As omissões na fala de Temer

O pronunciamento de Temer foi o esperado. Exceto por dois motivos:

a) Temer não mencionou a reforma política, cuja inexistência reafirma a corrupção. Pressionado, não pode deixar de incluir o apoio à operação Lava Jato, mas esta é só o sintoma da falta de reforma política. Com sete de seus ministros citados ou envolvidos na operação, o tema da reforma política causaria insatisfação na nova maioria que está sendo construída no Congresso para sustentar o seu governo. A mídia deixou barato a falta de referência à reforma política.

b) Temer também retomou o discurso da privatização da era Fernando Henrique Cardoso. Naquela época, FHC dizia que o estado deveria ser privatizado para que ele pudesse de fato cuidar da educação, saúde e segurança. Sugeriria esta fala de Temer que em seu governo a educação não será privatizada?

Não é o que parece. Esta omissão ocorre porque o governo Temer entende que só há privatização quando se vende o Estado. Como ainda não se pretende vender escolas e hospitais, a forma de terceirização pensada é outra. O modelo de Temer é o mesmo da privatização em Goiás. Este modelo acredita que terceirizar a gestão das escolas para organizações sociais não é privatização, já que o patrimônio, em si, continua do estado. Portanto, não inclui a terceirização da gestão entre as formas de privatização. A omissão à privatização da educação em sua fala apenas oculta uma forma diferente de fazê-la.

A privatização da educação, como se sabe, é feita fundamentalmente por vouchers (financiamento na forma de bolsas à iniciativa privada) ou por terceirização da gestão, quando organizações sociais assumem a gestão das escolas. Ambas formas estão garantidas no governo Temer, sob a alegação de que isso não é privatizar. Seu Ministro da Educação está na origem da privatização da educação em Pernambuco.

A privatização, no entanto, vem sempre antecedida pelas políticas de meritocracia e responsabilização vertical das escolas (via avaliação), formas normalmente utilizadas para depreciar a educação pública, culpabilizar professores e justificar sua privatização. O PNE tem todos os elementos para que esta política seja desenvolvida e há outros instrumentos sendo elaborados.

Mesmo que a Educação Básica esteja nas mãos dos Estados e Municípios, vamos ter o governo federal induzindo estas políticas através da montagem do Sistema Nacional de Educação e da Lei de Responsabilidade Educacional – entre outras determinações do PNE – e da ação cotidiana do MEC na política educacional. Sem contar que as ideias de Mangabeira para a Pátria Educadora poderão ser revigoradas, na prática.

Publicado em Escolas Charters, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

MEC: meritocracia e privatização

A área da educação está entregue à direita, ao DEM (Partido Democrata), que fez a dobradinha com o PSDB no primeiro ciclo das políticas neoliberais no Brasil com a Reforma do Estado. Nas últimas horas houve dúvida se assumiria Mendonça Filho ou José Carlos Aleluia, ambos do mesmo partido. Temer delegou ao DEM resolver o impasse com a entrada tardia de Aleluia no páreo. Ao final, Mendonça ficou e ele terá na Secretaria Executiva do MEC Maria Helena Guimarães Castro, a “pop star” das reformas empresariais da educação no Brasil. Maria Helena é remanescente do grupo de Paulo Renato Costa Souza. Foi também Secretária da Educação do Estado de SP sob controle do PSDB há décadas.

Era esperada esta “terceirização” do MEC para o PSDB já que o DEM é um partido pequeno e não tem quadros na área. Maria Helena participou intensamente da elaboração do programa de Aécio Neves nas últimas eleições. Aécio perdeu as eleições.

O Senado confirmou sua intenção de apoiar o golpe do poder judiciário e do poder legislativo contra o poder executivo legitimamente constituído por uma eleição geral. Nesta eleição, 54 milhões de brasileiros escolheram um programa de governo que agora é abandonado em favor da implementação do programa de quem perdeu as eleições, elaborado pela coalização de centro direita encabeçada pelo PSDB. Por isso é golpe: 55 senadores decidiram por 54 milhões.

O PSDB, como bom tucano, de novo está em cima do muro. Apoia mas não quer cargos no primeiro escalão do governo, com exceção de Serra para Relações Exteriores, que não é indicação do PSDB e é cota de Temer. Mas é o programa do PSDB que está sendo plagiado por Temer e que será, à revelia da maioria do povo brasileiro, posto em prática como se vê, agora, na indicação de Maria Helena Castro para o cargo de Secretária Executiva do MEC.

Mendonça Filho é privatista. Em Pernambuco liderou como governador substituto a privatização da CELPE na área da eletricidade e abriu caminho para a privatização da educação com a experimentação em 23 escolas, tendo como Secretário da Educação Mozart Ramos Neves, hoje no Instituto Airton Senna.

No Congresso, tanto a Lei de Responsabilidade Educacional como a Lei do Sistema Nacional de Educação, aguardam com projetos substitutivos, a retomada dos trabalhados para votação. Em ambos os casos, houve retirada de pauta nas últimas sessões para que não fossem votados. Estas duas leis definirão as relações entre o governo federal e os estados e municípios.

Resumo abaixo, o status de variadas leis e projetos vitais para o futuro da educação:

SINAEB, implantado por Portaria do Ministro da Educação, portanto, passível de revisão pelo novo Ministro. Baixe aqui.

ENAMEB, aguarda parecer da Comissão de Constituição e Justiça ao substitutivo já aprovado na Comissão de Educação. Baixe aqui.

LEI DE RESPONSABILIDADE EDUCACIONAL, substitutivo retirado de pauta, aguardando votação em Comissão Especial. Baixe aqui.

SISTEMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO, substitutivo retirado de pauta, aguardando votação na Comissão de Educação. Baixe aqui.

BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR, em andamento no CNE. Baixe aqui a segunda versão da BNCC.

BASE NACIONAL DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES, em andamento na SEB/MEC. Baixe aqui versão preliminar.

Todos estes instrumentos legais conformarão (junto com o PNE) a era da responsabilização verticalizada baseada nas reformas empresariais da educação, regada a meritocracia e privatização.

Publicado em A proposta PSDB 2014, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 1 Comentário

Mendonça Filho (DEM) é o novo Ministro

Mendonça Filho é político de carreira. Formou-se em administração de empresas pela Universidade Federal de Pernambuco e fez um curso de gestão pública na Escola de Governo de Harvard. Sua experiência administrativa mais significativa foi ser vice-governador de Pernambuco junto com Jarbas Vasconcelos, a quem substituiu nos últimos meses de governo. Neste período teve início a privatização da educação em Pernambuco com o envolvimento do Instituto de Co-responsabilidade Educacional à frente.

“Mendoncinha” como é conhecido nos meios políticos, ocupará o Ministério da Educação, agora de fato recompondo a sigla MEC com a incorporação da área da Cultura à da Educação.

Seu partido é o DEM – Democratas – antigo PFL – Partido da Frente Liberal – que compôs com o PSDB a coalisão que conduziu o primeiro ciclo de neoliberalização da política brasileira com Fernando Henrique Cardoso. A ele está entregue, agora, a educação brasileira.

Publicado em Assuntos gerais, Mendonça no Ministério | 6 Comentários

Curi deixa INEP

A dança das cadeiras está em curso. Curi, o atual presidente do INEP teria deixado o cargo, voltando para o CNE. Deve-se esperar mais mudanças ou até mesmo uma reforma mais extensa nesta área a partir da terceirização do MEC para o PSDB. Aguardemos pelo novo presidente do INEP.

Publicado em Assuntos gerais | Deixe um comentário

Maria Helena Castro na Secretaria Executiva do MEC

Maria Helena Castro assume a Secretaria Executiva do MEC, que será comandado por Mendonça Filho do DEM.

Publicado em Assuntos gerais, Mendonça no Ministério | 6 Comentários

Sai decreto sobre formação de professores

Decreto sobre formação de profissionais da educação básica (professores e funcionários de escola) é promulgado. Em uma primeira análise, o decreto não propõe uma articulação com a lógica de avaliação do ENAMEB e do SINAEB, o que é bom, mas mantém a prova nacional para docentes com a finalidade de subsidiar a realização de concursos públicos para ingresso:

Art. 17.  O Ministério da Educação coordenará a realização de prova nacional para docentes para subsidiar os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, mediante adesão, na realização de concursos públicos de admissão de profissionais do magistério da educação básica pública, de maneira a harmonizar a conclusão da formação inicial com o início do exercício profissional.

Baixe aqui o Decreto promulgado.

