Pátria educadora: novo texto, mesmas ideias – final

O parecer que estamos analisando, como vimos, dá base para a cooperação horizontal e neste sentido, é complementado pelo atual documento da SAE que pretende criar a cooperação vertical. Dentro da proposta de cooperação horizontal, nos Municípios, o Parecer admite a possibilidade dos consórcios públicos.

“A primeira [dimensão], diz respeito à cooperação entre territórios, incluindo aí formas de associativismo e consorciamento. Trata-se da criação de entidades territoriais, formais ou informais, que congregam, horizontal ou verticalmente, mais de uma esfera de governo de entes federados diversos. A segunda dimensão da coordenação vincula-se à conjugação de esforços inter e intragovernamentais no campo das políticas públicas. “

O Parecer segue, então, descrevendo os consórcios públicos que podem ser desenvolvidos dentro dos ADEs:

“O consorcio público é pessoa jurídica formada exclusivamente por entes da federação na forma da lei 11.107/2005 para estabelecer relações de cooperação federativa para a realização de objetivos de interesse comum, constituída como associação pública, com personalidade jurídica de direito público e natureza autárquica, ou como pessoa jurídica de direito privado sem fins econômicos.”

“Os consórcios públicos também podem se constituir num importante espaço de diálogo e fortalecimento das relações entre o poder púbico e as organizações da sociedade civil, articulando parcerias, convênios, contratos e outros instrumentos congêneres ou similares, facilitando o financiamento e a gestão associada ou compartilhada dos serviços públicos (grifos meus).”

O Parecer escancara as portas para a privatização da educação e para sua colocação sob controle de entidades comandadas por empresários. Abre um mercado para contratação de empresas de consultoria, planejamento, avaliação, produção de materiais de ensino, uso de tecnologias da educação, entre outras.

Como exemplo, o próprio Parecer elenca experiências de ADEs que motivaram a proposição da medida e apresenta um esquema geral da metodologia a ser seguida. A abrangência dos ADEs inclui ações de gestão educacional, formação de professores e dos profissionais de serviço e apoio escolar, práticas pedagógicas e avaliação, e infraestrutura física e recursos pedagógicos.

São citados no Parecer: o ADE do recôncavo baiano, com 12 municípios, e que foi incentivado pelo Instituto Votorantim; o ADE meridional de Pernambuco, com 23 municípios, incentivado pelo SESI-PE, com apoio da Confederação Nacional da Indústria; o ADE do corredor de Carajás no Maranhão, com 16 municípios, incentivado pela Fundação Vale e estruturado pela Comunidade Educativa (CEDAC) que motivou o aparecimento de outros sete.

Estes arranjos iniciaram em 2009 e tiveram apoio do Movimento Todos pela Educação, em parceria com diferentes instituições públicas e privadas.

Este é o horizonte do documento da SAE: completar a cooperação horizontal proposta em 2009 em Parecer do CNE, com um instrumento de cooperação vertical, dando a ambas uma nova estrutura jurídica. Visa, agora, construir a torre vertical jurídica e financeira sobre esta base horizontalizada.

Haveria que se perguntar onde estas ideias produziram educação de qualidade e quais foram, além disso, as consequências nefastas destas políticas. Tudo isso está disponível na literatura. O país que mais fez uso destas estratégias estava, antes delas, na média do PISA e continua, após 10 anos destas políticas, na mesma média do PISA: os Estados Unidos.

Nada disso detém os reformadores empresariais. Outros são os interesses que comandam a adoção destas ideias.

A crise institucional brasileira associada à crise financeira do Estado vai ajudar a empurrar a educação brasileira para a privatização, para a dependência de Fundações e ONGs reproduzindo aqui, os mesmos problemas que hoje podem ser observados em outros países usuários destes milagres. Não é questão de ciência, é fé. Os reformadores simplesmente têm fé nas ideias de mercado, na política de controle sobre os sistemas, professores, diretores e estudantes através de incentivos e regras hierárquicas, regadas a boas práticas copiadas. Estamos iniciando um longo ciclo de políticas nesta direção.

Este ciclo de política gerará mais décadas perdidas para a educação. Fatalmente, teremos que reconhecer seu fracasso como os pesquisadores americanos hoje reconhecem o fracasso em seu país com estas políticas. Então, teremos que voltar ao principal: à questão das políticas econômicas e sociais como causadoras dos problemas sociais, inclusive os educacionais. Teremos que reconhecer que sem alterar as políticas econômicas e sociais, não há como resolver os problemas por elas causados.

As políticas propostas pela SAE vão abrir um grande mercado, no mínimo colocarão a educação ideologicamente sob controle dos negócios e no máximo, além disso, gerarão um grande mercado lucrativo. Eis as reais motivações. Nenhuma das duas, tem compromisso com a qualidade social da educação. Berliner afirma em recente artigo:

“Este trabalho surge da frustração com os resultados das reformas escolares realizadas ao longo das últimas décadas [nos Estados Unidos]. Estes esforços falharam. Eles precisam ser abandonados. Em seu lugar deve vir o reconhecimento de que a desigualdade de renda causa muitos problemas sociais, incluindo problemas relacionados com a educação. Infelizmente, em comparação com todos os outros países ricos, os EUA tem a maior diferença de renda entre seus cidadãos ricos e pobres. Correlações associadas ao tamanho da diferença de renda em várias nações estão bem descritas em Wilkinson & Pickett (2010), cujo trabalho é citado ao longo deste artigo. Eles deixam claro que, quanto maior a diferença de renda em um país ou um estado, maiores serão os problemas sociais que uma nação ou Estado irá encontrar. Assim, argumenta-se que a concepção de melhores políticas econômicas e sociais pode fazer mais para melhorar nossas escolas do que o contínuo trabalho com a política educacional feito independentemente destas preocupações.”

 

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Pátria educadora: novo texto, mesmas ideias – VI

O documento mais relevante para se entender para onde se dirige toda esta superestrutura jurídica que a SAE quer criar é o Parecer do CNE homologado em 22/11/2011 por Fernando Haddad. Ele está agora colocado na base da proposta da SAE. A implantação das teses dos reformadores é mais facilmente visível nos Municípios e Estados. Primeiro porque é neles que se realiza a educação básica, depois pela diversidade de posições que facilita acordos de implantação programáticos, via partidos.

Neste Parecer citado, está criada a base do sistema nacional de educação, sobre a qual, agora, a SAE constrói a sua torre jurídica, montando a estrutura que irá garanti-la. A leitura do Parecer do CNE mostra que os reformadores empresariais já naquela época (2011) estavam, com a proposta dos ADEs – arranjo de desenvolvimento educacional –, tentando instituir um sistema nacional de educação ao nível horizontal, ficando em aberto a sua construção vertical (matéria que a SAE está agora propondo). Nele pode se ler:

“Comumente, o regime de colaboração previsto na constituição e na legislação é visualizado e posto em prática, em geral, na sua forma vertical, ou seja, de colaboração da União com Estados, Distrito Federal e Municípios, e dos Estados com seus Municípios. Este parecer pretende nortear a forma de cooperação horizontal, essencialmente entre entes federados do mesmo nível, no caso os municípios, protagonistas e atores central do processo que visa a assegurar às duas primeiras etapas da Educação Básica de qualidade e a desenvolvê-la no espaço geográfico a eles comum, mas de forma articulada com os Estados e a União.”

Ou seja, não havia condições jurídicas para se propor uma cooperação vertical, na forma que seria necessário. Faz-se, portanto, seja pela importância, seja por impossibilidade, uma proposta no plano horizontal.

Já naquele Parecer se enfatiza a necessidade de que para o ADE funcionar no nível regional, ou municipal, é fundamental a participação das esferas estadual e federal. O atual documento da SAE completa o trabalho iniciado por Mozart Ramos Neves (Relator da matéria no CNE) – membro do Todos pela Educação e hoje no Instituto Airton Senna. O Parecer foi produzido por uma comissão composta por Mozart Ramos Neves, Cesar Callegari, Adeum H. Sauer, José Fernandes Lima e Rita Gomes do Nascimento. Foi entregue ao MEC em 30-8-2011 e homologado em novembro do mesmo ano. Lá também se pode ler que:

“Analisa-se, nesse sentido, uma das formas de colocar em prática o regime de colaboração, aqui denominado arranjos de desenvolvimento da educação (ADE). Os ADEs, não obstante a forte característica intermunicipal, devem agregar a participação do Estado e União, incluindo ou não a participação de instituições privadas e não governamentais, tais, como empresas e organizações diversas, que assumem o objetivo comum de contribuir de forma transversal e articulada para o desenvolvimento da educação em determinado território que ultrapassa as lindes de um só Município, sem que haja para isso transferência de recursos públicos para tais instituições e organismos privados.

Em relação a este final da citação, devemos lembrar que existem dois aspectos associados à questão da privatização da educação: um referente a quem controla e define políticas, de caráter mais ideológico; outro, mercadológico, ligado à questão de abertura de mercado e ao faturamento. O ADE proposto procura evitar o repasse de recurso público diretamente a “instituições e organismos privados”, ou seja, coloca a questão do não recebimento de dinheiro público por estas. No entanto, mantém aberto o acesso às políticas, metodologias e ao controle da educação pela via das organizações e instituições sem fins lucrativos (Fundações, etc.). Meia dúzia de Fundações controlam a educação americana com doações.

Ou seja, a associação de empresas nos ADEs supõe que o interesse dos envolvidos não esteja em receber o dinheiro público – não pelo menos diretamente. Apresenta-se, pois, ao nível de uma ação ideológica e filantrópica das empresa ou organizações envolvidas, o que lhe permite acesso ao controle ideológico e das políticas locais.

Mas há outras formas de contentar o pessoal do faturamento com recursos públicos. Entre elas a mudança dos próprios dispositivos legais futuramente. Basta pensar, por exemplo, em uma espécie de “lei rouanet da educação”, pela qual você retém antecipadamente recursos que deveriam ser públicos, ou seja, impostos que deixam de ser recolhidos em proporção ao investimento (doação) que as empresas fazem em educação. Ou então via Fundação, modelo preferido dos norteamericanos, pela qual a insenção fiscal é feita pela empresa detentora da fundação a partir da doação feita a um ADE. Portanto, o pessoal do faturamento tem como resolver o problema por outras formas. Quem está diretamente ligado ao faturamento será beneficiado de imediato pela criação de demanda e mercado, participando de outras formas do ADE. Aqui, a criatividade é muito ampla. O próprio Parecer fala em montagem de consórcios que certamente permitirão contratação indireta nos ADEs.

Continua no próximo post.

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Pátria Educadora: novo texto, mesmas ideias – V

Em posts anteriores, mostramos o confronto entre o MEC e a SAE, cada um deles com sua proposta de Sistema Nacional de Educação. Hoje as Universidades receberam as duas propostas para que enviem sugestões – um confronto claro que Mangabeira oculta dizendo que prefere processos abertos de construção de políticas. Ninguém entende muito bem porque chegam dois documentos sobre o mesmo assunto oriundos de um mesmo governo. Um, o do MEC, foi distribuído pela ABRUEM e o da SAE pela própria SAE.

Mangabeira está circulando e divulgando sua posição. O INSPER, uma das mecas dos reformadores empresariais da educação, já tem programação.

