Manaus: escolas terão os mesmos problemas

A experiência com terceirização via contrato de gestão em países bem organizados como os Estados Unidos tem sido recheada a escândalos sucessivos como documentamos variadas vezes neste blog. Lá também há problemas com a privatização das prisões. Cheguei a dizer que com o aprofundamento da terceirização da educação teríamos uma migração de caixa dois para as terceirizações da educação.

O caso de Manaus mostra as relações que vão se criando entre o Estado e as terceirizadas. Elas criam regras próprias de controle dos usuários, sugam dinheiro, influenciam a política (ou é por acaso que o Amazonas e´o Estado que tem mais presos temporários nas cadeias? Por que o custo do preso é até 3 vezes maior que o do resto do país?) Os adeptos da terceirização dizem que é uma questão de regulação, de ter boas agências reguladoras independentes do Estado. Doria acha isso. Mas se isso bastasse, não haveria problemas em outros países que têm tradição mais longa de constituir agências reguladoras como os Estados Unidos. E lá o escândalo não é pequeno.

No caso de Manaus, a UOL divulga hoje que:

“Os repasses do governo do Amazonas à Umanizzare, empresa responsável pela administração do presídio de Manaus onde 56 detentos foram assassinados nesta semana, mais que dobraram entre 2014 e 2016, chegando a R$ 300,9 milhões. O MPC-AM (Ministério Público de Contas do Amazonas) vê indícios de superfaturamento e pediu a rescisão dos contratos.

Os números sobre os pagamentos estão disponíveis no Portal da Transparência do Estado. O valor de R$ 300,9 milhões corresponde à gestão do Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), onde houve o massacre, e de mais cinco unidades prisionais.”

Ao todo são mais de 600 milhões repassados à operadora. Enquanto os presídios ficam defasados, as administradoras embolsam o dinheiro do Estado e deixa-se de investir no sistema público.

“Em 2015, os repasses do governo somaram R$ 232,5 milhões, um salto de 69,42% frente ao ano anterior. E em 2016, o total de R$ 300,9 milhões representou um aumento de 29,41% na comparação com um ano antes.”

Como aponta o relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura:

“Uma vez que os agentes responsáveis pela segurança são contratados pela empresa que realiza a gestão da unidade, a relação entre as pessoas privadas de liberdade e tais entes fica bastante prejudicada”, lê-se no relatório.”

Isso é o que vai acontecer com a educação à medida que caminhe para a terceirização.

Já comentamos aqui também o caso das ferrovias privatizadas e abandonadas no Brasil.

Leia também aqui mais sobre o recente caso de Manaus.

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USA: vantagens dos vouchers são inconsistentes

Em seu desejo de comprovar as vantagens econômicas e sociais da reforma empresarial da educação através de privatização pelo uso de vouchers, pesquisadores da Universidade de Arkansas tentam forçar a análise de dados e produzem “junk science”. Os malabarismos são aqueles já discutidos aqui, ligados a projeções de gabinete completamente descoladas da realidade e que torturam os dados com o objetivo de advogar pela causa. O NEPC analisou os relatórios dos pesquisadores e divulgou sua conclusão:

“BOULDER, CO (4 de janeiro de 2017) – Um novo relatório do Departamento de Reforma da Educação da Universidade de Arkansas afirma que a legislação de voucher do Texas reduz o crime e, assim, economiza para o estado 194 milhões dólares cumulativamente até o final de 2035. Esta alegação não é segura e, de fato, já foi desacreditada.

Os cálculos do relatório surgem de outra análise da Universidade de Arkansas, pelos mesmos autores. Os pesquisadores de Arkansas argumentaram que alguns subgrupos de estudantes que recebem vouchers em Milwaukee, Wisconsin eram menos propensos a cometer crimes como adultos. Essa análise anterior foi revista em abril de 2016 por Clive Belfield, professor de Economia na Queens College, da City University de Nova York.

Existem vários erros e limitações nas duas análises de Arkansas, mas talvez as mais importantes sejam as afirmações mal fundamentadas em relação à causalidade. Como explicou o Professor Belfield, nenhuma inferência causal pode ser extraída do tipo de dados e análises utilizados pelos pesquisadores. Isso significa que os pesquisadores não podem responsavelmente fazer afirmações sobre os “resultados” e “impactos”, como fazem em seu relatório no Texas.

O Professor Belfield observou que, longe de estabelecer uma relação causal entre a participação no programa de vouchers e uma redução no comportamento criminoso, os pesquisadores de Arkansas nem sequer estabeleceram correlações significativas e consistentes. Como Belfield apontou, uma interpretação válida dos dados e análises apresentados no relatório anterior é que, de fato, os vouchers e o crime não estão correlacionados.

Em vez de se envolverem com a crítica do professor Belfield ao seu relatório de Milwaukee, os autores de Arkansas usaram os resultados não convincentes desse estudo, conectaram números de crimes do Texas e estimaram que se os legisladores desse estado criassem um tipo de programa de vouchers chamado “Education Savings Accounts” eles (19 anos depois) teriam, no agregado, economizado ao estado quase duzentos milhões de dólares.

“Este é um exemplo de texto “garbage-in, garbage-out”, disse o professor Kevin Welner da Universidade de Colorado, Boulder, que dirige o Centro Nacional de Política de Educação. “Uma figura derivada de um estudo que não permite a inferência causal não pode ser trazida de volta dos mortos e magicamente apoiar uma inferência causal em outro estudo seis meses depois. Esse tipo de causalidade zumbi não pode ser útil para os legisladores à procura de informações confiáveis. “

Baixe aqui a revisão de Belfield:
http://nepc.colorado.edu/thinktank/review-school-choice

Baixe aqui o recente relatório de Arkansas:
http://www.uaedreform.org/whether-to-approve-an-education-savings-account-program-in-texas-preventing-crime-does-pay/

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A velha face da avaliação “sob nova direção”

As novas formas de controle pela avaliação estão sendo desenhadas com ajuda da tecnologia. Introduz-se tecnologia na “modernização” dos processos, mas em essência tudo continua igual. Nunca foi mais adequada a expressão: “modernização conservadora”.

Vem dos Estados Unidos o alerta. Valerie Strauss chama a atenção para mudanças no campo da tecnologia da avaliação embarcada em plataformas de aprendizagem. Em seu blog, apresenta um texto de Lisa Guisbond bastante esclarecedor. Lisa aponta um estudo do National Center for Fair and Open Testing, a FairTest, que considera estas mudanças um retrocesso que anulará os poucos progressos que os movimentos contra testes excessivos fizeram nos Estados Unidos no ano de 2016, conseguindo alguns avanços na revisão da lei conhecida como No Child Left Behind, agora chamada de ESSA – Every Student Succeeds Act – como já comentamos aqui.

“Hoje, o aumento dos testes on-line ou por computador ameaça inverter qualquer progresso feito no último ano para a redução do número de testes. O National Center for Fair and Open Testing, conhecido como FairTest, uma organização que trabalha para acabar com o abuso e uso indevido de testes padronizados, publicou um novo release que diz:

“Os formuladores de políticas de educação e os provedores de tecnologia uniram forças para acelerar um impulso de longo prazo para intervenções educacionais baseadas em “testes”. Ambos os setores desenvolvem currículos baseados em computador e em dados coletados com testes on-line para controlar salas de aula e definir resultados educacionais.

Embora envolta em uma linguagem humanística sobre “personalização” do ensino, tal transformação está levando a testes padronizados ainda mais frequentes. Isso estreita e joga o ensino para baixo, para o nível em que os testes podem medir, reduz o engajamento do aluno e produz indicadores imprecisos de aprendizagem.”

Segundo o FairTest, agora devemos estar vigilantes e preparados para lutar contra essas novas ameaças:

  • O novo impulso para o uso de testes on line ou por computador ameaça inverter o progresso recente com a redução de testes e com a diminuição dos impactos a eles associados.
  • Em vez de escolas com educadores capacitados para usar sua experiência profissional para personalizar a aprendizagem para os alunos, esses programas perpetuam o ensino e a aprendizagem padronizados, baseados em testes, agora automatizados para “eficiência”.
  • Avaliações frequentes de estudantes on-line exigem que os professores revisem grandes quantidades de dados, em vez de ensinar, observar e relacionar-se com os alunos.
  • Na aprendizagem verdadeiramente centrada no aluno, as crianças são guiadas por professores e podem escolher entre tópicos, materiais e livros com base nos seus interesses. Mas a visão promovida por muitos fornecedores e proponentes de tecnologia de educação é de uso de materiais de aprendizagem de alunos selecionados por avaliações adaptativas on-line ou computadorizadas.
  • As empresas e agências governamentais estão acumulando quantidades sem precedentes de dados sobre os estudantes através de plataformas de aprendizagem e testes on-line. Existe uma preocupação generalizada sobre a acessibilidade destes dados por terceiros e de violações de privacidade dos dados. Grupos de pais e outros defendem uma legislação para fornecer transparência e proteger os dados contra o uso indevido. Entretanto, as violações de segurança ou a partilha de dados são riscos graves.
  • Freqüentes testes on-line criam obstáculos para o movimento de retirada dos estudantes dos testes conduzidos pelos pais, como uma forma de chamar a atenção para a sobrecarga de testes. Um forte movimento nacional dos pais retirando seus filhos dos testes (opt out) criou uma enorme pressão para mudança. Mas o recurso aos exames on-line cria novos obstáculos para os pais que querem impedir seus filhos de fazer testes.
  • Depois de várias décadas, os pesquisadores têm visto pouco impacto positivo no uso de tecnologia educacional. Enquanto isso, os pesquisadores alertam para uma série de conseqüências negativas da super-exposição à tecnologia e ao tempo que o aluno passa na tela dos dispositivos. Estes incluem danos ao desenvolvimento intelectual, físico e emocional, ameaças à privacidade e, ironicamente, maior padronização.

O que os pais, alunos e educadores podem fazer?

  • Para combater o assalto do currículo com mais testes embarcados, bem como a coleta de dados pessoais, pais e educadores devem aprender mais sobre as novas formas de tecnologia que estão sendo usadas na sala de aula.
  • Os pais podem coletivamente exigir transparência das escolas, distritos e estados, diretamente dos professores e administradores ou por meio de órgãos de formulação de políticas, como conselhos escolares e departamentos de educação.
  • Os pais podem solicitar – ou exigir – que os distritos não comprem ou demandem esses pacotes e que seu filho não exceda a quantidade máxima de tempo de tela por dia ou semana.
  • Os pais, educadores, estudantes e seus aliados podem organizar uma legislação que impede o uso de tais pacotes, proteja os dados dos alunos, limite o tempo de exibição e proíba a adoção de tecnologia de educação cara e não comprovada.
  • Todos os pais podem exigir que aos seus filhos seja dada permissão para optar por não fazer testes intercalados em softwares ou informatizados.

O relatório do movimento Parents Across America sobre os perigos da tecnologia da educação sugere perguntas que os pais podem fazer e que incluem:

  • quais dispositivos e programas estão sendo usados;
  • quanto tempo as crianças gastam em dispositivos eletrônicos e que tipo de dados estão sendo coletados;
  • os pais também devem perguntar se as avaliações são na sua maioria de múltipla escolha, quantas vezes são administradas, se alguns alunos (por exemplo, alunos com necessidades especiais ou que estão aprendendo o inglês como segunda língua) são testados com mais frequência que outros e quem controla os dados e como eles estão sendo usados;
  • armados com informações detalhadas, os pais podem lutar contra o uso indevido da tecnologia, bem como contra o seu uso excessivo.

Eis as preocupações que estão rolando por lá.

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GOIÁS: justiça suspende escolha de terceirizada

Segundo notícia divulgada no dia de hoje pelo SINTEGO – Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás – os profissionais da educação amparados no Ministério Público conseguiram mais uma vitória em sua luta contra a implantação de escolas charters naquele estado.

“A juíza Eliana Xavier Jaime determinou a suspensão do Edital de Chamamento Público nº 3/2016, referente a seleção de Organizações Social (OS), para gestão de unidades escolares da rede pública estadual. O Sintego é pioneiro na luta, para barrar a implantação das OS, na rede pública estadual, inclusive questionando judicialmente a legalidade do processo, realizando diversas manifestações, protestos, produção de materiais impressos como cartilhas informativas, publicações impressas e seminários, para alertar os riscos deste modelo de ensino.