O texto não esconde a intenção da prova em “harmonizar a conclusão da formação inicial com o início do exercício profissional”, o que conduzirá ao alinhamento das agências formadores com a base comum da formação de professores que está sendo feita pela SEB. A prova nacional mencionada no decreto também será articulada com a base nacional comum curricular em desenvolvimento no CNE e quase inevitavelmente tenderá a se articular com o ENAMEB quando este for aprovado no Congresso.

Leia também estudo do IPEA de 2014 propondo que o exame nacional docente seja um processo de certificação de professores.

Leia mais sobre a Prova Docente e certificação aqui.

Publicado em Avaliação de professores, ENAMEB - Professores, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério | Com a tag | 6 Comentários

USA: charters perdem novamente para as públicas

Novo relatório americano mostra maior eficácia das escolas públicas regulares em relação às taxas de alunos que concluem o ensino médio, em comparação com as escolas charters e outras modalidades. O relatório foi produzido por organizações privadas e não temos conhecimento de ter sido submetido a revisão independente até o momento. Segue breve resumo dos dados.

“A comparação dos tipos de escola [com mais de 100 alunos matriculados] fornece uma perspectiva final de como as escolas regulares, alternativas, charters e virtuais estão se saindo com as medidas de taxa de graduação (ver tabela). Os colégios públicos regulares (não charters e não virtuais) têm a classificação mais alta. Entre estas escolas, apenas 7% delas graduam 67% ou menos dos estudantes e 64% delas graduam 85% ou mais de seus estudantes, com uma taxa média de 85%.

No outro extremo do espectro, 87% das escolas virtuais graduam 67% ou menos de seus estudantes, e apenas 4% tem altas taxas de graduação, com uma taxa média de graduação de 40%. Da mesma forma, mais da metade das escolas alternativas tiveram baixas taxas de graduação, enquanto apenas 8% formou mais de 85% de graduados. Em média, elas tiveram uma taxa de graduação de apenas 52%. As escolas charters tiveram resultados mistos nas taxas de graduação nos estados, com mais de 3 em cada dez escolas graduando menos de 67% dos estudantes e 44% graduando mais de 85% ou mais de seus estudantes.

Isto sugere que as escolas charters , mais do que qualquer outro tipo de escola, tendem a fazer ou muito bem ou muito mal para a graduação de seus alunos. Assim, o desafio é manter e difundir modelos de sucesso, ao mesmo tempo que se encontrem meios para reformar ou substituir as que lutam.

A profundidade do baixo desempenho no sub-conjunto das escolas charters pode ser vista no fato de que 30% das escolas charters de baixa graduação puxam para baixo a taxa média da graduação das escolas charters para 70%, apesar de 44% das escolas charters terem taxas de graduação superiores a 85%.”

Tabela: Escolas de nível médio americanas com altas taxas e baixas taxas de formandos e suas médias globais, por tipo de escola

Tipo de escola Escolas que formam 67% ou menos de seus alunos Escolas que formam 85% ou mais de seus alunos Média global
Escola pública regular 7% 64% 85%
Escolas alternativas 57% 8% 52%
Escolas charters 30% 44% 70%
Escolas Virtuais 87% 4% 40%
Note. The high schools in the above table have a total enrollment of 100 students or more. “Regular” includes only district-run public schools that are non-charter and non-virtual. “Alternative” includes only district-operated alternative high schools. “Charter” includes only regular (non-alternative), non-virtual charter schools. “Virtual” includes only regular (non-alternative) virtual schools.
Sources: U.S. Department of Education, National Center for Education Statistics. (1998-2015). Public Elementary/Secondary School Universe Surveys. U.S. Department of Education through provisional data file of SY2013-14 School Level Four-Year Regulatory Adjusted Cohort Graduation Rates.
Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Privatização, Responsabilização/accountability | 2 Comentários

ENAMEB: alcance e situação atual

O Projeto de Lei do Exame Nacional de Avaliação do Magistério do Ensino Básico – ENAMEB – quando concluída sua votação, instituirá a certificação e avaliação de docentes tanto habilitados nos cursos de licenciatura como os que estão em exercício. Realizar o exame será voluntário, mas os Estados e Municípios poderão incluí-lo como forma de progressão na carreira.

A lógica do exame é baseada nesta “ação voluntária do docente” que é induzida por políticas de remuneração ou acesso à profissão. Em seu parágrafo primeiro ao Artigo terceiro diz:

“Poderão participar do ENAMEB docentes no exercício efetivo do magistério em escolas públicas e privadas, assim como os habilitados para a docência nos termos da legislação educacional vigente e candidatos ao ingresso na carreira do magistério.(grifos meus)”

Em seu parágrafo terceiro no mesmo artigo diz:

“Os sistemas de ensino poderão, a seu critério, utilizar os resultados do ENAMEB como parte dos processos de seleção, via concurso público ou contratação temporária ou emergencial, e de programas de avaliação de conhecimentos e habilidades” (grifos meus).

Simultaneamente, o PL muda o artigo 67 da LDB alterando o inciso IV:

Art. 67. Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público:

“IV – progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, na avaliação de desempenho e na avaliação de conhecimentos” (o destaque refere-se ao que é incluído).

Com isso amarra-se o PL 6114 com a nova formulação incluída na LDB de ter “avaliação de conhecimentos” nos planos de carreira, o que compatibiliza a LDB com o exame de conhecimentos do ENAMEB, já que a LDB em seu formato original fala apenas de progressão baseada em titulação, habilitação ou avaliação de desempenho.

O Projeto de Lei teve sua origem no Senado onde já tramitou. Lá era identificado como PLS 403 e é de 2007, de autoria de Wilson Matos do PSDB. Com a tramitação encerrada no Senado, foi encaminhado à Câmara onde recebeu a identificação de PL 6114 em 2009.

Durante a tramitação na Câmara, foi apensado ao ENAMEB o PL 1088 de 2007 que propunha instituir o exame nacional de certificação de professores, que tinha o parecer favorável de Paulo Renato Costa Souza.

O PL 6144 tramitou e foi aprovado na Comissão de Educação onde a relatora foi a Professora Dorinha e acolheu tanto o 6144 como o 1088, e foi então aprovado um substitutivo (baixe ao final deste post).

Atualmente encontra-se na Comissão de Constituição Justiça e Cidadania onde ingressou em 18-6-15. Seguiu-se o prazo de cinco sessões para apresentação de emendas que se encerrou em 1-7-15. Não há registro de novas ocorrências no sistema da Câmara.

Este Projeto é concomitante a outra ação em curso, o Prova Nacional Docente, atualmente em preparação no INEP por iniciativa de Haddad. Este Exame teve uma aplicação de teste feita há uns dois anos e segundo relato recente no lançamento do SINAEB em 5-5-16 deveria ser aplicado no próximo ano. No entanto, ambos os exames dependem, para sua aplicação, da Base Nacional Comum em andamento no CNE. Portanto, é possível que ele fique parado até que isto seja definido. Assim, a Base Nacional Comum poderá ser induzida pelo próprio exame docente, chegando, dessa forma, também às instituições formadoras que serão “obrigadas” a preparar para o exame.

Se o PL 6144 progredir na Câmara, na CCJC, onde se encontra, terá necessariamente que ser conciliado com o Exame Nacional Docente do INEP.

Com a Lei de Responsabilidade Educacional pressionando os gestores, o ENAMEB será fatalmente uma referência. Se Temer assumir, ele já indicou que é adepto de um programa de certificação associado a bônus:

“Na educação, o partido sugere, por exemplo, a bonificação de professores, por meio de um programa de certificação federal dos profissionais do ensino fundamental e médio. Pela proposta, a União passaria a custear um pagamento adicional à remuneração regular de acordo com os resultados dos docentes.”

Baixe aqui o texto da ENAMEB atualmente em tramitação.

Quando o MEC inventou esta estória de fazer um exame nacional para apoiar os estados na contratação de professores, avisamos que isso ia virar certificação. Está virando.

Publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Com a tag | 1 Comentário

Portal do MEC é pago?

O Portal “Hora do ENEM”, anunciado pelo MEC, está associado a uma empresa que opera com fins lucrativos. É o que nos informam os leitores:

“Caro Prof. Freitas. Talvez já seja de seu conhecimento, mas a Hora do ENEM [Portal anunciado pelo MEC] é puro merchandising. Tenho um parente que tentou se cadastrar hoje na plataforma, e existe uma parte gratuita e outra paga.”

O Blog tentou cadastrar-se no Portal Hora do ENEM e após cadastrar senha passou pelas seguintes telas que comprovam o que o leitor está afirmando:

GeekieHoraEnem

Nesta tela o sistema pergunta se o aluno está matriculado em uma escola de ensino médio. Em seguida, você é dirigido para a Plataforma de Estudos Geekie Games a qual pergunta se você é aluno do último ano do Ensino Médio

PlataformaHoraEnem

E finalmente, se informa não ser aluno do último ano, você é dirigido para a parte paga.