Como vimos examinando, a proposta de Mangabeira feita no primeiro documento, aparece aqui desenvolvida na forma de uma superestrutura jurídica destinada a incorporar conceitualmente suas teses iniciais de responsabilização verticalizada e meritocracia. A verticalidade da responsabilização está expressa no órgão máximo condutor da política.

A CTC, em nível federal, é uma Comissão Tripartite de Cooperação Federativa comporta por 15 pessoas (5 do governo federal, 5 secretários estaduais (um por região) indicados pelos pares e 5 secretários municipais (um por região) indicados pelos pares). O sistema nacional é visto como uma questão de gestores, inclusive de gestores que não necessariamente são educadores, pois Secretários de Educação são oriundos de diferentes profissões. Contrariando tudo que os educadores deliberaram em suas Conferências Nacionais nós últimos anos, suas entidades estão excluídas. É uma proposta claramente para afastar dos mecanismos de decisão todas as entidades científicas e sindicais da área educacional. E mais, o CTC pode:

“A CTC possui autonomia técnica e suas deliberações não estão sujeitas a recurso hierárquico ou revisão por outros órgãos.”

“Nos limites de sua competência a CTC poderá expedir Norma Operacional Básica – NOB, com efeito vinculante, para orientar, regulamentar e organizar a cooperação federativa entre os entes da Federação.”

“No exercício da competência a CTC deve associar a prestação de assistência técnica e financeira à fixação de metas intermediárias, priorizando sistemas e redes de ensino com IDEB abaixo da média nacional ou em situação de desempenho crítico.”

“Pactuar a implantação dos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento que configurarão a base nacional comum curricular do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, respeitada a diversidade regional, estadual e local. (Todos grifos meus.)”

Com poderes supremos, a proposta caminha na direção da visão de implantação do Common Core americano, onde os Estados, para acessarem recursos, são obrigados a aceitar a base nacional comum e suas avaliações. O respeito à diversidade que a proposta menciona refere-se a uma porcentagem do currículo que, é claro, não entra nas avaliações nacionais e, portanto, será vista como algo secundário.

Na indicações das funções destas Comissões está o ponto central de controle do sistema montado e que se articula com os processos de avaliação censitários e o cadastro nacional dos alunos:

“Definir os critérios de aferição de desempenho dos sistemas de ensino.”

“Pactuar transferências de recursos da ação supletiva em educação, com a possibilidade de associação da prestação de assistência técnica e financeira à fixação de metas intermediárias.”

E ainda:

“Exercer as competências atualmente atribuídas à Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica de Qualidade e ao Comitê Estratégico do PAR, de forma a evitar a fragmentação de instâncias decisórias.”

“Conduzir e manter o funcionamento do Fórum Permanente de Valorização dos Profissionais da Educação”.

O documento ainda propõe a criação de Polos Regionais de Educação:

“são criados para que atuem como referência territorial para a cooperação horizontal entre os municípios e para a ação supletiva da União e do respectivo estado, de forma a atender as peculiaridades de cada uma de suas regiões.”

Em associação com estes:

“Incentivos à gestão colaborativa: a proposta fortalece juridicamente as possibilidades de compartilhamentos horizontais de experiências, bens e serviços educacionais a partir de arranjos de desenvolvimento da educação – ADEs, consórcios públicos ou convênios de cooperação. O incentivo a tais práticas se dará com apoio técnico federal e com a priorização na disponibilização de recursos voluntários da União aos entes que adotarem formas colaborativas de gestão.”

Obviamente, o documento é mais abrangente que isto, mas outros especialistas farão as análises pertinentes destes outros aspectos. Como se vê o documento torna o MEC um mero executor e o retira da linha central da condução da política educacional – uma verdadeira intervenção. Se o Ministro da Educação continuar a “ser cordial”, pouco restará para ele administrar.

No próximo post, nos deteremos no que consideramos ser o instrumento básico de promoção de processos de privatização da educação – seja com ou sem acesso a recursos públicos -, os Polos Regionais e suas ADEs. As partes até aqui mencionadas dão conta das duas primeiras categorias centrais dos reformadores empresariais, ou seja, responsabilização vertical e meritocracia. Bem na linha reclamada pela tríade de reformadores empresariais já mencionada:

“Para promover a eficiência e equidade existem dois mecanismos conhecidos: os incentivos, estimulando e premiando as boas práticas; e as regras hierárquicas (…).”

 Continua no próximo post.

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Pátria Educadora: novo texto, mesmas ideias – IV

Mangabeira Unger tem dito que seu objetivo é debater com uma visão ambiciosa. Lido pelo oposto, algo como o desejo de desafiar a pouca ousadia dos educadores e do MEC. Quanto às suas disputas com o MEC, as justifica dizendo que ele é adepto de “processos abertos” de construção de políticas e não fechados. Daí que queira aprofundar o debate.

Fico imaginando esta estratégia sendo usada na área da saúde, por exemplo, com os médicos – qual seria a reação. Que tal “consertarmos” os hospitais assim. Algumas pessoas pensam que possuem um método infalível de promover o avanço da humanidade, mesmo que ignorem o conteúdo específico de uma área. Mais, acham que os que dominam tal conteúdo estão contaminados e já não podem ser interlocutores “isentos”. Teoricamente (com perdão da palavra) são pragmatistas e imediatistas: o que resistir é o que vale. Recentemente ele dizia:

“O que eu quero para o Brasil é a ambição. Como diz os americanos, vamos arrebentar a boca do balão (risos). Eu vou apostar em tudo isso e depois o Brasil vai me puxar para o centro de gravidade. Mas eu vou resistir.”

O mais provável é que a história lhe reserve uma posição pouco confortável no futuro, muito provavelmente, a de inocente útil – no melhor dos casos – na qual ele figurará como um neo-pragmatista que em sua ingenuidade, abriu caminhos para a implantação das teses dos reformadores empresariais no Brasil como política oficial. Mas há outras possibilidades que não descarto. Em todo caso, temo que Mangabeira esteja mais é centrado em si mesmo e que tenhamos outras coisas mais importantes a fazer do que cuidar do seu centro de gravidade.

No último post apresentamos uma visão geral do novo documento. Nossa análise aqui somente pode ser feita do ponto de vista do campo da avaliação. Certamente os colegas que tratam especificamente com a questão da gestão e do sistema nacional de educação poderão ter outra visão e outra contribuição em relação à matéria. Este autor não tem competência em tais áreas.

No entanto, do ponto de vista da avaliação, no item II da primeira parte, o documento especifica as inovações em avaliação e planejamento:

“a. Estabelecimento dos objetivos centrais do processo de avaliação, com destaque para a necessidade de identificar, avaliar e divulgar as experiências educacionais exitosas da Federação brasileira. Há previsão de designação de órgão específico para concretizar esse objetivo.

1. Previsão de Estudantes: cadastro nacional de estudantes para armazenar, tratar e integrar dados e informações dos estudantes do ensino básico, de forma a auxiliar a formulação, implementação, execução, acompanhamento e avaliação das políticas educacionais.

2. Avaliação anual e classificação do desempenho dos sistemas de ensino a partir de critérios definidos pela Comissão Tripartite de Cooperação Federativa – CTC, de forma a criar referência para as políticas públicas de educação, em especial aquelas relativas a currículo, assistência técnica e financeira, apoio e resgate dos sistemas de ensino.

3. Previsão de patamar para identificar os sistemas de ensino em situação de “desempenho crítico”, essencial para construção de políticas públicas de apoio a esses sistemas. (Todos grifos meus.)”

O documento agora não fala mais em “consertar” escolas e sim de “resgatar” escolas. A proposta procura induzir “experiências educacionais exitosas”, como se introduzir inovações fosse apenas uma questão de identificar e difundir tais experiências nas redes e cobrar. O documento propõe avaliação mais frequente do que temos hoje, passando de bienal para anual. Ou seja, mais avaliação e mais controle é a receita do sucesso que o documento propõe.

Os processos de avaliação, na visão dos reformadores empresariais, sempre censitários, devem servir para responsabilizar os atores do processo pedagógico, em especial gestores, professores e estudantes. Por isso, têm que ser censitários e não amostrais. A visão é verticalizada e baseada na desconfiança, ou seja, se não há responsabilização e incentivo não há empenho. Portanto, para entendermos toda a lógica da proposta é preciso procurar com o que a avaliação está sendo correlacionada.

É assim que encontramos no item III – da distribuição de recursos – a novidade da introdução do Custo Aluno Qualidade – CAQ ao longo dos próximos 10 anos. O CAQ é uma luta dos educadores (salve Prof. Marcelino!), que aqui no documento é sequestrado para propósitos que não estão colocados para ele pelos educadores, ou seja, ele é inserido aqui como instrumento de uma outra filosofia educativa, em uma outra lógica operativa do sistema nacional de educação, baseada na cobrança e no controle da escola. Desta forma, a análise do documento da SAE não pode basear-se apenas em ver se o CAQ está ou não está presente. É preciso indagar se está e dentro de qual filosofia educacional foi inserido. Isso vale também para a questão de levar ou não em conta o PNE. Não basta. É preciso indagar sob qual orientação educativa se está levando em conta o PNE. E aí as nossas referências são a Conferência Nacional de Educação, onde a filosofia da área educacional foi construída democraticamente e está demarcada.

É assim que neste mesmo item analisado, o documento propõe “articular assistência financeira à assistência técnica para potencializar o desenvolvimento da gestão da educação.” Pela assistência técnica, vão correr as concepções de educação e o enfoque filosófico geral educativo e pela assistência financeira associada a ela, a pressão de adoção dos elementos conceituais que, conectados aos resultados dos processos de avaliação e presentes na assistência técnica, irão viabilizar o controle da escola e de sua metodologia dentro da ótica proposta pelos reformadores empresariais. O portal de devolutivas que o INEP colocará em operação em agosto e o cadastro nacional de estudantes aqui proposto, serão matéria prima desta tarefa.  É por isso que os reformadores se levantam contra a proposta da SASE do MEC para a elaboração do sistema nacional de educação – inclusive porque estão vendo a possibilidade neste momento de ir bem mais longe no quadro político liberal/conservador atual. Lembremos que é no Congresso que tudo isso vai parar.

Um termo muito usado na proposta é “pactuar” ou seja estabelecer o toma lá dá cá: libero recursos e você atende às metas, à base nacional, aos protocolos de ensino etc. tal como a proposta foi formulada no primeiro documento da SAE, pela via da combinação entre assistência financeira e assistência técnica, amarrada a pactos. Ora, aprendemos isso com os próprios americanos por ocasião, há décadas, dos acordos MEC-USAID. O que mudou? Mudou que não há mais necessidade de enviar alguém com uma pastinha e um saco de dinheiro e esconder dentro dele as receitas. Agora isso é feito aqui mesmo por interlocutores locais da OCDE.

Para se ter uma visão completa do quadro em que se insere a avaliação, devemos olhar finalmente no item IV onde são propostos os instrumentos de controle, ou seja, as três câmeras: a Comissão Tripartite de Cooperação Federativa, em nível federal; as Comissões Bipartites de Cooperação Federativa, em nível estadual; e as Comissões dos Polos Regionais de Educação, de escopo local – leia-se, neste último caso, a implementação do que já foi conseguido pelos reformadores empresariais no Conselho Nacional de Educação em 2011, com a aprovação da constituição das ADE ou Arranjos de Desenvolvimento Educacional.

