Alerta: LRE pode aumentar exclusão

Binho Marques da SASE – Secretaria de Articulação com o Sistema de Ensino do MEC, Heleno Araujo Filho da CNTE e do Fórum Nacional de Educação, além da UNDIME alertam para a possibilidade de que a Lei de Responsabilidade Educacional (LRE) em tramitação no Congresso, se aprovada, aumente a exclusão escolar.

A declaração está em sintonia com a pesquisa disponível. A adoção de políticas de responsabilização verticalizadas como a da LRE tem produzido estagnação ou aumento da exclusão escolar. O caso mais típico é o fracasso da LRE americana. Veja aqui e aqui. O caso chileno é pior ainda, como aponta estudo de Alfredo Gaete da Pontificia Universidad Catolica de Chile e Stephanie Jones, da Universidade da Georgia:

“Em primeiro lugar, não há evidências claras de que os alunos melhoraram significativamente seu desempenho em testes padronizados, que é a medida preferida utilizada para avaliar as escolas dentro deste cenário de mercado livre.

Em segundo lugar, existe agora um consenso entre os pesquisadores de que tanto as lacunas educacionais como as socioeconômicas aumentaram. O Chile é hoje uma sociedade muito mais desigual do que era antes da privatização da educação – e há uma clara correlação entre renda familiar e aproveitamento dos alunos de acordo com testes padronizados e medidas semelhantes.”

(Veja aqui.)

Segue o alerta dado pelos especialistas, bem como a lamentável posição do Relator do projeto no Congresso que admite que o IDEB é o que restou para punir.

 Lei de responsabilidade educacional atrelada a exames de avaliação pode aumentar exclusão

O Ministério da Educação (MEC) e diversas entidades estão preocupados com a possibilidade de que a Lei de Responsabilidade Educacional (LRE), que atualmente tramita na Câmara dos Deputados, seja aprovada. O dispositivo prevê punição de gestores públicos com base em resultados de provas como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e a Prova Brasil.

Na avaliação do Secretário de Articulação com o Sistema de Ensino do MEC, Binho Marques, a medida pode gerar mais desigualdades dentro do sistema de ensino, pois estudantes com um desempenho menor nessas avaliações podem começar a ser excluídos do sistema para garantir que o desempenho da escola apresente melhora, evitando, assim, que o gestor seja punido.

“A tendência é que as escolas se tornem menos inclusivas porque elas serão pressionadas a apresentar resultados e isso não acontece do dia para a noite. Um bom sistema de ensino inclui trabalhadores, crianças e jovens que estavam fora da escola, e isso, em alguns casos, segura o crescimento do Ideb. Mas isso não representa uma melhoria da educação? O gestor merece ser punido porque incluiu mais estudantes?”, questiona Binho.”

Para o relator da Comissão Especial que examina a LRE brasileira:

“O atual relator do projeto na Comissão Especial é o deputado federal João Carlos Bacelar (PTN-BA). Ele defende que a educação brasileira incluiu muitos estudantes nos últimos anos, mas que o sistema como um todo está falido do ponto de vista de qualidade. A solução, a seu ver, seria atribuir responsabilidades para poder superar esses problemas.

Segundo o deputado, avaliar e punir o gestor com base nos resultados de exames como a Prova Brasil e o Ideb não é método ideal, mas é o único instrumento do qual o Estado dispõe em suas mãos para realizar tal avaliação.

“O Ideb não é o melhor sistema de avaliação, mas é o que temos. Além disso, é o sistema que o Estado utiliza para medir o desempenho das nossas escolas, estudantes e professores”, afirmou.

Ele defende a punição de gestores que não cumprirem metas educacionais porque “quando me candidato, digo que a qualidade da educação vai retroceder? Quem é o responsável se não o poder público que foi eleito? Como nós vamos conviver com o grande número de falta às aulas de professores? Se eu sou gestor [público] posso abrir processos, advertir esses docentes que não estiverem indo”, afirmou o congressista.

Segundo Bacelar, a última audiência pública da Comissão será realizada em 30 de setembro e, em novembro, deve ser aprovado um texto base que será remetido ao plenário da Câmara.

Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e dirigente municipal de Educação de Tabuleiro do Norte (CE), Alessio Costa Lima, é um grave erro metodológico punir gestores com base no Ideb e na Prova Brasil porque elas foram pensadas para diagnosticar o cenário educacional e não para punir aluno e professor.

“Nada contra o processo de monitoramento e responsabilização do gestor, mas atrelar a responsabilidade dele ao resultado do Ideb e da Prova Brasil é uma desvirtuação da avaliação porque elas foram pensadas para diagnosticar e intervir e não para punir; caso seja aprovada essa legislação, será um erro técnico e um equivoco do ponto de vista pedagógico”, afirmou.

Para Binho Marques o resultado do Ideb não guarda necessariamente uma relação com a qualidade do ensino. “O Ideb foi um passo importante, mas uma escola e uma cidade quem tem bom o Ideb não é resultado somente do esforço do gestor. O Inep tem mostrado que o Ideb está mais relacionado a nível social da cidade do que a qualidade do sistema”, afirmou.

Para o Secretário de Relações Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e Coordenador do Fórum Nacional de Educação (FNE), Heleno Araújo Filho, avaliar um gestor com base em resultados de provas é insuficiente porque eles não avaliam o todo do processo.

“O Ideb é insuficiente para cuidar da avaliação da educação básica porque ele tem foco só em duas disciplinas (matemática e português) e cuida só da taxa de aprovação, sem levar em conta o processo de ensino”, criticou.”

Fonte: UNDIME – 2 de outubro de 2015

Publicado em Links para pesquisas, Mercadante no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag , | 7 Comentários

Base nacional e autonomia do professor

Diane Ravitch veicula em seu blog post em que comenta a comparação feita por Pasi Sahlberg entre a autonomia que os professores americanos têm e a que os professores finlandeses têm. Pasi mostra o que está errado na educação americana. Como o Brasil optou por copiar os reformadores americanos, inclusive na elaboração de uma base nacional comum, é importante que fique claro para onde estamos caminhando. Seguem os comentários de Diane.

Pasi Sahlberg é atualmente professor visitante na Graduate School of Education em Harvard, e foi diretor geral do Ministério da Educação da Finlândia. Em sua comparação entre os professores americanos e os da Finlândia, Pasi destaca que o que mais chama a atenção dos visitantes das escolas finlandesas é exatamente a autonomia que os professores têm em seu trabalho:

“O ambiente nas escolas é informal e descontraído. Os professores têm tempo na escola para fazer outras coisas além de ensinar. E as pessoas confiam umas nas outras.”

Os professores finlandeses parecem ter muito mais autonomia profissional para ajudar os estudantes a aprender e a se sentir bem, do que os professores americanos. Para isso:

“Os professores na Finlândia têm menos horas dedicadas ao ensino por semana do que têm os professores nos EUA. Primeiro, os professores nos EUA trabalham mais horas (45 horas/semana) do que seus pares na Finlândia (32 horas/semana). Eles também ensinam mais horas por semana, 27 horas em comparação às 21 horas na Finlândia.

Isto significa que os professores americanos, em média, têm muito menos tempo para fazer algo mais do que cumprir suas obrigações de ensino (seja sozinho ou com colegas) do que outros professores na maioria dos países da OCDE. Assim, observa-se que os professores na Finlândia são mais propensos a ensinar em conjunto com outros professores do que seus pares nos EUA.

Na Finlândia, os professores costumam dizer que eles são profissionais semelhantes a médicos, arquitetos e advogados. Isto, explica, significa que os professores esperam comportar-se em seus locais de trabalho como profissionais: usando julgamento profissional, criatividade e autonomia individualmente e em conjunto com outros professores, de forma a encontrar as melhores maneiras de ajudar os seus alunos a aprender.

Na ausência de padrões de ensino comuns, os professores finlandeses projetam seus próprios currículos escolares orientados por um marco nacional flexível. Mais importante ainda, ao visitar escolas, eu ouvi dos professores finlandeses que, devido à ausência de exames padronizados, eles podem ensinar e avaliar seus alunos nas escolas como eles acham que é mais adequado.

A palavra-chave entre professores e autoridades na Finlândia é confiança. Com efeito, a autonomia profissional requer confiança, e confiança torna viva a autonomia do professor.

Os “reformadores” nos EUA agiram pressupondo que a autonomia das escolas é necessária para melhorar a educação. Mas, diz Sahlberg, não há nenhuma evidência de que a autonomia da escola melhora o desempenho do estudante ou que ela aumente a autonomia do professor. Ao contrário, a autonomia das escolas (por exemplo, nas escolas charters) é frequentemente associada com menos autonomia do professor. A OCDE concluiu que uma maior autonomia profissional do professor está associada a melhores resultados.

Sahlberg conclui:

Eu não acho que o problema principal na educação americana é a falta de qualidade do professor, ou que parte da solução seria encontrar os melhores e mais brilhantes para se tornarem professores. A qualidade de um sistema educativo pode exceder a qualidade de seus professores, se o ensino é visto como um trabalho de equipe e não como uma corrida individual.

E esta é talvez a lição mais poderosa que os EUA podem aprender com os sistemas de educação de melhor desempenho: os professores precisam de uma maior autonomia profissional coletiva e mais apoio para trabalhar um com o outro.”

E bem que o Brasil poderia aprender mais rapidamente sobre isso, ao invés de copiar os americanos e suas bases nacionais comum de avaliação, atrasando ainda mais o desenvolvimento da educação brasileira.

Publicado em Avaliação de professores, ENAMEB - Professores, Escolas Charters, Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 8 Comentários

Mais Educação ou mais ensino?

Um estudo financiado pelo Banco Mundial e pela Fundação Itau Social quer mostrar que o Programa Mais Educação do MEC não melhora a nota do aluno em português e matemática. Cabem duas questões: Primeira: por que ele teria que melhorar médias de português e matemática? Segunda: não teria melhorado outros aspectos da escola que não foram quantificados pelos exames nacionais destas duas disciplinas, por exemplo, as tais habilidades socioemocionais que vivem sendo alardeadas pelos reformadores como necessárias?

Segundo o estudo, além de não aumentar as médias, o programa não diminuiu o abandono escolar e acabou diminuindo a nota de matemática. Tudo na conta do Mais Educação.

O Mais Educação foi concebido para ampliar a jornada escolar para pelos menos sete horas por dia, oferecendo atividades optativas de acompanhamento pedagógico, esporte, lazer, cultura e outras. Não foi inventado necessariamente para aumentar médias.

Eis o problema dos estudos vinculados a entidades de advocacia de ideias feitos por fundações. Não raramente, eles são concebidos para demonstrar ideias consideradas “corretas” e não para investigar os fenômenos a que se propõem. No caso, o pressuposto equivocado é partir da proposição de que o Mais Educação deve necessariamente aumentar as médias de português e matemática.

No Brasil, com a chegada da lógica dos reformadores, tudo vira uma questão de aprender português e matemática. Resumem a escola a isso, quando interessa. Nesta ótica, a melhoria da escola se mede, portanto, pelo aumento da média dos alunos nestas disciplinas. É tanta devoção às médias, que se alguém mostrar que há um aumento das médias nestas disciplinas quando a lua é cheia, proporão ensinar apenas no período de lua cheia. Correlações de quantidades acabam virando causalidade.

O Mais Educação tem seus limites, sem dúvida. Mas é o único programa que ensaia reter o aluno na escola e força a caminhar na direção da educação de tempo integral com formação mais ampla, pelo menos. O conceito é insuficiente, mas é uma ação importante. Os reformadores questionam porque frequentemente trocam a concepção de educação por uma concepção estreita de ensino. É só ver a base nacional comum curricular que estão propondo. Melhorá-lo não é restringí-lo a fazer mais do mesmo em português e matemática como quer induzir o estudo.

