SP: já são 25 as escolas ocupadas contra reorganização

A semana inicia com 25 escolas ocupadas protestando contra a reorganização das escolas paulistas promovida por Geraldo Alckmin (PSDB) que motivará o fechamento de 94 delas e superlotação em outras. Além disso, estudantes foram mudados de escolas e terão que locomover-se para lugares mais longe aumentando o risco de deslocamento e os custos diários de transporte.

Hoje o Estadão obteve documento da Secretaria de Educação de São Paulo e ficou claro que a reorganização não conta com estudo sério que dê respaldo às mudanças. A posição do governo tornou-se extremamente frágil após esta revelação.

O Sindicato dos Professores do Estado (APEOESP) está em estado de greve e convocou uma assembleia para o dia 27 de novembro.

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SP: Estadão disponibiliza estudo da reorganização

O Jornal Estado de São Paulo disponibilizou em seu site o documento que deu base à reorganização das escolas paulistas obtido pela lei de acesso à informação.

Acesse aqui, indo até a janela que está ao final da matéria.

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SP: Estadão abriu a caixa preta da reorganização

Valendo-se da lei de acesso a informação, o jornal o Estado de São Paulo obrigou a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo a permitir acesso ao estudo que orientou a reestruturação das escolas paulistas. É vergonhoso que um dado que deveria ser público, tenha que ser obtido desta forma.

Mas há razão para que este estudo tenha sido ocultado. Ele não resiste à menor crítica como atestam os que tiveram acesso ao documento obtido pelo Estadão:

“O estudo apresenta uma correlação que não existe. Colocam como única variável a escola ter ciclo único ou não, mas não isolam outros fatores, como o tamanho da escola” diz a diretora executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz. “O estudo não é apropriado para a secretaria dizer que faz a reestruturação com base nele”.

Para Ocimar Alvarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, o levantamento desconsiderou o número de alunos por escola e o índice socioeconômico. “Em educação não há uma variável que explique tudo. Tudo indica que são outros interesses. Uma racionalização no sentido de se ter menos professores. Estão fechando escolas acima da média, que têm só um ciclo. A proposição da secretaria é muito frágil.”

O estudo que embasou a Secretaria como se vê é falho. Segundo o Estadão o documento tem 19 páginas e traz dados já divulgados, apontando que as escolas de ciclo único têm desempenho 9,4% acima da média no IDESP, índice paulista ligado ao SARESP.

Com três Universidades Estaduais públicas financiadas pelo próprio Estado de São Paulo, a Secretaria de Educação prefere fazer política pública sem evidência empírica baseada em estudos simplistas provavelmente produzidos por consultorias privadas.

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SINTEGO é contra a privatização em Goiás

O Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Goiás fará um “abraço em defesa da escola pública” no dia 27 de novembro próximo. O Sintego é contra a terceirização.

Sintego

Para entender o que acontece veja detalhes de como será feita a entrega das escolas às OSs.

Para a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Goiás (Sintego), Bia de Lima:

“O processo em curso será ruim para professores, mas também para alunos e para o ensino de modo geral. Ela afirma que o estado está promovendo uma “precarização das escolas” para justificar a terceirização.

“Teremos três tipos de escola no Estado: uma, com todas os recursos, que será através das OSs, outra, militar, e na ponta, nas periferias das grandes cidades do Estado, a escola pública, como vimos, sem professores, sem infraestrutura, que será discriminada para que o governo diga: vejam, escola pública não funciona. Por isto militarizamos. Por isto terceirizamos”, afirmou.

Bia de Lima pediu o apoio dos membros do Conselho Estadual de Educação de Goiás para que seja feita a defesa da escola pública, gratuita e de qualidade. Ressalta que as denúncias apresentadas foram todas documentadas e levadas ao Ministério Público, e ponderou, mais uma vez, que terceirização, a militarização e o desvio de recursos da Educação para outros fins, são as causas da precarização das escolas com todas as suas consequências, como a desvalorização salarial dos professores e sucateamento da rede estadual”.

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Goiás e São Paulo se mobilizam pela educação pública

Goiás e São Paulo se mobilizam pela educação pública. Em Goiás o foco é a manutenção da escola pública com gestão pública que se encontra em risco pelas ações de terceirização de 250 escolas por Marconi Perillo. Ato contra a terceirização acontece dia 19 de novembro.

Em São Paulo o foco é barrar a reorganização das escolas proposta por Geraldo Alckmin. A APEOESP está em estado de greve e convocou assembleia do Estado com paralisação para o dia 27 de novembro. Enquanto os países mais avançados caminham para a educação integral de suas crianças, São Paulo, um dos estados mais ricos da nação, se dá ao luxo de fechar 94 e destiná-las a outras finalidades sem ter um plano de preservar os equipamentos públicos para avançar na direção da educação de tempo integral. Esta, para ser implementada, demandará muito mais do que as 94 que estão sendo hoje fechadas.

AtoGoiasContraTerceirizaçãoGritoPelaEducaçãoPaulista

O Estado de Sergipe, com mobilização, conseguiu reverter a agressão às escolas públicas daquele Estado. Esta luta precisa ser dada agora, pois estas políticas são danosas tanto para a escola pública como para as nossas crianças. O magistério não pode abandonar as crianças a estas políticas mercadológicas que visam transformar a educação em um grande mercado para consultorias e empresas que comercializam sistemas de ensino.

A filosofia que orienta tais políticas é a de “ensinar para os testes”, é simplificar o ensino para “mostrar melhoria de índices” e eleger políticos, sonegando uma educação que promova o desenvolvimento global de nossas crianças, voltada para sua autonomia intelectual.

Ensinar para passar no teste não é sinônimo de boa educação. Vão transformar a educação brasileira em um grande “cursinho” preparatório para exames. Também em outros países este movimento de objeção a estas políticas tem tido efeitos positivos.

No caso de São Paulo, a repercussão deste fechamento nas demais escolas será o entulhamento das crianças nas salas de aula, dificultando a implantação da educação de tempo integral.

No caso de Goiás, está em jogo a transferência das escolas para a ótica do mercado, para serem administradas como se fossem pequenas empresas. Primeiro virão as Organizações Sociais sem fins lucrativos. Uma vez constituído o mercado, virão as OS com fins lucrativos nacionais e internacionais. Com a chegada das OS de grandes conglomerados internacionais, estaremos desnacionalizando a formação de nossa juventude.

Só a educação pública de gestão pública pode promover a democracia.

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SP: tensão aumenta nas escolas e governo assiste

A tensão está aumentando nas ocupações em andamento nas escolas do Estado de São Paulo devido ao plano de reorganização das escolas paulistas. O Governo Alckmin assiste.

Segundo a Folha de São Paulo:

“O professor de história Edvan Costa foi algemado e levado ao Hospital do M’Boi Mirim. A Folha teve acesso a um vídeo que mostra o docente no chão. Em seguida, um policial pisa no docente e força o cassetete contra o corpo dele.”

Veja aqui agressões aos professores

Um juiz que havia autorizado a reintegração judicial das escolas reviu sua decisão e passou um “pito” na Secretaria da Educação:

“Com isso quero dizer que o cerne desta lide possessória não é a proteção da posse, mas uma questão de política pública, funcionando as ordens de reintegração como a proteção jurisdicional de uma decisão estatal que, em tese, haveria de melhor ser discutida com a população. Repito: objetivamente, tem-se esbulho de um bem público; mas a solução da questão foge, e muito, da simples tutela possessória. A questão é mais ampla e profunda, a merecer melhor atenção do Executivo.”

A Secretaria contesta dizendo que as Diretorias de Ensino estão discutindo a questão com a população, mas o fato é que há uma grande diferença entre “comunicar decisões já tomadas” e “discutir a decisão a ser tomada”.

A Secretaria de Educação pode até manter a reorganização, mas está claro que ela está sendo imposta pela força policial.

