Argentina: coisa de gente grande

A Argentina universaliza ensino superior e revoga vestibulares de ingresso. A reforma na “Lei de Educação Superior” extingue os exames de acesso às universidades e garante a gratuidade dos cursos nas instituições públicas.

Segundo o jornal “La Nación”, o artigo 7 da nova lei institui que “todas as pessoas que aprovem a educação secundária podem ingressar de maneira livre e irrestrita na educação superior”. A lei afirma ainda que é responsabilidade do Estado financiar, supervisionar e fiscalizar as universidades nacionais, além de fiscalizar e supervisionar as instituições privadas. Ficam proibidas taxas, impostos, tarifas ou qualquer outra forma de cobrança nas instituições públicas.

Por outro lado, cada universidade poderá definir os requisitos que devem cumprir os estudantes para serem considerados alunos regulares.

Nada de ENEM digital ou MercaFlix.

Leia mais aqui.

Leia aqui também (em espanhol).

Publicado em Assuntos gerais | Com a tag | 2 Comentários

LRE: relator apresenta Parecer

O Deputado relator do projeto de Lei de Responsabilidade Educacional apresentou o seu Parecer e o texto da lei na Comissão Especial que trata da matéria. Baixe aqui o Voto do Relator. Baixe aqui o Texto da Lei.

A lei estabelece a avaliação do magistério a cada dois anos para efeito de progressão na carreira e assegura o pagamento do piso salarial.

“IV – implantação do piso salarial nacional profissional e da jornada de trabalho dos profissionais do magistério, com previsão de período de tempo específico semanal para atividade de planejamento e estudo coletivo, cumprido no estabelecimento de ensino, de acordo com a Lei n° 11.738, de 18 de julho de 2008;”

“VI – manutenção de programa permanente de avaliação de desempenho dos profissionais do magistério, incluída a aferição periódica do efetivo exercício de competências profissionais, a ser considerada como fator para progressão na carreira profissional, ao lado da titulação ou habilitação.”

Entre outros aspectos, a lei também estabelece o conceito de retrocesso justificado [por oposição ao injustificado]  na qualidade da rede de educação básica e como ele deve ser medido:

Art. 6o. O retrocesso injustificado na qualidade da rede de educação básica, decorrente da falta de cumprimento dos requisitos de padrão de qualidade definidos na legislação, ensejará a aplicação do disposto no art. 7o. desta lei [improbidade administrativa].

§ 1o. O retrocesso na qualidade da educação básica, referido no “caput”, será medido objetivamente pela comparação dos indicadores atingidos no final de cada gestão do Chefe do Poder Executivo com aqueles do final da gestão ¡mediatamente anterior, relativos:

a) ao desempenho médio da respectiva rede escolar pública nos exames nacionais periódicos aplicados no âmbito do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, nos termos do art. 11, § 1o, I, da Lei n° 13.005, de 25 de junho de 2014;

b) à proporção de estudantes incluídos nos níveis suficiente e desejável de aprendizado, de acordo com as escalas de proficiência adotadas para os exames nacionais periódicos referidos na alínea “a”.

c) ao desempenho médio dos estudantes da respectiva rede escolar pública nos exames nacionais periódicos referidos na alínea “a”, de acordo com seu nível socioeconómico.

§ 2o. Os exames nacionais periódicos referidos no § 1o. deste artigo ocorrerão bienalmente e em anos ímpares, com a obrigatória divulgação dos resultados até o dia 31 de dezembro do respectivo ano de realização.

§ 3o. É dever dos estados, dos municípios e do Distrito Federal assegurar, em cada escola de sua rede pública, a participação de, no mínimo, 80% (oitenta por cento) dos alunos de cada ano escolar avaliado nos exames nacionais periódicos.

A redação é suave. Quase chega a convencer. A lei institui o conceito de “retrocesso injustificado” nos indicadores da educação básica e estabelece que é nestes casos que haverá crime de improbidade administrativa. No momento que for aprovada, os gestores terão três anos para sua implementação.

Tradução: quando a responsabilidade for dos gestores-políticos, muito provavelmente os tribunais poderão considerar, a cada quatro anos, que o retrocesso foi justificado, mas quanto aos profissionais da educação, as consequências serão diárias e sem direito a “retrocesso justificado”. Ninguém vai querer pagar para ver.

Criaram-se dois níveis de responsabilização: um para o político-gestor (Presidente, Governador e Prefeito) e um segundo nível, por indução deste, para os profissionais da educação, comandado pelos Secretários de Educação no andar de baixo, no qual estão abertas todas as portas do inferno para exigências, cobranças, punições e tudo o mais, incluindo as fraudes.

Vendedores de milagres estarão a postos para fornecer assessorias e consultorias destinadas a garantir que o andar de baixo (dos profissionais da educação) não coloque em risco o andar de cima (dos políticos-gestores).

Basta ler os objetivos do PNE para o desempenho dos estudantes para verificar que são inatingíveis por métodos educacionais normais e éticos, no prazo estipulado:

“a) no quinto ano de vigência deste PNE, pelo menos 70% (setenta por cento) dos (as) alunos (as) do ensino fundamental e do ensino médio tenham alcançado nível suficiente de aprendizado em relação aos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de seu ano de estudo, e 50% (cinquenta por cento), pelo menos, o nível desejável;

b) no último ano de vigência deste PNE, todos os (as) estudantes do ensino fundamental e do ensino médio tenham alcançado nível suficiente de aprendizado em relação aos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento de seu ano de estudo, e 80% (oitenta por cento), pelo menos, o nível desejável.”

Por esta regra, Obama e os governadores dos estados americanos estariam enquadrados na Lei de Responsabilidade Educacional se administrassem o Brasil e lá a lei foi implantada há 14 anos. Em 2014 Obama resolveu o problema dos gestores-políticos fornecendo um  “perdão” aos Estados por não a terem cumprido. Mas aí, já era tarde, a lei tinha sido usada para sua real finalidade, privatizar e não melhorar a qualidade da educação – como os dados divulgados nesta semana mostram, com direito a mea-culpa de Obama.

Como se pode ver na história americana, os gestores-políticos se deram bem ao final. Mas os professores, gestores educacionais, estudantes e pais, amargaram e continuam amargando a destruição do sistema educacional público americano e a própria destruição do magistério.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | Com a tag | Deixe um comentário

Ministro antecipa MecFlix pela TV Escola

Enquanto nos Estados Unidos Obama troca o seu Ministro da Educação e faz mea-culpa por ter enfiado a educação americana no maior processo de “preparação para testes” (veja aqui declaração de Obama), nosso Ministro da Educação anuncia o MecFlix:

“Durante a visita, o ministro anunciou para os alunos o lançamento de um novo programa voltado para o Enem, que será implantado pelo Mec em 2016. “Com o novo programa, implantaremos todos os dias na TV Escola uma hora dedicada ao Enem; faremos um jornal informando as melhores instituições de ensino superior do país; disponibilizaremos no site do MEC mais de 3 mil exercícios, para auxiliar o estudante; todo terceiro domingo do mês aplicaremos um exame, que resultará no diagnóstico do aluno e um guia de estudos. Saibam que quando anunciar este programa em Brasília vou falar que lancei aqui na escola Adriano Nobre, no interior do Ceará. O Brasil inteiro ouvirá falar da escola”, informou.”

Esta é a corrida para melhorar os índices, não necessariamente para melhorar a educação e a formação dos nossos jovens. Preparar para os testes, não é sinônimo de educar.

Publicado em Enem, Mercadante no Ministério | 2 Comentários

Por que entrar se quem está dentro quer sair?

Como já indicamos em outros posts, o anúncio do desastre dos resultados da avaliação nacional da educação básica americana foi antecedida pela divulgação da substituição do Ministro da Educação Arne Duncan e por um documento da administração Obama noticiando uma proposta de mudança para a política de avaliação nacional. Veja alguns trechos da análise de Jesse Hagopian produzido para o Blog de Diane Ravitch:

Acesse o texto completo aqui.

“Em uma virada impressionante na semana passada o presidente Obama anunciou que “testes desnecessários” estão “consumindo muito tempo de instrução” e demandando “esforço impróprio de educadores e alunos.” Raramente há um presidente que tenha repudiado tão completamente um aspecto definidor da sua própria política pública educacional. Em um vídeo de três minutos anunciando esta reversão, Obama faz piadas sobre o quão estúpido é sobrecarregar os estudantes de testes, e recorda que os professores que tiveram maior influência sobre a sua vida não foram aqueles que o prepararam para os testes padronizados. Talvez Obama espere que esqueçamos que foi seu próprio Ministro da Educação, Arne Duncan, quem radicalmente reorganizou o sistema educacional americano em torno da todo-poderosa pontuação dos testes.

A declaração de Obama vem na sequência de mais um estudo revelando o número esmagador de testes padronizados que as crianças são forçadas a fazer: O aluno médio hoje é submetido a 112 testes padronizados entre a pré-escola e a conclusão do ensino médio. Porque é o que nós temos exigido e recompensado e o sistema educacional da América tornou-se completamente fixado em quão bem os alunos se desempenham em testes. Além disso, a maior concentração destes testes está em escolas que atendem alunos de baixa renda e estudantes de cor.” (…)

“Estas políticas, por sua vez produziram o maior levante contra testes de alto impacto da história dos EUA. Para dar-lhe apenas alguns exemplos do tamanho e escopo desta Luta sem precedentes: os alunos realizaram greves de testes em Portland, Chicago, Colorado, Novo México, e outros. Os professores de Seattle a Toledo a Nova York se recusaram a administrar testes. E o movimento dos pais retirou as crianças dos testes explodindo em um movimento social de massa, incluindo cerca de 60.000 famílias no estado de Washington e mais de 200.000 famílias em estado de Nova York.” (…)

“E deve ficar claro que este levante nacional, esta Primavera Educacional, forçou a testocracia a recuar e é a razão pela qual a administração Obama chegou à compreensão atual sobre os testes nas escolas.

No entanto, a testocracia, tendo acumulado tanto poder e riqueza, não vai apenas escapulir no silêncio da noite. Um vídeo no facebook de Obama não vai convencer a corporação Pearson a desistir dos seus $ 9 bilhões em lucros corporativos com testes e livros didáticos. O emaranhado de testes promulgados pelo governo federal agora está incorporado nos sistemas estaduais e distritais.” (…)

“O principal cúmplice de Obama na proliferação de testes caros, Arne Duncan, disse que “é importante que todos nós sejamos honestos conosco mesmos. No âmbito federal, estadual, e no nível local, todos nós apoiamos políticas que contribuíram para o implementação do problema. ” (…)

Sim, vamos todos ser honestos com nós mesmos. Honestidade requer o reconhecimento que as pontuações em testes padronizados demonstram principalmene o nível de renda familiar de um aluno, não o quão bem um professor treinou o aluno a preencher quadradinhos em testes. Honestidade exige que nós reconheçamos que o maior obstáculo para o sucesso dos nossos alunos é que os políticos não são responsabilizados pelo fato de que quase metade das crianças das escolas públicas agora vive na pobreza. O Congresso, que está debatendo a nova revisão da política de educação federal, deveria se concentrar na proposta de programas para apoiar as crianças desfavorecidas e deixar a política de avaliação para os educadores locais.

Eles demonstraram que não conhecem a melhor forma de avaliar os nossos alunos e agora admitiram isso. É hora de ouvir aqueles que como nós têm defendido colocar um fim à prática infindável de ranquear e classificar nossos jovens com testes de alto impacto. É hora do Congresso revogar a exigência de testes padronizados para cada nível de ensino. É hora de acabar com o reinado da testocracia e permitir que os pais, alunos e educadores implementem avaliações autênticas projetadas para ajudar a aprendizagem do aluno e desenvolver a criança como um todo.”

Este é um recado veemente para os nossos políticos brasileiros que estão empenhados em replicar, no Brasil, um caminho que a prática mostrou ser equivocado. Quanto mais rapidamente cheguemos a esta conclusão, mais rapidamente encontraremos o caminho para a real melhoria da nossa qualidade de ensino.

Engana-se, quem pensa que poderemos fazer melhor por aqui, trilhando o mesmo caminho. Não há versão 2.0. A força do mercado é quem comanda a testocracia.

O fracasso dos processos de avaliação de alto impacto é também o fracasso das estratégias adicionais americanas das escolas charters e das políticas de bonificação, bem como das práticas de alteração da carreira dos professores que lhes retiraram a estabilidade no emprego, para instalar políticas de pressão sobre o magistério. Estas políticas não fracassaram só nos Estados Unidos. Também fracassaram onde já foram copiadas nas últimas décadas, como no Chile (veja aqui e aqui) e a Suécia (veja aqui), por exemplo.

Os acontecimentos americanos coincidem com o anuncio de que Goiás vai terceirizar no formato das escolas charters americanas 30% da sua rede estadual.

Se quem entrou quer (ou teve que) sair, qual a razão para entrarmos?

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Patria Educadora, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | Com a tag | 5 Comentários

Goiás: 30% das escolas vão para OSs

Informações de Goiás dão conta de que o ano de 2016 vai iniciar com 30% das escolas do Estado de Goiás terceirizadas para Organizações Sociais.

Publicado em Escolas Charters, Privatização | 4 Comentários

Rio: leitora informa fechamento de escolas

Segundo a leitora do blog:

Um levantamento não muito preciso, revela que a rede estadual do Rio de Janeiro fechou, desde 1995, 2236 escolas. Eram 3500, ao final daquele ano (Governo Nilo Batista), e hoje, são 1264. Houve municipalização de parte delas, mas muitas foram fechadas sem nenhuma transferência a outras redes. Nos últimos anos, eu trabalhei em 2 escolas que passaram por essa situação: o Instituto de Educação Professor Carlos Camacho, em Magé, foi extinto e não foi municipalizado e o Colégio Estadual Lauro Corrêa, em São Gonçalo, quase foi extinto e não seria municipalizado, mas continua aberto pois houve recuo da SEEDUC diante da forte resistência da comunidade escolar.

Em muitos casos, como nos que eu vivenciei, os CIEPs têm se tornado destino das escolas extintas. Nada tenho contra trabalhar em CIEPs, pois já trabalhei em alguns e gostei, mas o caso é que hoje os CIEPs são escolas comuns e que não oferecem, além da ainda boa estrutura física, nenhum outro diferencial. Como exemplo, destaco o CIEP 237 – Vladimir Herzog (próximo de onde moro), que comporta atualmente os estudantes, os professores e o mobiliário de outras 3 escolas estaduais: E. E. Luiz Palmier (extinta), CIEP 236 – Djanir Cabral Malheiros (escola de educação especial extinta para dar lugar à Coordenadoria Regional de Educação), e o C. E. Tarcísio Bueno (cujo telhado desabou em agosto e a previsão é de 3 anos para as reformas).

O cenário aqui é grave! A última publicação de extinção de unidade escolar saiu no D.O. deste mês, e foi a vez de uma escola rural em Campos.

Publicado em Assuntos gerais, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

USA: resultados da educação básica caem

Nesta manhã de 28 de outubro saíram os resultados da avaliação nacional americana realizada na sua educação básica (4a. e 8a. séries). Como tem ocorrido a cada dois anos desde a implantação da lei de responsabilidade educacional, os resultados foram ruins.

Em matemática para a quarta série e para a oitava série, o resultado retrocedeu ao mesmo valor médio que tinha em 2007. Em leitura para a quarta série, houve estagnação e o resultado obtido varia em torno do mesmo valor desde 2007 (221 a 223). Na oitava série é pior ainda, houve queda na pontuação de 268 para 265 e o valor é parecido com o de 1992 quanto era de 260.