Como toda política de massa, falta ao Mais Educação acompanhamento nas escolas, como os próprios autores do estudo sugerem. A diferença é que os autores querem mais acompanhamento vinculado a aumento das médias, o que modifica a finalidade do programa e o restringe.

Mas não é só este o foco dos pesquisadores do Itau e do Banco Mundial. No fundo, a função destes estudos é ajudar a demonstrar que a escola pública de gestão pública e os “programas sociais” que utilizam recursos públicos são ineficientes. Eles querem que sejam retirados e substituídos pela ação de ONGs, OSs e empresas educacionais que, segundo eles, mais eficientemente utilizariam os recursos públicos, bastando para tanto diminuir ou transformar a escola pública em escola privada pela via da terceirização de gestão. O mesmo Banco Mundial financia no Pará esta estratégia com a implantação de escolas charters. O mesmo pessoal que fez o estudo é o que defende os cortes de benefícios sociais e igualmente financiou em Pernambuco experiências de escolas charters.

O novo Ministro, sem saber o que acontece, pois nem tomou posse ainda, já adiantou posição: vai rever o programa para focá-lo mais no conteúdo. Pois está errado. A função do programa, embora não seja incompatível com o conteúdo escolar e até possa ser usado para fortalece-lo, não deveria se restringir a melhorar as médias de português e matemática. Quem disse que escola boa é a que tem maior média nestas disciplinas?

Precisamos olhar para a formação do estudante de forma mais ampla, para além do português e matemática e para além do conceito estreito de habilidades socioemocionais dos reformadores. O novo Ministro já começa pisando na bola. Melhorar o programa não é restringi-lo ao conteúdo de disciplinas específicas como ele e as fundações querem.

Publicado em Mercadante no Ministério, Responsabilização/accountability | 11 Comentários

FINEDUCA divulga carta

Os membros da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), reunidos em Assembleia Geral, em seu III Encontro, em Gramado/ RS vêm a público, fazer um balanço sobre as mudanças ocorridas no campo educacional, desde seu último encontro, em 2013, em especial nas políticas de financiamento, bem como expressar suas prioridades para o próximo biênio, em sua constante luta por uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade para todos os brasileiros e brasileiras.

Acesse aqui a íntegra da carta.

Publicado em Assuntos gerais, Links para pesquisas | 1 Comentário

INEP: acompanhamento do PNE

O INEP divulgou um documento muito bem elaborado sobre os indicadores que irão avaliar regularmente o desenvolvimento das metas do PNE. Não dispúnhamos de uma linha de base para analisar a educação brasileira de forma tão organizada. Sem dúvida, o documento é um avanço.

A cada dois anos o INEP elaborará um balanço sobre os indicadores de desenvolvimento das metas do PNE, assumindo para si o acompanhamento oficial da evolução da educação brasileira. Com isso, podemos agora ter uma fonte oficial e não termos que nos guiar por sites de organizações não governamentais que se dedicam a tratar dados e a dar sua visão sobre o desenvolvimento da educação brasileira.

Teremos agora que analisar se os indicadores selecionados são os melhores ou não para a educação brasileira. Mas um bom começo de conversa foi estabelecido. 

“Apresenta, em caráter preliminar, a linha de base dos indicadores selecionados pelo Ministério da Educação e pelo Inep para o monitoramento do Plano Nacional de Educação 2014-2024 (PNE). O documento consiste de análises descritivas das séries históricas dos indicadores. As informações foram extraídas dos dados provenientes das pesquisas do Inep (Censo da Educação Básica, Censo da Educação Superior, Saeb e Ideb), do IBGE (Pnad e Censo Demográfico) e da Capes (dados da pós-graduação), disponíveis na data de promulgação da Lei do PNE, em 25 de junho de 2014. Este documento tem como objetivo desencadear o debate a respeito dos indicadores mais adequados para o acompanhamento das metas estabelecidas no Plano.”

Acesse o documento aqui.

Publicado em Janine no Ministério, Links para pesquisas | Deixe um comentário

Mercadante… de novo!

Quando um ministério como o da Educação vira prêmio de consolação de político que não se saiu bem, não há mais que se falar em uma eventual “pátria educadora”. Se é certo que o exemplo vem de cima, então está dado o recado. Não deu certo na Educação quando foi Ministro da pasta. Não deu certo na Casa Civil. Depois de dois fracassos, era de se esperar que o despachassem para São Paulo, de volta. Mas não: ganha o prêmio de administrar a Educação, de novo.

Para a educação é retrocesso. Como tem sido o governo Dilma em educação, desde o primeiro mandato. Não há que comparar Mercadante a Janine. Aliás, Janine não merecia isso. Foi convidado, acreditou, deu a cara a tapa e é dispensado meses depois. Em um ano de desgoverno, este será o terceiro Ministro da Educação. Como ter projetos e programas contínuos se não se sabe quanto tempo dura um ministro. E quanto tempo fica Mercadante, sempre de olho em processos eleitorais.

Aliás, Mercadante na Casa Civil bloqueava as reformas no MEC que poderiam ter retirado de lá representantes dos reformadores empresariais da educação em alguns órgãos. Não há nada, portanto, que assinale que tais mudanças poderão ocorrer agora.

Mas poderíamos estar comemorando que o Ministério da Educação foi para o PT e não para o PMDB, por exemplo. Ledo engano: Mercadante é aquele que disse, quando Ministro da Educação da outra vez que: não importa se uma vaga na escola é pública ou privada, importa que exista.

De Ministro em Ministro, vamos perdendo a oportunidade de fazer a educação que precisamos: comprometida com a educação pública de qualidade, de gestão pública.

Qual é mesmo o projeto educativo deste governo? Três Ministros depois do início do governo, não sabemos. E não completamos um ano. Um caiu porque era “bocudo”, o outro por “conveniência alheia” e o terceiro retorna por “conveniência própria”. Ou não tem mais ninguém no PT para assumir a educação? O que esperar de um Ministro que já está, tanto dentro como fora do Ministério, desmoralizado? E ainda sem dinheiro! Muito pouco para o que a educação precisa.

Publicado em Assuntos gerais, Janine no Ministério, Mercadante no Ministério | 7 Comentários

Ainda sobre certificação de professores

As injunções que os profissionais da educação estão começando a vivenciar mais claramente com as políticas públicas recentemente delineadas foram tratadas em um artigo de Helena Costa Lopes de Freitas publicado pela Educação e Sociedade em 2003. Entre outras análises a autora dizia:

“Particularmente, considero que estas iniciativas – exame, premiação, bolsa de incentivo ao letramento e bolsa federal – situam-se ainda no âmbito das políticas do governo anterior, como podemos observar no documento da Conferência de 2002. Além de não avançar na formação e profissionalização do magistério em nosso país, a ideia de certificação dos professores pode vir a ser, no que diz respeito à avaliação do trabalho docente, profundamente danosa no processo de flexibilização do trabalho e de desprofissionalização dos professores-educadores, reforçando a competitividade e aprofundando, na sociedade, o clima de individualização e responsabilização de cada professor sobre o sucesso e o fracasso dos estudantes. Contribuirá certamente para instalar uma concepção de trabalho docente de caráter meritocrático, para instaurar/acirrar o clima de “ranqueamento” e competitividade, inibidores do processo de construção de novas alternativas para a formação de nossas crianças, jovens e adultos a partir do trabalho coletivo e solidário, e da gestão democrática em nossas escolas.”

Acesse aqui este artigo completo.

Publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Com a tag , | 1 Comentário

Campo rejeita reformas empresariais

Os educadores e educadoras do campo reunidos em Luziânia (GO) em seu II Encontro divulgaram manifesto no qual denunciam as reformas empresariais da educação e convocam os professores para lutar contra estas políticas. Em seu manifesto afirmam que:

“Grandes grupos empresariais intervêm cada vez mais na política educacional, por meio de propostas que têm sido assumidas pelos governos com o falso objetivo de melhorar a qualidade das escolas públicas. Na prática, estas propostas representam um processo acelerado de mercantilização da educação em todos os níveis. Primeiro, buscam demonstrar que a escola pública está em crise, que educandos e educandas não aprendem, professores e professoras não sabem ensinar e o sistema educacional não funciona. Depois, apresentam como alternativa que as escolas passem a funcionar de acordo com a lógica de trabalho e de gestão das empresas capitalistas. Isso significa o estabelecimento de metas a serem atingidas, controle externo do processo pedagógico, perda de autonomia do trabalho dos educadores e das educadoras, responsabilização individual pela aprendizagem dos educandos e educandas sob qualquer condição e currículos determinados em função da avaliação em larga escala. Defendem, que para maior eficiência do modelo, as próprias empresas assumam a gestão das escolas, recebendo recursos públicos para esta tarefa. No Brasil esses grandes grupos empresariais se organizam no “Movimento Todos pela Educação”.”

Leia íntegra do manifesto aqui.

Publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag | Deixe um comentário

Vem aí o ENAMEB dos professores

Em post anterior apresentávamos a situação da Prova Nacional Docente e a possibilidade dela vir a ser uma certificação nacional de professores. Aqui, atualizamos aquela matéria introduzindo a situação do PL6114 em tramitação. Aqui, a Prova Nacional vira ENAMEB. A posição da Comissão de Educação não fala abertamente em certificação em sua versão atual, mas isso não significa o seu impedimento. A razão disso pode ser vista no seu artigo 3o. §3o. que diz:

Poderão participar do Enameb docentes no exercício efetivo do magistério em escolas públicas e privadas, assim como os habilitados para a docência nos termos da legislação educacional vigente e candidatos ao ingresso na carreira do magistério.

Esta redação inclui “habilitados para a docência nos termos da legislação educacional vigente e candidatos ao ingresso na carreira do magistério” e dá margem para que a prova se converta em certificação de professores. Basta que estados e município decidam contratar apenas professores através do ENAMEB e ele vira processo de certificação (tipo OAB). Além disso, a lei não restringe quem pode ser candidato ao ingresso na carreira docente o que deixa o ENAMEB em posição vulnerável a alterações futuras da “legislação vigente”. Os processos de certificação tendem a desestruturar as profissões e abreviar a formação por meios alternativos.

Os estados e municípios também têm formas de induzir a contratação via ENAMEB como certificação, pagando diferenciadamente professores que fizeram o ENAMEB. A Escolas Charters, por exemplo, que estão sendo inauguradas no Pará e em Goiás, poderão exigir que todos os seus professores sejam contratados via ENAMEB e com isso apresentar-se com um “diferencial de mercado”. Os professores não certificados, ou seja, que não fizeram o ENAMEF, seriam característica negativa da escola pública.

A comissão de Educação da Câmara já aprovou o ENAMEB – Exame Nacional do Magistério da Educação Básica. Todos os professores em exercício, da educação infantil até o ensino médio, terão exames a cada dois anos de forma alternada em três grupos. A proposta agora segue para outras comissões da casa. Vamos ver como chegará ao final da tramitação.

Ao encaminhar o projeto à Câmara, a relatoria não escondeu a intenção de que evoluísse para uma certificação:

“O Substitutivo por ele oferecido avança em relação às proposições originais, delas reunindo importantes disposições e acrescentando contribuições relevantes, como a participação de candidatos à carreira do magistério e a possibilidade de utilização dos resultados para processos seletivos para o magistério dos sistemas de ensino. A essas contribuições podem ser agregadas algumas outras. Parece adequado inserir a hipótese de que os sistemas de ensino dos entes federados utilizem os resultados como instrumento de certificação, além das finalidades já previstas. A certificação, bem aplicada, constitui elemento importante de valorização e de distinção profissional. No entanto, para que os sistemas de ensino possam empregar os resultados de modo eficiente, especialmente no que se refere ao planejamento de ações de formação continuada, precisam recebê-los de modo organizado, com informações relativas a desempenho, êxitos e lacunas nos conteúdos, competências e habilidades aferidos nos exames.
A periodicidade de aplicação dos exames pode também ser reduzida para ciclos de três anos [a Câmara reduziu para dois]. Também faz sentido admitir que o docente preste o exame quantas vezes julgar oportuno ao longo de sua carreira, melhorando resultados, com consequências positivas em sua valorização profissional.”