“Não podemos admitir que Organizações Sociais sem qualquer preparo, experiência e idoneidade moral esteja à frente da gestão das unidades de ensino e conduza o processo educacional em Goiás. Não existe nenhuma referência no site da Associação Grupo Tático de Resgate (GTR), que foi aprovada na seleção que mencionasse o trabalho e a experiência dela na educação. É importante destacar também que existem réus em ações penais por corrupção, peculato, desvio de verbas públicas e associação criminosa, que estão entre os dirigentes desta OS. O Sintego vai permanecer atento a todo o processo para garantir a lisura e o fiel cumprimento da lei”, destacou a presidenta do Sintego, Bia de Lima.”

De acordo com a decisão da Juíza, caso a secretária de Estado da Educação, Cultura, Lazer e Esporte, Raquel Teixeira, descumpra a decisão, terá que pagar multa diária no valor de R$ 1 mil.

Na decisão a magistrada fez questão de ressaltar a falta de transparência e a utilização de recursos indevidos do Fundeb, além do tempo de duração do contrato.”

A objeção não impede a Secretaria de Educação de refazer o processo e chegar a uma OS ganhadora, mas é uma luta importante. Para a magistrada:

“Eles devem ser conduzidos de forma pública, impessoal e por critérios objetivos, como consequência da incidência direta dos princípios constitucionais que regem a administração pública”. E acrescentou: “o poder público deve realizar procedimento objetivo de seleção entre as organizações sociais qualificadas no seu âmbito de atuação, para que escolha impessoalmente com quem realizará a parceria e referidas instituições devem possuir todos os requisitos legalmente exigidos”.

Segundo o site do Sintego:

“Na época da seleção o Sindicato foi impedido de forma autoritária pelo Governo do Estado de acompanhar o processo de abertura dos envelopes, ferindo diretamente os princípios da administração pública como a transparência, a publicidade e a impessoalidade. O Sintego buscou incansavelmente dar mais transparência e zelar pela manutenção dos empregos e qualidade do ensino das escolas públicas estaduais.

A incansável resistência à implantação das O.S. e a militarização das escolas acabou repercutindo no Comitê dos Direitos da Criança da ONU, em Genebra, onde foi recomendado que o Brasil interrompa esse tipo de política, bem como a militarização das escolas, considerado prejudicial ao direito à Educação das crianças e adolescentes.

Na decisão a magistrada fez questão de frisar que as manifestações e protestos realizados contra a implantação deste modelo de ensino, recaíram diretamente na decisão da juíza. “O perigo de dano decorre dos conflitos que têm ocorrido como consequência de protestos sociais contra as medidas unilaterais, tomadas pelo Estado de Goiás e pela Seduce no processo de transferência de gestão. Como exemplo, temos as ocupações anteriores, novas invasões e protestos e danos ao patrimônio público”, consta na decisão.”

Veja aqui quem são as quatro OS e seus personagens que estavam participando do chamamento em 22 de setembro de 2016, entre elas a GTR – Ação Grupo Tático de Resgate.

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AM: presídio do massacre é privatizado

A grande imprensa não explorou, exceto a mídia alternativa, mas o presídio em que 60 pessoas foram mortas em Manaus é operado por uma terceirizada: Consócio Pamas – Penitenciárias do Amazonas, a Umanizzare Gestão Prisional e Serviços e a LFG Locações e Serviços Ltda. É o que denuncia o Portal Vermelho:

“A tragédia consumou-se, entretanto, com um elemento a mais, a provar a desresponsabilização total do Estado frente aos Direitos Humanos.

Em 2015, depois de criar uma secretaria específica para cuidar dos presídios, a Secretaria de Administração Penitenciária, José Melo contratou um consórcio, através de contrato de parceria publico-privada, para administrar os presídios do Amazonas. O extrato do contrato foi publicado no Diário Oficial do Estado do dia 9 de dezembro. Trata-se de um contrato de R$ 205,9 milhões para concessão de cinco unidades prisionais por 27 anos, prorrogáveis até o limite de 35 anos.

A Umanizzare, que em 2014 recebeu do governo amazonense R$ 137.284.505,62, prometia, como o seu nome já diz em italiano, “Humanizar” os detentos.”

Onde entra a privatização ela secundariza objetivos sociais e os submete a objetivos materiais: a geração do lucro. Portanto, se uma unidade prisional fica com presos acima do número estipulado, tanto melhor, pois o número de presos é um elemento da definição de quanto a contratada recebe. Mais ainda, como mostram os dados americanos sobre privatização de prisões, se as penas são mais longas, tais contratadas, adoram, pois os presos ficarão mais tempo dando lucro nas prisões.

Sobre estas questões Ravitch alerta em seu blog:

“Não se engane: o propósito da privatização é fazer lucro. A promessa da privatização é a eficiência. Mas na sua busca por lucro e eficiência, a privatização cria incentivos perversos. Ela incentiva a gestão privada de escolas charter a evitar ou se livrar de estudantes “caros” (a menos que a fórmula de reembolso torne rentável mantê-los), incentiva hospitais com fins lucrativos a diagnosticar pacientes e realizar cirurgias desnecessárias, incentiva os prestadores privados de educação especial pré-escolares a diagnosticar erradamente crianças como se necessitassem de serviços especiais para aumentar seus lucros. E incentiva gestores privados de prisões a manter a população carcerária tão grande quanto possível, uma vez que uma cela vazia é uma cela que não produz receita.”

Em 2014 aconteceu algo semelhante no Maranhão:

“A terceirização nos presídios é apontada pelo sindicato dos agentes penitenciários e pela oposição como uma das causas da barbárie no sistema carcerário do Maranhão.

Responsável por fornecer os guardas que fazem a segurança armada dos presídios, a Atlântica recebeu, em 2013, R$ 7,6 milhões da Secretaria de Justiça e Administração Penitenciária (Sejap). Um ano antes, o valor era exatamente a metade: R$ 3,8 milhões. Ano passado, a Atlântica também tinha contratos com outros quatro órgãos estaduais e recebeu no total R$ 12,9 milhões do governo maranhense.”

Veja matéria aqui.

Sobre as consequências da privatização de presídios, o Boletim da Conjur aponta que o lobby da privatização de prisões defende, hoje, nos Estados Unidos, um conjunto de medidas jurídicas para não deixar seu faturamento cair:

“1) Sentença mais longas. As sentenças nos EUA já estão entre as mais longas do mundo. E isso, ao lado da pena mínima, seria uma das razões para os EUA terem a maior população carcerária do mundo. As estatísticas revelam que os EUA têm 25% da população carcerária do mundo, enquanto a população do país representa apenas 5% da população mundial. 2) A aprovação de leis que requerem sentença mínima, independentemente das circunstâncias. Esse tipo de lei já existe nos EUA para qualquer tipo de delito com uso de arma. 3) Uma grande expansão do trabalho de prisioneiros, criando lucros que motivem o encarceramento de mais pessoas por períodos maiores de tempo. 4) Mais punição para os prisioneiros, de forma a prolongar suas sentenças. Hoje, os prisioneiros já podem ter suas penas aumentadas em 30 dias, em caso de qualquer ação que possa ser qualificada como má conduta ou quebra de regra da prisão.”

Atualização: A UOL acaba de publicar matéria detalhada as 17 horas de hoje (3-1-17).

Veja aqui também relação da administradora do presídio com doações a campanhas.

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Só entregando a deus, mesmo…

Para amenizar o começo do ano, segue uma notícia interessante, ou como diria Simão, uma piada pronta. Prefeito assume e entrega, por decreto, a cidade ao seu deus, em caráter irrevogável… Além disso, eventuais acordos com outros deuses, também foram revogados.

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Crivella e Doria: na rota de Detroit

Detroit, no Estado de Michigan, tem 80% de suas escolas administradas por empresas com fins lucrativos, por meio de contrato de gestão (charters) ou por vouchers. Isso foi ampliado a partir de 2011. Entre 2009 e 2015 a avaliação nacional americana (NAEP) apontou Detroit sistematicamente como o distrito de pior desempenho do país.

Mas, não adiantou mostrar dados do fracasso da privatização. Há uma crença generalizada nas forças do mercado para resolver os problemas da educação, da saúde, das prisões, do saneamento básico e outros, independentemente dos resultados.

A Flórida é outro exemplo de fracasso da privatização, com todo o sistema educativo praticamente sob controle de empresas, depois que o furacão Katrina devastou o Estado.

A privatização em Detroit contou com apoio decisivo da família de Betsy DeVos, uma bilionária que agora comandará o Departamento de Educação na administração Trump, e ela pretende fazer com a América, o mesmo que ajudou a fazer em Detroit: destruir a escola pública e o magistério público.

“Quão fraca e vulnerável é a educação pública em Detroit? O Relatório da Nação, publicado por uma comissão federal independente, classificou as escolas de Detroit como o “distrito escolar urbano de menor desempenho” em 2009, 2011, 2013 e 2015. Em 2011, uma legislatura republicana e o republicano Rick Snyder, eliminaram o limite estatal para o número de escolas charter permissíveis em Detroit. As comportas foram abertas e os predadores da privatização entraram.”

 [DeVos] tem todas as afiliações necessárias: vínculos com a direita religiosa, fundos de hedge e think-tanks de livre mercado; uma acolhida dos memes sagrados do “livre escolher” e “privatizar”, um zelo missionário impulsionado pelo lucro; uma poderosa família de Michigan que sustenta a Assembleia; e o dom de nunca ter entrado em uma escola pública. Tão bem sucedida tem sido DeVos em sugar o financiamento das escolas públicas e passá-lo para escolas charters que 80% das escolas de Detroit estão agora com empresas com fins lucrativos. O financiamento provém de um re-encaminhamento de dólares de impostos do público para charters, ou como pagamento do governo – vouchers – pagos aos pais que, em seguida, passam esse dinheiro para as charters.”

Leia mais aqui.

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SP: Doria privatiza via OSs em agências bancárias

O prefeito da cidade de São Paulo anunciou que privatizará a educação infantil através de contrato com Organizações Sociais e com a ajuda dos Bancos que cederão as agências que não estão sendo usadas para serem transformadas em creches.

“O prefeito João Doria (PSDB) anunciou nesta segunda-feira (2) que pretende usar agências bancárias vazias para a criação de creches com objetivo de ajudar a implementação de 66 mil vagas para crianças de até três anos.”

“Os bancos estão diminuindo o número das suas agências e abrindo mão de várias das suas propriedades. Estamos pedindo para essas instituições que destinem alguns desses imóveis para a implantação de creches da Prefeitura de São Paulo”, disse Doria.

“Os ajustes nos imóveis também deverão ser feitos pelas instituições. A operação das creches será de responsabilidade da Secretaria da Educação através das OSs (organizações sociais)”, completou o novo prefeito.

Leia mais aqui.

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RJ: Crivella chega privatizando

O município do Rio de Janeiro recebeu seu novo prefeito Marcelo Crivella sob o signo da privatização e da meritocracia. Dois decretos implementam medidas nesta direção.

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Deve-se lembrar das ligações que existem entre Crivella e a igreja, na verdade é Bispo de uma delas, portanto, as parcerias público privadas na área da educação infantil podem vir a ser uma abertura para que os recursos públicos da educação acabem indo parar nas instituições religiosas que operam em caráter comercial, entre outras.

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Fim de ano

A todos os que nos acompanharam por este blog, desejamos um excelente final de ano e um grande 2017, lutando pela escola pública de gestão pública e contra o uso do campo da avaliação para justificar a privatização do público e a desmoralização do magistério.

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Cadernos CEDES: número sobre avaliação

A publicação Cadernos CEDES em seu número 99, recém lançado, tem como tema “AVALIAÇÃO EDUCACIONAL: um campo em movimento e disputa”. O número foi organizado por Regiane Helena Bertagna e Mara Regina Lemes de Sordi.

São os seguintes os artigos:

Freitas, L. C. Três teses sobre as reformas empresariais da educação: perdendo a ingenuidade.

Terrasêca, M.  Autoavaliação, avaliação externa… afinal para que serve a avaliação das escolas?