Nos estados as notas não foram melhores. Em matemática apenas 3 estados melhoraram e em outros 30 cairam ou na 4ª. ou na 8ª.. Em leitura 14 estados tiveram alguma melhora e em 9 houve queda ou na 4ª. ou na 8ª, em relação a 2013.

Mais uma vez os limites das políticas de responsabilização, pagamento de bônus, terceirização de gestão e vouchers são colocadas em cheque no país que mais fez uso destas estratégias sem medo de destruir a educação pública e o magistério.

De fato, tudo que conseguiram até agora, foi destruir as escolas públicas e o magistério. As pontuações não conferem com as promessas que os reformadores empresariais da educação têm alardeado dentro dos Estados Unidos e vendido para fora, para países como o Brasil, Chile e outros.

William Mathis e Kevin Welner do NEPC escrevem:

“A liberação desta manhã [28] dos resultados da Avaliação Nacional do Progresso Educacional (NAEP) relata uma queda nas pontuações, segundo múltiplas fontes. Estas notas mais baixas no Relatório Nacional não são uma boa notícia para ninguém, mas elas são particularmente más notícias para aqueles que têm sido vigorosamente defensores das abordagens “sem desculpas” – políticas de responsabilização e testes baseados em padrões como o No Child Left Behind. Tais políticas seguem uma lógica previsível: (a) as escolas estão falhando; e (b) as escolas vão melhorar rápida e milagrosamente se implementarmos um sistema de alto impacto que torne os educadores responsáveis pelo aumento das pontuações dos testes dos alunos.”

É claro que Obama foi previamente informado de que o desastre estava para ser divulgado, daí sua atuação nesta semana que antecedeu a liberação dos resultados, divulgando antes seu Testing Action Plan.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Vouchers | Com a tag | Deixe um comentário

Fechar escolas é crime

O MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – há muito denuncia o fechamento de escolas no campo. O argumento por lá é o mesmo de cá: mudança na densidade populacional – lá induzida pelo agronegócio e pelo descaso dos governos com os povos do campo.

Desde 2011 o MST denuncia a dilapidação do patrimônio público cultural do campo com fechamento de milhares de escolas. Entre 2003 e 2011 já haviam sido fechadas 24.000 escolas. A contabilidade hoje é muito maior: são mais de 30 mil.

Agora a onda chega às áreas urbanas. O Paraná está fechando 40 escolas e o Estado de São Paulo anunciou a desativação de 99 escolas que serão entregues a municípios para serem usadas como escolas ou outros fins. Deveriam ser mais, mas a reação contrária fez com que a Secretaria se contentasse, por agora, com um número mais modesto. Fatiou a reorganização.

Repassar escolas para os municípios no quadro da atual crise fiscal, é o mesmo que enviá-las para a privatização. Campinas, no Estado de SP, por exemplo, já aprovou a possibilidade de terceirizar a gestão das atuais escolas municipais. Creches já são operadas por terceirizadas. Se receber mais escolas para usar como creches, por exemplo, serão igualmente terceirizadas.

No campo, elas são fechadas mesmo. O agronegócio projeta um campo sem gente. Fechar a escola é uma forma de esvaziar o campo. Na cidade, se as escolas escaparem da terceirização, serão destinadas a outros fins.

É a lógica financeira de “alunos por metro quadrado” o que define, nas planilhas financeiras, se compensa ou não ter uma escola em um determinado local. Não é a função social que a escola cumpre ou poderia cumprir de forma ampliada como um centro cultural local, o que guia a decisão.

Em um momento em que se tem uma descompressão de alunos nas escolas urbanas, ao invés de se avançar para uma diminuição de alunos em sala de aula, melhorando a qualidade da educação, opta-se pela tese da “eficiência administrativa” que fecha escolas e comprime os alunos em salas com até 40 alunos por professor.

Além disso, nossa escola é de tempo parcial. Ao implantarmos escola de tempo integral, como define o PNE, faltarão salas de aula.

Infelizmente, não há “lei de responsabilidade” que puna esse crime. Os governantes não precisam ser “responsáveis” nestes casos.

Publicado em Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | 1 Comentário

OBAMA e o futuro da [nossa] avaliação – final

Como registramos em post anterior, o documento do Conselho das Grandes Cidades americanas sobre avaliação levou à reação de Obama que anunciou mudanças na política de avaliação das escolas nos Estados Unidos que segundo os analistas procurarão resolver estes problemas. Para alguns, de fato, a encenação se deve à proximidade das eleições americanas. Mas para outros há mais em jogo: a emergência de uma nova geração de sistemas de avaliação.

Diz Obama no documento:

“Em muitas escolas, há testes desnecessários e sem clareza suficiente quanto aos propósitos de seu uso na tarefa de avaliar os alunos, consumindo muito tempo de instrução e criando tensão indevida para educadores e estudantes. A Administração tem alguma responsabilidade por isso, e estamos empenhados em ser parte da solução.

Ninguém se propôs a criar situações onde os alunos passam muito tempo fazendo testes padronizados ou onde os testes são redundantes ou deixam de fornecer informações úteis. No entanto, estes problemas estão ocorrendo em muitos lugares – efeitos não intencionais de políticas que visam fornecer informações mais úteis para educadores, famílias, estudantes e formuladores de políticas e para garantir a atenção ao progresso da aprendizagem de alunos de baixa renda e de minorias, estudantes aprendizes do inglês, alunos com deficiência e membros de outros grupos que têm sido tradicionalmente pouco atendidos.

Estes objetivos estão certos, mas o apoio correto para a sua implementação tem sido inadequado, inclusive da parte desta Administração. Nós nos concentramos no incentivo para os Estados assumirem esses desafios e proporcionar-lhes flexibilidade. Um dos resultados dessa abordagem é que não temos prestado assistência suficientemente clara para a maneira de abordar cuidadosamente os testes e avaliação.”

Este é o mea-culpa que, diga-se de passagem, os educadores americanos estão considerando um engodo. As soluções propostas pela Casa Branca de Obama estão sendo percebidas pelos educadores como forma de se incentivar com recursos públicos a emergência de uma nova geração de avaliação que não esteja separada do próprio processo de aprendizagem e que faça a conexão entre grandes bases de dados sobre alunos/professores/escolas, sistemas de avaliação on line e sistemas digitais de aprendizagem.

A nova ferramenta é conhecida como “competency-based assessment” (“avaliação baseada em competência”) a ser desenvolvida de forma acoplada a bases de dados (big data) e a “digital learning” (“aprendizagem digital”).

Nas palavras do blog Educationalchemy:

“O dinheiro será direcionado para empresas privadas que serão contratadas pelos Estados para implementar serviços de educação e avaliação on-line. A afirmação chave aparece de novo: “o desenvolvimento de novos instrumentos de avaliação inovadores, tais como sistemas de avaliação acadêmicos baseados em desempenho e tecnologia”.

Veja como a aprendizagem do seu filho será avaliada nesta próxima geração:

‘Outros avanços irão garantir tecnologias de ensino e plataformas cada vez mais sofisticadas de aprendizagem e de sistemas de dados que não somente identificam as necessidades dos estudantes mais eficientemente, mas também mais efetivamente identificam e realizam as intervenções correspondentes a partir de repositórios com softwares adaptativos, entregam conteúdo e recursos digitais disponibilizados por um instrutor (online e face-a-face) não disponíveis por meios tradicionais. O amadurecimento da interoperabilidade de dados e padrões de portabilidade de conteúdo permitirá a educadores, estudantes e a aplicações de software montar cada vez mais originalmente, os melhores recursos personalizados para cada aluno’.”

Podemos discutir se isso chegará e quando chegará por aqui. Mas não devemos deixar de anotar movimentos feitos pelo MEC e pelo INEP nesta direção:

  1. Foi inaugurado no INEP o portal de devolutivas
  2. Especialistas de Harvard sobre big data, estiveram recentemente no INEP
  3. Inaugurou-se nesta semana o MECFLIX, uma plataforma de vídeos on demand, que procura integrar aulas com conteúdos do ENEM, avaliação de desempenho e tabelas de exercício.
  4. O ENEM está pautado para se transformar em avaliação digital

Juntem tudo isso e façam suas apostas…

Esta perspectiva, caso se concretize, esta baseada em um conceito estreito de educação, reduzido a instrução. Para tal conceito, também não são necessários “professores” mas sim simples instrutores ou “animadores” on line.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

OBAMA e o futuro da [nossa] avaliação – I

O educadores estão tentando entender o movimento da administração Obama ao propor seu Testing Action Plan. Poucos acham que estão de fato ante um “mea-culpa” sobre o uso excessivo da avaliação nos Estados Unidos e outros entendem como um plano destinado a bancar a emergência de uma nova geração de avaliação acoplada à aprendizagem e às bases de dados destinada a alimentar mais ainda a privatização da educação americana.

A primeira medida central nesta caminhada foi a construção da Base Nacional Curricular, lá conhecida como Common Core. Ao padronizar a educação de maneira detalhada, ela permite que se ampliem as possibilidades de terceirização da educação, pois especificam com mais detalhes o retorno esperado da iniciativa privada. Mas não é só isso.

Diz o blog EducationAlchemy:

“Os padrões foram desenvolvidos para criar um sistema padronizado que permite terceirizar para empresas o desenvolvimento de sistemas de ensino. Agora, com um conjunto de padrões como referência, a instrução pode ser feita por empresas on line e de tecnologia educacional que fornecem um novo sistema de ensino e avaliação baseados em “competência”.

Já comentamos, em outro momento, o crescimento das escolas terceirizadas on line nos Estados Unidos, as quais trabalham com outra relação aluno/professor. Enquanto em uma escola convencional a relação é de um professor para 40 alunos, nas escolas on line um professor pode cuidar de 300 alunos. A diluição de custos com pagamento de professores é fantástica – se é que podem ser chamados de professores.

Em tecnologia e produção de sistemas de aprendizagem, gasta-se inicialmente muito para montar o sistema, mas depois, o uso pode ser feito em escala. Desta forma, o processo de terceirização encontra sua barreira na própria concepção da escola convencional que ocorre em um lugar definido e presencialmente, segurando a relação professor/aluno. Liberta de lugares fixos e com sistemas pré-fabricados, é possível ganhar escala, desde que se tenha uma base nacional curricular obrigatória, em nível nacional, que paute a educação em todos os estados e municípios.

Além disso, a avaliação convencional de larga escala não consegue ultrapassar um determinado patamar de eficiência. A educação americana usou em amplamente esta avaliação convencional. Os efeitos colaterais e a eficiência da estratégia de responsabilização encontrou um limite claro que põe em risco a própria continuidade da estratégia. Um claro aviso veio do Estado de Nova York onde mais de 200 mil pais impediram suas crianças de participar das avaliações de larga escala colocando em risco todo o sistema de avaliação. Acoplar avaliação e instrução, acalmaria os pais, além de impedir a estratégia do boicote  pois as aduas ações ficam imbricadas e realizadas em tempo real e de forma simultânea.

Subitamente, Obama tira do nada um Testing Action Plan, motivado pela divulgação de um estudo de Hart e Casserly feito para o Council of the Great City Schools e que acaba de ser publicado.

Baixe o estudo completo aqui.

A proposta de Obama está sendo vista como um novo plano para alavancar um novo estágio para os processos de avaliação externa das escolas, o que permitira um controle – entre outros aspectos – das próprias empresas terceirizadas operando na área educacional, além de viabilizar custos, como já mencionado.

O relatório do Conselho mencionado, que pretendeu fazer uma fotografia da avaliação nas grandes redes de ensino americana, concluiu que:

“Em primeiro lugar, as escolas públicas urbanas do país administram um monte de testes. O aluno médio faz cerca de 112 testes entre pré-escola e último ano do ensino médio. (…) O benefício disso é que as avaliações dotam as escolas do país com ferramentas que permitem reunir dados objetivos, determinar se estão fazendo progressos, e diagnosticam as necessidades dos alunos. Além disso, os testes padronizados permitiram à nação lançar luz sobre grandes desigualdades com que lutam alunos de diferentes grupos raciais, linguísticos e de renda.

O outro lado desta moeda é que os testes nem sempre são muito bons em fazer o que precisamos que eles façam, eles não nos dizem tudo o que é importante sobre uma criança, e eles não nos dizem o que fazer quando os resultados são baixos. Isso ocorre por uma série de razões: os dados chegam demasiado tarde para informar necessidades imediatas de instrução; os professores não têm o desenvolvimento profissional de que necessitam sobre como ler, interpretar e fazer uso dos resultados em suas salas de aula; os professores e administradores não confiam nos resultados, acreditam que os testes são de baixa qualidade, ou acham que os resultados estão desalinhados com os padrões que estão tentando ensinar; ou os múltiplos testes fornecem resultados que são contraditórios ou produzem dados demais para fazer sentido.

O resultado é que os dados de todos esses testes nem sempre são usados para informar a prática de sala de aula. Além disso, alguns alunos não conseguem ver a multidão de testes como importante ou relevantes, e eles nem sempre dão o melhor de si para fazê-los bem.”

Importante notar que nesta conclusão existem fatores cujo solução vão além do próprio teste ou de sua forma de aplicação. A crença em que a tecnologia tudo resolve, moverá os sistemas de avaliação para novos patamares, efetivos ou não. Há questões como o uso dos resultados dos testes, preparação para extrair consequências pedagógicas específicas para as salas de aula, confiança nos resultados dos testes, ou ainda o empenho dos alunos durante a realização dos testes que não se resolvem com o próprio teste, mas que estarão pautando, agora, o nascimento desta segunda geração destinada a conectar avaliação com o próprio ensino.  Isso exige novas tecnologias on line.

“Em segundo lugar, (…) ficou claro pela nossa pesquisa que a quantidade de tempo necessária, em média, para fazer testes obrigatórios é de cerca de 25 horas ou mais, ou de quatro a cinco dias por ano letivo, cerca de 2,34 por cento, de um típico ano escolar de 180 dias. Isto não é uma grande parte do tempo de instrução total de um sistema escolar. No entanto, na prática, o tempo de teste pode ser dividido ao longo de mais de quatro ou cinco dias, e um tempo de instrução adicional pode ser perdido por inatividade (por exemplo, exames NCLB estado podem ser dados em partes tomando vários meios dias). O total pode tirar tempo de professores e alunos, sobretudo se também se leva em conta o tempo necessário para administrar os testes e se preparar para eles. Além disso, grande parte destes testes acumulam-se no segundo semestre do ano letivo de uma forma que faz com que o segundo semestre pareça um longo teste.”

“Em terceiro lugar, há uma considerável redundância nos testes que alguns sistemas escolares administram e alguns daqueles testes que os estados exigem.”

A “economia” de tempo pretendida por Obama e o combate à preparação para os testes que consomem grande tempo, se resolveria com a junção on line da instrução e avaliação criando caminhos diferenciados para os estudantes em função de suas próprias dificuldades. Acabaria também, a redundância de testes.

Continua no próximo post.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Privatização, Responsabilização/accountability | Com a tag , , | 1 Comentário

SP: escola pede ajuda

Você pensava que algum dia veria no Brasil as escolas fazendo abaixo assinado para não serem fechadas? Pois basta percorrer a Charge.org e você encontrará várias delas pedindo socorro. Em outros países, os reformadores fecham escolas às centenas para entregá-las à iniciativa privada ou desativá-las definitivamente.