A finalidade principal deste projeto é revelada ao permitir que seus resultados sejam enviados às Secretarias de Educação para que integrem programas de avaliação de desempenho para fins de progressão na carreira profissional nos estados e municípios. Com isso, toda a conversa sobre ser uma avaliação voluntária se desfaz. Além disso, abre-se a porta para pagamento de bônus ou outra amarração entre desempenho medido nas provas e salário.

A formação profissional será colocada na mesma linha daquela dos advogados que fazem o exame da OAB. Vai virar “preparação para o teste”, por um lado, e por outro, ajudar a cumprir o sonho dos reformadores empresariais (através do Art. 5o.), ou seja, identificar e obrigar as universidades e faculdades a desenvolverem uma formação restrita do profissional da educação, focada nas metodologias, ou como costumam dizer, “sem ideologia”.

Tendo negligenciado por décadas a formação continuada dos professores, a saída vislumbrada é transformar a formação em um assunto pessoal, de responsabilidade dos professores. A prova vai colocar sobre o professor a responsabilidade por sua própria formação continuada, para passar no exame. Inúmeros “cursinhos preparatórios” e “kits” de preparação para o exame aparecerão para serem, de fato, os formadores dos nossos professores, na ótica de seus elaboradores.

A proposta da relatoria de dezembro de 2014 foi aprovada pela Câmara de Educação. A seguir reproduzo a proposta aprovada por esta Comissão em maio de 2015. Estiveram presente na sessão da Comissão que aprovou a proposta:

Lelo Coimbra e Professora Dorinha Seabra Rezende – Vice-Presidentes, Alice Portugal, Aliel Machado, Ana Perugini, Angelim, Arnon Bezerra, Brunny, Caio Narcio, Celso Jacob, Damião Feliciano, Giuseppe Vecci, Givaldo Vieira, Glauber Braga, Izalci, Josi Nunes, Leônidas Cristino, Max Filho, Moses Rodrigues, Orlando Silva, Pedro Fernandes, Pedro Uczai, Professor Victório Galli, Professora Marcivania, Raquel Muniz, Reginaldo Lopes, Rogério Marinho, Ságuas Moraes, Sergio Vidigal, Victor Mendes, Waldenor Pereira, Zeca Dirceu, Baleia Rossi, Danrlei de Deus Hinterholz, Diego Garcia, Geraldo Resende, Keiko Ota, Leandre, Luiz Carlos Ramos, Margarida Salomão, Toninho Pinheiro e Valtenir Pereira.

 SUBSTITUTIVO ADOTADO PELA CE AO PROJETO DE LEI Nº 6.114, DE 2009

Institui o Exame Nacional de Avaliação do Magistério da Educação Básica – Enameb, altera o art. 67, inciso IV, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e altera a Lei nº 9.448, de 14 de março de 1997, que transforma o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP em Autarquia Federal, e dá outras providências.

O Congresso Nacional decreta:

[Art. 1º.] É instituído o Exame Nacional do Magistério da Educação Básica – Enameb, com o objetivo de avaliar os conhecimentos e habilidades dos docentes de educação básica.

[Art. 2º.] O Enameb será desenvolvido em cooperação com os sistemas de ensino dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal.

[Art.3º.] O Enameb aferirá os conhecimentos dos docentes, conteúdos, metodologias, como ensinar, neurociência, bem como suas habilidades para ajustamento às exigências decorrentes da evolução do conhecimento e suas competências para compreender temas exteriores ao âmbito específico de sua profissão, ligados à realidade brasileira e mundial e a outras áreas do conhecimento.

§ 1º Poderão participar do Enameb docentes no exercício efetivo do magistério em escolas públicas e privadas, assim como os habilitados para a docência nos termos da legislação educacional vigente e candidatos ao ingresso na carreira do magistério.

§ 2º A inscrição e a participação no Enameb serão voluntárias, podendo o docente fazê-lo em quantas edições julgar oportuno.

§ 3º Os sistemas de ensino poderão, a seu critério, utilizar os resultados do Enameb como parte dos processos de seleção, via concurso público ou contratação temporária ou emergencial, e de programas de avaliação de conhecimentos e habilidades.

§ 4º As provas do Enameb terão uma parte geral, comum ao conjunto de participantes, de acordo com as respectivas etapas ou modalidades de exercício docente, articulada com a base nacional comum dos currículos da educação básica, e uma parte específica, de modo a atender às peculiaridades dos Estados e regiões do País.

§5º Os resultados do Enameb serão encaminhados aos sistemas de ensino de modo detalhado que demonstre o desempenho e os níveis de domínio de conteúdos, por áreas do conhecimento, dos respectivos docentes, para fins de planejamento e execução de programas de formação continuada.

[Art. 4º.] O Enameb será aplicado bienalmente, considerando os seguintes conjuntos:

I – Docentes da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental;

II – Docentes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio; e

III – Docentes da educação especial, da educação indígena e da educação quilombola.

Parágrafo único. Em todas as edições do Enameb serão acrescidas atividades avaliativas relacionadas à metodologia da docência na educação de jovens e adultos para os docentes em exercício ou candidatos ao exercício da docência nessa modalidade de educação escolar.

Art. 5º A aplicação do Enameb será acompanhada de instrumento destinado a levantar o perfil dos professores e suas condições de trabalho, com o fim de melhor compreender seus resultados.

Parágrafo único. Na divulgação dos resultados da avaliação é vedada a identificação dos documentos examinados, devendo o resultado individual ser fornecido exclusivamente ao docente, por meio de documento específico, e ao órgão responsável do sistema de ensino, para fins do disposto no § 3º do art. 3º desta Lei.

Art. 6º A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, passa a vigorar com a seguinte alteração:

“Art. 67. …………………………………………………………………………………

IV – progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, na avaliação de desempenho e na avaliação de conhecimentos;” (NR)

Art. 7º Acrescente-se o seguinte inciso X ao art. 1º da Lei nº 9.448, de 14 de março de 1997:

“Art. 1º  …………………………………………………………………………………….

X – promover avaliação de conhecimentos e habilidades dos docentes da educação básica, de forma a subsidiar, a critério dos entes subnacionais, os processos de seleção e os programas de avaliação de conhecimentos e habilidades desses profissionais.” (NR)

Art. 8º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Sala da Comissão, em 27 de maio de 2015

Publicado em Avaliação de professores, ENAMEB - Professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability | Com a tag | 8 Comentários

Brasil: vulnerabilidade social

Clicando aqui você pode encontrar no site do IPEA o índice de vulnerabilidade social dos municípios e estados brasileiros. A base da dados processada é referente a 2010, a mais recente. A vulnerabilidade social é um importante elemento que interfere com os processos de aprendizagem das crianças. Você pode selecionar município ou estados e escolher os indicadores que deseja conhecer.

Publicado em Links para pesquisas, Segregação/exclusão | Deixe um comentário

Prova Docente ou certificação?

Janine oficializou a certificação nacional de Diretores de Escola. Não podemos nos esquecer também que a Prova Nacional para concurso de professores está sendo elaborada pelo INEP. Neste momento, aparentemente está paralisada, aguardando que se finalize a base nacional comum. A todo momento o MEC afirma que a base nacional terá por função, além de estabelecer e avaliar o que deve ser ensinado às crianças, dar referências para a formação dos professores.

É uma ação que começou nos tempos de Haddad no Ministério da Educação e contra a qual nos manifestamos exaustivamente neste blog (veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e outras). Sempre defendemos que deveríamos ser contra esta prova, pois ela corria o risco de virar um processo de certificação.

Começou com o objetivo de ser um Exame Nacional de Ingresso (que foi batizado de ENEM dos professores) e ganhou forma de certificação mais definida quando Cid Gomes assumiu:

“O ministro indicou que, inicialmente, pretende aplicar uma avaliação dos diretores das escolas, mas destacou que a iniciativa tem “como premissa fundamental a voluntariedade”.

“É fundamental escola com bons diretores, [eles] fazem diferença. (…) Nós pretendemos, com avaliações, estimular os Estados a adotarem [as avaliações] e o Governo Federal poder ajudar no financiamento, melhorar o salário, e na sequência fazer isso [prova] com professores.

“No caso dos professores, ponderou Cid, a avaliação poderia ser utilizada como “passaporte para o ingresso” do profissional na carreira docente, em vagas ofertadas por Estados ou municípios.”

Na época ele já anunciava a criação da certificação dos diretores, agora concretizada por Janine. E note-se que Manuel Palácios ao divulgá-la não fala que ela poderá ser optativa, o que ressalta seu caráter de certificação e não apenas de avaliação como propunha Cid. A certificação dos professores pode vir logo em seguida.

No site do MEC pode-se ler a versão de Prova Nacional de Concurso com a qual ela iniciou:

“A Prova Nacional de Concurso tem o objetivo principal de subsidiar os Estados, o Distrito Federal e os Municípios na realização de concursos públicos para a contratação de docentes para a educação básica. Trata-se de uma prova anual, a ser aplicada de forma descentralizada em todo o país para os candidatos ao ingresso na carreira docente das redes de educação básica. Cada ente federativo poderá decidir pela adesão e pela forma de utilização dos resultados: se como única prova, seguida da análise de títulos, ou como primeira prova, seguida de uma prova adicional do próprio município, por exemplo.

A idéia é a seguinte: as redes que fizerem adesão junto ao Inep publicarão seus editais de concurso público, indicando a forma de utilização dos resultados da Prova. Os candidatos poderão se inscrever em todos os concursos que lhes interessar e, após a participação na Prova, o Inep encaminhará às redes os resultados dos inscritos em seus respectivos concursos.

Todos ganham com essa iniciativa. Para as redes de educação básica, a Prova permitirá a redução de custos desses entes com a elaboração e a aplicação das provas, bem como permitirá maior agilidade no preenchimento de cargos vagos de docentes. Isto porque, devido ao peso dos custos da realização de um concurso para orçamento de uma secretaria, especialmente no caso dos municípios menores, muitas vezes fica-se amplos períodos sem a realização de concursos públicos, optando por acumular um número significativo de cargos vagos para que valha a pena realizar um concurso. Nesse meio tempo, o trabalho acaba sendo desenvolvido por professores temporários – geralmente um contingente maior do que seria o ideal apenas para cobrir necessidades temporárias.

Para os candidatos a professor, a existência de uma Prova que será aplicada em todo o país e poderá ser utilizada por diversos estados e municípios, aumenta significativamente a possibilidade de escolha do local de trabalho, bem como a possibilidade de se tornar um professor efetivo de uma rede de ensino. Com a mesma prova, o professor poderá se inscrever em quantos concursos desejar – dentre aqueles que adotarem a Prova como parte do concurso.

Desse modo, ao melhorar os processos de contratação de professores em termos quantitativos e qualitativos, a Prova Nacional de Concurso para o Ingresso na Carreira Docente pretende contribuir para que os alunos da educação básica ganhem professores cada vez melhor qualificados e com melhores condições de exercer com excelência sua profissão.”