GeekieProPago

Um leitor recebeu o seguinte aviso do site:

 “Aos estudantes que estão se cadastrando na plataforma de estudo da Hora do Enem representada pela Geekie Games, deverão saber que algumas ferramentas de estudo são gratuitas e outras não, a Geekie Games oferece um teste de 9 dias para os alunos conhecerem a plataforma como todo.”

A plataforma gratuita pode ser acessada aqui.  O leitor indaga:

“O aluno que está no último ano do Ensino médio matriculado em uma escola no ano de 2016 terá todos os recursos da plataforma de estudo gratuita, porém, como o INEP/MEC pode divulgar um “produto” em seu site, algo com fins lucrativos. Isso para mim é inconcebível em um sistema público e gratuito.”

Esta é a questão.

A situação é parecida no Estado de São Paulo onde a Geekie também esta associada.  Por hora, pode não ser paga, mas aos poucos terá a mesma destinação. E se não é paga pelo estudante, será paga com recursos públicos diretamente pelo Estado ou pela Federação que comprará acessos à plataforma. Estas empresas estão chegando e abrindo mercado em associação com o poder público.

Leia também aqui.

O mercado está sendo disputado também pela FGV. Leia aqui.

Publicado em Enem, Mercadante no Ministério | 2 Comentários

SP: Secretário não comparece a debate

Nesta semana, o Fórum Desafios do Magistério promovido pela Coordenação Geral da UNICAMP e organizado pelos Profs. Lalo W. Minto e Carolina Catini, com o título:”Desafios da Educação Básica em São Paulo: fechar escolar é o melhor caminho?” aguardou em vão a presença do Secretário de Educação do Estado de São Paulo José Renato Nalini para debater.

O Secretário chegou a vir até à UNICAMP, mas preferiu não entrar no Centro de Convenções para participar da mesa redonda com os estudantes e professores.

Veja aqui a reação dos participantes.

Publicado em Reorganização escolas em São Paulo | 1 Comentário

IDD, o novo índice da educação no SINAEB

Foi divulgada a Portaria ministerial que instituiu o SINAEB – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica. O novo Sistema deve apoiar também a Lei de Responsabilidade Educacional em curso no Congresso e a própria avaliação do PNE. Boa parte dos limites da Portaria advêm do próprio Plano Nacional de Educação – tão comemorado por alguns, mas que carrega perdas importantes que repercutirão nefastamente na educação brasileira – mas nem tudo na Portaria é oriundo do DNA do PNE.

A proposta nasceu dentro do INEP, na Diretoria de Avaliação da Educação Básica – DAEB -, a qual fez um longo estudo que está consubstanciado em documento preliminar distribuído no dia 5 de maio passado, para uma plateia que foi convidada a conhecer o sistema. Embora no decorrer do texto o IDD não apareça, a versão de Projeto de Lei que figura ao final dele, já aponta para esta direção. De fato, sai da DAEB/INEP como proposta de Projeto de Lei e acaba virando Portaria do Ministro. Como Projeto de Lei, ele teria tido a possibilidade de ser debatido pela comunidade educacional, mas como Portaria, foi um ato isolado do Ministro.

O estudo inicial da DAEB tem méritos, procura retomar orientações que nos remetem à criação do SAEB, as quais foram posteriormente depredadas na gestão Reynaldo Fernandes como presidente do INEP. Além disso, alarga os fatores a serem avaliados na Educação Básica. Abre a caixa preta das metodologias usadas nas avaliações do INEP. Mas o Ministro conseguiu piorar a proposta que saiu do INEP. Prestes a eventualmente deixar o governo, o PT fez questão de garantir a paternidade pela criação de mais um índice destrutivo para a educação pública no Brasil, adicionando ao IDEB o IDD – índice de diferença de desempenho dos estudantes.

Os Ministros do PT e os presidentes do INEP que se sucedem não conseguem esconder sua predileção pelas teses de responsabilização verticalizadas defendidas pelos reformadores empresariais da educação. Patinam e acabam incorporando as ideias, como ocorreu com a versão censitária da Prova Brasil (aplicada somente para escolas públicas e deixando a iniciativa privada fora da avaliação censitária) e do próprio IDEB. Nunca está demais insistir que o criador do IDEB, Reynaldo Fernandes, ex-presidente do INEP no governo Lula, é hoje um defensor barulhento da privatização das escolas públicas.

O atual Ministro conseguiu marcar mais um gol contra na escola pública. Nas “suas barbas”, os reformadores empresariais conseguiram emplacar um dispositivo que poderá comprometer o futuro da educação pública brasileira. Trata-se da instituição de mais um índice para a educação: o IDD – índice de diferença de desempenho dos estudantes que comparará o desempenho esperado para uma determinada etapa, escola ou série (e por que não uma sala de aula?) com o realmente obtido.

Tecnicamente, este índice abre a possibilidade para que se passe a controlar a educação brasileira (gestor, escola e professor) por “cálculo de valor agregado”, tentando determinar o impacto da ação pedagógica da escola ou do professor na aprendizagem do aluno, a partir de testes padronizados, ou seja, determinar quanto a escola agregou na aprendizagem do aluno durante um certo período de tempo.

Fica fácil de se ver sua conexão com processos meritocráticos como, por exemplo, os já anunciados por Temer: que propõem uma verba federal destinada a dar bônus para professores nos Estados e Municípios. O IDD, pode vir a ser a base para essa “meritocracia federal”. É inacreditável que os Ministros do PT que passam pelo MEC tenham esta capacidade de implementar o programa alheio, por falta de clareza do que fazer.

A “invenção” do IDD estava insinuada no texto preliminar que saiu da Diretoria de Avaliação Básica. Lá se pode ler no parágrafo quarto do artigo terceiro:

“§ 4º. O Ideb incorporará em sua metodologia de cálculo, informações comparativas que permitam avaliar o efeito do ensino ofertado em cada escola no aprendizado do estudante.”

Neste parágrafo já estava apontado, ainda que não desenvolvido, algum tipo de medida de valor agregado. O texto especifica claramente que o IDEB incorporará em sua metodologia de cálculo informações comparativas – ou seja, medidas iniciais e medidas finais, com o objetivo de se “avaliar o efeito do ensino… no aprendizado do estudante”. Na Portaria do Ministro, este ponto é desenvolvido e ganha status de “índice” no artigo terceiro, inciso III:

“III – o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, Ideb, agregará a este o Índice de Diferença do Desempenho esperado e verificado – IDD dos estudantes da educação básica, entre outros.”

E continua:

“#5º. O IDD será a expressão da diferença dos resultados das avaliações, iniciais e finais, dos estudantes em cada uma das etapas e modalidades da Educação Básica.”

O cálculo de valor agregado foi o modismo mais enfatizado durante o segundo governo de Obama, nos Estados Unidos. Com o fracasso da Lei de Responsabilidade Educacional conhecida como No Child Left Behind, Obama teve que dar um perdão para os Estados continuarem a receber dinheiro federal, mesmo sem terem cumprido os ditames da lei quanto à melhoria da qualidade da educação. Em troca, passou a exigir que os Estados adotassem uma política de avaliação dos professores baseada na remuneração destes pelo cálculo de valor agregado nas pontuações dos testes padronizados dos estudantes. O IDD poderá evoluir para isso à medida que a frequência das avaliações aumente. Já há quem defenda avaliação anual no Brasil.

Há várias formas de se medir o cálculo de valor agregado, mas a mais elaborada faz uso de modelos matemáticos e estatísticos cuja estabilidade, para efeitos deste tipo de avaliação, é precária e foi denunciada tanto pela Associação Americana de Estatística como pela academia especializada no tema. (Veja também aqui, aqui, aqui e aqui.)

A nova Portaria do SINAEB menciona o IDD mas não dá indicações precisas sobre como ele será calculado. Mas as pistas levam a se pensar em uma estratégia semelhante à americana, em especial quando falam de comparação entre a “diferença do desempenho esperado e verificado” e entre medições “inicial e final”. Tal indicador poderá ser facilmente capturado pelas políticas de meritocracia e responsabilização em curso.

Deveríamos estar comemorando outros aspectos da Portaria que propõe alguns avanços. Ao invés disso, temos que lamentar mais um passo equivocado e de grande poder destrutivo para a educação pública dado, possivelmente, nos últimos momentos da presença de Mercadante no Ministério da Educação, tendo como horizonte passar seu cargo para nada menos do que um filiado ao DEM, um dos partidos mais à direita da política brasileira – Mendonça Filho.

