Binho Marques da SASE – Secretaria de Articulação com o Sistema de Ensino do MEC, Heleno Araujo Filho da CNTE e do Fórum Nacional de Educação, além da UNDIME alertam para a possibilidade de que a Lei de Responsabilidade Educacional (LRE) em tramitação no Congresso, se aprovada, aumente a exclusão escolar.
A declaração está em sintonia com a pesquisa disponível. A adoção de políticas de responsabilização verticalizadas como a da LRE tem produzido estagnação ou aumento da exclusão escolar. O caso mais típico é o fracasso da LRE americana. Veja aqui e aqui. O caso chileno é pior ainda, como aponta estudo de Alfredo Gaete da Pontificia Universidad Catolica de Chile e Stephanie Jones, da Universidade da Georgia:
“Em primeiro lugar, não há evidências claras de que os alunos melhoraram significativamente seu desempenho em testes padronizados, que é a medida preferida utilizada para avaliar as escolas dentro deste cenário de mercado livre.
Em segundo lugar, existe agora um consenso entre os pesquisadores de que tanto as lacunas educacionais como as socioeconômicas aumentaram. O Chile é hoje uma sociedade muito mais desigual do que era antes da privatização da educação – e há uma clara correlação entre renda familiar e aproveitamento dos alunos de acordo com testes padronizados e medidas semelhantes.”
(Veja aqui.)
Segue o alerta dado pelos especialistas, bem como a lamentável posição do Relator do projeto no Congresso que admite que o IDEB é o que restou para punir.
Lei de responsabilidade educacional atrelada a exames de avaliação pode aumentar exclusão
O Ministério da Educação (MEC) e diversas entidades estão preocupados com a possibilidade de que a Lei de Responsabilidade Educacional (LRE), que atualmente tramita na Câmara dos Deputados, seja aprovada. O dispositivo prevê punição de gestores públicos com base em resultados de provas como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e a Prova Brasil.
Na avaliação do Secretário de Articulação com o Sistema de Ensino do MEC, Binho Marques, a medida pode gerar mais desigualdades dentro do sistema de ensino, pois estudantes com um desempenho menor nessas avaliações podem começar a ser excluídos do sistema para garantir que o desempenho da escola apresente melhora, evitando, assim, que o gestor seja punido.
“A tendência é que as escolas se tornem menos inclusivas porque elas serão pressionadas a apresentar resultados e isso não acontece do dia para a noite. Um bom sistema de ensino inclui trabalhadores, crianças e jovens que estavam fora da escola, e isso, em alguns casos, segura o crescimento do Ideb. Mas isso não representa uma melhoria da educação? O gestor merece ser punido porque incluiu mais estudantes?”, questiona Binho.”
Para o relator da Comissão Especial que examina a LRE brasileira:
“O atual relator do projeto na Comissão Especial é o deputado federal João Carlos Bacelar (PTN-BA). Ele defende que a educação brasileira incluiu muitos estudantes nos últimos anos, mas que o sistema como um todo está falido do ponto de vista de qualidade. A solução, a seu ver, seria atribuir responsabilidades para poder superar esses problemas.
Segundo o deputado, avaliar e punir o gestor com base nos resultados de exames como a Prova Brasil e o Ideb não é método ideal, mas é o único instrumento do qual o Estado dispõe em suas mãos para realizar tal avaliação.
“O Ideb não é o melhor sistema de avaliação, mas é o que temos. Além disso, é o sistema que o Estado utiliza para medir o desempenho das nossas escolas, estudantes e professores”, afirmou.
Ele defende a punição de gestores que não cumprirem metas educacionais porque “quando me candidato, digo que a qualidade da educação vai retroceder? Quem é o responsável se não o poder público que foi eleito? Como nós vamos conviver com o grande número de falta às aulas de professores? Se eu sou gestor [público] posso abrir processos, advertir esses docentes que não estiverem indo”, afirmou o congressista.
Segundo Bacelar, a última audiência pública da Comissão será realizada em 30 de setembro e, em novembro, deve ser aprovado um texto base que será remetido ao plenário da Câmara.
Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e dirigente municipal de Educação de Tabuleiro do Norte (CE), Alessio Costa Lima, é um grave erro metodológico punir gestores com base no Ideb e na Prova Brasil porque elas foram pensadas para diagnosticar o cenário educacional e não para punir aluno e professor.
“Nada contra o processo de monitoramento e responsabilização do gestor, mas atrelar a responsabilidade dele ao resultado do Ideb e da Prova Brasil é uma desvirtuação da avaliação porque elas foram pensadas para diagnosticar e intervir e não para punir; caso seja aprovada essa legislação, será um erro técnico e um equivoco do ponto de vista pedagógico”, afirmou.
Para Binho Marques o resultado do Ideb não guarda necessariamente uma relação com a qualidade do ensino. “O Ideb foi um passo importante, mas uma escola e uma cidade quem tem bom o Ideb não é resultado somente do esforço do gestor. O Inep tem mostrado que o Ideb está mais relacionado a nível social da cidade do que a qualidade do sistema”, afirmou.
Para o Secretário de Relações Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e Coordenador do Fórum Nacional de Educação (FNE), Heleno Araújo Filho, avaliar um gestor com base em resultados de provas é insuficiente porque eles não avaliam o todo do processo.
“O Ideb é insuficiente para cuidar da avaliação da educação básica porque ele tem foco só em duas disciplinas (matemática e português) e cuida só da taxa de aprovação, sem levar em conta o processo de ensino”, criticou.”
Fonte: UNDIME – 2 de outubro de 2015