Este é o conjunto das relações envolvidas nos processos de avaliação – a partir de uma base nacional comum – os quais associam-se à pactuação de distribuição de recursos financeiros que especificam concepções de educação e suas práticas escolares correspondentes, através de assistência técnica vinculada, tudo definido “democraticamente” por Comissões restritas a gestores de sistema, sem direito a recurso em outros órgãos, regado a experiências exitosas selecionadas.

Continua no próximo post.

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Pátria Educadora: novo texto, mesmas ideias – III

Mangabeira Unger está fora de controle. Enquanto Janine dirige o MEC, Mangabeira, com a desculpa da Pátria Educadora, criou o MEC do B. Nos últimos dias ele abriu pelo menos duas divergências públicas com o MEC: uma porque proporá sua própria base nacional comum e que é diferente daquela em elaboração na Secretaria de Educação Básica do MEC em pelo menos cinco pontos (veja aqui e aqui); outra com a proposta de uma organização de Sistema Nacional de Educação que também é diferente da que está em elaboração na SASE do MEC, e que é motivo da nossa discussão aqui.

Em relação a esta última polêmica pública, a proposta de lei complementar da SAE é apresentada em três momentos: uma parte inicial onde são apresentadas as “inovações” e mais dois anexos: o primeiro anexo apresenta a correlação da estrutura do anteprojeto de lei e as inovações institucionais; o segundo traz a emenda constitucional.

Como vimos no post anterior, o documento da SAE aparece em um clima de “fla-flu” com outro divulgado em junho pelo MEC. Note que este órgão tem uma “Secretaria de Articulação com os Sistema de Ensino” – SASE – dentro dele. É algo surpreendente que dentro de um mesmo governo, um órgão fora do MEC se considere em condições de produzir um documento próprio sobre educação, sem trocar com o ministério competente para tal.

A carta de encaminhamento do novo documento da SAE, a meu ver, ironicamente diz:

“Apoveitamos o convite público realizado pelo Ministério da Educação recentemente (no documento “Instituir um Sistema Nacional de Educação”) para ampliar o debate nacional com proposta concreta de arranjo para a cooperação federativa no Brasil. (grifos meus)”

Como assim? Dois Ministérios de um mesmo governo disputam o público? Não seria esperado que tais ministérios tivessem feito uma reunião entre eles e chegado, dentro do governo a uma ou mais posições de forma coordenada? Não seria mais apropriado que a Secretaria de Assuntos Estratégicos subsidiasse diretamente ao próprio MEC e respeitasse os profissionais que ali trabalham?

Por mais que a diversidade de propostas possa parecer democrática, o fato é que estamos, sim, frente a um embate de agendas dentro do governo. Possivelmente, a SAE sabe que terá dificuldades para passar suas ideias autoritárias de SNE para a equipe do MEC que está cuidando da criação do Sistema Nacional de Educação e resolveu “ir para a galera”. Mais ainda, como o debate será no Congresso, a SAE já está em campo com seu “substitutivo”. Os reformadores empresariais farão o resto através de seus aliados no Congresso.

A proposta de emenda constitucional da SAE é, na realidade, a sua proposta de Sistema Nacional de Educação e as críticas que fizemos ao primeiro documento preliminar da SAE são válidas para o novo documento. Em realidade, ele preserva e dá forma ao mesmo tripé descrito anteriormente: responsabilização verticalizada, meritocracia e privatização. Mostra que não há nada de preliminar no documento anterior já que nada mudou e estamos avançando para outras implementações.

A disputa pelo Sistema Nacional de Educação é basilar para os reformadores empresariais. Nos Estados Unidos ela veio pela lei No Child Left Behind. No Brasil, ameaçou vir pela Lei de Responsabilidade Educacional que está no Congresso há anos, mas agora, encontrou outra ancoragem no atual grupo da SAE na forma desta proposta de emenda constitucional. Os reformadores querem mais do que uma lei de responsabilidade educacional nos marcos da legislação vigente. Esta não lhes oferece os “recursos legais” necessários para sua política verticalizada. É preciso recriar o entorno legal primeiro.

A estruturação do Sistema Nacional de Educação é importante porque por meio dele fluirá o dinheiro e, portanto as possibilidades de indução de práticas e concepções na escola brasileira. Os reformadores empresariais sabem disso por experiência de outros países. Quem controlar as condições para a distribuição dos recursos e assistência técnica pode induzir políticas e dar corpo às metas intermediárias do Plano Nacional de Educação, com sua coloração e entendimento próprios – inclua-se aí, a criação de um grande mercado educacional aberto à “formação de consórcios, convênios de cooperação e arranjos de desenvolvimento da educação – ADEs”.

Daí que a questão básica esteja formulada pelo documento da SAE com uma concepção autoritária de gestão, mascarada por três comissões tripartites que incluem exclusivamente gestores das redes de ensino (leia-se Secretários de Educação) e que procura controlar a educação nacional pela definição e  gestão dos padrões nacionais de qualidade da seguinte forma:

“Para reconciliar gestão local com padrões nacionais, precisamos de três instrumentos principais: (i) sistema nacional de avaliação e de acompanhamento; (ii) mecanismo de redistribuição de recursos e quadros para regiões mais pobres; e (iii) ações para apoiar redes escolares locais, especialmente aquelas em situação de desempenho crítico. (Grifos meus.)”

O texto fala em “reconciliar”, mas é muito mais que isso. Trata-se de “articular assistência financeira à assistência técnica para potencializar o desenvolvimento da gestão da educação”. Trata-se de controlar o estabelecimento e a adoção de padrões através de estrutura paralela ao MEC e aos educadores. Neste sentido, a SAE envia um presente de grego (cavalo de troia) ao próprio MEC, mas de olho no Congresso onde de fato serão tomadas as decisões. De fato, os reformadores resolveram radicalizar via Congresso num momento de extrema fragilidade do próprio governo, contando com a aliança liberal/conservadora naquele órgão. Como fica Janine nisso tudo, ele mesmo terá que dizer.

A gestão democrática é um princípio aprovado para todos níveis de gestão da educação no próprio PNE. A SAE reduziu a democracia à participação dos Secretários de Educação, ou seja dos representantes diretos dos governos federal, estadual e municipal. Todas as outras entidades estão fora das grandes decisões.

O viés autoritário é tanto que a proposta diz textualmente que: “a CTC possui autonomia técnica e suas deliberações não estão sujeitas a recurso hierárquico ou revisão por outros órgãos.”

O documento ainda resgata uma proposta de montagem de ADE, ou seja, Arranjos de Desenvolvimento Educacionais, feita pelos reformadores empresariais via Mozart Neves Ramos, o qual foi relator da matéria no Conselho Nacional de Educação quando andou por lá, é do Movimento Todos pela Educação e hoje também está no Instituto Airton Senna.  Discutimos isso aqui neste blog na época. As ADEs estão agora na base da proposta, ao nível regional. (Baixe o texto da ADE feita pelo CNE aqui.) Voltaremos a isso.

Para poder consolidar tudo isso, o documento propõe uma emenda constitucional em quatro capítulos. “A proposta legislativa que se apresenta, portanto, é Anteprojeto de Lei Complementar, dividido em quatro capítulos” o que envolve:

  1. Definir o Sistema Nacional de Educação – SNE.
  2. Propor os instrumentos de avaliação dos sistemas de ensino e de planejamento da educação que a proposta considera “pressupostos essenciais à cooperação”.
  3. Dispor sobre a redistribuição dos recursos destinados ao financiamento da educação. Aqui entra o Custo Aluno-Qualidade (CAQ). Porém, apenas o Custo Aluno-Qualidade Inicial, ou seja, parcial, já que o CAQ pleno somente ao final de 10 anos.
  4. Estabelecer os instrumentos de colaboração e apoio entre os entes da Federação para a gestão e execução do que a proposta chama de “serviços” públicos de educação.

A proposta visa “regulamentar o artigo 23, V, da Constituição Federal, estabelecendo o Sistema Nacional de Educação e dando cumprimento a diversos compromissos e metas do Plano Nacional de Educação.”

A estrutura do Documento distribuído é a seguinte:

  1. O problema e a orientação dos esforços
  2. Inovações
    1. Organização do SNE
    2. Avaliação e planejamento
    3. Redistribuição de recursos
    4. Instrumentos de colaboração e apoio à gestão
  3. Anexos
    1. Anexo I – Correlação da estrutura do anteprojeto de lei as inovações
    2. Anexo II – Anteprojeto de lei

Continua no próximo post.

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Pátria Educadora: novo texto, mesmas ideias – II

O MEC está desenvolvendo uma proposta de Sistema Nacional de Educação – SNE – e distribuiu um documento em Junho de 2015 sobre isso. Por que semanas depois aparece outra proposta da SAE para o mesmo assunto? Recentemente, reformadores empresariais se uniram para escrever no Estadão contra a proposta divulgada pelo MEC de se criar um Sistema Nacional de Educação – mesmo objeto que trata o recém distribuído texto da SAE, dirigida por Mangabeira Unger. Disputa de agenda?

Você pode baixar a proposta da SAE aqui.

Você pode baixar a proposta do MEC aqui.

São conhecidos estes reformadores: Claudio Moura Castro; João Batista Araujo e Oliveira e Simon Schwartzman. Eles apregoam pelo Estadão que a proposta não conduz à melhoria da educação brasileira e que devemos copiar as experiências já desenvolvidas em outros países que são bem avaliados no PISA. Segundo eles, precisamos apenas de dois mecanismos:

“(…) os incentivos, estimulando e premiando boas práticas” (…); “e as regras hierárquicas, em que as autoridades governamentais usam de sua autoridade legal para cumprir os objetivos para os quais foram eleitos ou nomeados.”

Mesmo sendo contra a ideia da criação de um Sistema Nacional, elogiam o primeiro  documento de Mangabeira (de abril de 2015) por propor o controle por incentivos. Para eles criar um Sistema Nacional de Educação como sugere o MEC gera:

“(…) regras complexas e inviáveis a serem estabelecidas por assembleias, comitês, conselhos e uma infinidade de órgãos, que, em última análise, diluem as responsabilidades.”

A distribuição de um documento da SAE tratando do mesmo assunto que o MEC está tratando e em linha completamente diferente, é motivo de que paremos para pensar.

O que temos são duas agendas distintas em disputa e a SAE certamente resolveu ir a campo para lutar. Tendo percebido que a agenda do MEC está em curso para discutir o SNE, a SAE resolveu também colocar sua proposta na praça. É claro que a proposta da SAE é muito mais palatável aos reformadores empresariais da educação do que a do MEC e não há dúvida para que lado eles penderão.

Aparentemente, haveria uma divergência de enfoque entre MEC e SAE. Este parece ser o pano de fundo em que o documento da SAE aparece agora. Se o Ministro continuar sem posicionamento sobre a atuação da SAE – e faz algum tempo que estamos cobrando isso – alimentará a confusão e fragilizará sua própria proposta. O MEC precisa sair a campo também.

Continua no próximo post.

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Pátria Educadora: novo texto, mesmas ideias – I (atualizado)

Atualizado 11-07-15, 20 hs.

