Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – II

No post anterior vimos como o Seminário do Unibanco elimina o contraditório seja pela omissão daqueles que praticam de fato a gestão escolar nas escolas, seja por aqueles que pensam teoricamente a gestão escolar. Terminávamos perguntando o porquê de se ver na gestão da escola uma variável “radical”. A resposta é que para estes especialistas, gestão é igual a controle.

Alguém dirá que eles até falam de “autonomia”. Sim, mas a autonomia que recomendam é a da privatização, da flexibilidade para demitir, da retirada da estabilidade no emprego. Propugnam por uma autonomia de gestão que visa retirar, no momento seguinte,  a autonomia pedagógica do professor e fazer dele um seguidor de “protocolos”. Isso aparece nas discussões do seminário como sendo ligado à gestão, e no documento da Pátria Educadora de Mangabeira aparece como “protocolos de ensino”. Gestão e ensino por protocolos, é desta autonomia que falam.

Para os proponentes do seminário, autonomia da gestão equivale a contratar Organizações Sociais para gerir as redes e permitir que elas contratem e demitam diretamente os professores e demais agentes, ou seja, “administrem com mais autonomia a escola”. Estão pensando nas “Escolas Independentes” e no aparato de “inspeção escolar” da Inglaterra. Para eles, esse é o significado de “entregar autonomia”. É um conceito restrito e autoritário de gestão. Sua autonomia é igual a aumento do controle transferido para a ponta, ou seja, para o diretor, para o gestor privado. Por isso, quando eles dizem “gestão” querem de fato praticar “controle”. Quando dizem “autonomia”, querem dizer “maior autonomia para controlar”.

O executivo do Instituto Unibanco frisa que a gestão não é a “solução mágica” para todos os problemas da educação do país, mas que um “componente pouco glamourizado” e “uma variável radicalmente necessária” para o sistema. “A [boa] gestão pode harmonizar o processo e o uso dos recursos disponíveis. Ela permite, face a todas as adversidades estruturais, um padrão mínimo de qualidade.””

Na frase seguinte do executivo, aparece o real sentido oculto:

“A principal vantagem, segundo o especialista, é que possibilita criar um método no qual os padrões regulatórios e protocolos de ação possam ser reproduzidos e que, sobretudo, promovam a corresponsabilização dos atores envolvidos no processo educativo.” (Grifos meus.)

No entanto, esta agenda testada em variados países, não conduziu por lá a resultados com equidade e nem a melhorias persistentes. Produzem soluços nas curvas de aprendizagem e empacam, além de aumentar a segregação escolar. O Seminário, no entanto, evita trazer para o debate os resultados concretos obtidos por tais propostas. Nada é dito sobre isso. Não convém. Ocorre que não é de resultados que se está falando neste seminário e sim de “interesses” – estas propostas movimentam todo um mercado educacional e por outro lado atendem a interesses ideológicos de grupos econômicos que disputam a agenda educacional. Para Pedro Malan, por exemplo, tais experiências são dadas como exitosas (mesmo sem ele demonstrar tais êxitos) e portanto “não há que se inventar a roda”. Ou seja, não percamos tempo com demonstrações de resultados. É crença associada a interesses.

Um encontro como este, sem contraditório, perde credibilidade, vira “clube” e destina-se a passar a falsa ideia de que as soluções estão à mão, bastando a vontade para implementá-las – ou seja, bastando a adesão da “alta gerência”. Apropriam-se do “sentimento de subalternidade” que toma conta do país para trazer “o novo” praticado em outros países, e pegar carona na baixa estima nacional. Escolhem o que consideram “países modelos”, ou “países de referência” de acordo com a conveniência de suas ideias e interesses.

As receitas recomendadas – alardeadas como modelo para o Brasil – importadas de países onde elas mesmas não são bem-sucedidas, são produzidas de costas para os profissionais da educação das redes e das próprias universidades brasileiras. Para este “clube”, os profissionais das redes não sabem formular soluções e resolver os problemas educacionais com os quais convivem diariamente. Centenas de pesquisas feitas em nossas universidades, pagas com recursos públicos, descrevem o cenário da gestão nas nossas escolas. Mas estas pesquisas não servem para o “clube” que prefere suas próprias “pesquisas”.

Ignoram os resultados da Conferência Nacional de Educação – CONAE. Pasmem: nem o Ministro e nem seus Secretários presentes lembraram da CONAE que eles mesmos financiaram. Lá há todo um eixo relativo à gestão. O Ministro faz cara de paisagem e aborda generalidades inócuas que não se convertem em política e que já está cansado de repetir, cansando por tabela a “patuleia”, enquanto os reformadores empresariais do Ministério, notadamente Manuel Palácios e Francisco Soares, correm soltos implementando suas ideias.

Soares anunciou a Plataforma de Devolutivas no seminário da UNDIME, mas não o fez no dia seguinte no Seminário de Educação promovido pelo CEDES, com uma plateia de educadores de vários estados. Palácios esteve com as entidades educacionais antes do Seminário do Unibanco, mas não anunciou a elas a certificação de Diretores. Preferiu fazê-lo durante o próprio Seminário do Unibanco. O que estamos esperando para tirar conclusões? Com quem é o compromisso?

Continua no post seguinte.

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Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – I

Reformadores empresariais, gestores públicos em postos de comando e convidados estrangeiros reuniram-se esta semana sob a batuta do Instituto Unibanco para legitimar ideias antigas sobre gestão escolar (na ausência dos reais gestores das escolas). Elas são apenas reprise do que já foi alardeado em outras ocasiões: na base da análise, o pressuposto de que o “controle da escola” nos salvará. A isto chamam “gestão”.

Tudo com direito a amplificação de suas brilhantes soluções pela grande mídia, capitaneada pela Folha de São Paulo. Mas detalhe: sem discutir os resultados práticos obtidos por tais ideias, já antigas no cenário internacional e sem incluir aqueles que pensam diferentemente, ou seja, sem a presença do contraditório. Cenário ideal para o “clube” debater ideias que não podem ser, pela via da ciência, fundamentadas em pesquisa. Boa parte delas é “junk science“.

O Unibanco é antigo conhecido. Em 2012, registramos aqui no Blog que o então Ministro da Educação Aloisio Mercadante anunciava parceria com este Banco na área da gestão via Ensino Médio Inovador:

“Pará, Ceará, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e Piauí unidades da Federação que participam do programa Ensino Médio Inovador, do governo federal, também irão integrar o Projeto Jovem de Futuro, que é uma iniciativa do Instituto Unibanco. Estes estados vão receber apoio técnico para qualificar a gestão do ensino médio. Um termo de cooperação técnica, assinado nesta terça-feira, 14, entre o Ministério da Educação e o Instituto Unibanco, garante a parceria.

De acordo com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, o índice de evasão no ensino médio é muito grande e os governos da União e dos estados precisam ampliar as parcerias em busca de soluções para o problema. Desde 2009, quando foi instituído o Ensino Médio Inovador, o MEC repassa recursos para que as secretarias estaduais de educação reestruturem os currículos e aumentem progressivamente o número de horas de aula anuais.”

“A superintendente executiva diz que a meta deste ano é trabalhar com 789 escolas públicas de ensino médio; em 2013, com 2.185, e em 2014, com 4.125 dos estados participantes. Ela estima que o instituto vai investir, nos próximo cinco anos, R$ 233 milhões em assistência técnica no projeto.”

Agora, três anos depois, o mesmo Instituto Unibanco promove um Seminário sobre Gestão Escolar para amplificar suas recomendações para a educação e, como sempre, procura um Jornal de grande circulação para colar nele tais recomendações e sugerir soluções para os problemas não resolvidos. Note, nem sequer se propõe a iniciar tal seminário com a apresentação de um relatório do que fez até agora e de seus sucessos e insucessos. Quer mais.

Neste esforço por disputar a agenda educacional, na forma típica de atuação dos reformadores empresariais, o Instituto Unibanco convida o Ministério da Educação e Secretários de Educação alinhados com tais ideias – responsáveis pela articulação da política educacional – e a Folha de São Paulo – como forma de difusão de suas ideias. Os pesquisadores convidados são apenas os que têm carteirinha no clube dos reformadores empresariais da educação. Elimina-se vergonhosamente o contraditório e coloca-se o pensamento único na base da reflexão. Eventuais divergências que escapam são minimizadas e retraduzidas para a fala oficial do “clube”.

Mas vejamos se você reconhece os “especialistas brasileiros em gestão escolar” que foram reunidos pelo Seminário do Unibanco/Folha, para discutir gestão escolar:

Julio Cesar da Costa Alexandre – Secretário Municipal de Educação de Sobral (CE); Maurício Holanda Maia – Secretário da Educação do Estado do Ceará (CE); Priscila Cruz – Diretora Executiva do Movimento Todos pela Educação; Maria Helena Guimarães Castro – Diretora Executiva da Fundação Seade (SP); Reynaldo de Barros – Economista e membro da empresa METAS; Ricardo Paes de Barros – Economista, Professor do INSPER e membro do Instituto Airton Senna; Francisco Soares – Presidente do INEP e Estatístico; Vinícius Mota – Secretário de Redação da Folha; Ricardo Madeira – Professor de Economia da USP; Raquel Teixeira – Secretária de Educação do Estado de Goiás (GO); Lucia Couto – Gerente de Desenvolvimento e Conteúdos do Instituto Unibanco; Claudia Costin – Diretora sênior para Educação do Banco Mundial; Manuel Palácios – Secretário de Educação Básica do MEC, membro do CAED de opera no mercado de avaliação educacional; Ricardo Henriques – Superintendente Executivo do Instituto Unibanco; Ana Estela Souza Pinto – Diretora de Mercado da Folha; Pedro Malan – Vice-Presidente do Conselho do Instituto Unibanco;Mirela de Carvalho – Gerente de Gestão do Conhecimento do Instituto Unibanco; Sergio Roberto Gomes de Souza – Diretor de valorização dos profissionais da educação da SASE – MEC; Daniel Cara – Coordenador geral da Campanha Nacional pelo direito à Educação; Renato Janine Ribeiro – Ministro da Educação do Brasil.