Aqui vai uma que já conta com mais de 2000 adesões para que não seja fechada.

“A Escola de Ensino Fundamental 1 – Mathias Aires (Terceira melhor nota do IDESP-2014 no Estado de São Paulo – 8.19, além de ser a 1ª na Diretoria de ensino Norte 1) conta com mais de 400 alunos e ainda assim será desativada para a reorganização da Secretaria da Educação.

Uma escola-modelo que funciona com máxima eficiência, que tem alunos frequentes e que já é de ciclo único. Ao desativar essa escola, o governo desativa um promissor projeto pedagógico, desativa a esperança e confiança depositados pelos pais de alunos em uma educação de qualidade para seus filhos.

O resultado disso? – Salas superlotadas – Péssimas condições de trabalho – Péssimo aproveitamento dos alunos – Entre outras coisas.

Vamos lutar para nossa escola continuar o excelente trabalho que faz!”

Assine aqui.

Publicado em Reorganização escolas em São Paulo | 1 Comentário

Obama quer deter política de testes

FAIRTEST e a Badass Teacher Association reagiram hoje em notas onde comentam a declaração do Governo Obama a favor da diminuição dos testes usados nos Estados Unidos. No entanto, ela foi recebida com desconfiança em um clima em que Hillary Clinton está sendo alçada a candidata dos democratas para as próximas eleições. As organizações e ativistas querem medidas concretas.

Obama também às vésperas de sua primeira eleição condenou os testes, mas depois implementou o Race to the Top que só ampliou os testes, inclusive para os professores. Portanto, a declaração está sendo considerada benvinda, mas algo para se “ver para crer”. Em todo caso, a reautorização da Lei de responsabilidade educacional americana conhecida como No Child Left Behind está em curso e consiste em uma ótima oportunidade para Obama demonstrar de fato as implicações práticas desta crítica. Leia a seguir a declaração da BAT e a reação do FAIRTEST, ela são bem ilustrativas dos erros americanos, erros que estamos nos dedicando diligentemente a replicar no Brasil, apesar dos alertas.

A declaração da BAT diz:

“Hoje, a administração Obama divulgou um comunicado pedindo “um limite para a avaliação de forma que nenhuma criança gaste mais de 2 por cento do tempo de instrução em sala de aula fazendo testes. Ele pediu ao Congresso que” reduza o excesso de testes», ao re-autorizar a legislação federal que rege a escolas públicas primárias e secundárias do país. “A Associação Badass de Professores, uma organização educacional ativista, com mais de 70.000 seguidores em todo o país, está reticentemente satisfeita com este anúncio. Nossa proposta sempre foi a de se recusar a aceitar testes e avaliações criadas e impostas por entidades movidas por corporações empresariais que têm desprezo pelo ensino e aprendizagem autênticos. Os nossos objetivos foram sempre reduzir ou eliminar o uso de testes de alto impacto, aumentar a autonomia do professor na sala de aula, e incluir a voz de professores e dos pais em processos de tomada de decisões legislativas que afetam os estudantes.

Desde a Lei No Child Left Behind e o Race to the Top vimos nossos filhos e comunidades de cor suportar o peso da obsessão pelos teste que veio com a onda da Reforma Empresarial da Educação. Quando os recursos deveriam ter sido utilizados para o financiamento e o planejamento, os políticos e os formadores de opinião foram se concentrando em fazer as crianças terem mais testes na esperança de que dessa forma ocorreria a equidade na educação. Não funcionou, e não vai funcionar. Sabemos, como educadores, que não há caminho por fora da lacuna educacional e de oportunidade. A agenda de culpar e punir pelo teste não fechou nem a lacuna da educação, nem a da oportunidade. Estamos relutantemente satisfeitos que o presidente e seu governo estão finalmente tomando uma posição, mas infelizmente a devastação já foi feita. Estamos confiantes de que, se o presidente e seu governo assumirem o compromisso de trabalhar com os educadores, pais e alunos possamos corrigi-lo corretamente.

“Embora este seja um passo na direção certa sentimos que precisamos ver qual é a política antes de contar isso como uma vitória. Dadas as suas ações em Nova York, não temos nenhuma razão para confiar em John King [atual Ministro da Educação], e estamos preocupados que este seja apenas um estratagema para trazer os professores para o lado dos democratas de Hillary Clinton” – afirmou a Dra. Denisha Jones, Membro do Conselho de Administração da BAT.

“A política que decorre desta declaração tem de estar consciente das discussões importantes sobre exatamente que tipo de testes é mais benéfico para os nossos alunos. A BAT defende que os testes sejam conduzidos por professores com feedback imediato e relevante, os quais podem ser usados para orientar as práticas pedagógicas”- afirmou  Melissa Tomlinson, Diretora Executiva Adjunta da BAT.

“As políticas do secretário Duncan e do Departamento de Educação causaram uma imensa quantidade de danos ao nosso sistema educacional, à moral do estudante e dos professores. Estou muito relutante em ficar feliz com este anúncio e ver de perto como o presidente pretende fazer para corrigir o dano que foi feito. Será que ele vai resistir à Reforma Empresarial da Educação? Será que ele vai parar com os testes, com a culpabilização, com o sistema que pune escolas, alunos e professores? Será que ele vai voltar a eleger a diretoria das escolas? Será que ele vai acabar com o fechamento de escolas em massa? “- afirmou Marla Kilfoyle, Diretora Executiva da BAT.

A Associação Badass de Professores gostaria de colocar a sua voz e expertise para ajudar a colocar a educação pública no caminho certo. Juntos podemos trabalhar nas soluções reais que produzirão grandes escolas para todas as crianças. Nós estaremos observando de perto como isso se desenrola.”

A organização FAIRTEST também reagiu ao anúncio:

“A declaração de fim de semana da Administração Obama propondo “menos e mais inteligentes” testes “tardiamente admite que os testes de alto impacto estão fora de controle em escolas públicas dos EUA, mas não oferece uma medida significativa para resolver esse problema que é muito real,” de acordo com o Fair & Testing.

O Director do FairTest Bob Schaeffer explicou, “O novo estudo do Council of Great City Schools ao qual Administração Obama respondeu, reforça os relatos generalizados de pais, alunos, professores e administradores da educação sobre o uso excessivo e indevido de testes padronizados. Documentar o exagero dos testes é, no entanto, apenas o primeiro passo em direção à reforma de avaliação. “

“Agora, é o momento de medidas concretas para reverter as políticas de teste contra-produtivos, e não apenas de retórica oca e mais criação de outra comissão de estudo”, continuou Schaeffer. “O Congresso e o presidente Obama devem aprovar rapidamente uma nova lei de revisão” da No Child Left Behind “que elimine testes federais e punições obrigatórias. Os responsáveis políticos estaduais e municipais devem prestar atenção à mensagem de Basta! dada por seus constituintes para reduzir significativamente o volume de exames padronizados e eliminar as consequências de alto-impacto. Isso vai ajudar a abrir caminho para a implementação de melhores formas de avaliação.”

Que tal mudarmos o rumo da proza por aqui também?… Em dia de ENEM pode-se ver facilmente o circo em que estamos nos tornando.

Enganam-se aqueles que pensam que no Brasil poderemos seguir um caminho diferente se nos basearmos nestas políticas. Elas estão amarradas ao mercado e uma vez instaladas, ninguém pode controlar o mercado de testes. Ele tem sua vida própria. Ainda podemos sair deste circuito em que entramos especialmente a partir de 2007 com a introdução da Prova Brasil censitária, optando, agora, por testes nacionais apenas amostrais.

Publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 3 Comentários

São Paulo e Philadelphia: alguma semelhança?

Diane Ravitch informa em seu Blog a situação das escolas em Philadelphia a partir do relato de Lisa Haver, uma ativista da escola pública na Filadélfia, que descreve o processo deliberado de destruição das escolas públicas de sua cidade. O superintendente William Hite está fechando escolas públicas sem ouvir a opinião dos pais ou das comunidades.

“Parece, porém, que os fracassos e desarranjos não são um impedimento para se repetir erros no Distrito Escolar da Philadelphia. O Superintendente William Hite apresentou um plano no início deste mês para reformar 15 escolas do distrito, a um custo estimado entre US $ 15 e 20 milhões. Algumas vão fazer parte do Programa de Transformação criado por ele, no qual mudanças de pessoal e curriculares, inclusive que forçam a saída de todo o corpo docente, podem ser impostas sem audiências públicas ou sem votar na SRC. Outros serão colocados na Rede Renaissance, que é a maneira do governo desistir de uma escola que não tem melhorado e chutá-la para o meio-fio de forma que uma empresa privada a venha pegar. Algumas terão diversas séries adicionadas de uma só vez, como Roosevelt fez, alterando a sua missão e o clima durante a noite. Ao contrário das promessas feitas por Hite em reuniões públicas, duas escolas serão fechadas permanentemente. A matrícula e o tamanho das turmas em escolas próximas quase certamente irá aumentar.

O processo de aprovação apressada vai dar aos pais pouca chance de dar uma palavra sobre o futuro das escolas de seus filhos. Professores e funcionários foram excluídos do processo como um todo, embora muitos serão forçados a sair das escolas de cujas comunidades eles têm sido parte há anos. “

E conclui:

“Há uma razão para o adjetivo “pública” que segue à palavra “escola”. As escolas pertencem ao público, não à Fundação Eli Broad, Bill Gates, ou ao superintendente atual. Philadelphia precisa de um líder para salvar suas escolas, não para fechá-las.”

Se existem diferenças entre as realidades e propostas de São Paulo e de Philadelphia, e existem, não parece estarem na fundamentação e nem nos métodos de implantação: o empresariado filantrópico está sempre por perto dando o rumo e a natureza das mudanças.

Publicado em Meritocracia, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Assine a Moção contra a reorganização paulista

Assine aqui moção contra o processo de reorganização das escolas em andamento na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Publicado em Assuntos gerais | 4 Comentários

Concordâncias da Sra. Rose

Rose Neubauer escreve na Folha de São Paulo para concordar com a reorganização das escolas da rede estadual de educação de São Paulo. Na mesma página, Sonia Kruppa escreve para discordar.

Contrariamente à sua aparição em 2013, quando criticou o mesmo Secretário da Educação por rever aspectos da “progressão continuada” que ela mesma havia implantado na rede paulista, desta vez Rose escreve para defender ações do Secretário. Qual o motivo da mudança?

A questão é que, agora, Herman está sintonizado com ações que atendem aos interesses dos reformadores empresariais da educação e que como salienta Sonia Kruppa estão alinhadas com ações do final da década de 90 feitas por este mesmo grupo, na época articulado em torno de seu principal mentor: Paulo Renato Costa Souza.

Como já examinei em outros posts, o “movimento das escolas pequenas” foi sequestrado pelo movimento destes reformadores nos Estados Unidos, em especial durante a administração de Bloomberg/Klein na Cidade de Nova York, e serve de inspiração a estas ideias.

Mas voltemos ao texto de Rose. Primeiro vamos às obviedades. Segundo a professora:

  1. Estudos e pesquisas sobre desenvolvimento e cognição de crianças e jovens mostram que eles têm padrões de aprendizagem diferenciados e requerem espaços e situações de aprendizagem diversos.
  2. Revelam, ainda, que a organização do espaço da escola e da sala de aula influencia a aprendizagem e o ensino.
  3. Isso ocorre porque crianças de 6 a 10 anos devem estudar em espaços bem sinalizados, com mobiliário adequado, que lhes propiciem segurança e orientação.
  4. Os pré-adolescentes e jovens, por sua vez, requerem equipamentos pedagógicos e espaços mais conformes ao seu desenvolvimento cognitivo e emocional: computadores, laboratórios, bibliotecas. A quadra poliesportiva aqui é fundamental para práticas coletivas, atividades musicais, teatrais e outras que estimulem o protagonismo juvenil.
  5. Esse é o modelo de escola que existe em países onde o ensino é de boa qualidade e nas escolas brasileiras bem classificadas nas avaliações nacionais, pois considera-se fundamental a existência de prédios, salas de aulas e equipes pedagógicas específicas para as diferentes faixas etárias.

Quem seria contra essa declaração de princípios? Tudo isso faz sentido. Mas toda essa obviedade não justifica termos que criar três sub-redes estaduais de educação. Há outras formas de cumprirmos estas exigências.

Mais ainda, é estranho que, com todo este conhecimento disponível, o sábio tucanato que há duas décadas e meia está no comando da educação paulista, não tenha feito muito para avançar nesta direção e que depois de tanto tempo esta questão apareça, agora, como justificativa para a alegada diferenciação de condições materiais da aprendizagem, como se o tucanato tivesse começado a governar o Estado este ano.

Estas razões apresentadas por Rose são tão óbvias que seriam incluídas em qualquer proposta educacional, não necessariamente apenas para justificar a divisão das escolas. No fundo, o que este elenco de constatações diz é que são as condições materiais das escolas e não a divisão em si o que constitui o ponto relevante para a aprendizagem.

Segundo Rose:

“O modelo pedagógico atual de várias escolas da rede estadual paulista, no qual crianças pequenas, adolescentes e até adultos convivem e ocupam as mesmas salas de aula, desconsidera suas diferenças biológicas, cognitivas e psicológicas. Isso compromete a existência de ambientes de aprendizagem adequados, dificulta a atuação da equipe pedagógica e impede a melhoria da qualidade do ensino.”

Depois de 25 anos, caiu a ficha? Nos demos conta de que o modelo pedagógico atual (sem a divisão proposta) desconsidera as diferenças biológicas, cognitivas e psicológicas. Mais surpreendente ainda, descobrimos que não dividir as escolas é que “impede a melhoria da qualidade de ensino”. E sendo assim:

“a reorganização das escolas paulistas é urgente, necessária e importante. Separar os alunos em diferentes tipos de escolas (crianças de 1ª a 5ª séries; pré-adolescentes de 6ª a 9ª séries; jovens do ensino médio) possibilitará adequar instalações físicas, mobiliários e materiais a cada nível de ensino e de faixa etária.”

Descobrimos também que devemos “racionalizar” a rede para o professor poder dar mais aulas na mesma escola.

“A medida promove a fixação do corpo docente em uma ou, no máximo, duas escolas. O funcionamento das mesmas séries nos vários turnos da escola (manhã, tarde e noite) ampliará a oferta de aulas aos professores em uma única escola, racionalizando, inclusive, a jornada de trabalho do corpo docente.”

Ora, há outras formas de se obter isso sem dividir escolas e fechar classes. Mas não são só estes os ganhos. Há outros, segundo ela:

  1. Também potencializará a implementação de um projeto pedagógico para alunos com características semelhantes e diminuirá a prática do “bullying” e de outros tipos de violência contra os mais jovens.
  2. Além disso, a medida dificulta a ação de interceptores de drogas em escolas de crianças e pré-adolescentes pela presença de familiares nas redondezas dessas escolas.

No entanto, como afirmou Janine Ribeiro, ex-ministro:

“Tendo a dizer: procure uma escola maior. Ali, seu filho terá contato com pessoas mais diferentes entre si. Vai conhecer o preguiçoso, o esforçado, o desobediente, tipos de pessoas que ele encontrará na vida. Numa escola pequena, as pessoas podem ser muito parecidas. A nota pode ser maior, porque é mais fácil dar aula para estudantes parecidos. Mas, no futuro, o garoto ou a garota não vai conseguir lidar com um mundo cada vez mais complexo.”