Sordi, M. R. L.; Bertagna, R. H. e Silva, M. M. A avaliação institucional participativa e os espaços políticos de participação construídos, reinventados, conquistados na escola.

Dickel, A. A Avaliação Nacional da Alfabetização no contexto do Sistema de Avaliação da Educação Básica e do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa.

Machado, I. F.; Silva, R. M. e Souza, M. L. J. Avaliação da aprendizagem nos contornos do currículo integrado no ensino médio.

Fernandes, D. Ensino e avaliação no ensino superior: reflexões a partir da pesquisa realizada no âmbito do projeto AVENA.

Villas Boas, B. M. F. e Soares, S. L. O lugar da avaliação nos espaços de formação de professores.

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BNCC: MEC abre o jogo

Paulo Saldaña, da Folha, revela que o “Currículo terá habilidades socioemocionais”.

“A preocupação em desenvolver na escola competências socioemocionais, como resiliência, liderança ou cooperação, vai ganhar força no texto final da Base Nacional Comum Curricular.”

Era de se esperar que a BNCC terminasse assim, como já tratamos aqui neste Blog em setembro de 2015:

“O pessoal das habilidades socioemocionais está decepcionado por não haver também especificação destas na base nacional do MEC. Vão vir com tudo para que sejam incluídas. Se incluírem, vamos ter traços de personalidade virando política pública. A história registra a que isso conduz.”

Leia aqui artigo de Tampio sobre a intencionalidade das bases nacionais curriculares.

Leia também manifestação da ANPEd sobre a inclusão de habilidades socioemocionais.

A suspensão do andamento da BNCC pelo MEC atendia à necessidade de dar a esta a cara do “novo MEC” que estava assumindo na esteira do golpe. Devemos lembrar que para o MEC o golpe ressuscitou o grupo remanescente de Paulo Renato (FHC), Maria Helena à frente.

Para o PSDB o país precisa ser entregue às corporações internacionais como forma de promover o desenvolvimento do país, e as cadeias produtivas locais devem competir com estas. Para tal, têm que atender às exigências de funcionamento da economia global de  “classe mundial”. Integre-se ou morra pela concorrência.

Nada mais normal que a educação também seja de “classe mundial” e siga as mesmas exigências internacionais, adaptando-se às necessidades de produção de capital humano que favoreça o desenvolvimento de suas atividades produtivas. (Veja aqui movimento idêntico nos Estados Unidos.)

A briga é antiga. Mangabeira Unger, com o Pátria Educadora de Dilma, tentou convencer o MEC de Janine Ribeiro a adotar dentro da BNCC que se iniciava as tais habilidades socioemocionais. Não conseguiu. Depois disso, com o golpe, o modelo de base nacional comum do MEC mudou e passou a ser o do Movimento pela Base, do qual Maria Helena é militante. Ela mesma ao assumir disse que tinha divergências sobre como a BNCC estava sendo conduzida por Manuel Palácios na SEB e pelo próprio MEC. Suspendeu seu encaminhamento e colocou em cena uma “terceira revisão” que, agora, sabe-se a que veio. Como diz Maria Helena:

“As habilidades socioemocionais estarão “o tempo todo na base” e “vão se desdobrar nos objetivos de aprendizado”.

Leia aqui artigo de Ana Luiza Smolka, Adriana L. F. de Laplane, Lavínia L. S. Magiolino e Débora Dainez, sobre habilidades socioemocionais.

E não vai parar por aí. Penso que a administração e manutenção da base ainda será entregue, como na Austrália, a uma entidade independente do Estado de forma a blindar qualquer possibilidade futura de ser modificada fora dos parâmetros desejados pelo grupo do MEC e mantida sob controle da reforma empresarial da educação. É a mesma discussão do Banco Central “independente” dos governos e “dependente” dos mercados.

Nesta semana que terminou, mostramos como a OCDE pressiona os países a adotar as habilidades socioemocionais que são auto-proclamadas de “competências do século XXI”, ou seja, uma readequação de atitudes e valores que estão sendo necessárias parar dar conta das novas exigências do desenvolvimento do capitalismo.

Outro desdobramento óbvio é que, na revisão das avaliações nacionais, logo após o término da BNCC, bem como na base destinada a regular a formação de professores, como a própria reportagem já aponta, haverá um alinhamento automático a esta exigência.

“Superada esta discussão, analistas são unânimes em reafirmar que, sem um projeto de formação de professores, o esforço pode virar letra morta”.

Os professores da educação infantil, principalmente, que se preparem.

O cenário é claro: enquanto se reforma o ensino médio para poder flexibilizar e abrir caminho para a BNCC desejada, inclusive com habilidades socioemocionais, a BNCC do ensino fundamental é revista para incluir, entre outras exigências, por exemplo, engessamento do sequenciamento dos conceitos, e para incluir também as habilidades socioemocionais.

Quanto a quem aprova a BNCC, o MEC continua falando em encaminhar ao Conselho Nacional de Educação, mas silencia quanto ao pojeto de lei que tramita no Congresso para que seja este o local de exame final da Base e não o CNE. Note que as ações não são excludentes, ela poderá passar no CNE e depois ser encaminhado ao Congresso.

Em seguida à revisão da formação de professores, teremos a revisão das provas nacionais (ANA, Prova Brasil, ENEM) que, certamente, incluirão também alguma medição das habilidades socioemocionais – sem contar que os Estados vão fazer o mesmo com suas avaliações locais. A padronização, agora, não é mais só do conhecimento, mas se quer, na esteira da onda conservadora, uma padronização de atitudes e valores. Aqui também deve-se alertar para as consequências desta padronização que deverá atingir os povos do campo incluindo a  educação do campo, quilombolas, indígenas etc.

Enquanto isso, as grandes corporações produtoras de plataformas on line e a indústria educacional produtora de material didático, ficam de castigo, salivando, esperando para faturar com a adequação à nova base… “Take it easy”.

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Maria Alice Setubal: falsa dicotomia

Tem sido um mantra para os reformadores afirmar que a educação precisa gerir melhor os recursos e não aumentá-los. O que haveria é uma má gestão e não necessidade de ampliar os recursos. Neste artigo, publicado em Carta Capital, Maria Alice Setubal, do CENPEC, defende outra equação:

“Também é preciso fugir da falsa dicotomia entre a melhoria da gestão e a necessidade de ampliação do investimento em educação.  Ambas são necessárias, bem como o aperfeiçoamento dos mecanismos de controle social.

Com a aprovação da PEC 55, que congela por 20 anos os gastos públicos federais nas áreas sociais, a efetivação plena do direito à educação para todos continuará no campo das previsões de um futuro distante para o Brasil.”

Leia a íntegra do artigo aqui.

Neste mesmo texto, mostra-se o grau de desigualdade existente entre os estudantes brasileiros:

“Dados da Prova Brasil de 2013, analisados pelo Cenpec, revelam que 31,4% dos estudantes mais ricos têm proficiência adequada em leitura. Entre os mais pobres, apenas 13,8%. A desigualdade racial também é grande: 32,28% alunos brancos tem conhecimento adequado em leitura, enquanto os negros 18,34%.”

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Avaliação de professores avança

A avaliação de professores da educação básica (ENAMEB) tanto em exercício, como para entrar na profissão (educação infantil, fundamental e médio regulares, educação de adultos, educação especial, indígena e quilombola), avança no Congresso e cria as bases para adoção de meritocracia pelos Estados.  A Comissão de Constituição e Justiça aprovou o Substitutivo da Comissão de Educação sobre o Exame Nacional do Magistério da Educação Básica – o ENAMEB.

Em uma primeira leitura, não houve alterações no substitutivo da Comissão de Educação aprovado em 2015.

Baixe aqui o Parecer do Relator da Comissão de Justiça

É interessante ler o Parecer do Relator pois ele faz um histórico da matéria que é bastante instrutivo, em poucas páginas. Veja que, em sua origem, a proposta estava ligada a um processo de Certificação de Professores da educação básica, o qual foi derrotado pela organização dos trabalhadores da educação logo no começo do governo Lula, quando o Ministro da Educação era Cristovam Buarque.

Baixe aqui o Substitutivo da Comissão de Educação aprovado pela CCJ.

Deve-se notar que o substitutivo esteve entre junho e julho do ano passado, depois de aprovado, aberto a emendas, mas nenhuma emenda foi apresentada.

Observe-se ainda que ficou para os Estados decidirem usar ou não os resultados da avaliação bienal dentro dos processos de progressão funcional. Note a alteração na redação do Art. 67 da LDB: é incluída a autorização no item IV para que a progressão funcional seja baseada também em avaliação de desempenho e na avaliação de conhecimentos.

Penso que os Estados vão caminhar na direção da sua inclusão obrigatória. O CONSED, fiel aliado do governo, vai cuidar disso no plano de carreira nos estados. A articulação entre a avaliação nacional e a carreira será um passo essencial para a adoção de programas de meritocracia nos estados, baseados em avaliação de professor seguido de bônus, ou até mesmo processos de valor agregado a partir dos resultados dos alunos em exames (Prova Brasil, por exemplo). Note que a Prova Brasil é censitária – para todos os alunos da educação básica pública. Reproduzo abaixo o corpo do projeto:

“É instituído o Exame Nacional do Magistério da Educação Básica – Enameb, com o objetivo de avaliar os conhecimentos e habilidades dos docentes de educação básica. O Enameb será desenvolvido em cooperação com os sistemas de ensino dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal.

O Enameb aferirá os conhecimentos dos docentes, conteúdos, metodologias, como ensinar, neurociência, bem como suas habilidades para ajustamento às exigências decorrentes da evolução do conhecimento e suas competências para compreender temas exteriores ao âmbito específico de sua profissão, ligados à realidade brasileira e mundial e a outras áreas do conhecimento.

  • 1º Poderão participar do Enameb docentes no exercício efetivo do magistério em escolas públicas e privadas, assim como os habilitados para a docência nos termos da legislação educacional vigente e candidatos ao ingresso na carreira do magistério.
  • 2º A inscrição e a participação no Enameb serão voluntárias, podendo o docente fazê-lo em quantas edições julgar oportuno.
  • Os sistemas de ensino poderão, a seu critério, utilizar os resultados do Enameb como parte dos processos de seleção, via concurso público ou contratação temporária ou emergencial, e de programas de avaliação de conhecimentos e habilidades. (Grifos meus LCF.)
  • 4º As provas do Enameb terão uma parte geral, comum ao conjunto de participantes, de acordo com as respectivas etapas ou modalidades de exercício docente, articulada com a base nacional comum dos currículos da educação básica, e uma parte específica, de modo a atender às peculiaridades dos Estados e regiões do País.
  • Os resultados do Enameb serão encaminhados aos sistemas de ensino de modo detalhado que demonstre o desempenho e os níveis de domínio de conteúdos, por áreas do conhecimento, dos respectivos docentes, para fins de planejamento e execução de programas de formação continuada. (Grifos meus LCF.)

O Enameb será aplicado bienalmente, considerando os seguintes conjuntos:

I – Docentes da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental; II – Docentes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio; e III – Docentes da educação especial, da educação indígena e da educação quilombola.

Parágrafo único. Em todas as edições do Enameb serão acrescidas atividades avaliativas relacionadas à metodologia da docência na educação de jovens e adultos para os docentes em exercício ou candidatos ao exercício da docência nessa modalidade de educação escolar. (Grifos meus LCF)

Art. 5º A aplicação do Enameb será acompanhada de instrumento destinado a levantar o perfil dos professores e suas condições de trabalho, com o fim de melhor compreender seus resultados.

Parágrafo único. Na divulgação dos resultados da avaliação é vedada a identificação dos documentos examinados, devendo o resultado individual ser fornecido exclusivamente ao docente, por meio de documento específico, e ao órgão responsável do sistema de ensino, para fins do disposto no § 3º do art. 3º desta Lei. (Grifos meus LCF.)

Art. 6º A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, passa a vigorar com a seguinte alteração:

“Art.67. ………………………………………………………………………………………………………………….

IV – progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, na avaliação de desempenho e na avaliação de conhecimentos;” (NR)

Art. 7º Acrescente-se o seguinte inciso X ao art. 1º da Lei nº 9.448, de 14 de março de 1997:

“Art.1º ………………………………………………………………………………………………………………….