A divulgação de novo texto, agora já mais operacional, com o nome PÁTRIA EDUCADORA: EIXO 1 – FEDERALISMO COOPERATIVO (Instituição do Sistema Nacional de Educação e regulamentação dos artigos 23 e 211 da Constituição), já nos permite, de pronto, algumas considerações:

  1. Em primeiro lugar, serve para comprovar que a cobrança feita ao primeiro documento tentando mostrar que ele não levava em conta o Plano Nacional de Educação – PNE – simplesmente era inócua, como argumentamos. Neste novo documento, o PNE está articulado com a proposição e inclusive incorpora o Custo Aluno Qualidade. A questão com os documentos da SAE é conceitual e não seus vínculos com o PNE ou com aspectos particulares. O nosso documento de referência, portanto, deve sempre ser o da CONAE, ainda que tenhamos alguns ganhos deste que foram incorporados ao PNE. O PNE é um texto do Congresso (e do governo) o nosso, continua sendo a CONAE, produzido diretamente pelos educadores.
  2. Cai por terra também, a argumentação de que aquele primeiro documento tenderia a ser esquecido e que “não daria em nada”. O novo documento lista as bases para que se converta o primeiro em uma PEC – Projeto de Emenda Constitucional – a ser examinada pelo Congresso. Portanto, avança-se em relação ao primeiro.
  3. Conceitualmente, o documento é apenas mais do mesmo (já visto no primeiro), mas agora focado na questão da criação das bases jurídicas e operacionais para as teses daquele. E nisto reside seu grande problema como demonstramos na análise já divulgada aqui por ocasião de seu lançamento, pois suas bases estão ancoradas em responsabilização, meritocracia e privatização – tanto no primeiro, como neste segundo.

Há profundas implicações no documento que estaremos analisando em outros posts. Antecipo uma: as avaliações nacionais passam a ser anuais e não mais bienais.

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Pátria Educadora: SAE divulga outro documento

Foi divulgado mais um texto da Secretaria de Assuntos Estratégicos da série Pátria Educadora, agora  sobre “Federalismo Cooperativo – Sistema Nacional de Educação”.

Baixe aqui.

O ofício de encaminhamento diz:

“Prezados Senhoras e Senhores,

A Secretaria de Assuntos Estratégicos vem trabalhando na formulação de propostas para implementação do projeto da Pátria Educadora — o projeto prioritário do governo federal, que tem por objetivo a qualificação do ensino básico.

O texto que lhes transmito em anexo sintetiza a forma preliminar e provisória da proposta de estruturação do Sistema Nacional de Educação, uma das principais iniciativas para organização do federalismo cooperativo. Esta medida está associada a diversas metas estipuladas pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

O texto se divide em duas partes. A primeira parte apresenta as características essenciais da proposta de federalismo cooperativo e discrimina as principais inovações institucionais da proposta. A segunda parte apresenta versão preliminar do Anteprojeto de Lei Complementar que detalha a organização do Sistema Nacional de Ensino e seu funcionamento.

Apoveitamos o convite público realizado pelo Ministério da Educação recentemente (no documento “Instituir um Sistema Nacional de Educação”) para ampliar o debate nacional com proposta concreta de arranjo para a cooperação federativa no Brasil.

Pedimos, para isto, sua ajuda: comentários sobre a orientação geral e sobre detalhamento jurídico aqui descritos.

A Pátria Educadora só viverá como projeto de Estado a que todas as partes do país contribuam.

Respeitosamente,

Daniel Vargas –  Subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República”

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Artigo: avaliação multidimensional

Artigo de Adilson Dalben e Luana Almeida apresenta alternativa para uma avaliação de larga escala mais efetiva da qualidade do ensino focada em uma matriz formativa mais ampla, sem intencionalidade de ranqueamentos e meritocracias: “Para uma avaliação de larga escala multidimensional”. A publicação é da Fundação Carlos Chagas.

Acesse aqui.

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Pode haver vida inteligente nas ONGs

Maria Alice Setubal, do CENPEC, está na Folha de hoje (10-07-15) com um artigo chamado “Que plano o governo tem para a educação?”. O texto responde à questão colocada e prova que há vida inteligente nas ONGs. Maria Alice apresenta uma compreensão do problema educacional que não tem nada a ver, em nossa opinião, com a política autoritária de Viviane Senna, do Instituto Senna. Destaco alguns aspectos:

“Não há o que comemorar depois de um ano de vigência do PNE. (…) o Ministério da Educação não apresentou até agora um conjunto de medidas que induzam Estados e municípios a se comprometerem com as metas. Ao contrário, assistimos surpresos à discussão de um plano desenvolvido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos – SAE – que não dialoga com o MEC nem com o PNE.”

Recentemente, estive com autoridades do MEC em um seminário e elas continuam dizendo que o documento da SAE é preliminar e que não há posicionamento do MEC. Mas, pergunta-se, está pelo menos havendo algum estudo para que haja tal posicionamento? Se não há, e parece não haver, então esta afirmação torna-se apenas uma fuga do problema e não um enfrentamento do mesmo. Há quase três meses que o MEC repete a mesma coisa.

“Não é preciso começar do zero ou nos valer de referências externas. Há experiências colocadas em prática por escolas e, especialmente, por redes de ensino que podem apontar caminhos…”

“A crise educacional não será superada sem o envolvimento dos professores. Não bastará um novo currículo, inclusão de inovações tecnológicas, expansão da educação integral e de políticas de equidade e respeito à diversidade cultural sem profissionais capacitados. Esse ponto exige uma revolução na educação por meio de uma política de valorização que inclua plano de carreira, salário e mudanças estruturais na formação inicial e continuada.”

Ou seja, não há solução milagreira, nem aqui e nem no exterior. Não adianta “fugir” para a Austrália. É bem mais simples. É preciso o “envolvimento” – o verbo é importante – dos professores e não uma política de pressão sobre estes, uma verdadeira política contra estes, como quer Viviane Senna.

No entanto, a incorporação de experiências em curso tem a ver com um plano global para a educação e não com a busca de “milagres locais” na tentativa de generalizá-los, como querem alguns.

Além disso, a solução dos nossos problemas educacionais precisa de recursos financeiros que agora parecem estar cada vez mais distantes. Primeiro, os famosos recursos do pre-sal da Petrobras podem desaparecer no Congresso antes de chegar; segundo, a opção pelo ajuste fiscal do governo drenou recursos da educação. Por exemplo, estima-se um corte no financiamento aos programas de Pós-Graduação da CAPES que chegará a 70%, ou seja, o programa foi detonado.

“… precisamos muito mais do que uma política imediatista e de cunho marqueteiro, como a criação de uma rede de escolas federais de referência, prevista no plano da SAE, para chamarmos o Brasil de pátria educadora.”

É isso.

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Em defesa de nossas crianças e jovens

Aqui vai um modelo de lei que precisamos começar a discutir no Congresso, nas Assembleias Legislativas dos Estados e nos municípios  brasileiros. Trata-se de lei corrente nos Estados Unidos e que dá o direito aos pais ou tutor de uma criança ou jovem a solicitar a exclusão de seu filho dos sistemas de avaliação de larga escala. Vamos falar com Vereadores, Deputados e Congressistas que sejam simpáticos a esta causa.

Esta legislação deve conter no mínimo os seguintes elementos:

(1) Não obstante qualquer disposição em contrário, qualquer pai ou tutor de um aluno em qualquer escola pública ou escola terceirizada terá o direito de optar por retirá-lo da avaliação de larga escala (municipal, estadual ou nacional), seja ela uma avaliação de conhecimentos, competências ou socioemocional.

(2) O pai ou responsável deve notificar a escola do aluno por escrito pelo menos uma semana antes do exame agendado. As escolas estão obrigadas a obedecer a solicitação feita em tempo hábil e proporcionar atividades educativas alternativas para esta criança durante os testes.

(3) Não haverá repercussões acadêmicas ou disciplinares, verbais ou nos registros do aluno por ele ter optado por não participar na avaliação.

(4) Os órgãos responsáveis pelas avaliações deverão manter um banco de dados confidencial para registrar e acessar as solicitações de retirada de alunos da avaliação sob sua responsabilidade.

(5) Os órgãos responsáveis pelas avaliações devem informar o número de alunos que se retiraram das avaliações até o menor nível de desagregação dos dados disponível.

(6) As redes de ensino e as mantenedoras de terceirizadas estão obrigadas a notificar todos os pais e encarregados sobre o direito que eles têm de impedir seu filho de fazer testes de larga escala o mais tardar 15 dias antes do início da avaliação, através do seu site e por correspondência.

(7) As mesmas disposições são válidas quando se tratar de aplicação experimental de testes em elaboração, para sua validação.

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Jünemann e Stephen Ball analisam a Pearson

Diane Ravitch divulga relatório  escrito por Carolina Jünemann e Stephen Ball que analisa a estratégia mundial da Pearson para apoiar as reformas empresariais da educação e lucrar. Tem o nome de “A Pearson e o PALF. O gigante mutante.”

Para Ravitch:

“Este relatório é uma análise fascinante e assustadora dos esforços ambiciosos da Pearson para criar uma demanda por seus produtos ao redor do mundo e para satisfazer essa demanda enquanto lucra.

Ele lança luz muito necessária sobre as ambições internacionais do movimento de privatização e acordos de comercialização da educação como um bem de consumo. Vale a pena ler este importante relatório.”

Acesse o relatório aqui (em inglês).

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Luzes no fim do túnel neoliberal

Samuel Pessoa resume na Folha de São Paulo (05-07-15) aspectos da estratégia do capital para o país em um artigo que denominou: “Luzes no fim do túnel”. É sempre bom ler Samuel, pois ele foi da campanha de Aécio Neves candidato derrotado do PSDB nas últimas eleições, partido que comanda, hoje, a derrubada de Dilma. Quem sabe não é por isso que andam vendo luzes… Depois de Fernando Henrique Cardoso, para os neoliberais, o país entrou em um túnel escuro.

Há algum tempo, antes e logo depois da eleição de Dilma, nos aventuramos a fazer algumas considerações sobre as relações entre educação e economia brasileira, sempre de olho na experiência americana dos reformadores empresariais. Dizíamos, em outubro de 2014, que:

“O pós-eleitoral só confirma que o mal estar em relação a Dilma está ligado a uma análise já feita aqui mostrando que a elevação do salário médio do trabalhador brasileiro nos últimos 12 anos em clima de não elevação significativa da produtividade deste trabalhador, reduziu a rentabilidade dos empresários. Reforça também que o interesse dos empresários pela educação se deve a que ela é considerada importante – ainda que não seja a única responsável – para a elevação da produtividade (e da competitividade). Esta é uma das fontes de desconforto que levou o “mercado” a atuar em favor de Aécio.”

Passado o tempo, veio o ajuste fiscal de Levy mostrando que o governo Dilma havia optado por uma intervenção dura na economia para recompor no curto prazo a relação entre produtividade e salários, a favor dos empresários. Logo depois veio o documento Pátria Educadora da SAE com seu “produtivismo includente” sobre o papel da educação na recomposição da produtividade no médio e longo prazo.

Samuel Pessoa, economista que entende a educação do ponto de vista dos reformadores empresariais, faz um breve resumo da situação atual após o ajuste de Levy:

“A “boa notícia” foi a queda de 5% do rendimento médio real.” E acrescenta. A “boa notícia”, portanto, foi que os salários nominais têm crescido a taxas cada vez menores.”

Samuel comemora, mesmo que entre aspas, a boa notícia da queda dos salários nominal e real. Acena com recompensas futuras, entretanto:

“… quanto mais rápida for a queda do salário real, mais rapidamente a inflação convergirá para a meta e, portanto, mais rapidamente o Banco Central poderia iniciar um ciclo de redução da taxa de juros e, menor portanto, será o aumento do desemprego.”