Ao invés de uma política educacional que procura lidar com as diferenças de idades e levar os mais velhos a cuidar dos mais novos, preferimos isolá-los. Cada diferente no seu “galho”.

E finalmente, a ilusão maior: controlar os interceptadores de drogas pela “presença de familiares nas redondezas dessas escolas”. O mais provável, no entanto, é que tenhamos uma especialização do tráfico segundo as sub-redes criadas.

Onde a adoção de divisão de escolas maiores em escolas menores foi feita apresentando todos estes maravilhosos resultados?

Para a autora:

“Esse é o modelo de escola que as famílias desejam e que professores comprometidos com a qualidade do ensino consideram mais adequado.”

Estamos diante de um “salto para o futuro”. As argumentações contrárias “são falsas”. Porém, alguém lembrou das exigências do PNE para a ampliação da educação de tempo integral? Vão faltar prédios… Se vamos ter 50%, segundo o PNE, de educação em tempo integral, pode o Estado se dar ao luxo de converter escolas em postos de saúde ou até mesmo fechá-las?

Mais ainda, que tal usar as classes ociosas para diminuir o número de alunos em sala? Isso sim é política pública consistente com as pesquisas disponíveis.

“Citando evidências da literatura acadêmica, Schanzenbach explica que “o tamanho das turmas é um determinante importante de uma variedade de resultados dos alunos que vão desde os resultados dos testes até resultados mais amplos na vida. Turmas menores são particularmente eficazes em elevar os níveis de escolaridade das crianças de baixa renda e de minorias.”

Contrariamente, ela aponta, aumentar o tamanho da turma mostra ser prejudicial às crianças.” O dinheiro economizado hoje, aumentando o tamanho das turmas resultará em custos sociais e educacionais mais substanciais no futuro”, escreve ela .

“Os formuladores de políticas devem pesar cuidadosamente a eficácia da política de tamanho de turma contra outros usos potenciais dos fundos”, Schanzenbach conclui. “Apesar do menor tamanho da turma ter um custo demonstrável, pode ser a política mais eficaz em termos de custos no geral.”

Os argumentos apresentados por Rose Neubauer não convencem. Mas é importante o posicionamento dela. Mostra a quem servem as mudanças que estão sendo preparadas pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

As escolas deveriam ser vistas como um centro cultural das comunidades. O lema é que a escola é da comunidade. Esta ligação com a comunidade é que fez com que o relatório da Fundação Gates sobre o tema alertasse para o fato de que promover a reorganização de escolas só deveria ser feito com apoio da comunidade externa e da comunidade interna das escolas. Mesmo assim, a Gates preferiu aplicar seu dinheiro em outras ações que não no “downsizing” de escolas.

Mas o tucanato (que anteriormente já tinha importado de Nova York a falida política de bônus) continua achando que as políticas falidas de Bloomberg na Cidade de Nova York são boas para São Paulo. De fato, eles têm razão, mas só no sentido de que estas políticas são consideradas falidas apenas no que diz respeito à promoção da melhoria da qualidade de ensino, podendo ser consideradas, no entanto, muito eficazes quanto à sua capacidade de promover a privatização da educação. Aí está a razão da simpatia que o PSDB tem por elas.

Publicado em Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | 4 Comentários

“Downsizing” das escolas paulistas

Recentemente o Estado de São Paulo anunciou que vai subdividir suas escolas numa tentativa de criar escolas menores baseadas nos ciclos (1ª. a 5ª.; 6ª. a 9ª.; ensino médio). O governo acredita que com isso elas podem ter um acréscimo de 10% no desempenho dos estudantes. No entanto, até agora não foi divulgado nenhum projeto que apresente os estudos que dão suporte para esta e outras afirmações.

Temos uma tradição de fazer política pública sem evidência empírica. Novas ideias são implementadas sem que se reúna uma quantidade adequada de estudos que mostrem tendência consistente de melhoria para a qualidade da educação.

Essa maneira de implementar política, acaba por gerar grandes desconfianças. Uma mudança desta magnitude que está sendo pensada para a rede paulista, não podia ter sido implementada desta forma – mesmo que ela tivesse alguma evidência empírica favorável.

Não se pode encarar a questão do tamanho das escolas de forma isolada do crescente apelo vigente nas políticas públicas brasileiras, em especial em São Paulo, ao modelo baseado nas teses dos reformadores empresariais da educação. Rigorosamente, o movimento pelas escolas pequenas é anterior à política dos reformadores, no entanto, este movimento que data dos anos 80 do século passado, foi apropriado e mesclado com as teses dos reformadores empresariais. O modelo evoluiu para sua formatação mais final no período em que Bloomberg esteve na Prefeitura da Cidade de Nova York, combinando-se fortemente com a introdução de escolas charters.

No Estado de São Paulo, já estamos há algum tempo, assistindo à privatização do ensino médio, com a proposta dos empresários para a organização do ensino médio integral, baseado na experiência de privatização do estado de Pernambuco, orientada pelo Instituto de Co-Responsabilidade Educacional, o qual atua em vários estados brasileiros.

Conforme já divulgamos aqui neste blog, as políticas de reforma aplicadas nos Estados Unidos mesmo quando baseadas na combinação do movimento por escolas pequenas com o movimento dos reformadores empresariais da educação, não conduziram a melhoria da educação naquele pais, como mostram os dados dos exames nacionais e igualmente os exames internacionais.

Alckmin pertence a um partido político cuja formatação para a educação está baseada nas teses dos reformadores empresariais e que agora, sem maiores explicações, põe em cena a reorganização das escolas paulistas através de um processo de “downsizing” das escolas.

Tem a comunidade educacional, portanto, toda razão em questionar o processo. Primeiro pelo histórico desta junção como já foi mencionado; segundo pela forma como o Estado está pondo em prática tal experimento; terceiro porque foi gerada com apoio de empresas de consultoria como a McKinsey (que participou da experiência original americana de “downsizing”) e com a consultoria Falconi; quarto, porque não dá informações precisas sobre quais são as bases para tal experiência; quinto porque tem por trás um partido que tem entre suas teses a defesa da privatização da educação brasileira.

Há estudos sobre as variadas tentativas de se reduzir o tamanho das escolas e seus impactos no desempenho dos estudantes. No entanto, há pouca padronização do entendimento do que se entenda por escolas pequenas. Alguns admitem que elas devem ter entre 230 e 500 alunos. Outros admitem mais. Os estudos em geral não têm desenhos adequados à complexidade do problema e não incluem medidas de desempenho dos estudantes pré e pós implantação das mudanças. E como é frequente, os resultados se dividem sem apontar, no conjunto, tendências consistentes.

Apoiar, portanto, política pública neste conjunto de dados sem que se tenham cuidados na retirada de conclusões, pode levar a mudanças que impliquem em gastos inadequados, efeitos não controlados e baixos resultados.

Para mostrar como a questão não é simples, incluo abaixo um estudo realizado pela própria Fundação Bill Gates nos Estados Unidos.

Bill Gates o magnata americano despejou 2 bilhões de dólares na reorganização do ensino médio americano. Entre as ideias estava a de dividir escolas grandes em escolas menores. Entre as recomendações que o relatório faz pode-se ler que:

“No período de três anos avaliado, foi mais provável encontrar-se resultados positivos nos alunos pertencentes às escolas novas de ensino médio que foram inauguradas, do que naquelas que foram reorganizadas e já tinham histórico pobre. Leva mais tempo para reorganizar e mudar a cultura de uma escola do que começar uma nova, e os dados iniciais dos resultados dos alunos sugerem que o esforço para reorganizar as escolas pode ser de eficácia limitada. Em seus primeiros dois anos, a reorganização normalmente produz alguma melhoria em termos de clima da escola. Quando os resultados das unidades menores criadas a partir de reorganização são calculados pela média, no entanto, temos encontrado pouco ou nenhum impacto sobre a frequência ou aproveitamento dos alunos. Os nossos dados qualitativos sugerem que a atenção e os recursos em muitas das escolas reorganizadas apoiadas pela fundação foram focados em mudanças estruturais e que as questões de currículo e instrução nessas escolas foram postergadas (Shear et al., 2005).”

Outra recomendação do relatório:

“Repensar a estratégia de reorganização de escolas. Embora tenha havido alguns exemplos isolados de pequenas escolas aparentemente bem sucedidas que emergiram da reorganização de uma grande escola de ensino médio, estes têm sido a exceção e não a regra. No conjunto, os dados que temos para o esforço de reorganização de escolas não são animadores. Em muitos casos, o impulso para a reorganização veio de fora da escola, e os funcionários da escola estão longe de ser unânimes em seu apoio ao esforço. Disputas sobre definição da SLC (small learning communities) e identidade, logística, e a subdivisão de estudantes e de pessoal é demorada e conflitiva. Além disso, como observado por Shear et al. (2005), há alguma indicação de que a segregação por nível de habilidade, proficiência na língua, e assim por diante, pode ser uma consequência não intencional da reorganização. Todos estes desafios sugerem que a exigência para o financiamento de escolas em situação de reorganização, futuramente deve ser mais elevado do que foi no passado. Devem ser exigidas como elementos do plano de reorganização, provas da disposição tanto da escola como da comunidade para a reorganização, uma liderança forte exercida por mais de um indivíduo, planos e recursos curriculares sólidos e um plano realista para lidar com ”legado” de estudantes e professores.”

Leia todo o relatório (em inglês) aqui. Veja aqui também estudo de Shear et al, (2008).

Note que a forma como São Paulo está implantando a ideia parte de uma motivação externa e não das escolas e de sua comunidade, na contramão do que o relatório acima recomenda. No caso paulista, a comunidade e a escola estão reagindo negativamente.

O relatório procurou salvar a experiência de Bloomberg, apontando para alguma evidência em torno do sucesso da ideia na cidade de Nova York. Alí, a ideia das escolas pequenas estava combinada com as teses dos reformadores. Não havia ainda, nesta época o Common Core, um espécie de “Base Nacional Comum” voltada para Leitura e Matemática, e a educação na Cidade de Nova York era comandada por Joel Klein que depois seria obrigado a demitir-se do cargo por ser pilhado baixando as exigências das provas locais para mostrar melhoria no desempenho dos alunos da Cidade.

Como apontou Diane Ravitch:

Marc Epstein costumava trabalhar em uma grande escola média que foi dividida em pequenas escolas. Desde então, ele tem trabalhado em muitas escolas pequenas. Com base em seu conhecimento, experiência e pesquisa, ele questionou e duvidou da crença de Gates sobre as pequenas escolas de Nova Iorque serem bem sucedidas.”

Sobre os resultados da Cidade de Nova York com as pequenas escolas, leia mais aqui.

De fato, após divulgar este relatório a Fundação Bill Gates reorientou sua política de financiamento para a educação americana e preferiu apostar em projetos de avaliação e qualificação do professor e em projetos de apoio a escolas charters – privatização por terceirização de gestão.

Entre outros aspectos, devemos ficar atentos para verificar se a reorganização do Estado de São Paulo não visará fechar as escolas de menor desempenho no SARESP ou na Prova Brasil, numa tentativa de redistribuir seus estudantes para outras escolas com médias mais altas. Tal maquiagem poderia ser interessante para qualificar o governador para concorrer nas próximas eleições para presidente, mas seria uma grande farsa para a educação paulista, e um desastre para os alunos removidos que terminariam evadidos ou engrossando as classes de EJA. Para tal, teremos que dispor da divulgação das escolas que serão atingidas para em seguida examinar seu desempenho no SARESP e Prova Brasil em anos anteriores. É essencial o controle do número de alunos evadidos das escolas e o controle dos que estão se deslocando para EJA no Estado.

Além disso, devemos atentar para as possíveis combinações entre “downsizing”, municipalização e privatização, bem como as implicações para as crianças e para os profissionais da educação atingidos neste processo.

Publicado em Meritocracia, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

FE/UNICAMP é contra reorganização das escolas paulistas

A Congregação da Faculdade de Educação da UNICAMP, em sua 297ª Reunião Ordinária realizada em 21/10/2015, deliberou pela aprovação da seguinte MOÇÃO:

FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNICAMP

MOÇÃO DE REPÚDIO À REORGANIZAÇÃO DAS ESCOLAS ESTADUAIS DE SÃO PAULO

No dia 23 de setembro de 2015, fomos informados, via imprensa, que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP) irá fazer uma grande reestruturação das escolas da rede paulista de educação básica. A forma como todos nós, professores, estudantes, pais e pesquisadores soubemos deste projeto de reorganização escolar já é, por si só, motivo de preocupação.

Não foi apresentado publicamente o projeto da reestruturação, assim como não foi realizada nenhuma consulta pública sobre a nova proposta. Parece que o governo Geraldo Alckmin se recusa a debater de forma transparente e democrática essa grande mudança, que afetará milhares de professores e milhões de estudantes. Por isso, a surpresa generalizada e a reação marcadamente contrária ao projeto de reorganização.

Os argumentos do governo para a mudança, comunicados por meio de videoconferência aos profissionais da rede estadual, foram dois: 1) que escolas com apenas um segmento têm melhores desempenhos nas avaliações do Saresp e Prova Brasil (embora sem demonstração científica que comprove tal relação); 2) que há uma alteração na pirâmide etária que indica retração da população em idade escolar no Estado de São Paulo.

Segundo a Secretaria Estadual de Educação, entre os anos de 1998 e 2015, a rede estadual de ensino teria perdido cerca de 2 milhões de alunos. Com isso, o governo Geraldo Alckmin justifica, em suas próprias palavras, que é preciso “um novo modelo de escola que se adeque à queda da taxa de natalidade e à redução expressiva da população em idade escolar”.

Diante destes números, poderíamos pensar em reorganizar as escolas diminuindo o número de alunos por sala de aula e reduzindo a jornada de trabalho dos professores, por exemplo, duas medidas que teriam um impacto imediato sobre a qualidade do trabalho educativo. No entanto, estas propostas não foram consideradas pela Secretaria de Educação. Parece que o governo não está realizando uma reorganização visando à melhoria da educação oferecida pela rede estadual, pelo contrário, parece ser uma reforma administrativa que visa reduzir gastos da educação e abrir espaço para parcerias com o setor privado.

O impacto imediato da reestrutruração será o fechamento de salas de aulas e até mesmo de escolas inteiras. Segundo o Censo Escolar MEC/INEP de 2013, a rede estadual de São Paulo mantinha 5.585 escolas; agora, segundo os números divulgados pelo governo estadual, serão 1.443 escolas de ciclo único; 3.186 escolas com dois ciclos; e 479 escolas com três ciclos. Portanto, serão 5.108 escolas mantidas pela rede estadual paulista, eliminando 2 milhões de vagas excedentes, sem alterar o módulo absurdo de 35 (Ensino Fundamental) ou 40 (Ensino Médio) estudantes por sala de aula e a jornada de trabalho excessiva dos professores.

O fechamento de centenas de escolas implicará na demissão de professores e funcionários, deslocamento de estudantes, remoções, destruição do patrimônio público, etc. Está subentendido na reestruturação que o projeto do governo é completar o processo de municipalização do Ensino Fundamental. Isso está explícito no Projeto de Plano Estadual de Educação, encaminhado pelo executivo estadual para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Conforme indicado na meta 21 desse projeto o objetivo é “promover, até o final da vigência do Plano Estadual de Educação (PEE), a municipalização dos anos iniciais do Ensino Fundamental”.