A prova está sendo acompanhada por um Comitê de Governança, onde estão as nossas entidades:

“Estão representados no Comitê de Governança a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME), o Conselho Nacional dos Secretários de Educação (CONSED), a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), a Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPED), a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), o Fórum Nacional de Diretores de Faculdades de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR), o Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC), a Secretaria de Ensino Superior (SESU/MEC) e o Ministério da Educação.”

Mas foi com o documento da SAE no Programa Pátria Educadora que ela emergiu claramente como certificação:

“Complemento da carreira nacional de professor pode ser Prova Nacional Docente. A prova seria organizada por analogia a outras provas de iniciação a profissionais. Seria ministrada após a conclusão do curso de pedagogia ou de licenciatura. (…) Exigiria de todos os professores demonstrar que estão preparados para ensinar nas áeas para as quais se credenciam. E, por isto mesmo, juntocom as outras iniciativas descritas em seguida, serviria como meio poderoso de influir nos cursos de pedagogia e de licenciatura.” (p. 18).

Portanto, as chances de que a Prova Nacional de Concurso em elaboração no INEP seja retomada após o término da base nacional comum como processo de certificação de professores é bastante grande.

Publicado em Avaliação de professores, Janine no Ministério, Responsabilização/accountability | Com a tag | 1 Comentário

Educadores do campo se organizam

Foi aberto hoje o II Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária com mais de 1.000 participantes. O encontro foi preparado em todos os estados brasileiros e inicia hoje em Luziânia (GO) nas proximidades de Brasília.

A abertura contou com a presença do Ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, e do Ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. Em sua fala o Ministro Renato Janine assinou Portaria criando um grupo de estudo para analisar questões relativas à educação do campo brasileiro.

O encontro faz uma análise do atual momento brasileiro. João Pedro Stedile, Coordenador do MST, falou sobre as crises econômica, política e social e ressaltou a necessidade de que os trabalhadores construam uma unidade em torno de propostas que se contraponham à atual política desenhada para o cenário brasileiro pelas elites.

Durante o dia vários pesquisadores examinaram as formas que têm sido desenvolvidas para a mercantilização da educação brasileira e recusaram a proposta educacional dos reformadores empresariais baseada na responsabilização, meritocracia e na privatização, entre eles Roberto Leher (Reitor da UFRJ), Monica Molina (UNB) e Rubneuza de Souza (MST). Também participou Thiago Wender do movimento Levante da Juventude.

Durante esta semana, o congresso segue desenvolvendo formas de enfrentamento a esta política que põe em jogo importantes conquistas da Educação do Campo, entre outros objetivos do evento.

Publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | 1 Comentário

ANA: a nota sumiu? – final

A questão da definição das escalas de proficiência tem sido motivo de preocupação em outros países. Nos Estados Unidos, segundo Bernie Horn, vários estados fizeram alterações nas notas de corte para alterar resultados de exames: New York, Florida, Columbia entre outros. As escalas são calibráveis e portanto podem atender a variados objetivos.

Uma transparência nos métodos e cálculos é fundamental. Nada impede, por exemplo, que quando se trata de mostrar que as escolas públicas são ruins e devem ser privatizadas, se possa elevar a dificuldade das escalas. Ou que quando se trata de mostrar que um governo está indo bem na educação, se possa afrouxar os critérios e mostrar avanço nas proporções de estudantes que estão nos níveis mais proficientes. É preciso que os cálculos de calibração das escalas não fiquem restritos ao interior da agência avaliadora e nem apenas a cargo de empresas terceirizadas.

Ao divulgar os resultados da ANA baseando-se somente em porcentagens de alunos distribuídos pelos níveis de proficiência, o INEP introduz mais subjetividade nos processos de avaliação e interpretação dos resultados, sem um maior esclarecimento sobre os procedimentos. A mudança de método de divulgação não impediria, até onde se consegue ver com as informações disponíveis, que não fosse feito uma relação com os dados de 2013. Não dá pelo menos para calcular a média e comparar, já que estão na mesma métrica? Poderiam ter sido mantidas as outras formas de divulgação paralelamente. Porcentagens de alunos por nível são baseadas nas pontuações dos alunos, embora não sejam as notas em si, como afirma Horn a respeito da situação nos Estados Unidos:

“Mas as únicas coisas que foram divulgadas são percentagens de alunos que supostamente se encontram nos níveis de “proficiência”. Elas não são as pontuações do teste – certamente não o que os pais entenderiam por pontuações. Elas são medidas completamente subjetivas.”

Mesmo assim, as administradoras da base nacional americana constituem painéis de 500 pessoas, incluindo aí pessoal com experiência em ensino, profissionais especialistas nas áreas e outros para formatar estas decisões. Isso não elimina os problemas existentes na sua elaboração, mas pelo menos dá transparência real às decisões e especialmente, aos seus limites. Não basta divulgar a escala e explicar seu significado, é preciso mostrar detalhadamente o método e o processo pelo qual a “régua” foi constituída. Sem isso, não há credibilidade nas medidas. É especialmente importante tornar claro os limites interpretativos das escalas.

Há um conjunto de decisões no campo estatístico e pedagógico que interagem para permitir a construção de uma determinada escala de desempenho. Tais construções estão permeadas por decisões da equipe que trabalha em sua produção. Infelizmente, no Brasil, não temos tradição de ter relatórios completos de aplicação das provas e de decisões técnicas.

Outro aspecto a ser considerado é que as provas do INEP na Avaliação Nacional da Alfabetização estão no limite do limite quanto ao número de itens que compõem o teste: 20. Note que em apenas 20 situações de teste os estudantes são chamados a mostrar o seu domínio em alfabetização e em outras 20 situações seu domínio de matemática.

Isso acontece porque o governo insiste em fazer uma avaliação censitária que permita atingir todos os estudantes. Temos uma avaliação censitária porque queremos “vigiar e punir”. Fosse uma prova amostral, poderíamos, como fazíamos com o SAEB antigo, trabalhar com uma maior abrangência de itens avaliando mais conteúdo, em uma formatação em que nem todos os estudantes tivessem que responder aos mesmos itens. Dessa forma, várias versões de uma prova de matemática, por exemplo, abrangendo muito mais itens de conteúdo poderiam ser aplicadas aos alunos e, no conjunto, ter-se uma visibilidade melhor de como uma maior quantidade de conhecimento foi assimilada ou não pelos estudantes. Este deveria ser o objetivo da avaliação para formular política pública e não para o controle das escolas com responsabilização verticalizada. Precisamos trocar este tipo de responsabilização vertical e autoritária, por uma responsabilização participativa – esta não exige avaliação censitária.

Se queremos de fato ajudar a educação nacional, implantemos avaliação amostral com uma maior abrangência de itens avaliados. Fortaleçamos sistemas municipais de avaliação participativos que mobilizem as forças positivas existentes dentro das escolas. Façamos das nossas escolas um centro cultural impulsionador da qualidade. A vigilância baseada em avaliação censitária não nos levará longe. São as escolas que devem ter protagonismo na avaliação, suas comunidades internas e externas, e não o INEP. A este caberia incentivar, estimular e apoiar tecnicamente os municípios para que eles organizassem os processos de avaliação locais. É na ponta do sistema que se joga o destino dos alunos e não nas planilhas e bases de dados divulgadas pelo INEP. É falsa a ideia de que os professores não conhecem a realidade de seus alunos nas escolas e com isso precisam de avaliação externa.

Preferimos gastar mais fazendo uma avaliação censitária pelo desejo de controlar cada escola. Com isso estreitamos a abrangência dos exames, limitamos o alcance da avaliação, somos forçados a trabalhar com poucos itens e iguais para todos, pois com a idade de oito anos não podemos fazer provas prolongadas sob pena de promover o cansaço dos estudantes e consequentemente interferir com o que eles de fato aprenderam. Há caminhos alternativos.

Finalmente, uma palavra sobre a “vergonha do Ministro“. Porta-se como se não fizesse parte de um governo que está há mais de 12 anos cuidando da educação. Esquece-se que recentemente fomos objeto de elogios nas avaliações latino-americanas do TERCE:

“Os países foram ordenados em três grandes grupos em função da média: significativamente abaixo da média; significativamente na média, ou significativamente acima da média. Quando comparado regionalmente, o Brasil se sai bem pois as médias em todas as medições de todas as disciplinas, para desgosto dos economistas de plantão, está ou equiparada à média latino americana ou acima dela. Mais informações aqui.”

Em julho deste ano a Assessoria de Comunicação do INEP escreve:

“Estudantes brasileiros do ensino fundamental tiveram, em 2013, desempenho destacado em matemática e leitura, de acordo com o 3º Estudo Regional Comparativo e Explicativo (Terce), realizado pelo Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação (Llece).”

Agora, com a divulgação do resultado da ANA, viramos uma “vergonha”. Há que se indagar: a média agora não conta mais e só consideramos a porcentagem de respostas por níveis de proficiência? Posso até concordar com as vantagens de se observar mais pormenorizadamente a movimentação dos estudantes no sistema, a partir do cálculo de porcentagens por níveis, do ponto de vista da equidade. Mas quem define os níveis. Quem define o grau de dificuldade das provas. Uma forma de apresentação dos dados não exclui a outra. Elas são igualmente precárias e, portanto, melhor lidar com as duas.

Publicado em ANA - alunos de 8 anos, Janine no Ministério, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

ANA: a nota sumiu? – I

A ANA – Avaliação Nacional da Alfabetização – “causou” nesta semana (veja aqui, aqui, aqui e aqui), juntamente com a divulgação da Base Nacional Comum. Muitos ficaram horrorizados com os resultados. O Ministro falou em “vergonha”. Não é mera coincidência que a ANA seja divulgada simultaneamente com a discussão da Base Nacional Comum. INEP e SEB, responsáveis respectivamente pela ANA e pela Base, comungam dos mesmos ideais: a montagem de um grande “big brother” que monitore escolas pelo país afora. E é claro, nada como uma boa crise para ajudar a passar mudanças – já dizia Friedman. A “crise” veio do INEP, com os resultados da ANA. A “mudança” proposta veio da SEB, com a base nacional. Síntese: precisamos da Base Nacional para evitar a catástrofe da ANA.

Em meio a isso é curioso constatar que o INEP mudou a forma de apresentação dos resultados da aprendizagem dos estudantes na ANA. Onde está agora a nota do aluno, a pontuação dos estudantes nos testes? Só temos porcentagens de alunos por “níveis de desempenho”. Criou-se uma escala nacional de desempenho cuja média é de 500 pontos e o desvio padrão 100. A partir daí, se interpretou características pedagógicas do desempenho dos alunos nos intervalos através de itens âncora da prova. Os estudantes foram agrupados em “níveis” a partir da pontuação obtida na prova, mas a pontuação em si, sumiu. Virou porcentagem.

A avaliação não é exatamente o campo da objetividade, mas os “níveis de desempenho” são construções que envolvem mais subjetividade ainda. O “score” ou a pontuação é o dado básico de desempenho dos estudantes.

O problema com os níveis é quem os define, quais são os itens âncoras de cada nível, quantos serão os níveis, etc. São feitos por equipes de especialistas. Quem escolhe? Mais ainda, quem compõe tais equipes?  Qual o papel das terceirizadas que possam ter prestado serviço ao INEP neste processo? Uma nota técnica do INEP resume apenas a metodologia. Nela pode-se ler:

“Para a realização desses procedimentos são formadas duas equipes: a primeira é constituída por especialistas nas habilidades avaliadas e a segunda por especialistas da área da medida. Coube à equipe pedagógica a determinação do número de níveis de desempenho, a definição dos pontos de corte que marcam mudança de nível de desempenho e a descrição pedagógica dos níveis. Já à equipe da área de medidas cabe a realização da correspondência entre os pontos de corte (baseados no parâmetro de dificuldade dos itens) e as proficiências além da determinação do percentual de estudantes alocados em cada nível.”