Publicado em ANA - alunos de 8 anos, Avaliação de professores, Avaliação na Educação Infantil, Ideb, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Prova Brasil, Responsabilização/accountability | 5 Comentários

MEC institui o SINAEB

Foi instituído hoje por Portaria do Ministro da Educação o SINAEB – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica – em articulação com dispositivos do Plano Nacional de Educação. Um Seminário no INEP marcou o lançamento.

Baixe aqui a Portaria do Ministro.

Publicado em ANA - alunos de 8 anos, Links para pesquisas, Prova Brasil, Responsabilização/accountability | 2 Comentários

Chile restringe ranqueamento

Chile restringe divulgação de notas da Prova de Seleção Universitária, algo parecido com o nosso ENEM ou vestibulares. Agora os dados serão públicos somente se as escolas concordarem. Isso evitará os ranqueamentos.

Países que experimentaram os efeitos negativos dos ranqueamentos alinham-se contra a mania de testes e ranqueamentos. As reações contrárias à limitação logo apareceram:

“O Departamento de Avaliação, Medidas e Registros restringiu informações sobre os resultados do PSU para evitar comparação entre os distintos colégios. A partir de agora, os pais somente poderão ter acesso aos dados das escolas se estas decidem torná-los públicos. Especialistas em Educação criticam a medida que evitará os ranqueamentos. Dizem que os pais têm o direito de conhecer o rendimento dos colégios.”

Publicado em Enem, Meritocracia, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Ou Mendonça Filho do DEM no MEC?

Confira aqui esta possibilidade.

Publicado em Assuntos gerais | 2 Comentários

Mozart Ramos na Educação?

Mozart Neves Ramos pode ser o indicado de Temer para assumir o MEC (Ministério da Educação) em um eventual governo Temer.

“Diretor do Instituto Ayrton Senna, Ramos já foi contatado por três integrantes do PMDB próximos a Temer, conforme a reportagem apurou. Membros do Congresso dão como certa a sua indicação.

Antes de assumir o instituto, Ramos foi presidente do Movimento Todos pela Educação e reitor da Universidade Federal de Pernambuco. Ele também foi secretário de Educação de Pernambuco.”

Publicado em Assuntos gerais | 1 Comentário

Mercadante: Temer propõe “um passo para o passado”

A Agência Brasil divulgou hoje posição do Ministro da Educação Aloizio Mercadante sobre as propostas de Temer para a educação. “O Ministro criticou as propostas do PMDB para a educação em um eventual governo do vice-presidente Michel Temer, caso o peemedebista assuma o Palácio do Planalto no lugar da presidenta Dilma Rousseff. Segundo Mercadante, as ideias, apresentadas no documento A Travessia Social, são `um passo em direção ao passado e não ao futuro”.
No documento, elaborado pela Fundação Ulysses Guimarães e ainda não lançado oficialmente, o PMDB expõe uma série de medidas para a área social. Na educação, o partido sugere, por exemplo, a bonificação de professores, por meio de um programa de certificação federal dos profissionais do ensino fundamental e médio. Pela proposta, a União passaria a custear um pagamento adicional à remuneração regular de acordo com os resultados dos docentes.
Segundo Mercadante, iniciativas semelhantes não deram bons resultados. “Internacionalmente, academicamente, as pesquisas não mostram que essa é uma política de resultados seguros. Mesmo experiências no Brasil, como em São Paulo, não tiveram o que se esperava em termos de retorno”, disse.
Orçamento
O petista também criticou a possibilidade de desvinculação de recursos para a educação. A questão é tratada no documento Uma Ponte para o Futuro, divulgado pelo PMDB em outubro do ano passado. No texto, o partido de Temer diz ser “necessário, em primeiro lugar, acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação, em razão do receio de que o Executivo pudesse contingenciar, ou mesmo cortar esses gastos em caso de necessidade”.
“A desvinculação de receita é um grave retrocesso. É um desmonte do PNE [Plano Nacional de Educação], que é uma estratégia extremamente ousada”, disse Mercadante. O PNE estabelece que até 2024, o Brasil invista pelo menos 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação. Atualmente, o investimento é de 6,2%. “A meta 20 [que trata do financiamento] não está resolvida. O que o PNE diz é que precisaríamos de mais receitas para educação”, ponderou o ministro.
A Constituição estabelece que União invista um mínimo de 18% do que arrecada em educação e, estados e municípios, 25% de suas receitas. O fim do mínimo constitucional e a desvinculação de receita, segundo Mercadante, inviabilizaria também a Lei do Piso [Lei 11.738/2008], que define um mínimo a ser pago aos professores. Estados e municípios já manifestaram dificuldades em cumprir a lei.
Sociedade civil
Além de Mercadante, as possíveis mudanças na condução das políticas de educação também foram alvo de críticas de entidades que atuam na área. Para o Fórum Nacional de Educação (FNE), composto por 50 entidades representantes da sociedade civil e do Poder Público, a medidas peemedebistas “são contrárias a tudo o que o movimento educacional aponta para a educação”, de acordo com o coordenador da entidade, Heleno Araújo.
“Investir no melhor desempenho [do professor] e deixar de colocar receita [na educação] é um prejuízo geral do PNE. São políticas paliativas que tentam encobrir a falta de financiamento da educação”, acrescentou Araújo.
A presidente-executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, também apontou problemas nas propostas do PMDB para o setor. “A desvinculação de recursos da educação em um momento em que não se cumpriram sequer as agendas do século passado, em que ainda temos mais de 3 milhões de crianças fora da escola e a minoria aprende o que tem direito, é retrocesso”, disse.
Em relação à bonificação de professores, Priscila disse que a questão é polêmica. Embora bem-sucedida em alguns países, segundo ela, “não há evidência de que a política ajudou a avançar a educação”. A diretora do Todos pela Educação disse que melhorar a formação de professores e tornar a carreira mais atrativa são medidas mais efetivas. O bônus, segundo Priscila, funciona “em países que conseguiram fazer a lição de casa mais forte na base, em que a carreira de professor é muito disputada”, o que não é o caso do Brasil.”
Publicado em Avaliação de professores, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Com a tag | 1 Comentário

Lei de responsabilidade educacional – final

Continuação do post anterior.

O capítulo V em seu único artigo estabelece a penalização quando ocorrer retrocesso dos resultados educacionais nas avaliações nacionais (em comparação com o final da gestão anterior) e houver falta de investimentos nos insumos e processos educacionais, ocorrências que passam a ser caracterizadas como improbidade administrativa.

Definindo as condições de responsabilização, a lei também estabelece que recuos fortuitos ou motivados por força maior não serão objeto de penalização do gestor desde que comprovado que: a) houve priorização de alocação de recursos públicos para o aprimoramento da qualidade; e b) foram garantidos todos os insumos especificados no artigo inicial da lei.

Isso significa que a penalização do gestor só ocorrerá se comprovado simultaneamente a queda (não ocasional) do desempenho dos alunos nas avaliações nacionais e a não garantia de investimento em insumos e processos educacionais. Porém, a não garantia de investimento em insumos acompanhada ou não de queda de indicadores de desempenho é motivo suficiente para responsabilização.

Como forma de acompanhamento durante a gestão a lei propõe: para os três primeiros anos, o gestor deverá submeter anualmente ao Conselho de Educação e ao Poder Legislativo, relatório circunstanciado sobre o cumprimento dos requisitos previstos no artigo 2º. da lei que trata dos investimentos em insumos educacionais. Finalmente a lei dá um prazo de três anos para as redes se adequar aos investimentos previstos no seu art. 2º.).

No entanto, as batalhas perdidas no PNE aumentam os impactos desta LRE. A mais significativa delas está na meta 7.2 que dispõe sobre a necessidade de assegurar que:

a) no quinto ano de vigência deste PNE, pelos menos 70% dos alunos do ensino fundamental e do ensino médio tenham alcançado nível suficiente de aprendizado em relação aos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de seu ano de estudo, e 50% pelo menos, o nível desejável.

b) no último de vigência deste PNE, todos os estudantes do ensino fundamental e do ensino médio tenham alcançado nível suficiente de aprendizado em relação aos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de seu ano de estudos, e 80%, pelo menos, o nível desejável.

O cruzamento da LRE, que visa impedir retrocesso nas medias de desempenho dos alunos, com estes artigos do PNE, levará grande apreensão aos gestores que procurarão se livrar da educação pública estatal e colocar as redes sob controle de entidades privadas como as OS, na forma de terceirização de gestão, de maneira a ter maior controle sobre os resultados dos alunos nos exames e a “terceirizar” também a responsabilidade pela obtenção das metas.