Estes profissionais, todos respeitáveis em suas respectivas profissões, mas cuja imensa maioria conhece a escola apenas por ter passado por ela quando era criancinha (ou através de seus filhos, na vida adulta), têm soluções e falas lapidares para e sobre a gestão da escola pública. Comportam-se como se estivessem administrado escolas públicas por décadas. Exemplos:

“Educar é tirar de dentro o potencial que todo ser humano tem ao nascer” – Raquel Teixeira

“Há 20 anos o SAEB mostra que não cumprimos nossa missão histórica que é garantir a aprendizagem” – Lucia Couto

“Temos que pensar em entregar autonomia e proteger a educação da captura política” – Ricardo Madeira

“O Brasil tem dificuldade com as palavras “sucesso” e “resultado”, mas os dados provam que, onde há sucesso, é em razão de uma boa gestão” – Francisco Soares (MEC -INEP)

“Se o Brasil quiser seguir nessa forma de provisão da educação pelo Estado, temos que pensar em entregar autonomia e proteger a educação da captura política” – Ricardo Paes de Barros

“O segredo do sucesso parece estar na gestão e no monitoramento das aprendizagens…” -Maria Helena G. Castro da Fundação Seade.

Estas são as tônicas. Há outras falas, mas são “capturadas” por estas falas hegemônicas e retraduzidas para o entendimento de que a gestão nos salvará. Por quê?

Continua no próximo post.

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Goiás e a reforma: assista vídeo

Assista vídeo da Secretária de Educação do Estado de Goias sobre a privatização e outras ações dos reformadores empresariais naquele estado.

Assista também aqui.

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Goiás prepara privatização

A Secretária de Educação do Estado de Goias anunciou dois modelos de terceirização a serem implementados: um para entregar parte da gestão de unidades escolares a uma OS (organização social) e outro para terceirizar serviços escolares não pedagógicos por meio de PPP (parceria público privada).

“Os modelos devem ser colocados em prática como projetos-pilotos já em 2016, segundo Raquel Teixeria, Secretária de Educação do Estado de Goias, que revelou detalhes da ideia nesta quarta feira (8) durante seminário internacional Caminhos para a qualidade da educação pública: gestão escolar, promovido pelo Instituto Unibanco e correalizado pela Folha, em /são Paulo.”

Este mês será lançado o edital para chamamento (note não é licitação) das Organizações Sociais.

“Neste modelo, segundo Teixeira, as vantagens estão em tornar a contratação de docentes mais flexível e transformar o vínculo dos professores temporários menos precário – seriam contratados via CLT e poderiam ter ganhos maiores”.

“A OS vai poder contratar professores e funcionários. Temos 30% de professores temporários, que em algumas regiões vira 60%.”

Você acredita que contratados por CLT e nas mãos de Organizações Sociais, os professores podem “ter ganhos maiores”?

Note: nenhuma discussão sobre a eficácia do modelo que já foi usado em outros países e que não aponta melhoria do ensino. Como se vê, não é ciência: são interesses em jogo. Nada de fazer política pública baseada em evidência empírica. O que se tem é uma desresponsabilização da educação pública e uma reforma fiscal e não educacional, ou seja, redução de custos para o estado e precarização do trabalho dos professores e funcionários.

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RS: privatização avança

A Assembleia de Deputados do Rio Grande do Sul aprovou projeto que promove a privatização do sistema de ensino iniciando processo de transferência de responsabilidade da educação ao empresariado.

“Entre as contribuições previstas no projeto estão a doação de materiais, como equipamentos e livros, e o patrocínio para a manutenção, conservação, reforma e ampliação das escolas. Também prevê a instalação de internet banda larga, de equipamentos de rede wi-fi e de informática, como computadores, notebooks, tabletes, roteadores e antenas de wi-fi, e a realização de palestras com foco didático e pedagógico sobre temas de interesse de alunos e professores. Além disso, o projeto abre a possibilidade de outras contribuições indicadas pela direção das instituições de ensino e consultado o Conselho Escolar.” (Grifos meus.)

Como ressarcimento as empresas podem fazer publicidade nos espaços escolares.

“Ainda segundo a proposta, caberá ao Estado regulamentar a lei quanto à forma e “aos meios do estabelecimento de parcerias e de publicidade.” Ou seja, definir regras mais claras e específicas para tratar dessas questões. A autorização para divulgação publicitária das doações, aliás, foi um dos pontos de discórdia entre a base do governo e deputados de oposição, causando um debate áspero e com ironias. O petista Tarcisio Zimermann chegou a apresentar uma emenda para barrar a veiculação de publicidade nos “espaços próprios das escolas”, mas acabou derrotado.”

No Chile estas parcerias acabaram permitindo que se fizesse publicidade nos próprios materiais didáticos das crianças, financiados por empresas.

“Presidente do Cpers/Sindicato, Helenir Schürer disse que a entidade acompanhará “muito atenta” a implantação da lei, pois teme que o projeto abra caminho para “a privatização” do ensino. “Eu acho que é mais um projeto que vem para atacar a educação”, afirmou a professora, enfatizando que já existe a gestão democrática na rede estadual de ensino. “Vamos organizar a categoria e vamos inviabilizar a lei na prática”, finalizou a presidente do Cpers.”

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MEC anuncia certificação para diretores

O pessoal está estudando a Austrália em um Seminário Internacional sobre gestão escolar promovido pelo Instituto Unibanco e Folha de São Paulo. Tem também a experiência da província de Ontário que foi “escolhida” no Canadá e tem, como não podia deixar de ser, a Inglaterra da Tatcher com suas “escolas livres” – privatização.

Quem acham que enganam, querendo alardear sucessos educacionais na Austrália? Será que o PISA só vale para mostrar que no Brasil estamos na rabeira? Alguém se deu ao trabalho de ver o desempenho da Austrália no PISA? Aqui vai um estudo que mostra como anda o sucesso australiano.

“A Austrália continua a ter altos resultados médios, mas houve quedas significativas em leitura e matemática. A grande parte do declínio na leitura ocorreu entre 2000 e 2006; desde então, a pontuação média tem se mantido estável. Houve uma queda muito significativa na pontuação média em matemática desde 2003, o que equivale a cerca de metade de um ano letivo. Houve um pequeno declínio na ciência entre 2006 e 2012, todas as quais ocorreram entre 2009 e 2012. Houve uma pequena queda na leitura entre 2009 e 2012.”

É suficiente para se ter uma ideia geral.

O estudo também diz que:

“A Austrália esteve mais de meio ano escolar à frente da OCDE em leitura, matemática e ciência em 2000, 2003 e 2006, respectivamente. Em 2012 a vantagem em leitura e matemática diminuiu para menos de metade de um ano escolar.”

“Os grandes declínios em leitura e matemática ocorreram em todos os estados e territórios, exceto Victoria”.

Para que tudo isso em um Seminário Internacional promovido por banqueiros com a participação do MEC? Para criar uma cortina de fumaça e “justificar” aquilo que interessa: privatização, certificação e tudo o mais que já se falou por aqui. Não se trata de ciência. Trata-se de interesses. Portanto, o PISA, neste caso, não conta.

Vem aí Certificação para Diretores, anunciado durante o próprio Seminário.

O MEC (Ministério da Educação) planeja criar um processo de certificação federal de diretores de escolas públicas brasileiras em 2016. A medida foi divulgada pelo secretário de educação básica do MEC, Manuel Palacios, nesta quarta-feira (2) durante o seminário internacional Caminho para a qualidade da educação pública: Gestão Escolar, promovido pelo Instituto Unibanco e correalizado pela Folha, em São Paulo.”

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Janine critica rankings

Em entrevista, Janine alerta para riscos dos ranqueamentos. Não é a primeira vez que ele explicita os limites destes procedimentos. A solução para isto é muito fácil, basta que as avaliações sejam amostrais, para que o problema dos rankings seja resolvido. Monitorar políticas públicas não exige avaliações censitárias e sim amostrais. De quebra, são mais baratas.

Ranking de escolas por nota do Enem não é um bom serviço ao público, diz Janine

Aline Leal – Agência Brasil – 31/08/2015 – Brasília, DF

O ministro da Educação, Renato Janine, disse hoje (31), em entrevista ao jornalista Luiz Nassif, no programa Brasilianas.Org, da TV Brasil, que um ranking feito com as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pelas escolas não é um bom serviço ao público. “Não levem [o ranking] a ferro e fogo”, aconselhou.

Todos os anos, escolas privadas fazem um ranking baseado na nota que cada instituição teve no Enem. Muitas fazem anúncios publicitários com sua posição na lista, para se colocarem como as melhores do mercado. Janine disse que algumas escolas pequenas podem ter notas muito altas, mas elas excluem a maioria dos estudantes tanto pelos preços quanto pela seleção de novos alunos.

O ministro também sustentou que as escolas devem ser inclusivas. “Isso é muito importante para que as pessoas tenham a visão de que o mundo é complexo”, argumentou, complementando que escolas muito pequenas tendem a ter pessoas muito parecidas e que isso prejudica a visão de mundo dos estudantes.

Isso que se diz do ENEM, vale para o IDEB. Ocorre que escolas inclusivas, cobradas e premiadas por IDEB alto, tendem a ser mais e mais excludentes, pois os alunos pobres (e “diferentes”) derrubam as médias e dificultam o recebimento de bônus. Portanto, o ranqueamento, quando é divulgado, o mal já está feito. É preciso evitar a prova censitária associada a premiação (seja simbólica ou em dinheiro).

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Convite para debate na ALESP

Uma leitora do blog divulga que no dia 11 de setembro às 14h30 haverá uma audiência pública solicitada pelo Deputado Carlos Giannazi em nome do Movimento em Defesa das Ciências Humanas, no auditório da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Segundo ela há grande preocupação com a Reforma do Ensino Médio que virá pelo PL 1083/15 e que anuncia na sua Meta 22 a reforma. A sociedade civil não foi ouvida, não se sabe o que o Estado de São Paulo fará com a lei federal 11.684/08 que garante a obrigatoriedade de disciplinas como a sociologia e filosofia no Ensino Médio, na medida em que estas áreas de conhecimento tendem a ser facultativas na nova legislação. O debate vai ocorrer no Plenário José Bonifácio e todos estão convidados.

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New Orleans: mais reformas fracassadas…

Ainda vamos ouvir falar sobre as reformas de New Orleans (USA) aqui no Brasil. Vez por outra, aparece em algum lugar um “milagre educacional” a ser enaltecido pelos reformadores. Lembro-me que há algum tempo o modelo de milagre era Geoffrey Canada e sua HCZ – Harlem Children’s Zone, ao que parece muito mais elaborado que o atual em New Orleans.

Diane Ravitch tem publicado em seu blog uma série de matérias sobre o décimo ano de implantação das reformas pós-furação Katrina que privatizaram o sistema educacional de New Orleans para operadoras terceirizadas do tipo charter.  Há também farta literatura sobre a questão.