Veja aqui um vídeo em que o INEP apresenta as escalas.

O INEP optou por não dar uma denominação para os níveis de proficiência e apenas numerá-los. Em outros países, os níveis recebem denominações como: abaixo do básico, básico, proficiente e avançado. No Brasil, optou-se na divulgação da ANA por nível 1, nível 2, nível 3 e nível 4. Na dependência da disciplina avaliada, há mais ou menos níveis.

Apenas numerar os níveis, no entanto, deixa em aberto que sejam classificados, depois, como quisermos. Permite, por exemplo, que se diga que os níveis 1 e 2 são “inadequados”. Qual a vantagem disso? Ou seja, não se dá uma denominação, mas se deixa em aberto para se denominar depois. Além disso, deixa em aberto que pela mídia se façam interpretações:

“Em matemática, 57% dos alunos apresentaram níveis inadequados de aprendizado na avaliação de 2014 — praticamente o mesmo índice do ano anterior, quando o exame foi aplicado pela primeira vez.”

Para se chegar a 57% temos que somar os dois primeiros níveis rotulando-os de “inadequados” a posteriori. No caso de escrita, para chegar aos 35% inadequados, há que se somar os três primeiros níveis da escala. Não é assim em outros países onde eles são denominados por “abaixo do básico” e “básico”. Bem diferente. Outra forma de se construir escalas? Quais são as opções que temos?

Todas estas são decisões que além de técnicas são também subjetivas. Os professores, as escolas e seus alunos não podem ser avaliados por escalas que não sejam claramente explicadas. E o público em geral não vai entender como esta escala foi construída se ela não for explicada claramente.

E não basta a nota técnica. Ela é apenas metodológica. É preciso que o INEP divulgue o estudo concreto com os dados de 2013 e 2014 que levaram à construção destes níveis. Não falo de microdados, falo do estudo específico que motivou a escala. O cidadão não é obrigado a processar dados para entender relatórios mal feitos do INEP.

As entidades da área educacional devem cobrar tal estudo (que talvez tenha sido feito por alguma terceirizada) e se não aparecer, exigir que seja entregue por meio da Lei de Acesso à Informação.

Além disso, é preciso levar em conta nas análises dos dados as situações que orientaram a inclusão ou exclusão de dados das escolas no cálculo:

  1. As escolas com menos de 10 alunos presentes na avaliação não foram incluídas. Isso significa que se tiveram apenas 11, foram incluídos.
  2. Escolas com menos de 50% de alunos presentes na avaliação não foram incluídas. Pelo oposto, significa que se tiveram apenas 51% dos alunos na avaliação foram incluídas. Nos Estados Unidos exige-se 90% ou mais de presença.
  3. Escolas multisseriadas não estão incluídas.
  4. Escola que teve proficiência em escrita, mas não teve proficiência na prova objetiva de língua portuguesa, também não foi incluída.

Um relatório nacional, não pode deixar de dar uma posição geral sobre como estes e outros parâmetros se comportaram na aplicação em nível nacional e regional. Onde está o relatório técnico da aplicação das provas? Estes dados não podem ficar apenas no interior de bases de dados para consulta ou no interior do INEP. A própria interpretação que a mídia está dando, depende destes parâmetros aqui mencionados, além do que já foi dito sobre a própria construção das escalas.

Ou o INEP dá transparência a seus cálculos e faz um relatório decente, ou não há como acreditar em suas análises. Veja aqui um exemplo de relatório bem feito (em inglês) de uma avaliação nacional amostral (NAEP americano).

Continua no próximo post.

Publicado em ANA - alunos de 8 anos, Janine no Ministério, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Política Educacional e Base Nacional – final

Ter uma base nacional comum é possível e desejável, na dependência do que queiramos fazer com ela. Se é para se ter uma referência que dê parâmetros para as escolas(combinando conteúdos e níveis de complexidade de desempenho), tudo bem. Se é para responsabilizar escolas, impor uma cultura padrão sobre outras culturas, punir ou premiar professores, trocar diretores, pagar bônus, credenciar professores, orientar grandes conglomerados empresariais a produzir material didático, privatizar, engessar a formação de professores e outras ideias já testadas em outros lugares e que destruíram por lá o sistema público de educação, então a resposta é não.

Daí porque é importante discutir, primeiro, o que é uma boa educação e ter uma política educacional que acolha tal base de forma adequada. Invertemos e vamos pagar um preço alto por isso, nos dando conta, no momento seguinte, que a política educacional não foi adequadamente definida, pois estava baseada em conceitos equivocados de pressão sobre as escolas e seus profissionais, oriundos da área dos negócios. Décadas poderão passar até que saiamos deste beco, como é o caso de outros países nesta situação.

O que se prevê em seguida a esta base nacional informada pela política educacional dos reformadores empresariais? Acertada a base nacional, virá o ajuste das avaliações nacionais (ANA, Prova Brasil e ENEM). Em seguida, a implementação da Prova Nacional Docente e por ela, a avaliação e engessamento das instituições formadoras de professores – com provável credenciamento de professores (o de diretores já foi anunciado pelo Mec). Pressão sobre escolas, professores e alunos. Apostilamento da base nacional por sistemas de ensino de grandes corporações em escala nacional.

É por isso que cada um dos objetivos de aprendizagem constantes do “Catálogo Nacional de Obetivos” ou base nacional comum, já nasce com uma sigla (por exemplo: LILP1FOA002) Esta é a sigla de um objetivo que “perseguirá” cada escola brasileira para “ver” como ela está se saindo. Cada uma destas siglas será convertida em outras amarrando a ela descritores de aprendizagem, em seguida a itens que comporão o banco nacional de itens das avaliações nacionais. Bases de dados (big data) serão construídas para registrar e acompanhar cada sala de aula em cada escola. Uma política educacional baseada em “controle” vai emergir para atormentar a vida de pais, alunos, professores e diretores. Pressão de escolarização antecipada sobre a educação infantil.

Sob a batuta de uma avaliação nacional censitária que atinge todas as salas de aula, a implementação de pagamento por desempenho fica a um passo. Aqui o problema não é se vamos ou não ter avaliação: nada contra a avaliação e nada contra uma avaliação amostral que permita elaborar política pública. Tudo contra avaliações censitárias destinadas a pressionar escolas e seus profissionais. Por que? Simplesmente porque não funciona.

Note-se que sem nenhuma conexão aparente com a base nacional, em outra ação, discute-se o Sistema Nacional de Educação, onde teremos as propostas deixadas pela Secretaria de Assuntos Estratégicos do ex-ministro Mangabeira pedindo a organização de um sistema de acesso a recursos federais condicionado a desempenho dos alunos nas escolas, tendo como referência a base nacional.

E o círculo se fecha sufocando a escola. Ao invés de empoderarmos as escolas e os profissionais da educação, estamos construindo um manto de controle sobre a escola que sufocará suas iniciativas e padronizará sua atuação, destruindo o sistema público de educação.

Onde esta estratégia foi seguida, só houve um beneficiado: os empresários educacionais e suas organizações sociais com ou sem fim lucrativo. Não houve melhora sequer nos índices educacionais medidos por testes. Conduziu apenas a mais privatização e a mais segregação escolar.

Portanto, aqui, não está em discussão apenas se devemos ou não ter uma base nacional comum. Está em jogo a política educacional equivocada que está sendo construída e que, dentro dela tem uma base nacional comum.

Nota: o pessoal das habilidades socioemocionais está decepcionado por não haver também especificação destas na base nacional do MEC. Vão vir com tudo para que sejam incluídas. Se incluírem, vamos ter traços de personalidade virando política pública. A história registra a que isso conduz.

Publicado em Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag | 3 Comentários

Política Educacional e Base Nacional – II

Apesar da ampla comemoração pelo nascimento da base nacional comum obrigatória, ela começou mal seu caminho. De costas para as principais entidades da área da educação. Entidades como a ANPED – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Educação e a Associação Brasileira de Currículo, onde está sediada a pesquisa, não participaram, por conta da forma como a proposta estava organizada. Conduzida na ótica dos reformadores empresariais, fez-se a escolha de apoiar-se mais em áreas de conteúdos específicos de ensino.

Isolado das entidades que poderiam promover uma discussão de fundo, restou fazer uma lista de conteúdos – um Catálogo Nacional de Objetivos, ao estilo do saudoso estudo de Benjamin Bloom nos anos 60 – taxionomia dos objetivos educacionais. Penso que até era mais elaborado que a nossa base.

Janine não fez nada, ou não pode fazer nada, para resolver o rompimento com as entidades educacionais e a SEB. Não pode colocar lá um Secretário que tivesse trânsito junto às entidades educacionais nacionais que tratam da pesquisa da política educacional e da elaboração de currículo, pois está limitado em suas opções pela Casa Civil – leia-se Mercadante. O Secretário da SEB que cuidou da proposta da base nacional é uma herança da era Cid Gomes que ele não pode remover. Isso certamente, terá consequências na implementação da proposta.

A opção por uma base nacional ancorada em uma política de pressão sobre as escolas remete a uma série de outras decisões que não estão sendo discutidas, mas que estão sendo supostas pelos entusiastas da atual base nacional.

Como já foi comentado, partimos da base nacional comum. Devíamos ter partido da política educacional.  Para agravar, estamos acostumados a fazer mudanças na educação a partir de interesses e crenças e não com evidência empírica. Quando se afirma a evidência, não raramente é baseada em um ou outro estudo que referenda o que se pensa e se deixa de lado o contraditório. Meta-avaliação, que considere o conjunto dos estudos disponíveis, nem pensar. Perda de tempo, muita conversa, como diz a Folha. Estudos isolados de Banco Mundial e OCDE viram “evidência empírica”. Qualquer pensamento um pouco mais profissional e conceitual, vira “pedagogês” a ser eliminado – é o tamanho da paciência que se tem para os assuntos da educação. Se deixar mandam a ABNT padronizar…

No entanto, se ninguém acha que o simples fato de se ter uma base nacional comum irá resolver o problema das nossas escolas, então, por que tanto entusiasmo? Uma explicação possível, é que a base nacional obrigatória representa a abertura oficial da era da “responsabilização” e da “meritocracia”. Na verdade, ela supõe isso. Para quem defende este ponto de vista, não se pode responsabilizar a escola, o diretor e o professor, sem fixar um ponto de referência comum e obrigatório. Esta referência é a base nacional comum. Daí a comemoração.

Continua no próximo post.

Publicado em Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag | 1 Comentário

Política Educacional e Base Nacional – I

Os reformadores empresariais costumam defender a existência de uma base nacional no Brasil argumentando que os países que têm bom desempenho em educação têm sua base nacional comum (leia-se, obrigatória). O que não enfatizam é que esta base nacional está inserida em uma concepção de educação e em uma política pública.

Com a internacionalização das políticas públicas, o que estamos assistindo é a exportação, sob comando da OCDE, das práticas de se efetivar educação na ótica dos reformadores empresariais da educação. O conceito de “boas práticas” tem servido para isso. Nos países dos quais estas práticas são importadas, elas estão inseridas em políticas, são conformadas por estas e ao importarmos tais práticas, importamos junto as suas concepções e suas políticas de fundo. Esta é a questão que tem passado sem debate.

Não temos uma política pública própria para a educação brasileira. Não considero o PNE – Plano Nacional de Educação – uma política. É um texto do congresso sem a organicidade necessária a uma política. O esboço de política pública mais próximo que temos é o texto da CONAE – Conferência Nacional de Educação – que não foi considerado para nada na questão da elaboração da base nacional obrigatória.