Ou seja, quando se trata de salários e emprego, não há pressa – no futuro “poderia iniciar um ciclo”; “menor será o aumento do desemprego”. Menor, mas quanto menor? Pressa mesmo, só para o ajuste de produtividade que se faz à custa da redução do salário médio, com desemprego e queda de salário nominal.

No entanto, nem tudo são flores… Há más notícias – alerta Samuel.

“O grande problema, e essa é a má notícia, é que, mesmo que tudo ocorra conforme este roteiro, estaremos ainda vivenciando forte desequilíbrio nas contas públicas.”

É o tal do superávit primário. E aí vem a revelação:

“Parece-me que a estratégia do ministro Levy hoje é tentar arrumar o que é possível da casa o mais rapidamente, para que fique claro à sociedade o desequilíbrio da política fiscal.”

Depois de dizer que a atual política fiscal está vinculada ao combate da inflação, contracionista portanto, vem a visão de futuro:

“o desequilíbrio fiscal cresceu tanto que, sem forte elevação da carga tributária, sem uma forte desvinculação da receita da União e sem rever profundamente os critérios de elegibilidade e valor dos benefícios de nosso Estado do bem-estar social, não será possível chegarmos a um nível de superávit primário que estabilize a dívida pública.”

Para Samuel o confronto é entre o estado do bem-estar social e a política neoliberal proposta por ele. O que está oferecendo como solução é requentar a política iniciada por Fernando Henrique Cardoso nos anos 90 e configurada na proposta da Reforma do Estado feita por Bresser Pereira ainda naquele governo. Já vimos como funciona.

É neste contexto também que deve ser examinado o documento Pátria Educadora da SAE.

Portanto, se Dilma for derrubada, como pretendem os neoliberais, então caminharemos rapidamente para esta retomada neoliberal. O caminho está claro.

E se ela não cair, também não devemos ter a esperança de que não teremos uma política neoliberal sendo desenvolvida. Pode ser que haja diferença apenas de intensidade.

A análise de Samuel é incisiva no sentido de evidenciar que ao final, deve ficar claro que o problema é a política fiscal – ou seja o fato do governo gastar demais. Ou se cobra mais impostos (o que atinge também os empresários) ou se gasta menos. Como se resolve esta situação? Certamente não contra os empresários, e sim com terceirização, privatização e outras iniciativas em curso no Congresso que reduzam gasto público. Os aumentos de gasto público aprovados atualmente no Congresso são apenas uma forma de aprofundar o desgaste do governo obrigando-o a vetá-los. Fazem parte da estratégia para derrubar o governo.

Como atender a demanda crescente por educação sem gastar mais recursos públicos? Envolvendo a iniciativa privada. Os neoliberais estão preparando o Estado, via Congresso, para a aplicação das teses neoliberais de enxugamento de gastos públicos com deslocamento de recursos para a iniciativa privada. O ciclo Lula foi bom para os empresários enquanto produziu consumo e ativou a demanda gerando lucros. Na medida em que ele produz a valorização dos salários e a rentabilidade do capital cai, ele não serve mais, já cumpriu sua função. Toda esta questão da corrupção oculta este movimento na base material da sociedade. A linha é clara: antecipar o fim do governo Dilma e retomar o governo FHC. Não dá para ser ingênuo. As consequências para a educação são por si dedutíveis: será incluída em uma ampla reforma fiscal visando sua privatização. Quem duvida, leia o programa de Aécio para a educação.

O mesmo caminho trilhado hoje com os aeroportos, estradas e com o pacote de infraestrutura em elaboração no governo, será usado com todas as áreas. O que deveria ser investido na escola pública, irá parar no bolso de terceirizadas. Recompor isso no futuro, não será tarefa fácil. Veja-se o Chile.

Mesmo que Dilma continue no governo, não conseguirá fugir totalmente a esta lógica. No entanto, a intensidade poderá ser outra. E sempre podemos cobrá-la por fazer uma política diferente. Com Aécio no lugar de Dilma – por oportunismo ou por outro meio – ou ainda, mesmo com Temer em seu lugar, nossa capacidade de cobrança será nula.

O ressurgimento do neoliberalismo em curso atualmente trará consequências nefastas para a educação pública e para o país. Já experimentamos um pouco disso. Mas ainda não vivenciamos o cardápio todo. Não deu tempo pois Lula o interrompeu.

Há que se lembrar ainda que o neoliberalismo é fruto histórico de uma associação entre liberais e conservadores. Portanto, nada a estranhar se o conservadorismo que já estamos vendo no Congresso e na sociedade se ampliar.

Daí que PSDB e PMDB – base de liberais e conservadores – já que o antigo DEM, hoje partido Democrata, é inexpressivo -, estejam muito bem sintonizados. A antiga aliança PSDB-PFL do governo Fernando Henrique será recuperada como PSDB-PMDB – nos bastidores já conversam.

Está em curso o ressurgimento do neoliberalismo no estado brasileiro, interrompido pelo ciclo Lulista. Foi por isso, também, que defendemos nas últimas eleições que Lula fosse o candidato e não Dilma. Será necessário muito esforço e habilidade para segurar o ressurgimento do neoliberalismo como política oficial do Estado.

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Novo livro de Hanushek

Remo Bastos nos informa do lançamento de um novo livro de Eric Hanushek com Ludger Woessmann.

Eric Hanushek é um professor americano da Hoover Institution alojada na Universidade de Stanford. Esta instituição, segundo ela mesma, “com seus eminentes estudiosos, arquivos e biblioteca de renome mundial, procura melhorar a condição humana através do avanço das ideias que promovam a oportunidade econômica e prosperidade, e ao mesmo tempo garantir e salvaguardar a paz para a América e toda a humanidade.”

Ludger Woessmann é um professor alemão do IFO Institute – Leibniz Institute for Economic Research na University of Munich – o qual é uma ONG associada à Universidade de Munich.

Neste novo livro os autores fazem uma defesa de que o conhecimento é a chave para o desenvolvimento de um país. Eles afirmam que as habilidades cognitivas da população, que eles chamam de “capital de conhecimento” de uma nação, são fundamentais para a prosperidade de longo prazo.

Alguém discorda até aqui? Penso que não.

O problema não está nas questões postas pelos autores, mas como é costumeiro na produção de Hanushek, nas análises e nas associações que se fazem em seguida. O livro faz louvores às políticas de responsabilização, à privatização da educação, à competição como forma de melhorar a educação, e à meritocracia, recompensando diretamente os bons desempenhos.

Ora, não há nenhuma evidência empírica (a dele é derivada de modelos de análise) de que tais políticas sejam efetivamente responsáveis pelos avanços que os autores acreditam que os países possam obter a partir da tese geral de que o conhecimento é importante para as nações.

Ou seja, na prática, as deduções econométricas dos autores sofrem com a injunção de outros fatores da vida das nações e que não podem ser levadas em conta completamente.

Marc Tucker, apesar de concordar com as análises gerais dos autores, não pode, igualmente, deixar de mostrar suas dúvidas:

“Mas melhor educação não é um elixir. Os modelos não produzem os resultados previstos quando as economias nacionais não podem absorver os trabalhadores mais instruídos. Boa política fiscal e monetária ainda conta. Muitos países cujas economias dependem em grande parte da venda de recursos naturais, especialmente do petróleo, poderiam ter usado sua riqueza para educar seus povos antes que seus recursos naturais se esgotassem ou já não fossem necessários, mas não conseguiram fazê-lo.”

Veja também outros posts aqui e aqui.

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Para animar: reação que vem da rua

O estrago da política dos reformadores empresariais no Chile é visível. A primeira parte da reforma para reverter esta situação foi aprovada em Janeiro, mas estudantes e professores querem mais.

“Nos anos 80, ainda sob a ditadura militar, o país criou um sistema em que o governo passou a bancar o ensino de crianças e jovens não importando se elas estavam matriculadas em escola públicas ou particulares.”

A mudança provocou uma saída em massa de alunos do sistema público, a cargo dos municípios. A cobertura do sistema público caiu de 80% dos estudantes em 1981, para apenas pouco mais de um terço.

“Mas isso também produziu uma enorme desigualdade. Para ter acesso às melhores escolas, os alunos passaram a ter que se submeter a seleções rigorosas, além de pagar uma mensalidade adicional.”

Os mais pobres ficaram portanto excluídos do sistema.

A reforma de janeiro impede que escolas privadas que recebem dinheiro público apliquem processos seletivos aos estudantes como forma de ingresso. Elas também estão proibidas de lucrar com a atividade. No Chile, com a política dos reformadores empresariais, hoje apens 40% estudam gratuitamente em escolas e as universidades são todas pagas. Bachelet tem feito avanços na recomposição do sistema público.

Mas no Congresso nem tudo tem sido avanço. Uma lei tramita permitindo que se vincule os aumentos de salários dos professores a avaliações periódicas de desempenho em um projeto de lei que regulamentará o exercício da docência.

Os professores estão em greve. Semana passada, 120 mil estudantes, apoiados por professores, protestaram em Santiago do Chile intensificando a pressão.

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Socioemocionais: tem mais

A ETS, que produz o NAEP americano, uma espécie de Prova Brasil de lá, mas que ao contrário da nossa é amostral, divulgou que ele está sendo preparado para a partir de 2017 começar a medir habilidades socioemocionais (atitudes e motivação). Ou seja, é de lá que surgem tais modismos que por aqui circulam. Segundo seus organizadores não haverá associação do NAEP com consequências positivas nem negativas.

Sobre esta questão você pode ler aqui (em inglês).

Não será surpresa se demanda semelhante for incluída por aqui.

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Entidades respondem a Viviane Senna

Carta de entidades da Educação em resposta a declarações de Viviane Senna em entrevista na Folha de São Paulo

Sexta-feira, 26 de Junho de 2015

A entrevista concedida por Viviane Senna à Folha de São Paulo e publicada na edição de 18 de junho de 2015, usando como título a última frase da entrevistada, “A educação trabalha com achismos, enquanto temos uma quantidade imensa de ciência à disposição” causou indignação no meio educacional brasileiro.

Ao longo de toda a entrevista, o jornalista induz respostas elogiosas à iniciativa privada, à mensuração da disciplina como qualidade importante (tratada como habilidade sócio-emocional ou pré-cognitiva nos documentos das políticas educacionais atuais) e ao trabalho do Instituto, o que compromete a credibilidade necessária ao jornalismo efetivamente preocupado com a ciência.

Ainda no caput, diz ele: “um estudo do instituto mostrou que qualidades como dedicação e foco têm quase o dobro do impacto no desempenho escolar comparadas com fatores como cor, gênero ou ambiente familiar”. Em seguida, traz a afirmação da entrevistada, de que: “Há muitos estudos à disposição sobre como o aprendizado se dá, mas pouco é utilizado”.

Uma das perguntas aponta a consciência superior da iniciativa privada a respeito da importância da “ciência do aprendizado” e da “conscienciosidade” (disciplina, foco e responsabilidade), que o Instituto está medindo, com base em recomendações de um economista e quantificando os resultados em percentuais de aprendizagem! É claro que ela nada diz sobre a correlação entre dedicação e foco e origem social, aparentemente não estudada, mostrando a fragilidade científica da pesquisa em questão, que quantifica o rendimento de modo duvidoso, considerado 1/3 superior nos “conscienciosos”.