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USA: relatório mostra que cresce rejeição a políticas de teste-e-punição

Para animar a galera, aí vai um relatório que acaba de ser divulgado resumindo os ganhos dos movimentos contra as políticas dos reformadores empresariais nos Estados Unidos. Já são 500 mil famílias que em todo o país retiraram seus filhos dos testes de avaliação de larga escala excessivos, acoplados a políticas de alto impacto que punem professores e estudantes. Vários estados já recusam exames de terminalidade, do tipo ENEM, como obrigatórios ao final do ensino médio, na contramão do que foi introduzido no nosso Plano Nacional de Educação.

A seguir você encontra o resumo executivo do relatório e ao final você pode ter acesso ao relatório completo se desejar. O relatório foi feito por  Lisa Guisbond com Monty Neill e Bob Schaeffer.

Vitórias da Reforma da Avaliação em 2015 – resumo

“A crescente força e sofisticação do movimento de reforma e resistência aos testes nos Estados Unidos começa a virar a maré na direção contrária ao uso excessivo e indevido de exames padronizados durante o ano escolar de 2014-2015. Os reformadores da avaliação tiveram vitórias significativas em muitos Estados, graças a uma intensa pressão trazida por ondas sem precedentes de retiradas de alunos dos testes (opting out) e outras formas de ação política. Até mesmo o presidente Obama e o Secretário de Educação Duncan, antigos defensores das estratégias de testar e punir propostas pelas “reformas”, agora admitem que “há muito teste.”
Em todo o país, educadores, pais e alunos lançaram petições, organizaram manifestações em massa e realizaram fóruns públicos. Estudantes do ensino médio se recusaram a fazer exames excessivos e se retiraram deles. Professores exigiram (e ganharam) reformas nos testes e melhores condições de aprendizagem. Os administradores e os conselhos de escola eleitos adotaram fortes resoluções contra os testes de alto impacto. Todo esse crescimento foi construído sobre os sucessos dos reformadores da avaliação em anos anteriores.
Pais e professores que lançaram campanhas contra o exagero dos testes padronizados em suas escolas e bairros surgiram como líderes eficazes que continuam a construir um movimento mais forte. A grande mídia não ignora mais ou marginaliza as chamadas para “menos testes e mais aprendizagem” e para “o fim dos testes de alto impacto.” Em vez disso, o movimento da reforma da avaliação e as razões por trás disso são constantemente abordados em profundidade pelos principais jornais, televisão e rádios de costa a costa.
A opinião pública mostra uma mudança poderosa contra a dependência excessiva das políticas de testar-e-punir e em favor da reforma da avaliação com base em múltiplas medidas. Os formuladores de políticas da educação e os legisladores foram forçados a reconhecer, pelo menos publicamente, os danos de testes de alto impacto e a necessidade de uma correção de rumo.
Os gritos de “basta” foram altos o suficiente para penetrar no Salão Oval, o que levou o presidente Obama a reconhecer em outubro que os testes de alto impacto estão fora de controle nas escolas públicas dos EUA. Ativistas, no entanto, continuam a pressionar para garantir que a retórica vaga da capital do país seja seguida por mudanças concretas na política. A administração Obama se recusou a parar suas políticas de testar-e-punir, portanto, o Congresso deve agir. Ambas as casas aprovaram leis para acabar com a obrigatoriedade das avaliações dos professores com base em testes de alunos e com as punições escolares e distritais.
Enquanto isso, o movimento ganhou vitórias concretas em nível estadual e local. Estas incluem a revogação de exames de terminalidade em vários estados, a eliminação de muitos testes, a redução do tempo usado em testes, uma onda de colleges migrou para testes opcionais e para o desenvolvimento de sistemas de avaliação e prestação de contas alternativos. As vitórias do ano passado incluem:
– A acentuada reversão da tendência de décadas em adotar exames de terminalidade no ensino médio. Os formuladores de política revogaram o teste de graduação na Califórnia, enquanto o Texas afrouxou seus requisitos, juntando-se a seis estados que revogaram ou espaçaram mais estes exames no ano escolar de 2013-2014. Califórnia, Geórgia, Carolina do Sul e Arizona também decidiram conceder diplomas retroativamente a milhares de estudantes que tiveram seus títulos negados devido a resultados negativos em testes de terminalidade.
– A Flórida suspendeu a política de promoção baseada no teste de leitura na 3ª série criada por Jeb Bush. Oklahoma, New York e Carolina do Norte revisaram suas políticas de promoção com base em testes, e em Novo México os legisladores bloquearam o esforço do governador para impor uma.
– Estados e distritos que reverteram a obrigatoriedade de testes incluem Minnesota, Virgínia, Flórida, Colorado, Maryland, Dallas e Lee County, Flórida.
– O movimento de retirada dos alunos dos testes alcançou novos níveis em Nova York, New Jersey e em todo o país – chegando a 500.000 em nível nacional – chamando a atenção dos meios de comunicação e empurrando governadores e legisladores a agir.
– Uma série de pesquisas de opinião documentou o aumento do número de eleitores e pais que concordam que há muitos testes padronizados e que não devem ser usados para fins de políticas de alto impacto.
– O ano passado foi o melhor já registrado para o movimento de uso de testes opcionais em colleges, com mais três dúzias de colleges e universidades reduzindo ou eliminando como requisito o teste ACT/SAT [equivalente ao nosso ENEM], elevando o total para mais de 850.
– Na Califórnia, New Hampshire, e em outros lugares há esforços promissores para o desenvolvimento de sistemas alternativos de avaliação e prestação de contas, reduzindo a ênfase em testes padronizados, incorporando várias medidas de desempenho escolar.
O crescimento e as conquistas do movimento são tremendamente encorajadoras. Mas é muito cedo para declarar vitória e ir para casa. No ano letivo de 2015-2016 os ativistas vão usar as lições aprendidas a partir de suas batalhas iniciais para expandir ainda mais e fortalecer o movimento de resistência e garantir que os líderes políticos passem do discurso para a implementação de reformas significativas na avaliação.
O objetivo final do movimento vai além de propor a redução de testes, menos consequências fortes e melhores avaliações. Ele busca uma transformação democrática do ensino público a partir da mudança de um sistema movido pela agenda estreita de “testes-e-punições” para uma agenda que atenda às amplas necessidades e objetivos educacionais dos diversos estudantes e famílias.”

▪ O relatório completo está disponível aqui. O resumo executivo por ser encontrado aqui.

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Terceirização: como Goiás está sendo enganado

A Secretária de Goiás, Raquel Teixeira, confirma que 25% das 1.000 escolas públicas serão administradas por organizações sociais – e não 30% como anunciado antes. Ela, como é praxe nas justificativas de privatização, diz que:

“Não é privatização, pois não vamos perder o controle da escola, não vamos entregar para um ente privado e ele não vai ter lucro. Também não é terceirização, é uma parceria”.

A Secretária diz ainda que:

“O modelo irá beneficiar os docentes temporários. Hoje eles têm contrato precário e recebem cerca de R$1.300, mas, caso sejam selecionados, serão contratados pela CLT e receberão piso de 2.400 reais se tiverem formação adequada.”

É assim que se tenta tornar mais simpáticos os primeiros momentos da privatização, para vencer resistências. Eis a maneira pela qual os reformadores lidam com “conceitos ad hoc” e desculpas para privatizar.

Primeiro, dizem que entregar escolas para OS, não é privatizar. Para eles, como a escola não foi “vendida” e ainda é um bem público, então argumentam que ela é pública e não privada. Não admitem outras formas de privatização como a privatização por concessão. Segundo, fazem uma separação entre gestão e educação. Para eles, a gestão pode ser separada facilmente da educação, da parte pedagógica. Uma fica com a OS e outra com a Secretaria que, na visão dela:

“Nosso modelo é uma busca de gestão melhor da escola e da sala de aula. Mas a orientação pedagógica continuará sendo do Estado”.

Mas o professor terá seu trabalho desqualificado por uma série de medidas de controle e apostilamentos feitos pela OS, visando alinhar o que faz em sala de aula com os testes. Na realidade, o diretor não precisa entender da parte pedagógica, pois virá tudo pronto na forma de um sistema pré-fabricado.

A parte hilária da declaração é a relativa aos servidores temporários. Ao invés de abrir concurso e efetivá-los, vai entregá-los às OS para serem contratados pela CLT, ou seja, sem estabilidade no emprego. Continuarão precários, pois poderão ser demitidos a qualquer momento.