A reorganização da escola por ciclos já cria a estrutura adequada para intensificar o processo de municipalização também do ciclo II do Ensino fundamental. Estudos demonstram que a municipalização tem sido um terreno fértil para os processos de privatização da escola pública, seja com a aquisição dos denominados “sistemas de ensino” de escolas privadas, via o apostilamento, para ampliação das contratações terceirizadas, com as parcerias público-privadas e/ou com os contratos de gestão privada para o ensino público.

A reorganização escolar proposta também afeta diretamente o Ensino Médio, com o fechamento de salas no período noturno, da diminuição da oferta de vagas para Educação de Jovens e Adultos, entre outros desdobramentos. O projeto das Escolas de Tempo Integral encontra abrigo adequado nessa nova organização das escolas por ciclo, o qual precisa ser amplamente debatido com a comunidade, incluindo a acadêmica. O projeto do governo é ampliar as Escolas de Tempo Integral para 50% das escolas estaduais e dentro delas as parcerias com a iniciativa privada. No Projeto de Plano Estadual de Educação encaminhado pelo governo, podemos demonstrar esses objetivos. A estratégia 6.7, que trata do Ensino em Tempo Integral, diz: “Estimular, em regime de colaboração, a apropriação dos espaços e equipamentos públicos e privados, articulando ações entre esses e as escolas, de forma a viabilizar a extensão do tempo de permanência do aluno em atividades correlacionadas ao currículo”. Para esse projeto são necessárias as escolas de ciclo único. É nesse contexto que a flexibilização curricular é também proposta, pois abre mais espaço para as parecerias com o setor privado, que passam a atingir diretamente as atividades correlacionadas ao currículo.

A lógica empresarial passa a orientar ainda mais a organização da escola. Não à toa, a meta 22, do Plano Estadual de Educação apresentado pelo governo, que dispõe sobre a implementação do “novo modelo de Ensino Médio, com organização curricular flexível e diversificada” assume todo o linguajar empresarial, colocando como meta para o Ensino Médio, garantir “acesso ao conhecimento como instrumento para a cidadania, o desenvolvimento de competências e habilidades, necessárias ao prosseguimento de estudos e que favoreçam a empregabilidade”. A partir dessa flexibilização do currículo, será possível criar diversas novas subcategorias de professores. Além de todas as formas de contratação feitas diretamente pelo Estado, abre-se a possibilidade de, no interior das escolas estaduais, professores e educadores serem contratados via parcerias privadas para “viabilizar a extensão do tempo de permanência do aluno em atividades correlacionadas ao currículo”, aumentando a terceirização nas escolas e podendo atingir até mesmo algumas funções docentes.

A reorganização da escola por ciclos terá um impacto muito mais profundo do que o fechamento de centenas de escolas, a demissão de milhares de trabalhadores docentes e não docentes, a destruição do patrimônio público e/ou o deslocamento de milhões de estudantes. Trata-se de se criar a organização necessária para o projeto de privatização da escola pública paulista.

Com isso, nós, estudantes, professores e pesquisadores da Faculdade de Educação da UNICAMP, nos colocamos ao lado dos estudantes, pais e professores que saem as ruas defendendo a escola pública para questionar esse projeto de reorganização da escola paulista, exigindo transparência, diálogo, bem como a mudança de seu rumo.

Portanto, solicitamos à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo a exposição imediata do projeto que orienta a reestruturação das escolas estaduais, com os dados que fundamentam a argumentação apresentada pelo governo. Solicitamos também que este projeto seja debatido por meio de audiências públicas, recebendo as propostas da comunidade escolar.

Publicado em Links para pesquisas, Meritocracia, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | 2 Comentários

Leitora comenta

Leitora do blog comenta o post “São Paulo: reorganizar para privatizar?”

Aloysio Biondi (1936-2000), jornalista investigativo da economia, em seu livro “O Brasil privatizado: um balanço do desmonte do Estado”, mostra como essa foi a estratégia utilizada pelo governo FHC antes da privatização, investir nas estatais com o dinheiro público, e depois privatizar, isto é, entregar para a iniciativa privada obter os lucros do que pagamos para “moderniza-las”. A Carta Maior publica (ACESSO: 17/04/2015 em seu SITE) uma lista de livros que desmascara a corrupção inclusive nas privatizações, como a do jornalista Aloysio Biondi. Para quem se interessar:

– O Brasil privatizado – um balanço do desmonte do Estado, do saudoso jornalista Aloysio Biondi. Editora Fundação Perseu Abramo. Primeira edição: 1999

– A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr, vencedor de três prêmios Esso, quatro vezes Premio Wladimir Herzog. Da Geração Editorial.

– Governo Fernando Henrique Cardoso – Decadência e Corrupção, de Henrique Fontana. Editora Brasília.

– Quem pagou a conta? – A CIA na guerra fria das culturas, da jornalista Frances Stonor Saunders, editora de Artes da revista britânica New Stateman.

– O Brasil do Possível, da jornalista francesa Brigitte Hersaut Leoni. Editora Nova Fronteira, 1997.

– A História Secreta da Rede Globo, de Daniel Heiz. Editora Tchê e, posteriormente, Editora Dom Quixote. O livro está disponibilizado na internet.

– E também o documentário “Muito Além do Cidadão Kane” que andou censurado no Brasil durante vários anos.

A “Lava Jato” se quisesse teria farta documentação publicada pelos autores, nas investigações realizadas. Não são apenas discursos, há documentação que prova o que dizem. É isso que está ocorrendo novamente, reorganizam-se as escolas para privatiza-las, aí os resultados aparecem nas avaliações externas, sem preocupação com a educação do ser social, basta os lucros que virão para as empresas. E o povo acredita que as escolas privadas são as melhores. Sem escolas públicas de qualidade social, não haverá educação de qualidade social, lição histórica.

Publicado em Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

São Paulo: reorganizar para privatizar?

O que Alckmin está fazendo com a reorganização das escolas no Estado de São Paulo pode ser chamado de “downsizing” – redução de tamanho. Uma técnica bastante conhecida nos meios empresariais. A reorganização das escolas públicas de São Paulo segue a tradição americana dos reformadores. A história pode ser acompanhada em detalhe no livro de Diane Ravitch, que está traduzido para o português, chamado : Vida e Morte do Grande Sistema Escolar Americano, editado pela Editora Sulina. (Veja resumo aqui.)

Ali se pode reconstituir esta tradição que começa com Anthony Alvarado no Distrito 2 de Nova York, passa para San Diego e aos poucos vai se constituindo e combinando com privatização, até chegar na formatação de Bloomberg, na Cidade de Nova York.

Eis aqui alguns trechos que podem ser ilustrativos:

“Na primeira década do novo século, a cidade de Nova York tornou-se o campo de testes nacional para as reformas baseadas no mercado. O prefeito Michael Bloomberg e seu secretário, Joel Klein, aplicaram princípios empresariais para renovar o maior sistema escolar do país, com uma população de 1,1 milhão de crianças. Suas reformas receberam aclamações nacionais e até mesmo internacionais. Eles reorganizaram a administração das escolas, lutaram contra o sindicato dos professores, deram grandes aumentos de salário para professores e diretores, fragmentaram grandes escolas de Ensino Médio em escolas menores, enfatizaram uma prática frequente de testes estaduais, deram a cada escola uma nota, fecharam dezenas de escolas de baixa performance e institucionalizaram as ideias de escolha [privatização por vouchers] e competição escolares (embora sem a isenção de impostos para escolas privadas).” (Grifos meus.)

O Estado de São Paulo entra, com a reorganização, em uma fase intensificada de aplicação das reformas empresariais na educação. Algumas das ações elencadas já estão aplicadas, outras são agora colocadas em marcha. Entre elas a reorganização administrativa que irá dar ao Estado maior controle sobre as escolas. Exatamente por serem menores, seus professores são mais fáceis de serem seguidos, bem como seus alunos.

Entra em cena um controle maior de professores e alunos pelos gestores. A reorganização também estabelece uma “clientela” definida para as escolas que permite uma maior articulação do Estado com a comunidade, em especial com os pais (geo-refenciamento) e permite envolve-los nos processos de privatização por voucher e por terceirização de gestão. No caso dos vouchers o pai recebe o dinheiro e escolhe a escola. No caso da concessão, terceirização de gestão, a escola é entregue a organizações sociais que administram a escola e recebem por um custo fixado por aluno que é pago pelo Estado à terceirizada. Ter uma referência de “clientela” torna-se importante.

Políticas de controle disciplinar dos alunos mais rígidas, também exigem um contato mais institucionalizado com os pais.

Diminuir o tamanho das escolas, permite um melhor rastreamento das escolas pelas instâncias de supervisão. No caso de São Paulo, o processo de reorganização tem suas peculiaridades e poderá ser combinado com terceirização do ciclo das séries iniciais e finais do fundamental. Ao mesmo tempo, este movimento isola as escolas de nível médio permitindo um tratamento mais específico delas e reduzindo o tamanho do aparato escolar. A Secretaria tem dito que pode haver uma melhoria no desempenho dos alunos de cerca de 10%.

Uma das estratégias no caso americano, envolveu que as escolas foram sendo “treinadas” a serem “autônomas” para em seguida serem empurradas para os processos de terceirização em sucessivas etapas de reorganização:

“Na primavera de 2006, o secretário decidiu redistribuir o sistema escolar mais uma vez. A reorganização inicial – com suas dez regiões fortemente administradas – incluía um programa piloto para 26 escolas (quase todas pequenas escolas de Ensino Médio) – chamado de “zona autônoma”, em que as escolas concordavam em atingir objetivos de performance em troca de uma módica liberdade das ordens do sistema. Agora Klein convidava mais diretores para escaparem do gerenciamento acirrado das dez regiões que ele havia estabelecido e juntarem-se a essa zona autônoma, que ele renomeou de “zona do empoderamento”. Cerca de um quarto das escolas da cidade, ou 350 delas, se candidataram, e 331 foram admitidas. Esse foi o prelúdio para mudanças ainda maiores. Um ano depois, em 2007, Klein lançou outra reorganização do sistema escolar, a terceira em quatro anos.”

“Outra estratégia que o DOE adotou entusiasticamente foram as pequenas escolas de Ensino Médio. Quando o DOE foi estabelecido, o sistema tinha cerca de cem grandes escolas de Ensino Médio, algumas com 3 mil a 5 mil estudantes. Ele também tinha cerca de 75 pequenas escolas de Ensino Médio que haviam sido criadas durante os anos 1990 como parte de um movimento progressivo de pequenas escolas liderado pela educadora Deborah Meier. Muitas das grandes escolas de Ensino Médio se vangloriavam de sua tradição histórica de serem portais para estudantes imigrantes.”

“Dentro de poucos anos, o secretário Klein havia fechado quase duas dúzias das maiores escolas de Ensino Médio da cidade e aberto 200 novas pequenas escolas, financiadas por centenas de milhões de dólares da Fundação Bill and Melinda Gates, da Carnegie Corporation e do Instituto Open Society. Em 2009, essas escolas abrigavam 25% dos estudantes de Ensino Médio da cidade.”

Convido o leitor a ler toda esta história nos capítulos iniciais do livro de Diane Ravitch.

Também na página da National Education Association pode-se ler que:

“Uma das líderes pioneiras do movimento (das escolas pequenas) foi Deborah Meier, que fundou a Central Park East High School, em East Harlem, em 1985. O seu sucesso levou a outras experiências e, em 2000, a Fundação Bill & Melinda Gates atribuiu a sua primeira doação para uma pequena escola em San Diego. Gates tem dado US$ 1.000.000.000 para a criação de cerca de 850 pequenas novas escolas, quebrando 700 grandes escolas antigas.”

Agrega que:

“Mas, recentemente, os líderes da Fundação Gates, ter sido menos entusiastas sobre as virtudes das escolas pequenas. Um estudo encomendado pela Gates revelou que os resultados dos testes em uma amostra de escolas financiadas pela Gates foram ligeiramente inferiores quando comparadas com estudantes equivalentes de escolas públicas regulares. Professores de escolas pequenas disseram aos pesquisadores que eles estavam lutando com cargas de trabalho muito pesadas. “Cargas de trabalho pesadas podem ser endêmicas para … muitas escolas pequenas de ensino médio”, alertou o relatório.”

Para Marc Epstein:

“Quebrar grandes escolas antigas dividindo-as em quatro pequenas escolas com populações de cerca de 400 cada uma, deveria fornecer uma maior proximidade entre o estudante e o professor e, assim, melhores resultados académicos.

Para tal a Fundação Gates doou aproximadamente US $ 2 bilhões em 10 anos para os municípios que entraram no programa. De acordo com Gates, os investimentos não deram os resultados esperados. Não valeu a pena o custo.”

No entanto, New York City foi aclamada como uma exceção. Um estudo financiado pela Fundação Gates alegou que a melhoria foi devida à qualidade da gestão de Bloomberg-Klein. O autor continua:

“Passei vários anos trabalhando e em torno de pequenas escolas e não vejo nenhuma dessas afirmações como verdadeiras. Na verdade, eu diria que os desempenhos acadêmicos são ilusórios e a segurança foi gravemente comprometida também.

A divisão também potencializou ações de violência nas escolas:

“Quando grandes escolas são divididas você também perde o controle da população estudantil. Alunos de escolas co-localizadas, muitas vezes interrompem aulas em escolas vizinhas ou entram em uma escola próximas para lutar.”

Publicado em Links para pesquisas, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

Califórnia suspende seu “ENEM” obrigatório

O Blog de Diane Ravitch informa que a Califórnia decidiu suspender seu exame final obrigatório do ensino médio. Como a medida tem efeito retroativo até 2006, os 32.000 estudantes que foram considerados inaptos por não conseguirem passar neste exame final, agora foram considerados aptos e devem receber seus diplomas. A questão está sendo encontrá-los.

A nova lei, assinada pelo governador quarta-feira, não só revogou a exigência do exame final retroativamente até 2006, mas também suspendeu-o até 2017. Os funcionários do Estado agora devem decidir se desejam criar um novo teste alinhado com os novos padrões da Base Nacional Comum americana ou encontrar uma outra maneira de verificar o nível de proficiência acadêmica necessário para obter o diploma.

Segundo o San Francisco Gate:

“Os pesquisadores geralmente concordam que o Exame Final na Califórnia, e outros testes similares em todo o país, não resultaram em diplomados mais qualificados. Aqueles que não passavam eram mais provavelmente alunos de cor e do gênero feminino, disse o professor Sean Reardon da Stanford University Graduate School of Education.

Estudos mostraram que muitos estudantes da Califórnia que não passaram no exame final, bem como aqueles que o fizeram quando ele se destinava a outros indicadores académicos, tais como testes padronizados anuais e trabalho de classe, indicam que outros fatores mais do que a capacidade acadêmica podem estar em jogo. Reardon afirmou que a natureza de alto impacto do teste, e o medo do fracasso com base em estereótipos relacionados com a raça ou gênero, podem oferecer uma explicação.”

Políticas de responsabilização verticalizadas baseadas em testes “decisivos” para os alunos, como é um exame final, têm se revelado destrutoras e não promotoras da formação dos estudantes. Enquanto isso, nós vamos embarcando naquilo que já não deu certo. Diz o nosso PNE:

7.7) (…) incorporar o Exame Nacional do Ensino Médio, assegurada a sua universalização, ao sistema de avaliação da educação básica (…).

