Para a pesquisa, o centro utilizou o procedimento de pesquisa quantitativa e qualitativa. No que tange o atendimento populacional a alunos com faixa etária de 15 a 17 anos, por exemplo, a pesquisa mostrou que, em 2014, cerca de 82,6% dos jovens brasileiros estavam matriculados nas escolas pelo país. São Paulo, porém, obteve um percentual acima da taxa nacional, com 87,2% dos estudantes matriculados nas escolas paulistas.

Também foram entrevistados 669 estudantes da 2º série do Ensino Médio dos quatro estados analisados. Para os jovens matriculados em unidades de ensino localizadas em territórios vulneráveis, a escola é um espaço de sociabilidade. Com relação à frequência nas aulas do Ensino Médio, São Paulo também está à frente dos demais estados na pesquisa, com um percentual de 75,1% de frequência dos estudantes na aula. Para se ter uma ideia, a taxa mais baixa de frequência dos estados avaliados é de Pernambuco, no qual apenas 50% dos alunos com idade entre 15 e 17 anos estão matriculados no segmento.

São Paulo também foi o estado brasileiro que mais diminuiu o percentual de alunos com idade entre 18 a 29 anos que não concluíram o Ensino Médio. De acordo com o CENPEC, a cidade diminuiu de aproximadamente 40% em 2005 para um percentual menor que 20% em 2014.

A pesquisa ainda indicou o percentual de matrícula dos alunos dos quatro estados citados e no Brasil por turno. Enquanto no Brasil a taxa de alunos matriculados no período matutino é de 52,97%, São Paulo possui taxa de 59,07, superando a média nacional no turno. Na cidade também chama a atenção o peso das matrículas no período noturno, com 36,10%, taxa superior em relação à média nacional, de 30,78% de alunos matriculados no turno.

Os dados do CENPEC revelaram também que as unidades do Programa de Ensino Integral possuem melhor reputação junto à comunidade escolar e de instituições de excelência.”

Maria Alice, em seu Blog, explorou outro aspecto:

“O Cenpec divulgou na semana passada os resultados de uma pesquisa sobre o ensino médio realizada nos Estados de São Paulo, Goiás, Pernambuco e Ceará. Uma das principais descobertas foi de que em todos os Estados pesquisados há uma política na qual a gestão das escolas é focada sobretudo na melhoria dos resultados dos indicadores de aprendizagem – por exemplo, o desempenho dos alunos em avaliações como o Saeb. As diferenças entre cada Estado estão na forma como eles articulam o currículo, o monitoramento, a avaliação e a formação de professores.”

Do ponto de vista de atendimento, ela diz:

“Aí se encontra o nosso principal problema, pois, por exemplo, apenas 2,1% dos alunos de Goiás e 2,9% em São Paulo, 12,4% no Ceará e 34,7% dos alunos em Pernambuco conseguem se matricular em escolas de tempo integral no ensino médio. Isso agrava as desigualdades e revela nossa incapacidade de garantir o direito de todos a uma educação de qualidade.”

Além do foco na preparação para os testes e na pouca abrangência, há um outro aspecto fundamental que ela aponta e que se refere à seleção direta ou indireta de alunos com maior nível cultural e econômico, vinculando estas escolas predominantemente à classe média, devido ao teto máximo de vagas estabelecido para estas escolas. Nesta mesma direção, uma das conclusões do relatório afirma que:

“Mas a própria análise trouxe indicadores de que as escolas integrais e diurnas possuem melhores condições para assegurar uma educação de qualidade, de suas taxas de distorção idade-série ao regime de trabalho dos docentes. Ela mostra que, tendendo a se matricular em diferentes tipos de escolas de acordo com a origem social, os jovens tendem a terminar por ter condições desiguais de desenvolvimento e aprendizado: a oportunidades educativas desiguais.”