No regime CLT, durante algum tempo, pode-se até pagar mais ante a miséria que já recebem hoje, mas o contratado pela CLT não terá acesso aos benefícios dos servidores efetivos. Com o tempo, o reajuste do salário fica por conta das terceirizadas que obviamente reajustarão os salários quando bem quiserem. A rotatividade aumenta e o salário é sempre o inicial. De quebra, não podem ir reclamar no sindicato, pois não são servidores públicos. E se forem, podem ser demitidos.

Nesta exposição da Secretária, fica claro porque a educação de Goiás tem problemas: 30% da rede é temporária e ganha 1.300 reais. Não há que se falar em qualidade num quadro deste e nem se colocar qualquer culpa na escola pelas dificuldades de atendimento que tenha. O dinheiro que podia ser aplicado na melhoria dos salários dos atuais contratados, vai agora para OS.

Fica claro também que a ideia é colocar a atual carreira de servidores em extinção não abrindo concursos e chamando OS para que contratem por CLT. O magistério de Goiás e sua escola pública de gestão pública começam a ser destruídos. Na visão dos reformadores empresariais a estabilidade no emprego é o que torna o professor ineficiente. Lançado ao mercado e podendo ou não ser recontratado pela OS, esta pode escolher os que se ajustam melhor às exigências de ensinar para os testes. Professores concursados, recusam-se a serem desqualificados e terem seu trabalho definido por apostilas e controles externos em função de testes. São profissionais com dignidade que lhes é assegurada pela estabilidade.

De quebra, transferindo os professores para a iniciativa privada, eles deixam de ser considerados servidores do Estado e com isso não contam no teto da lei de responsabilidade fiscal.

Em um quadro precário como o vigente na educação goiana, com 30% de temporários ganhando R$1.300,00, a Secretária não pode exigir muito da rede:

“Achamos que o desempenho está pouco e que não vamos melhorar se continuar como estamos fazendo.”

Sem dúvida. Mas o diagnóstico está errado. Não é a gestão, nem o desempenho que está pouco. São as práticas da Secretaria em relação às condições de trabalho. A escolha da Secretária é pela precarização e intensificação do trabalho via OS, regado a controle e preparação para os testes.

É isso que ocorre quando se coloca como horizonte para a educação o aumento dos índices e não a qualidade da educação. Sonegam-se condições e se quer índices melhores. Como isso é impossível, foca-se na gestão dos índices. Precarizam-se as formas de contrato, controla-se e pressiona-se a rede para ensinar para os testes e, assim, aumentar os índices.

No entanto, índices maiores em testes de Leitura e Matemática não são sinônimos de boa educação. Este é o grande engodo que está sendo vendido aos goianos.

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SP: continua crescendo número de escolas ocupadas

Os Jornais já noticiam 8 escolas ocupadas, mas há informações de que seriam 9.

“A Escola Estadual Professor Pio Telles Peixoto, na zona norte de São Paulo, é a 8ª a ser ocupada por estudantes na capital e na Grande São Paulo. Os alunos protestam contra a reorganização da rede estadual de ensino proposta pela Secretaria da Educação.

Segundo a estudante Y.S., de 16 anos, a ocupação foi realizada por volta das 10h. “A gente trocou o cadeado do portão da escola e fechamos a diretoria com cadeados e correntes. A escola não será fechada, mas deve transferir todas as turmas do ensino médio.”

Há notícias de que o movimento avança para o interior. Em Campinas haveria uma nona escola ocupada.

Em Piracicaba escola que seria fechada tem fechamento revogado, atestando a bagunça que a rede está sofrendo. A escola seria fechada e não tem outra próxima em uma área de 8 quilômetros. Graças à movimentação da comunidade a decisão teve que ser revogada.

Veja aqui video inédito sobre a ocupação [colaborou Daniel Lopes].

Veja aqui mais imagens sobre as ocupações.

Na Fernão Dias a situação está mais complicada porque fracassou a negociação conduzida pelo MP entre a Secretaria de Educação e os estudantes. Os estudantes teriam que deixar a escola até as 18 horas de amanhã por decisão judicial. No entanto, o juiz impediu que a polícia use medidas agressivas na retirada dos estudantes.

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SP: onde estão as entidades educacionais?

Pais aderem às manifestações e acompanham filhos. Onde estão nossas entidades educacionais que não se manifestam em apoio aos estudantes que estão fazendo o trabalho de reagir aos desmandos que atingem a educação pública em São Paulo? Estão desligadas dos anseios de estudantes, professores e pais? Onde estão as entidades nacionais de estudantes (em especial a UNE, ANEL, UPES, UBES), professores, gestores e acadêmicos que não se manifestam contra as mudanças propostas em São Paulo, Goiás e Pará?

Veja aqui posicionamento da APEOESP.

O governo prefere enviar a polícia ao invés de dialogar e corrigir o equívoco de promover uma alteração desastrosa para a vida das famílias, colocando em risco as crianças que agora terão que se locomover distâncias maiores em cidades nem sempre seguras e com duvidoso transporte coletivo.

Com sete escolas já ocupadas, o Ministério Público tem procurado ajudar fazendo mediações. Mas não está descartado um “acidente” de percurso que possa levar a situações mais radicalizadas ainda, com a polícia sendo colocada para controlar as escolas.

É fundamental que a Secretaria da Educação adie a medida e abra uma discussão com as comunidades e profissionais da educação.

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SP: mais escolas amanhecem ocupadas

Sobe para sete o número de escolas ocupadas em SP contra o autoritarismo de Alckmin que determinou a reorganização das escolas sem nenhuma discussão com as comunidades internas e externas envolvidas.

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SP: mais escolas ocupadas contra reorganização

Subiu para cinco o número de escolas ocupadas pelos estudantes na grande São Paulo contra a reorganização de Alckmin. A polícia tem sido acionada pelo governo do Estado para criar dificuldades e desestimular as ocupações.

A reorganização pretende fechar 94 escolas que serão destinadas a outras finalidades. Além disso, as escolas estão sendo transformadas em escolas de ciclo único.

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Goiás: Comando de Luta divulga manifesto

Professores de Goiás se organizam para enfrentar a privatização da educação estadual por Organizações Sociais proposta por Raquel Teixeira, Secretária de Educação do Estado de Goiás. A escolha da terceirizada já aconteceu e deverá ser logo anunciada para início em 2016.

Ante a falta de iniciativa do Sindicato dos professores local, os professores estão tomando em suas mãos a defesa da escola pública de gestão pública e criaram um Comando de Luta que divulgou no dia de hoje um manifesto contra a terceirização durante o VI EDIPE que ocorre em Goiânia, e planejam mais atividades de resistência às medidas.

CARTA DE REPÚDIO À TERCEIRIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM GOIÁS