Em 2003, a Assembleia Legislativa da Louisiana, estado onde fica New Orleans, uma das maiores cidades deste, criou o Recovery School District (RSD) que permitia que o Estado assumisse as escolas dos distritos com baixo desempenho nos testes (qualquer semelhança com a proposta de Mangabeira em seu texto sobre a Pátria Educadora é mera coincidência).

Em 2005, com o Katrina, a Assembleia Legislativa voltou a agir aprovando a Lei 35 que reduziu o limite de desempenho das escolas em testes a partir do qual uma escola poderia ser assumida pelo Estado para ser reestruturada. Com isso, mais de 100 das 124 escolas acabaram sendo assumidas pelo Estado de Louisiana, configurando um modelo de privatização por terceirização de gestão (escolas charters), após o furação Katrina devastar a região. Boa “colheita” para os lobistas das charters. Hoje New Orleans tem apenas quatro escolas públicas de gestão pública. 92% dos alunos são atendidos por escolas charters. Para o governo, que  tem uma visão positiva da experiência:

“Nos últimos dez anos, a educação pública em Nova Orleans tem visto um crescimento sem precedentes no desempenho dos alunos e tem servido como um modelo nacional para os distritos de recuperação estaduais e práticas inovadoras, de matrícula centralizada.”

Aqui você encontra a versão oficial.

A estratégia tem sido aclamada como modelo nacional e considerada muito importante para o desenvolvimento educacional por lobistas, reformadores empresariais e congêneres ligados à indústria educacional das escolas charters que são as grandes beneficiárias destas medidas que privatizaram a educação em New Orleans quase que totalmente.

No entanto, a primeira questão é que a estratégia dos RSD – Recovery School District, ou seja, a estratégia do estado assumir as escolas de baixo desempenho no estado da Louisiana, não melhorou a posição daquele estado nas avaliações nacionais.

O leve aumento das notas em leitura (de 253 para 257 pontos) e matemática (de 266 para 273 pontos), não melhorou a posição do estado em relação aos demais estados americanos, medido pelo NAEP, o equivalente à nossa Prova Brasil. Ele continuou sendo o 47º em matemática e em leitura caiu de 46º. para 47º. A análise conclui que “os dados sugerem que a reforma educacional controlada privadamente e imposta de cima para baixo a New Orleans, falhou”. Veja estudo completo aqui.

A lógica usada em New Orleans foi incentivada por Milton Friedman, fundador do Instituto Hoover, e tem como princípio o aproveitamento das crises para impor ideias. Esta lógica foi examinada por Naomi Klein em Schock Doutrine e é conhecida por “capitalismo de desastre”. Também já foi denominada de “destruição criativa” para explicar como deve ser encarada a crise econômica quando ela devasta indústrias e trabalhadores, ou até mesmo uma desastre natural como o Katrina.

Foi com este espírito que em 2010 o Ministro de Educação americano Arne Duncan fez uma declaração infeliz dizendo que “a melhor coisa que aconteceu ao sistema educacional de New Orleans” foi o Furação Katrina.

Para um estudo da Rede de Educação Pública – NPE:

“Vamos pôr de lado o fato de que isto é em grande parte uma fantasia. Torture os dados suficientemente e eles podem ser vistos, se alguém quiser muito, como um “milagre de New Orleans”. Apesar dos estudos e relatórios mostrarem o contrário (…).”

O Furação matou 1.800 pessoas e expulsou definitivamente da cidade 100.000 afro-americanos. Mas, segundo a visão positiva do capitalismo de desastre, valeu a pena.

Do ponto de vista dos resultados específicos dos alunos de New Orleans, os resultados dos testes dizem que eles melhoraram.

“No 10º aniversário do Katrina, o RSD está sendo apontado como um modelo nacional. A taxa de conclusão aumentou de 56 por cento para 73 por cento. No ano passado, 63 por cento dos estudantes nas séries 3-8 desempenhou-se no básico ou acima dele nos testes locais, algo em torno de 33% acima em relação aos testes padronizados estaduais”.

No entanto, por outras medidas, o RSD tem problemas. Uma pesquisa realizada pela Rede de Educação Pública (NPE) por pesquisadores da Universidade de Arizona, Francesca López e Amy Olson, revela que comparando as escolas charters do estado de Louisiana, cuja maioria está em New Orleans, com as escolas públicas de Lousiana, em estudo que controla fatores como raça, etnia, pobreza e estudantes com necessidades especiais, usando dados de testes de leitura e matemática da oitava série, o desempenho dos alunos das escolas charters tem pior desempenho do que seus colegas equivalentes nas escolas públicas em torno de 2 a 3 desvios-padrão.

Os pesquisadores descobriram que o fosso entre as escolas charter e o desempenho das escolas públicas em Louisiana foi maior do que em qualquer estado do país. E a pontuação geral da Louisiana foi a quarta mais baixa da nação. Mas, altos ou baixos, estes resultados são apenas parte da história, como revela a reportagem de “In These Times”.

Em uma investigação independente realizada entrevistando professores, pais e estudantes, o que se encontrou foi que:

“Os membros da comunidade lamentaram o fechamento de escolas públicas que serviam como centros no bairro. Os estudantes de escolas charters “no excuses” descreveram que se sentiam como se estivessem em uma prisão. Os professores se sentiam desmoralizados por não terem voz na sala de aula. Os pais queixaram-se de falta de professores negros. Em entrevista após entrevista, as pessoas diziam a mesma coisa: O sistema não coloca as necessidades das crianças em primeiro lugar.”

Para uma reforma que foi feita para “salvar os pobres” da baixa aprendizagem, não parece que os dados estão corroborando as intenções iniciais dos reformadores empresariais. Mas isso também não é novidade. Também o relatório da NEPC, que examina New Orlenas e seu RSD afirma:

“A evidência preliminar, a partir de uma combinação de relatórios e estudos de pesquisa, sugere que as reformas de Nova Orleans beneficiaram desproporcionalmente os alunos mais favorecidos, em relação à maioria dos estudantes em situação de risco e sub-atendidos. À luz destas preocupações, há uma necessidade de mais pesquisas que examinem sistematicamente se as reformas têm realmente alterado a estrutura de oportunidades para os estudantes de baixa renda, de cor, aprendizes da língua inglesa, ou que têm deficiência. Dados os recursos disponíveis e a experiência única de New Orleans, também há dúvidas sobre quão sustentável e replicável seja o modelo de New Orleans, apesar de que muitas cidades estejam adotando reformas semelhantes.”

Se é assim, explicam-se os resultados superiores em testes, puxados pelos melhores alunos e não pelos mais pobres. Além disso, 100 mil negros perderam definitivamente seu espaço na cidade revelando a interferência de processos demográficos nos resultados dos testes. Para os mais afoitos dispostos a copiar New Orleans fica a advertência dos estudos:

“O mais provável é que eles [os aumentos das notas em testes] também reflitam o baixo e vergonhoso ponto de partida anterior ao Katrina, as mudanças demográficas pós-Katrina, a maior taxa de jovens (a terceira do país) fora da escola sem trabalho, o estreitamento curricular e o foco na preparação para o teste e recuperação o que não prepara as crianças para a faculdade e nem para a vida.”

Para Vania Cury da Universidade Federal Fluminense:

“O Katrina fez com que grande parte dos terrenos que foram afetados acabasse resultando na expulsão da população que lá morava originalmente. Essas áreas foram reformuladas com a sua conveniente transformação em bairros de classe média, que foram programados e reconstruídos segundo os interesses do capital imobiliário local e que trouxeram lucros espetaculares.”

Neste processo, o que ocorreu com os estudantes que tinham maior dificuldade e notas mais baixas antes do Katrina? Os pesquisadores indicam em consonância com esta preocupação que ao colocar o sistema sobre controle da iniciativa privada e renunciar à fiscalização das operadoras charter independentes, as autoridades distritais perderam de vista alunos os alunos em risco. Sob a dura pressão para melhorar os números ou encarar o fechamento da escola, as escolas eliminaram alunos e diminuíram as taxas de abandono. A catástrofe pode haver mudado a composição social do entorno das escolas. E com as famílias confusas com um sistema complexo e descentralizado, um contingente considerável de alunos em risco pode ter deixado o sistema sem registro.

Ou seja, mais uma vez, como se vê, não há milagres em educação.

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Mangabeira: novos rumos?

Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, aparece hoje na Folha falando sobre integração produtiva da América do Sul. Para ele o modelo de desenvolvimento ocorrido durante a época de Lula está exaurido.

Eis aí um ponto em que estamos de acordo, finalmente. De fato, apostar na integração regional – como a Unasul – tem sido uma das marcas dos governos progressistas na América Latina, agora sob fogo da retomada neoliberal (junto com apostar em políticas sociais que agora a oposição diz não caber no PIB e quer abortar, ou seja, quer proteger seu lucro com queda do salário médio e aumento de produtividade).

Nesta entrevista à Folha, que não tem nada a ver diretamente com a Educação ou com o Pátria Educadora, Mangabeira deixa transparecer sua “filosofia da crise como instrumento de transformação”, que bem soube aplicar no início do texto que elaborou para o Programa Pátria Educadora. Lá dizia:

“Nossa situação é dramática. Não há outro país entre as maiores economias do mundo que figura, como figura o Brasil, entre os países com pior desempenho nas comparações internacionais. Oito estados brasileiros têm, pelos critérios utilizados nestas comparações, resultados piores do que o último país nos rankings. No final do terceiro ano do ensino médio, mais da metade dos alunos mal consegue ler ou escrever texto simplório. E só pequena porcentagem alcança em matemática nível considerado internacionalmente aceitável.”

A razão disso aparece hoje na Folha em sua entrevista:

“Se não estivéssemos vivendo uma ou múltiplas crises, não estaríamos considerando alternativas. A maior aliada de quem quer transformação é a crise”.

A tese, em verdade, não é dele, mas de Milton Friedman:

“Só uma crise – real ou percebida – provoca mudanças concretas. Quando a crise acontece, as acções que são desenvolvidas dependem das ideias existentes. Essa, creio eu, é a nossa função fundamental: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis, até o politicamente impossível se tornar no politicamente inevitável.”

Como já comentamos neste Blog:

“Foi Friedman quem formulou a tese de que uma pré-condição para ocorrer uma mudança é a existência de uma crise – real ou percebida. Ela tem sido a base de atuação dos reformadores empresariais americanos ao longo de 30 anos.”