X – promover avaliação de conhecimentos e habilidades dos docentes da educação básica, de forma a subsidiar, a critério dos entes subnacionais, os processos de seleção e os programas de avaliação de conhecimentos e habilidades desses profissionais.” (NR)

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Uberização, OCDE e habilidades socioemocionais

Em post anterior, vimos que desenha-se um quadro de incertezas promovido pelas novas formas de organização do trabalho. O pós-modernismo é pré-ciente dessa incerteza. A previsão é que as condições de vida também serão difíceis, num cenário crescente de desemprego estrutural altamente competitivo, no qual o modelo de organização do trabalho poderá vir a ser a uberização: disponibilidade permanente para o trabalho, empregabilidade sem garantia de emprego, competição acirrada entre trabalhadores mais instruídos, incerteza sobre o futuro do bem-estar pessoal e familiar, proteção social mínima.

A capacidade pessoal para enfrentar tais crises passa a ser uma “competência” altamente valorizada pelos investidores. Atenta a isso, a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – está preocupada com que a população de jovens de 15 anos cresça “resiliente”. Certamente, ela estará entre as “competências para o século XXI”, como gostam de definir as agências internacionais.

A resiliência é a capacidade, digamos simplificadamente, de enfrentar-se persistentemente com situações adversas. Algo assim: faça parte do exército de reserva de desempregados instruídos; lute para ter trabalho; caso não encontre trabalho, “take it easy”, fique calmo, “you are a winner”, você é um vencedor, não desista, seja empreendedor; você vencerá se for persistente.” Sendo mais técnico, a resiliência é a capacidade de uma pessoa para lidar com problemas, para superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, como estresse, por exemplo. Resiliência pede esforço, a categoria chave do liberalismo que pode ser traduzida por “ser bem sucedido mesmo em condições adversas de darwinismo social” em ambientes uberizados. É a nova versão do capital para o lema “ordem e progresso”.

A ênfase recente em ensinar na escola as tais habilidades socioemocionais às crianças, entre elas a resiliência, tem a ver com esta preocupação de que os jovens vão se enfrentar com a precarização e com as instabilidades e incertezas no mundo do trabalho, por um lado. Por outro, tem a ver com o grau em que a juventude de um país possui as competências para “aceitar” estas novas formas de organização do trabalho. Isso, junto a outras variáveis, orienta investimentos.

Do ponto de vista ideológico, a ação visa ocultar que a origem das incertezas se deve a fatores de esgotamento do atual sistema social e colocar o foco na pessoa, fazendo com que a juventude mantenha sua crença no sistema da “igualdade de oportunidades”, oportunidades estas que para se concretizarem dependem de esforço pessoal, onde a concorrência é algo “normal” e desejável. Serve de anteparo para que a juventude não se deixe levar por discursos críticos que mostrem como o sistema capitalista é injusto na sua base, no seu próprio “contrato social”. A ofensiva da direita mundial, que assistimos neste momento, inclusive aqui, está ligada a esta pré-ciência da própria crise e à necessidade de criar fatores contra-restantes a ela.

O liberalismo oculta esta realidade com a ideia da “igualdade de oportunidades” (e não de resultados) e difunde a noção de que, para isso, é preciso preparar-se para disputar, para ser o melhor, pois nesta visão, agarra a oportunidade quem for esforçado. O mundo é uma eterna “corrida ao topo”.

Neste cômputo liberal, não entram em cena as “desigualdades sociais de origem” que, se não condenam as pessoas à derrota, pelo menos afetam a própria condição de poder disputar e esforçar-se para evitá-la. Tenta-se passar a ideia de que o jogo é limpo, sem cartas marcadas. Predomina a ilusão de “vencer as dificuldades de origem”, não importando quais sejam. E é isso que orienta também a expectativa dos liberais em relação à escola, em relação à exigência de que, mesmo que a escola tenha alunos de nível socioeconômico baixo, isso deve ser superado pedagogicamente no interior da escola, não importando nem mesmo as condições que se tenha no interior desta.

Adiantemos: nada contra este papel superador da escola; tem que haver mesmo, mas não como forma de ocultação da origem da desigualdade social em uma desigualdade acadêmica que se resolveria no interior da escola, e muito menos como solução definitiva para o problema da desigualdade social. Menos ainda, como forma de culpabilizar oportunistamente os professores, sem condições em seu dia-a-dia para promover tal superação, e aproveitar-se disso para propor a privatização da educação.

A escola pode ajudar a diminuir circunstancialmente as desigualdades, mas não é o caminho para se eliminar tais desigualdades. Até 60% das variáveis definidoras do desempenho do aluno estão fora do controle direto da escola. Posta nesta situação de lidar permanentemente com as desigualdades sociais que persistem em se transformar em desigualdades acadêmicas a serem corrigidas pela própria escola, geração após geração, o papel da escola passa a ser o de “enxugar gelo”, com sucessivas gerações chegando à escola igualmente vítimas da permanência da desigualdade social. No melhor dos casos, quando a escola consegue agregar valor às gerações em desvantagem social, ela o faz mantendo as distâncias relativas no conjunto das classes sociais – não raramente a mando dos próprios ajustes do sistema social. Vale a briga, mas com outros horizontes.

Como muito bem estabelecem os sociólogos, as desigualdades sociais, consubstanciadas nas classes sociais, são o princípio e o meio de funcionamento do nosso sistema social. Sem elas, a cadeia de geração de riquezas não funciona.

Ciente disso, a OCDE, meca dos investidores e promotora do PISA, tem monitorado o grau de resiliência dos países:

“Como alguns estudantes superam as dificuldades do ambiente socioeconômico? Entre os países da OCDE, 31% dos estudantes provenientes de meios desfavoráveis são “resilientes”, o que significa que estão entre aqueles com melhores desempenhos entre todos os estudantes de meios similares, no âmbito internacional. Um ponto chave que distingue os alunos resilientes daqueles que não o são é que os estudantes resilientes assistem a mais aulas regulares na escola. Os resultados do PISA mostram que quanto mais confiantes e quanto mais motivados forem os alunos, maiores serão as suas chances de estar no grupo dos resilientes.”

“As desvantagens socioeconômicas de alguns estudantes podem condená-los a perpetuar de uma geração para outra o ciclo de poucas conquistas acadêmicas, fracas perspectivas de emprego e pobreza? Não se eles frequentaram escolas que lhes ofereceram mais aulas regulares. Os estudantes resilientes no PISA 2006 e no PISA 2009 apresentaram alto nível de desempenho acadêmico, apesar de virem de meios desfavoráveis. Eles são capazes de vencer as dificuldades que o ambiente lhes coloca, superar seus pares de ambiente socioeconômico semelhante e atingir resultados entre os melhores estudantes no âmbito internacional.”

Que os pobres podem aprender, não há dúvida. A questão é em que condições. Não seria mais razoável atacar diretamente as causas da produção da miséria e da pobreza? No entanto, isto levaria a uma crítica direta do próprio sistema social vigente, algo que está fora dos planos do pessoal da OCDE.

A OCDE prefere, com o PISA, ir difundindo a ideia de que a resiliência é uma nova arma contra a pobreza e não a transformação social das relações que geram a própria pobreza, cuja origem está nos processos de acumulação de riqueza. A resiliência é posta a serviço da adequação da juventude às regras de funcionamento social – as quais são as verdadeiras bases da desigualdade social. A OCDE prefere continuar a criar um mundo ideal onde todos podem vencer, se quiserem. A escola (e o professor) são os culpados pela perpetuação da desigualdade, não o sistema social.

A ofensiva inclui a padronização tanto das habilidades socioemocionais, como os mais recentes ataques à diversidade cultural, já iniciada com a proposta de implementar a padronização da aprendizagem através de bases nacionais curriculares. Ao contrário do que procura sugerir Maria Helena Castro, na Folha de São Paulo de 20-12-16, as BNCs, na forma em que estão sendo desenvolvidas, não são uma decorrência da nossa LDB, e sim, da ofensiva neoliberal que necessita aumentar o controle político e ideológico da escola para submetê-la a uma padronização de habilidades e competências, compatíveis com as novas demandas do capital para o século XXI. Para tal, criou a lenda de que nota mais alta é sinônimo de qualidade da educação.

No entanto, aos poucos, a juventude vai percebendo que, apesar de todos os seus esforços, ela vai sendo enquadrada pela sociedade e “devolvida” ao seu ponto de origem: filhos de trabalhadores se tornam, no máximo, trabalhadores exitosos. Filhos de magnatas, se tornam, pelo menos, magnatas. A presença do esforço pessoal que explicaria a espiral virtual dos magnatas, e a eterna falta de esforço pessoal suficiente, que explicaria a espiral negativa dos trabalhadores, cada vez mais precarizados, gera, ela mesma, as condições para a percepção das iniquidades sistêmicas.

Com esta radicalização motivada pelo aprofundamento das contradições do sistema capitalista que geram uma massa de desempregados agora estrutural (e não mais ocasional, produto de crises pontuais de produção), a resiliência (voltada para a culpabilização pessoal) passa a ser uma característica comportamental vital para a própria sobrevivência do capitalismo. Eis porque os sistemas de ensino vão incluir ações voltadas para o “ensino” de habilidades socioemocionais como a resiliência.

“Aos resilientes, os méritos; aos não resilientes, as batatas, como perdedores que são”. Depois disso, só mesmo Black Mirror explica (a série de TV que mostra como as pessoas estão ficando dependentes cada vez mais do mérito pessoal atribuído por outros, independentemente de padrões morais) – uma eternização de uma verdadeira operação de judicialização do tipo “lava-jato”, só que permanente e ao nível do cotidiano das pessoas.

No entanto, faltou combinar com a juventude…

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PEC propõe Constituinte: mais golpe em curso

Está em curso a tentativa de se aprofundar o golpe com uma revisão completa da própria Constituição de 1988. No último dia 14 de dezembro, foi protocolada a PEC 298/16 que propõe convocar uma Constituinte com os atuais membros do Congresso.

A título de fazer a reforma política, no inciso segundo do Art. 101, introduz-se a palavra “preferencialmente”, deixando aberta a possibilidade para se mudar outros aspectos além da reforma política.

Diz a PEC:

“Art. 1º O Ato das Disposições Constitucionais Transitórias passa a vigorar acrescido do seguinte artigo:

“Art. 101 Os membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal reunir-se-ão, unicameralmente, em Assembleia Nacional Constituinte, livre e soberana, no dia 1º de fevereiro de 2017, na sede do Congresso Nacional, na forma do disposto neste artigo.

§ 1º O Presidente do Supremo Tribunal Federal instalará a Assembleia Nacional Constituinte e dirigirá a sessão de eleição do seu Presidente.

§ 2º A Assembleia Nacional Constituinte deliberará, preferencialmente, sobre matéria atinente à Reforma Política e Eleitoral, sendo vedada a apreciação de proposta tendente a abolir:

I- o Estado democrático de Direito II- a separação dos Poderes; III- o voto direto, secreto, universal e periódico; IV- a forma federativa de Estado V- os direitos e garantias individuais e VI- o pluralismo político.

§ 3° A revisão constitucional de que trata este artigo deverá ter prazo certo e determinado, que observará o encerramento da 55ª Legislatura.

§ 4° As Emendas à Constituição decorrentes do disposto nesse artigo serão promulgadas depois da aprovação de seu texto, em dois turnos de discussão e votação, pelo voto de três quintos dos membros da Assembleia Nacional Constituinte.”

Art. 2º Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publicação. “

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Charterização e uberização: destruindo profissões

Temos abordado, aqui, os impactos da “charterização” das escolas em processos como os de Goiás e Mato Grosso, que envolvem repassar a gestão da escola para operadoras charters na forma de terceirização por contrato de gestão. Vez por outra, também somos notificados que, em algum estado, começam a operar empresas que se especializam em “fornecer”, sob demanda, professores para redes públicas.

Aos poucos, os processos de precarização vistos em outras profissões vão se aproximando dos professores – inclusive a conversão de seu trabalho vivo em trabalho morto, dentro de plataformas de aprendizagem on line que, com ajuda de tecnologia interativa, procura copiar e eternizar a atuação dos profissionais da educação. Trata-se de congelar os processos destinados a apoiar o desenvolvimento das crianças, bem como destinados a regular seu ritmo e profundidade de aquisição de conhecimentos, e registrá-los em códigos informatizados e reprodutíveis sem a presença viva do professor.