A primeira versão da base nacional comum está disponível. Terá até junho de 2016 para receber uma versão definitiva, aprovada no Conselho Nacional de Educação. Mas o tempo para discussão será menor. A mídia está exultante e tem pressa. Em editorial “comemorativo, com direito a página três da Folha redigido pela Fundação Lemann, a mídia pede urgência e celeridade na implantação.

“Pela enésima vez, diz o Editorial da Folha, urge que se diga: não é mais de discussão que a educação brasileira precisa, mas de decisão e ação – as matérias que hoje mais faltam no Planalto.”

Boa parte está contente por ter uma base nacional obrigatória. Nossa tradição autoritária pede decisões fortes. Decisão e ação, nada de discussão diz a Folha de São Paulo.

O grande problema, aqui, não é ter ou não ter uma base nacional, como se quer fazer parecer, mas é a própria concepção de base nacional que se está usando e seu isolamento da discussão da opção por uma política educacional nacional que deveria assegurar seu cumprimento. O processo está invertido.

Não estamos falando é claro, da implementação da base nacional ao nível de sala de aula. Neste nível, sem dúvida, a base nacional vem antes. Se não sei o que vou ensinar, não posso discutir como. Mas o mesmo não é verdadeiro quando se trata da política educacional em geral. Neste caso, não se trata de ensino e sim de planejamento global, de remoção de obstáculos que impedirão o desenvolvimento da própria base nacional no momento seguinte. Trata-se de pautar os grandes problemas da educação brasileira e suas formas de encaminhamento, sem o que uma base nacional não será efetivada.

Na política educacional é preciso desenhar a estratégia e desenvolver suas partes de forma orgânica e articulada. Algo que sempre faltou no MEC. Uma base nacional comum é apenas uma parte da política educacional nacional, a qual envolve uma concepção de educação, uma concepção de sistema nacional de educação, uma elaboração de sistema nacional de formação de professores, sistema nacional de avaliação, financiamento, etc. Não temos uma proposta de política educacional que nos oriente – estamos importando-a pela via dos reformadores empresariais da educação.

Antes de tudo, uma política educacional precisa definir um projeto de formação para a juventude. É isso que a Folha e os próprios reformadores não querem discutir. De fato, não precisam discutir, pois esta orientação geral já está pressuposta e aceita para eles nas práticas que importam: a introdução da concorrência, da competição e do mercado nas relações educacionais.

Ao formatar uma base nacional com finalidade de avaliar os estudantes, as escolas, produzir material didático, definir a formação de professores, todas estas ações ficam subordinadas aos pressupostos da base nacional que está sendo desenvolvida: com foco na avaliação e responsabilização dos agentes escolares. Aqui já está assumida uma determinada política educacional. Há uma palavrinha que é chave: obrigatória. Pela primeira vez, vamos ter um rol de objetivos de aprendizagem obrigatórios, portanto, esta característica já está alinhada com a própria política que deu origem a esta concepção de base nacional em outros países.

Por que os reformadores estão empenhados nela? Porque se não é nacional e obrigatória, não há como responsabilizar as escolas. E para eles só se melhora a educação a partir de avaliação e responsabilização dos agentes. Esta é a política que orienta esta base: a lógica da pressão sobre as escolas que está sendo aceita sem debate. Ela se articula com a avaliação censitária já em vigor no INEP.

Vai-se direto para a discussão de quais são os conteúdos de ensino e pula-se a conceituação, por exemplo, do que entendemos por garantir uma boa educação para a juventude. Com isso, deixamos que os reformadores empresariais firmem a concepção de que nota alta nos testes é boa educação e garantia de aprendizagem dos conhecimentos básicos nas várias disciplinas. Podemos dormir tranquilos: os direitos de aprendizagem foram garantidos. Falso, com isso, apenas deixamos a porta aberta para a segregação escolar embutida nos processos de medição e classificação.

Recentemente pudemos ver como nos Estados Unidos os governos graduam a aplicação das escalas de proficiência com o objetivo de alterar a porcentagem de alunos que são considerados proficientes ou não em um determinado nível da escala – para mais ou para menos. Para mais, quando se trata de mostrar eficiência dos governos. Para menos quando se trata de induzir privatização das escolas públicas.

Sempre que um direito é assegurado por lei, logo os liberais se refugiam no livre arbítrio do indivíduo ou no esforço pessoal, para continuar a sonegá-lo. A nota nos testes, produzidos a partir da base nacional, como referência de boa educação e garantia de direitos é o refúgio perfeito para a continuidade da exclusão em sua forma oculta e “justificada”, ou seja, mote perfeito para a aplicação da lógica liberal de que a oportunidade foi dada, mas o indivíduo não soube aproveitar. Os países que aplicaram estas políticas não melhoraram os “gaps” de inclusão – ou ficaram igual ou aumentaram a exclusão escolar no interior da escola. Há farto material sobre isso neste blog.

Continua no próximo post.

Publicado em Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão | Com a tag | 2 Comentários

Meritocracia (por Bill Gates)

As 11 regras de Bill Gates, ou: o que devemos entender por meritocracia:

Regra 1: A vida não é fácil. Acostume-se com isso.

Regra 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa de útil por ele (o mundo) antes de aceitá-lo.

Regra 3: Você não vai ganhar vinte mil dólares por mês assim que sair da faculdade. Você não será vice-presidente de uma grande empresa, com um carrão e um telefone à sua disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e ter seu próprio telefone.

Regra 4: Se você acha que seu pai ou seu professor são rudes, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

Regra 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seu avós tinham uma palavra diferente para isso. Eles chamavam isso de “oportunidade”.

Regra 6: Se você fracassar não ache que a culpa é de seus pais. Não lamente seus erros, aprenda com eles.

Regra 7: Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por terem de pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então, antes de tentar salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente arrumar o seu próprio quarto.

Regra 8: Sua escola pode ter criado trabalhos em grupo, para melhorar suas notas e eliminar a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar para ficar de DP até acertar. Isso não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola está despedido… RUA! Faça certo da primeira vez.

Regra 9: A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre férias de verão e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Regra 10: Televisão não é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

Regra 11: Seja legal com os CDF´s – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles.

Eis o que pensa o filantropo Bill Gates um dos maiores financiadores da educação americana. Eis sua “filosofia de educação”, apresentada em uma festa de formatura em uma universidade da California. Ela está baseada na visão do mundo dos negócios. É esta visão que vai penetrar nas escolas orientadas pela reforma empresarial da educação: concorrência, competição, meritocracia.

Conselho de rico para os pobres.

——————————————–

PS.: Alerta uma leitora que há controvérsia quanto à autoria destas regras serem atribuídas a Bill Gates, o que não significa que ele não as tenha incluído no seu discurso. Consulte aqui.

Publicado em Meritocracia, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Base nacional é divulgada

O MEC divulgou na tarde de hoje a proposta de Base Nacional Comum.

Acesse aqui.

Publicado em Assuntos gerais, Janine no Ministério, Links para pesquisas, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Mercadante: I’ll be back!?

Cada turbulência política que ameaça tirar Mercadante da Casa Civil, aparece o boato de que ele irá voltar para o Ministério da Educação. Como isso é cíclico, estamos agora com nova onda de boatos sobre “a volta”.

Janine tem confidenciado a assessores seu desconforto. O MEC nega. Para a educação, a substituição de Janine por Mercadante não é uma boa troca. Mercadante já passou pelo Ministério da Educação e o que se viu foi que o lugar é pequeno para seus objetivos. Passava mais tempo pensando na política nacional do que nos problemas da pasta, a qual era conduzida de fato por Paim, que era seu secretário executivo. Além disso, não conhece suficientemente os problemas da área.

No entanto, é preciso dar autonomia para Janine inclusive definir seus secretários. Até hoje o Ministro não conseguiu alterar a composição de Secretarias deixadas por Cid Gomes. A Secretaria de Educação Básica do MEC é uma delas, tendo estado em permanente rota de colisão com as principais entidades da área da educação. Hoje o Ministério está engessado pela Casa Civil que é conduzida por Mercadante.

Publicado em Assuntos gerais | 2 Comentários

Mangabeira deixa governo

Logo após os anúncios dos cortes orçamentários do governo, o Prof. Mangabeira Unger da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e autor dos documentos do Programa Pátria Educadora, entregou sua carta de demissão, a qual foi aceita pela Presidenta.

O desgaste vinha aumentando com a disputa entre Mangabeira e Janine do Ministério da Educação. A decisão do governo centrar no Plano Nacional de Educação e não na proposta do Pátria Educadora pesou na decisão, juntamente com o fato da SAE estar cotada para perder status de ministério na reforma do governo.

Termina assim uma novela. No entanto, outros Mangabeiras virão. Além disso, seus documentos e ideias poderão ser retomados pelos conservadores e liberais através dos projetos de lei em tramitação no Congresso. O próprio Mangabeira pode ficar por perto do governo na forma de “consultor”, como propôs a Presidenta ao aceitar sua demissão da SAE.

Publicado em Assuntos gerais, Patria Educadora, Responsabilização/accountability | Deixe um comentário

Base nacional comum: a receita toda

Qual a extensão das reformas que estão em curso no Brasil e que têm sua ancoragem na elaboração da base nacional comum? Consultando o mesmo movimento nos Estados Unidos podemos encontrar quatro pilares destas reformas:

  1. Definição dos padrões nacionais e elaboração da avaliação
  2. Ações de medição do desempenho do professor (avaliação por valor agregado)
  3. Recuperação de escolas de baixo desempenho
  4. Construção de base de dados

A elaboração da base nacional comum é, portanto, apenas um dos elementos da cesta completa das medidas especificadas acima. Para poder entender as ações fragmentadas em curso no Brasil, é preciso olhar para um país em que elas estejam interligadas e mais adiantadas, pois as relações não são evidentes por aqui. Mas a cesta completa aparece em variadas ações em andamento no governo brasileiro:

  1. A base nacional comum está em desenvolvimento no MEC e a SAE ameaça fazer uma também. Os padrões nortearão a avaliação do estudante, quer motivará a revisão da Prova Brasil e do ENEM – inclusive, como nos EUA, em versão on line.
  2. A avaliação do professor aguarda a base nacional comum ser definida, pois depende dela para desenvolver instrumentos para medir o conhecimento dos professores (inclusive no processo de credenciamento, atualmente conhecido como Prova Nacional). Somente depois disso ela poderá progredir.
  3. A recuperação de escolas de baixo desempenho está prevista nas ações da SAE de forma muito clara no segundo documento da Pátria Educadora.
  4. As bases de dados já estão sendo construídas em parcerias com a iniciativa privada, tal como o caso da plataforma de devolutivas do INEP já disponibilizada para as escolas.
  5. Agregue-se, no caso brasileiro, o desenvolvimento do sistema nacional de educação que atualmente tem duas propostas: a da SAE e a da SASE/MEC. Os EUA desenvolveram uma superestrutura de controle dos Estados desde 2002 com a lei de responsabilidade educacional americana.

Isso na esfera federal. Nos estados, há muitas outras ações como estas em andamento.

Em 2009 nos Estados Unidos, governadores de 46 estados e três territórios assinaram um acordo detalhando como eles iriam implementar a base nacional comum. Foi prometido a eles bilhões de dólares pela iniciativa. Mesmo modelo do documento Pátria Educadora da SAE.

