Hélio Schwartsman, especialista em tudo, aborda hoje (16-01-15) na Folha de SP o tema do ENEM, mais precisamente, a redação no ENEM. Vejamos a conclusão a que chega Helio: 529 mil alunos (entre quase 7 milhões) que fizeram o ENEM, zeraram na redação. 53% nem escreveu texto algum. Os outros foram mal. Como algumas instituições privadas não usam a redação na composição da nota de ingresso, deixando fora do cálculo a redação, a explicação para isso é que os alunos mais sábios e que perceberam esta situação estão deixando de fazer a redação, e já que 250 mil alunos (em 7 milhões) adotam esta estratégia, a solução Hélio seria eliminar a redação do ENEM e ficar só com as provas objetivas. Agrega ele: seria mais barato, pois não teria que contratar um batalhão de corretores de redação e de quebra o resultado sairia mais rápido.
É a redação que atrapalha, estúpido…
Mas não é tudo. Ele já pensou mais além, na reação à sua proposta de retirada da redação do ENEM. Segundo o autor, não devemos nos preocupar: os pedagogos gostam da redação e até admite que ela é um bom instrumento de medição, mas… há um preço alto a pagar: a correção de 5 milhões de dissertações de modo objetivo. A perda com a retirada da redação não será nula diz, porém, “é administrável”. Primeiro porque há uma “correlação entre o desempenho em testes de múltipla escolha e a capacidade de expressão verbal” (sic), segundo porque a retirada da redação “não significaria a morte da escrita” pois a vida de estudante “oferece inúmeras e melhores oportunidades para provas dissertativas”. Pronto, tudo resolvido. Ou seja, nivelemos por baixo, pensemos pequeno, ao sabor das minorias que operam pela ‘lei de gerson” e das instituições menos exigentes. É assim que se constrói uma educação de qualidade…
Nada como ser ignorante em um assunto e ter o poder da pena em um jornal de grande circulação. Pode-se falar sem ter que demonstrar nada. Às favas o conhecimento científico. “Opinião” vira recomendação de política pública.
A questão não é se avaliar é caro ou barato, mas qual é nosso conceito do que seja uma boa educação para nossa juventude, que oriente as escolas e os processos de avaliação, pois sabemos que os exames criam tradição e repercutem sobre os currículos das escolas e sobre o esforço de professores e estudantes. Boa parte das vezes, esta repercussão é negativa ou produz estreitamento curricular. A pouca repercussão positiva que a redação teria, obrigando os alunos a lerem, por exemplo, quer agora ser retirada. Para Helio, boa educação é sair-se bem em provas objetivas fazendo “x”.
Que haja correlação entre a parte de testes objetivos e expressão verbal na prova de redação diz muito pouco. Além disso o ENEM reúne habilidades multidimensionais e usa uma TRI unidimensional. Ninguém quis ainda abrir esta caixa preta, mas quando ela for aberta, não quero estar por perto… Há também um modelo de TRI multidimensional, mas ele não é usado no INEP e nem facilita o ranqueamento que é o objetivo de uma seleção – função atual do ENEM. E se Helio quer medir expressão verbal em provas de matemática ou ciências naturais, teria que usar pelo menos TRI multidimensional e não correlação estatística. Hélio comete o erro de acreditar que testes unidimensionais podem medir “objetivamente” habilidades multidimensionais em uma mesma prova.
A solução simplista é tirar a redação pois é muito caro avaliar dessa forma. Fiquemos só com os testes objetivos e baratos. Ou seja, se estamos fazendo bobagem, a recomendação do especialista é: façamo-la completa.
Adicione-se que o ingrediente fundamental, hoje, do avanço de um país (inclusive economicamente) é a criatividade, mãe da inovação. A redação é a única prova do ENEM que permite ao aluno exercitar um pouco esta habilidade, e Hélio quer retirá-la.
As demais provas são escolha entre alternativas e ao que se saiba, fazer “x” em provas não favorece a criatividade. Ao contrário, a grande preocupação dos americanos depois de dopar as suas crianças com testes é essa: são treinados a fazer “x” em testes e mais testes para os quais se preparam em simulados burros. Estão emburrecendo junto. E o alerta já foi dado por Levin:
“Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”
A teoria da medição com testes alerta há muito tempo que os testes são limitados. Os testes não podem avaliar tudo e são obrigados a fazer escolhas. Portanto, cuidado com o uso. Uma das razões pelas quais os testes não podem avaliar tudo é que seria custoso demais e muito demorado para o aluno responder. Teriam que ficar dias e dias durante o ano fazendo testes.
Mas o pessoal da “teste-mania” quer medir com testes “objetivos” grandes áreas do conhecimento, embora “não a qualquer preço!”. Mesmo admitindo-se a medição de competências e não de conteúdo com a ajuda da TRI, a amplitude de um teste é sempre amostral. O antigo SAEB resolvia isso fazendo vários cadernos diferenciados que eram respondidos por amostras diferentes de estudantes. Nem todos respondiam o mesmo, e a amostragem de habilidades e competências envolvidas podia ser maior. Porém, este formato teve que ser substituído por uma prova igual para todos para propósitos de seleção para as universidades. Com isso o ENEM ficou esquizofrênico: a prova tem que servir tanto para selecionar para a universidade, como para avaliar o ensino médio. E um erro leva a outro.
Como afirma Ravitch:
“O mais importante nas próximas décadas é a extensão em que vamos cultivar a criatividade, a engenhosidade, a curiosidade, a inovação e formas de pensar de forma diferentes. Estas qualidades têm produzido a genialidade da cultura americana. Essas características não são medidas por testes padronizados. Os alunos que aprendem a selecionar quadradinhos em uma questão de múltipla escolha não serão os inventores e inovadores do futuro”. Veja aqui.