Nada contra a tecnologia na educação, mas a direção que o processo assume é que conta. O impacto destas plataformas na profissão do professor, no papel que o professor tem em sala de aula é alterado substancialmente, remodelando a relação professor-aluno. Nem tudo vem para melhorar, se temos como norte os “processos formativos” dos estudantes, onde a relação professor-aluno é insubstituível. O recrudescimento do tecnicismo coloca a educação em um plano em que a melhor definição ainda é a de Paulo Freire: educação bancária, voltada para a simples transferência ilustrada de conhecimento.

A decisão do governo Temer de antecipar a reforma trabalhista introduzindo de imediato o contrato de trabalho por hora e ampliando a duração permitida para este tipo de contrato, colocando em cena os processos de desburocratização da força de trabalho (leia-se: desregulamentação), também deverá atingir a atividade de ensino à medida que se firme como nova forma de organização do trabalho. Joga papel importante também a introdução do “notório saber” como forma de “qualificação de professores”, como já comentamos em outro espaço.

O conjunto da obra vai se revelando: plataformas de aprendizagem com apagamento da atividade do professor, desregulamentação da profissão e notório saber, modificações na organização do trabalho, especialmente, charterização e uberização. E em um cenário de terceirização da escola e desregulamentação da profissão de professor, o papel regulador do Estado via Bases Nacionais Comuns – tanto curricular como de formação do professor – torna-se mecanismo destinado a fornecer parâmetros operacionais à charteirização e à uberização.

A terceirização – ampliada com a passagem da organização da produção fordista para a toyotista – e a uberização – forma mais recente a ainda restrita – são fenômenos associados, destinados ao aumento do controle político e ideológico sobre a força de trabalho, com a ampliação da precarização das profissões e intensificação do trabalho. A uberização elimina o conceito de contratação por jornada. A antiga jornada de trabalho servia para proteger o tempo livre do trabalhador.

Contratado por hora, contraditoriamente, não há mais limite para quanto ele possa se dedicar ao trabalho e ao mesmo tempo nem há garantia de que terá trabalho. Depende do funcionamento do mercado e da concorrência. Premido por baixos salários e pela competição entre os próprios trabalhadores por um lugar ao sol, fica à mercê do capital. Estes modelos lançam os trabalhadores na total incerteza, no estresse permanente e na competição destrutiva. É a materialização da série Black Mirror no âmbito do trabalho – uma série de TV que mostra como as pessoas estão ficando dependentes cada vez mais do mérito pessoal apontado por outros, independentemente de padrões morais.

Na educação, é muito provável que a uberização avance pelas “charters on line”, escolas que distribuem conteúdos e que usam “tutores” on line para apoiar os estudantes em seu estudo, seja quando estão na plataforma de aprendizagem, seja fora dela, sob demanda. Em 2015 a previsão do estado de Ohio, nos Estados Unidos, era de gastar 554 milhões de dólares com escolas charters on line em dois anos. Ano passado, o estado de Nova York anunciou que iria gastar 40 milhões de dólares na produção de uma plataforma de aprendizagem para seus estudantes. Por aqui, o movimento está em andamento e não é pouco a introdução na MP do ensino médio tanto do notório saber como da facilitação para os processos de ensino via “on line” (EaD).

A relação professor-aluno que numa sala convencional de aula pode ser de 40 alunos para um professor, pode chegar a 400 alunos para um professor, dez vezes mais, em uma escola on line. Se esta forma de organização do trabalho, a uberização, prospera, um professor em sua casa, atende 400 alunos “on line”. A própria plataforma monitora o tempo gasto pelo professor e gera a base de sua remuneração.

Enquanto a charterização rompe com a noção de serviço público e o destrói junto com o magistério público, a uberização poderá atingir o profissional da educação e remodelar sua relação com a escola. Segundo Marcio Pochmann:

“O que estamos denominando de uberização é uma nova fase, que é praticamente a autonomização dos contratos de trabalho. É o trabalhador negociando individualmente com o empregador a sua remuneração, seu tempo de trabalho, arcando com os custos do seu trabalho. (…) O tempo vai dizer se isso se confirma, porque também depende das reações dos partidos, dos movimentos sociais. É mais a emergência do que o padrão de fato. Vem de uma empresa de prestação de serviços que se coloca com sucesso em um período muito curto de tempo com a substituição da antiga forma de organização do trabalho no transporte individual, que é o táxi.

No meu modo de ver isso é apenas a ponta do iceberg, mas há uma grande possibilidade de se generalizar para todos os demais setores de atividade econômica. (…) Na Inglaterra tem o chamado contrato a zero hora, que diz que você tem que ficar disponível 24 horas para a empresa, que pode usar nada, mas você tem que estar disponível para ela e sua remuneração depende da sua disponibilidade. No transporte é isso: você tem um contrato com a Uber e fica lá, disponível, porque quando surgir um chamado você se apresenta disputando com outros motoristas. Nesse contrato a zero hora eu posso ser piloto de avião e, se surge a possibilidade de viajar, não está garantido que serei eu, tem outros que são concorrentes, dependendo da localidade.”

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Sobre “pontes”, futuro e educação

“Só com a renovação do ambiente político, por meio da participação direta da sociedade, será possível engajá-la num projeto de reformas profundas e de longo prazo. É hora de um gesto maior do presidente [Temer], convocando um recall, por meio de uma proposta de emenda à Constituição, antecipando as eleições [para presidente, deputados e senadores].”

Quem diz isso é Ronaldo Caiado, do espectro político ruralista conservador, que adotou um discurso que também se vê em setores da esquerda. Curiosamente, quando, por ocasião do impeachment, se quis resolver o problema de Dilma chamando uma eleição direta, estes mesmos recém defensores de eleições diretas, não concordaram. Era preciso, primeiro, uma “ponte” antes de nova eleição em 2018. Feito o impeachment, acuados pelos escândalos, agora surge a necessidade de “passar a limpo” o golpe, dando-lhe “legitimidade” em um processo eleitoral que ocorra, se necessário, antes de 2018. Face aos novos riscos para a “estabilidade da ponte”, é preciso roubar de imediato o discurso da esquerda e defender “eleições já”. A razão é confirmada por Andre Singer:

“Desde o final de 2015, a perspectiva de tomada do poder pelo PMDB carregava em si o ideário pessedebista, evidenciado no documento “Uma ponte para o futuro”. Depois, à medida que o impeachment se aproximou, firmou-se pacto implícito, entre os dois partidos, de passagem efetiva do bastão em 2018. Mas, com o recrudescimento da Lava Jato, que atinge em série os homens do presidente, parece que Michel Temer precisará entregar de imediato o osso.”

Ou seja, uma “ponte” – o PMDB de Temer – é a passagem necessária para viabilizar um governo do PSDB – tido como o “futuro”. Durante a ponte, as reformas que não passariam por meio de eleições, devem ser feitas autoritariamente, via MP ou tramitadas celeremente por acordos no Congresso – claro, em nome da “salvação nacional”.

A análise confirma a ideia de um governo tampão autoritário, um biombo para o PSDB. Claro, haverá compensações para o PMDB pelos desgastes, sempre a eminência parda dos poderes, desde o fim da ditadura militar. Se acidentes de percurso acontecerem, antecipem-se as eleições [para legitimar os mesmos atores], esvaziando o discurso à esquerda.

Caiado, é presciente disso e como candidato a presidente em 2018, está abrindo um caminho próprio para o DEM e sua candidatura. No pior dos casos, se os acidentes de percurso não se confirmam, chega ao convescote cacifado para um posto mais elevado na “nova configuração” que as eleições de 2018 vão criar. Também quer fazer parte das merecidas recompensas por serviços prestados na construção da “ponte” para este “futuro”.

Como bem disse Dilma: Temer traiu o programa que o elegeu. Diz:

“O que me tirou do governo foi um golpe de Estado. O que se vê nestes seis meses é um processo de deterioração. Me tiraram para cumprir os seguintes objetivos: impedir que as investigações de corrupção chegassem até a esses que hoje ocupam o poder, implantar no Brasil o resto do processo de liberalização econômica de políticas de privatização, de flexibilização do mercado de trabalho e, sobretudo, retirar completamente os pobres do orçamento do país. Estas medidas, que são do receituário neoliberal, para serem implantadas era necessário que ocorresse essa verdadeira suspensão da democracia, que foi o meu impeachment”.

Como já se disse, a “ponte para o futuro” nada mais é do que uma ponte para a retomada do projeto do PSDB interrompido ao final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso – FHC. Não é outra a conclusão de Andre Singer:

“Outra dúvida é se Temer, acusado diretamente nas colaborações premiadas, continuará viável como biombo do plano pessedebista. Daí o aquecimento de FHC para uma eleição em 2017, embora com a idade a lhe pesar nas costas. Quem viver, verá.”

Mas há também Nelson Jobim de prontidão para o caso de FHC não se dispor. Os arroubos de Caiado solicitando eleições diretas são orientados pela pré-ciência da direita que sabe – embora tema – que tais eleições no cenário atual conduziriam a levar ao poder oficialmente os mesmos atores atuais (explícitos ou implícitos). Condição indispensável para tal empreitada, no entanto: inviabilização de Lula através da Lava Jato, plano que segue a todo vapor.

Ciente de que tem uma tarefa a concluir – se quer fazer jus ao retorno ao ninho dos que governarão depois da “travessia”, redimindo-se de sua aliança com o PT -, o PMDB acelera as mudanças através de MP e projetos de lei – agora sobre a reforma trabalhista. Vem aí a mudança mais esperada pelos empresários nacionais e internacionais: o desmonte das leis trabalhistas.

Na área da educação, depois da reforma do ensino médio por MP, penso que agora é a hora e a vez da Lei do Sistema Nacional de Educação e da Lei de Responsabilidade Educacional – ambas aguardando continuidade no Congresso. Por estas, se organizará o ataque às escolas públicas e ao magistério público, aplicando no Brasil, o receituário da No Child Left Behind americana, ensaiada nos dias de Mangabeira Unger, mas que não prosperou à época, por pressão da então equipe da SASE do MEC, conduzida por Binho Marques, que elaborou projeto alternativo.

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A reforma educativa no México: um alerta

A Campanha Latino-americana pelo Direito à Educação divulga um balanço sobre as reformas educativas de México que pode ser interessante para se compreender os caminhos da educação brasileira, apesar das diferenças entre os países.

 “El tema estuvo en el centro de la agenda educativa del país a lo largo de todo el año y seguirá en debate en 2017. Para los y las docentes, en vez de impulsar las mejoras que la educación nacional requiere, las medidas penalizan el magisterio por las actuales deficiencias del sistema educativo.” 

La noticia de la muerte de ocho ciudadanas/os en Nochixtlán, Oaxaca, en la fecha del 19 de junio de 2016, por su apoyo a la lucha de docentes de México en contra de la reforma educativa que se implementa en el país desde el 2013, llamó la atención del mundo para el actual conflicto entre el magisterio y el gobierno nacional, que se ha caracterizado por la falta de participación social en la definición de las políticas educativas y la represión a la protesta [saiba mais].

Según el profesor mexicano Manuel Gil Antón, la reforma educativa puede considerarse más una reforma laboral que propiamente educativa, pues se implementa en base a la aplicación de pruebas obligatorias a las/os docentes como condición para su ingreso, movilidad y permanencia en la carrera, lo que, de acuerdo al maestro, le permitirá al Estado ejercer mayor control y vigilancia al magisterio, culpabilizándolo por las incontables debilidades del sistema educativo.

“El 64% de las 109 mil escuelas del país tiene problemas de mobiliario y sanitarios, además de una desigualdad brutal: 50 millones de personas pobres. Una cosa que es paradójica es que llamemos reforma educativa a un proceso en el cual se dice que la solución es evaluar a los ‘choferes’ [analogía para profesores/as]. Tendría que estar acompañado de un proyecto de mejora del autobús [sistema educativo] y reparación de la carretera [situación socioeconómica del país]. Aportar que la única causa y la exclusiva solución del problema son los profesores y evaluarlos conduce a una situación que no va a modificar la calidad del sistema educativo, lo que si va a hacer es que el Estado irá recuperar no la rectoría de la educación, sino el control del magisterio”, dice Antón [veja aqui o vídeo em que o professor fala sobre a reforma educativa em México.].