Os Profissionais da Educação Pública de Goiás e demais envolvidos no processo educacional (estudantes, pais e toda a comunidade escolar) expressam extrema indignação diante da aprovação/sanção da PL 4330/04, que facilita a terceirização e a subcontratação do trabalho em diversas áreas do Serviço Público, em especial na Educação.
Com o respaldo desse PL 4330/04 Marconi Perillo (PSDB) pretende entregar nas mãos de O.S. (organizações sociais) mais de 300 escolas do Estado. Exigimos a não implementação na educação básica e pública em Goiás de O.S.
Não podemos compactuar, nem seremos omissos diante de tais arbitrariedades que ferem a Constituição, de maneira que os danos serão irreversíveis. Tal modelo acentuará ainda mais a precarização e o sucateamento das Unidades Educacionais, além de massacrar direitos trabalhistas históricos dos servidores públicos adquiridos após anos de luta, visto que o STF chega ao extremo de possibilitar o fim do Concurso Público. Após 17 anos analisando a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) das organizações sociais (O.S), a corte máxima decidiu que o poder público pode terceirizar seus serviços sociais por meio da contratação dessas figuras jurídicas de natureza privada. Com isso o bem público será gerido por interesses privados.
Não queremos a Terceirização na Educação Pública por motivos claros e evidentes: salários e benefícios devem ser cortados; o preconceito no trabalho pode crescer com um regime celetista, efetivos e contratos temporários trabalharão em um mesmo ambiente, com salários e condições de trabalho distintas; haverá mais facilidades para corrupção; sua forma de aprovação se implementará em Goiás sem a menor discussão com a comunidade escolar pais, professores e alunos; fere princípios de gestão democrática da LDB (lei n°9394/1996); fim do concurso público e da carreira para os servidores dessas áreas; perda de qualidade do serviço público prestados a todos os cidadãos. Já possuímos exemplos de fracasso desse modelo de gestão, como no caso do SUS (Serviço Único de Saúde) que, em Goiás, assim como em outros Estados da Federação, apresenta um quadro de rotatividade de funcionários e intensificação do trabalho (sobrecarga ao trabalhador).
O governo de Goiás na figura de Marconi Perillo ao implementar as OS, estará condenando a Educação no estado, atirando-a à lógica mercadológica do capitalismo e do neoliberalismo e realizando o funeral de toda a ideologia humanística que ainda nos estimulava a projetar nossas esperanças de crescimento (humano e econômico) no processo educacional.
Nos últimos anos, vivemos no Estado de Goiás, a contínua desvalorização da carreira docente por parte do governo estadual. Manobras para que se atingisse o piso salarial, retirando direitos adquiridos, falta de concurso público para contratação de professores, processos seletivos em que o grau de exigência para ministrar aula fere frontalmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (n°9394/1996), são algumas das ações governamentais postas em prática que em muito defasam e mutilam o magistério estadual.
Os professores do estado de Goiás têm sido lesados em seus direitos trabalhistas no que se refere tanto às questões salariais quanto às situações de condições estruturais de trabalho. Várias escolas têm sido fechadas, algumas com remanejamento de alunos sem perspectiva de novos prédios, outras se encontram em construção há vários anos sem previsão de finalização e entrega das salas às comunidades. Todas essas questões interferem sobremaneira no desenvolvimento das ações docentes desestruturando perspectivas de melhoria da qualidade do ensino básico no estado. Isto é, temos problemas ESTRUTURAIS que a terceirização não irá sanar, ao contrário, irá multiplicá-los. Além de inviabilizar que os professores possam opinar em seu próprio trabalho caso organizações sociais passem a gerir a escola, que é pública.
Outro aspecto que nos contrapomos é a militarização das escolas em Goiás, aspecto que está ligado aos mesmos argumentos contrários as OSs na gestão da educação.

AS PRESENTES ENTIDADES E MOVIMENTOS QUE ASSINAM ESSA CARTA SE CONTRAPÕEM ÀS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS NA EDUCAÇAO E À MILITARIZAÇÃO DAS ESCOLAS ESTADUAIS

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Leitor comenta fracasso da privatização

Leitor informa que “a Consultoria Falconi se chamava Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG) e a metodologia deles foi implantada no início do primeiro governo de Eduardo Campos em Pernambuco.

Eles construíam uma “árvore” com indicadores, e sinais em verde, amarelo e vermelho. Entre os indicadores havia um sobre gravidez na adolescência. Se duas alunas engravidassem o indicador ficava no vermelho. O que é de uma gritante ignorância acerca do fenômeno educativo e do contexto escolar. Os gestores não entendiam aquela tecnocracia e ficavam loucos por ter que responder por fatores que escapavam em muito da alçada dos profissionais da escola. É como se os fatores socioeconomicos fossem fatores de produção, controláveis, mensuráveis.

Resultado? Foi um retumbante fracasso… em pouco tempo a metodologia do INDG foi substituída pelo Gestão Nota 10 do Instituto Ayrton Senna, que também fracassou, e foi substituída pelo Pacto pela Educação de Pernambuco (PPE) que ainda está por se provar.

Desenvolvi essa análise na minha dissertação de mestrado. De fato, o que o professor afirma em seus artigos neste blog, ou seja, que estão fazendo experimentos de política educacional que não tem sustentação empírica e não se comprovaram efetivos em pesquisas nacionais nem internacionais, se verifica.

Estão tratando milhões de alunos e milhares de profissionais de Pernambuco como ratos de laboratório. Quando dá algo errado, eles trocam de método, para manter os mesmos princípios, à revelia das consequências negativas, custe o que custar.”

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Ciclo de privatização está só começando

Leitor alerta que o Jornal Valor Econômico divulga hoje notícia de que a Consultoria Falconi criou uma nova unidade de negócio específica para cuidar da área da educação: a Falconi Educação.

“Consultoria focada em gestão e resultados, a Falconi criou uma divisão voltada para a área da educação pública e privada. É a primeira vez que a Falconi – responsável pela reestruturação de companhias como Ambev e Lojas Americanas – tem um braço dedicado a um setor. A aposta é baseada na crença de que as escolas públicas, onde estão matriculados 80% dos alunos do ensino fundamental, precisam passar por um choque de gestão e preferencialmente sob a liderança da iniciativa privada.”

Quem vai dirigir a nova unidade? Advinhe. O ex-secretário de Educação do Rio de Janeiro, Wilson Risolia que aplicou, quando no governo, as teses dos reformadores empresariais. Segundo o novo contratado da Falconi:

“A gestão nas escolas públicas é um caminho sem volta. O Brasil é um dos últimos colocados no Pisa. Já fizemos um diagnóstico dos 27 Estados e levamos aos governadores. Também estamos conversando com fundações e universidades particulares”, disse Wilson Risolia, ex-secretário de Educação do Rio de Janeiro e responsável pela Falconi Educação.”

A nova unidade foi lançada recentemente e em seu evento de lançamento economistas e acadêmicos, segundo o Jornal, defenderam a “privatização” da gestão das escolas públicas por meio de PPPs – Parcerias Público-Privadas.

Como a Falconi está dentro da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, este estado deve ser um dos 27 visitados que aceitou o convite, o que você acha?

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SP: reorganizar para privatizar – confirmado

Conforme analisamos em posts anteriores (veja aqui e aqui), a chamada reorganização das escolas no Estado de São Paulo acompanha movimentação que ocorre em outros Estados para terceirizar a educação pública.

É o que o Diretor Regional de Ensino, Marco Aurélio Bugni, segundo a APEOESP, confirmou em audiência realizada na manhã de sexta-feira, dia 6-11, na Câmara Municipal. A audiência teria ocorrido na cidade de Sorocaba.  Ainda de acordo com a APEOESP: o diretor “confirmou que o processo de reestruturação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) caminha para terceirizar o ensino público estadual.”

Bugni estava na audiência representando o Secretário Estadual de Educação Herman Voorwald. Não houve pronunciamento da Secretaria de Educação que contrariasse o Diretor de Ensino. (Veja aqui.)

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SP: estudantes ocupam escola contra reorganização

Estudantes ocuparam a Escola Estadual Fernão Dias em São Paulo em protesto contra a reorganização das escolas no Estado de São Paulo que trará para esta escola mais alunos das proximidades, com o fechamento de outras escolas. Os estudantes temem que a escola fique com suas salas de aula superlotadas, prejudicando a qualidade de ensino.

Em assembleia decidiram que passarão a noite na escola. A polícia cercou a escola e tentou pressionar os estudantes. Todos os estudantes que saem da escola são obrigados a deixar nome e número de documento com os policiais.

Veja matéria aqui e aqui.

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Charters: novo relatório não aponta superioridade

Com a finalidade de influenciar na campanha presidencial americana de 2016, o Center for Public Education acaba de divulgar documento resumindo os dados existentes e que mostram que as escolas charters e outras formas de privatização não cumprem com as promessas de serem melhor do que as escolas públicas de gestão pública. Ele conclui que:

“Em geral, nós encontramos que a escolha da escola [charters e outras formas de privatização] funciona com alguns estudantes e com outros não e que frequentemente não é nem pior nem melhor do que as escolas públicas regulares.”

Especificamente em relação às escolas charters, em leitura, apenas 25% destas escolas se desempenha melhor do que as escolas públicas regulares, 56% tem desempenho equivalente e 19% é pior do que as públicas. Ou seja, 75% das escolas privatizadas é igual ou pior que a escola pública em leitura.