Não há surpresa, de fato. As secretarias dos estados envolvidos na pesquisa estão focando na melhoria dos índices em provas (de fato estão “ensinando para os testes”) e por outro lado, algumas colocam em marcha experiências diferenciadas de ensino médio integral que têm como modelo a experiência privatizante de Pernambuco – em especial no que se refere ao Estado de São Paulo, onde ela é igualmente financiada por um conjunto de fundações empresariais, tal qual em Pernambuco. Sabemos pela literatura de pesquisa, que esta política não resolve a questão da segregação escolar e pode até aumenta-la.

Isso porque esta matriz de reforma escolar faz com que a concepção educacional esteja não só voltada para os exames, mas também para a criação de ilhas de excelência no ensino médio que drenam os alunos mais motivados ou melhor posicionados economicamente para elas, enfoque que nos propôs abertamente o Prof. Mangabeira Unger em seu documento sobre a Pátria Educadora.

Finalmente, mais uma vez é bom lembrar que nota mais alta não é sinônimo de boa educação (veja aqui e aqui).

Leia texto integral de Maria Alice aqui.

O relatório da pesquisa do CENPEC pode ser acessado aqui.

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SP: incorporar o bônus

A solução para resolver o problema do aumento salarial para os professores da rede do estado de São Paulo está indicada corretamente pelo Sindicato dos Professores – APEOESP : incorporar o bônus ao salário dos professores como aumento salarial.

“Saímos com zero de reajuste no ano passado. Um professor de educação básica com nível universitário ganha R$ 2.420 por 40 horas semanais. Se tiver zero de reajuste de novo, vão condenar o professor à miséria”, afirmou a sindicalista. A dirigente aponta ainda que não há comprovação de que o bônus melhore o desempenho dos colégios.”

Pagamento de bônus é um dinheiro que é mal gasto. Bônus nunca melhorou a educação em nenhuma parte do mundo. A Cidade de Nova York, de onde São Paulo copiou a moda, já parou há muito tempo de pagar bônus e a argumentação de Bloomberg, então Prefeito que implantou e o suspendeu, foi exatamente a de que não queria continuar jogando dinheiro no lixo. São Paulo continua a jogar. O Estado utiliza a solução há mais de uma década sem que tenha nenhum sucesso (veja aquiaqui e aqui também).

“O prefeito [de Nova York] argumentou que há apenas uma maneira de se saber se novas abordagens funcionam – e esta é experimentá-las.

“Eu acho que deveríamos ter orgulho disso – do fato de que temos a coragem de sentar-se lá e dizer que achávamos que era uma boa ideia [pagar bônus aos professores], não funcionou e estamos parando-a”, disse ele. “Nós não vamos desperdiçar o dinheiro público.”

Portanto, ao invés de deixar os professores do estado novamente sem reajuste, uma boa destinação para estes recursos é a sua incorporação ao salário dos professores, encerrando esta experiência que não tem repercussão na qualidade da educação paulista. Alguns “sacerdotes” da ideia irão protestar, mas sem fundamento.

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SP: bônus para professores pode não sair

O governo de São Paulo está em dúvida quanto à possibilidade de pagar ou não o bônus correspondente a 2,9 salários a mais por ano aos professores.

“O secretário estadual da Educação, José Renato Nalini, disse na segunda-feira (7) que ainda é incerto se o Estado vai pagar o bônus anual por desempenho a professores e funcionários da rede estadual de ensino. A razão seria a crise financeira enfrentada pelo País.

A bonificação por resultado garante em média até 2,9 salários a mais por ano aos funcionários da Educação, dependendo do resultado da escola na avaliação de desempenho educacional do Estado, o Saresp.”

Há pelo menos duas razões pelas quais concordamos que ele não deveria, de fato, pagar este bônus:

  1. É ineficiente como forma de administração pública, conforme mostram as pesquisas que avaliaram esta questão, em especial, na cidade de Nova York. Bloomberg suspendeu o bônus por lá dizendo que não queria “continuar jogando dinheiro fora”. Há muito que criticamos neste blog esta política.
  2. Porque é uma época de crises e de baixos recursos e, novamente, com mais força ainda não se deve jogar dinheiro fora.
  3. Não houve melhoria na educação pública paulista, o que confirma a sua inutilidade.