A su vez, Alberto Arnaut, historiador e investigador de la Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), afirma que son rasgos preocupantes de la reforma: el centralismo en el diseño de lineamientos y evaluaciones educativas, que se concentran en las manos de la Secretaría de Educación Pública (SEP) y del Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación (INEE); y la unilateralidad en la definición de parámetros, perfiles, indicadores, exámenes y dispositivos de evaluación, sin cualquier participación del magisterio y de los sindicatos docentes. “Lo más dramático es que se escuchó mucho más a los empresarios, que no quieren la escuela pública y deprecian al magisterio de las escuelas públicas, que a las y los maestras/os que se someterán a este nuevo régimen laboral” [Ouça aqui entrevista com o historiador].

Juan Melchior Román, de la Dirección Política de la Confederación Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) añade que, con el pretexto de la evaluación, se quiere limitar la calificación docente al buen desempeño en exámenes de opciones múltiples, los cuales no son suficientes para evaluar la calidad social educativa, ni para mejorar el sistema educativo. “Una de las implicaciones de esta reforma es el despido masivo de los trabajadores, y la otra es la reducción de los contenidos educativos que tienen que ver con la formación integral de las y los estudiantes, pues la formación docente y las clases se limitarán a los conocimientos técnicos exigidos en estas pruebas [leia aqui a entrevista completa].”

Leia aquí nosso especial completo sobre a reforma educativa em México.

Veja também:

“El perfecto negocio de la educación”. Por Adriana Puiggrós

“Del por qué la reforma educativa mexicana debe preocuparnos a todas y todos”. Por Marianicer Figueroa

“América Latina enfrenta onda de reformas conservadoras na Educação”. Por Caio do Valle Souza

Comunicado de prensa de la CNTE sobre la Iniciativa Ciudadana

Vídeos:

La Reforma Educativa en México

Las grietas de la educación en México

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Privatização é a meta

Diane Ravitch comenta matéria do New York Times que explicita o plano da nova Secretária de Educação de Donald Trump – a bilionária Betsy DeVos:

“O plano DeVos é simples: livrar-se das escolas públicas. Dê a cada criança um voucher e deixe os pais escolherem usá-los onde quiserem. Se não houver vouchers, abra o maior número possível de escolas charter, com ou sem fins lucrativos, e permita que os pais escolham à vontade, sem regulamentação ou supervisão.”

Este é o estágio mais avançado do processo de privatização da educação, onde até mesmo a regulação do estado é eliminada. Antes disso, na dependência das pressões, há formas híbridas baseadas em parcerias público-privadas e envolvimento prioritário das organizações sem fins lucrativos, pretensamente reguladas pelo estado.

Elas fornecem as bases para criar um mercado educacional mais atraente e consistente, permitindo avançar para estágios mais definidos que culminam na fórmula DeVos. Sob o disfarce de uma “terceira via” mais branda, os estágios iniciais são apresentados como “pactos” sociais pela educação, que abrem espaço para organizações sociais, fundações e institutos.

Dificilmente o atual processo de privatização brasileiro escapará deste itinerário. Deveremos assistir, em breve, o governo federal legitimar o repasse de recursos públicos para organizações sociais na educação básica, criando um poderoso viés de privatização nos Estados e Municípios. O lugar mais adequado para isso ocorrer será na tramitação da Lei do Sistema Nacional de Educação.

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Dissertação analisa grupo empresarial

Dissertação defendida no dia de ontem (14-12-16) na Faculdade de Educação da UNICAMP analisa, através de um estudo de caso, o Grupo empresarial  “Abril/Somos Educação”.  Segue resumo do trabalho de Luciana Sardenha Galzerano, orientado por Thereza Adrião.

“Esta dissertação tem como objetivo compreender, no contexto do capitalismo contemporâneo a atuação de grupos empresariais na educação básica pública. Para tanto, recorremos a um estudo de caso da Abril/Somos Educação. A escolha se deve à nacionalidade brasileira do grupo, sua presença majoritária no mercado de livros didáticos e ainda, por ter sido a primeira empresa voltada para a educação básica a abrir seu capital em bolsa de valores. Apoiamo-nos no pressuposto de que a educação pública no Brasil, tal qual em outros contextos, torna-se campo para negócios – inclusive para a reprodução do capital financeiro -, vide o alto grau de concentração e centralização dos grupos empresariais atuantes nesse âmbito e sua relação com o capital financeiro, por meio dos mercados de ações ou, ainda, das fusões com grandes grupos internacionais. O período selecionado para esta pesquisa (2010-2015) tem início com a formação da Abril/Somos Educação, como um segmento do Grupo Abril, em 2010 até 2015, quando o controle da companhia foi assumido pela Tarpon. Trata-se de uma pesquisa documental; as informações foram coletadas, sobretudo, nos sítios eletrônicos da Abril/Somos Educação e de seus controladores (Grupo Abril e Tarpon); na mídia de abrangência nacional e internacional, nos documentos disponibilizados pela BM&FBovespa, nos sítios do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Como resultado, observamos que a financeirização das atividades de grupos como a Abril/Somos Educação potencializa significativamente seus ganhos, aumenta sua presença no setor educacional público e, consequentemente, o controle que exerce sobre as escolas.”

Baixe o estudo aqui.

O trabalho está muito bem desenvolvido e mostra, pelo exemplo analisado, como os grupos internacionais já se posicionam no Brasil para a nova fase de privatização da educação básica pública, na qual o país mergulha na esteira da retirada do Estado, constituindo-se em campo de valorização de capital especulativo. Isso acontece já há algum tempo no ensino superior brasileiro.

Tais organizações internacionais estão ligadas à reprodução de “capital fictício” (estágio avançado do capital a juros), pois têm finalidade especulativa, guiadas por agências de fundos de investimento.

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Carrano: acesse o novo texto da MP do ensino médio

Acesse no Blog do Carrano o novo texto da MP do ensino médio aprovado na Câmara e que será enviado ao Senado.

Acesse aqui.

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Ensino médio: volta filosofia e sociologia (atualizado)

A Câmara dos Deputados aprovou, por 324 votos a 5, emenda que recoloca Filosofia e Sociologia no ensino médio. No dia 7 passado o texto base havia sido aprovado por 263 votos a favor e 106 contrários. Na emenda votada hoje não ficam claras as condições do retorno. O texto segue para o Senado.

“O texto aprovado na Câmara, porém, não fala em disciplinas específicas, mas sim em “estudos e práticas” que devem ser inseridos na BNCC. Isso significa que estes estudos não necessariamente ocorrerão por meio de disciplinas separadas – caberá à base a às redes de ensino a definição desse modelo.”

Leia mais aqui.

À medida que chegam as informações da reunião de ontem na Câmara, vai ficando claro o que ocorreu: a diluição das disciplinas de Filosofia e Sociologia em “estudos e práticas” como forma de fugir da crítica que envolvia a sua retirada. É o que nos diz um leitor que assistiu à sessão da Câmara:

“Eu assisti à sessão pela TV CÂMARA. Foi uma grande farsa conduzida pela deputada Profa. Dorinha Rezende do DEM de Tocantins. Eu até cheguei a comemorar porque ela dizia estar defendendo a obrigatoriedade da filosofia e da sociologia no ensino médio. A emenda defendida por ela passou com folga… Ela enganou até muitos parlamentares. O deputado da REDE do RJ Alexandre Molon chegou a comemorar um manifesto de associações de filosofia, antropologia e sociologia, ele citou esse manifesto na sua votação (chegou em cima da hora?). No entanto, a emenda diz apenas que “estudos”e “práticas” de filosofia e sociologia deverão estar no ensino médio, ou seja, deverão ser ensinadas não necessariamente em disciplinas específicas, mas poderão ser ministradas em outras matérias como história por exemplo.

Além disso essa emenda não fala em tempo. A emenda que reincluía a obrigatoriedade da filosofia e da sociologia no ensino médio do deputado do PSOL Ivan Valente nos três anos do ensino médio foi REJEITADA…. uma deputada da oposição resumiu bem o que aconteceu. Ela disse que isso foi uma farsa, e que quando se quer eliminar uma disciplina como filosofia, por exemplo, diz-se que o conteúdo da mesma deverá ser abordado de forma “transversal” em outras matérias…bem, ainda resta o senado, e depois a BNCC no CNE. Espero que a filosofia e a sociologia sejam incluídas obrigatoriamente, como disciplinas, pelo CNE, ao menos nos anos iniciais, isto é, 60% da grade do ensino médio… vamos aguardar…”

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Aprovação da PEC agiliza privatização

A aprovação da PEC que limitou gastos públicos pelos próximos 20 anos, não deve ser examinada apenas pela ótica da falta de disponibilidade de dinheiro público para investir em educação. Esse raciocínio não leva em conta outro fenômeno coadjuvante que está presente na estratégia das elites financeiras: a privatização.

Embora o processo de privatização por terceirização de gestão, por exemplo, precise de aporte de verbas do governo para pagamento das terceirizadas, ele abre as portas das escolas terceirizadas também para o capitalismo filantrópico (a lei Rouanet da educação) e para os investimentos de risco, em especial as agências de investimento privadas, que procuram investir em empreendimentos educacionais com a finalidade de valorizar seu capital.

Veja matéria correlata aqui como exemplo.

A aprovação da PEC cria as bases para a diminuição progressiva do Estado e sua substituição na educação, saúde, segurança e outras áreas, pela ação de empreendimentos privados – seja por terceirização de gestão, seja por adoção da política de “vouchers” que transfere, via pagamento de bolsas aos estudantes, recursos para a iniciativa privada. O ajuste que os Estados terão que fazer para se enquadrar na PEC levará a isso, em um segundo momento. A aprovação da lei de terceirização também caminha no Congresso.

Com a privatização, aos poucos, vamos desnacionalizar a atenção básica da sociedade, exatamente para aqueles que mais precisam, introduzindo corporações que operam em escala internacional. É importante notar que tais empresas, em períodos de crise, serão as primeiras a abandonar o país. O capital não tem compromissos morais, apenas financeiros. E serão elas que estarão formando nossa juventude.

Isso também vai surpreender os atuais empreendedores brasileiros que já atuam na mercantilização da educação, pois também sucumbirão frente à concorrência destes grupos internacionais – algo que já assistimos na mercantilização da educação superior.

Portanto, juntamente com condenar a aprovação da PEC, precisamos nos preparar para enfrentar a privatização da educação brasileira que agora vai incluir o ensino básico.

Uma das lógicas da PEC é abrir espaço para privatizar.

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Luciano Mendes: PEC, elites e desigualdade

“Hoje é um dia muito triste para todos(as) que sonham e lutam com um Brasil menos desigual e mais democrático! Quis a fortuna que a aprovação da PEC 55 se desse no mesmo dia da publicação do AI 5, símbolo do terror implantado no Brasil pelo militares e civis que perpetraram o golpe de Estado de 1964. Dia triste, pois, duas vezes, que será lembrado em nossa história!”

Leia aqui.

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Artigo: TFA e a desprofissionalização do professor

Narrativas midiáticas do professor da Teach For All universal em 12 países

Resumo: “Este artigo usa a análise da narrativa para examinar como os meios de comunicação em 12 países diferentes caracterizam o professor da “Teach for All” (TFA). O exame das narrativas da grande mídia desses 12 países mostra que existem semelhanças notáveis nas narrativas construídas e propagadas pelos meios de comunicação sobre o professores que ensinam na organização. No centro dessas narrativas está a noção de que há um problema na educação, e este problema justifica a ascensão do personagem principal e da história. Este personagem é comumente construído em oposição aos professores tradicionais certificados e personifica as características e atributos do sujeito neoliberal contemporâneo. Este artigo discute as implicações dessa representação do personagem, pontualmente, e explora como a construção do professor de TFA influencia uma ampla percepção pública sobre a educação e como ele contribui para a (re)idealização do papel do professor. “

Baixe aqui o texto completo.