A entrevistada trata a disciplina como “habilidade maleável”, a ser trabalhada pelos professores, que devem ser “treinados” para isso, o que ela alega estar sendo feito no Rio de Janeiro. Diz que os professores precisam não desistir das crianças, que eles “escolhem” os alunos aos quais se dedicarão “abandonando” os demais e que, se soubessem da maleabilidade de características como a disciplina poderiam investir em 100% deles. Diz ainda que: “Você tem de colocar para o professor que a meta dele é ter 100% de sucesso. Aí ele aprende a ter responsabilidade e não arrumar desculpa, dizendo que o aluno é pobre ou que a família é desestruturada. Se você ensinar, o aluno aprende.”

Aparentemente, segundo a entrevistada, o professor precisa ser tratado como um aluno ou filho desobediente, que precisa ser treinado para ter responsabilidade, deixando claro que, para ela, os professores são irresponsáveis! Incentivada, mais uma vez, pelo jornalista, afirma que a reação dos sindicatos às intervenções é corporativista, mas que já “melhorou” e diz que a eficiência é uma questão ética e que é preciso evoluir muito. Afirma que a avaliação é uma coisa básica para sabermos se estamos acertando ou errando. Junta, nesta frase, questões díspares criando confusão entre avaliação e avaliação em larga escala, por desconhecimento ou desrespeito aos estudos que mostram a necessidade de critérios para a primeira, inviáveis de serem atendidos pela segunda.

Finaliza dizendo, respondendo mais uma vez a uma questão que induz a resposta, que, depois dos conhecimentos de economia e de gestão que estão sendo levados à educação o próximo passo seria a neurociência. “O Instituto já até contratou um especialista”, esclarece. O conjunto de perguntas e respostas parece, ao leitor mais informado, uma recuperação da velha e ultrapassada psicologia behaviorista, que, após ser superada por estudos que demonstraram a impertinência de sua utilização em Educação, volta com força, travestida de nova ciência, com base em supostas pesquisas, economicamente interessadas e pouco confiáveis.

Viviane Senna finaliza a entrevista com duas pérolas: 1) “Estamos estudando o papel da repetição na automatização da leitura e o papel do sono na consolidação do conhecimento. Queremos entender como o cérebro aprende.”, evidenciando, pelo uso da generalização imprópria, completa ignorância dos fatores sociais, culturais e ambientais que interferem em todos os processos de aprendizagem, além de forte tendência ao reducionismo. 2) “A educação trabalha com achismos, enquanto temos uma quantidade imensa de ciência à disposição. ”. A frase desqualifica décadas de pesquisas e estudos da área, desrespeitando centenas, talvez milhares, de professores e pesquisadores que vêm dedicando suas vidas, com seriedade e determinação, à construção da escola pública e de qualidade para todos, no Brasil!

Questionamos, por meio desta carta, o uso de uma entrevista pobre, direcionada e sem nenhuma informação científica para desqualificar toda uma área que vem produzindo e divulgando conhecimentos no país há décadas e que tem inúmeras contribuições científicas oferecidas à sociedade e à educação brasileiras, ao conhecimento de métodos e processos de ensino aprendizagem, de formação e atuação docentes, com incontáveis levantamentos e análises de questões ligadas à disciplina, capacidades cognitivas, trajetórias de sucesso e de fracasso escolar, entre outros temas relevantes.

Entendemos que achismo é condenar uma área de estudos e suas pesquisas por desconhecimento da sua produção! Essas pesquisas estão amplamente divulgadas nas revistas científicas disponibilizadas no Scielo e Portal de Periódicos da CAPES, além dos relatórios disponíveis nas agências de fomento de pesquisa e nos sites das entidades de estudos e pesquisas em educação.

Assinam esta carta: Professora Maria Margarida Machado (Presidente da Associação Nacional de Pós-graduação e pesquisa em Educação – ANPEd) Professora Ivany Pino (Presidente do Centro de Estudos Educação e Sociedade – CEDES) Professora Iria Brzezinski (Presidente da Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação – ANFOPE) Professora Andrea do Rocio Caldas (Presidente do Fórum Nacional de Diretores de Faculdades de Educação – FORUMDIR) Professora Inês Barbosa de Oliveira (Presidente da Associação Brasileira de Currículo – ABdC) Professor João Oliveira (Presidente da Associação Nacional de Profissionais de Administração Educacional – ANPAE)

* As entidades enviaram esta carta ao jornal Folha de São Paulo solicitando “direito de resposta”, como forma de contrapor os argumentos da entrevista, porém não obteve retorno até o momento desta postagem.
* Clique aqui e leia também texto do professor Luiz Carlos Freitas analisando a entrevista em questão.”
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Artigo: Avaliação das Habilidades Socioemocionais

Excelente artigo de Ana Luiza Smolka, Adriana L. F. de Laplane, Lavínia L. S. Magiolino e Débora Dainez examina as teorias sobre habilidades socioemocionais na revista Educação e Sociedade no. 130. Já era hora de que se começasse a questionar o pensamento único do Instituto Airton Senna.

Resumo: Este texto analisa a proposta de avaliação de competências sócioemocionais – Social and Emotional Non-cognitive Nationwide Assessment (SENNA) – que vem sendo disseminada como consensual e inovadora no Brasil. O artigo explicita controvérsias; examina os fundamentos do construto Big Five que sustenta a proposta; discute a utilização da análise fatorial como base para o estudo da personalidade; problematiza a separação das dimensões cognitiva e emocional e contesta a redução da personalidade a poucos traços analisáveis separadamente. Diante dos riscos de simplificar a complexidade do desenvolvimento humano e de estigmatizar alunos que não demonstrem as competências estipuladas como desejáveis, questiona-se a pertinência de se assumir tal proposta como política pública.

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Senna ou o autismo científico (socioemocional)

Se você quer um exemplo de “autismo científico” leia esta entrevista de Viviane Senna. Ela considera que a educação vive uma fase de pré-ciência e que é preciso torna-la científica. Algo assim já ouvi uns 40 anos atrás.  Diz na entrevista que:

“Um estudo da entidade mostrou que qualidades como a dedicação e o foco têm quase o dobro do impacto no desempenho escolar em comparação com fatores tradicionalmente mais considerados, como cor, gênero ou ambiente familiar. Para ela, isso hoje é subestimado por escolas e professores. “Ninguém vai aprender se não for responsável, se não ralar.””

Eis a conclusão “científica” a que chegou Viviane. Os estudantes têm que ser “accountable” por sua aprendizagem. Qual é o estudo, em que condições metodológicas foi feito, etc., não é dito. Estas entidades confundem, usualmente, advocacia de ideias com ciência. O que fazem é “escolher” ou produzir estudos que conferem credibilidade a suas próprias ideias.

Como já comentei antes, estes movimentos acabam alinhando-se a teses conservadoras e de aumento de exigência de disciplina dos estudantes, em especial, dos mais pobres.

“Você tem de colocar para o professor que a meta dele é ter 100% de sucesso. Aí ele vai aprender a ter responsabilidade e não arrumar desculpa, dizendo que o aluno é pobre ou que a família dele é desestruturada. Se você ensinar, o aluno aprende. Quando isso acontece, o aluno passa a acreditar no professor e vice-versa. O professor também deve ser persistente. Se o aluno falta, o professor vai até a casa dele ver o que aconteceu. Um serve de exemplo ao outro. É cruel quando a escola permite que a escola desista da própria inteligência. Você ensina a atitude para o professor, que vai ensinar pro aluno.”

Seja “accountable”!! Eis a fórmula do sucesso. Professores e estudantes não conseguem ensinar ou aprender porque não são responsáveis. Fácil assim, mas vinte anos de responsabilização nos USA não conduziram ao sucesso. E há ciência sobre isso por lá. Ou também lá estamos na pré-ciência?

Certamente, Viviane imagina que o seu Instituto iluminará a educação com sua verdadeira ciência. Recentemente, o Instituto Senna contratou Paes de Barros (ex-SAE – Secretaria de Assuntos Estratégicos) para o Instituto.

É curioso ver a dança das cadeiras: os reformadores empresariais trocam de posição a cada certo tempo. Ora estão em algum órgão do governo defendendo suas teses “científicas”, ora estão nos institutos e na iniciativa privada implementando estas mesmas teses. Assim, quando no governo fazem a política, e quando fora do governo, implementam a própria política. Mozart, esteve no Conselho Nacional de Educação fazendo política, agora está no Instituto Airton Senna implementando suas ideias; Paes de Barros esteve na Secretaria de Assuntos Estratégicos e agora está no Instituto Airton Senna.

Em ciência, é muito fácil ter a “verdade científica”- basta produzir sua própria pesquisa e de preferência não submetê-la ao crivo da comunidade científica especializada. Tem sido o caminho dos reformadores empresariais da educação americanos: produzem isoladamente sua própria pesquisa, com seus próprios métodos em suas fundações privadas. E como não precisam enviar a nenhuma revista, pois eles mesmos financiam a publicação de seus próprios relatórios, os estudos acabam, em sua maioria, não passando pelo crivo dos pares, dos profissionais que têm condições de fazer a crítica. Uma vez publicados sem parecer de terceiros, passam por verdades em belas brochuras coloridas ou e-books. Parece que estão fazendo escola por aqui.

Por exemplo, a questão das atitudes socioemocionais é tratada sob um determinado ângulo pelo Instituto Senna que faz suas escolhas teóricas e oculta as outras produções existentes na área. A sua “verdade” científica, quando analisada, não é tão verdadeira assim. Sua teoria da personalidade não tem a importância que eles atribuem a ela.

Demorei para postar esta matéria porque estava esperando um artigo sobre o tema ser publicado. Você pode ler este excelente artigo aqui. Sobre ele também falarei mais especificamente em outro post.

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USA: testes não diminuem desigualdade

Sessenta organizações educacionais e de direitos civis nos Estados Unidos enviam carta ao Senado americano.

“Nós, as organizações abaixo assinadas, nos opomos aos testes de alto impacto porque acreditamos que estes testes estão causando danos aos alunos, às escolas públicas e para a causa da equidade educacional. Os testes padronizados de alto impacto, em vez de reduzir o fosso de oportunidades, têm sido usados ​​para classificar, ordenar, etiquetar e punir os estudantes negros e latinos, e imigrantes recentes a este país.

Opomo-nos aos testes de alto impacto, porque:

Não há nenhuma evidência de que estes testes contribuam para a qualidade da educação, levem a uma maior equidade educacional em financiamento ou programas, ou ajudem a fechar as “lacunas de desempenho.”

Os testes de alto impacto tornaram-se intrusivos nas nossas escolas, consumindo quantidades enormes de tempo e recursos, e produziram o estreitamento do ensino concentrando-o na preparação para o teste.

Muitos destes testes nunca foram validados ou demonstraram ser confiáveis e/ou livres de preconceitos raciais e étnicos de forma independente.

Testes de alto impacto estão sendo usados ​​como arma política para afirmar que um grande número de estudantes está fracassando, e com isso fechar as escolas públicas nas comunidades, e demitir professores, tudo para atrapalhar e privatizar o sistema público de educação.

O alegado benefício dos testes anuais como determina a lei foi mostrar as lacunas de desempenho e, e ao fazê-lo, fechá-las. No entanto, depois de mais de uma década de testes de alto impacto, isso não aconteceu. Em vez disso, milhares de escolas de comunidades predominantemente pobres e de minorias – as âncoras das comunidades – têm sido fechadas.