A teoria de Friedman permite ampliar a compreensão: ele se refere tanto às reais como às “percebidas” como tal. Vale dizer, ele inclui as crises que, apesar de não existirem realmente, são percebidas dessa forma pelos atores sociais. Neste sentido, elas abrem as portas para a “consideração de alternativas”. Quem produz a crise a ser percebida, já tem a resposta à crise, pois faz parte da própria estratégia.

Foi assim que os reformadores empresariais criaram em 1984 o relatório “A Nation at Risk” nos Estados Unidos, desmontado, infelizmente tarde demais, por Berliner quem mostrou como a tal crise descrita naquele relatório era fabricada. Ver: “The Manufactured Crisis: myths, fraud, and the attack on Americas’s public schools”.

Mangabeira corre o risco de ter seu ministério extinto na reforma de ministérios que se aproxima, ou pelo menos ser anexado a alguém. Não penso que faria muita falta já que seu Ministério se superpõe à ação dos ministérios que tratam de quase todos os assuntos que ele também trata. Vimos isso com clareza por conta da intervenção da SAE nos assuntos educacionais com o texto sobre o Pátria Educadora, onde ele vai muito além de uma recomendação de estratégia para tentar definir até como o professor deve dar aulas na escola.

Mas mesmo em sua preocupação com a estratégia de projetos de integração regional, Mangabeira continua tratando questões educacionais:

“Com o Equador, criar um novo modelo de escola média técnica capaz de priorizar a capacitação exigida pelas novas tecnologias. (…) No Chile, o foco foi educação e o desenho institucional propício ao fomento de empresas de vanguarda”.

Quem está “ensinando” quem (Brasil ou Chile, Brasil ou Equador) não ficou claro.

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SINPRO DF questiona meritocracia

 O 10º Congresso do SINPRO DF questiona a meritocracia. Examinamos hoje no Congresso do Sinpro DF os impactos da meritocracia na organização dos trabalhadores da educação, seja do ponto de vista profissional, seja do ponto de vista organizacional, mostrando como esta políticas são apenas a ponta do iceberg de um conjunto muito maior de políticas públicas destinadas a destruir o ensino público.

Acesse aqui.

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USA: testes em queda livre

Nova pesquisa mostra que o público americano recua e rejeita as políticas dos reformadores baseadas em testes-e-punição. Os dados são da pesquisa anual Gallup/Phi Delta Kappan, publicadas hoje pela organização FairTest. Os resultados são um forte alerta para o INEP e suas políticas de testagem, bem como para grande número de estados que apoiam as políticas de pagamento e ranqueamento com base em testes. Também saem mal na pesquisa as propostas sugeridas por Aécio Neves em seu programa de campanha.

A pesquisa de opinião divulgada conclui:

“os americanos se opõem fortemente ao ranqueamento de alunos, professores e escolas com base em notas de exames padronizados. A pesquisa de 2015 da Phi Delta Kappan/Gallup Poll de “Atitudes do público em relação a Escolas Públicas” é a 47ª pesquisa anual promovida pela revista educacional junto com uma das empresas de enquetes mais experientes do país.

“A pesquisa mostra claramente que a maioria dos americanos estão fartos do uso excessivo obrigatório e indevido de exames padronizados”, explicou Bob Schaeffer, Diretor de Educação Pública do Centro. “O público se opõe ao ranqueamento de estudantes, professores e escolas com base em resultados de testes padronizados.”

O diretor executivo Monty Neill acrescentou:

“Estes resultados são uma forte rejeição da estratégia de testar-e-punir subjacente à lei “No Child Left Behind” e muitas políticas estatais. Os membros do Congresso precisam ouvir os seus eleitores e eliminar de leis federais, tanto o volume de teste como as sanções com base em teste. Legislaturas estaduais também precisam reduzir os testes exagerados.”

Outros resultados da enquete:

  • “Quase dois terços (64%) dos americanos acham que as crianças são submetidas a muitos testes padronizados. Isso é majoritário em todos os principais grupos demográficos (negros, hispânicos e brancos), bem como em todos os partidos (Republicano, Democratas e Independentes) [Pergunta 2].
  • O teste foi o último a ser considerado uma medida precisa da eficácia da escola [Perguntas 3 e 5].
  • A maioria dos alunos se opõe a incluir os resultados dos testes padronizados como parte da avaliação de professores [Pergunta 9].
  • Uma variedade de pais com filhos na escola pública (47%) apoia permitir aos estudantes optar por sair dos testes padronizados [Pergunta 4].”

Veja aqui um resumo da pesquisa.

Veja aqui a pesquisa completa.

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Antonio Gois: política de bônus

Adotada em ao menos 13 estados, avaliações nacionais são poucas e inconclusivas.

“No Brasil, um dos poucos trabalhos já publicados é de autoria de Scorzafave e Cláudia Oshiro. Eles concluíram que, no estado de São Paulo, os bônus geraram ganhos de aprendizado no 5º ano, mas foram nulos no 9º ano, quando os alunos completam o ensino fundamental. Cláudio Ferraz (PUC-RJ) e Barbara Bruns (Banco Mundial) encontraram o oposto ao avaliarem o caso de Pernambuco: impactos positivos no 9º ano, porém nulos no 5º. Para o município do Rio, outro estudo apresentado na reunião da Abave — de Fátima Alves, Gregory Elacqua, Matías Martínez e Humberto Santos — foi também inconclusivo a respeito do impacto da política nas escolas da prefeitura.”

Leia texto completo aqui.

Já apresentamos também uma série de estudos sobre pagamento de bônus. Como já dissemos, bônus é uma política que nunca funciona e nunca morre.

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USA: reformas derrubam formação de professores

Carol Burris informa que há uma grave crise nos Estados Unidos que está afetando o recrutamento de jovens para a profissão de professor e reúne uma série de evidências. Entre elas as apontadas por Eric Westervelt:

“Em vários estados tem havido quedas alarmantes no número de matriculados em programas de formação de professores. Os números são sombrios entre alguns dos maiores formadores de novos professores no pais: na Califórnia, a inscrição é até 53 por cento menor nos últimos cinco anos. E cai agudamente em Nova York e no Texas também. Na Carolina do Norte, a matrícula teve uma queda de quase 20 por cento em três anos.”

California, Nova York e Texas estão entre os Estados americanos que fazem uso pesado das reformas empresariais na educação. A própria Lei de Responsabilidade Educacional americana nasceu no Texas quando Bush era governador do Estado.

As evidências de Burris ainda revelam que no distrito escolar de Rio Rancho no Novo México, em Albuquerque, no início do ano letivo ainda se precisava desesperadamente de professores. Os alunos de 33 salas de aulas foram atendidos por substitutos. Segundo a Superintendente local, Sue Cleveland, é uma tendência que fica pior a cada ano:

“Ela disse que poucos estudantes universitários estão optando pelo campo do ensino e os professores estão se aposentando mais cedo, agravando o problema. Cleveland disse ao conselho que nos primeiros dias do ano letivo de 2010-11, havia sete cargos de ensino vagos. O número tem aumentado todos os anos.”

No Arizona, faltam 1.000 postos de trabalho. Em Nevada a situação não é melhor. Mesmo que todos os estudantes dos cursos de preparação de professores fossem para as salas de aula, ainda não seria suficiente. Só no distrito de Clarke faltam 2.600 professores.

Em Oklahoma, a escassez atingiu proporções de emergência e apelou-se para trazer professores de Puerto Rico e da Espanha como professores bilíngues. O estado é um dos que menos pagam. Em dois anos o número de solicitações para “certificação emergencial” de professores saltou de 97 para 499. Na California a crise também é grande.

Para alguns, esta crise se deve a uma combinação de fatores entre baixa matricula nos cursos de formação e problemas relacionados com a recessão.

No entanto, há mais. Um dos efeitos perniciosos das reformas empresariais da educação baseadas na culpabilização dos professores e dos métodos empresariais  de pressão sobre esta categoria, é o abandono e/ou desestímulo para entrar na carreira de professor.

O que se vê na experiência americana é que o pagamento de bônus que na visão dos reformadores deveria chamar jovens talentosos para a profissão ao receberem diferenciadamente de acordo com seu desempenho, não se concretizou.

Eric Westervelt afirma que:

“Há, é claro, os programas alternativos de certificação de professores em todos os EUA, incluindo a Teach for America. Mas a TFA, também tem tido grandes quedas nas matrículas nos últimos dois anos.”

A TFA é uma ONG que forma professores em seis semanas sustentada com dinheiro que inclui financiamento privado oriundo de Fundações da Família Walton e de Bill Gates. Foi uma forma improvisada de aumentar os quadros de professores para atender a demanda por mais professores e com salários mais baixos. No entanto:

“O grupo [TFA], que tem procurado transformar a educação em estreito alinhamento com o movimento das escolas charters, alertou as escolas que o tamanho de seu corpo docente poderia cair em até um quarto e fechou dois dos seus oito centros de formação nacional de verão, situados em Nova York e Los Angeles.”

Com as políticas dos reformadores, os professores são acusados de não ensinar seus alunos a despeito das condições externas e internas de funcionamento das escolas, sendo submetidos a toda sorte de recriminações públicas na mídia e a métodos de controle que cada vez mais engessam seu trabalho e o desqualificam.

Nosso post recente sobre a situação do Estado de Pernambuco é um exemplo. Alí recuperou-se um degradante “diário de classe” agora em formato eletrônico. Nos Estados Unidos os professores convivem com tais situações há mais tempo. Se as metas não são atingidas, professores são demitidos, escolas fechadas ou terceirizadas para a iniciativa privada. Os impactos vão se estabelecendo: diminui o interesse nacional pelo ingresso na profissão de professor, pais retiram seus filhos dos exames nacionais de larga escala, gestores advertem para os graves efeitos colaterais das medidas.

Há vários fatores que conduziram a esta situação. As opiniões, no entanto, colocam grande responsabilidade por esta situação nas reformas empresariais da educação. Carol Burris, da Rede em Defesa da Escola Pública, afirma em seu relatório que:

“No início deste ano, a NPR também informou sobre a escassez nacional de professores. A identificação da causa feita por Eric Westervelt vai além da suspeita habitual – a economia. Observando a queda dramática no número de matrículas em programas de formação de professores (uma queda de 74% em menos de 10 anos na Califórnia), ele astutamente atribuiu o problema, pelo menos em parte, à forma como as reformas empresariais têm impactado a profissão.

Westervelt, relata que a Base Comum (Common Core) e suas batalhas; os testes de alto impacto, a erosão da estabilidade, bem como a avaliação dos professores por pontuação de testes, têm contribuído para a crise.