Os autores dão um breve histório da Teach For All:

“A Tech For All desempenha um papel importante na política educacional global e nas redes de governança. Fundada em 2007 durante a Iniciativa Global Clinton, a Teach for All cresceu a partir da Teach for America nos EUA e da Teach First no Reino Unido (Straubhaar & Friedrich, 2015). Teach for All é o nome para o guarda-chuva de vários empreendedores sociais que adotam o modelo Teach for All em seus países (Straubhaar & Friedrich, 2015). Este modelo baseia-se na noção de que a desigualdade pode ser reduzida colocando graduados de universidades de elite em escolas que são identificadas como de “alta prioridade” (de Marrais, Wenner & Lewis, 2013, Kavanagh & Dunn, 2013, La Londe, Brewer & Lubienski, 2015). De acordo com a Teach for All, os professores são um dos principais fatores na melhoria dos sistemas educacionais; bons professores oferecem aos alunos oportunidades educacionais apesar de seu status socioeconômico (Scott, Trujillo, & Rivera, 2016). Assim, os esforços da Teach for All apontam para a capacitação e desenvolvimento de professores e líderes “transformadores” como forma de acabar com a desigualdade educacional (La Londe, Brewer & Lubienski, 2015). Tech for All tem uma abordagem empresarial para resolver a desigualdade educacional e é um exemplo de estímulo à desregulamentação dos programas de formação de professores globalmente (Au & Ferrare, 2015, La Londe, Brewer & Lubienski, 2015). O apoio e participação da Teach for All nas abordagens corporativas e baseadas no mercado para a reforma da educação global podem ser vistos na sua “… dependência do setor privado para mover as políticas educacionais e professores, na sua ênfase na criação de um movimento de empreendedores sociais individuais e sua aceitação tácita da diminuição do papel do Estado na garantia da igualdade de recursos entre as escolas e entre sistemas escolares” (Scott et al., 2016, página 4).”

Leia aqui também.

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Carta de Belo Horizonte

Primeira Plenária Nacional Frente Brasil Popular

Passados seis meses do ato de violência que consumou a deposição da presidenta Dilma Rousseff e deu posse a um presidente sem voto, o país vê agravados todos os problemas econômicos e sociais, e caminha para o caos e a convulsão. Todos os campos da economia estão deteriorados, a começar pelo setor industrial, o mais sensível às crises econômicas, que, entre nós, já transita da recessão para a depressão.

O PIB encolheu 2,9%, numa sequência de dez meses consecutivos de queda, e fecharemos o ano com uma retração econômica de 3,4%. Os investimentos caíram 29%  e o BNDES reduziu seu desembolso em 35%. Nenhum setor da economia está respondendo aos paliativos governamentais. Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE), o desemprego em dezembro é de 12%, e tende a continuar em alta. Hoje estão desempregadas 12 milhões de pessoas e  a indústria paulista trabalha com nova leva 150 mil desempregados em 2017.

Paralelamente o governo aposta na desnacionalização da economia e investe de forma criminosa na desestruturação da indústria petrolífera brasileira e um de seus alvos é a Petrobras, patrimônio de nossa nacionalidade.

A federação se esfacela com a falência de Estados e municípios, com todas as suas consequências como a maior deterioração dos serviços públicos, notadamente de saúde, educação e segurança publica, além do atraso dos salários de seus servidores. Minas Gerais, Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, três dos Estados mais ricos da federação, já declararam ‘situação de calamidade financeira’.

Em vez de enfrentar os problemas encontrados  – resultado de séculos de depredação capitalista – o governo ilegítimo os aprofunda e leva o país a uma grave crise política, ao ponto mesmo da degradação institucional e da falência administrativa. Em meio a um estado de acefalia, está instalada uma crise de Poderes, que prenuncia o esgotamento da ordem política fundada com a Constituição de 1988. Avança um estado de exceção, antipopular, antinacional e antidemocrático, que restringe direitos de defesa, ameaça lideranças políticas, dirigentes de movimentos populares e o presidente Lula.  O processo democrático, conquistado com tanta luta pela resistência popular à ditadura militar, está ameaçado. Cumpre nos preparar para construção da nova ordem, democrática e popular.

Parte de nossa luta deve estar voltada para a formulação de um Projeto de Brasil que se anteponha ao quadro atual, retomando o desenvolvimento, a distribuição de renda, o combate às desigualdades sociais, a defesa da economia nacional e a defesa da democracia. Esse Projeto de Brasil deve ser o resultado de amplo debate nas bases sociais, de sorte que dele possa participar  o maior numero de brasileiros.

Confiamos na capacidade de luta da classe trabalhadora brasileira, para, por meio das suas centrais sindicais, organizar a resistência aos ataques aos direitos trabalhistas e previdenciários, construindo a greve geral.

Em toda e qualquer hipótese, a alternativa que se coloca para o povo braseiro é sua presença nas ruas. Foi a mobilização popular que em plena ditadura, conquistou a Anistia; foi a presença de nosso povo nas ruas que construiu a campanha das Diretas Já e assegurou a convocação da Constituinte.

Somente a unidade das forças progressistas e populares, pode resistir aos ataques à democracia e ao mesmo tempo construir força política para implementar um programa de desenvolvimento econômico, social e politico; somente nossa unidade pode enfrentar e derrotar o atual governo e as forças econômicas do atraso que o controlam. Só o voto popular pode superar essa crise politico-institucional  e apontar para uma nova ordem politico social no interesse da Nação, do povo e da democracia, viabilizando as reformas estruturais no pais.

A FBP avalia, em um balanço de suas atividades, que cumpriu o papel a que se destinara na sua criação, reunindo reflexão e práxis, mas se destacando em seu papel de aglutinação das forças de resistência ao golpe e agora ao governo Temer. Diante dos desafios interpostos pela conjuntura, a FPB convida todos os brasileiros a se integrarem no processo de construção da II Conferência Nacional a realizar-se no próximo ano.

Bandeiras Políticas: 

  1. Contra o Golpe, Fora Temer e Diretas Já.
  2. Nenhum direito a menos: a) Em defesa do emprego, saúde, educação dos salários; b) Em defesa dos direitos sociais (com protagonismo: LGBT, mulheres, negros e negras); c) Contra: PEC 55, Reforma da Previdência e Terceirizações.
  3. Em defesa das liberdades democráticas e contra o Estado de Exceção: a) Contra os abusos do judiciário e do Ministério Público; b) Contra a criminalização dos movimentos e da luta popular; c) Contra o genocídio da juventude negra; d) Contra o avanço do conservadorismo; e) Pelo Direito do Lula ser candidato a presidente.
  4. Por uma Reforma Política, que amplie a participação e a democracia popular e propagandear a Constituinte como um horizonte estratégico.
  5. Defesa da soberania: a) Defesa das estatais e bancos públicos, contra a privatizações; b) Defesa das riquezas nacionais em especial a terra, petróleo a energia elétrica, minérios, água e biodiversidade.

Belo Horizonte , 7-8 de dezembro de 2016

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PISA: destaques do que deu na imprensa

Em época de divulgação de PISA, proliferam na imprensa as conclusões fáceis. Eis algumas que separei:

  1. “O nível socioeconômico também influencia o desempenho. Alunos com maior nível socioeconômico tendem a tirar notas maiores. Entre os países da OCDE, a diferença entre estudantes com maior e menor nível pode chegar a 38 pontos de proficiência. No Brasil, essa diferença chega a 27 pontos, ou o equivalente um ano de aprendizagem.

De onde veio esta ideia estapafúrdia de que 30 pontos no PISA equivalem a um ano de aprendizagem? Isso não tem o menor sentido. É uma mera projeção numérica que exclui os alunos concretos que estão de fato nas salas de aula, e abstrai um resultado a partir de um modelo teórico que não leva em conta escolas reais. Mero exercício de futurologia barata, bem ao estilo da econometria amplamente usada também por Hanushek e outros que se “divertem” em seus “oráculos virtuais” colocando as suas próprias regras e expectativas em substituição à vida real.

Por outro lado, este fechamento de uma brecha de 27 pontos no desempenho tem sido prometido pelas políticas da reforma empresarial, mas onde já foi aplicada por décadas não fechou, ampliou a segregação escolar. Isso vale para o Chile e para os Estados Unidos, palco da aplicação destas ideias.

  1. O Brasil não melhorou a qualidade e nem a equidade nos últimos 13 anos, principalmente”, diz Maria Helena [Secretária Executiva do MEC]. “A única melhora do país foi no fluxo. É importante registrar que 77% dos estudantes que fizeram o Pisa estão no ensino médio”, acrescenta.”

Eis aí um dos problemas com o PISA: mede a educação brasileira onde ela menos avançou, ou seja, no ensino médio. Não é esta a realidade do ensino fundamental onde especialmente os anos iniciais estão progredindo sistematicamente ao longo dos últimos 13 anos, como o próprio IDEB mostrou. Não é verdade também, que o Brasil não melhorou a qualidade nos últimos 13 anos, como demonstramos no caso de matemática, em post anterior, e das demais áreas de avaliação do PISA – embora dentro da precariedade de avaliação do PISA.

  1. “Em leitura, cuja média do Brasil foi de 407 pontos, e em matemática, cuja média foi 377, 15 estados ficaram abaixo da média nacional: Roraima, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, Rondônia, Amapá, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe, Maranhão, Tocantins, Bahia e Alagoas.” Esqueceram de incluir o Ceará que também ficou abaixo da média.

Pudemos ler recentemente que o atual Ministro da Educação considera que Pernambuco tem um ensino médio exemplar para o Brasil. E agora somos informados que este Estado está abaixo da média do PISA nacional. E fica nesta posição junto com o Rio de Janeiro de Risolia, que agora assumiu a unidade de negócios educacionais da consultoria Falconi. E Risolia jura ter, junto com a Falconi, promovido uma reforma do ensino igualmente exemplar. Pernambuco ainda fica acompanhado do Ceará e das maravilhas milagreiras de sua Sobral, turbinados pelos Gomes com todo o receituário da reforma empresarial.

Mas, não é só isso: e Goiás? Goiás tem o melhor ensino médio do país e no PISA ficou acima da média (empatado com São Paulo que aplica a reforma empresarial da educação) e mesmo assim, o atual governo de Goiás quer entregá-lo à iniciativa privada por concessão de gestão. Goiás é um dos melhores resultados do IDEB em ensino médio, e para chegar a esta posição, não fez uso da receita de Risolia para o Rio e nem da receita de Mendonça para Pernambuco e muito menos das receitas de Cid Gomes para o Ceará.

  1. “Esses estudantes alcançaram uma pontuação que os coloca abaixo do nível 2, considerado adequado nas três áreas avaliadas pelo Pisa. Separadamente, 56,6% estão abaixo do nível 2 e apenas 0,02% está no nível 6, o máximo da avaliação. Em leitura, 50,99% estão abaixo do nível 2 e 0,14% estão no nível máximo; em matemática, 70,25% estão abaixo do adequado, contra 0,13% no maior nível. Isso significa que esses estudantes não conseguem reconhecer a ideia principal em um texto ou relacioná-lo com conhecimentos próprios, não conseguem interpretar dados e identificar a questão abordada em um projeto experimental simples ou interpretar fórmulas matemáticas.”

O que não está dito é que eles não conseguiram se sair bem nesta situação de teste e no formato dos itens que lhes foram dados. Será que de fato estas pessoas estão tão “imbecilizadas” assim na sua vida diária? Será que estas pessoas não possuem outras estratégias cognitivas para lidar com estas mesmas exigências na sua vida diária? Não poderia ser que esta “linguagem” das avaliações de larga escala, codificada em itens de testes, lhes seja estranha? Por que os estudantes têm que demonstrar este conhecimento sob esta forma de testes e não em outras situações realmente sociais que lhes são postas na vida diária?

Qual o modelo estatístico que está por trás das avaliações de larga escala e que, por seu planejamento, induz a produção da diferença a partir da própria concepção das avaliações, ou seja, a reprodução da “curva normal” como espelho desejável dos resultados nas avaliações, distribuindo os alunos ao longo de uma curva onde deve haver alunos abaixo da média e acima da média? Como aponta Steven Singer:

“Pesquisadores, estatísticos, e acadêmicos de todos os matizes têm conclamado para que se ponha um fim aos testes de alto impacto na política educacional. Pais, alunos e professores têm escrito cartas, testemunhado perante comissões do Congresso, protestado nas ruas, se recusado a realizar ou administrar testes. Tudo para ouvidos surdos.