Está aberta a porta para que ele seja considerado obrigatório na conclusão do ensino médio brasileiro. De fato, o ENEM não é um exame que verifique qualidade. Ele é simplesmente um processo de seleção para prosseguir estudos em nível superior.

Publicado em Enem, Meritocracia, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

Não há base para discutir a base

Em agosto de 2014, Maria Alice Setubal elencava as condições para que se construísse uma base nacional curricular comum até agosto de 2016. Dois anos antes portanto. Estes pontos incluíam:

  1. Uma parte complementar para levar em conta os contextos locais e articular o projeto de sociedade às aspirações e especificidades regionais.
  2. Definição de objetivos de aprendizagem claros.
  3. Articulação com a política de formação de professores.
  4. Expressar um projeto de sociedade mais justo, sendo fundamental que sua construção envolva uma ampla participação social, garantindo consulta, debate, formulação e validação.

Note-se que “projeto de sociedade” aparece duas vezes: no item 1 e no 2. Definição de objetivos é um dos elos de formulação da base. Já podemos notar que estes dois pontos foram abordados na proposta da base atual feita pela SEB/MEC de forma inadequada. Não existe projeto de sociedade ou de nação minimamente pautado e a base restringiu-se apenas e tão somente a uma lista de objetivos destinados a serem convertidos em matriz de referência para a avaliação (já previamente numerados).

Quanto ao item quatro, a participação, a sociedade terá dois meses para debater a proposta. O processo foi reduzido a homologação a posteriori. Este tempo poderia ser suficiente se, antes, tivesse havido alguma participação fora do gabinete do Secretário. Mas não foi assim. A base proposta foi feita em gabinete com 116 pessoas distribuídas em grupos de técnicos. Agora vem para debate que deve durar míseros dois meses. Sabe-se que os articuladores dos debates são membros ligados aos próprios agentes gestores dos sistemas de ensino. Em mais de um estado, não haverá debate propriamente dito, mas sim homologação.

Maria Alice elencou quase todas as condições para que o país chegasse a um consenso sobre a base nacional comum de suas escolas. Hoje ela volta à Folha para abordar a questão da BNC e chama a atenção para a necessidade de se debater a proposta. Novamente o que ela propõe é o que deveria ser feito mesmo. Mas seu texto não aponta para a questão das condições nas quais a proposta da SEB foi elaborada.

Onde esteve o erro do MEC, então?

Um processo complexo, de alcance nacional e que envolve variados posicionamentos exige que o condutor principal deste processo tenha credibilidade técnica e política, principalmente política já que tecnicamente pode ser assessorado, para conduzir este processo em nível nacional. Aqui houve a falha principal, motivada pelo conturbado momento político nacional.

O Secretário da Educação Básica do MEC era peça fundamental neste processo. Era fundamental que fosse pessoa da área de currículo ou com uma visão mais ampla de educação. No entanto, Cid Gomes preferiu colocar lá alguém que pensava como ele e que garantisse a condução do processo dentro dos princípios dos reformadores empresariais da educação. Por ocasião de sua indicação Palácios disse:

“Ligado à Faculdade de Educação, Manuel lembra que sua atuação no Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da UFJF, onde atua desde sua fundação e já ocupou cargo de coordenação, foi importante para a escolha. “O Caed tem abrangência nacional e foi como governador do Ceará que o ministro Cid Gomes teve conhecimento de nosso trabalho.”
O novo secretário é graduado formado em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), com mestrado e doutorado em Ciências Sociais pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio (IUPERJ). Recentemente, ele foi orientador de mestrado da atual vice-governadora do Ceará, Izolda Cela (Pros), que, à época, era secretária de Educação do Ceará, então governado pelo atual ministro Cid Gomes.”

Izolda foi, antes, Secretária de Educação em Sobral, cidade que os reformadores tentam emplacar como referência em mudança educacional. Manuel Palácios, o Secretário da SEB que conduz o processo, vem deste campo. Atua na área de forma profissional com um grupo que presta assessoria dentro da “filosofia” dos reformadores empresariais da educação, em processos de elaboração de avaliação de larga escala, onde o ponto de referência é sempre o objetivo a ser atingido. Natural, portanto, que, para ele, uma base nacional fosse um elenco de objetivos de conteúdos a serem avaliados. A portaria que nomeia o grupo é clara:

“Auxiliar tecnicamente a  Secretaria  de Educação  Básica  durante  a  discussão pública  da proposta de Base Nacional Comum Curricular que será realizada nas unidades da federação sob a coordenação das secretarias de educação dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, bem como com as associações científicas e profissionais que atuam nas áreas de  conhecimento  da  Educação Básica.” (Grifos meus.)

A opção é clara: mobilizar o estamento burocrático das Secretarias e chamar apenas as entidades que atuam nas áreas de conhecimento da educação básica. A discussão nasce focada no ensino.

Colocar a formulação da base nacional nas mãos de um reformador, levou a que ela fosse produzida, já na sua concepção inicial, de forma equivocada para a visão daqueles educadores profissionais que não comungam com a forma de ver dos reformadores. Isso faz com que a proposta não tenha legitimidade entre muitos dos educadores profissionais e muito provavelmente não terá também entre os professores nos sistemas de ensino que já têm formação suficiente para perceber a inadequação da proposta original.

Qual o agravante?

Não há como em dois meses de discussão corrigir algo que nasceu errado conceitualmente. Não se trata de corrigir a redação dada ao objetivo um ou dois de uma disciplina. Não há inclusive o dinheiro que o MEC teve para manter 116 pessoas escrevendo algo que convencionaram ao final chamar de base nacional comum. Portanto, o documento é incorrigível porque nasce conceitualmente errado. Teria que ser refeito dentro de outro processo de elaboração. E isso não é possível de ser realizado em dois ou três meses. O desenho é de homologação e não de debate aberto. O debate é apenas um detalhe na formulação.

Fizeram algo inaceitável e agora jogam a responsabilidade nos outros, por não apresentarem alternativa em dois meses, numa tentativa de isentar-se da responsabilidade sobre a proposta inicial e aprovar o documento por decurso de prazo. Note-se que não se trata de corrigir isto ou aquilo na base proposta. É estrutural o erro.

Para Manuel Palácios, ele não estava lidando com a elaboração de uma base curricular, com a elaboração de um “currículo nacional” e sim definindo o “ensino”. Esta foi a resposta que deu a uma importante associação da área quanto esta lhe disse que faltava na equipe dele profissionais que entendessem de currículo. Indagado porque não tinha especialistas em currículo envolvidos na elaboração da base, ele foi claro: “não tem porque não se trata de currículo, se trata de ensino”. Que mais pode-se dizer? Está claro o equívoco na partida.

Outra questão: a discussão de um projeto de sociedade mais justo a que se refere Maria Alice não faz parte do ideário dos reformadores como elemento da formulação educacional, pois eles entendem que a educação é uma questão só técnica e não política ou como eles diriam, “essa história de projeto é ideologia”.

Há uma discussão mais fácil do que essa e que os reformadores se negam a fazer no mundo todo onde estão presentes: o que entendemos por uma boa educação? Para eles é tirar nota boa no teste e a escola ter média alta. E ponto. Isso, é claro, não é suficiente para os educadores.

Fizeram uma listagem de conteúdos que não tem como ser corrigida em dois meses. E a ideia é essa mesma: é não ter muita alteração, é passar logo. Olhando a produção, nos lembramos de Benjamin Bloom e sua taxionomia dos objetivos educacionais – e eu diria – piorada, em relação à sua proposta nos anos 60.

Este foi o erro da base. Houve um erro de formatação de processo que começou com Cid Gomes, Janine não teve como corrigir (Manuel Palácio é cota de Cid Gomes) e Mercadante já anunciou que vai manter (ele foi avalista da indicação à época).

Na realidade, a pane foi técnica e política. A relação de Manuel Palácio com as principais entidades educacionais da área é péssima. Não tenho notícia de que alguém na SEB como Secretário possa ter tido tanta autonomia para ser desrespeitoso com as entidades. Sobre isso já escrevi aqui. Recentemente, convidado para a Reunião da Anped, mandou dizer que não iria. Não quer debater. Como alguém pode conduzir um processo de vital importância como este, de costas para as principais entidades educacionais? Seus compromissos são outros.

Portanto, Maria Alice Setubal, do ponto de vista processual está correta, mas infelizmente, as condições políticas de elaboração da base não foram cuidadas. E sem isso, não se liberam forças construtivas que mobilizem as redes de ensino para o debate e para enfrentar os problemas clássicos da nossa política educacional. Sem esse chamamento, a base tende a ser apenas mais um instrumento técnico padronizador. Padronizará as avaliações, a formação de professor e a produção de material didático. Mais do mesmo que já não funcionou. Faltou principalmente a condução política que teria levado a uma concepção mais abrangente e de melhor técnica para o processo. Faltou ouvir antes.

Agora, simplesmente, não há base para discutir a base.

Publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 7 Comentários

Falconi em Rondônia: era uma vez…

Paulo Freire insistia em que as inovações têm que ser recriadas localmente e não transplantadas. Mas nossos gestores não querem ouvir. Acham que implantando responsabilização verticalizada podem resolver, pela via da gestão, problemas que estão muito além dela, inclusive com ancoragens fora da própria escola. O caso de Rondônia é um exemplo. O Governador Confucio Moura iniciou seu primeiro mandato em 2011.

No começo era tudo maravilha… A Falconi, uma empresa de consultoria que opera na área da gestão, inclusive no campo da educação, foi contratada pela Secretaria da Educação de Rondônia:

“Isabela explica [em 2011] que todo o trabalho que vai ser desenvolvido na Secretaria de Educação vai ser acompanhado de perto pelo professor Falconi e que o trabalho consiste na revisão de processos para a estruturação organizacional, mapeamento das despesas, acompanhamento dos indicadores do plano de ação, introdução ao ensino à distância, instituição da rede de ensino integral e implantação de escolas rurais.
Sobre os resultados obtidos pelos estados auxiliados pela empresa, Isabela citou o Rio de Janeiro, que conseguiu sair da 23ª posição para a 15ª no Ideb referente ao Ensino Médio, enquanto que Pernambuco melhorou a posição no Ensino Fundamental.
O encontro contou com a presença do governador Confúcio Moura que relata que assumiu compromissos de melhorar a qualidade da educação com efetivo acompanhamento dos indicadores de desempenho, e ainda explicou o porquê de contratar uma empresa líder em resultados em estados como o Ceará e Pernambuco, que ele mesmo fez questão de conhecer antes de tomar posse com o intuito de tentar mudar o quadro de Rondônia…”

Leia aqui.

Estas consultorias operam, como elas mesmas dizem, por resultados. Logo, por metas. Sendo assim, suas ações são alinhadas de forma que se ensine para o teste que gera o resultado. Às vezes, conseguem produzir “suspiros nas curvas de aprendizagem dos estudantes” de difícil manutenção ao longo do tempo. No caso Rondônia:

“Foi criado o Índice de Desenvolvimento do Ensino de Rondônia – IDERO e definido os desafios do Estado, das CREs e das Escolas. Está sendo estruturada a divulgação dessas metas e da métrica de cálculo desse novo indicador. O próximo passo será auxiliar à SEDUC e às CREs a definirem as medidas (ações) para o alcance desse desafio e realizar oficinas para nivelar conceitos de Programas e Projetos Educacionais; Transporte Escolar Rural; Regularização Escolar; Alimentação Escolar; Matrículas e Chamada Escolar; Compras e gestão.”

Leia aqui.

Tudo continuava muito bem, com direito a palestra de Claudio Moura Castro.

“Diretores escolares e coordenadores regionais de Ensino de todo o Estado participam do Encontro Regional de Gestores 2014, em Ji-Paraná. O evento foi aberto na noite de sexta-feira (31) pelo governador Confúcio Moura e pelo secretário de Estado da Educação, Emerson Castro. O encontro tem o objetivo de fortalecer o pacto pela educação em Rondônia, firmado pelos gestores, e alinhar o planejamento pedagógico para este ano. A palestra de abertura foi feita pelo educador, escritor e consultor Cláudio Moura Castro, da Consultoria Falconi.”

Em palestra, o Governador do Estado também indagava:

“Por que a iniciativa privada faz e o público só fica na promessa, deixando a desejar? Como vamos falar em desenvolvimento se não temos técnicos capacitados, se nossa juventude está abandonando os estudos?”. Com esses questionamentos, o governador explicou o porquê de contratar uma empresa líder em resultados em estados como o Ceará e Pernambuco.”

Mas, o que ocorreu depois? As metas foram atingidas? Recentemente, o Governador parece ter perdido a paciência e desabafou no www.tudorondonia.com.br:

“Desde o primeiro dia do meu governo que me preocupo com a Educação de Rondônia. E olhe que temos feito muito. Inovado muito. Inúmeras parcerias importantes: Airton Sena, Roberto Marinho, Fundação Lemman, Universidade de Juiz de Fora, Falconi, Fundação Getúlio Vargas e tem mais.
Tem muito trabalho teórico produzido. Milhares de folhas de papéis escritas por especialistas. Diagnósticos formatados. Mas, é preciso aproveitar tudo isto e bem. Quero aqui, incluir três pontos que ainda não fiquei satisfeito:
– O primeiro deles foi o trabalho da consultoria Falconi – demorado, caro, bem feito,  equipe de acompanhamento composta e muita coisa para se efetivar no dia a dia da rotina da Secretaria de Educação.  Grande parte do pessoal esfacelou. Foi pra aqui e foi pra ali. Não teve foco na leitura do relatório final. Ainda é hora de retomar com força total e aproveitá-lo bem. Consultoria não faz milagres. O milagre é feito se soubermos traduzir o conceito produzido e colocado na vida da educação.
– O segundo, foi o curso de PÓS-GRADUAÇÃO  pago pelo Estado, no valor aproximado de R$ 16 000,00 (dezesseis mil reais) por aluno. Em áreas essenciais para a SEDUC: gestão financeira, gestão de pessoas, administração pública, gerenciamento de projetos, gestão de Ti, total de 91 inscritos. Desistiram 13, abandonaram  18, concluíram 35,  55 estão com disciplinas pendentes. Este pessoal treinado e capacitado viria pra dentro da SEDUC para operar a máquina. Seria a elite técnica da Secretaria. Olha aí o resultado.
Temos  ainda mais l ano de prazo para a conclusão do curso de MBA. Os que desistiram vão pagar o curso. Os que forem reprovados vão pagar o curso. Devolver o recurso gasto ao Estado.
– O terceiro, os mestres e doutores, que se beneficiaram da lei de incentivos a boa formação, foram dispensados do trabalho por dois a quatro anos, receberam salários, com o compromisso de concluídos os mestrados e doutorados, prestarem ao Estado os seus relevantes serviços, pelo menos por dois anos seguidos. Até agora, nada, na prática. Não se sabe onde está este pessoal. Nem tico e nem taco. O investimento feito pelo Estado ficou para consumo próprio dos servidores beneficiados. Assim é moleza demais.
Peço a Rita, Gerente de RH da SEDUC para rastrear este pessoal. E me enviar a lista daqueles que já concluíram. E será necessária uma boa conversa com eles. E chegou a hora deste pessoal trabalhar no campo. E se justificar. E o Estado se beneficiar. E a educação melhorar a qualidade. Porque estamos chovendo no molhado. Contrário, terão que devolver também os benefícios auferidos no período. Com esta enorme quantidade de gente bem treinada, e com pequenas atualizações na prática do serviço, com certeza, a SEDUC ganharia um salto enorme de qualidade.“

Pois é Governador. Pelo desabafo pode-se perceber que não deu muito certo. Aqui entre nós, o problema de Rondônia é que a Secretaria de Educação anda muito mal acompanhada. Não basta conhecimento e reengenharia de fora bombardeando os profissionais da educação. Entregue a Secretaria para os professores e demita todas as consultorias. Arquive os relatórios. Crie uma avaliação participativa interna, apoiada no pessoal que conhece porque as coisas funcionam ou não. Invista.