Como afirmou o Seattle NAACP recentemente, “a utilização dos exames padronizados para rotular as pessoas negras e os imigrantes como fracos – enquanto diminuem o financiamento sistematicamente em suas escolas – tem uma história longa e ruim. É verdade que precisamos medidas de responsabilização, mas isso deve começar pelos políticos prestando contas do financiamento total da educação e acabando com a lacunas de oportunidade. … O uso de testes de alto impacto tornou-se parte do problema, ao invés de uma solução. “

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Assine: 2.000 educadores já rejeitaram Pátria Educadora

Mais de 2.000 educadores já recusaram o texto da Pátria Educadora da SAE, assine você também.

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Pátria Educadora: debate na TV Brasil

A TV Brasil organizou um debate coordenado por Luis Nassif sobre o documento da SAE com a participação de Roberto Catelli Jr. (Ação Educativa), Nora Krawczyk (FE-UNICAMP) e Luiz Araujo (UNB).

Assista aqui.

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“Números sem nome”: professora comenta debate

Uma professora que esteve presente no Seminário de Educação Brasileira do CEDES na semana passada na Unicamp comenta o debate:

“Ressalto algo que me chamou atenção sobre o presidente do INEP. José Francisco Soares, que fez uma exposição muita segura, ficou um pouco nervoso por achar que não estava sendo compreendido e sempre fazia questão de ter direito de resposta, e até contorcia-se à mesa. Assim como ele, eu também gostaria de ser levada em consideração, e principalmente no que diz respeito à minha atuação profissional. Acho tão digno ter direito à fala que luto para que um exame baseado em dados não substitua a minha voz enquanto educadora, pois ela ecoa a voz dos alunos, da realidade, não dos números sem nome. Talvez ele tenha se sentido um pouco como se sentem diariamente os educadores: silenciados. Porém, diferentemente de nós, ele foi ouvido. Mas não sem discordância. Provavelmente seja por essa discordância entre os gestores e os profissionais da educação que se precise ir a Jomtien e a Ischeon para discutir educação, pois aqui no Brasil há barulho demais para pensar o que se fará dela. Lá se pensa, aqui só se executa, e com muito esforço, pois é só o que me pedem esses projetos em conjunto com a “sociedade civil”. Em seguida, ao ser interpelado por informações concretas de pesquisas sobre o Pacto Pela Educação, o barulho dos dados (os mesmos dados até então exaltados) começou a incomodá-lo, pois mostrava que havia ali uma grande dissonância entre esses planos e seus resultados. Como o INEP gosta de dados fornecidos pela academia, espero que esses também sejam levados em conta na hora da avaliação dos futuros projetos.”

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INEP inova na avaliação da educação infantil

O Diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP Alexandre André dos Santos apresentou como será a avaliação da Educação Infantil no Brasil (0 a 5 anos). A novidade é que não haverá prova e sim o acompanhamento de uma série de indicadores: oferta de vagas, infraestrutura, perfil dos profissionais e educadores, recursos pedagógicos e gestão do sistema. Não haverá uma nota geral, mas uma série de indicadores e de metas ligadas a tais indicadores.

A proposta é inovadora em relação ao que é feito em outros países onde provas são introduzidas desde muito cedo na educação infantil e foi apresentada durante encontro da UNDIME. No entanto, enquanto as escolas particulares terão uma avaliação amostral, as públicas terão avaliação censitária. O modelo protege as escolas particulares com a metodologia amostral.

O sistema foi construído com a participação do Movimento Interforum de Educação Infantil do Brasil – MIEIB –, da UNDIME, do INEP e do MEC. Como desafio, o INEP também coloca para o futuro a implementação de um sistema de autoavaliação das unidades.

A nova avaliação será chamada de ANEI – Avaliação Nacional da Educação Infantil.

A Diretoria de Avaliação da Educação Básica do INEP introduz, pelo menos ao nível da educação infantil, uma abordagem inédita para a avaliação de larga escala no Brasil.

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Artigo: a disputa pelo controle da sala de aula

O que nós estamos vivendo no atual momento da educação brasileira deixou de ser apenas uma disputa pela macro política educacional brasileira e amplia-se agora, com a montagem de grandes bases de dados sobre os resultados das avaliações censitárias, para uma disputa direta pelo controle do processo educativo nas escolas e nas salas de aula.

A ideia é chegar ao professor, ao diretor e aos pais, diretamente. Colocar a mensagem na ponta. Representa uma mudança qualitativa do nível de controle sobre as escolas. Até o momento, havia uma dificuldade grande para que o dado das avaliações retornasse às escolas, mais especificamente ao professor e ao diretor. As grandes bases de dados como as anunciadas pelo INEP na reunião da UNDIME (o Portal das Devolutivas)  passam agora a cumprir este papel, levando não só o dado da avaliação mas uma interpretação sobre o mesmo. É neste contexto que deve também ser analisada a questão da base nacional comum como instância de padronização da educação brasileira.

Um exame das conexões entre a avaliação externa e o processo pedagógico da sala de aula pode ser encontrada em um texto que acabo de publicar pela revista Educação e Sociedade do CEDES.

Os reformadores empresariais da educação e a disputa pelo controle do processo pedagógico

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Desigualdade e educação

Estudo revela o que a sociologia já sabe há muito tempo, ou seja, que só educação não dá conta de reduzir desigualdade social. A tese da “redenção pela educação” tem sido chave para muitos venderem ilusões de reformas educacionais “orientadas aos mais pobres” como se mais anos de estudo fossem equalizar o país.

A escola não é uma ilha na sociedade e sofre com o impacto das variáveis que determinam socialmente a posição dos estudantes.

“A educação sempre aparece como remédio para os males do Brasil, principalmente a desigualdade social. Sem negar que mais anos de estudo melhoram a vida da população, especialistas começam, porém, a relativizar essa verdade absoluta.

“É interessante para a elite e para o governo tratar a educação como uma panaceia, porque se estabelece uma situação de inércia social. Um segmento que tem crescido muito é o de pessoas com ensino superior, que hoje supera 15% dos jovens, mas a desigualdade interna desse grupo é tremenda”, diz o economista Alexandre Barbosa, professor do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros) da USP. Para ele, a desigualdade no Brasil é estrutural e não será solucionada exclusivamente com mais investimentos em educação. Barbosa mostra que a diferença de renda média do trabalho entre brasileiros com ensino médio e com ensino superior caiu de R$ 1.969,47 em 1995 para R$ 1.741,41 em 2009. “

Veja a matéria completa aqui.

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INEP: a dupla negação do Presidente – Final

O Presidente do INEP sonegou ao público do V Seminário do CEDES a política de avaliação daquele órgão, mas um dia antes apresentou ações do INEP com detalhes em uma reunião na UNDIME aos Dirigentes Municipais de Educação. Ele veio diretamente desta reunião da UNDIME para o Seminário do CEDES. Lá ele apresentou o portal de devolutivas da Prova Brasil, que está sendo realizado em parceria com o Todos pela Educação, Fundação Lemann, Banco ITAU BBA e Bradesco, e levará até os professores uma análise “pedagógica” dos itens dos testes da Prova Brasil, baseado na pedagogia das competências. Mas isso parece que ele não quer discutir com educadores profissionais.

No site da Undime que sediou a reunião, se lê:

“O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) vai lançar em agosto o portal Devolutivas, que vai explicar os resultados da Prova Brasil. O site disponibilizará os itens da prova com comentários e explicações sobre o que o aluno errou ou acertou. O portal foi apresentado hoje (16-7) pelo presidente do Inep, Francisco Soares, no 15º Fórum Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação” .

De acordo com o Inep, a plataforma mostrará os resultados da Prova Brasil tal como divulgado no boletim da escola, ou seja, será possível selecionar a escola e visualizar em um gráfico a distribuição dos alunos nos níveis de proficiência de cada área ou etapa avaliada. Também será possível comparar essa distribuição à de escolas similares” – diz o site da UNDIME.

O mais chocante é como o presidente do INEP não se sente “accountable” por apresentar suas políticas com transparência para o debate com os educadores profissionais, mas exige e desenvolve políticas de “accountability” para os professores e gestores das redes educacionais do país.  É hora de que também os gestores da educação nacional sejam responsabilizados pelas políticas que colocam em prática e pelos seus efeitos. Isso começa com a apresentação delas ao público especializado.

Durante o debate coloquei claramente uma questão ao Presidente: diga-nos em que país a utilização das ideias de responsabilização e meritocracia – e suas políticas de controle por bases de dados – reduziram a desigualdade. A questão ficou sem resposta.

Vem aí, portanto, o portal das devolutivas. Como sempre, mais pressão sobre o professor e sobre a escola, a título de corrigir injustiça social para com os pobres, mas a partir da escola e não das próprias políticas públicas dos governos. Para o INEP, o enfrentamento das desigualdades educacionais se dá por portais eletrônicos com informações que são divulgadas à sociedade e tornam transparente os resultados obtidos pela escola.

E depois da montagem de um portal que divulgará toda a posição da escola na Prova Brasil, temos que ouvir do Presidente do INEP que ele é contra colocar o IDEB na porta das escolas como queria Ioschpe. Entende-se agora porquê. De fato ele montou um esquema de divulgação muito mais sofisticado e elaborado do que uma tabuleta na porta da escola. De fato, ele não precisa da tabuleta. Ele construiu uma “tabuleta eletrônica” com muito mais informações sobre cada escola.

Para o INEP, há que “se buscar pedagogias apropriadas para os grupos mais vulneráveis” e a “inexistência de uma base nacional comum é uma fonte geradora de desigualdades”. Como se vê, há uma internalização da desigualdade social em uma desigualdade escolar a qual deve ser enfrentada com uma pedagogia apropriada e uma base nacional comum. A desigualdade social virou desigualdade escolar a ser combatida dentro da escola, independente dela continuar sendo produzida no interior da sociedade em que o aluno vive. Nisso não há nenhuma divergência com o documento da Pátria Educadora da SAE. Também não difere da posição de outros reformadores.

Reproduzo abaixo um exemplo da “interpretação pedagógica” que estará chegando logo mais em agosto aos professores das nossas escolas:

Comentário Pedagógico: “O item apresenta uma tabela simples, com duas colunas, que mostra o resultado de uma pesquisa realizada por uma professora em sua turma sobre a preferência dos alunos por um dos quatro times de futebol apresentados. Para responder corretamene à pergunta o participante da prova precisava localizar na tabela a linha referente ao time de futebol citando na comanda (a equipe esportiva Bons de Bola) e verificar na coluna que tem como título Número de alunos, quantos dos pesquisados votaram no referido time.
O percentual de acertos na questão (gabarito D) é considerado bastante alto 84%. O nível do item na escala de proficiência é 150. Dentre os alunos que estão nesse nível houve a confirmação empírica de que a probabilidade de acerto do item é praticamente de 80%. A partir do nível 275 da escala de proficiência, 100% dos respondentes acertaram o item. De modo geral, no teste, 98% acertaram a questão, enquanto dentre os estudantes com pior desempenho, 58% escolheram a opção correta. A discriminação do item foi, portanto, alta (98% – 58% = 40%).
Observando o gráfico de proporção de respostas, vê-se que já a partir do nível 125 da escala o gabarito se torna a opção de resposta preferencial dos alunos. Os que marcaram as alternativas incorretas podem ter feito escolhas ao acaso ou então demonstraram não conseguir ler as informações apresentadas em uma tabela simples. Já aqueles que acertaram a questão provavelmente conseguiram reconhecer e ler o dado referente ao número de alunos que têm como preferência o time Bons de Bola. Houve uma boa correlação entre o desempenho no teste e o acerto do item, ou seja, os alunos que tiveram bom desempenho na prova como um todo acertaram a questão e os estudantes com mal desempenho erraram. Este item está no nível que autores como Curcio (1987) costuman denominar de “leitura de dados” no qual se requer a simples leitura das informações apresentadas, sem que seja necessário realizar a posterior interpretação das mesmas.”