Que outro ensinamento podemos tirar destas estratégias dos reformadores empresariais?

  1. Os professores devem aprender que só o seu salário tem a garantia de recebimento. Penduricalhos, por mais atrativos que tenham, não têm garantia. Portanto, a luta é por salário decente e não por penduricalhos. Trocar o certo pelo incerto, não é boa política.
  2. Esta política de associação de bônus a desempenho, leva ao estreitamento curricular e corrompe a educação brasileira.
  3. Os reformadores empresariais têm muitas destas ideias que destroem a política pública e a convertem em precariedades sujeitas a “bons tempos na economia”. Costumam colocar a educação na mão da filantropia empresarial e esta, só tem dinheiro para dar se a economia vai bem. Portanto, fica aí mais uma aprendizagem.
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Newark: “Por que não fazer a coisa certa?”

Dale Russakoff publicou recentemente o livro: “The prize: who’s in charge of america’s schools?” (2015). Neste livro, ele nos dá uma descrição do que foi a tentativa de Mark Zuckerberg, dono do Facebook, de estrear na filantropia apoiando a reforma empresarial da educação de Newark no estado de New Jersey. A ideia era transformar Newark em um símbolo da excelência educacional para toda a nação. Foram doados 100 milhões de dólares. Este dinheiro, segundo o autor, aparentemente “enriqueceu” muita gente, menos os estudantes de Newark.

Com a decisão de passar 40% das crianças para escolas charters a cidade viu seu sistema escolar público ser destruído. As escolas charters escolheram estudantes mais bem posicionados econômica ou motivacionalmente, deixando para as escolas públicas dos bairros (quando não foram fechadas) aqueles com maiores dificuldades.

O livro de Russakoff nos fala da experiência de Newark e de como uma liderança negra e popular foi alçada a instrumento de um plano para reformar as escolas públicas tentando transformá-las em um exemplo nacional. O desafio era fazer isso em uma localidade extremamente pobre para mostrar que as escolas charters eram melhores do que as escolas públicas consideradas caóticas. A conexão com as fundações e financiadores de Wall Street foi estabelecida para captar recursos privados que catapultassem a política de implantação de escolas charters transformando Newark na “capital das escolas charters” dos Estados Unidos. Serviria de exemplo nacional.

Entre dezembro de 2009 e julho de 2010 constroi-se um pacto entre o governador Chris Christie do estado de New Jersey e o prefeito de Newark, Cory Booker, uma liderança popular. Poucas cidades dos Estados Unidos sofreram um impacto da recessão econômica como Newark, gerando uma pobreza brutal e causando o êxito da população, especialmente branca. Apesar das diferenças entre o governador e o prefeito, o olhar destes para a educação pública era o mesmo: viam um sistema dominado pelos sindicatos e políticos que não focava nas crianças.

O modelo de intervenção foi: introdução de escolas charters, responsabilização no estilo usado nos negócios para diretores e professores baseada na pontuação dos testes dos estudantes, bônus para os melhores desempenhos. Houve debate e questionamento se estas medidas produziriam os efeitos que pensavam. Décadas de pesquisa apontavam para uma maior influência das experiências tidas no lar e na vizinhança, do que a influência da sala de aula poderia produzir.

Mas os reformadores estavam convencidos do contrário. Eles achavam que escolas bem administradas com flexibilidade para recrutar os melhores professores poderiam ter impacto superior aos efeitos da pobreza, lares desfeitos e exposição à violência. Booker e seus reformadores respondiam que “sabiam o que funcionava” e que estes argumentos estavam apenas procurando justificativa para não ensinar. O governador Christie então desafiou: “Por que não fazer a coisa certa?” E os filantropos foram então chamados para financiar o desafio.

Em um rascunho do plano de reforma da educação de Newark, Russakoff resgata a posição de Booker:

“Ele defende uma reforma impositiva de cima para baixo, alertando que um processo político mais aberto poderia ser capturado pelos sindicatos e pela máquina política.”