“As quatro garantias não existem no vácuo. Para melhorar os resultados educacionais dos estudantes nos EUA e se qualificar para o financiamento do Race to the Top, os governadores terão de trabalhar em todas as quatro frentes simultaneamente. As questões discutidas neste relatório estão todas interligadas, e as políticas que podem parecer susceptíveis de melhorar uma área podem ter consequências inesperadas para outra área da reforma. Joanne Weiss, do Departamento de Educação dos EUA explicou que ao decidir que os estados receberão apoio de 4.35 bilhões de dólares no Race to the Top, ele vai estar olhando para planos integrados que abordem as quatro áreas da reforma. Por isso, os Estados devem trabalhar em conjunto na melhoria dos padrões e avaliações, aumentando a eficácia do professor, fornecendo suporte para as escolas de baixo desempenho e reforçando a qualidade dos dados.”

No MEC, entretanto, há um documento da SASE que é alternativo ao da Pátria Educadora. Se ele avançar, talvez possamos colocar a organização do sistema nacional de educação em outra direção, mas isso não anula as ações que já estão em curso, listadas acima.

Publicado em Avaliação de professores, Enem, Janine no Ministério, Meritocracia, Patria Educadora, Privatização, Prova Brasil, Responsabilização/accountability | Com a tag | 2 Comentários

Cair de pé Presidenta

Há algum tempo, por ocasião das últimas eleições, escrevi que se do ponto de vista político não era tão bom com Dilma, seria pior sem ela. Continuo achando o mesmo. O dia seguinte da saída de Dilma, que parece cada vez mais próximo, será marcado por decisões de um arco de alianças entre conservadores e liberais que jogará a educação nas mãos das ideias dos reformadores empresariais, nas mãos do mercado. E não só a educação, é claro.

Dilma está espremida entre seus compromissos originais com a agenda eleitoral e as pressões para que faça a agenda liberal, incluído aí o cerco dos empresários e banqueiros e seus arautos na mídia. Na medida em que acena para os conservadores, vai perdendo o próprio apoio dos progressistas. Acreditar que terá apoio de todos mesmo realizando a agenda liberal-conservadora é acreditar em papai noel.

O papel do PMDB na desarticulação do governo é visível. O Congresso virou um agente de desgoverno e desestabilização nacional a serviço do impeachment “a la Paraguai”. A agenda liberal se executada por Dilma retirará exatamente o apoio dos progressistas e não trará apoio dos liberais e conservadores. Acharão outros motivos para não apoiar. Dilma não vai conseguir fazer nem uma agenda e nem outra, porque na realidade isso é apenas uma injunção criada para retirá-la da presidência, a qualquer preço.

Penso, portanto, que só há uma saída: ser coerente com o pensamento que a elegeu. É secundário se ela continuará ou não na presidência. Na história, ela não terá sido a única a ter enfrentado injunções como esta, e ter caído de pé. A responsabilidade, de retirar uma presidenta eleita por manobras ditas “constitucionais”, deve ser assumida perante a história por quem a retirar de lá. A história vai examinar as ações de cada um dos atores como faz agora com as ações tomadas durante a ditadura. Pode-se enganar através da mídia, hoje, como também se fez na ditadura, ontem, mas não se poderá enganar amanhã a história, como a ditadura não consegue também fazer hoje.

Portanto, cair de pé é melhor do que tentar segurar o mandato descaracterizando-o e apanhando agora de todos e depois da própria história.

Compete às forças que se alinham com o projeto original de Dilma, dar a ela todo o apoio possível na realização deste projeto, independentemente de ela ser ou não deposta.

Esta janela de progresso social que agora pode ser fechada, voltará a ser aberta pela ação daqueles que serão cada vez mais atingidos pelas próprias medidas da “nova aliança” conservadora – a segunda onda neoliberal latino-americana.

Publicado em Assuntos gerais | 9 Comentários

Bauman: crise de atenção

Z. Bauman esteve ontem no Educação 360 promovido pelo Globo. Segundo ele a internet tirou a paciência e erodiu a persistência dos jovens. Não conseguem ler mais textos longos. Além disso, sobre a Inglaterra, país em que está radicado diz:

“Uma das tarefas da educação é conferir a todas as pessoas que tenham talento a possibilidade de adquirir conhecimento para que isso acabe tendo um uso criativo para a sociedade. Mas esse objetivo não está sendo perseguido em muitos lugares. Na Grã-Bretanha, os preços, em vez de diminuírem para as pessoas com menos dinheiro, vão subindo. E cada vez menos pais têm a possibilidade de economizar a quantia necessária para seus filhos cursarem a universidade.

O problema, segundo Bauman, é que a educação está pressionada pela política e pelos interesses corporativos. E isso, explica ele, se reflete na mente do estudante. O polonês critica o fato de os alunos escolherem a área de estudos baseados “no fato de se vão conseguir emprego ou não”. “

Leia mais aqui.

Bauman é um autor que consegue fazer análises sociológicas sobre fatos contemporâneos em uma linguagem ao mesmo tempo densa e acessível. Tem vários de seus livros traduzidos no Brasil. O mais conhecido é Modernidade Líquida. Mas tem também Amor Líquido, Vida a Crédito e Vida para Consumo. Todos da Ed. Zahar.

Bauman considera que “não há como voltar à situação em que o professor é o único conhecedor, a única fonte, o único guia”.”

Publicado em Assuntos gerais | Deixe um comentário

Novo aluno ou novo estudante?

Esta semana estivemos no Educação 360, evento promovido pelas Organizações Globo. O tema de nosso debate com o Prof. Mozart Ramos Neves do Instituto Airton Senna, mediado por Antonio Gois, jornalista de O Globo, foi: “Novo aluno, velho aluno: o papel das competências socioemocionais”.

Antes de nosso debate, como cheguei antes, assisti a bela exposição do pessoal da Finlândia sobre as reformas educacionais naquele pais: coisa de dar inveja. Uma frase lapidar ante perguntas sobre avaliação que rolaram logo após sua exposição e que foi dita pela expositora: “Nós não inspecionamos nossas escolas”.

A linha geral de análise que pude desenvolver nos 20 minutos disponíveis, nem sempre de forma clara, foi a seguinte:

  1. A discussão sobre um novo aluno não deve ser feita por contraposição “velho aluno – novo aluno”, mas sim entre “velho aluno – novo estudante”. Isso é importante, pois não devemos transferir as características do velho aluno para o novo, ou seja, não podemos transferir a posição passiva que ele ocupa no interior da sala de aula para a nova formatação. Temos que mudar o papel do aluno e transformá-lo em um estudante. Daí a contraposição “velho aluno – novo estudante”.
  2. O segundo aspecto é que não podemos discutir o novo aluno, sem discutir um novo professor. A escola não é um prédio, como dizia Shulgin, é uma relação. São as relações que promovem a aprendizagem. A principal delas é a que ocorre entre o professor e o estudante. Ambos devem converter-se em estudantes. O que os diferencia é o grau de conhecimento e experiência – e não a autoridade de um sobre o outro, valendo-se da avaliação.
  3. Mudar esta relação, ou seja, introduzir novas formas de ensinar e aprender, implica em negar as funções sociais históricas que a escola teve até agora, ou seja, a função de excluir e subordinar os alunos aos professores no interior do local preferido de realização da atividade pedagógica na escola atual: a sala de aula isolada da vida.
  4. Tais funções sociais antigas, devem ser substituídas por funções sociais novas, ou seja, conectar a escola com a atualidade e promover a auto-organização dos estudantes.
  5. Acontece que a escola, ao atualizar as funções sociais antigas pelas novas, promove o conhecimento da realidade e das suas contradições e com isso conscientiza sobre os problemas da atualidade. Isso nem sempre é interessante para o sistema. Portanto, desde os tempos de Dewey a escola vive esta esquizofrenia: entende que precisa conectar-se com a vida, mas resiste a fazê-lo pois com este passo, abre a escola para os problemas da vida e a conscientização do estudante. A escola sempre procurou, antes de colocar o aluno em contato com a vida, controlar o que ele pensava, dar a ele uma “explicação” sobre o mundo de forma a direcionar sua consciência sobre a realidade.
  6. Como o advento da informatização e dos dispositivos móveis, a escola sente-se, agora, ameaçada. O professor não é mais a única porta de acesso à informação. Além disso, as novas tecnologias empresariais exigem que o aluno tenha uma visão mais abrangente, mais “conectada”, mais abstrata, mais interdisciplinar. Mas tudo isso significa perder controle sobre a constituição da interpretação de mundo do aluno. Na medida em que mais informação se conecta, mais difícil mascarar e controlar a interpretação da vida.
  7. A escola, cobrada pela evolução das tecnologias e novas formas produtivas inevitáveis para a organização da produção, precisa formar o novo trabalhador, mas precisa, ao mesmo tempo, não perder o controle do processo educativo, da formação da visão de mundo do aluno. Solução: aumento de controle sobre a escola.
  8. O aumento de controle se expressa no professor como apostilamento, pagamento por bônus, perda de direitos trabalhistas que o colocam à disposição do empregador, ensino por protocolos, credenciamento, exames e simulados. Em relação ao aluno, se expressa na forma de implementação de formas de controle mais sofisticadas entre as quais se incluem as habilidades socioemocionais e os exames. Trata-se de valorizar determinados traços que facilitam o trabalho da escola e a recuperação do controle do aluno, entre eles, a “cooperação”, a resistência ao fracasso, docilidade e adequação à escola. O aluno “bem comportado”.
  9. No entanto, sobrevém a contradição, aumentar o controle sobre os atores, reforça as relações de poder antigas já existentes na escola e acaba por inviabilizar as pretendidas mudanças nas formas de ensinar e aprender. Eis aí, a fragilidade do documento do Mangabeira no Pátria Educadora. É um mudar para não mudar.
  10. Esta é uma das facetas importantes da crise da escola. Ela não é de fácil solução, pois esbarra em uma contradição entre a necessidade de mudar para atender a evolução da vida, e a necessidade de controlar ideologicamente o aluno e formá-lo segundo relações de poder unilaterais, antigas. Abrir mão destas relações antigas, seria correr o risco de permitir que o novo estudante, “estudasse a vida” e suas contradições. Mas os seres humanos, quando no interior das contradições, costumam assumir posições e podem se converter em lutadores que pretendem novas relações. Isso é perigoso para quem detém o controle do sistema (não falo de governos).

Eis aí um pouco da lógica pretendida naquele debate. A apresentação que fiz, premida pelo tempo, nem sempre revelou claramente esta linha de análise. Mas deixo aqui como uma contribuição adicional.

Publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

Seattle: somos nós amanhã

Os professores da Associação dos Educadores de Seattle (USA) decretaram greve por unanimidade. A foto do SeattleEducation é impressionante:

SeattleFoto

Ao impormos as políticas dos reformadores empresariais aos professores de Goiás, Pará, Rio Grande do Sul, Minas, São Paulo entre outros estados, estamos apenas introduzindo políticas que nos transformarão em muitas Seattles no Brasil, uma enorme energia que poderia ser gasta de outra forma, por exemplo, na própria construção da educação pública brasileira baseando-se em princípios de responsabilização participativa.

Com essas políticas, serão milhões e milhões de reais que sairão dos cofres públicos para o bolso de Organizações Sociais, deixando de serem aplicados diretamente na própria melhoria da escola pública.

Não haverá equidade, nem democracia sem escola pública de gestão pública.

Eis as razões da greve em Seattle:

“Pagamento profissional: precisamos atrair e manter educadores qualificados em Seattle, que é uma das cidades mais caras nos Estados Unidos.

Garantia de recreio para os estudantes: O tempo destinado ao descanso dos alunos varia muito em todo o distrito, e nós acreditamos que todos os alunos se beneficiarão de um tempo que assegure poder jogar e exercitar-se. (Hoje os recreios são de 15 minutos, os professores querem que tenham 30-45 minutos).

Avaliações justas para professores e funcionários: Os educadores devem ser avaliados de forma justa e de forma consistente, e o foco deve ser apoiar todos os educadores que precisam ser bem sucedidos.