Isto não é nenhuma surpresa para aqueles que estão na profissão. David Gamberg é o superintendente dos distritos Greenport e Southold no extremo leste de Long Island. Ele está muito preocupado com o fato de que o ambiente político hostil em relação aos professores está contribuindo para a escassez de profissionais que estamos vendo hoje. “Eu suspeito que uma série de questões conspiram para agravar o problema. Certamente, o ataque nacional em curso contra os professores e sindicatos está perto ou no topo da lista dos fatores que afasta as pessoas “.

O que Gamberg suspeita está de acordo com a evidência. Há histórias frequentes sobre professores de escolas públicas que estão deixando a profissão ou aposentando-se antecipadamente por causa das barreiras ao trabalho em um ambiente de “teste e punição”. Uma pesquisa da NEA de novembro reporta que cerca de 50% de todos os professores estão considerando sair da profissão devido a testes padronizados. Igualmente preocupante é a frequência com que os educadores estão desestimulando os jovens a ingressar na profissão.”

E conclui:

“Se queremos mudar essa tendência, precisamos agir agora não só para parar os ataques contra os professores e a estabilidade no trabalho, mas também parar com os sistemas de avaliação destinados a demitir professores baseados em métricas que ninguém entende. E não podemos esquecer a questão de remuneração e condições de trabalho.

É tempo de que os responsáveis políticos voltem atrás e tracem uma rota diferente. Não faz sentido agarrar-se a reformas falidas. Quando as aulas começam, estudantes de todo o país pagam um preço elevado.”

No Brasil constrói-se no INEP o sistema de credenciamento de professores, disfarçado de Prova Nacional de Concurso. Ao mesmo tempo, ampliam-se as perspectivas de se fazer cada vez mais uso das ideias dos reformadores empresariais na educação. Poderemos ter também a liberação no futuro da formação de professores para ONGs, seguindo o caminho da TFA que mencionamos acima, com a justificativa de que para exercer a profissão precisará fazer a prova de credenciamento. Se passa, então está apto, não importando onde foi formado. Tudo isso já foi aplicado, não melhorou a educação e gerou mais problemas colaterais do que solução.

As consequências negativas das políticas de pressão sobre professores a partir de estratégias formuladas pelos reformadores empresariais estão cada vez mais claras. É hora de pensarmos se este é o caminho que de fato queremos para a educação brasileira.

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Pernambuco: atraso pedagógico inédito

É surpreendente que um dos Estados destacados do nordeste (que nos brindou com um dos mestres mais respeitados mundialmente, Paulo Freire) esteja sendo vítima de um grave atraso pedagógico que marcará gerações de professores e estudantes. O site da Secretaria da Educação do Estado de Pernambuco divulgou um novo sistema de controle da atividade didática do professor e de registro de frequência dos alunos. Trata-se da recriação de procedimentos de controle que já se julgavam superados desde que o tecnicismo pedagógico perdeu força ainda nos anos 70. Chamam-no de “Sistema de Fortalecimento das Aprendizagens”:

“A ação de Fortalecimento das Aprendizagens tem como principal objetivo apoiar os estudantes do ensino fundamental, anos finais, e do ensino médio da Rede a fim de que os mesmos melhorem seu desempenho escolar e superem as principais dificuldades referentes à aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática.

Cabe, portanto, ao professor do Fortalecimento das Aprendizagens identificar as principais dificuldades da sua turma, analisar os resultados do desempenho com o objetivo de promover intervenções pedagógicas adequadas, além de articular as atividades desenvolvidas nas aulas aos conteúdos, descritores que os estudantes demonstram ter dificuldades e os documentos curriculares.”

O sistema é todo informatizado. O manual para o professor pode ser acessado aqui. Uma tela de consulta permite ao professor baixar todos os instrumentos de controle didático que vão desde os Cadernos metodológicos para matemática e português (fundamental e médio), bem como o conteúdo por bimestre, padrões de desempenho, parâmetros curriculares e parâmetros para a sala de aula. As aulas são todas registradas no sistema, uma a uma, com data e número de identificação, bem como escola, turma e série. É na verdade a recriação do antigo “diário de classe” em sua forma eletrônica.

Este é o grau de refinamento que devemos esperar doravante sobre o professor, alunos e o ambiente da sala de aula, motivados por uma grande corrida para nenhum lugar. Trata-se de um sistema que interage com o professor como se ele fosse medíocre e irresponsável, predefinindo sua atuação. Desqualifica-o e o transforma em um mero seguidor de instruções. Não deve pensar.

O que temos é uma máquina de preparar para as provas com o nome de Fortalecimento de Aprendizagens em Português e Matemática. Nem o maior e mais radical tecnicista dos anos 70 imaginaria um grau de controle tão elevado sobre a atividade docente como o atualmente em curso na Secretaria da Educação de Pernambuco.

Trata-se o ensino e a aprendizagem como uma linha de produção na qual o professor é um mero instrumento de obtenção de padrões previamente definidos para a sala de aula, num momento em que países já se preparam para dar saltos pedagógicos muito mais arrojados baseados no ensino por áreas ou “ensino por conjunto de fenômenos”.

Corre-se em Pernambuco, atrás da elevação de médias de desempenho em duas disciplinas como se isto fosse sinônimo de boa educação, um atraso que se imporá a gerações e gerações de estudantes pernambucanos.

À medida em que as teses dos reformadores empresariais forem sendo convertidas em legislação de responsabilização, estas ações deverão explodir, apoiadas pela atuação do mercado de empresas da área educacional e de políticos ávidos para exibir nos programas eleitorais da mídia a melhora nas médias de português e matemática – não importa se às custas do emburrecimento de professores e estudantes.

Quando esta onda passar, no futuro, tais procedimentos provocarão muita risada, mas neste momento, não há nada de divertido nesta reinvenção do taylorismo pedagógico pernambucano. E logo na terra de Paulo Freire.

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Condições das escolas: também uma desculpa?

Um grupo criativo de pesquisadores aplicou a TRI – teoria da resposta ao item –  no cálculo da “proficiência” da infraestrutura das escolas brasileiras com informações do Censo Escolar da Educação Básica de 2011. Pouco divulgado, ele foi publicado em 2013. Participaram do estudo Dalton Francisco de Andrade, um dos maiores pesquisadores da TRI no Brasil; Joaquim José Soares Neto, ex-presidente do INEP; Girlene Ribeiro de Jesus e Camila Akemi Karino.

O que se constatou foi que apenas 14,9% das escolas brasileiras têm infraestrutura adequada para o ensino, ou seja, as escolas deste nível, em geral, possuem uma infraestrutura mais completa do que os níveis anteriores (elementar e básica), o que permite um ambiente mais propício para o ensino e aprendizagem. Essas escolas possuem, por exemplo, espaços como sala de professores, biblioteca, laboratório de informática e sanitário para educação infantil. Há também espaços que permitem o convício social e o desenvolvimento motor, tais como quadra esportiva e parque infantil. Além disso, são escolas que possuem equipamentos complementares como copiadora e acesso  à internet.

O estudo ainda constatou que somente 0,6% tem um estrutura considerada avançada, ou seja, as escolas neste nível, além dos itens presentes nos níveis anteriores, possuem uma infraestrutura escolar mais robusta e mais próxima do ideal, com a presença de laboratório de ciências e dependências adequadas para atender estudantes com necessidades especiais. Veja resumo do estudo abaixo.

“Promover a educação requer a garantia de um ambiente com condições para que a aprendizagem possa ocorrer. É importante proporcionar um ambiente físico, aqui denominado infraestrutura escolar, que estimule e viabilize o aprendizado, além de favorecer as interações humanas. Este artigo apresenta uma escala de infraestrutura escolar que foi construída utilizando como ferramenta a Teoria de Resposta ao Item e baseando-se em informações referentes às escolas obtidas no Censo Escolar da Educação Básica 2011. Foram estabelecidas quatro categorias: Elementar, Básica, Adequada e Avançada. Com base na escala, foi feita uma análise comparativa da infraestrutura escolar por região do país e por dependência administrativa. Acreditamos que os resultados obtidos podem ser úteis para orientar as políticas públicas de educação e para fundamentar estudos futuros sobre o impacto das condições materiais das escolas na qualidade do ensino.”

Baixe aqui o estudo completo.

O estudo é o melhor antidoto para estas falas feitas por reformadores dizendo que não falta dinheiro na educação, e sim falta gestão, empenho dos profissionais da educação. Recentemente, Viviane Senna defendeu ser uma desculpa considerar a interferência da pobreza na aprendizagem.

Agora estamos vendo também que é nestas condições das escolas que se pretende intensificar a pressão sobre os professores, estudantes e gestores com processos meritocráticos.

Não bastam os efeitos negativos das condições de vida dos estudantes fora das escolas, somam-se a estas as condições internas de infraestrutura das escolas brasileiras. Isto também é desculpa?

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Nenhuma consultoria para trás

Nos Estados Unidos há uma lei que se chama “Nenhuma Criança deixada para Trás”. A ideia foi obrigar as escolas a ensinar todas as crianças. Não funcionou e acabou virando chacota. Uma destas é ser chamada de “Nenhuma Consultoria deixada para Trás”. Isso porque, apesar de não ter funcionado com as escolas, serviu para engordar o orçamento de uma série de empresas educacionais que operam com consultoria educacional e avaliação.

No Brasil, este movimento está começando. Mostrei aqui em alguns posts recentes como uma série de personagens que passaram pelo governo, estão agora, fora dele, defendendo a privatização. Vários personagens da história da implementação de políticas de responsabilização no Brasil, quando deixam o governo, temos depois aparecem em empresas de assessoria educacional, Institutos etc. No governo, difundem e criam formas de fixar suas ideias privatizantes e criar mercado educacional, fora do governo, integram o corpo diretivo e acadêmico de empresas privadas educacionais.

Algo semelhante acontece também com o setor financeiro e até se criou uma regra chamada de “quarentena” que obriga as pessoas que saem deste setor a não integrar nenhuma empresa por um determinado período (curto) de tempo. Não serve para nada, mas atesta a preocupação.

Além de Ricardo Paes de Barros, hoje no Instituto Airton Senna, e que mencionei em post anterior, é o caso de outros dois personagens que ocuparam cargos no INEP e que hoje estão ligados a empresas. Um deles, Reynaldo Fernandes, conhecido como mentor do IDEB, recentemente apareceu defendendo as Escolas Charters e a privatização. Entre 2005 a 2009, Reynaldo foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), no Ministério da Educação e implantou o IDEB para as escolas públicas. Atualmente, ao mesmo tempo em que defende a privatização, pertence à iniciativa privada educacional. O outro é Amaury Gremaud que à época em que Reynaldo ocupava a Presidência do INEP, era Diretor de Avaliação da Educação Básica entre 2006 e 2008, portanto também trabalhou na implantação do IDEB.