“O governo federal ainda exige que todos os estudantes da 3ª. até a 8ª. séries, uma vez por ano, façam testes padronizados.

“Mas essas avaliações distribuem os alunos em uma curva. Uma certa quantidade de estudantes deve estar na parte inferior, uma certa quantidade deve estar na parte superior, e a maioria deve ficar agrupada no meio. Isso será verdadeiro seja que você esteja testando todos os gênios ou todas as pessoas com lesões cerebrais traumáticas.

“Não importa o quão inteligente os examinandos sejam. Haverá sempre essa distribuição da curva normal. É assim que os testes são projetados. Então, falar sobre o aumento nos resultados de testes é absurdo. Você pode elevar a pontuação na escola A ou B, mas o conjunto total de todos os examinandos será sempre o mesmo. E alguns alunos sempre falharão. “Mas isso não é nem mesmo a pior parte.

“A padronização, em si, tem certas consequências. Parece que nós esquecemos o que o termo significa. Padronizar é definido como o ato de avaliar alguém ou algo tendo por referência um padrão “.

O autor então alerta para as questões que estão embutidas nos testes:

“Isso é o que estamos fazendo com as pessoas – crianças de fato. Estamos avaliando-as com base na sua semelhança com alguma definição ideal do que uma criança deve saber e o que uma criança deve ser.”

“Quando você tenta abstraí-las a esse ponto, é impossível remover vários fatores essenciais da sua identidade – raça, sexo, status socioeconômico, etc. Nem seria admirável se você pudesse, porque você teria abstraído ao ponto em que o indivíduo não é mais visível ou valorizado. Uma criança que cresceu na pobreza simplesmente não é a mesma que uma criança constituída a partir de uma educação privilegiada. Uma criança que parte de uma cultura que valoriza a cooperação não é a mesma que uma criança de uma cultura que valorize o desempenho individual. E isso é muitas vezes uma coisa boa.”

Estas são considerações que estão para além do senso comum que costuma cercar as questões de avaliação quantitativa.

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PISA ciências e leitura 2015: outro olhar

Como demonstramos antes para a área de matemática, o resultado do valor agregado para as áreas de ciências e leitura no PISA também apresenta crescimento: calculando o valor agregado ao longo das aplicações do PISA, o Brasil tem saldo positivo.

No caso de ciências, a variação da média nesta última edição do PISA é de apenas um ponto a menos em relação ao ano anterior. Não há que se falar em queda, pois a diferença nem é estatisticamente significativa.

Além disso, pelo gráfico abaixo, o Brasil tem um saldo positivo de 10 pontos entre a primeira e a última aplicação do PISA, enquanto que a Austrália, por exemplo, acumula saldo negativo ao longo do exame (-17). (Baixe aqui o quadro geral dos dados do NCES sobre ciências.)

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Em leitura o Brasil manteve a mesma nota de 2011, não houve queda. Além disso, ao contrário dos Estados Unidos e Austrália que perderam pontos ao longo das edições do PISA, o Brasil tem um estoque acumulado de 11 pontos positivos. (Baixe aqui o quadro geral dos dados do NCES sobre leitura.)

leitura

Portanto, não há razão para se falar em caos na avaliação brasileira nesta última edição do PISA. Também é insustentável a fala da atual Secretária Executiva do MEC insistindo em que o Brasil não melhorou a qualidade de sua educação nos últimos 13 anos, resumindo-se a ampliar a cobertura. Isso não tem sustentação nos dados de valor agregado apresentados.

Mais ainda, ao ampliar a cobertura atingindo populações com maiores dificuldades de aprendizagem, o esperado era que sua media geral tivesse dificuldades para continuar crescendo ao longo das várias aplicações, o que não se evidencia, mostrando que conseguimos ampliar a cobertura mantendo nos últimos 13 anos, uma tendência de crescimento positiva para estas médias gerais (10 pontos em ciências, 11 pontos em leitura e 21 pontos em matemática).

 

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PISA matemática 2015: outro olhar

É equivocado tomar a posição do Brasil no ranking geral do PISA e julgá-lo apenas pela última edição. Se o critério de ranqueamento fosse por “ganhos acumulados nas edições do PISA”, ou seja, valor agregado, apareceríamos à frente dos Estados Unidos e da Austrália – que dizem ser modelos para o Brasil. Por que não é este o critério de ranqueamento?

O PISA é o oráculo dos investidores que procuram, no campo da qualificação da mão de obra, orientar-se quanto à preparação desta para gerar o retorno esperado de seus investimentos. Não é a única variável a ser considerada nos investimentos, mas é importante face às características da produção atual vinculada às grandes corporações, cujos métodos de produção necessitam ser constantemente revolucionados pela automatização, exigindo um reposicionamento da educação.

Neste cenário, até mesmo o exército de reserva (leia-se de desempregados) precisa estar em um estado de preparação superior ao que no passado o capitalismo lhe reservou, ou seja, ser “empregável” atendendo às novas exigências deste processo, caso o capital venha a necessitar deles. Junte-se a isso, as características de precarização contratual cada vez mais presentes na demanda do trabalho pelo capital. Mantidas as distâncias relativas, se a ponta superior da qualificação subiu, é preciso reajustar o valor da posição inferior. Eis o repentino interesse dos empresários na instrução da pobreza (gerada por eles mesmos).

Eis também porque a OCDE, meca de empresários e dona do PISA, monitora os países, indicando qual o nível de preparação de sua força de trabalho, de forma a evidenciar se estão ou não preparados para as novas demandas da produção, constituindo-se em palco seguro para os novos investimentos.

Além disso, constitui um poderoso instrumento de controle político e ideológico dos governos, a partir de um lugar central, a OCDE, com poder de conformação de suas políticas nacionais, retirando-lhes o poder de formular sua própria política local e constrangendo-os (pela mídia e suas formas de divulgação) a adotarem o receituário internacional que a OCDE considera necessário para atender aos interesses em jogo.

Para cumprir estas tarefas, a OCDE incentiva a adoção de um critério de medição da qualidade da educação baseado em avaliação por testes e passa a ser considerado qualidade a mera elevação das médias dos países nos testes e, por oposição, passa  a ser considerado não qualidade a redução das médias. O critério é estreito e baseado em três disciplinas dentre todas as que a escola trata: ciências, matemática e leitura.

Com esta redução, a OCDE incentiva também a eliminação do debate sobre “o que é uma boa educação” e impõe a aceitação das médias em testes como único critério de qualidade. Os efeitos que estas opções provocam nos países são variados, incluindo a “cópia” deste modelo em suas avaliações nacionais (p. ex. o IDEB) e a vinculação dos conteúdos e métodos das escolas à preparação para os testes, produzindo um estreitamento curricular que privilegia as disciplinas que caem nos testes e, ao mesmo tempo, restringindo, mesmo nestas disciplinas que caem nos testes, o âmbito e a extensão do que é ensinado, orientado por bases nacionais comuns regadas a “descritores” orientadores do que deve ser ensinado nas salas de aula, amarrando, de quebra, a formação de professores e a própria geração do material didático.

Estas decisões e implicações são esquecidas quando a mídia, num ato presentista, toma o último resultado do PISA para repercutí-lo. Sequer a sequência das notas do próprio PISA é trazida para análise. Apenas o último resultado (ou no máximo os mais recentes) são considerados. Se há uma queda, como no caso brasileiro houve no último PISA, em matemática, governos e mídia se divertem explorando seu significado à luz de seus interesses.

O momento particular que o Brasil vive, querendo apagar tudo que foi feito nos últimos 13 anos, para impor a “sanha salvacionista” que quer justificar o golpe, é propício para a repercussão de tais resultados.

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Dados da NCES

O gráfico acima mostra uma outra perspectiva de análise para os mesmo resultados. Ele mostra os resultados do PISA para alguns países que selecionamos, em todas as edições do PISA de 2003 a 2015 – para matemática. Selecionamos matemática pois é onde o Brasil mais caiu na última edição.

Na análise, incluimos a Austrália pois ela é exemplo de política de reforma que o novo governo brasileiro vive dizendo que deveria ser referência para nós. Incluímos também os Estados Unidos pois é deste centro irradiador de políticas que as ideias da reforma empresarial da educação se difundiram para a Austrália e também para o Brasil. E incluímos também os países da América Latina para aqueles que há uma sequência mais longa de participação em matemática no PISA podendo, portanto, falar-se em uma “tendência de resultados nas avaliações”.

Vamos entender o gráfico. Para cada país, há um conjunto de barras que representam cada um dos exames do PISA que aquele país realizou entre 2003 e 2015. Note, por exemplo, no primeiro conjunto de barras da Austrália, que ela vem levando tombos sucessivos no PISA desde que ele foi criado – ladeira abaixo. Nunca melhorou. Há uma barra menorzinha, na base do gráfico onde se lê o número -30. Sim, é isso, entre 2003 e 2015 a Austrália perdeu 30 pontos no PISA. Os dados e os cálculos são do National Center for Education Statistics dos Estados Unidos, pois o nosso INEP ainda está deitado em berço esplêndido… (baixe aqui a tabela geral).

Note em seguida o conjunto de barras dos Estados Unidos. Está oscilando estagnado em torno do mesmo valor e nas três últimas edições do PISA, também levou tombos sucessivos, ladeira abaixo. Note, na base das barras, que os Estados Unidos perderam 13 pontos desde que o PISA começou.

Depois temos o Chile – filial americana na área educacional – que participou de quatro edições do PISA. Suas barras indicam que caminha para a estagnação, com reduções sucessivas nos avanços de seu desempenho. No entanto, na diferença global, ele ainda preserva 12 pontos positivos que acumulou.

Temos a seguir o Uruguay que apesar de ter melhorado na presente edição do PISA, não consegue ainda recuperar os pontos que perdeu durante as edições do exame, tendo uma queda moderada de 4 pontos.

Finalmente, vamos ter três países bem similares nos resultados: México, Colômbia e Brasil. Note que em todos estes três casos há ganhos positivos no conjunto das edições do PISA superiores a 20 pontos.

Ao contrário da Colômbia, México e Brasil caíram na última edição do PISA. Mas o Brasil tem sua primeira queda em matemática apenas nesta edição de 2015.

Claro que estes países têm níveis globais de desempenho diferenciados que também sofrem a influência de seu nível socioeconômico e cultural. No caso latino-americano, é sabido que a área andina ou de fala espanhola têm outra procedência cultural que se reflete na área educacional, fazendo com que problemas estruturais que o Brasil só agora tenta resolver tenham sido resolvidos antes nesta área. Este é outro dos problemas que se tem com o PISA – ele esquece os fatores culturais que marcam as diferenças entre os povos e afetam os resultados.

Pois bem, bastou esta primeira queda brasileira no PISA de matemática para que a educação brasileira seja vista como um “caos” por um governo que se considera literalmente “salvador da Pátria”. No entanto, como se pode ver no gráfico, nas próprias medidas imprecisas do PISA, o Brasil tem um acumulado positivo de 21 pontos, mesmo com a queda pontual na última edição. Isso é mérito dos últimos 13 anos, mesmo que não aprovemos tudo o que foi feito nestes anos. Ao contrário deste resultado, a Austrália cai seguidamente e junto com os Estados Unidos acumulam pontos negativos.

Cada país deve ser contrastado com suas próprias condições e forças, tendo como referência a origem inicial da série de medições. Isso dá uma melhor ideia do esforço feito por aquele país na superação de seus problemas – supondo-se que a medida seja boa, e já vimos que não é. Comparar a média de um país com a média dos outros é indevido, pois esta reflete condições diferenciadas cultural e economicamente.

Mudando o critério do ranqueamento, em matéria de esforço, estamos à frente dos Estados Unidos e da Austrália, mesmo que a média deles seja mais alta, respondendo a condições econômicas e culturais. Durante o período de queda nas médias destes países, eles tentaram aplicar as mesmas receitas que agora se quer aplicar no Brasil, ao que parece, sem resultados visíveis nas médias.

Continuaremos em outros posts.

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