Em Matemática, 29% tem desempenho melhor, 40% tem desempenho igual e 31% tem desempenho pior do que as escolas públicas regulares. Em outras palavras, 71% das escolas privatizadas é igual ou pior do que a escola pública em matemática.

Dito de outra forma, apenas 1 em cada 4 escolas privatizadas é melhor do que a escola pública.

A conclusão confere com outros estudos já divulgados, levantando a questão de por que, se os resultados não são melhores, estas formas de privatização são usadas. A razão para tal é que são formas que minimizam o impacto da crise fiscal sobre o estado pois, em geral, a privatização precariza o trabalho e permite melhorar as finanças, seja porque os gastos com a privatização não contam na lei de responsabilidade fiscal brasileira, seja porque os gastos gerais com educação tendem a ser menores, devido à própria precarização.

Neste sentido, mais do que ser uma reforma educacional a adoção destas formas de privatização é, antes de mais nada, uma reforma fiscal do estado e não tem nada a ver com o desejo alegado de melhorar a qualidade da educação pública.

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Escola pública de gestão pública

Diane Ravitch publica trecho de entrevista com a possível candidata Hillary Clinton onde ela se manifesta sobre as escolas charters americanas. Como se verá, depois de décadas começa a cair a ficha dos políticos democratas americanos:

“A ideia original, Roland, por trás das escolas charters era a de aprender o que funciona e, em seguida, aplicar nas escolas públicas. E aqui temos alguns problemas. A maioria das escolas charters – eu não quero dizer que todas – mas a maioria das escolas charters, não acolhe as crianças com mais dificuldades, ou, se o fazem, elas não as mantêm. E assim, as escolas públicas ficam muitas vezes em uma situação sem saída, porque elas o fazem, felizmente, incluem a todas, e, em seguida, elas não recebem os recursos ou a ajuda e apoio que precisam para ser capazes de cuidar da educação de cada criança .

“Então, eu quero que os pais sejam capazes de exercer a sua escolha dentro do sistema escolar público – não fora dele -, mas dentro dele porque eu ainda sou uma firme adepta de que o sistema público de ensino é um dos pilares reais da nossa democracia e é um caminho para a oportunidade “.

A realidade americana mostra que o dinheiro que deveria ser aplicado na manutenção e ampliação da escola pública de gestão pública acaba indo para as operadoras de charters com ou sem fins lucrativos, privando as escolas públicas dos recursos necessários. Isso gera uma espiral negativa para as redes públicas.

O que Goiás e Pará farão ao incentivar as escolas charters por aqui, está exatamente na contramão da compreensão de quem já passou pela expansão de escolas charters e agora tenta reverter o caminho.

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Carnoy: ranqueamento do PISA é enganoso

“BOULDER, CO (30 de outubro, 2015) por 15 anos, jornalistas, advogados e políticos têm citado as pontuações em testes internacionais como as do Programa para a Avaliação Internacional dos Estudantes (PISA), para concluir que o desempenho dos estudantes americanos “fica terrivelmente atrás” de outras nações, ameaçando nosso futuro e sugerindo uma necessidade urgente de reforma da educação.

Um estudo publicado pelo National Education Policy Center na Universidade de Colorado em Boulder explora tais análises políticas e afirmações em torno do PISA, bem como um segundo teste internacional de destaque, o Tendências no Estudo Internacional de Matemática e Ciência (TIMSS).

No estudo “A comparação de pontuações em testes internacionais e a Política Educacional: uma revisão das críticas”, o professor Martin Carnoy de Stanford, se concentra em quatro principais críticas de análises que usam as pontuações médias do PISA como uma medida comparativa de desempenho dos alunos.

O ranking é enganoso, Carnoy afirma, porque:

  • Estudantes em diferentes países têm diferentes níveis de recursos acadêmicos familiares – não apenas escolas diferentes;
  • Os maiores ganhos relatados no TIMSS, que é ajustado para diferentes níveis de recursos acadêmicos familiares, levanta questões sobre a validade do uso de resultados do PISA para comparações internacionais.
  • Os termos de erro [error terms] das pontuações do PISA – a diferença entre o desempenho medido e o desempenho real – são consideravelmente maiores do que as agências de teste reconhecem, tornando o ranqueamento de países instável.
  • O sistema educacional de Shanghai é apontado como um modelo para o resto do mundo com base em dados de um subconjunto de alunos que não é representativo da população de estudantes de Xangai como um todo.

Carnoy também avalia o significado social subjacente e o valor das comparações internacionais para a política educacional. Em primeiro lugar, ele descreve problemas com as afirmações de que as notas de matemática nacionais médias são prognósticos precisos de crescimento econômico futuro. Em segundo lugar, explica que utilizar os dados de desempenho dessa forma leva a uma utilização limitada na elaboração de política educacional, devido à inadequada análise de inferência causal. Este é o bem conhecido problema: “correlação não é causalidade”.

Em terceiro lugar, há um conflito de interesses decorrentes da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – (que administra o PISA) e seus governos membros atuando como uma agência de testes que simultaneamente é analista de dados e ao mesmo tempo intérprete de resultados para fins de política.

Em quarto lugar, Carnoy questiona a falta de utilidade das comparações dos resultados do teste no nível de nação, em países como os Estados Unidos que tem um sistema educacional diverso e complexo. As diferenças entre estados nos EUA são tão grandes que seria mais útil e interessante usar os resultados dos testes nacionais feitos ao nível dos estados ao longo do tempo para examinar o impacto das políticas de educação.”

Acesse o press release completo do NPEC aqui.

Acesse aqui também estudo de Carnoy com outros colaboradores onde apresenta análises mais detalhadas destas questões.

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Paraná não fechará escolas

O Governo do Paraná anuncia cancelamento de estudos para fechamento de escolas:

“O governador Beto Richa (PSDB) suspendeu nesta sexta-feira (30) o estudo que era coordenado pela Secretaria de Educação do Estado do Paraná (Seed) para fechar até 40 escolas da rede pública. A medida visava promover uma economia de até R$ 15 milhões, por ano, com o aluguel de imóveis.

“Estão cancelados os estudos de reestruturação que incluíam principalmente imóveis alugados. Determinei também que sejam retomados os critérios utilizados nos últimos anos para o planejamento e ensalamento de estudantes para 2016”, anunciou o governador por meio Twitter.”

Veja notícia completa aqui.

A notícia, entretanto, fala de estudos envolvendo imóveis alugados. Fica-se sem saber se a medida também protege algumas escolas do campo, por exemplo, as quais fucionam em assentamentos e que estavam ameaçadas de fechar.

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SP: reorganização reprovada

Com apenas 28% de apoio as mudanças propostas pelo Governo Alckmin foram amplamente reprovadas na capital do Estado de São Paulo. Os dados referem-se apenas à cidade de São Paulo.

O Paraná, mais inteligente, revogou o fechamento de escolas.

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Fechar escolas para quê?

O Prof. Marcos Francisco Martins da UFSCar publica hoje artigo no Correio Popular, jornal da cidade de Campinas, refletindo sobre o processo de reorganização das escolas do Estado de São Paulo. Segue abaixo reprodução do texto autorizada pelo autor.

Fechar escolas para quê?