Estes dois últimos, hoje, compõem o quadro da empresa de assessoria educacional chamada METAS avaliação e proposição de políticas sociais:

“A METAS elabora e avalia políticas sociais. Dispõe de produtos desenvolvidos internamente e customizados de acordo com o cliente, bem como atende às demandas de projetos personalizados para as necessidades de cada cliente. A empresa inova o conceito de consultoria na área de economia. O foco de atuação está em temas como educação, saúde, violência e desenvolvimento urbano.”

Note: não há nada demais em ser da iniciativa privada e defender tais ideias. Isso não diminui em nada estas pessoas. É uma atividade legítima. Mas é claro que têm uma visão de mundo e uma experiência que está muito distante da problemática diária das escolas públicas. São economistas, estatísticos entre outros e não profissionais da educação com experiência na área. E um detalhe: não sabem ouvir.  Suas ideias quando estão no governo, queiramos ou não, contribuem para criar um mercado educacional que depois é atendido por empresas privadas.

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Falta de verba cancela a ANA

Preferiram cancelar a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) que tem formato censitário (ou seja, é aplicada a todas as escolas) a fazê-la amostral (ou seja aplicada a um grupo de escolas menor mas representativo). Seria muito mais barato. As avaliações da educação básica não precisam ser censitárias (e caras) para orientar política pública. Basta que se façam avaliações amostrais e pode-se perfeitamente, com isso, ter uma ideia adequada de como está o desenvolvimento da educação básica.

Ocorre que em seu formato amostral, não se pode fazer rankings de escolas e nem controlar as escolas uma a uma, com políticas de responsabilização. Para este propósito, só fazendo avaliação censitária. E como a opção é pelo controle, então não se aceitam avaliações amostrais no INEP. Por falta de verbas, o governo preferiu cancelar a avaliação e ficar sem nenhum parâmetro, a ter uma avaliação amostral. O INEP, órgão que deveria assessorar o MEC nestas decisões, preferiu não abrir precedentes e ser fiel à sua opção pelas políticas de responsabilização verticais.

A atual política do INEP é a da construção de “big data” na forma de portais que tentam interferir com a sala de aula nas escolas. Um exemplo pode ser encontrado aqui com o portal da devolutiva, financiado pela Fundação Lemann e outras.

Este tipo de portal voltado para plataformas que querem interferir com o planejamento pedagógico de professores e a aprendizagem dos alunos nas salas de aula, exige que se façam avaliações censitárias. A ilusão destes portais é que a explicação dada por peritos em avaliação possa levar compreensão à realidade da sala de aula do professor. Parte-se da premissa que ele é incompetente para conhecer seus alunos sem a avaliação e a explicação dadas pelos portais. A título de fornecer ajuda, o que se pretende garantir é o controle de cada escola e de cada professor.

No entanto, ninguém melhor do que o professor para saber do desempenho de seus estudantes e dos problemas que afetam a aprendizagem deles. A questão não está no conhecimento dos problemas dos estudantes, isso os professores sabem, mas nos meios que os professores dispõem para solucioná-los. Estes últimos, o INEP não tem como afetar.

Portanto, as avaliações não precisam ser censitárias, a menos que queiramos estabelecer processos de cobrança através de portais, rankings e outras ações de responsabilização vertical.

Brasília precisa se convencer de que não é possível entender o que ocorre nas escolas sem que se esteja no ambiente delas. Perde-se dinheiro com estas políticas de avaliação censitárias. Em tempos de “vacas magras” isso apenas fica mais evidente.

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Preparando para testes

Um dos efeitos dramáticos dos exames externos sobre a escola (ENEM, Prova Brasil, etc.) é o tempo roubado do ensino e destinado ao treinamento para provas. O aspecto formativo cede espaço (e dinheiro) para simples treino com finalidade de se sair bem nos testes. Os testes medem mais esta preparação do que o próprio conhecimento do aluno – além, é claro, de seu posicionamento social.

Como relatam duas reportagens, nas escolas particulares isso já é realidade. Em uma delas se lê que estas escolas contratam corretores externos para analisar as redações escolares de seus alunos.

“O Colégio Pentágono, em Perdizes, zona oeste da capital, é um dos que contratam corretores externos para tornar a análise mais próxima do que acontece no exame real. “Quando o próprio professor avalia, há um vínculo afetivo com o aluno. Se chamamos uma pessoa de fora, a correção fica mais isenta”, explica o diretor pedagógico, Cláudio Giardino”.

Como fica a relação entre professores e estudantes ante as correções que foram feitas pelos corretores externos? Certamente, nesta filosofia competitiva, isso não conta. A correção externa funciona também como um parâmetro da “qualidade do professor” da escola e até mesmo como critério de sua permanência nela.

Em outra se lê como a preparação para testes se dá no Colégio Pio XII:

“Fazemos levantamentos estatísticos de todos os simulados”, afirma Alexandre Antonello, coordenador pedagógico da escola. Além de detectar os prontos fracos da turma, o professor consegue dar atendimento mais personalizado. Com os resultados, ele pode exigir mais nas competências em que o aluno não foi bem.”

“O colégio também tenta reproduzir essa tensão. Além de redações feitas em casa, há textos para escrever em classe, com prazo semelhante ao do “dia D”. “O mais difícil é a pressão do tempo” opina Isabella Dias, de 17 anos, do 3º. Ano do ensino médio. Neste semestre, a escola também iniciou aula extra de redação, dada por uma professora com experiência em correção profissional.”

Toda esta competitividade, certamente louvada pelos pais que colocam seus filhos nestes colégios, cria um ambiente de alta tensão para os jovens – seja na escola, seja em casa.

Como adequadamente afirma Rosely Sayão em sua coluna:

“Já faz tempo que temos estudos que afirmam que a avaliação dos alunos é um processo complexo, mas mesmo assim continuamos a aplicar provas, dar trabalho, aplicar mais provas, e desde muito cedo. Crianças com menos de seis anos (!) já realizam provas nas escolas que frequentam. E os pais, apoiam, caro leitor, porque foram convencidos de que provas ajudam a acelerar o aprendizado.”

“Com o reinício das aulas, é bom que os pais pensem sobre isso e entendam que as provas são produtoras de estresse e ansiedade, e não de aprendizado.”

Uma parcela dos pais americanos, como mostramos em post anterior, já entendeu isso e está retirando seus filhos das provas de alto impacto e de larga escala nos Estados Unidos.

É preciso deter esta corrida para lugar nenhum…

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Educação infantil: adoecendo com a “idade certa”

Há uma febre para que as nossas crianças “aprendam na idade certa”. A “idade certa” é definida como aquela que os organizadores de currículos, reformadores empresariais e alguns pais fixam, à revelia da evidência científica disponível, e que arbitrariamente determina um tempo fixo para “assegurar os direitos de aprendizagem” das crianças.

Isso induz a antecipação da escolarização nas escolas infantis e, pior, coloca como critério de êxito a idade e não o desenvolvimento particular de cada criança. Sob pressão da meritocracia, os professores são estimulados a “puxar” as crianças segundo patamares uniformes, construídos sem base empírica consistente, em muitos casos expressos em materiais apostilados de ritmo único. Um verdadeiro massacre.

Um livro recentemente publicado nos Estados Unidos vem contrariar esta tendência e confirmar as preocupações dos professores da educação infantil com relação a estas pressões sobre as crianças e é contundente em mostrar que acelerar a educação das crianças em idades precoces pode ser problemático.

O novo livro é escrito por Stephen Camarata (The Intuitive Parent: Why the Best Thing for Your Child Is You) e acaba de ser publicado. Examina a pesquisa na área e afirma que acelerar o desenvolvimento das crianças precocemente é contraproducente podendo produzir transtornos de déficit de atenção.

Para o autor:

“Dada a mania de empurrar as crianças para aprender mais e mais conceitos complexos e em idades mais precoces, você pensaria que certamente deve haver uma vasta literatura científica que apoie estes esforços. Não só não existem tais dados, mas um conjunto emergente de pesquisas indica que as tentativas de acelerar o desenvolvimento intelectual são, na verdade, contraproducentes.”

O autor ainda acha que existem duas dificuldades principais que os pais devem considerar na educação moderna: 1) um currículo cada vez mais irracional, acelerado, com pressões para que as crianças aprendam e pais pragmáticos que querem ensiná-las muito antes de que suas mentes em desenvolvimento estejam prontas; e 2) um processo do tipo “uma mesma medida para todos”, como uma linha de montagem, com base no nível de idade, em vez de considerar o nível de desenvolvimento. Um claro alerta para os adeptos da “aprendizagem na idade certa“.

Nada de novo para os professores que trabalham na educação infantil. Mas algo não levado em conta por pais ansiosos de criar super-cérebros e por reformadores empresariais que apostam na corrida para o topo como forma de aumentar a qualidade da educação.

O Estadão também veicula matéria que destaca a necessidade das crianças terem tempo livre para brincar. Embora a matéria não faça uma crítica à antecipação da escolarização, os depoimentos apresentados caminham nesta direção. Os educadores consultados alertam:

“Nas escolas, predomina a ideia do ensino centrado no professor e as brincadeiras livres costumam ser vistas como lazer, ignorando seu valor na promoção de importantes aprendizagens, ainda que fora do menu pedagógico.”

“Principalmente em relação às crianças de 5 anos, os pais ficam muito ansiosos de que eles estejam lendo e escrevendo. Precisamos de reuniões extras para que eles diminuam essa ansiedade”, explica Liliane. “Quando elas brincam, aprendem a resolver os problemas. E essa é a meta da vida.”

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SNE: mais projetos

Há algumas semanas divulgamos dois projetos em disputa pela definição do que será o Sistema Nacional de Educação (SNE) que regulamentará o artigo 23 da Constituição.

Acesse aqui o projeto do MEC/SASE

Acesse aqui o projeto da SAE

Naquele momento, achávamos que não havia outra proposta formatada. No entanto, fomos alertados para outro projeto que já tramita no Congresso sob número 413, iniciado em 2014 e de autoria do Deputado Ságuas Moraes (PT-MT).

Baixe aqui o projeto 413/2014.

A inclusão da regulamentação do artigo 23 da Constituição na Agenda Brasil em configuração no Senado, coloca em perspectiva uma luta bastante difícil para a matéria, já que sua tramitação se dará – pelo que se infere dos propósitos da Agenda Brasil – de forma célere.