Estas exigências vão acarretar uma grande corrida para ensinar para os testes, mesmo que o investimento em insumos previstos no art. 2o. independa disso para efeito de penalização. O próprio contrato que se fará com as terceirizadas já vai incluir tais exigências especificadas pela lei como responsabilidade das gestoras externas. E não descartemos ajustes posteriores na lei.

Ao oficializar as avaliações baseadas em testes como fonte de medida da qualidade da educação, a lei estimulará a corrida para a melhoria de desempenho nos testes e impedirá que novos e mais adequados sistemas de avaliação sejam criados e desenvolvidos nos estados e municípios.

A Lei de Responsabilidade perdeu, ainda, a grande oportunidade de envolver escolas e administração das redes em processos de autoavaliação negociada que não estivessem restritos a “instrumentos de planejamento estratégico” que facilmente serão vítimas de pacotes de consultorias verticalizadas, dificultando que se avance para formas de responsabilização participativas. O efeito da LRE ao amplificar a responsabilização verticalizada será o de produzir estreitamento curricular e fraudes.

Estes são alguns dos problemas encontrados em uma primeira análise. Certamente os especialistas em financiamento e sistema nacional encontrarão outros.

O lado interessante é que a lei não especifica a retenção de recursos pela União como forma de retaliação para quem não melhora ou cai nos índices de desempenho como ocorreu com a Lei de Responsabilidade Educacional americana. Igualmente, também não especifica um conjunto de medidas punitivas a serem aplicadas progressivamente às redes ou escolas, à medida que os indicadores caiam seguidamente. Segundo o relator, “essa previsão, de certo modo, confronta o que dispõe o art. 25 #3º., da Lei Complementar no. 101 de 4 de maio de 2000”.

Aguardemos os próximos lances da aprovação da Lei.

Publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Privatização, Prova Brasil, Reforma e Fraudes, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Lei de responsabilidade educacional – II

Continuação do post anterior.

Após definir o entendimento do que seja padrão de qualidade da educação básica, o capítulo III trata do financiamento. Para cada um dos padrões da escala mencionada antes (abaixo do básico, básico, adequado e superior) será calculado um valor por aluno ao ano que reflita os custos das respectivas condições de oferta.

O padrão “básico” da escala, corresponderá ao Custo Aluno Qualidade Inicial – CAQi. Segundo o PNE, na meta 20.6, este custo corresponde ao conjunto de padrões mínimos estabelecidos na legislação educacional e cujo financiamento será calculado com base nos respectivos insumos indispensáveis ao processo de ensino-aprendizagem e será progressivamente reajustado até a implementação plena do Custo Aluno Qualidade – CAQ.

O padrão “adequado” da escala, corresponderá ao Custo Aluno Qualidade nos termos da meta 20.7 e 20.8. No PNE pode-se ler tais metas.

20.7 – Implementar o CAQ como parâmetro para o financiamento da educação de todas etapas e modalidades da educação básica, a partir do cálculo e do acompanhamento regular dos indicadores de gastos educacionais com investimento em qualificação e remuneração do pessoal docente e dos demais profissionais da educação pública, em aquisição, manutenção, construção e conservação de instalações e equipamentos necessários aos ensino e em aquisição em material didático-escolar, alimentação e transporte escolar.

20.8 – O CAQ será definido no prazo de três anos e será continuamente ajustado, com base em metodologia formulada pelo MEC e acompanhado pelo Fórum Nacional de Educação, pelo CNE e pelas Comissões de Educação da Câmara e do Senado Federal.

O cálculo do CAQ leva em conta além da meta 20.8, o valor médio por aluno ao ano para cada rede pública. Especifica ainda a lei que, tomando como referência o CAQ, a União fica obrigada a exercer papel supletivo caso seja demonstrado pelo ente federado insuficiência de recursos.

Isto posto, chegamos ao capitulo IV que fala da responsabilização. Curiosamente, depois de elencar os 18 elementos que compõem o padrão de qualidade da educação básica, neste ponto, o texto redefine qualidade da educação como aquela que é medida objetivamente pela comparação de indicadores atingidos no final de cada gestão do Chefe do Poder executivo com aqueles do final da gestão imediatamente anterior, nos seguintes aspectos:

a) desempenho médio da respectiva rede escolar nos exames nacionais periódicos de acordo com seu art. 11, #1 inciso I do PNE.

Este inciso fala de indicadores de rendimento escolar do aluno apenas. E aqui está a questão: deixa-se fora o inciso II que trata exatamente dos demais parâmetros ligados à avaliação institucional, perfil do alunado e corpo docente, relação entre dimensão do corpo docente do corpo técnico e do corpo discente, infraestrutura das escolas, recursos pedagógicos disponíveis e os processos da gestão, entre outras relevantes.

Ou seja, o que se dá no capítulo II da lei, com a amplitude de 18 parâmetros descritores da qualidade da educação básica, é aqui reduzido apenas ao desempenho médio da respectiva rede escolar nos exames nacionais. E continua:

b) proporção de estudantes incluídos nos níveis suficiente e desejável de aprendizado, de acordo com as escalas de proficiência adotadas nos exames nacionais.

c) desempenho médio dos estudantes da respectiva rede escolar pública nos exames nacionais periódicos referidos na alínea “a” de acordo com seu nível socioeconômico.

Novamente, ratifica-se que qualidade de educação é manter ou aumentar a média da escola nas provas nacionais. A lei evitou incluir para efeito de avaliação, quando podia fazê-lo, os demais componentes dos parâmetros básicos de qualidade.

Como compensação por esta exclusão, ela tenta criar pressão para que o gestor não deixe de investir em todos os parâmetros estipulando em seu artigo 8º. que se as condições operacionais para as redes previstas nos insumos do art. 2º. e que compõem o conjunto dos parâmetros de qualidade, não for seguida, mesmo que isso não gere queda no desempenho dos alunos nos testes, caberá responsabilização.

Isso é importante pois o gestor pode calibrar um teste exigindo nele menor dificuldade para os alunos responderem e com isso, mesmo não investindo, manter elevada a nota da rede nos testes. Isso ajuda, mas não resolve.

A lei deveria ter criado um painel de indicadores multidimensional de qualidade e não centrado a avaliação apenas no desempenho do aluno. A multidimensionalidade teria evitado ranqueamentos. Ao assumir apenas a nota do estudante em provas nacionais, a lei conduzirá à culpabilização do professor nos casos de queda nos indicadores de desempenho dos alunos. No interior das redes a pressão será grande, gerando estreitamento curricular e até fraudes.

Continua no próximo post.

Publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Privatização, Prova Brasil, Reforma e Fraudes, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Lei de responsabilidade educacional – I

O relator do projeto 7420 que instituirá a Lei de Responsabilidade Educacional – LRE –entregou seu relatório. Já deveria ser votado na Comissão Especial, mas um pedido de vistas ao processo retirou o texto de pauta. O pedido foi dos Deputados Leo de Brito do PT, Margarida Salomão do PT e Professora Dorinha Seabra Rezende do DEM, motivando o Dep. Moses Rodrigues (PMDB-CE) a requerer sua retirada de pauta.

O texto é oriundo de uma iniciativa feita em 2006 pela então Deputada Raquel Teixeira do PSDB. Sob os efeitos da fracassada Lei de Responsabilidade Educacional americana No Child Left Behind, várias ações foram iniciadas pelo PSDB e entornos: a própria proposta de Lei em pauta, e também o lançamento da Prova Brasil/IDEB pelo então presidente do INEP Reynaldo Fernandes, cuja posição política é bem mais visível hoje.

De lá para cá, o próprio governo cutucou com vara curta o andamento da Lei, quando a gestão Haddad mandou um projeto com nome semelhante para o Congresso. Nele o MEC deixava claro que não incluía avaliações de larga escala como referência para a responsabilização, mas estava querendo apenas disciplinar a ação dos governantes perante as leis educacionais existentes.

Ao cair no Congresso, no entanto, ativou todo um circuito de relações. A anterioridade era da proposta de Raquel Teixeira e isso levou ao apensamento de outros 18 projetos que perambulavam com matérias correlatas por lá desde aquela data, inclusive o de Haddad. A ideia foi rapidamente incorporada no Plano Nacional de Educação de 2013 e este estabeleceu o prazo de um ano para que o Congresso votasse uma Lei de Responsabilidade Educacional. A lei está com a tramitação atrasada, portanto.

As primeiras redações que emergiram no interior da Comissão do Congresso – além do próprio texto original – foram lamentáveis. Uma intensa luta se estabeleceu para atenuar a vocação policial do texto, chegando-se agora à atual versão.

Como se verá, a orientação geral da lei mantém marcas do texto original. E ao que parece, esta será uma lei que provavelmente terá o mesmo destino da americana: um fracasso para implementar a melhoria da qualidade da educação e um sucesso em justificar a privatização do sistema público de educação.