Em países com alto índice de desenvolvimento humano, assiste-se ao fechamento de presídios e não de escolas. Nas nações que superaram tragédias, como guerras, a abertura e manutenção de escolas é uma constante histórica, que implicou padrão civilizatório mais desenvolvido, inclusive com redução da violência. Então, para que fechar centenas de escolas, como quer o projeto de “reorganização” da rede de ensino oficial do governo de São Paulo?
Anunciado pela mídia em 23/09, o projeto pretende separar as escolas em três ciclos (1º ao 5º ano; 6º ao 9º; e Ensino Médio) e fechar unidades escolares, com os seguintes argumentos: a) escolas com apenas um ciclo têm melhor rendimento nas avaliações; b) adequar a rede à nova composição etária da população paulista (segundo a Secretaria, a rede perdeu 2 milhões de alunos entre 1998 a 2015); c) favorecer o “foco” no Ensino Médio.
A iniciativa foi formulada nos gabinetes do Palácio dos Bandeirantes, sem transparência e sem diálogo com os diretamente afetados: professores, alunos e pais, o que contraria o preceito da “gestão democrática” presente nos artigos 3º, 14 e 56 da LDB (Lei 9394/96). Além disso, na campanha eleitoral, nunca o governador registrou a pretensão de fechar escolas, o que é um reprovável e anti-democrático artifício eleitoreiro.
Em relação à alegação de melhoria do rendimento, não foram apresentados dados científicos que demonstram que escolas com apenas um ciclo têm mais qualidade. Sobre o “encolhimento” populacional, ele ocorre em um contexto no qual o governo deu 0% de reajuste aos professores na data base, após longa greve, e fechou 3.390 salas da educação básica no Estado na última década.
Não é preciso esforço científico para demonstrar as consequências que virão: superlotação de salas e demissões que, segundo a APEOESP, atingirão 20 mil professores, sem mencionar as de trabalhadores terceirizados que atuam hoje em unidades a serem fechadas. Aliás, a Secretaria tem de dados para reprovar a “reorganização”, pois ela foi experimentada, sem sucesso, em 1995 pelo mesmo grupo que está no poder, gerando milhares de demissões, sem melhoria da qualidade da educação e com prejuízos à vida da comunidade.
Agora, ela é retomada, entre outros, com o objetivo de focar o Ensino Médio como formador de competente mão de obra, conforme a Meta 22 do Plano Estadual de Educação (PEE) enviado à Assembleia Legislativa, objetivo melhor perseguido com privatização e/ou terceirização, facilitadas pela separação dos níveis de ensino.
Se o “encolhimento” da rede é fato, perde-se a oportunidade para investir no que realmente as pesquisas têm apontado como o nó górdio do sistema educacional: redução do número de alunos por sala e da jornada de trabalho dos docentes, com readequação dos espaços físicos, os quais poderiam ser destinados a diferentes iniciativas educacionais.
Assim, o que está em jogo não é a qualidade social da educação, como processo de formação humana integral, como bem simbólico garantido constitucionalmente como um direito, mas um projeto que entende a educação como mercadoria, algo característico da concepção dos que têm governado São Paulo nas duas últimas décadas, com lastro para outras regiões do País, como o Paraná, que adota o mesmo projeto e também quer fechar escolas.
Essa prática é conhecida no meio empresarial como “downsizing”: enxuga-se a empresa para torná-la menos custosa e mais atrativa à venda. Implantado na educação, revela a concepção dos “reformadores empresariais”, que estão estrategicamente articulados e direcionando a educação paulista, tanto que seus representantes mantiveram (consultoria McKinsey) e mantêm (Falconi) escritório dentro da Secretaria Estadual de Educação. Assim orientada, prepara a rede para transformar alunos em clientes, sistemas didáticos oficiais em consumidores de cursos apostilados produzidos pelas mesmas consultorias em muitos casos.
A finalidade é implantar na educação a mesma lógica do mundo empresarial, para que atenda aos interesses de aumentar a produtividade e a lucratividade do capital, em baixa no sistema econômico mundial. Por isso a insistência com a meritocracia, metas, avaliação externa por testes padronizados, alteração e flexibilização de currículos (cf. a base nacional comum), bonificação etc., que revelam a preparação dos sistemas para a privatização e/ou municipalização, como está na Meta 21 do PEE, relativa ao ensino fundamental.
As orientações a essas iniciativas vem de agências internacionais, como o Banco Mundial, bem como de práticas estrangeiras, como as de gestão terceirizada para OS (Organizações Sociais) ou em parceria com a iniciativa privada, modelo experimentado nos EUA, mas que se revelou um fracasso assumido até mesmo por quem os formulou e implantou, como Daine Ravitch, ex-Secretária Adjunta de Educação dos governos Clinton e Bush, e mesmo por Obama, que anunciou recentemente a intenção de rever o sistema educativo dos EUA.
São legítimos, pois, os atos em repúdio à “reorganização”, que se espalharam pelo estado, pois eles indicam resistência em assumir a educação como mercadoria, como a serviço do capital, e pretendem retomá-la como um direito, necessário à formação humana integral.”

Publicado no Correio Popular de Campinas, 03/11/15, p. A-2

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Charters on line: sem sucesso

Se as charters presenciais americanas já têm dificuldades, imaginem as charters on line então. Nos Estados Unidos, as escolas charters podem ser presenciais ou on-line. Para o caso de alguém se interessar por implantação de escolas charters on line no Brasil, aqui vão os resultados de um estudo que acaba de ser divulgado pelo CREDO, levando em conta resultados de testes entre os anos 2008 a 2013, comparando estes resultados das charters on line com as escolas públicas regulares.

Resultados obtidos com o estudo:

  1. Estudantes de charters on-line perderam em média 72 dias de aprendizagem em leitura, ou seja, aprenderam em média o equivalente a menos 72 dias, em comparação com os alunos das escolas públicas de gestão pública.
  2. Estudantes em charters on-line perderam 180 dias de aprendizagem em matemática em um ano escolar de 180 dias. Ou seja, foi como se não tivessem ido à escola estudar matemática por um ano todo.
  3. O aluno médio em uma charter on-line teve pontuações de leitura mais baixa do que os alunos das escolas tradicionais em todos os lugares, exceto Wisconsin e Geórgia, e as notas de matemática foram inferiores em toda parte exceto em Illinois, Michigan e Wisconsin.

Veja mais sobre a matéria aqui, no blog Answer Sheer.

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O NAEP americano: crítica da crítica

Há um grande desconforto nos Estados Unidos com a queda de alguns pontinhos no NAEP em quase todas as séries e disciplinas avaliadas. Os reformadores americanos sofreriam menos se não acreditassem tanto em resultados de testes. Eles estão sendo vítimas de seus próprios instrumentos estreitos: os testes de habilidades. Como pregaram insistentemente que os testes criam responsabilização e tornam a educação melhorar, agora têm que lidar com os resultados adversos da rodada.

Testes não podem avaliar adequadamente o conjunto do desempenho de uma rede ou escola. Acabam por transformar correlações em causação e criam cenários pálidos da realidade concreta das escolas, sempre dinâmica e multifacetada. Além disso, os estados americanos têm políticas diferenciadas no campo educacional e certamente uma análise detalhada da situação de cada um deles revelaria situações diferenciadas para melhor e para pior. A NAEP está falando de médias. E médias dizem muito pouco sobre a micropolítica da escola. Se tivessem investido no aprimoramento das redes pela responsabilização participativa das escolas e de seus profissionais, estariam em outro patamar. É na micropolítica da escola que a pressão da macropolítica se perde.

As irritações com os resultados do NAEP não podem deixar de considerar as limitações intrínsecas aos testes e a política educacional que geram. De outra forma, parecera que o NAEP, algo equivalente à nossa Prova Brasil, porém amostral e não censitária, medisse efetivamente a qualidade da educação americana, centrada em testes marcadamente influenciados pelos processos de preparação para testes dentro e fora das escolas.

Não acredito que seja assim, mas foram os próprios reformadores empresariais que arrumaram as coisas deste jeito por lá. Neste ano, o exame mediu apenas Leitura e Matemática na 4ª. e na 8ª. séries. Não vejo como isso possa espelhar o desempenho de uma escola e muito menos de uma rede nacional. Não chegam a ser inúteis, especialmente no caso americano em que são amostrais e para efeito de orientar as políticas públicas, mas são frequentemente usados para dizer mais do que podem, principalmente no caso brasileiro onde querem fazer afirmações sobre cada escola.

Nos Estados Unidos a lei de responsabilidade educacional delegou aos estados a medição do desempenho de seus estudantes censitariamente, ficando o governo federal apenas com a avaliação amostral via NAEP. Logo se percebeu que os estados desenvolveram sistemas diferenciados e nem sempre rigorosos, pelo fato de estarem associados à obtenção de recursos federais. Recentemente, os reformadores americanos pressionaram para que se elaborasse uma base nacional comum federal acompanhada de um teste censitário federal que deve ser aplicado com todos os estados que adiram ao sistema Common Core.