Vamos ter que aguardar o lançamento do portal para poder ver no que consiste já que o Presidente do INEP nos sonegou tal informação. Mas pelas informações apresentadas na UNDIME, note-se que em nenhum momento se fala em disponibilizar na análise pedagógica o nível socioeconômico da escola ou de outras variáveis que afetam o trabalho da escola e do professor. O texto está “higienizado” das variáveis externas da escola que somam quase 60% da explicação das diferenças entre os estudantes.

Lamentável, portanto, que os educadores venham a ser os últimos a saber.

Lamentável que o INEP não se disponha a debater com os educadores profissionais as suas políticas financiadas com fartos recursos das fundações privadas.

Lamentavel que o INEP se proponha a ampliar o controle sobre as nossas escolas a partir de “big data” ou melhor “big brother” criando tabuletas eletrônicas que rotulam escolas e que poderão no futuro ser usadas cada vez mais para constranger os diretores e professores das escolas públicas brasileiras.

Esta é a concepção que o INEP tem sobre como melhorar a educação brasileira e que ele nega que seja uma concepção liberal, uma concepção ligada aos reformadores empresariais da educação.

Depois disso, só nos resta acreditar que papai noel também existe.

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INEP: a dupla negação do Presidente – I

 Durante o V Seminário de Educação Brasileira promovido pelo CEDES na Unicamp compus uma mesa com o presidente do INEP. Fui para o evento muito interessado em discutir a política educacional do INEP, seus fundamentos e consequências, em entender como está pensando os processos de avaliação e outros aspectos que sabemos estão em curso. Estamos assistindo a uma mudança no paradigma de controle da educação nacional via avaliação, baseada, agora, cada vez mais em plataformas de alta tecnologia. Tudo isso era matéria interessante para debate.

Para minha surpresa, o presidente do INEP não trouxe para o seminário nenhum aspecto da política nacional de avaliação em execução no INEP. Substituiu-a por um conjunto de conceitos seus sobre “desigualdade”, “justiça social” etc. Para o Presidente, o conceito de equidade precisa ser substituído pelo de “desigualdade”. Para ele, “inclusão, desigualdade e qualidade são agora pauta da educação por um amplo acordo internacional”. Ora, nós educadores, estamos brigando por isso há meio século pelo menos.

A análise apresentada por ele começa com a desigualdade social, mas rapidamente interioriza esta desigualdade na escola e a partir daí seu conceito perde conexão com a desigualdade social real e se converte em desigualdade escolar.

Não é preciso muito esforço para se perceber onde vai a análise. Por esta via, a desigualdade se torna uma questão de justiça social e se transforma mais adiante em base para as políticas de controle da escola de forma a corrigir esta falta de justiça social, bem ao sabor das propostas dos reformadores empresariais da educação.

Como bem coloca Ravitch:

“Concordo em que os professores fazem uma diferença enorme na vida das crianças, mas eu quero que ele reconheça que o jogo está contra as crianças pobres. É marcado pelas circunstâncias, e é marcado pela dependência obsessiva de nossas escolas por testes padronizados. Testes padronizados são baseados na curva normal. A curva normal não produz igualdade de oportunidades educacionais. Ela favorece a vantagem [dos mais favorecidos] sobre os menos favorecidos. Nós, como sociedade, temos a obrigação de fazer algo sobre isso.”

A injustiça social a que se refere o Presidente do INEP e à qual é submetida a criança antes de entrar na escola, vira, no entanto, um indicador de Nível Sócio Econômico, e não raramente é usado para mostrar que existem algumas escolas de nível socioeconômico baixo que têm desempenho alto. Ou seja, transforma-se em seu oposto: ao invés de ser colocada como um condicionador da escola que exige a mobilização de outras políticas públicas, vira um argumento contra a escola pública e seu magistério.

Ora, esta é a linha de análise do pensamento educacional liberal que acredita na redenção da miséria pelo acesso à educação e pelo esforço pessoal. Os liberais (base ideológica dos reformadores empresariais) isolam o direito de aprender dos demais direitos, já que como mercadores de ilusão seu trabalho se destina a convencer que pelo acesso a uma educação de qualidade, ou seja, pelo direito à educação, os demais direitos chegarão com o tempo, pelo esforço pessoal, vale dizer, pelo mérito que advém de tal esforço.

Para os liberais, a diferença de resultados entre as crianças é esperada, pois as pessoas são naturalmente diferentes. O liberal não pode admitir igualdade de resultados, somente reconhece a igualdade de oportunidades. Para eles, seria até autoritário querer que todas elas tivessem desempenhos iguais. O que não é dito, no entanto, é que estamos falando de ensino básico (não de opção profissional) e que os resultados da aprendizagem apesar de poderem ser diferentes devido às diferenças naturais que existem entre as pessoas, no caso das diferenças de resultados das crianças na escola de hoje elas são fundamentalmente devidas às desigualdades sociais que não têm nada de naturais. Há mais de 40 anos Benjamin Bloom formulava suas teses de “domínio integral da aprendizagem”. E Bloom não era nenhum  autoritário que desejasse padronizar as criancinhas.

Isso significa que para garantirmos que somente as diferenças naturais afetem os resultados de aprendizagem das crianças, como seria correto, é preciso igualmente impedir que elas sejam desiguais no início da escolarização por motivo de suas condições sociais. Sem esta garantia, as desigualdades escolares correm o risco de, mesmo quando oriundas de fatores sociais, serem atribuídas às diferenças naturais entre os seres humanos – naturalizando-se as diferenças sociais como diferenças naturais das crianças.

Na primeira negação, o Presidente sonegou a política do INEP, na segunda sonegou sua posição como reformador empresarial da educação. Ele não se reconhece nem como liberal e nem como reformador. Ele se considera um simples batalhador da justiça social.

Continua.

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Mercado de ilusões

Na ilusão de que mais provas significam melhor acompanhamento do aluno e melhores resultados, tanto a Prefeitura de São Paulo como o Estado de São Paulo vão ampliar as provas durante o ano (veja aqui e aqui). Há uma “dificuldade” com nossos dirigentes: 1) entender que ninguém melhor do que o professor, em sua atividade regular de sala de aula, sabe como está o desenvolvimento de cada aluno; 2) e que não basta identificar o problema que o aluno está tendo, mas é preciso ter condições objetivas para intervir na sua formação, ou seja, só para começar, precisa ter menos alunos em sala de aula e mais dedicação a uma mesma escola, ao invés de ser um “professor borboleta” dando uma horinha de aula aqui e outra acola em escolas diferentes, relacionando-se ao final da semana com mais de 500 alunos.

Isso para começar, porque as condições não param por aí. No entanto, preferem-se as medidas de curto prazo que, em verdade, são ilusões temporárias fadadas ao fracasso ou a melhorias pontuais sem sustentação.

Em especial o Estado de São Paulo está há anos nesta patinação geral atrás de medidas de impacto. Hoje também a Folha divulga entrevista de Maria Alice Setubal criticando a adoção de bônus para professores.

O foco na prova (com ou sem meritocracia) leva a maior gasto de tempo com esta atividade e sua conversão em uma ação destinada a “preparar para a prova” e não a ensinar. É o acompanhamento do professor (e para isso não pode ter 40 alunos) em sala que faz a diferença na identificação do problema e na atenção a ser dada ao aluno.

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USA: para onde vai o Brasil?

“As escolas públicas [americanas] estão em meio a uma guerra pelo seu controle – e até mesmo a própria instituição da educação pública está em perigo. Há uma espécie de assalto na forma de pinça em andamento, com bilionários na extrema direita empurrando para a completa desregulamentação, e outros, como a Fundação Gates, procurando o controle sistêmico de cima para baixo de todas as escolas públicas do país.

No lado “anti-governo”, bilionários como os irmãos Koch e família Walton querem transformar a escola em um mercado livre com financiamento público aberto a todos, onde virtualmente qualquer um que queira pode configurar uma escola e ensinar o que quiser. Essa filosofia está resultando em dinheiro através de vouchers indo para escolas que usam a Bíblia como uma fonte no ensino sobre as origens da vida na Terra. O American Legislative Exchange Council desenvolveu uma legislação às vezes chamada de “Bolsas de Estudo de oportunidade” que dão aos pais créditos fiscais que podem ser aplicados ao ensino da escola particular ou paroquial. Esta semana, Nevada se tornou o mais recente estado a adotar esse modelo, tão pronto permitindo que os dólares de tributos possam fluir para qualquer escola que o pai escolha tirando fundos das escolas públicas. A desregulamentação está se estendendo para a profissão docente também. Em Wisconsin, regras recentemente propostas poderão permitir que alguém ensine independentemente do seu nível de educação, contanto que eles tenham “experiência relevante.”

No lado “pró-governo”, as Fundações Gates e Broad têm trabalhado em estreita colaboração com a administração de Obama e os sindicatos de professores para fazer avançar o Common Core [a base nacional comum] e testes alinhados como o novo sistema de prestação de contas que irá religar nossas escolas e transformar nossas salas de aula em “soquetes” uniformes para os sistemas de aprendizagem de base tecnológica. Com a sedução das subvenções do Race to the Top e ameaçando a perda do fundos federais, o Departamento de Educação federal tem forçado a maioria dos estados a adotar o Common Core. Por razões semelhantes, muitos estados já obrigam a inclusão dos resultados dos testes em avaliações dos professores, embora estes sistemas sejam irracionais e injustos. O caso Vergara na Califórnia diabolicamente colocou os interesses dos alunos contra os professores, afirmando que as proteções de estabilidade no emprego dos professores interfere com a capacidade dos alunos de obter uma boa educação.”

Este é o dilema da educação americana que se debate entre estas duas vertentes dos reformadores empresariais. Uma que pretende autonomizar o sistema de educação em relação ao governo e sua completa desregulamentação e outra que pretende o controle tecnológico das escolas de cima para baixo via uma ação associada ao governo americano.

No Brasil tudo indica que a vertente que procura deter o controle da educação seguirá pela segunda versão, ou seja, a linha de controle pela base nacional comum associada a “big data” e “alta tecnologia” articulando soluções on line de avaliação e aprendizagem individualizada. O INEP já desenvolve ações de construção de “big data” e avaliação on line e contará com apoio para ir na direção da disponibilização de recursos tecnológicos ao nível de aprendizagem associados à avaliação on line.

O documento Pátria Educadora da SAE também vai nesta direção, criando as condições de controle sobre os estados e municípios que levarão a algo muito próximo do Race to the top americano – indução para a aceitação das soluções de base tecnológica que serão criadas.

Você pode ler mais sobre a situação dos Estados Unidos (em inglês) aqui em excelente resumo de Anthony Cody.

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