Não está descartado que a proposta da SAE, feita no âmbito do Pátria Educadora, ingresse como alternativa para a definição do sistema nacional de educação e nos debates roube a cena durante a tramitação apoiada em alas conservadoras do Congresso.

No site do Deputado Ságuas pode-se ler:

“O Projeto de Lei Complementar – PLP nº 413/2014, apresentado pelo deputado federal reeleito Ságuas Moraes (PT) em 22 de julho deste ano, a partir de sugestão do professor e ex-deputado federal Carlos Abicalil (PT), tem como propósito responder especificamente as disposições do artigo 23 da Constituição Federal, acelerada agora pela recente sanção da Lei nº 13.005/2014, que estabelece o Plano Nacional de Educação (PNE). O Plano aprovado pelo Congresso Nacional em maio deste ano foi sancionado no mês seguinte pela presidenta Dilma Rousseff (PT).

O PLP estabelece normas de cooperação federativa entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, e entre os Estados e os Municípios, para garantia dos meios de acesso à educação pública básica e superior regida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

No último dia 29 de outubro, o deputado federal Glauber Braga (PSB-RJ) foi designado, pela Comissão de Educação (CE), como relator do PLP 413/2014 e será responsável por preparar um parecer sobre o Projeto. A proposição será analisada, ainda, em regime de prioridade, pelas Comissões de Finanças e Tributação (CFT) e por último, antes de seguir para o Plenário, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC).”

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Nova York: pais resistem aos testes

Carolyn Thompson informa que cerca de 20% dos estudantes do terceiro ao oitavo ano de escolaridade do Estado de Nova York recusaram-se a fazer os testes estaduais de Inglês e Matemática. A informação é da Secretaria da Educação do Estado que divulgou os resultados da última avaliação realizada. As pontuações tiveram apenas um ligeiro aumento no desempenho global dos estudantes.

Em números, foram 900 mil alunos que fizeram o teste e 200 mil que se recusaram a fazer o teste, valendo-se da lei “opt out” que permite que os pais determinem se os filhos devem ou não realizar testes de larga escala. O resultado dos “opt outs” foi considerado um sucesso para os movimentos de resistência aos testes dentro dos Estados Unidos que consideram que há excessiva dependência de testes no estado.

No ano anterior, houve apenas 5% de “opt outs” o qual saltou, agora, para 20%.

Impedir os filhos de fazer testes é uma estratégia de luta desenvolvida pelos movimentos de resistência bastante efetiva, pois quando grandes quantidades de alunos deixam os testes, isso afeta os próprios resultados apurados pelo exame para o conjunto da rede. No caso específico, os estudantes que se recusaram a fazer o exame eram alunos que não tinham as notas mais baixas o que, portanto, acaba derrubando as médias apuradas nos testes, pois ficam fora. Criam portanto distorções nos resultados.

Para Karen Magee, Presidente da Associação de Professores do Estado:

“As notas dos alunos em testes que já são mal elaborados pela Pearson e inadequados do ponto de vista do desenvolvimento das crianças, em um ano em que um número recorde de pais repudiou o programa de testes padronizados do estado ficando fora dele, não valem o papel em que estão impressas”.

Eis aí uma forma de luta para a qual devemos nos preparar.

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Chile questiona sua “Prova Brasil”

Aplicando algo semelhante à nossa Prova Brasil, ainda que a um número maior de disciplinas, o Chile está questionando sua principal avaliação do ensino básico: o SIMCE. As opiniões são variadas.

Para os críticos a avaliação deveria ser amostral e não censitária. Eles também elencam os efeitos nefastos que a avaliação censitária gerou ao longo de seus 27 anos de aplicação: como sua associação a premiações, pressões sobre as escolas e outras. Aplicada anualmente no 2º., 4º., 6º. e 8º. anos do ensino fundamental e nos 3º. e 4º. anos do ensino médio, há quem defenda que se deva diminuir a sua frequência.

“Quando os resultados são associados a consequências tão severas, a evidência nacional e internacional reporta efeitos não desejados, como estabelecimentos que deixam de ensinar disciplinas que não são medidas, excluem os estudantes com maior desvantagem acadêmica ou em desvantagem sociocultural e se focam somente em um grupo minoritário de estudantes. Isto inflaciona as notas no curto prazo à custa de um empobrecimento da qualidade educativa a médio e longo prazo”, adverte Bernardita Muñoz, psicóloga educacional cuja pesquisa doutoral na Universidade de Bristol (Inglaterra) concentrou-se em medidas para avaliar de maneira mais justa a efetividade dos estabelecimentos secundários no Chile.”

No Brasil, há quem queira que a nossa Prova Brasil passe a ser anual, associada a repasse de recursos etc., na contramão desta argumentação, portanto.

Para os defensores do SINCE atual, há que mantê-la censitária pois é importante influenciar a sala de aula. A argumentação já deixa claro a que serve a avaliação censitária: controlar a sala de aula e o professor.

Em nossa opinião, a avaliação da educação básica no Brasil deveria ser amostral (como aliás já foi no tempo do SAEB no Brasil, quando a ideia não era responsabilizar escolas e professores). A Finlândia não faz avaliação censitária e dizem que vai muito bem. De fato, a avaliação amostral casaria muito melhor com as ideias que tem defendido o atual Ministro da Educação no Brasil.

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USA: o caso Lederman

Diane Ravitch relata em seu blog a situação de educadores americanos pressionados por decisões arbitrárias das Secretarias de Educação nos sistemas de avaliação por cálculo de valor agregado em uso no país.

A professora Sheri Lederman foi julgada pela Secretaria de Educação do Estado de Nova York como uma professora “ineficaz”, a partir de cálculos de valor agregado baseado nos resultados de testes aplicados a seus alunos. Ela é uma professora excepcional em um bairro de alto desempenho e quando soube de sua classificação não gostou nada. Nos cálculos do ano anterior ela fez 14 dos 20 pontos possíveis na avaliação e um ano depois caiu para 1 na mesma escala de 20 pontos.

Ocorre que é casada com um advogado, o qual resolveu comprar uma briga com o Estado de Nova York. Foi à justiça. Reuniu depoimentos de especialistas em avaliação, estudantes, professores e de seu diretor.

De acordo com Carol Burris que assistiu ao julgamento, o juiz reconheceu que não fazia sentido classificar os professores em uma curva normal. Burris relata:

“Ele entendeu que o sistema de cálculo de valor agregado da Secretaria de Educação fixou artificialmente em 7% a porcentagem de professores “ineficazes”. Não é subjetivo? Indagou.

“Será que seus alunos não aprenderam nada?” – perguntou o juiz McDonough. “Como pode ser que ela tenha caído de 14 pontos para 1 na escala de 20 pontos possíveis em um ano?” Ele observou que as pontuações dos estudantes foram muito boas e não tão diferentes do ano anterior.”

“Quando o advogado da Secretaria tentou explicar mais uma vez, o juiz disse: “É aí que reside a imprecisão desta medida.”

Burris ainda escreve que:

“Na sua essência, esta história é uma história de amor. É a história de um professor que ama seus alunos, sua profissão e a justiça tanto que ela está disposta a levantar-se e deixar o mundo saber que ela era “um ponto fora de curva” com uma pontuação “ineficaz”.

“Foi o amor que obrigou os professores, aposentados e ativos, virem de todos os cantos do estado para estar naquele tribunal em um dia de verão quente. Foi o amor que levou o diretor da escola a dirigir até Albany para estar lá. Foi o amor profundo e duradouro de um marido para sua esposa que obrigou Bruce Lederman a passar inúmeras horas preparando uma defesa extraordinária. E é o amor que nutre e sustenta a boa escola, e não predições de pontuação avatares para o desempenho nos testes da base nacional comum”.

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Política de formação: entidades se manifestam

Um conjunto de entidades da área educacional encaminhou recentemente documento ao Ministério da Educação onde explicita seu entendimento sobre a política nacional de formação de professores da educação básica.

Em nome das entidades de estudos e pesquisa da Educação: Anfope, Anpae, Anped, Cedes, Forumdir vimos à presença de Vossa Senhoria para encaminhar ao Ministério da Educação documento que apresenta CONSIDERAÇÕES SOBRE A PROPOSTA DE POLÍTICA NACIONAL de formação dos profissionais da educação básica.

Baixe a íntegra do documento aqui.

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MEC enfrenta a responsabilização autoritária

Em nova entrevista, Janine Ribeiro, Ministro da Educação, contraria novamente as teses dos reformadores ávidos por responsabilizar gestores da educação pela queda no IDEB e abrir caminho para mais privatização da educação pública.

Está em tramitação no Congresso a Lei de Responsabilidade Educacional brasileira, baseada em um texto inicial de Raquel Teixeira, do PSDB, protocolado em 2006. A iniciativa tenta replicar a Lei de Responsabilidade Educacional americana, a qual, diga-se de passagem, não surtiu os efeitos educacionais na aprendizagem dos estudantes como foi alardeado que o faria pelos reformadores americanos. No entanto, esta lei foi decisiva para acelerar os processos de privatização da educação americana com fechamento de escolas que passaram, com apoio da lei de responsabilização, para a iniciativa privada na forma de escolas charters.

Para Janine:

“O erro que a gente comete é pensar que o Ideb ruim é fruto apenas da rede educacional. Quando o Ideb é muito baixo, a cidade tem saúde ruim, pouco acesso a empregos. Todos os indicadores negativos andam juntos, assim como os positivos. Não adianta querer responsabilizar só o educador. Tudo está junto”.”

O desempenho do governo no debate da Lei de Responsabilidade Educacional em trâmite no Congresso já havia sido muito bom como mostra resumo feito pela Agência Câmara de Notícias:

“Participantes de audiência pública criticaram os critérios de responsabilização de gestores no desempenho educacional dos alunos. Nesta quarta-feira, a comissão especial que analisa a proposta (PL7420/06) da lei de responsabilidade educacional se reuniu para debater o tema.

O principal ponto defendido pelos representantes do Ministério da Educação, dos secretários de Educação e da Confederação Nacional dos Municípios é que a responsabilização não seja feita somente com base no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), como prevê o projeto.”

Ainda segundo a Agência Câmara de Notícias:

“A consultora na Área de Educação da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Mariza Abreu, afirmou que é injusto penalizar os gestores com base nas notas dos alunos. “A responsabilidade do governador e do prefeito é, por exemplo, gastar o que tem que gastar em educação. Aplicar os mínimos constitucionais, cumprir os requisitos da legislação do Fundeb, garantir o número de professores necessários; mas a cabeça do aluno, a aprendizagem lá na ponta, tem muitos outros fatores que intervêm sobre os quais o governador e o prefeito não têm controle.”