Mas o texto tentou inovar, é justo que se diga. Começa com uma longa especificação em seu Capítulo II do que entende por “padrão de qualidade da educação básica”, incluindo itens como: acesso a vagas; busca ativa de crianças em idade escolar fora da escola; duração mínima de jornada escolar de 4 horas, descontados os intervalos (mas esquece da educação integral); fala em uma “relação adequada” entre número de alunos e professor (mas não especifica); fala em infraestrutura escolar adequada (mas não especifica); acesso à banda larga; titulação mínima dos docentes de acordo com a legislação (como se esta fosse adequada); plano de carreira; formação continuada; piso salarial; programa permanente de avaliação de desempenho dos profissionais do magistério, com aferição periódica do efetivo exercício de competências profissionais a ser considerada como fator de progressão na carreira; ampliação contínua dos instrumentos de avaliação da qualidade da educação básica; afixação nas salas de aula dos programas de ensino bimestralmente para que fiquem claros os direitos das crianças na aprendizagem; atendimento dos alunos com dificuldades em aulas de reforço no contraturno; programas de correção de fluxo e acompanhamento individualizado do aluno com rendimento defasado; informatização da gestão; funcionamento regular do conselho escolar; indução de processos de autoavaliação permanentes de creches e escolas a partir de instrumento de planejamento estratégico com foco na elevação do desempenho dos estudantes (uma visão equivocada de autoavaliação).

Em seguida, a lei determina que todos estes fatores serão convertidos em Parâmetros Nacionais para a Oferta da Educação Básica, como parte integrante do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica. Uma vez aprovado pelo CNE terá obrigatoriedade nacional. O INEP cuidará de produzir e publicar bienalmente os indicadores dos Parâmetros.

E para finalizar este capítulo, a Lei determina que os parâmetros serão referenciais para a produção da categorização das escolas e redes, de acordo com suas condições de oferta da educação, em uma escala com os seguintes níveis: abaixo do básico, básico, adequado e superior.

Continua no próximo post.

Publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Privatização, Prova Brasil, Reforma e Fraudes, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Temer: vendendo o Estado

A Folha de hoje 1-5-2016 traz o estudo de um banco (pasme!) como fonte para análise das políticas públicas brasileiras. Parece que este país não tem instituições públicas com condições de fazer tais estudos. É como colocar o cachorro para tomar conta da salsicha. É claro que sua conclusão é a de sempre: o setor público gasta mal, os mais pobres são menos atendidos. Isso a Folha vem martelando há algum tempo amplificando os estudos do INSPER, uma instituição privada dirigida por Marcos Lisboa, divulgando os estudos de Ricardo Paes de Barros, que migrou para o governo Temer.

Com o impeachment bem encaminhado, é hora, agora, da grande mídia voltar-se para apoiar as teses do governo Temer que, não por acaso, são as mesmas deste banco que estudou as políticas públicas brasileiras, ou seja, gastamos mal e não atendemos aos mais pobres. Veremos nos próximos meses a mídia voltar-se para esta tarefa de convencimento. Os estudos de institutos privados, bancos e outros proliferarão para dar apoio ao programa do “novo” governo. Todos, agora, “defendem” os pobres.

A reportagem de hoje, prepara a retomada da teoria da focalização neoliberal. Os ricos definem quem são os pobres e com isso, estancam o processo de ampliação da redistribuição de renda para cima, e o invertem focando e forçando uma redistribuição de renda para baixo, para um contingente menor e autocontido, a partir da reconceitualização do que se considera ser “pobre” – algo para eles em torno de 5% da população, ganhando em torno de 1 dólar por dia.

Com a redefinição do contingente de pobres para menos, sobra algum dinheiro até para pagar mais para estes, tirando dos outros que ficaram fora da definição de pobre. De quebra, o processo de expansão está contido. Os demais, virem-se. Tente viver com um dólar por dia de renda – ou seja, 30 dólares por mês, ou cerca de 120 reais mês. Este é o novo conceito do que é ser “pobre”.

O capital só admite atender a extrema pobreza. Primeiro, porque deseja que todos estejam à disposição do patrão para que este possa negociar para menos os salários com a finalidade de deter o crescimento da renda média dos trabalhadores, a qual compete com os lucros. Se há políticas de proteção social, como dizem os estudiosos das políticas de bem-estar social, o trabalhador chega para a negociação salarial mais fortalecido, mais protegido para exigir melhores condições salariais e de trabalho. Para o capital, portanto, é vital reduzir o atendimento das políticas sociais de forma a manter a vulnerabilidade da classe trabalhadora para demandar salários, podendo assim explorá-la de forma mais eficiente e em melhores condições para lucrar. No cenário globalizado, as corporações estão disputando centavos de dólar nos contratos.

Segundo, porque os liberais entendem que se as políticas sociais protegem, elas deseducam o trabalhador que passa a depender delas ao invés de trabalhar. Menos gente disposta a trabalhar, implica em menor oferta de braços o que, pela lei da oferta e procura, conduz à elevação de salário médio para captar o trabalhador.

Terceiro, foca na extrema pobreza porque tem que cuidar de um mínimo de funcionalidade para o sistema, de forma a não produzir grandes distúrbios que afetem a própria geração do lucro. Caso a pobreza chegue a ser extremada, isso põe em risco as bases operacionais da economia (roubos, assassinatos, distúrbios etc) chegando até a encarecer a própria circulação da produção. Não é nenhum sentimento de solidariedade ou humanidade. É simplesmente uma questão de sobrevivência para o capital evitar níveis exacerbados de pobreza.

Mas a destinação destes estudos feitos por banqueiros não é só essa. Ao final da reportagem da Folha, o representante dos bancos não conseguiu conter-se. Diz ele:

“O economista Paulo Coutinho, do Credit Suisse, ressalta que o Brasil se destaca na produção de dados. “Falta utilizá-los para fazer avaliações muito mais frequentes.” Esse é o caminho, diz, para aumentar a eficiência do gasto público no país.

A partir das avaliações, seria possível decidir que políticas precisam ser focalizadas em grupos sociais mais vulneráveis, assim como áreas em que o setor privado pode atuar de forma mais eficiente do que o governo.”

Aí está o interesse dos bancos: descobrir “áreas em que o setor privado pode atuar de forma mais eficiente do que o governo”, leia-se: áreas que podem ser privatizadas e passem a compor o mercado. Não se trata de aprimorar a politica pública do Estado. Trata-se de tirá-lo de cena.

É a estas pessoas que estamos ouvindo para formular política pública. É a estes interesses que o golpe em curso procurará atender. Não é sem razão que Temer se comprometeu a “privatizar tudo o que puder”.

É também por este e outros motivos que “vai ter luta”.

Publicado em Assuntos gerais, Privatização | Com a tag | Deixe um comentário

Lei de Responsabilidade: parecer do relator

O parecer do relator da Lei de Responsabilidade Educacional foi disponibilizado. Baixe aqui. Deveria ter sido votado esta semana, mas foi retirado de pauta através de pedido de vista conjunto de três membros da Comissão Especial.

Publicado em Assuntos gerais, Links para pesquisas, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Por que Temer quer bônus para professores

Temer tem dito que quer o PSDB “inteiro” no governo. Pensa em Serra para o Ministério da Educação. É isso que explica a inclinação de Temer pelo bônus. Ouviu a proposta de algum tucano e quer fazer um agrado para trazer o PSDB sinalizando que vai cumprir o programa derrotado do PSDB nas últimas eleições presidenciais. Isso é música para os reformadores empresariais tucanos.

Ora, Temer assinou um programa junto com Dilma. Se Dilma não estiver mais no governo e ele for assumir o seu lugar, não seria de se esperar que Temer continuasse cumprindo o programa para o qual foi eleito por 54 milhões de brasileiros? É o programa do Aécio que previa bonificação e não o de Dilma. O fato de Dilma ser cassada, não o desobriga de levar adiante o programa para o qual ele foi eleito. Isso mostra o oportunismo de Temer para chegar ao poder a qualquer custo.

Quando falamos que há golpe, é disso que falamos. Falamos desse oportunismo de Temer que, para agradar o PSDB e obter apoio, compromete-se a jogar fora o programa para o qual foi eleito e se propõe a fazer o programa dos derrotados, o programa de Aécio Neves.

Não bastasse isso, sabe-se perfeitamente que não há evidência empírica nenhuma que justifique a adoção de bônus, como já insistimos neste blog várias vezes e que pode ser consultado na página Links e Relatórios.