No Brasil, a estratégia de ter um indicador para além da medida acadêmica em Leitura e Matemática e incluir a correlação idade série da criança sugere um caminho diferente, ampliado e descolado da medição isolada do desempenho na prova, como acontece nos Estados Unidos. Na forma como está, continua precário. Mas o Plano Nacional de Educação, sugere que se amplie a cesta de elementos a serem considerados no sistema nacional de avaliação. Será um excelente momento para se tentar ir além do modelo atual, restrito a dois fatores: prova e fluxo.

Para além destas decisões, o fato é que exames são sempre limitados e além disso, quando associados a recompensas, criam pressões para que a escola acabe por focar-se na preparação para os testes. Dessa forma, eles acabam medindo mais este efeito de preparação, do que de fato habilidades desenvolvidas nas crianças. Infelizmente, este é o caminho que também acabará por corromper o nosso sistema de avaliação.

Não bastasse isso, o teste acaba por espelhar o nível socioeconômico da criança. É algo aceito mundialmente que os resultados dos testes, em média, são diretamente proporcionais ao nível socioeconômico. No Brasil, esta variável essencial no entendimento dos resultados de um teste não tem sido tratada de forma adequada, especialmente no tocante à coleta de dados.

Os dados sobre a situação familiar, social, cultural e econômica da criança são informados pelas próprias crianças levando a distorções no fornecimento destes dados. É fundamental que na esteira do processo de acompanhamento do desenvolvimento do PNE, o INEP invista pesadamente no aprimoramento de técnicas de obtenção dos dados de nível socioeconômico da criança e os cruze com outras bases de dados já disponíveis. O atual processo de confecção da linha de base de acompanhamento do PNE, em curso no INEP, é um bom momento para se incluir nela esta preocupação.

Voltando ao NAEP, o ocorrido com a educação americana é mais significativo pelo fato de que nos últimos 10 anos os resultados tenham estado variando ao redor de um mesmo valor, do que de fato pela queda que agora se registra ao medir duas disciplinas da escola.

Porém, extrair conclusões deste tipo de medida seccional, colhida pontualmente, é muito difícil e arriscado. Não há como estabelecer, de fato, relações causais entre resultados de testes e políticas educacionais aplicadas, ainda que se tenda a responsabilizar o governo de turno pela queda nas curvas. Para tal são necessários estudos qualitativos.

O mais importante é que a educação americana está cambaleante nos últimos 10 anos, tanto no PISA como no NAEP, e isto é mais relevante do que a queda pontual nos testes deste ano. As políticas dos reformadores não conseguiram levantar as curvas usando os próprios métodos de aferição (limitados) que elas criaram.

O problema americano é de concepção de educação. Criaram um sistema de controle pedagógico acoplado a um controle de gestão que sufoca as escolas, seus profissionais e alunos. Há mais de 10 anos aplicando toda sorte de pressão sobre suas escolas e seu magistério, não conseguiram melhorar a educação nacional de forma equitativa e multidimensional, com uma formação humana ampliada que permitisse o crescimento das várias dimensões de desenvolvimento de suas crianças. Focaram em habilidades e mesmo assim não conseguem que os testes reflitam progressos consistentes. Também não diminuiram o fosso entre a aprendizagem de estudantes brancos e negros. Para dar um exemplo, em Leitura, na quarta série, a porcentagem de estudantes brancos em 2015 com proficiência é de 51%, a de negros é de 19%.

Estas constantes na educação americana são mais importantes do que a pontuação em si obtida nesta ou naquela prova, por mais que choquem a opinião pública. Neste sentido, mesmo que a educação americana tivesse resultados muito bons nos testes das disciplinas do NAEP, eles estariam refletindo um conceito estreito de educação, voltado exclusivamente para o ensino de habilidades de Leitura e Matemática e não para a educação multilateral de seus jovens. Quando nem as habilidades aparecem em alta, o rei fica nu. A crítica americana aos atuais resultados do NAEP tem esquecido esta questão.

É por isso que antes de se elaborar uma base nacional comum e produzir reformas é preciso definir o que entendemos por ter uma boa educação no país, caso contrário a média obtida em testes corre o risco de ser considerada boa educação quando sobe e educação de má qualidade quando desce. Eis a fonte do sofrimento atual dos reformadores empresariais americanos.

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Desastre americano ainda repercute

Para Frederick M. Hess e Jenn Hatfield:

“Comparados com duas décadas de resultados anteriores, estes resultados só podem ser descritos como um desastre. Eles são tão perturbadores principalmente porque estamos muito acostumados à constante melhoria das pontuações no NAEP. Nunca antes as notas de matemática da quarta série recuaram. As notas em leitura da oitava série não caíam desde 1996. As notas de leitura da quarta série não caíam desde 2003, e a de leitura da oitava série desde 2005. Em outras palavras, a carnificina generalizada em exibição este ano é totalmente sem precedentes.”

Nos últimos 10 anos, depois de um suspiro em algumas disciplinas logo após a lei de responsabilidade educacional, criou-se um platô de pequenas variações. De fato, as notas variaram em torno dos mesmos valores, ficando na mesma ou subindo um ponto aqui outro acolá, como se pode ver aqui. O tombo de agora é de derrubar Ministro e fazer mea-culpa, algo que é uma novidade na educação americana. Põe em cheque décadas de reforma empresarial da educação.

Sobre a entrada da lógica da concorrência empresarial nas escolas, Hess e Hatfield dizem:

“As corporações podem reinventar-se, mas as escolas devem ser o refúgio de um mundo de incertezas. Essa importação da incerteza para dentro da escola não melhora a educação. Ela transforma as escolas em instituições sem alma, sem coração, frias onde professores e diretores vêm e vão; membros da equipe desaparecem. A própria escola em si pode desaparecer.”

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Mercadante: a teoria da “ilha social”

Há algumas semanas reuni em um post várias situações produzidas pelo novo Ministro da Educação, Aloisio Mercadante. Em novas declarações,  o ministro dá mostras de ter comprado a tese de que se um aluno é alfabetizado, o problema das diferenças de níveis de aprendizagem fica equacionado. Ou em suas palavras:

“Quando olhamos o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) dos anos iniciais, passamos de 3,8 para 5,2. E a meta do Ideb para 2021 é 6. Portanto, nós demos um salto extraordinário no conjunto do sistema. Só que essa melhora foi muito desigual. Então, nós temos de focar agora exatamente nessas crianças”, diz o ministro.

Mercadante sustenta que a implementação do Pacto Nacional Pela Alfabetização na Idade Certa, em 2012, poderá começar a apresentar resultados de combate à diferença nas notas dos alunos. Para ele, a defasagem na alfabetização é fator-chave para entender resultados diferentes entre escolas. “Uma criança que não aprende a ler, depois não lê para aprender”, diz. (Grifos meus.)

Esta visão de senso comum, que também está presente nos reformadores empresariais, contraria o que o mundo inteiro sabe: o fator-chave que mais explica a diferença de desempenho em testes é o nível socioeconômico que com outros fatores também externos à escola, chega a explicar até 60% do desempenho. Há quem diga que o nível socioeconômico é o principal fator medido pelos testes e não o próprio desempenho acadêmico. Agora, vamos ver o que o Ministro que saiu, Janine, dizia:

“Queremos mostrar que os resultados não são apenas fruto de mérito pessoal, do estudo, mas componentes sociais fortes. (…) “Desigualdade social é externa à escola, tem um peso impressionante e é opressora. Fatores internos têm peso menor, mas papel libertador [podem melhorar a situação do jovem]. Você não consegue assegurar igualdade de oportunidades só pela escola.”

Ou seja, não desconhece a importância dos fatores internos, mas não ignora os externos. Janine tinha claro o impacto dos fatores externos no desenvolvimento dos alunos. O atual Ministro é mal assessorado na matéria, deslumbrado com soluções mágicas e acredita que a alfabetização das crianças, um fator interno à escola, nos salvará, independentemente dos fatores externos. Contra ele, tem a pesquisa educacional mostrando que não é assim. Nossa liderança educacional maior, piorou.