O autor conta como o prefeito de Newark obteve a doação, em um jantar com grandes nomes da filantropia americana, entre eles Zuckerberg que à época queria aplicar em uma grande ação na área educacional, em um local pobre, para servir de um efeito demonstração que provasse ser possível melhorar o desempenho de crianças pobres. Na verdade, Zuckerberg estava interessado em aprender sobre filantropia, era um novato no ramo.

O acordo para a doação foi construído em 2010 a partir de uma agenda produzida pela McKinsey. A implementação da proposta teve o cuidado de envolver a comunidade em uma campanha chamada “Parceiros da Educação de Newark”: o lema era “É nosso objetivo ouvir a voz de cada cidadão de Newark”. Mas, isso de fato foi menos um processo de envolvimento e muito mais “relações públicas”.

200 milhões de dólares, incluindo os 100 milhões de Zuckerberg, e cinco anos mais tarde, Howard Fuller resume o sentimento de frustração que tomou conta dos reformadores empresariais dizendo: “Penso que muitos de nós reformadores – e eu me incluo nisso – temos sido muito arrogantes.”

Na eleição de 2014 para substituir o prefeito Booker (agora um Senador), a educação foi uma questão chave. O vencedor foi Ras Baraka, um ex-diretor de colégio que tomou posição contra muitas das mudanças que estavam sendo feitas como resultado da doação de Zuckerberg.

Em outubro de 2015, Baraka, o atual prefeito, reagiu negativamente à possibilidade de expansão das escolas charters na cidade dizendo que isso seria algo altamente irresponsável. Ele considerou que a expansão se faz às custas dos recursos que deveriam ser gastos com 60% das escolas públicas ainda existentes em Newark. Mas para chegar a essa constatação, um longo caminho foi trilhado na pretensa “capital das escolas charters”. É isso que mostra o livro de Russakoff.

Para o sindicato dos professores de Newark, a expansão das charters continua a selecionar os alunos de melhor desempenho, deixando as escolas públicas com uma população mais concentrada de alunos com maiores dificuldades e mais caros para educar – ao mesmo tempo em que drena do sistema público os recursos financeiros necessários para fornecer a esses alunos uma educação de qualidade.

Zuckerberg está aprimorando seus métodos de filantropia e agora está interessado na Baía de San Francisco. Como fica o financiamento das escolas em Newark?

“No ano passado, Zuckerberg e sua esposa, Priscilla Chan, anunciaram uma doação de US $ 120 milhões para melhorar a educação, especialmente de estudantes de baixa renda, na área da Baía de San Francisco. A startup de Zuckerberg “Education Foundation” diz que está aplicando algumas lições aprendidas em Newark, especialmente sobre “a importância de parcerias comunitárias significativas.”

Entre o que diz ter aprendido está o entendimento de que deve trabalhar menos com políticos e com a burocracia e mais com a comunidade e com as escolas. Reformas de cima para baixo, não se sustentam ao longo do tempo.

Ao contrário do que afirmaram, aparentemente, os reformadores não sabiam “como fazer a coisa certa”. E não há garantias de que tenham de fato aprendido.

A aparente superioridade das charters em Newark é fortemente questionada.  (Ver aqui e aqui.) Jersey Jazzman, segundo Ravitch:

“Usando dados do estado, ele demonstra que as escolas públicas de Newark gastam mais em instrução do que as escolas charters da cidade; que elas gastam muito mais com serviços de Apoio ao Estudante – orientadores educacionais, enfermeiros, bibliotecários, psicólogos – do que as charters; que elas gastam mais com pessoal de apoio do que as charters; que elas têm menores custos administrativos do que qualquer charter em Newark; que os custos de salários administrativos é menor nas escolas públicas de Newark do que na maioria das charters de Newark.”

A tentação do atalho vai continuar motivando os reformadores empresariais a achar um caminho rápido para o sucesso contra a pobreza através da educação. Como mostrou Newark, não há. Melhorar as escolas e reduzir a pobreza são ações simultâneas.

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