Testes razoáveis: Demasiados testes padronizados roubam muito tempo da aprendizagem em sala de aula.

Alívio da carga de trabalho: O pessoal docente auxiliar proporciona aos alunos serviços essenciais e apoio, mas a atual sobrecarga de trabalho faz com que muitos estudantes não estejam recebendo a ajuda de que necessitam.

Alívio da carga de trabalho dos profissionais de escritório: Profissionais de escritório fazem um trabalho crucial e desempenham muitos papéis – e eles devem ser recompensados ​​pelo trabalho extra que fazem.

Equidade: Temos de nos concentrar em questões de equidade em toda as escolas de Seattle, e não apenas em seis delas.”

Publicado em Avaliação de professores, Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 2 Comentários

USA: escolas em luta

Nos Estados Unidos, dezenas de escolas são fechadas a partir dos resultados das avaliações. Algumas desaparecem de vez, outras transformam-se em escolas charters, ou seja, passam a ser administradas por organizações privadas com ou sem fins lucrativos.

Chicago propôs recentemente fechar mais de 100 escolas. As reações incluem variadas formas de luta pelo não fechamento das escolas. É o caso de Dyett, uma escola que está sendo defendida através de uma greve de fome que já dura 19 dias, lutando para que a escola seja reaberta.

Também em Laguna Niguel, na Califórnia, outra comunidade tenta salvar a escola elementar Crown Valley que, segundo as autoridades locais, será substituída por uma escola charter.

O blog de Diane Ravitch repercutiu o movimento.

Publicado em Escolas Charters, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Professores: gasolina no fogo

A formação de professores no Brasil é uma bomba relógio que ninguém quer desarmar. Há mais de 20 anos vem sendo armada. Não é surpresa para ninguém. Mais um estudo, agora, mostra o tamanho do descaso com a área, o qual se mede em décadas: 40% dos professores do ensino médio no país estarão em condições de se aposentar em seis anos. E não pensam em prolongar sua estadia na escola. Junte-se a isso a queda nas matrículas dos cursos de formação nas Universidades e se terá o quadro completo do desastre.

“Um relatório inédito feito pelo Ministério da Educação mostra que, ao longo dos próximos seis anos, 40% dos cerca de 507 mil professores do ensino médio brasileiro atingirão as condições de idade ou tempo de contribuição para se aposentar, revela Renata Mariz. Responsável pelo estudo, o secretário de Educação Superior, Jesualdo Pereira Farias, diz que o governo deve se preocupar com a previsão. O quadro é agravado pela diminuição no número de formandos nos cursos de licenciatura em disciplinas da educação básica: segundo o Censo do MEC, houve uma queda de 16% entre 2010 e 2012.”

Veja matéria completa aqui.

Enquanto isso, as políticas de responsabilização avançam pressionando os professores nas salas de aula, ameaçando com a retirada de benefícios, encobrindo maus salários com oferta de pagamento por bônus (achando que isso é valorizar a profissão), ameaçando com demissão se os alunos não aprendem, condicionando salários a resultados de alunos em testes, terceirização da gestão para organizações sociais que pagam pior ainda que o estado, ensino por protocolos, tratando os sindicatos como inimigos e adotando a terceirização para quebrá-los, entre outras medidas.

O que se vê nos Estados Unidos, país mestre na aplicação destas medidas, é uma queda na procura pela profissão, produto destas políticas lá vivenciadas em escala. São atalhos ilusórios.

Uma solução também fracassada foi liberar a formação de professores e controlar por certificação. Ou seja, desregula-se a formação profissional e controla-se por exames que certificam a competência para ensinar. O caso mais conhecido nos Estados Unidos é o da Teach for America que forma professores em seis semanas. No entanto, isso conseguiu colocar no mercado uma quantidade de professores irrelevante para o conjunto das necessidades e além disso, a rotatividade aumentou.

Portanto, o quadro é bem mais grave, pois as soluções que estão à vista para resolver o problema, são mais gasolina na fogueira.

Publicado em Avaliação de professores, Escolas Charters, Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 4 Comentários

Políticas “walking deads”

Maria Alice Setubal escreve acertadamente na Folha de São Paulo de 4-9-15 que:

“Ao analisarmos o modelo de desenvolvimento brasileiro, no entanto, valorizamos em demasia o consumo em detrimento do conhecimento, pensamos mais em alcançar melhores resultados nas avaliações do que oferecer um conhecimento humanístico e científico capaz de formar as novas gerações para os desafios do século 21.

Pensamos mais no diploma como um passaporte para o trabalho do que na importância desse saber como emancipação e aquisição de capacidades que possam significar maior autonomia e liberdade.”

São pensamentos como este que podem nos ajudar a evitar colocar a educação brasileira em uma “corrida para nenhum lugar”, em busca de “anabolizantes” para inflar médias obtidas em avaliações, regadas a pressão sobre as escolas.

Entrando neste túnel, assistiremos à adoção de “milagres” pós “milagres”, tentando por atalhos, sem sucesso, retirar a educação do atual patamar em que se encontra. Isto já está acontecendo agora. Sem sucesso para os estudantes e professores, mas com grande sucesso para as consultorias.

Estas políticas são hoje verdadeiros “walking deads” – mortos vivos – que vagam pelo mundo produzindo efeitos nefastos.

Infelizmente, escolas não corrigem a pobreza, a degradação cultural e ambiental. É preciso mais do que colocar a criança na escola, ter uma base nacional comum e declarar seu direito à aprendizagem, controlando e “bonificando” (ou punindo) os profissionais da educação. É preciso, antes de tudo, mobilizar cada escola em um processo de responsabilização participativa que defina claramente qual a responsabilidade do poder público na qualidade da escola,  qual é a responsabilidade específica da escola e qual é a responsabilidade da comunidade.

Mas o elemento central deste processo está na articulação permanente de instâncias de participação dos atores da escola na própria configuração das micropolíticas públicas locais. As escolas devem ser centros culturais de suas comunidades com meios tanto para responsabilizar o poder público como, ao mesmo tempo, para serem responsabilizadas pelo poder público.

Vamos precisar de muita luta para deter estas politicas que destroem a escola pública. Não porque queremos que a escola pública continue sendo como é, mas porque queremos que o dinheiro público seja aplicado na melhoria da escola pública por métodos adequados de responsabilização e não desviados para empresas educacionais e consultorias, ou para redes de terceirizadas atuando por concessão de gestão. Destruiremos a escola pública por ideias que já se sabe não resolverão nossos problemas educacionais. Recuperar a escola pública depois de sua destruição, será muito mais difícil. O Chile que o diga.

 No entanto, é preciso que também nos preparemos para o fato de que certas ideias só são vencidas pela sua própria prática. Novamente, o Chile que o diga.

Publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability | 1 Comentário

Seminário Unibanco: a reunião do “clube” – final

Todos sabem das restrições que fazemos a exames do tipo PISA conduzido pela OCDE. É um exame que tem a finalidade de constranger os países a internacionalizarem sua política educacional na ótica das reformas empresariais.

Sendo o PISA um instrumento destas reformas é curioso que o Seminário Unibanco passe em branco e não tenha apresentado o resultado do PISA para os países que ele considera modelo: Australia, Ontário no Canadá e Inglaterra.

Note que os Estados Unidos desapareceram de cena. Isso se deve a que, hoje, toda a política dos reformadores empresariais neste pais encontra-se desmascarada e com farta literatura cientifica que mostra seu fracasso. Não é prudente que ele figure, portanto, mesmo que as receitas encontradas nos países considerados agora modelo, não difiram, em essência, daquelas praticadas nos últimos 30 anos pelos Estados Unidos. O Chile também foi discretamente citado no Seminário.

Mas o que tem a Austrália que interesse aos reformadores brasileiros? A forma de implantar (e gerir) a base nacional comum e a plataforma de controle de desempenho dos estudantes. Elas servem para criar o ambiente que a Secretaria de Educação Básica e o INEP precisam para, a primeira, fazer a base nacional comum e, o segundo, fazer a plataforma de devolutivas. Sendo este o objetivo, os resultados no PISA não interessam. Mas, qual é o desempenho da Australia no principal termômetro dos próprios reformadores empresariais, o conhecido PISA?

Uma comparação entre o primeiro exame feito por aquele pais no PISA de 2000 e o ano de 2012, mostra a situação:

  1. Em 2000, em leitura, a nota era 529. Em 2012 a nota é 512.
  2. Em 2003, no primeiro exame de matemática, a nota era 524. Em 2012 é 504.
  3. Em 2006, no primeiro exame de ciências, a nota era 527. Em 2012 é 521.

Para ver um gráfico destes valores clique aqui.

Sobre Ontário no Canadá pode-se verificar que em matemática houve queda no desempenho dos alunos no PISA. Em 2003 a nota era 530 e em 2012 foi 514. Em relação a leitura e ciências, a descrição abaixo, feita no relatório do PISA, é eloquente, ao se referir ao Canadá como um todo:

“Embora o desempenho da leitura não se alterou significativamente para o Canadá entre 2000 e 2012, diminuiu em Prince Edward Island, Quebec, Manitoba, Saskatchewan e Alberta. As quedas variaram de 16 pontos em Quebec a 34 em Manitoba. O desempenho na leitura não se alterou significativamente no restante das províncias (ver Anexo B.2.13).”

Em Ontario, especificamente, sendo generosos, podemos dizer que não há progressos pois em 2000 a pontuação em leitura era de 533 e em 2012 é de 528.  Em ciências, no Canadá temos:

“Para as ciências, o desempenho diminuiu entre 2006 e 2012 em Newfoundland and Labrador (-11), Prince Edward Island (-18), Quebec (-15), e Manitoba (-21), e manteve-se inalterada nas seis restantes províncias (ver Anexo B.2.14).”

Em Ontario, especificamente, novamente sendo generosos, podemos dizer que não há progresso, pois em 2006 a pontuação em ciências era de 537, em 2009 foi de 531 e em 2012 é de 527.

Resta uma esperança: qual o PISA da Inglaterra?

A performance da Inglaterra em matemática permaneceu estável desde 2006. (…) O desempenho da Inglaterra em ciências tem-se mantido estável desde 2006. (…) O desempenho da Inglaterra em leitura no PISA 2012, como em 2009 e 2006, não foi significativamente diferente da média da OCDE.”

Uma reportagem da BBC resume tudo:

O Reino Unido está ficando para trás dos seus concorrentes globais nos testes internacionais com jovens de 15 anos, ficando atrás dos 20 melhores em matemática, leitura e ciências. O Secretário de Educação da Inglaterra Michael Gove diz que desde 1990, o desempenho nos testes têm estado “no melhor dos casos, estagnados, e no pior dos casos, em declínio.”

Em que está o Unibanco interessado no caso da Inglaterra?

“A partir de 2010, ganharam impulso as chamadas escolas Livres (“Free Schools”), criadas por grupos comunitários de forma autônoma, como forma de responder às demandas locais.”

Além disso, em matéria de desregulamentação há que se lembrar que as políticas neoliberais têm como berço privilegiado a própria Inglaterra de Margareth Tatcher.

Concluindo, apesar do barulho do Seminário do Unibanco, os números acima não correspondem a todo o ruído feito em torno do nome dos países que o Seminário considera que são um farol para o Brasil. Renegar a meca dos reformadores empresariais, os Estados Unidos, substituindo-o por países menos conhecidos e pesquisados, não melhorará a situação destas políticas. Elas são velhas conhecidas. Os números continuam não sendo bons tanto na matriz como nas filiais…

Caso queira acessar o material do Seminário Unibanco na Folha de São Paulo clique aqui.

Publicado em Janine no Ministério, Meritocracia, Privatização, Segregação/exclusão | Deixe um comentário