A fala de Mercadante é a mesma do movimento “no excuses” americano. Ele acha que assegurando que o aluno esteja na escola (política de permanência) e saiba ler (PNAIC), resolve o problema educacional. O passo seguinte é concluir que, se o aluno não aprende, a culpa é da escola. O que mais pode ilustrar a posição do Ministro é uma espécie de “teoria da escola como uma ilha social”.

E para finalizar, que ninguém é de ferro, ai vai o conselho do Ministro dado na premiação da escola com melhor índice de alfabetização do Ceará:

“O ministro agradeceu a recepção e reforçou que visitar o Ceará é motivo de orgulho, pois há um compromisso de todos na área da educação. “Temos hoje no Brasil 210 mil unidades de ensino, 50 milhões de estudantes e dois milhões de professores, e essa é uma escola que chamou nossa atenção. Dá orgulho de vir aqui no Ceará e conhecer lugares como este. Saibam que quem estuda escolhe o que vai ser na vida. Quem não estuda é escolhido ou não. Portanto, estudem e escolham“, enfatizou.” (Grifos meus.)

Sacou? É uma questão de mérito.

That´s all folks… for now.

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Leitor comenta

Leitor comenta post e informa estudo em andamento:

“O Brasil segue na contramão de paradigmas educacionais mais consistentes, como o finlandês, por exemplo, e insiste em continuar copiando o modelo dos EUA, mesmo quando o próprio governo americano começa a reconhecer o fracasso dessa concepção de educação.
Esse modelo neoliberal/mercantil de educação, perspectiva educacional contemporaneamente hegemônica no planeta, subsume completamente essa esfera aos mecanismos capitalistas de mercado, destituindo-a de seu fundamental papel de veículo do esclarecimento e da formação humana e instrumentalizando-a de forma a dinamizar e acelerar a reprodução ampliada do capital por parte da macroestrutura oligopólica de poder global.
Em minha Tese de Doutorado, notadamente no primeiro capítulo, estou procurando mostrar como essa macroestrutura de poder econômico capturou o sistema educacional dos EUA, parasitando-o com vistas a movimentar um mercado bilionário de empresas de provimento de educação, de tecnologia da informação, de consultoria e de infraestrutura para os referidos testes padronizados, verdadeira obsessão das forças político-economicas dominantes naquela formação social. Em seguida, replicarei a análise do modelo na realidade educacional brasileira, traçando um paralelo com a conjuntura norte-americana, mas salientando as peculiaridades e os constrangimentos estruturais que aprisionam nosso modelo, marcado pela inclusão subalterna e neocolonizada nos circuitos econômicos, científicos e tecnológicos globais.
Uma pena.”

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Mec inicia base nacional da formação

A Secretaria da Educação Básica do MEC começa a preparar alterações na formação de professores para alinhá-la à base nacional comum, conforme anunciou o Blog da Helena este mês.

Como é sabido, um dos desdobramentos da criação de uma base nacional curricular obrigatória é mudar o currículo das instituições formadoras de professores. Neste processo pretende-se também criar a residência pedagógica, dando bolsas para os recém-formados atuarem nas redes durante dois anos. Segundo a Veja, em entrevista com Manuel Palácios da SEB/MEC:

“No próximo mês, uma comissão de especialistas deve divulgar um roteiro de trabalho para o debate. Ao longo de 2016, universidades e organizações do setor também poderão contribuir. O processo começa agora, mas deve ganhar força no segundo semestre do ano que vem, quando o currículo do ensino básico estará pronto.

“O formato final deve atender às expectativas geradas pela base (curricular do ensino básico”, disse Palácios. A má qualidade na formação docente é considerada entrave para a adoção prática do currículo único. Bernadete Gatti, especialista em formação docente, foi convidada para coordenar o grupo.”

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Escolas charters: riscos do Governo de Goiás

Goiás decidiu abandonar 30% de suas escolas e entregá-las à iniciativa privada, como já divulgamos. Uma solução fácil que implicará em um desmonte da escola pública naquele estado. O dinheiro que deveria ser usado para alavancar as escolas públicas e o magistério, irá parar no bolso dos operadores de charters. Não é razoável que se deixe de investir na escola pública de gestão pública, para investir em uma escola de gestão privada que drena tais recursos preciosos.

Desmontado, aparecerão problemas que agora não são visíveis, mas o retorno destas escolas de gestão privada à condição de escola pública de gestão pública, será extremamente difícil. O Chile está tentando dar marcha a ré neste processo e vive hoje estas dificuldades de reversão de rota.

O sistema das charter precariza a educação e seus trabalhadores, portanto é gerido com menos recursos. Nos Estados Unidos, os professores das escolas charters ganham menos que os professores das escolas públicas regulares. Além disso, as charters só contratam professores que não são sindicalizados, exatamente para que não tenham resistência.

Esta é a principal motivação destas reformas. Aliás, sem demonstrar superioridade em relação à escola pública de gestão pública, seria insensato pensar em um sistema privado que fosse ainda mais caro. Retornar ao Estado, quando o fracasso deste caminho se impuser, implicará em recursos que já não existirão ou que foram alocados a outras atividades.

Quais as implicações desta decisão para a educação daquele estado? Já falamos muito neste blog sobre a duvidosa eficácia das escolas charters. Os estudos, em seu conjunto, não apontam vantagem das escolas charters sobre as escolas públicas de gestão pública. Mas há um outro aspecto que talvez seja até mais relevante: trata-se dos riscos de “desnacionalizar” suas escolas no médio prazo, colocando-as nas mãos de grupos econômicos que operam escolas charters e que estão radicados até mesmo fora do nosso país.

A democracia exige escolas públicas de gestão pública. Só este tipo de escola pública pode ter uma amplitude democrática que inclua a todos. A escola pública é responsável pela execução de um projeto de democracia e sem ela, terceirizada, a escola pública de gestão privada não terá a necessária abrangência inclusiva e a necessária isenção para permitir a pluralidade de ideias. Entregar a escola pública à administração de uma parte da sociedade, seja na forma de organizações sociais sem fins lucrativos ou aos empresários nacionais e/ou estrangeiros, é reduzir o alcance democrático da escola pública, além de expô-la ao controle de grupos confessionais ou empresas estrangeiras em operação pelo mundo na área educacional.

Caso emblemático é um movimento religioso da Turquia que controla mais de 200 escolas charters em território americano, o grupo Gulen. O jornal USA Today afirma que:

“O movimento fundou Centenas de escolas charter em todo os Estados Unidos e ao redor do mundo, ele tem a sua própria organização de mídia, e esteve profundamente enraizado com o regime turco até ser posto para fora há dois anos. Isso levou o presidente Recep Tayyip Erdogan a declarar que Gülen estava montando “um estado paralelo” no interior do país com a intenção de prejudicar o governo. Antes das eleições turcas, neste fim de semana, a polícia invadiu os escritórios das organizações de mídia da Gülen. ”

A reportagem ainda relata a existência de relações duvidosas do grupo com os congressistas americanos, foco da matéria, tendo o grupo financiado mais de 200 viagens para congressistas:

“Divulgações do Congresso mostram que as viagens apoiadas pela Gulen totalizaram mais de US $ 800.000 em viagens gratuitas para os legisladores e funcionários. Esse número provavelmente subestima os custos já que muitas das despesas no país não eram reportadas. ”

Veja reportagem completa aqui.

A questão que mais incomoda os americanos é que estão colocando a formação de seus jovens nas mãos de um conglomerado econômico estrangeiro, com princípios e valores diferentes dos seus, ou seja, estão perdendo controle sobre o que está acontecendo dentro de suas próprias escolas.

Não seria a escola pública de gestão pública  um local estratégico para um país, já que é ali que estão sendo formados os futuros profissionais e governantes nas várias áreas?

O Governo do Estado de Goiás está no caminho do desmonte da escola pública e de seu magistério. No primeiro momento, aparecerão organizações sociais ligadas a atividades confessionais, depois pequenos empreendedores nacionais. Finalmente, quando o mercado estiver estabelecido, aparecerão os grandes grupos operadores de escolas charters e do ensino privado. E pela lei do mercado, estes grupos maiores comprarão os menores e os eliminarão.

Quando o Estado quiser reagir, será tarde.

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