Publicado em Assuntos gerais | Com a tag , | 1 Comentário

Espanha reage à mania dos testes

Em uma reação surpreendente, professores, pais e autoridades inseriram-se na luta contra os testes e ranqueamentos no primeiro ciclo da educação básica espanhola (estudantes de 12 anos). É o que nos informa Antonio José Lopes, em mensagem ao blog que alerta para estes fatos.

Participam desta avaliação mais de 460 mil estudantes que durante quatro dias fazem os testes de Leitura, Matemática, Ciências e Tecnologia. Somente cinco comunidades autônomas – Galícia, La Rioja, Castilla y León, Murcia e Madrid, defendem a realização da prova tal como manda a lei. Nas demais regiões não está claro o procedimento que será seguido e, estas, concentram a maioria dos estudantes, cerca de 333 mil estudantes. Segundo o periódico El País, todas recusam a prova obrigatória prevista na Lei Orgânica de Melhoria da Qualidade Educativa (LOMCE) e preparam um recurso a tribunais superiores. São elas: Andalucía (com a maior quantidade de estudantes do país), Asturias, Cantabria, Castilla-La Mancha, Aragón, Baleares, Estremadura y Navarra.

A luta também é para que não se façam ranqueamentos com os resultados das provas. O ministro da Educação em exercício declarou publicamente pela televisão espanhola que se compromete a evitar as classificações e evitar que se tornem públicos os resultados das avaliações. No entanto, as regiões querem que isto seja colocado na forma de um dispositivo legal.

A discórdia ficou mais acirrada depois que a atual lei de educação LOMCE substituiu a anterior PSOE e retirou uma referência explícita que dizia que “em nenhum caso, os resultados destas avaliações poderão ser utilizados para o estabelecimento de classificações dos centros”.

A CEAPA, Confederação de Associações de Pais e Mães de Estudantes, recusa “totalmente” a posta em prática da prova e pede que se eliminem estes exames. Alegam que eles são apenas “uma foto fixa que se realiza em um determinado momento para elaborar ranqueamentos absurdos que tentam fazer com que determinados tipos de centros, os públicos, sejam prejudicados.”

A Confederação representa 11.000 associações. Em sua opinião, as provas não têm um efeito positivo no progresso dos alunos e critica que se centrem em áreas instrumentais e deixem de fora outras disciplinas como as artísticas ou as esportivas que são igualmente importantes. Também considera que as avaliações realizadas por docentes que não são dos próprios centros, difundem uma mensagem de desprestígio do professorado, pois desconfiam abertamente de seu trabalho e, principalmente, da avaliação que este realiza.

Publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Cabral: terceirização é degradação da escola

Guilherme Perez Cabral analisa a terceirização na educação. Para ele:

Para o bem do lucro, a terceirização nos “negócios” da educação, interessa à empresa. Não à educação. Isso é muito grave. Digo isso sob o ponto de vista do próprio direito vigente. Afinal, o objetivo da escola é educar, de acordo com os fins previstos na Constituição (desenvolvimento pleno da pessoa, qualificação para o trabalho e preparo para a cidadania). Não deveria ser, portanto, o lucro. Ocorre que uma empresa, por definição, tem fim lucrativo. E, se o fim é o lucro, não é a educação (nem seus objetivos constitucionais), deturpada em meio do empreendimento lucrativo. Arrisco dizer que a empresa educacional é, nesse sentido, inconstitucional.

É verdade, a experiência demonstra que há empresas que prestam ensino de qualidade, segundo os padrões estabelecidos pelo Poder Público. Mas, em última análise, o ensino e a sua qualidade, aqui, são um meio para ganhar dinheiro. Existem enquanto prevalecer o lucro do empresário. Isso é muito deseducativo.

Leia mais aqui.

Publicado em Escolas Charters, Privatização | Deixe um comentário

Paes de Barros e o governo Temer

Ricardo Paes de Barros é nosso conhecido. Esteve ocupando cargos nos governos do PT na extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos, base de operação da oposição dentro do governo, dirigida à época por Moreira Franco. Alí também esteve Mangabeira com seu Pátria Educadora, mas na época deste programa, Ricardo já havia jogado a toalha e saído do governo. Deixou o governo para ir trabalhar no Instituto Airton Senna. O namoro entre a ex-SAE e este Instituto já vinha há algum tempo.

Agora ele está na crista da onda do governo Temer, cotado para ocupar um ministério provavelmente ligado à política social. Ele acha que o bolsa família cresceu demais e paga R$ 77,00 para gente que não deveria. Por outros caminhos, alimenta a visão da classe média que, afetada pelas políticas recentes de ajuste, acha que essa gente do bolsa família ganha sem trabalhar. Para eles, estão deseducando o povo…

Temer diz que vai aumentar o valor pago no bolsa família, mas o dinheiro, como se vê, virá do próprio orçamento do programa, com a redução de sua abrangência pela velha teoria neoliberal da “focalização nos pobres” que, há algum tempo atrás, Paes de Barros dizia estar superada (veja abaixo). E, nesta política, quem define quem é pobre são os ricos, portanto, sempre sobra dinheiro para pagar mais para menos gente.

Seu currículo explicita seus vínculos:

“É professor titular da Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ciências para Educação do Centro de Políticas Públicas – CPP.
É graduado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), com mestrado em estatística pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e doutorado em Economia pela Universidade de Chicago. Possui pós-doutorado pelo Centro de Pesquisa em Economia da Universidade de Chicago e pelo Centro de Crescimento Econômico da Universidade de Yale.
Integrou o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) por mais de 30 anos, onde realizou inúmeras pesquisas focadas em questões relacionadas aos temas de desigualdade e pobreza, mercado de trabalho e educação no Brasil e na América Latina. Entre 1990 e 1996, Ricardo foi professor visitante da Universidade de Yale e, entre 1999 e 2002, diretor do Conselho de Estudos Sociais do IPEA. Entre 2011 e 2015, foi subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Em 2015, Ricardo deixou o serviço público e assumiu a Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper, onde se dedica ao uso de evidência científica para identificação de grandes desafios nacionais e para a formulação e avaliação de políticas públicas, cobrindo os temas de produtividade do trabalho, educação, primeira infância, juventude, demografia, imigração, além dos tradicionalmente recorrentes em sua trajetória, desigualdade, pobreza e mercado de trabalho.”

Sobre o que pensa Paes de Barros sobre educação, já divulgamos aqui e você pode ver de novo clicando aqui e também aqui.

“Esse debate sobre a focalização foi superado. O que continua a existir é uma coisa discriminatória contra o setor privado. A educação claramente discrimina a universidade privada diante da pública, como se, por definição, algo estatal fosse melhor do que o privado. O programa nacional de alfabetização, por exemplo, tem de ser com as universidades públicas, e não com as privadas. Por quê? É pura discriminação – e ela tem de ser contestada. Há a ideia de que privatizar parte da educação é mercantilizar o setor. Esse é o grande nó dos serviços públicos do Brasil. Na educação essa mentalidade é brutal e representa um grande problema. Não se pode usar o Fundeb (fundo de financiamento para a educação básica) para contratar uma rede de escolas de educação média para prover os serviços de um Estado. Um Estado poderia gastar menos contratando uma rede de ensino particular. Ele não se preocuparia com infraestrutura, nem com o quadro de docentes. O foco do Estado seria o controle da qualidade do ensino. Isso economizaria dinheiro e dor de cabeça. Imagina isso no Estado de São Paulo, que tem mais de 200 mil professores. As Organizações Sociais (OS) deram certo na saúde. Mas não se pode usar OS na educação. Não podemos testar o modelo de charters schools no Brasil, que são escolas privadas pagas em parte pelo governo e gratuitas para a população. Na Colômbia estão fazendo isso. A Suécia está se livrando de todas as escolas públicas (grifo meu LCF). O país paga para a rede privada prover o estudo. Para a família é gratuito – e só o que importa é a qualidade.”

Sobre a qualidade da educação na Suécia, mostrei que é uma falácia e que seus resultados no PISA, certamente um exame crível para Paes de Barros, cairam (veja aqui).

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | Com a tag | 2 Comentários

Mato Grosso: Falconi assina contrato

A um custo de seis milhões de reais a consultoria Falconi Educação que é gerenciada por Wilson Risólia, ex-Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro que aplicou a política de reforma empresarial naquele estado, Mato Grosso assinou no dia 19 de abril contrato para capacitar 754 diretores escolares e 100 multiplicadores, além de outras ações focadas na melhoria do resultado e na redução da desigualdade.

Esta consultoria é a mesma que rondou pela cidade de Pelotas (RS), Campinas (SP), por Rondônia e Pernambuco e outros estados. Agora ela tem um setor especialmente dedicado à Educação e contratou um ex-Secretário de Educação na tentativa de contornar a crítica de que não tem experiência com questões de educação, já que ela abrange vários setores de atividade.