Mas agora, Governador, que já se usou pressão sobre os profissionais e desestruturaram-se relações, não será tão simples, depois desta experiência negativa, recompor as relações e criar uma espiral positiva para a rede.

No seu caso, nem sequer houve o clássico “suspiro da curva” que costuma ocorrer quando se adiciona pressão sobre uma rede. Veja que entre 2011 e 2013 o IDEB piorou tanto na 9ª. Série como no ensino médio. A 5ª. Série melhorou, mas não foi pela consultoria. Ocorreu no Brasil inteiro.

Mas não fique desanimado: o senhor é, hoje, o que serão, amanhã, seus pares governadores de outros estados, que estão seguindo os mesmos métodos. Na verdade, se eles fossem espertos, eles aprendiam com o senhor. Os erros também ensinam.

É como o senhor disse: “O milagre é feito se soubermos traduzir o conceito produzido e colocado na vida da educação.” E quem faz isso são os professores e profissionais da rede e não os consultores. Eles fazem o relatório, faturam e vão embora. Por isso, temos que trabalhar com os professores da rede e não contra eles.

Publicado em Avaliação de professores, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

São Paulo separa escolas

O Estado de São Paulo está desenvolvendo um projeto para separar as escolas de 1ª. a 5ª.; de 6ª. a 9ª. e as de ensino médio. Serão três sub-redes específicas. O projeto tramita atendendo a rigoroso rito de planejamento passo a passo. A ideia é lamentável pois rompe a lógica de que a “escola é da comunidade” e deve estar ao seu lado.

Manifestações têm sido feitas em várias cidades do estado a partir de vazamento das informações locais sobre eventuais escolas que seriam atingidas e incluem alunos, pais e professores.

Somente poderemos ter uma visão global do que está sendo planejado dentro de algum tempo, com as medidas que eventualmente darão continuidade a este projeto. É claro que há mais etapas.

Primeiro, houve uma mudança na assessoria. Sai a consultoria McKinsey e entra a consultoria Falconi que já está com escritório dentro da Secretaria, tal qual ocorria com a anterior. Onde Falconi está, temos reengenharia de processos, meritocracia e outras ações que costumam acompanhar estas consultorias. A McKinsey era paga pelos empresários. A Falconi deve ser também. É um “presente” dos empresários para o Estado.

A história do Dia E (#VemProDiaE: participe do megaencontro sobre a reorganização no dia 14 de novembro) que está sendo promovido em São Paulo,  tem cara do Dia D que se tentou realizar em Sergipe e foi abortado pelo magistério de lá, quando aquele estado procurou implantar o Índice Guia.

Segundo aspecto a considerar: homogeneizar as escolas é um passo que pode estar preparando a continuidade do processo de municipalização do ensino fundamental com seu deslocamento para os municípios. Isso não está escrito, mas é uma boa justificativa para se entender talvez o que está ocorrendo.

No entanto, não podemos descartar que também possa ser uma preparação para entregar as escolas de ensino fundamental para Organizações Sociais que já encontrariam seu raio de operação e de responsabilização definidos: 1.5 km ao redor das escolas que continuarem existindo. Nesta mesma linha, seria uma arrumação de “mercado” para tornar as escolas “atrativas”, com “clientes” definidos.

Ao mesmo tempo, o processo de terceirização poderia no futuro ser melhor conduzido se as escolas se especializam em determinadas séries, pois é mais fácil para as terceirizadas administrarem ciclos específicos do ensino básico em escolas definidas.

Se isso acontece, por municipalização ou privatização, o Estado fica com o foco no ensino médio, e pode ampliar seus esforços nesta rede, sem descartar também a estratégia de entrega de mais escolas de ensino médio à iniciativa privada copiada de Pernambuco que já se encontra sendo aplicada no Estado de São Paulo. Sabe-se que este é o projeto de ensino médio acalentado pelo empresariado que saltita em torno do governo Alckmin e da Secretaria de Educação do Estado. Dessa forma, o processo de terceirização das escolas de nível médio pode avançar, pois elas se separam dos outros ciclos do fundamental.

Entre as consequências nefastas como a privatização, está também a ampliação do número de alunos em sala de aula, como consequência do fechamento de escolas e a transferência dos alunos para outras. Ou seja, o que temos não é uma reforma educacional e sim uma reforma fiscal combinada com um provável aumento da terceirização/privatização.

Com a Falconi por perto, não podemos esperar boa coisa para a educação pública de gestão pública.

Publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

Sergipe: batalhas ganhas

Aracaju (SE) discutiu as políticas de responsabilização empresariais aplicadas na educação com mais de 1000 participantes do XV Congresso Estadual dos Trabalhadores da Educação promovido pelo SINTEPE, o combativo Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe. Este sindicato tem travado uma luta constante contra a introdução de tais políticas na rede do Estado de Sergipe e já acumula vitórias importantes.

Em 2012 desenvolveu uma campanha estadual contra a introdução no Estado de uma consultoria radicada em Belo Horizonte, que deveria planejar a introdução de políticas de responsabilização verticalizadas na rede.

A metodologia desenvolvida por esta consultoria implicava, entre outros aspectos, a introdução de “prêmio de produtividade” a partir da nota de desempenho que poderia aumentar entre 60% a 100% do salário base. Na Bahia, por exemplo, esta mesma consultoria implantou o sistema cuja “engenharia” é resumida abaixo:

“Obtém-se, assim, um número entre 0 e 1. Feito este procedimento para cada indicador, somam-se os resultados obtidos nos quatro indicadores e divide-se por 4. Este também será um número entre 0 e 1, que representa um índice médio de qualidade da gestão em sala de aula, de cada professor.

Com base no resultado obtido por cada professor, o gestor escolar gerará um índice de qualidade da gestão em sala de aula para sua unidade escolar, que será a média simples dos resultados obtidos pelo conjunto de professores da respectiva unidade escolar. Quanto mais próximo de 1 for o resultado final, melhor será a qualidade da gestão em sala de aula. Com o resultado obtido, cada escola poderá, então, fazer sua própria classificação: de 0 a 0.3 = Muito Crítico (MC); 0,3 a 0,5 = Crítico (C); 0,5 a 0,6 = Mediano (M); 0,6 a 0.75 = Satisfatório (S); 0,75 a 0,90 = Muito Bom (MB) e 0.9 a 1.0 = Excelente (E).”

Leia sobre o sistema implantado na Bahia aqui na gestão Jaques Vagner (PT).

À época, o Estado de Sergipe contratou João Batista dos Mares Guia juntamente com o irmão Walfrido dos Mares Guia (este foi ministro do Turismo no Governo Lula), donos do Grupo Pitágoras, uma rede privada de educação, para introduzir a metodologia formulada por eles conhecida como Índice Guia de Avaliação de Desempenho.

Segundo noticiou à época o SINTESE:

“Em audiência com o governador de Sergipe, Marcelo Déda, o Sintese questionou a contratação pelo Governo do Estado da “consultoria” do senhor João Batista dos Mares Guia diante de uma série de acusações criminais sérias contra ele. O governador afirmou para toda direção do sindicato que a vinda de João Batista era uma indicação do próprio governador Déda, por sugestão de Jaques Vagner, governador da Bahia. Vale ressaltar que na Rede Estadual de Ensino da Bahia o Índice Guia de Avaliação de Desempenho já foi imposto há dois anos, com um processo criminoso de assédio moral e desvalorização salarial dos professores.”

Leia mais aqui.

Em abril de 2013 o SINTESE denunciou que o consultor da Secretaria de Estado da Educação João Batista Mares Guia, em reunião ocorrida com professores, diretores e coordenadores vinculados a Diretoria Regional de Educação 04 (DRE 04) no Cine Teatro em Rosário do Catete, havia sido enfático ao afirmar que o governo de Sergipe tinha a intenção de demitir os professores que não cumprissem as metas do Índice Guia de Avaliação de Desempenho.

Em 2014 a luta começou a dar resultados concretos o que levou ao adiamento da proposta de implantação da avaliação, que era denominada pela Secretaria de “Dia D da avaliação”.

“Para exigir o fim do ‘Compromisso de Gestão’ e do ‘Índice Guia de Avaliação de Desempenho’, os professores da rede estadual fizeram na manhã desta quarta-feira, dia 7, ato em frente à Secretaria de Estado da Educação (SEED). Durante o ato os professores destacaram a necessidade da construção coletiva e democrática de uma metodologia de avaliação educacional para Sergipe.

Neste dia 7 de maio [2014] aconteceria nas escolas da rede estadual o ‘ Dia D da Avaliação’, um dia instituído arbitrariamente pela SEED para avaliar professores e alunos tendo como marco metodológico os critérios de avaliação do ‘Compromisso de Gestão’, principal documento que implanta os ‘Índice Guia de Avaliação de Desempenho’ nas escolas estaduais.”

Leia mais sobre esta luta aqui.

Em maio de 2014 a Secretaria de Educação se comprometeu a revogar a Portaria que instituía o Índice Guia de Avaliação.

“A decisão foi tomada em audiência ocorrida na última quarta-feira, dia 30, na sede da SEED. A princípio a audiência tinha sido solicitada pelo SINTESE para demarcar a postura contrária dos professores da rede estadual a realização do ‘Dia D de Avaliação’. A categoria compreende que o ‘Dia D’ nada mais é do que uma forma de punir professores pelos problemas da educação em Sergipe, bem como visa acabar direitos conquistados pelo magistério como: licença maternidade, prêmio e tratamento de saúde, critérios de remoção, autonomia pedagógica dos professores, autonomia pedagógica e administrativa das escolas.”

A experiência do SINTESE mostra que quando o magistério se organiza ele pode fazer frente às políticas públicas de responsabilização autoritárias.

Publicado em Avaliação de professores, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Pernambuco: ações privatizantes

O governo do estado de Pernambuco lança um pacote de ações privatizantes na educação estadual. Em solenidade na manhã da última quinta-feira, o governador Paulo Câmara autorizou a construção de 13 escolas na Mata Sul e oficializou parcerias com instituições para realizar um estudo sobre o ensino integral e para implantação do portal Escola Conectada.

As novas escolas estaduais e municipais serão construídas em nove municípios. Já a parceria do estado será firmada com três institutos (Natura, Sonho Grande e Instituto de Co-responsabilidade pela Educação) para desenvolver um estudo sobre os custos e o desempenho das escolas em tempo integral do ensino médio na rede estadual. Com duração prevista de seis meses, a pesquisa vai apontar, por exemplo, o custo por estudante nessas unidades.

Pernambuco conta com a maior rede de ensino integral do País. São 300 unidades (incluindo o semi-integral), e cerca de 150 mil alunos matriculados.

O estudo, que terá duração de seis meses, vai avaliar a eficácia e eficiência econômica (valor do investimento para implantação da unidade, quanto custa cada estudante, a manutenção da escola e a não-qualidade do ensino), e acadêmica (aprendizado, competências sócioemocionais) do ensino integral no Estado.

Com isso, os reformadores procuram criar efeito-demonstração que leve outros estados a adotar o mesmo padrão de privatização. O Estado de São Paulo já tem o modelo do ensino médio integral de Pernambuco sendo desenvolvido também com o Instituto de Co-responsabilidade Educacional. Este é o projeto principal dos empresários paulistas.

O Portal Escola Conectada será desenvolvido em parceria com os institutos Natura, Telefônica e Inspirare para oportunizar a produção e publicação dos materiais produzidos pelos professores da rede estadual de ensino no site da Secretaria de Educação (www.educacao.pe.gov.br) e no endereço da iniciativa http://escolaconectada.educacao.pe.gov.br/ que contém coleções de videoaulas.

 Leia  aqui.

A privatização do ensino médio em Pernambuco é um dos primeiros experimentos de aplicação de alguns dos princípios das escolas charters no Brasil, financiado pelo Itau Social.

Publicado em Escolas Charters, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Novo livro

Do mesmo autor de Race to Nowhere, documentário crítico sobre testes nos Estados Unidos, também está disponível novo livro:

Beyond Measure: Rescuing an Overscheduled, Overtested, Underestimated Generation

Publicado em Links para pesquisas | Com a tag | Deixe um comentário

O Ministro “Mandrake”

Mandrake era um mágico que hipnotizava instantaneamente e aplicava poderes telepatas com olhos e gestos das mãos. Criado em 1934, o personagem foi baseado em Leon Mandrake, mágico dos anos 20.

O nome cabe muito bem para o atual Ministro da Educação, Mercadante. Turrão, já chegou avisando a patuleia que “precisamos fazer mais com menos”. Ou seja, só com “mandrakaria” pesada ou aderindo aos reformadores empresariais. Nenhuma das duas opções é boa.

Aliás, os reformadores, por convicção, acham que dinheiro não é o diferencial para a educação e sim a gestão [privada, é claro]. Na visão deles, o estado tem que diminuir para a iniciativa privada educacional engordar. Para tal, advogam que se o dinheiro for desviado para eles mesmos, está melhor aplicado do que financiando a escola pública.

Em compensação, de saída, o ex-ministro Janine, seu antecessor, disparou: “a inteligência não pode ser contingenciada” – reforçando a necessidade de mais recursos para a educação. Caiu de pé.

O mais surpreendente é que o Ministro Mercadante também chegou com soluções mágicas e opinião pronta para tudo quanto é crítica, o que revela onde vai dar esta estória de “fazer mais com menos”. Exemplos:

O Banco Mundial criticou o Mais Educação em um dia, no outro ele já tinha solução – a deles, diga-se de passagem: restringir o programa a “Mais Ensino”. Segundo o ministro:

é muito bom ter aula de capoeira, música, dança, esporte. Mas, enquanto o IDEB não avançar, o Mais Educação vai ser matemática e português para que não deixemos crianças repetindo.”

Capoeira, dança, esporte fica para depois. E se for para depois que as crianças tirem 8 ou 9 no IDEB, então, não ocorrerá nunca, pois o IDEB não foi feito para se chegar lá. Perguntem para o Presidente do INEP. Só escola de rico vai ter Mais Educação o resto é Mais Ensino mesmo.

Ele talvez ache que fazer à tarde mais daquilo que não deu certo pela manhã, faça a criança melhorar na escola. E, claro, nada dessa estória de formação integral da personalidade do educando, nem de formação multilateral. Puro luxo.

Esta semana alguém disse que a Base Nacional Comum do MEC não está ensinando gramática suficientemente. Embora as especialistas da UFMG que cuidam da base tenham dito que não se usa mais ensinar isso de forma separada, o Ministro disse que não: usa sim, e a base será alterada para incluir mais gramática. O sábio ministro não precisou nem se instruir sobre o assunto com a assessoria que o MEC mesmo está pagando.

Quanto ao FIES, ele foi sincero: não percebemos o rombo antes. Isso que ele já foi Ministro da Educação no primeiro mandato da Dilma. São 13 bilhões de reais que saíram das Universidades Públicas e foram para as universidades privadas. Ninguém percebeu. Para não ficar feio disse “que saiu do Ministério da Educação sabendo que esta pauta teria que ser revista” – referindo-se ao seu primeiro mandato no MEC.

E a expansão das creches, então? Resposta na ponta da língua:

Vamos nos reunir com prefeitos e a ideia é oferecer R$ 400 mil para ampliar instalação na escola para crianças de 4 e 5 anos. Assim, daria resposta barata e rápida para apoiar os prefeitos nesse desafio.”

Legal, como ninguém pensou nisso antes?

“O novo ministro prometeu acelerar a construção de creches com módulos “mais rápidos e mais baratos”. Segundo ele, a partir de amanhã (8), um mutirão visitará municípios para que eles façam a adesão a essas obras.”

Socorro MIEIB!

Nada de construir creches com projeto adequado para atender as necessidades das crianças. Vamos mudar isso, basta fazer um “puxadinho” nas escolas já existentes para elas. Aliás, alguns prefeitos estavam pedindo é isso mesmo. Essa estória de exigir projeto só atrasa “as metas”.

Também foi lá a União Nacional dos Estudantes reclamar que as instituições privadas de Ensino Superior estão incluindo 20% das disciplinas dos cursos presenciais de graduação na modalidade Ensino a Distância. O Ministro disse que isso não pode. Criou uma comissão para investigar. Em “linguagem palaciana”, quando se cria uma comissão é que não se quer fazer nada. Mas deixemos que os meninos descubram por si mesmos.

O ministro também tranquilizou alguns “reformadores” que trabalham no MEC, em especial na SEB (base nacional comum) e no INEP (avaliação) como era de se esperar: ele disse que vai manter fundamentalmente a equipe do MEC e que trouxe uma pequena equipe da Casa Civil.

Para coroar tudo isso, fechemos com a explicação, dada por ele mesmo, para sua volta para o MEC:

Eu fui [voltei] para o MEC porque minha experiência [anterior] teve êxito.”

E assim vamos. De ministro em ministro, temos agora um mágico que tira soluções da cartola para tudo, e com menos recursos. Agora vai.

Publicado em Mercadante no Ministério | 3 Comentários

MEC inicia Base Nacional da Formação

O Blog da Formação de Helena Freitas informa que o MEC está iniciando a Base Nacional Curricular da Formação de Professores:

“O Ministério da Educação deu início ao processo de reforma curricular dos cursos de formação de professores, com vistas a adequá-los à BNCC – base nacional comum curricular da educação básica, ainda em consulta pública. Tomamos conhecimento de que convites a docentes do ensino superior estão em curso…”

Continue lendo aqui.

Esta Base poderá ser a referência para o ENAMEB – Exame Nacional do Magistério do Ensino Básico, juntamente com a Base Nacional Curricular da Educação Básica.

Publicado em Avaliação de professores, ENAMEB - Professores, Mercadante no Ministério | Com a tag | Deixe um comentário

Supremacia Charter: não desta vez – II

Continuando o post anterior, este é mais um estudo que mostra como continua não havendo justificativa para se usar a receita das escolas charters para se elaborar política pública como pretendem os estados de Goiás e Pará. Na verdade, a implantação destas charters é apenas uma forma de promover a abertura de mercado educacional e demonstrar fé na iniciativa privada.

O dinheiro que deveria ser aplicado na melhoria da escola pública, vai sendo desviado para o bolso das operadoras charters. Isso sim, prejudica a qualidade da escola pública e vai tornando-a pior, asfixiada, alimentando o ciclo vicioso da aplicação de receitas salvadoras como as escolas charters. Retirar dinheiro da escola pública para financiar operadoras charters não vai melhorar a escola pública, ao contrário, vai piorá-la. Ao mesmo tempo, como os dados mostram, as charters não vão melhorar a qualidade da educação, pois as diferenças obtidas em relação às escolas públicas regulares são pífias. Quem ganha com isso? A iniciativa privada que embolsa recursos públicos e empobrece as escolas públicas, diminui sua qualidade e com isso justifica mais mercado educacional.

Mais um estudo divulgado pelo Center for Research on Education Outcomes (CREDO) em 2015 e que analisa a qualidade das escolas charters americanas em 41 regiões de 22 estados americanos mostra isso.

O estudo procura verificar se as escolas charters urbanas têm algum diferencial de qualidade face às localizadas em regiões não urbanas e compará-las com o desempenho das escolas públicas regulares americanas. O CREDO, organismo que desenvolve o estudo, não é contra as charters e está baseado na Universidade de Stanford.

Os resultados foram divulgados e resumidos da seguinte forma pelos autores:

“1. Nossos resultados mostram que as escolas charters urbanas no conjunto fornecem níveis significativamente mais elevados de crescimento anual em matemática e leitura, comparativamente aos seus pares TPS [escolas públicas regulares]. Especificamente, os alunos matriculados em escolas charter urbanas apresentam 0,055 desvios padrões maior de crescimento (SD) em matemática e 0,039 maior de crescimento na leitura por ano, do que os seus pares correlacionados nas TPS [escolas públicas regulares]. Estes resultados se traduzem em que os estudantes de charter urbanas tiveram o equivalente a cerca de 40 dias de aprendizagem adicional por ano em matemática e 28 dias adicionais de aprendizagem por ano em leitura.”

Note a diferença nos desempenhos: 0,055 e 0,039 desvios padrão. Isso é muito pouco resultado para muito barulho, como aponta a revisão do estudo feito pelo NEPC:

“Mas, independentemente de preocupações sobre a metodologia, Maul salienta, “os tamanhos do efeito real reportado são muito pequenos, explicando bem menos de um décimo de um por cento da variância nos resultados dos testes.” (grifos meus LCF). O tamanho do efeito relatado, por exemplo, pode simplesmente refletir “exclusão de alguns alunos de baixo desempenho feita pelos pesquisadores em sua análise.”

Isso já havia sido apontado pelo mesmo revisor ao rever o estudo do CREDO também para Michigan em 2013 quando as charters tiveram uma diferença de 0,06 desvios padrão sobre as escolas públicas regulares.

O estudo de 2015 do CREDO continua dizendo que:

“2. Quando os ganhos de aprendizagem para os alunos das charter urbanas são apresentados por regiões urbanas individualmente, as regiões com maiores ganhos de aprendizagem em escolas charter superam na proporção de dois para um aquelas de menor aprendizagem. Em matemática, 26 regiões urbanas registram ganhos de aprendizagem para os alunos da escola charter que ultrapassam os seus homólogos TPS. Escolas charters em 11 áreas urbanas têm ganhos de matemática menores, e quatro regiões têm ganhos de aprendizagem equivalentes em matemática. Na leitura, os alunos da escola charter em 23 das 41 regiões demonstram ganhos de aprendizagem maiores do que os seus pares TPS, enquanto que 10 regiões têm ganhos menores. As escolas charters em oito regiões têm ganhos de aprendizagem dos estudantes semelhantes em leitura em comparação com seus pares TPS.”

Ou seja: em matemática – 26 regiões têm aqueles pequenos ganhos mencionados anteriormente em 1 e, somadas as outras duas situações nas demais regiões (quem têm rendimento igual às TPS ou abaixo delas) temos 15 regiões que não melhoraram ou até pioraram. Em leitura, são 23 contra 18 regiões. O resultado continua fraco para justificar política pública.

As demais análises incluídas no relatório, acabam sendo prejudicadas pelos limites anteriormente indicados pelo estudo.

Mas há mais. Há a questão metodológica, que é muito mais relevante do que as quantidades apresentadas, porque diz respeito à própria montagem das comparações. Sobre isso o revisor aponta que:

“A avaliação de Maul, no entanto, explica as “razões significativas da cautela.”

Na sua análise, o CREDO usou novamente a sua própria e incomum técnica de pesquisa que tenta simular um experimento controlado: construir “gêmeos virtuais” para cada aluno charter. Os “gêmeos” foram obtidos pela média do desempenho de até sete outros estudantes, escolhida para coincidir (to match) com os alunos charter baseando-se em dados demográficos, pobreza e status de educação especial, série, e pontuação de um ano antes no teste padronizado.

Maul aponta que a técnica não está adequadamente documentada. Ele acrescenta: “Permanece pouco claro e é intrigante que os pesquisadores usem essa abordagem em vez da abordagem mais aceita da correspondência de pontuações [propensity score matching] “. A técnica CREDO, ele adverte, pode não controlar adequadamente as diferenças entre as famílias que escolhem e aquelas que não escolhem uma escola charter.

O estudo do CREDO também fracassa ao justificar escolhas tais como a estimativa de crescimento e o uso de “dias de aprendizagem” como uma métrica.”

Baixe a revisão feita por Andrew Maul, do NEPC, aqui. Baixe o estudo original do CREDO: Urban Charter School Study Report on 41 regions – 2015, aqui.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Privatização, Responsabilização/accountability | Com a tag , , | 2 Comentários

Supremacia Charter: não desta vez

Em tempos de escolas charters por aqui, é bom introduzir a crítica de mais um relatório americano que tentou sem sucesso mostrar que elas ensinam mais e conseguem fechar as lacunas de aprendizagens das crianças com desvantagens – antes que seja reproduzido acriticamente por aqui. Esta tem sido uma batalha constante nos Estados Unidos. Até agora não há indicação de que elas sejam melhores que as escolas públicas americanas regulares a ponto de poder adotar esta estratégia como política pública. No entanto, ignorando alertas, a proposta está em curso em Goiás e no Pará.

Os estudos que tentam mostrar a supremacia destas escolas costumam ir além do que eles podem afirmar. Para os estudos que se seguirão no Brasil tentando mostrar que as escolas charters são melhores, teremos que considerar a experiência da pesquisa americana em lidar com tais escolas. Estas pesquisas têm alertado para o fato de que as charters evitam pobres, evitam crianças portadoras de necessidades especiais, fazem comparação com crianças que não são comparáveis e têm erros de amostragem. Além disso, frequentemente deixam de considerar a “auto-segregação” como aqui é mostrado na crítica de Powers ao estudo que segue, omitem as taxas de evasão e não divulgam que recebem doações de fundações que as colocam em condições de financiamento bem diferentes das escolas públicas regulares.

O pessoal de Goiás e Pará precisa ficar atento e, além disso, realizar estudos independentes que levem em conta todas estas variáveis, já que as Secretarias de Educação destes Estados bem como os arautos privatistas financiados por ONGs e Fundações vão receber dinheiro para realizar estudos que mostrem a “grande eficácia” das escolas charters do Pará ou em Goiás, quando estiverem em funcionamento.

Outra questão importante de ser acompanhada: como será a seleção dos alunos que irão estudar nas escolas charters de Goiás e do Pará. Serão selecionados por que métodos? As escolas charters correm o risco de serem protótipos das Escolas de Referência Anísio Teixeira propostas no documento de Mangabeira sobre a Pátria Educadora.

No caso em questão, o “Departamento de Reforma da Educação” na Universidade de Arkansas, constituído com recursos privados, publicou mais um destes estudos que divulgam os maravilhosos resultados das escolas charters conhecidas como “No Excuses” (Sem Desculpas), onde os alunos são submetidos a uma disciplina rigorosa e também a intensa preparação para os testes.

As “No Excuses” americanas são as mais próximas do modelo de escolas administradas pela PM no estado de Goiás. A seleção dos estudantes para tais escolas costuma ser feita por sorteio entre os pais que têm desejo de matricular seus filhos nestas escolas, quando não têm vagas para toda a demanda. É o caso de Arkansas neste estudo. No entanto, as famílias mais pobres se “auto-segregam” e nem inscrevem seus filhos para tentar uma vaga. Isso funciona como um processo “natural” de seleção das crianças melhor posicionadas socialmente que são as que acabam por entrar nestas “No Excuses”.

Aqui está o resumo da crítica feita por Powers:

“O relatório comentado aqui procura avaliar em que medida  as escolas charters “No Excuses” elevam o desempenho dos alunos em língua inglesa e matemática e, assim, fecham lacunas de desempenho. O documento define essas escolas como tendo: a) altos padrões acadêmicos, b) códigos disciplinares severos, c) o tempo de instrução estendido, e d) apoio direcionado para alunos de baixo desempenho. A partir da meta-análise de 10 estudos quasi-experimentais, os autores concluíram que os estudantes que participaram das escolas charters “No Excuses” tiveram ganhos médios de sucesso de 0,16 desvios-padrão em língua inglesa e 0,25 em matemática. Embora admitindo que as escolas charters “No Excuses” não são representativas de todas as escolas charters, os autores não abordam como os alunos que se candidatam para as escolas charters por sorteio podem não ser representativos de todos os estudantes de escolas charters. Eles também não abordam a possível relevância da deserção de alunos para os resultados dos estudos individuais e para sua própria análise. Como resultado, a alegação de que as charters “No Excuses” podem fechar lacunas de desempenho exagera substancialmente as suas conclusões. Além disso, a amostra de escolas relativamente pequena do relatório está concentrada em cidades da Costa Nordeste e sugere que a base de investigação atual é demasiada limitada para tirar conclusões sobre a eficácia das escolas charters “No Escuses”.”

Aqui está o resumo de Diane Ravitch sobre o assunto:

“O National Education Policy Center convidou Jeanette Powers da Universidade Estadual do Arizona para avaliar o estudo mencionado, e ela o criticou fortemente. Posteriormente, o estudo foi refeito e, em seguida, novamente analisado.
No entanto, Powers manteve suas considerações dizendo que o estudo está inflado.
“A argumentação principal (e repetida) do relatório é que as escolas charters “No Excuses” podem fechar as brechas de desempenho. Powers explica que a pesquisa subjacente a este relatório suporta apenas uma alegação mais limitada e apropriada, ou seja, a de que o subconjunto das escolas charters “No Excuses” tem se saído relativamente bem em elevar os resultados dos testes dos alunos que participam das escolas charters com matrícula baseada em sorteio. Mas a alegação de que essas escolas podem fechar lacunas de desempenho está baseada apenas em uma extrapolação aritmética de provas que têm limitações claras.
Um problema comum e bem conhecido nas pesquisas com escolas charters é o efeito auto-segregação (seleção). Ou seja, os pais que escolhem escolas “No Excuses” são mais educados, mais engajados no processo de matrícula por seleção de alunos, e diferem de forma significativa daqueles pais que não participam do processo seletivo. Isso é logicamente uma preocupação maior no caso das “No Excuses” com demasiados candidatos, e os resultados não podem ser generalizados para todo o pais.
As escolas que realizam sorteios para a admissão dos alunos têm excesso de procura, o que é de se supor, seja diferente para escolas menos populares. No entanto, o relatório sugere que resultados podem ser generalizados para todas as escolas charters “No Excuses”.
As escolas charters “No Excuses” mais proeminentes e com demasiados candidatos são muitas vezes apoiadas por grandes aportes de recursos externos. Oferecer um dia escolar alargado, por exemplo, pode não ser financeiramente viável para outras escolas charters, e os custos de fazer tal ampliação não são abordados. Uma escola charter que tenha uma abordagem “No Excuses” mas não tenha recursos adicionais não pode ser considerada com podendo ter os mesmos resultados que as outras.
A amostra de escolas incluídas no estudo analisado é em grande parte extraída das principais áreas urbanas do Nordeste e é pequeno, especialmente no nível do ensino médio.”

A revisão original de Powers analisando o estudo dos pesquisadores de Arkansas pode ser encontrada aqui. O estudo republicado do relatório de Arkansas está disponível aqui. O relatório original de Arkansas está aqui.

Publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag , , , | 2 Comentários