O secretário de Articulação com os Sistemas de Ensino do Ministério da Educação (MEC), Binho Marques, afirmou que é favorável à responsabilização, mas por meio de outro índice que não seja o Ideb. Na opinião do secretário, se for realizada dessa forma, os gestores podem ser punidos injustamente.

Esta mesma situação pode ocorrer com os diretores e professores das escolas que, em cascata, serão penalizados pelos prefeitos e secretários de educação. Não há que se esquecer que o documento Pátria Educadora da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República quer demitir os diretores das escolas.

Para o Secretário da SASE:

“… já existe legislação suficiente para punir os maus gestores. Ele defende a regulamentação do artigo 23 da Constituição Federal. “Que é exatamente aquele que fala que a educação é uma responsabilidade conjunta. É preciso definir melhor o que faz exatamente o governo federal, os governos estaduais e os governos municipais. Quando for regulamentado o artigo 23, teremos exatamente qual a responsabilidade. Como vamos responsabilizar, se a responsabilidade não está definida?”

Por sua vez, o relator da Comissão Especial, deputado Bacelar (PTN-BA) afirmou que

“… é preciso responsabilizar as pessoas e os entes federados que não estão trabalhando para a melhoria da qualidade na educação. “Não vamos aqui fixar metas ou índices para o País como um todo, para todos os cinco mil municípios, mas há alguns parâmetros que precisam ser considerados, como a universalização do acesso, o sucesso nas etapas de alfabetização, a execução do Plano Nacional de Educação. Enfim, o Ideb é um parâmetro, mas não é o único parâmetro.””

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Agenda Brasil: novo trem da alegria

Um verdadeiro trem da alegria de propostas liberais está caminhando no Congresso. Em nova ampliação da Agenda Brasil, agora aparece explicitamente, aquilo que temíamos:

“Regulamentar o Artigo 23 da CF: definir as responsabilidades e o papel supletivo e redistributivo da União, dos Estados e Municípios; criar o sucessor do FUNDES; criar o Sistema Nacional de Educação (SNE);

Implementar o Plano Nacional de Educação nos 3 entes federativos; aperfeiçoar o financiamento a padrões de qualidade; equilibrar programas universais com a necessidade de focalização (FIES, PRONATEC), e adequar sistemas subnacionais ao SNE.”

Como o único documento em forma de lei que transita na área é o da SAE, veja aqui, penso que será este que poderá ser protocolado. Depois disso, teremos que correr atrás na forma de emendas, mas estaremos nas mãos da relatoria. O documento da SAE sobre o SNE é uma proposta alinhada com as teses dos reformadores empresariais.

O texto da nova Agenda Brasil dá pistas: Regulamentar o artigo 23 da Constituição, o que confere com a proposta da SAE e definir responsabilidades, ou seja, responsabilização; aperfeiçoar o financiamento a padrões de qualidade, leia-se, condicionar financiamento a padrões de qualidade (meritocracia), que também confere com o documento da SAE.

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Escolas terceirizadas para a PM

Temos 93 escolas no Brasil terceirizadas para a PM com liberdade inclusive para pedir dinheiro aos pais dos estudantes. Até o final do ano poderão ser 109. Isso está acontecendo agora, não é futurologia. Outras 24 deverão ser ainda entregues para a administração da corporação. Como sempre, Goias e Minas, administrados pelo PSDB são campeões na iniciativa. Goiás com 26 escolas já implantadas.

Nestas escolas os alunos têm de comprar farda, prestar continência e se chamam por “senhor” e “senhora”. É passível de ser punido o aluno com alguma negligência no campo da higiene pessoal. Ou seja, foram transformadas em um quartel e não em uma escola. Há professores da PM, mas a maioria é de civis. Os diretores pertencem à corporação. Como sempre acontece nestas iniciativas, estudantes que se destacam ganham condecorações, e quem não se adapta é transferido.

A reportagem sobre a matéria diz:

“Mascar chiclete é transgressão leve. Usar óculos com lentes ou armações de “cores esdrúxulas” também, segundo o regulamento disciplinar dos colégios da Polícia Militar de Goiás. São transgressões médias: sentar-se no chão fardado, espalhar boatos, deixar de prestar continência ou de cortar o cabelo no estilo escovinha.

Já “manter contato físico que denote envolvimento amoroso” (beijar) ou se meter em rixa são faltas graves. O aluno perde pontos a cada quebra de regra. Quem não se adéqua é transferido.”

A PM dá a farda para os estudantes em alguns casos, em outros não e o custo varia de R$ 400 a R$ 700. Os pais pagam ainda mensalidades (de R$ 80 a R$ 110), que não são obrigatórias.

“Para não desfalcar o efetivo, a PM recorre a oficiais da reserva, que ganham adicional. Os docentes são civis – em outros Estados, alguns são militares – e ganham bônus de produtividade.”

Os defensores argumentam que o IDEB e o ENEM são bons. Novamente comparações indevidas. Citar o IDEB ou ENEM para justificar ações de intervenção nas escolas públicas é duplamente equivocado pois, primeiro, os fins não justificam os meios e segundo, para poder comparar escolas é preciso muito mais do que simplesmente emparelhar duas médias de desempenho escolar e ver qual é a maior.

No caso das escolas públicas que estão sob intervenção da PM em Goiás esta tem sido a “metodologia” para declarar a superioridade das escolas terceirizadas para a PM.

Veja matéria completa aqui.

No entanto, para poder comparar escolas seria necessário entre outras coisas, conhecer o nível socioeconômico das escolas envolvidas, ou seja, sua composição social, como também conhecer qual é o volume de transferências de alunos nas escolas. Em geral este é um truque muito conhecido. Primeiro, instituem-se regras duras que aterrorizam e colocam a família como fator de pressão sobre as crianças para que obedeçam e não sejam transferidas; segundo os que têm maior dificuldade de aprendizagem são os candidatos a problemas disciplinares, portanto, se transfiro os alunos que têm problemas disciplinares, provavelmente me livre dos alunos com baixo desempenho. Aí temos o aumento das médias pois ficam na escola os melhores. Os que não se adaptam são enviados de volta às escolas públicas regulares. Fica mais fácil, portanto, mostrar resultado, trabalhando com ameaças e ficando apenas com os que se adaptam.

Mas, mesmo que conseguíssemos demonstrar alguns pontinhos a mais no IDEB ou ENEM destas escolas, isso não justificaria entregar escolas públicas para a PM administrar. Polícia é treinada para fazer ações de repressão. É como pedir para o exército pacificar os morros no Rio de Janeiro. Não é algo que a corporação esteja preparada para tal. Ela mesma se expõe fora de seu objetivo de atuação e deveria rejeitar correr tal risco. Quando as propostas contemporâneas apontam para a aprendizagem da diversidade, para a autonomia do pensamento, qual o sentido de se voltar a educação destes estudantes para o “enquadramento”? Apenas por serem mais pobres?

Além disso, representa um retrocesso muito grande em tudo que já havíamos construído em matéria de projeto pedagógico para as nossas escolas. Não discutimos a boa intenção de alguns graduados da polícia que estavam “desocupados” na reserva e agora encontraram algo para fazer, mas estão fora de sua qualificação. Deixem a educação para os profissionais da educação. Creio que a segurança pública precisa deles em tempo integral. Cuidem da comunidade, do entorno das escolas, de uma política pública de segurança eficaz.

 Há um raciocínio pior ainda que diz:

“O trabalho é também preventivo. O aluno terá valores sedimentados. Ou vira cliente da PM depois. O percentual de ex-alunos no crime é quase zero.”

Será que as classes sociais mais altas aceitariam ver seus filhos tratados como potenciais marginais objetos de ação preventiva da PM? Ou seria isso apenas para os filhos dos mais pobres? Será que os filhos destas classes mais bem posicionadas aceitariam ter o cabelo cortado em estilo escovinha para poder entrar na escola.

Nos Estados Unidos, uma cadeia de escolas charters para pobres, terceirizada que administra escolas públicas, adota um código chamado de “no excuses” (sem desculpas) para fazer os estudantes focarem no estudo e melhorar seu desempenho. Lá também ou se enquadra ou sai. As cadeias de charters fazem contratos que os pais assinam dizendo que seus filhos irão respeitar as regras da escola, ou poderão ser transferidos. Bem, assim fica fácil resolver o problema. Põe polícia e transfere quem não se enquadra. Suspeito que as classes mais altas não aceitariam esse projeto pedagógico para seus filhos.

Com os liberais à frente defendendo a privatização da escola pública, os conservadores navegam na mesma onda logo atrás promovendo retrocessos baseados em concepções religiosas ou da “manutenção da ordem”.

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Reprise para quem não viu

Para quem não viu, reenvio post sobre os estudos feitos pelo PSDB, conhecidos como “Sob a Luz do Sol”, com a participação de Levy. Aí você vai encontrar Levy, Naércio, Marcos Lisboa, hoje no Insper, Samuel Pessoa etc…

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África: Banco Mundial apoia privatização

Escolas privadas com fins lucrativos na África são alvo de protesto de mais de 100 organizações de direitos civis. Elas protestam contra os financiadores de cadeias de escolas primárias dirigidas a famílias pobres no Quênia e em Uganda.

“O projeto é chamado de Bridge International Academies (BIA) e 100.000 alunos foram matriculados em 412 escolas nas duas nações. BIA é apoiada pelo Banco Mundial, que doou US $ 10 milhões para o projeto, e uma série de investidores, incluindo os empreendimentos americanos NEA e Learn Capital. Outros investidores ​incluem Bill Gates, Mark Zuckerberg, Pierre Omidyar e a Pearson, uma editora multinacional.”

Em carta dirigida a Kim, do Banco Mundial, afirmam:

“Nós, organizações da sociedade civil e os cidadãos do Quênia e Uganda, estamos chocados com o fato de que uma organização cujo objetivo se supõe seja o de tirar as pessoas da pobreza, mostre tão profundo mal-entendimento e desconexão com a vida e os direitos das pessoas pobres no Quênia e Uganda. Se o Banco Mundial tem o sério propósito de melhorar a educação no Quénia e no Uganda, deveria apoiar os nossos governos para expandir e melhorar os nossos sistemas de educação pública, oferecer educação de qualidade para todas as crianças de forma gratuita, e abordar outras barreiras financeiras para o acesso “.

No Brasil, o Banco financia a privatização via escolas charters no Pará.

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