O contrato foi assinado pelo Secretário de Educação, Esporte e Lazer Permínio Pinto Filho na terça-feira (19.04) com a Falconi Educação. “O ato marca o início de um modelo de gestão para resultados nas unidades escolares da rede e no órgão central da pasta, como parte da Política de Formação Continuada.” O governo de Mato Grosso é conduzido pelo PSDB.

Para a representante da Falconi:

“O trabalho será norteado pela missão da Secretária que é garantir educação com qualidade social, que proporcione ao aluno a aquisição de conhecimentos, competência e formação de valores, conquistados em um ambiente democrático e de valorização humana. A ideia é que a Falconi Educação seja um elo entre o plano estratégico da Seduc e a gestão das escolas, para criar uma rede que atue em conjunto em prol de um resultado.”

Já para o Secretário de Educação:

“ Esse é um dia muito importante para a gestão da pasta e para a educação de Mato Grosso. “Nossa equipe está comprometida e preparada para, a partir de hoje, inaugurar uma nova era na educação do Estado”, comemorou. “Isso possibilita ações mais focadas e pontuais que permitam a otimização de recursos, resultados e desempenho, que é o que deseja toda a comunidade”.

“Ele lembra que a ação se junta a outras iniciativas, como a Avaliação Diagnóstica do Ensino Público do Estado de Mato Grosso (Avalia MT), que tem o objetivo de construir mecanismos de intervenção na educação com bases em índices próprios. “Teremos progressos dos indicadores, fazendo com que o Estado se posicione entre os melhores do país, de acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica”.

Os consultores apresentaram um cronograma de ações, que começam na próxima semana, quando uma equipe de 15 profissionais chega à Seduc. O trabalho, previsto para os próximos 12 meses, será realizado por meio de três marcos: gestão para resultados; gestão financeira; e programas estruturantes. A consultoria contempla diversas etapas e diferentes tempos para a execução de cada uma delas.

Merecem destaques as ações voltadas para melhoria do aprendizado dos alunos, com equidade (avaliações padronizadas, currículo, correção de fluxo); formação continuada dos profissionais de educação; desdobramento de metas até o nível da escola (gestão para resultados).”

Publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | 2 Comentários

Boicote aos testes na matriz

Mais de 670 mil jovens se recusaram a realizar as provas das avaliações estaduais nos Estados Unidos em 2015 e para o ano de 2016 a previsão é que esta recusa seja mais ampla ainda. A contagem é feita pelo FairTest.

Entre os maiores estados que recusaram os testes estão:

– 240.000 no Estado de Nova York

– 130.000 em New Jersey

– 100.000 no Colorado

– 50.000 no Estado de Washington

– 44.000 Illinois

– 20.386 Califórnia

– 20.000 Oregon

– 20.000 Florida

– 11.200 Connecticut

– 10.300 Rhode Island

– 10.000 Novo México

– 8.100 Wisconsin

– 5.000 Louisiana

– 4.600 Pensilvânia

Publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

RJ: 62 escolas já estão ocupadas

Sobe para 62 o número de escolas ocupadas no Rio de Janeiro. Entre as reivindicações está a extinção do SAERJ, sistema de avaliação estadual das escolas do Rio.

Publicado em Meritocracia, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Educação infantil na BNC: retrocesso à vista

Ao que tudo indica, a nova versão da base nacional comum vai criar as condições para escolarizar a educação infantil e desenvolver a indústria de testes nesta fase. É o que pode ser deduzido de entrevista dada por Manuel Palácios, Secretário de Educação Básica do MEC. Para ele, a educação infantil está entre as áreas que sofrerão mudança estrutural na próxima versão da Base Nacional Comum:

“Na educação infantil, a primeira versão não distinguia os objetivos. Já a nova deve contar com uma apresentação de objetivos para as crianças de diferentes faixas etárias.”

A não inclusão dos objetivos foi uma vitória dos educadores da educação infantil, preocupados com a antecipação da escolarização na educação infantil. É possível que, na nova versão, este ganho tenha sido eliminado. Uma vez fixados os objetivos por faixa etária, florescem a responsabilização verticalizada, a meritocracia e a indústria de testes.

Publicado em Avaliação na Educação Infantil, Estreitamento Curricular, Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 2 Comentários

BNC: o sequestro da semântica

As escolas particulares estão preocupadas com a aprovação da Base Nacional Comum. É o que aponta Paulo Saldaña, da Folha de São Paulo, em matéria de hoje (17-4-16). Não é difícil saber porque: têm receio que ela interfira em seus projetos que procuram ensinar muito mais do que uma “base”. São escolas voltadas para o ingresso na Universidade. Se a base nacional for um nivelamento por baixo, não poderão cumprir esta função de preparar para os exames de forma competitiva. Não querem restrições.

A base cobre 60% do que deve ser ensinado. As escolas podem adicionar outros 40%. Mas, elas sabem muito bem que o que interessa é o que cai nas provas nacionais, e estas estarão alinhadas aos 60% obrigatórios e não necessariamente aos 40% agregados pela escola. Niveladas “por baixo” nos exames, podem perder competitividade frente a outros alunos que tenham apenas o básico, de fato.

Contudo, a base só é “base” mesmo para a escola pública, que por condições operacionais acaba limitada a isso.

A Federação Nacional das Escolas Particulares quer que a base nacional em seu formato final seja definida pelo Congresso e não pelo Conselho Nacional de Educação como prevê o PNE. Entende-se porque: lá eles têm interlocutores mais fieis do que no CNE e podem ter maior influência na versão final. O representante da Federação teme que “se [a base] for direto para o CNE não teremos voz”.

Por outro lado, também na mesma edição da Folha, pode-se ler uma entrevista com Manuel Palácios, o Secretário de Educação Básica do MEC que cuida da produção da base. Nela ele opera o “sequestro da semântica”: para ele a base é só “uma norma para elaboração de currículos. Tanto escolas particulares e redes públicas têm o dever de produzir os próprios currículos com a norma nacional, com autonomia.” Palácios é versadíssimo em esvaziar a crítica pela sua incorporação na “semântica”. Certamente, a segunda versão da BNC mostrará isso.

De qual autonomia fala Palácios se os 60% obrigatórios do MEC são a base para a produção das avaliações nacionais? Não existe tal possibilidade. As escolas, na era da responsabilização vertical baseada em exames nacionais, estão ensinando para os testes (ANA, Prova Brasil, ENEM) – além dos sistemas de avaliação locais nos seus estados e municípios, que também serão alinhados aos 60%. A referência, no entanto, para as escolas particulares, são os exames de ingresso na Universidade feitos por estas mesmas: Fuvest, Unicamp etc. – além é claro do ENEM. Por isso, temem ficar limitadas a um “básico” obrigatório. As escolas particulares temem ser “equalizadas” a uma mesma base nacional das públicas.

Mas me parece que não é bem assim. Como os testes serão feitos na ótica da “seletividade”, as escolas particulares não devem se preocupar tanto com os exames nacionais do tipo ENEM, pois os elaboradores dos exames vão propor itens com graus de dificuldade diferenciados para os itens o que, certamente, favorecerá as escolas particulares que adicionarão ações de preparação para o exame na formação do aluno.

A base só será base, mesmo, para as escolas públicas que, neste sentido, entrarão em condições menos competitivas nos exames seletivos por se restringirem, na prática, à base nacional. Mas mesmo os alunos das escolas públicas vão ter também a plataforma “Hora do ENEM” onde ele poderá treinar para o teste, ainda que treinar não seja educar. Mas quem se preocupa com isso? A questão é passar nos exames e não aprender de fato.

A preocupação das escolas particulares só deve ser maior, no entanto, quando se trate de processos seletivos feitos pelas próprias universidades, fora do ENEM. Neste caso, cada instituição faz suas exigências que podem estar além dos 60% da base nacional comum.

A declaração de autonomia de Palácios é uma mera declaração de efeito. Se fosse verdadeira, o MEC teria seguido o outro estudo de base nacional que estava formulado dentro do MEC quando Palácios chegou por lá, ou teria se contentado com as Diretrizes Nacionais Curriculares que já existem, pois elas poderiam ser convertidas em um currículo em cada escola, da mesma forma.

Mas o que interessa à SEB é ter uma grande taxonomia de objetivos de ensino para orientar os exames nacionais, a formação de professores e a produção de sistemas de ensino mediados por meios eletrônicos e, além disso, “responsabilizar” o sistema público de ensino, alimentando, de quebra, um sem número de ONGs de consultoria para asse$$orar as escolas na adequação de seus currículos à base nacional e treinar os professores e gestores da escola nas suas novas exigências.

Publicado em Estreitamento Curricular, Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário